2025/10/14
2025/10/13
Gaza: o "acordo" imprevisível

O "acordo" para Gaza, proposto na passada semana por Donald Trump, começa a dar os primeiros passos.
É cedo para extrair conclusões definitivas. Trata-se de um documento de 20 pontos, que prevê diversas fases, das quais a primeira (fim dos combates, recuo das tropas israelitas, libertação de reféns e de prisioneiros, entrada de ajuda humanitária) começou a ser implementada.
Estas, são as boas notícias. A assinatura do Acordo de Paz, hoje no Egipto, formalizará as boas intenções, acordadas entre Israel, o Hamas e os principais mediadores nesta crise (Egipto, Qatar e Turquia, sob a supervisão dos EUA). Como diria Shakespeare, "tudo bem, quando acaba bem"...
Acontece que, dos 20 pontos que constam do "acordo", só os primeiros cinco estão a ser concretizados, o que sendo um sinal positivo, não garante o cumprimento dos restantes. Desde logo, porque o Hamas, parceiro improvável na futura administração de Gaza, continua a recusar a entrega das armas e, em nenhum dos pontos, está claramente explícita a criação de um futuro estado palestiniano, ainda que seja feita uma vaga referência a essa possibilidade (ponto 19). Depois, porque não sabemos quem vai fazer parte do próximo governo de Gaza: a Autoridade Palestiniana, que governa na Cisjordânia? Um governo de coligação, entre as diversas facções? Um governo de transição, composto por tecnocratas locais e estrangeiros? Haverá uma nova constituição e eleições livres? Quando? Finalmente, não sabemos nada sobre a forma como vai ser administrado o território de Gaza e quem serão os actores principais neste período de transição... Espera-se que organismos como a ONU, a Unesco, a UE e os Emirados Árabes, estejam na primeira linha de ajuda. Fala-se, ainda, num "comité" de reconstrução, coordenado por Tony Blair, personagem recusada por parte da comunidade internacional, devido à sua responsabilidade na invasão do Iraque e ao papel dos britânicos na criação do estado de Israel. Há coisas, que a memória não apaga.
Entretanto, dois anos após bombardeamentos diários, o balanço em Gaza não podia ser mais devastador:
90% dos edifícios foram destruídos, entre os quais, hospitais, escolas, mesquitas e abrigos, tornando praticamente impossível a sobrevivência entre os destroços, sem água, electricidade e mantimentos suficientes, para alimentar mais de dois milhões de habitantes.
Neste período, Israel foi responsável pela morte de 67.173 palestinianos, entre os quais 20.179 crianças, 10.427 mulheres, 4.813 idosos, 31.754 homens, para além de 169.780 feridos, 565 membros de ONGs, 376 funcionários da ONU, 254 jornalistas e milhares de vítimas, por identificar, que estarão ainda sob os escombros. Se não foi uma tentativa de genocídio, foi certamente um massacre, completamente desproporcionado e cujas principais vítimas foram civis inocentes, com a desculpa que os combatentes do Hamas se escondiam entre a população. Não estão aqui contabilizadas as vítimas israelitas, durante o ataque de 7 de Outubro de 2023, dos reféns falecidos em cativeiro e dos militares no terreno, que serão alguns milhares, certamente.
Uma barbárie, longe de terminada, já que as sequelas de tal hecatombe se farão sentir por muitos anos em ambas as partes do conflito. Nada será como dantes e haverá sempre um antes e um depois do 7 de Outubro de 2023, ainda que esta história não tenha começado nesse dia, como muitos pretendem ao reescrevê-la.
A grande questão, neste momento, é saber até que ponto a proposta de "acordo" é para manter. Se é suficientemente sólida para levar a cabo a tarefa ciclópica, que é a resolução do problema palestiniano. Já foi tentado no passado e falhou sempre, mas não desapareceu por isso. Também não desaparecerá desta vez e só podemos desejar que a solução esteja mais próxima, mesmo que estejamos a anos da sua concretização. Se o "acordo", proposto por Trump, poder contribuir para melhorar a situação dos dois povos, melhor ainda. Se não, o futuro se encarregará de demonstrar que "meias soluções" nunca resolveram os grandes problemas. Quanto muito, adiam-nos. Só a criação de um estado palestiniano pode terminar com as hostilidades. É isso que a Comunidade Internacional aguarda há 77 anos.
2025/09/22
Palestina: um reconhecimento tardio
Após meses de declarações evasivas, o governo português reconheceu, finalmente, o estado da Palestina.
A declaração formal, anunciada em nome do governo português, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros (Paulo Rangel), foi feita a partir da sede das Nações Unidas onde, esta semana, se encontra a delegação portuguesa a participar na Assembleia Geral da ONU, que comemora 80 anos de existência.
Uma declaração histórica, por parte do governo, já que a maioria dos países que fazem parte das Nações Unidas, depois do fracasso dos Acordos de Oslo (1993), há muito tinham optado pelo reconhecimento formal do estado palestiniano. Dos 193 membros da ONU, cerca de 80% reconheceram o estado da Palestina, no seguimento da declaração da "Sociedade das Nações" de 1947, que aprovou a constituição de dois estados - Israel e Palestina - na região ocupada por Israel desde 1948.
Nada que não se esperasse, ainda que o "ar do tempo" tivesse apressado a decisão, depois da carnificina em curso na região e a pressão internacional por parte de países como a França e a Arábia Saudita e, posteriormente, o Reino Unido, Canadá e Austrália, que arrastariam consigo países menos influentes na cena política internacional, como é o caso de Portugal. Ou seja, depois de tanto "esperar", o governo português, para não "ficar mal na fotografia", lá avançou, não sem antes pôr condições a esse reconhecimento, não fosse o governo israelita criticar-nos por tal decisão (o que, de resto, veio a acontecer).
Clarificando: nenhum governo português, o actual ou os anteriores, reconheceu em tempo algum o Hamas, como representante oficial do povo palestiniano que, de resto, está dividido sobre esta questão, como atesta a existência (na Cisjordânia) da Autoridade Palestiniana. Mais, o Hamas, aquando da sua criação (1987) teve o apoio de Israel, que apostou no movimento sunita para dividir a resistência palestiniana, encabeçada pelo Fatah, o grupo mais forte dentro da OLP (Organização da Libertação da Palestina). Que o Hamas, viesse a ganhar as eleições em Gaza (2007) e tivesse expulso a facção da Autoridade Palestiniana daquele território, foi algo que o governo israelita não teria previsto: a criação do seu próprio Frankenstein. A criatura revoltou-se contra o criador. Desde então, a história é conhecida.
A escalada provocada pelos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, veio repor a questão Palestiniana e a criação de dois estados, na agenda. Os acontecimentos daquele dia, que alguém já classificou como o "11 de Setembro israelita", deu origem à mais violenta operação militar israelita em décadas, com o objectivo de libertar 250 reféns capturados naquele dia e eliminar militarmente o Hamas. Dois anos mais tarde, apesar da desproporção e sofisticação de meios militares, nenhum dos dois objectivos foi atingido: restam cerca de 50 reféns por libertar e os combatentes do Hamas, agora reduzidos a poucos milhares, não foram derrotados.
Porque a carnificina em curso, ultrapassou um número de vítimas inimaginável (impossível de quantificar por falta de testemunhas credíveis) restam as estatísticas possíveis: mais de 65.000 mortos civis, dos quais 20.000 crianças e 165.000 feridos, não contando os jornalistas e representantes de ONGs diversas, mortos indiscriminadamente, para além da destruição material que arrasou mais de 80% do edificado em Gaza.
Ainda que a definição possa ser discutível, o testemunho ocular de observadores, jornalistas e funcionários de organismos internacionais, no terreno, não enganam: estamos perante a maior catástrofe humanitária, provocada por uma guerra, desde 1945. Pior, esta catástrofe é provocada por representantes do povo que foi, ele mesmo, perseguido e aniquilado de forma bárbara e sistemática, durante o holocausto nazi. O Mundo está a assistir ao genocídio de um povo e pouco tem feito para o impedir, ainda que nos últimos meses a indignação das populações (que não a dos governantes) tenha aumentado.
Sim, é um genocídio, perpetrado pelo governo sionista de Israel, com a cumplicidade dos Estados Unidos, que veta sistematicamente as decisões no Conselho de Segurança da ONU, onde a maioria da Assembleia Geral há muito condenou a política israelita. A prova, é a crescente solidariedade e o apoio à causa palestina, expressa nas declarações feitas em Nova Iorque. As declarações de Portugal, do Reino Unido, da Austrália e do Canadá, foram ontem. Durante a semana, outras se seguirão. Haverá um dia, em que Israel (hoje, um estado pária, condenado pela comunidade internacional), será obrigado a reconhecer o óbvio: a existência de um estado palestiniano. Foram necessários 77 anos para chegarmos aqui, mas já estivemos mais longe. Antes um tardio reconhecimento, do que nenhum reconhecimento.
Algo é algo.
2025/06/14
Seis dias que não mudaram o mundo
ataque aéreo de Israel perto do Hospital Augusta Victoria
Em Junho de 1967, teve lugar a chamada "guerra dos seis dias".
Socorro-me da Wikipédia:
No final [desta] guerra, o Estado de Israel controlava toda a área que a ONU havia proposto para um estado judeu, bem como quase 60% da área proposta para um estado árabe, incluindo as áreas de Jaffa, Lida e Ramle, a Alta Galileia, algumas partes do Neguev, a costa oeste até a Cidade de Gaza e uma ampla faixa ao longo da estrada Tel Aviv-Jerusalém. Israel também assumiu o controlo de Jerusalém Ocidental, que deveria fazer parte de uma zona internacional para Jerusalém e seus arredores. A Transjordânia assumiu o controlo de Jerusalém Oriental e do que ficou conhecido como Cisjordânia, anexando-a no ano seguinte. O território conhecido hoje como Faixa de Gaza foi ocupado pelo Egipto.
As expulsões de palestinos, que haviam começado durante a guerra civil, continuaram durante a guerra árabe-israelita. Centenas de palestinos foram mortos em múltiplos massacres, como os ocorridos nas expulsões de Lida e Ramle. Esses eventos são conhecidos hoje como Nakba (em árabe, "a catástrofe") e foram o início do problema dos refugiados palestinos. Um número semelhante de judeus mudou-se para Israel durante os três anos seguintes à guerra, incluindo 260 000 que migraram, fugiram ou foram expulsos dos estados árabes vizinhos. (https://en.wikipedia.org/wiki/Six-Day_War#)
Eu tinha acabado de fazer 18 anos e lembro-me bem da reacção de alguns (poucos) amigos e conhecidos da altura, uns quantos, inclusive, que tinham continuado a « estudar », portanto, já na faculdade. Em vésperas, pois, do Maio de 68, da crise académica de 69, do II Congresso de Aveiro, etc., exultavam com a golpada dos israelitas e ficaram em puro êxtase com o "brilho" da operação militar. Tudo isto enquanto se preparavam, caninos, para se irem bater pelo império. Pormenor não menos importante: a imprensa oficial da altura (de um modo geral), em especial a RTP, que já tinha um enorme ascendente sobre a comunicação no país, seguiu este tom laudatório.
Quase 60 anos depois, 51 anos depois do 25A e de, suposta, Democracia, continuamos na mesma.
Convenhamos: algo falhou redondamente.
2024/09/30
Dr. Strangelove nas Nações Unidas

De acordo com o "Washington Post", citado pelo "Expresso" online de hoje (30/9), o governo israelita terá informado o governo dos Estados Unidos que se prepara para invadir o Líbano nas próximas horas. Ainda de acordo com o diário americano, a operação será "limitada" ao território fronteiriço entre o Líbano e Israel e tem como objectivo criar uma "zona tampão" entre os dois países, para evitar os ataques do Hezbollah naquela região...
Nada que nos deva surpreender, depois do discurso de Netanyahu nas Nações Unidas da passada semana, onde ameaçou tudo e todos, inclusive os poucos presentes na sala, depois da debandada geral dos representantes internacionais durante o seu discurso.
A "novidade" aqui, reside na informação "à priori" que o governo israelita terá fornecido a Biden, depois deste ter afirmado na passada semana, que desconhecia os planos de Bibi para eliminar fisicamente os dirigentes do Hamas em Teerão e do Hezbollah em Beirute. Não se faz, ocultar informações ao "chefe" e principal doador de fundos para manter a máquina de genocídio, em que se transformou Israel, logo agora que os Estados Unidos tinham aprovado mais uma "tranche" de 30 000 milhões em armamento para o estado sionista. Interrogado, nos dias que se seguiram ao atentado em Beirute, o patético Blinken veio com ar compungido, confirmar as declarações do presidente americano e "jurou" que os EUA tudo estão a fazer para chegar a um acordo diplomático entre as partes, já que o objectivo último continua a ser a criação de dois estados na região...
De acordo com a jornalista Alexandra Lucas Coelho, que segue há anos a questão palestiniana e escreve regularmente no "Publico", o "pobre" Blinken terá ido 11 vezes a Telavive no último ano, para tentar convencer Bibi a terminar com o genocídio em curso, levado a cabo pelas tropas israelitas em Gaza e no Líbano, onde morrem diariamente centenas de civis de todas as nacionalidades: mais de 42.000 em Gaza, mais de 1500 em Beirute numa só semana, para além dos feridos e desaparecidos nos escombros em que se transformaram os territórios bombardeados por Israel. Para os sionistas, ninguém está a salvo na região, pois a protecção do "povo eleito" e a "ira de Deus", tudo justifica!
Esta foi, de resto, a tónica do discurso de Netanyahu na ONU, ilustrado com dois quadros do Médio-Oriente, um intitulado "The Blessing" (Os Abençoados), pintado a verde (Israel, Egipto, Jordânia, sunitas); e outro, "The Curse" (A Maldição) pintado a negro (Irão, Iraque, Síria e Líbano, shiitas). A simbologia bíblica, fala por si: o "Bem" contra o "Mal", ainda que ambos os lados sejam maus...
Enquanto toda esta encenação decorre, Guterres desfaz-se em apelos à paz e à comiseração, já que os palestinos continuem a morrer, pois não podem sair do seu território. Enredado em contradições e períodos de intermitente lucidez, Biden continua a acenar para os jornalistas e a dizer que um acordo está próximo, enquanto Bliken tenta pela enésima vez a "espargata" do compromisso histórico que (quem sabe?) pode valer-lhe o prémio Nobel da Paz. Também Kissinger tinha as mãos manchadas de sangue (Indonésia, Vietnam, Chile, Argentina...) e não foi por isso que deixou de ganhar o Nobel...
A situação, ainda que dramática, lembra o filme de culto "Dr. Strangelove" (how I learned to stop worring and love the bomb), de Stanley Kubrick (1964), uma comédia-negra sobre a paranóia securitária no tempo da "guerra fria". No filme, Peter Sellers, que interpreta 3 personagens, veste a pele de Dr. Strangelove, um paraplégico, com um braço articulado, que faz a saudação nazi, de cada vez que discursa. Outro dos personagens, interpretado por Sterling Hayden, tem problemas de demência e impotência sexual, que procura subliminar através da guerra. O filme termina com o major King-Kong (Slim Pickens) piloto do bombardeiro B52, a cavalgar a própria bomba que acabou de lançar. Pior, era impossível.
Um clássico, premonitório do que está em curso. Ao ouvir Bibi na ONU, imaginei-o em cima da bomba que cavará a sua própria sepultura. Só não saberemos se terá a ver com um desígnio de Deus ou com a impotência sexual.
2024/07/26
A insustentável leveza da hipocrisia
Confesso que nunca mais me lembrei do assunto. Mas hoje a curiosidade levou-me a tentar confirmar o que se passa no domínio das exclusões. Israel foi autorizado a participar, depois de ter liquidado (tenho a certeza que de forma pouco desportiva) centenas de atletas palestinianos.
Quando fui confirmar a lista de países participantes (já que pela transmissão da televisão essa informação não pareceu clara) veio nova surpresa: a Rússia e a Bielorússia foram banidas dos JO2024. A alternativa engendrada pelo COI foi a de convidar atletas dos dois países, a título individual, com o estatuto de Individual Neutral Athletes, com bandeira e hino próprios. Isto depois de passarem uma série de complicadíssimos testes. De apenas 60 atletas convidados, uns meros 15 aceitaram o vexame. Habitualmente, as delegações destes países incluem centenas de atletas, entre eles alguns dos mais valorosos nas respectivas modalidades.
A delegação israelita inclui o atleta Peter Paltchik, "que assinava bombas lançadas contra os palestinianos com a frase “de mim, com prazer”". Hoje lá estava uma delegação israelita e uma delegação palestiniana, a passar na bizarra cerimónia de abertura no Sena. Russos e ucranianos não poderão competir em paz e em espírito desportivo.
Que ganhem os melhores.
Assim vai o mundo...
2023/10/25
Ainda a Palestina
"O povo palestiniano foi sujeito a 56 anos de ocupação sufocante. Viram a sua terra constantemente devastada por colonatos, assolada por violência, a sua economia esmagada, as suas populações deslocadas e as suas casas demolidas"
(...) "O sofrimento do povo palestiniano não pode justificar os terríveis ataques do Hamas, mas isso, por seu lado, não pode fundamentar as "claras violações da Lei Internacional em Gaza", que Israel está a cometer, vitimando a população civil palestiniana".
As palavras, são do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
Não podia estar mais de acordo. Assino por baixo.
(Photo credit: Pinterest)

