Mostrar mensagens com a etiqueta Marine Le Pen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marine Le Pen. Mostrar todas as mensagens

2018/08/15

Le Pen, some-te!


A história, conta-se em poucas palavras.
Na última sexta-feira, começou a circular nas redes sociais, uma notícia sobre a eventual presença de Marine Le Pen (dirigente da extrema-direita francesa) na WebSummit, a maior feira mundial de empreendedores de plataformas tecnológicas que, pelo terceiro ano consecutivo, se realiza em Lisboa. O convite, teria sido feito pela organização irlandesa (sediada em Dublin), ao arrepio dos patrocinadores, a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP, que acolhem e apoiam o evento com uma quantia estimada em mais de 3 milhões de euros.
Perante tal notícia, seguiu-se a natural estupefacção e reacções de repúdio, para além do silêncio dos organizadores e das instituições em questão.
No fim-de-semana, sem qualquer explicação, o nome de Le Pen, desapareceu da programação e, quando pensávamos tratar-se de mais uma "fake news" (destinada a dar publicidade ao evento), eis que surge o nome da francesa de novo, agora anunciada como oradora no painel principal de convidados.
Novos protestos, agora noticiados pela Comunicação Social. Da parte do governo e da autarquia, seguiu-se o silêncio total.
Perante o avolumar da indignação (como assim, convidar uma fascista para discursar num evento pago pelos portugueses?), o director da WebSummit, o irlandês Paddy Cosgrave, emitiu ontem um comunicado onde, de forma sonsa e chantagista, dizia que "caso o governo português se opusesse à presença de Le Pen, ele estaria disposto a aceitar a decisão, em respeito à vontade do povo português" (!?). Ou seja, remetia a responsabilidade para o governo do país que o convidou e pagou para ele organizar o evento em Lisboa!
Obviamente, que o PM português não pode exprimir-se explicitamente sobre um evento privado, ainda que a CML, o Turismo de Portugal e o ICEP - em tanto que patrocinadores do evento - possam e devam, ter uma opinião sobre este convite.
De novo, nada se ouviu.
Ontem, os baixo-assinados contra a presença de Le Pen, começaram a circular e um partido político (BE) chegou mesmo a pronunciar-se sobre o caso, denunciando o carácter fascista e racista da oradora, cujas mensagens de ódio são inclusive proibidas pela Constituição portuguesa.
Hoje, finalmente, o Paddy lá reconsiderou e anunciou o cancelamento do convite, dada a comoção gerada na sociedade portuguesa, que ele não deseja alimentar...É sempre comovedor ver empreendedores, que defendem a livre iniciativa e são contra a intromissão do estado, servirem-se do estado quando não querem assumir a responsabilidade dos seus actos.
De facto, para além da presença indesejável da criatura, não se percebe muito bem o que viria ela cá fazer, pois não consta do seu currículo ser uma "expert" em Web ou quaisquer outras plataformas tecnológicas. Já a sua ligação a redes neo-fascistas internacionais é por demasiado conhecida, pelo que dispensa apresentações. Fez bem o Paddy, pois ainda há quem tenha memória do Fascismo por estes lados...
Em conclusão: Le Pen, some-te!     

2017/05/08

França: a vitória do liberalismo e a derrota do fascismo


Sem surpresa, Emmanuel Macron, o candidato liberal pró-europeu, ganhou à candidata xenófoba e nacionalista, Marine Le Pen. Os números não enganam (66,1% contra 33,9%) ainda que todas as sondagens apontassem nessa direcção, muito antes da segunda volta. Ou seja, os franceses votantes (75%) nunca tiveram muitas dúvidas nas suas escolhas.
Ao contrário de muitas opiniões democratas, que receavam uma repetição do fenómeno Trump na Europa (com nefastas consequências para o projecto europeu), teriam sido precisamente as "gaffes" de Trump que serviram de vacina nestas eleições. Outra questão, que não deve ser escamoteada, é a consciência política do francês médio, quando comparada com a politização na sociedade americana e, finalmente, o modelo das eleições francesas a "duas voltas", o que permite um melhor sistema de "pesos e contrapesos" nas escolhas políticas. Nada de novo na frente ocidental, desta vez.
A meio de um ciclo de escolhas, que podem ser determinantes para o futuro da Europa e do Mundo Ocidental no seu todo, o balanço é, para já, o seguinte:
Duas eleições negativas (no sentido regressivo do termo) com o "Brexit" britânico e a escolha do imprevisível Trump; e duas eleições, onde ganhou o "mal menor" (na Holanda e em França) com escolhas sempre discutíveis, mas que, no curto prazo, podem assegurar maior democracia e afastar os representantes do fascismo (Wilders e Marine Le Pen) do poder.
Já da Polónia e da Hungria, onde as políticas autoritárias e xenófobas ganham terreno, continuam a  não vir boas notícias; enquanto da Austria, pese o aumento da influência da extrema-direita, tivemos a boa notícia da vitória do candidato presidencial, um veterano democrata e ecologista. Algo é algo.
Restam dois países-chave nesta equação, a Alemanha (que vai a votos no Outono) e a Itália, que pode ir a votos, caso o impasse político, originado pela demissão do primeiro-ministro depois de um referendo falhado, não seja resolvido a contento.
Resumindo e concluíndo: a vitória de Macron pode ter tirado um peso da consciência dos franceses e europeus que receavam um regresso às ideias nacionalistas e xenófobas mais retógradas (Marine é uma fascista assumida, como o debate com Macron confirmou), mas o "ovo da serpente" foi chocado e existe. Dentro de cinco semanas, terão lugar as eleições legislativas francesas e, depois da implosão dos partidos do centro (socialistas e republicanos), restam apenas a Frente Nacional (o maior partido em votos) os "insubmissos" de Mélechon  e os apoiantes do "En Marche!" de Macron. É pouco, como forças partidárias organizadas. Resta esperar que a esquerda francesa tenha aprendido com o susto e saiba extrair daqui as lições para o próximo acto eleitoral. De Macron, e da eventual "co-habitação" que venha a surgir após as eleições de Junho, ainda é cedo para extrair conclusões. Para já é o que temos. Podia ter sido pior.    

2014/03/24

Eles andam aí...


Os resultados de Marine Le Pen, na primeira volta das eleições municipais em França, não devem espantar-nos. Afinal, o seu pai, já em 2002 tinha passado à segunda volta das presidenciais, obrigando toda a esquerda a unir-se em torno de um candidato medíocre como Chirac e, no mandato seguinte, Sarkozy só ganharia a presidência graças aos votos da extrema-direita, que compreendeu bem qual era o candidato que melhor serviria os seus interesses. O crescimento constante da Frente Nacional nas sondagens apontava para este resultado e a segunda volta deverá confirmar a implantação, agora sólida, de Marine Le Pen, em câmaras importantes de França. Daqui, até ao Eliseu, ainda faltam alguns anos, mas, a continuação desta tendência, só poderá confirmar o pior dos cenários.
Menos baladados, mas nem por isso menos importantes, foram os resultados das eleições municipais na Holanda, que decorreram na quarta-feira passada e nas quais o partido de extrema-direita PVV (Partido da Liberdade) conquistou a municipalidade de Almere e foi o segundo partido mais votado na cidade de Haia. Um pequeno teste, já que o partido do xenófobo Wilders não está preocupado em governar, mas apenas em apoiar o governo de coligação liberal-trabalhista que depende dos votos do PVV no Parlamento. A coisa funciona, mais ou menos assim: Wilders apoia a coligação do governo, desde que este sancione as suas leis anti-imigrantes e islamofóbicas, que constituem o "core" da sua ideologia racista. Não por acaso, há poucas semanas, Wilders recebeu Marine Le Pen em Haia, onde ambos assinaram um acordo de intenções com vista à constituição de uma frente partidária para as próximas eleições europeias. As conversações entre estes dois partidos e os partidos mais nacionalistas europeus, foram alargadas ao Reino Unido, à Bélgica, à Finlândia, à Austria e à Grécia, aumentando deste modo a possibilidade da criação de uma facção anti-Europa no parlamento europeu.
A Leste, o panorama não parece muito melhor, com os neonazis no governo provisório ucraniano, (criado no rescaldo do levantamento da praça Maidan) e governos na Hungria e na Polónia que defendem explicitamente idéias nacionalistas e racistas já condenadas no Parlamento Europeu.
Haverá, certamente, muitas explicações para este fenómeno de renascimento das ideologias de extrema-direita, o mais significativo desde a segunda guerra mundial. Afinal, a ideologia existia, mas não estava organizada. A recente crise económica e social, acrescida da incapacidade dos governos de inspiração social-democrata, hoje cúmplices e completamente submetidos ao poder financeiro, explicam uma parte substancial desta crise de valores que aproveita a direita mais radical. O terreno é propício ao aparecimento de líderes e discursos populistas e, menosprezá-los, seria um erro trágico, do qual os políticos e forças progressistas europeus se arrependerão. Depois, não digam que não sabiam...