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2025/10/20

Com Burkas e dolos, se enganam os tolos...

Grupo nacionalista faz 'passeata Ku Klux Klan' contra entidade antirracista  em Lisboa - 11/08/2020 - Mundo - Folha

Os "cheganos" são uns cómicos.

Mais um não-assunto, levado à votação na Assembleia da República, pelo tele-evangelista de serviço.

É sempre comovente ver fascistas "preocupados" com a emancipação das mulheres muçulmanas, eles que não "mexem uma palha" para criticar a violência de género em Portugal: 22 mulheres assassinadas e 11.900 ocorrências em 2024, uma das maiores percentagens europeias (dados da APAV). 

Também nunca os ouvimos falar dos milhares de imigrantes que, diariamente, dormem nos passeios em frente às instalações da AIMA, enquanto esperam uma senha para regularizar a sua situação. 

Os mesmos imigrantes, a quem é recusada a reunificação familiar, enquanto não obtiverem uma licença de estadia (o que pode demorar anos), mas que, entretanto, trabalham nos mais diversos sectores e descontam para a Segurança Social (3,6 mil milhões de euros em 2024). Descontos esses, que permitem equilibrar as contas e ajudam a pagar as pensões dos portugueses. 

Também nunca os ouvimos criticar a obtenção de "vistos gold", concedidos a estrangeiros ricos, especialidade do tele-evangelista, no tempo em que era um simples fiscalista, sem ambições messiânicas.

Uma cambada de hipócritas, os fascistas portugueses do Chega, ou não fossem inspirados pelas seitas evangélicas que os apoiam.

Depois de uma derrota copiosa nas últimas eleições autárquicas, nada como arranjar um "fait-divers" que distraia os portugueses dos seus reais problemas. A (falsa) questão, dos trajes femininos das seguidoras do Islão, foi o argumento encontrado para criar um projecto-lei, que nos defenda da violência terrorista (!?). 

A partir de hoje, esperamos que as "brigadas de costumes", a exemplo dos zelotas de Kabul, intervenham junto das "prevaricadoras" e, já agora, alarguem o controlo aos membros das claques desportivas e aos grupos nazis, especialistas em esconder rostos. Sim, porque nestas coisas, ou há moralidade ou comem todos...

2024/06/08

Eleições à porta, trancas nas janelas...

Em dia de reflexão, mais do que apostar nos partidos concorrentes, importa saber para onde vai a Europa em tempos de turbulência. 

Depois de uma campanha morna, onde os maiores partidos apostaram em equipas renovadas e os pequenos partidos procuraram manter os deputados que restam, não será difícil fazer prognósticos.

Assim, na noite eleitoral, teremos dois "vencedores" absolutos (Chega e IL) que, pela primeira vez, terão representantes no parlamento de Estraburgo; dois partidos que podem vencer estas eleições (AD e PS) e os restantes partidos, que podem (ou não) conseguir um deputado (BE, CDU e Livre). Aparentemente, o PAN será o único partido que não deverá eleger qualquer representante. 

A acreditar nas sondagens, os 21 lugares de Portugal no Parlamento Europeu, poderão ficar distribuídos da seguinte maneira: 7 deputados para o PS, 6 deputados para a AD, 3 deputados para o Chega, 2 deputados para a IL, 1 deputado para o BE, 1 deputado para a CDU e 1 deputado para o Livre. Caso os pequenos partidos não consigam eleger deputados, os votos remanescentes reverterão para os maiores partidos e, nesse caso, o PS poderá ter 8 deputados, a AD 7 e o Chega 4, restando 2 lugares por distribuir, provavelmente para a IL.

A confirmar-se esta distribuição de lugares, poderemos concluir que houve uma deslocação de votos para o centro do espectro político ("voto útil" nos partidos europeístas), em detrimento de votos nos partidos nacionalistas e eurocépticos. Não há grandes novidades aqui, já que a taxa de aceitação da União Europeia em Portugal é das maiores da UE (fundos generosos e oportunidades de emprego no espaço europeu), ao contrário do que acontece em muitos países do centro e norte da Europa, onde o sentimento anti-federalista é maior. 

Foi entre estes "dois mundos" que a campanha eleitoral, se desenrolou: uma primeira semana, onde a política nacional e os ataques pessoais dominaram os comícios; e uma segunda semana, onde os problemas europeus ganharam relevo, devido às guerras em curso (Ucrânia e Gaza) e à Lei Europeia das Migrações, recentemente aprovada e subscrita por Portugal.

Se os problemas nacionais (saúde, educação, habitação, justiça...) são temas centrais em todas as eleições, a "Europa", parece não interessar muito ao português médio, já de si pouco informado e nada internacionalista. 

Sim, as guerras são um "horror", mas são lá longe e quem morre são os estrangeiros ou os "árabes" (uma categoria à parte), pelos quais não podemos fazer muito. Organizamos umas colectas à porta da igreja e no Banco Alimentar, enviamos uns camiões com medicamentos e fornecemos material militar caduco para combater os "russos". Sobre a posição de Portugal em conflitos armados no continente (do qual fazemos parte) seguimos a "cartilha" de Washington e Bruxelas ou, na melhor das hipóteses, escutamos os generais na reserva, que pululam diariamente nos estúdios de televisão e analisam o "avanço das tropas". Compreende-se: depois da última campanha a sério (guerra colonial em África) nunca mais tiveram oportunidade de mostrar os seus "dotes". A maior parte morreu ou reformou-se e, os que ainda restam, limitam-se a traduzir em linguagem popular os "briefings" dos quartéis-gerais da NATO. Porque a guerra não acaba nunca (o que seria da industria do armamento sem guerras?) os mais belicosos lembraram-se de sugerir o regresso do SMO (serviço militar obrigatório, para quem não sabe). Ora, aí está, a solução para todos os problemas! Ninguém fala em paz, mas todos acreditam na guerra, Vão mesmo mais longe, pois dizem que para conquistar a paz, temos de fazer a guerra ("pax romana", para quem não sabe). Uns cómicos, estes generais e políticos tristes.

Para além da guerra, questão central nestas eleições, o problema das migrações foi outro tema discutido na campanha. Portugal não é excepção, uma vez que se tornou um país de imigrantes nas últimas décadas, sem que a situação legal de grande parte destes trabalhadores tenha sido resolvida. De acordo com os números, fornecidos pelos serviços respectivos, existirão cerca de 400.000 processos pendentes na AIMA (ex-SEF), alguns dos quais aguardam anos (!?) para serem processados. Ou seja, estes imigrantes esperam por uma autorização oficial, que garanta a sua permanência, mas entretanto trabalham, descontam para a segurança social, têm os seus filhos na escola, mas estão ilegais!

Por que é que isto acontece? A explicação mais óbvia é a burocracia existente, um mal que não conseguimos erradicar e da qual os nacionais também padecem. Depois, a falta de organização congénita, num país "habituado" a emigrar, mas que só há poucos anos se viu confrontado com o fenómeno da imigração. Faltam estruturas de apoio especializadas, nomeadamente nos grandes centros urbanos, que são aqueles onde há mais imigrantes. Acresce que estes "novos" imigrantes são oriundos de países que não pertencem ao espaço "Schengen": entram por via terrestre, não falam a língua, desconhecem as leis laborais e são aliciados por intermediários (redes mafiosas) para trabalhar em serviços não qualificados, a maioria na agricultura, na hotelaria e na restauração, onde são sujeitos a regimes de exploração terceiro-mundistas. Muitos vivem em condições de habitação deploráveis e já fazem parte da população dos sem-abrigo, uma situação diariamente denunciada pelos órgãos de comunicação social, que nenhum governo pode ignorar.

É neste "caldo cultural", que crescem os partidos racistas e xenófobos, como o Chega e o ADN (de inspiração evangélica), que passaram a campanha eleitoral a falar da situação dos imigrantes, eles que nunca se preocuparam com a sua exploração! A demagogia dos populistas parece ter dado frutos, dado que o actual governo, certamente assustado com as sondagens, resolveu decretar uma lei proibindo a imigração temporária, para quem não tenha um contrato de trabalho adquirido no país de origem. Solícito, o presidente da república aprovou-a em 24h! Extraordinário. Desta forma, o governo, que já tinha um problema, criou outro: continua sem resolver a legalização de 400.000 imigrantes residentes e não poderá impedir a entrada da imigração ilegal, que continuará a chegar através dos "passadores" habituais. Ou seja, os ilegais deixam de entrar pela porta e passam a entrar pela janela...  

Restam as eleições, propriamente ditas. Amanhã, saberemos os resultados. Porque estas coisas estão todas ligadas, não haverá surpresas. Surpresa, seria, se as políticas europeias mudassem...

2023/06/06

Taxi Driver (27)

Então, para onde é ida?

- Para a Avenida General Roçadas.

Tem preferência pelo caminho?

- Não, vá para onde achar melhor...

Eu pergunto sempre ao cliente. O cliente é que sabe...

- Quem apanha um táxi, normalmente, tem pressa. Se fosse a si, escolhia o caminho mais rápido...

Bom, então vamos pelo túnel do Campo Pequeno. Sempre evitamos o centro da cidade.

- Muito bem. 

Isto, está cada vez pior. É trânsito por todo o lado. Já não há horas de ponta. 

- Tem toda a razão. O centro da cidade não cresceu e cada vez há mais carros. São 400.000 a entrar e a sair todos os dias...

Se fossem só os automóveis. E o resto? Os "tuk-tuks", as trotinetas, os "ubers" guiados por estrangeiros que não conhecem as regras de trânsito e nem sequer falam português... 

- Sim, isso tudo junto. Não esquecer os turistas, claro, que descobriram Portugal e já não vêm só no Verão, Agora, vêm todo o ano. Só no primeiro trimestre, foram quase 5 milhões. Isto dá uma média de 20 milhões ao ano. O dobro da população portuguesa!

Está a ver! Tenho ou não tenho razão? Eu não sei onde é que vamos meter 1 milhão de pessoas quando cá vier o Papa...

- Espero não estar cá nessa semana. Vou de férias, para o estrangeiro...

Faz o senhor muito bem. Quem me dera poder dizer o mesmo, mas temos de aproveitar o Verão...

- Claro. Há que aproveitar. Esta cidade está cada vez mais virada para o turismo. A "baixa" mais parece uma feira. Isto está bom é para a hotelaria, para a restauração e para os táxis...

Sabe, eu estou com muito medo da visita do Papa. Vamos receber mais de um milhão de pessoas e cada vez há mais paquistaneses e indianos em Portugal. Não lhe parece estranho?

- Estranho? Nunca reparei nisso, mas é verdade que cada vez há mais imigrantes e isso, em si, não é mau.

Sim, mas uma coisa são brasileiros e africanos, que são católicos e outra são paquistaneses, que são contra o catolicismo. Cada vez há mais taxistas de turbante a guiar. Nem sequer falam português. Só inglês. Como é que esta gente pode guiar em Portugal? Cá para mim, eles compram a carta de condução e depois andam no trânsito e não conhecem a cidade...

- Ouvem-se muitas estórias dessas, mas não há provas. Além disso, todos os taxistas têm de fazer um curso, exames. Os taxistas não podem guiar sem carta. 

Mas, eles têm carta. Diz-se que vão tirá-la a Itália, que é mais barato e mais fácil e depois vêm para aqui trabalhar. Cá para mim, estão a preparar alguma...

- Não acredito nisso. Acha mesmo que estão a preparar algo? Ou só querem trabalhar onde pagam mais? Não se esqueça que, nos países donde vêm, ganham ainda menos do que em Portugal, onde já se ganha pouco. Além disso, vai haver muito controlo policial nesses dias. Será difícil fazer um atentado...

Difícil não é. Não tem de ser ao Papa. Pode ser contra os peregrinos que vão estar cá. Eles odeiam os católicos...

- Não acredite nisso. A maior parte dos crentes, sejam católicos, muçulmanos ou de outras religiões, são gente pacifica que vem para cá trabalhar, porque nos países deles não têm trabalho. Por isso é que as pessoas emigram. Como nós fazíamos há 50 anos atrás. Não se esqueça que somos um país de emigrantes. Ainda bem, que estamos a receber imigrantes. Se não forem eles a fazer os trabalhos, que nós não queremos, quem os fará? O problema é que muitos deles acabam por ir embora ao fim de pouco tempo, porque não ganham o suficiente e preferem ir para Inglaterra ou para outro país do Norte da Europa, onde podem ganhar mais. Portugal, para a maior parte dos asiáticos, é apenas um ponto de passagem. Era bom que cá ficassem, era...

Não sei, não sei. Eu cá não confio muito. Cada vez há mais problemas com os paquistaneses. Não viu a reportagem da CMTV? 

- Há canais que nunca vejo. Esse, por exemplo. Nos canais que costumo ver, as reportagens sobre estrangeiros imigrantes só mostram a miséria e a exploração em que vivem. Por exemplo, paquistaneses e nepaleses, nas estufas de Odemira. Já viu em que condições é que vivem? Trabalham de sol a sol, na apanha de morangos e de mirtilos. Ganham 2,5 euros à hora, dormem em colchões por turnos e ainda pagam 100 euros cada! Isto, sim, é uma vergonha, mas ninguém se preocupa com a situação. Ninguém vê, portanto não existe...   

Pois, também já ouvi falar nisso, mas nunca fiando...

- Bom, já chegámos. Pode parar por aqui. Quanto devo?

São 10 euros e 25, mas não tenho trocado. Paga só 10 e um dia dá-me o resto...   

2022/02/21

Portugal: uma relação difícil com migrantes

 foto Gérald Bloncourt

Como se não bastasse o "chumbo" do Orçamento de Estado para 2022, que conduziu à convocação de eleições antecipadas que ninguém desejava, Portugal vê-se confrontado com um novo (e inesperado) problema: o da repetição da votação do Círculo Eleitoral da Europa, destinado a eleger dois deputados para a Assembleia da República.

A necessidade da repetição decorre da ilegalidade detectada na contagem dos votos enviados por correspondência, o que levou vários partidos a recorrerem ao Tribunal Constitucional. O conteúdo de envelopes de votos, que chegaram sem fotocópia do cartão de cidadão, foi misturado com o conteúdo de outros que se faziam acompanhar, como manda a lei, por uma prova de identificação do eleitor. 

Recordemos: nos dias 8 e 9 de Fevereiro, as mesas de apuramento dos resultados, confrontadas com uma queixa do PSD sobre a legalidade da votação, tiveram entendimentos diferentes, sobre aceitar ou não como válidos os votos sem cópia do documento de identidade. Perante esta dúvida, a mesa do Círculo de Fora da Europa, indeferiu a queixa do PSD (decidindo aceitar todos os votos) e a da Europa recusou-os. Ou seja, os votos com fotocópia do Bilhete de Identidade foram misturados com os votos sem fotocópia e votos "maus" contaminaram os "bons". Resultado: toda a votação das 139 mesas espalhadas pelos países europeus acabou anulada e o Tribunal Constitucional mandou repetir o acto eleitoral nos dias 12 e 13 de Março. Uma trapalhada inadmissível, que reflecte a irresponsabilidade dos partidos (todos!) com assento na AR, que preferiram um "acordo de cavalheiros" (!?) à alteração da Lei Eleitoral, que podia ter sido feita após 2019, quando foram detectados problemas semelhantes nas últimas eleições. Em 2019, foram anulados 30.000 votos da emigração e, este ano, 157 000 votos! Um escândalo.

Consequências imediatas: enquanto os emigrantes do Círculo da Europa não votarem, a atribuição dos dois lugares disponíveis na AR, não poderá ser concluída, pelo que o governo não poderá ser nomeado. Contas feitas, a contagem dos votos só estará concluída na segunda quinzena de Março, pelo que o governo (PS) só poderá tomar posse em Abril. Até lá não haverá Orçamento de Estado (chumbado em Outubro) e o governo (em gestão), terá de governar com duodécimos (só pode gastar 1/12 do OE em cada mês). Sem governo e orçamento aprovado, os salários, pensões de reforma e outros apoios sociais, ficarão suspensos e só serão pagos (retroactivamente) em Maio. Ou seja, perante este calendário, o OE2023 nunca será apresentado e discutido antes de Junho ou aprovado antes de Julho! Pior, era impossível. 

Resta saber se os emigrantes da Europa, que viram os seus votos invalidados, estarão na disposição de votar de novo, depois desta triste experiência que nos devia envergonhar a todos. 

Mas não são apenas os emigrantes portugueses que se podem queixar da forma como são tratados pelo governo. Também os imigrantes que escolheram Portugal para melhorar as suas condições de vida (no fundo a razão última da migração para outros países) são confrontados com a burocracia e a exploração a que são submetidos em muitas zonas do país. É o caso dos imigrantes oriundos de países asiáticos  (bengalis, nepaleses, indianos, paquistaneses, mas também brasileiros) que trabalham em condições deploráveis nas estufas do Sudoeste alentejano. 

As más condições de trabalho nas explorações agrícolas em Odemira não são uma novidade. A novidade aqui é que houve 300 trabalhadores que perderam o medo e foram pedir explicações à administração, no fim da jornada de trabalho.   

Em 2021, as más condições em que imigrantes trabalhavam ou estavam alojados, nas próprias instalações de algumas grandes empresas, motivaram reacções quando um surto de Covid-19 entre os trabalhadores trouxe a realidade laboral em Odemira, para as primeiras páginas dos jornais. Desta vez foi diferente. As queixas fizeram-se ouvir pelos próprios trabalhadores: "No dia 11 de Janeiro, no final da jornada de trabalho, Birat Khatri (Nepal) e largas dezenas de trabalhadores dirigiram-se aos escritórios da empresa para falar com a administração. O movimento ganhou força pela visibilidade dada por uma reportagem da SIC (a estação que esteve no local refere 300 manifestantes). Neste protesto pacífico, em movimento compacto, quiseram perguntar por que motivo, para as mesmas horas de trabalho, receberam uma menor quantia no mês de Janeiro; entre 200 e 400 euros a menos consoante os casos" (in "Público" d.d.19 Fevereiro). Ainda de acordo com a reportagem, a justificação dada pela empresa foi que, a isso eram obrigados, devido a suposta aplicação de um imposto novo decidido pelo governo português (!?). Segundo Birat e outros trabalhadores, ninguém sabe de que imposto se trata e continuam à espera de uma explicação. 

Mas, há mais: "Os trabalhadores sentem-se igualmente injustiçados por nunca lhes ter sido explicado como são contabilizadas as horas; e quando contabilizados os totais, não percebem porque são retiradas quantias (apresentadas como subsídios de vários tipos) aos 6,22euros que o trabalhador julgava ser o valor líquido a receber por hora. Enquanto descrevem a situação comprovam o que dizem mostrando os recibos de vencimento" (...) "O contrato prevê um horário flexível, em que o trabalhador é convocado de véspera. Da mesma forma, pode ser dispensado, se a mensagem pretendida pelo patrão for de penalização ou intimidação" (...) "Querem que a gente ande cada vez mais depressa, a colher as bagas com movimentos de braços sem parar. Estão em cima de nós a gritar: "Mais depressa, mais depressa", conta Thapa, também napalês, disposto a protestar" (...) "É muito duro. Estamos a trabalhar num ambiente quente, dentro das estufas, e só podemos beber a água que trazemos de casa. Às vezes por mais de oito ou dez horas. Se bebemos toda a que trazemos, pedimos, mas eles não nos dão, recusam. Se protestamos, chegam a mandar-nos para casa" (...) "Quem não cumpre o objectivo de encher um determinado número de caixas numa hora, ou percorrer uma determinada distância nesse mesmo intervalo, sem deixar uma só baga na árvore, é dispensado para o resto do dia e no seguinte, segundo o testemunho de alguns trabalhadores" (ibidem). Quem é dispensado, não tem direito a transporte para casa e tem de voltar a pé, muitas vezes quilómetros, até chegarem aos contentores onde a maior parte deles habita durante metade do ano. 

Muito mais haveria para denunciar nesta história, que nos envergonha. Até ao ano passado ninguém "sabia", mas toda a gente convivia bem com esta triste e degradante realidade. Agora, toda a gente sabe e não há desculpas. Nem mesmo a do famigerado ministro Cabrita, ex-responsável pela Administração Interna que supervisionava os actos eleitorais e as autorizações de trabalho concedidas aos migrantes. Portugal, um país de (e)migrantes não pode esquecer e tratar mal os (i)migrantes que fazem o trabalho que nós não queremos fazer. Só denunciando e penalizando estas prática de negreiros, poderemos ter moral para proclamar princípios civilizacionais que devíamos tomar como referência.

 

2021/05/05

"Frutos Vermelhos" (2): Toda a gente sabe, mas ninguém faz nada...


Não há inocentes nesta história. A situação é conhecida há décadas. 

A imprensa escreveu sobre a situação, as televisões fizeram reportagens sobre o assunto, os autarcas da região sabem, a GNR sabe, a PJ sabe, a ASAE sabe, o SEF sabe, o MAI sabe e "last but not least", o governo todo, sabe. Então? Porque é que esta situação nunca foi resolvida?      

Porque as propriedades agrícolas da região (estufas e não só) dão muito dinheiro a ganhar aos proprietários dessas herdades, que continuam a comprar e a aumentar o perímetro das explorações, muitas delas criadas em regiões protegidas, sob a capa de "PINs" (Projectos de Interesse Nacional) manhosos,  autorizados através de PDM alterados, com a conivência das autarquias locais. Tudo isto já foi dissecado ao longo dos anos e qualquer pessoa, que visite a região, vê e conhece a situação. Os responsáveis políticos também e "fecham os olhos", como é habitual num país "faz de conta" (o que não se vê não existe).  

Não fora a pandemia e a necessidade de criar um "cordão sanitário" no concelho de Odemira e tudo continuaria como dantes (quartel-general em Abrantes). Uns pândegos, estes gestores da coisa pública.

E agora? Será que os responsáveis (políticos e não só) vão tomar medidas efectivas para controlar os "engajadores" e os empregadores locais, que se aproveitam desta legião de ilegais há décadas, sem que sejam punidos por isso? Será que os imigrantes ilegais (fala-se em 6.000 pessoas, num universo de 13.000 trabalhadores), vão ser legalizados para poderem continuar a trabalhar na agricultura? Será que vão passar a ter direitos iguais aos nacionais? Será que vão poder aceder a habitações condignas e deixar de viver em contentores, divididos com 4 e mais pessoas, onde a promiscuidade é total e o alojamento é descontado no salário, pelos intermediários (máfias) que trazem estes imigrantes para a Europa? Pode ser que sim. Pouca gente acredita. 

Só mesmo os portugueses, que nunca resolvem nada em tempo útil e só "acordam" para os problemas quando são com estes confrontados, parecem estar surpreendidos. Deve ser por isso, que o primeiro-ministro, mandou 4 ministros (quatro!) para a região, "mostrar a cara e dar o corpo às balas". Passou por lá o ministro da Defesa (da Defesa?), o ministro da Administração Interna (um tonto, que culpa sempre os outros pelos seus erros), a ministra da Agricultura (que ninguém sabia que existia) e a Secretária de Estado, responsável pelo Território (que teve o desplante de declarar que a situação era conhecida há anos e que já foi muito pior...). Vê-se e não se acredita. Mas, onde é que esta gente vive?...

Tudo isto aconteceu nos últimos dias e continua a alimentar a discussão nacional, em todos os canais televisivos e debates sobre o tema. Afinal, toda a gente sabia e tem uma solução para o assunto. Extraordinário.

Logo agora, que Portugal ocupa a presidência da União Europeia e vai organizar uma cimeira no Porto, sobre "Coesão Social na Europa". Azar dos Távoras. Que fazer?

Sugiro ao Augusto SS que, durante a permanência dos líderes europeus no nosso país, alugue um autocarro e leve a Merkel, o Macron e a Von der Leyen ao Sudoeste Alentejano, ver as estufas. Até já tenho um título para a excursão: "Visite Odemira, a Idade Média a 2 horas de Bruxelas!". Sucesso garantido. 

2021/05/02

"Frutos Vermelhos": A economia não pode parar...

No dia do trabalhador, nada mais obsceno do que ler e ver as reportagens diárias, sobre as condições em que vivem e trabalham os imigrantes asiáticos nas estufas do sudoeste alentejano. 

Para quem não sabe, Portugal é, a par de Espanha, um dos maiores exportadores de produtos hortícolas para a Europa do Norte. Especialmente apreciados, são os vegetais, os citrinos e os denominados "frutos vermelhos" (morangos, framboesas, etc...) que têm cada vez mais procura nos mercados internacionais e nos restaurantes do grandes "chefs". A razão, é simples: dadas as favoráveis condições climatéricas da região, que possibilitam mais de uma colheita anual, é possível manter os mercados do Norte (leia-se, países frios) abastecidos durante todo o ano, com produtos de qualidade, a preços competitivos. Até aqui, tudo bem. Onde há procura, a oferta deve adaptar-se. É "o mercado a funcionar", como gostam de repetir os adeptos do mercado livre.

Só que estas excepcionais condições, atraentes para quem compra e para quem vende, tem um senão. Só é rentável, porque assenta em condições de exploração dignas do Terceiro Mundo. 

Tomemos o exemplo das explorações de "frutos vermelhos" no Sudoeste Alentejano, onde existem mais de 100 herdades e estufas ao longo da costa, que abrangem as freguesias de Odemira, Sto. Teotónio, Almograve, Aljezur e Odeceixe. Há mais de 10 anos que funcionam, empregando, neste momento, uma população flutuante calculada em mais de 10.000 "apanhadores" sazonais. O que começou por ser um projecto de sucesso, apoiado com fundos europeus (a "Vitacress" é, apenas, o mais conhecido), rapidamente se tornaria um exemplo de más práticas laborais e ambientais, devido à sobre-exploração dos solos através de culturas intensivas, muitas delas criadas em zonas ambientais protegidas, ao arrepio dos PDM aprovados pelas autarquias da região. Nada que demovesse os proprietários locais, que descobriram ali a "galinha dos ovos de ouro". Nessa época, a maioria dos trabalhadores era ainda portuguesa. 

Após a crise económica de 2010, que obrigou mais de 400.000 portugueses a procurar trabalho noutras latitudes, os proprietários locais viram-se obrigados a contratar mão-de-obra estrangeira, disponível para trabalhos não-qualificados e sujeita a leis laborais arbitrárias, que os próprios desconheciam. Foi nesta altura em que começaram a aparecer os primeiros imigrantes de origem asiática (paquistaneses, bengalis, nepaleses e afegãos) que voltavam anualmente para fazer a temporada das colheitas. Poucos destes imigrantes residiam no país e a maior parte regressava ciclicamente na "apanha", depois de temporadas em Itália ou Espanha, onde trabalhavam em estufas similares. 

O que começou por ser um trabalho sazonal, tornar-se-ia um hábito, rapidamente aproveitado por engajadores sem escrúpulos, que angariam trabalhadores estrangeiros noutros países europeus com a promessa de trabalho certo e remunerado. O "modelo" é conhecido e praticado em toda a bacia mediterrânica, com destaque para a Itália (Saviani, no seu livro "Gomorra", fala disto) e em Espanha, onde a exploração nas estufas da Andaluzia é frequente motivo de denúncias na imprensa espanhola.

Actualmente, vivem e trabalham na região das estufas do Alentejo, mais de 10.000 imigrantes, a maior parte em regime sazonal. São trabalhadores temporários, que recebem 2,50euros por hora de trabalho (média de 400euros/mês) e que chegam a pagar por um beliche 120euros, num contentor dividido com 4 pessoas. Cozinham onde dormem, em condições sanitárias deploráveis. Muitos são ilegais e, por essa razão, não pagam segurança social. Todos eles são pagos pelos engajadores (intermediários) que gerem os salários atribuídos pelos empresários agrícolas. 

Para esta situação, que tem vindo a ser denunciada pela imprensa nacional e é do conhecimento geral, nunca foi encontrada uma solução condigna, até à semana passada. Isto aconteceu, quando o governo anunciou o fim do "estado de emergência" para todo o país, à excepção de meia-dúzia de freguesias, entre as quais Odemira, Sto. Teotónio e Aljezur. A razão, prende-se com o elevado número de contágios de Covid naquela região, muito acima da média nacional, o que fez disparar os sinais de alarme da Direcção Geral de Saúde. Porquê ali e não noutras regiões? Porque naquela zona, os contágios, devido à promiscuidade existente e à falta de condições sanitárias dos trabalhadores das estufas, são mais frequentes entre os trabalhadores e a população local com quem interagem. Porque os trabalhadores das estufas não utilizam o Serviço Nacional de Saúde, nunca são testados e raramente sabem que estão infectados. Dado o número de incidências detectado, o governo decidiu criar uma "cerca sanitária" para as freguesias mais atingidas. A partir de agora, os habitantes de Odemira e das vilas adjacentes (trabalhadores das estufas incluídos) estão impedidos de sair ou de entrar no concelho e são obrigados a um período de quarentena. Todos estes imigrantes passaram a ter direito a assistência médica gratuita e a uma habitação temporária, num complexo turístico da região, requisitado pelo governo para o efeito. 

A história não terminou aqui, dado que os proprietários da complexo turístico não concordaram com a medida governamental e recorreram para o Tribunal. Independentemente do resultado, uma coisa é certa; não fora a pandemia e, ainda hoje, os responsáveis políticos por esta vergonha civilizacional, não se tinham dignado a resolver um problema que nos devia envergonhar a todos. Há males que vêm por bem. 

No primeiro de Maio, hoje comemorado em honra dos trabalhadores, esta é a homenagem possível a todos os imigrantes que trabalham nas estufas do Alentejo.

(Imagem de Edvard Munch, Cadernos de Esboços, Punho com Martelo 1909-1910)