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2025/10/13

Gaza: o "acordo" imprevisível

O "acordo" para Gaza, proposto na passada semana por Donald Trump, começa a dar os primeiros passos. 

É cedo para extrair conclusões definitivas. Trata-se de um documento de 20 pontos, que prevê diversas fases, das quais a primeira (fim dos combates, recuo das tropas israelitas, libertação de reféns e de prisioneiros, entrada de ajuda humanitária) começou a ser implementada.

Estas, são as boas notícias. A assinatura do Acordo de Paz, hoje no Egipto, formalizará as boas intenções, acordadas entre Israel, o Hamas e os principais mediadores nesta crise (Egipto, Qatar e Turquia, sob a supervisão dos EUA). Como diria Shakespeare, "tudo bem, quando acaba bem"... 

Acontece que, dos 20 pontos que constam do "acordo", só os primeiros cinco estão a ser concretizados, o que sendo um sinal positivo, não garante o cumprimento dos restantes. Desde logo, porque o Hamas, parceiro improvável na futura administração de Gaza, continua a recusar a entrega das armas e, em nenhum dos pontos, está claramente explícita a criação de um futuro estado palestiniano, ainda que seja feita uma vaga referência a essa possibilidade (ponto 19). Depois, porque não sabemos quem vai fazer parte do próximo governo de Gaza: a Autoridade Palestiniana, que governa na Cisjordânia? Um governo de coligação, entre as diversas facções? Um governo de transição, composto por tecnocratas locais e estrangeiros? Haverá uma nova constituição e eleições livres? Quando? Finalmente, não sabemos nada sobre a forma como vai ser administrado o território de Gaza e quem serão os actores principais neste período de transição... Espera-se que organismos como a ONU, a Unesco, a UE e os Emirados Árabes, estejam na primeira linha de ajuda. Fala-se, ainda, num "comité" de reconstrução, coordenado por Tony Blair, personagem recusada por parte da comunidade internacional, devido à sua responsabilidade na invasão do Iraque e ao papel dos britânicos na criação do estado de Israel. Há coisas, que a memória não apaga.       

Entretanto, dois anos após bombardeamentos diários, o balanço em Gaza não podia ser mais devastador:

90% dos edifícios foram destruídos, entre os quais, hospitais, escolas, mesquitas e abrigos, tornando praticamente impossível a sobrevivência entre os destroços, sem água, electricidade e mantimentos suficientes, para alimentar mais de dois milhões de habitantes. 

Neste período, Israel foi responsável pela morte de 67.173 palestinianos, entre os quais 20.179 crianças, 10.427 mulheres, 4.813 idosos, 31.754 homens, para além de 169.780 feridos, 565 membros de ONGs, 376 funcionários da ONU, 254 jornalistas e milhares de vítimas, por identificar, que estarão ainda sob os escombros. Se não foi uma tentativa de genocídio, foi certamente um massacre, completamente desproporcionado e cujas principais vítimas foram civis inocentes, com a desculpa que os combatentes do Hamas se escondiam entre a população. Não estão aqui contabilizadas as vítimas israelitas, durante o ataque de 7 de Outubro de 2023, dos reféns falecidos em cativeiro e dos militares no terreno, que serão alguns milhares, certamente. 

Uma barbárie, longe de terminada, já que as sequelas de tal hecatombe se farão sentir por muitos anos em ambas as partes do conflito. Nada será como dantes e haverá sempre um antes e um depois do 7 de Outubro de 2023, ainda que esta história não tenha começado nesse dia, como muitos pretendem ao reescrevê-la.

A grande questão, neste momento, é saber até que ponto a proposta de "acordo" é para manter. Se é suficientemente sólida para levar a cabo a tarefa ciclópica, que é a resolução do problema palestiniano. Já foi tentado no passado e falhou sempre, mas não desapareceu por isso. Também não desaparecerá desta vez e só podemos desejar que a solução esteja mais próxima, mesmo que estejamos a anos da sua concretização. Se o "acordo", proposto por Trump, poder contribuir para melhorar a situação dos dois povos, melhor ainda. Se não, o futuro se encarregará de demonstrar que "meias soluções" nunca resolveram os grandes problemas. Quanto muito, adiam-nos. Só a criação de um estado palestiniano pode terminar com as hostilidades. É isso que a Comunidade Internacional aguarda há 77 anos.

2025/04/10

Trump ou a Máfia no poder


Se dúvidas houvesse, as recentes medidas do narciso psicopata (que governa os EUA) mostram até que ponto a insanidade do "homem" é perigosa para a Humanidade.

Diz e desdiz-se diariamente, conforme os ventos são de feição para as suas práticas mafiosas, que mais não pretendem do que controlar a economia (leia-se, dívida) com vista a salvaguardar o défice norte-americano que atingiu triliões de dólares na última década. 

No fundo, a mensagem subliminar, implícita neste "bullying" permanente, resume-se à icónica frase de Corleone: "I'll make you an offer you can´t refuse". Por outras palavras: "ou aceitam as minhas condições ou não vos garanto protecção". 

Um fdp da pior espécie que, no médio prazo, espera obter algumas vantagens (desvalorização do dólar e diminuição da dívida externa), mas que, no médio-prazo, irá perder. Por alguma razão, suspendeu as medidas (tarifas) anunciadas, por 90 dias, na esperança de (re)negociar os valores, entretanto perdidos em bolsa. A China foi o primeiro aviso, mas outros países e espaços económicos (UE) se seguirão. 

A questão central é saber até que ponto a reacção interna dos consumidores norte-americanos vai contribuir para a sua queda. Elon Musk (que não é propriamente um democrata) parece ter percebido o desastre e prepara-se para ser o primeiro rato a abandonar o navio. 

Tudo isto, porém, poderá demorar demasiado tempo e o tempo corre contra os democratas e os mercados (internos e externos) que se opõem a este regime (tecno)fascista. 

Os tempos mudaram e, a partir daqui, nada será como dantes. Esta é, para já, a única certeza. 

2024/11/06

EUA: o dia seguinte

Imagem REUTERS
Imagem REUTERS

Não há verdadeiramente uma surpresa nos resultados destas eleições. Talvez a vitória esmagadora de um fascista que (et pourtant) apesar do seu discurso xenófobo, racista, misógino e divisionista, conseguiu canalizar as frustrações dos "little men" do Midwest americano. Os votantes do partido republicano não votaram num programa político, mas em Donald Trump, o líder incontestado. Estamos a assistir ao culto do líder, uma constante em todos os partidos autocratas.  

A estratégia (!?) dos democratas foi desastrosa do princípio ao fim: afastamento tardio de Joe Biden, nomeação de uma candidata, sem passar pelo escrutínio das "primárias", pouca preparação de Kamala Harris em assuntos tão importantes como a economia, as relações comerciais com a China e a Europa, a Nato, as guerras da Ucrânia e da Palestina, etc., sobre os quais nunca foi clara e teve sempre um discurso redondo. Um falhanço total que os liberais vão pagar caro. 

Quando apostamos no mal menor, arriscamos levar com o mal maior. É dos livros. Leia-se o Reich da "Psicologia de Massas do Fascismo", escrito em 1933. Está lá (quase) tudo o que devemos saber.

Vem aí o fascismo norte-americano (sempre lá esteve) e, porque tudo o que se passa nos Estados Unidos acaba por influenciar a Europa, também seremos afectados por este resultado. De resto, o fenómeno (do aumento da influência dos partidos de extrema-direita) já acontece um pouco por todo o continente europeu: nalguns países veio de pantufas, noutros de botas cardadas. Por alguma razão, os ditadores de serviço - Putin, Orbán, Le Pen, Erdogan, Netanyhau, Wilders, Abascal ou Ventura - foram os primeiros a regozijarem-se com a vitória do seu homólogo americano.

Será que as forças progressistas, não aprendem?...

2017/02/10

Trumpalhadas

Donald Trump. Era inevitável. Não passa um dia em que não ouçamos falar dele.
Como notava alguém, num recente debate televisivo sobre a actualidade, finalmente voltámos a falar de política! De facto, não há dia em que não sejamos interpelados pelas decisões e atitudes do recentemente eleito presidente dos EUA, ainda que nem sempre pelas melhores razões. Não está em causa o facto das decisões de um presidente americano influenciarem directa ou indirectamente a maior parte da população do globo: essa tem sido uma constante da política externa americana no último século e já vamos estando habituados à sua presença. O que está em causa, é o tipo de decisões tomadas e a forma como estas são postas em prática. Digamos, para usar uma linguagem diplomática que, ao actual homem da Casa Branca, falta algo essencial para exercer o cargo que ocupa, afinal o do homem mais poderoso do Mundo. Não é coisa pouca.
(foto AP)
Philip Roth, consagrado escritor americano, escreveu nos dias que se seguiram à tomada de posse de Trump, não se lembrar de um presidente tão limitado nas suas capacidades cognitivas e com tão reduzido léxico, incluindo Nixon e George Bush Jr., os piores da lista. De acordo com o recente nomeado para o Nobel de Literatura, Trump não utilizaria mais do 77 palavras...
Piadas à parte, a verdade é que o seu discurso de posse foi de uma pobreza extrema (de resto, escrito por Bannon, o homem forte da campanha) e a sua forma de comunicação preferida, os "twitters", são disso a prova. Um presidente do país mais poderoso do Mundo, que opina sobre todas as questões da política interna e externa e reage às críticas através de mensagens que não ultrapassam os 140 caracteres, a maior parte destas com ameaças veladas e "soundbites" destituidos de qualquer nexo ou profundidade, é uma novidade em política e nada nos faz crer que seja boa.
Uma das interpretações avançadas para este comportamento atípico, residirá no seu perfil psicológico, caracterizado como narcisista-obsessivo, que explicará a necessidade constante de receber atenção e a dificuldade notória de funcionar numa equipa (dado que sempre foi o "patrão" de empresas, onde as ordens não se discutem e são para cumprir). Muitos telespectadores lembrar-se-ão ainda do "talk-show" que dirigiu durante anos, onde os concorrentes eram despedidos, após cada eliminatória, com a frase "you're fired!", que o celebrizou. No fundo, a personificação do "boss" tradicional, para quem os lucros da empresa são sempre mais importantes do que os nela trabalham. Não é difícil imaginar tal personagem em reuniões e a tomar decisões com os seus principais conselheiros, ainda que estes tivessem sido escolhidos a dedo e sejam, por por definição, mais cultos e informados (bem mais perigosos) do que o presidente. De resto, não está sequer afastada a hipótese de Trump vir a ser substituido antes do fim da legislatura, seja por razões pessoais, seja por conveniência do "sistema" (partido republicano, Wall Street, corporações várias, industria de armamento) que, nesta fase de destruturação e reordenamento do capitalismo global iniciada em 2008, o estejam a utilizar como "testa de ferro".
Uma coisa é certa: ninguém acreditou que ele se candidataria à presidência e ele candidatou-se. Quando o fez, pouca gente acreditou que poderia ganhar as primárias e ganhou. Mais tarde, quando isso aconteceu, todas as sondagens davam a vitória a Hillary e poucas apostariam na sua vitória. No entanto, acabaria por ganhar as eleições. Com menos votos, é certo, mas vencedor na maioria dos estados representados no colégio eleitoral que o nomeou. Um vencedor incontestável, ainda que contestado.
E agora?
Independentemente dos rótulos encontrados (populista, demagogo, nacionalista, proteccionista, fascista de tipo novo), Trump e o trumpismo vieram para ficar. Para os americanos, que não se revêem nas suas políticas, um verdadeiro "nightmare", que ainda só agora começou. Será na América, de resto, que irá travar-se o maior e mais decisivo combate contra este representante de um sistema financeiro que não olhará a meios para impôr as suas leis. Um presidente que defende o mercado livre, mas que, simultaneamente, defende o "proteccionismo"; que impede a imigração legal, mas necessita de imigrantes qualificados nas áreas da inovação e tecnologia (sem as quais não há desenvolvimento); que quer levantar barreiras alfandegárias, mas necessita de fazer negócios com o México, a Alemanha, o Japão, a Russia ou a China (que detém 45% da dívida pública americana); que quer recuperar as industrias tradicionais, sem ter em conta que os automóveis, as minas e o aço, são mais baratos noutras paragens. Quer "tornar a América grande de novo", mas não sabe bem como. A menos que...a menos que, caso falhem todas estas medidas, esteja em preparação algo de mais terrível, como o que foi experimentado pela maior potência europeia do século passado, quando escolheu a guerra para superar a crise. Não o devemos menosprezar.

    

2016/11/22

Aftermath (2)

Quinze dias passados sobre "a noite que abalou o Mundo", as notícias continuam pouco animadoras. Para quem pensava que a prática de Trump seria diferente da retórica eleitoral, as primeiras medidas anunciadas, prenunciam o pior. Nada que deva espantar. Só os incrédulos ou desatentos poderiam esperar um comportamento diferente deste representante do "establishment" americano que, através de um discurso básico e emocional (onde a explicação racional deu lugar à linguagem dos efeitos) procurou incutir no espírito dos americanos - desiludidos com o sistema - que a culpa desta situação era das "elites" que governavam o país. Como se Trump, o multimilionário que se orgulha de não cumprir a lei e de não pagar impostos, não fizesse, ele mesmo, parte do sistema que gera as "elites" que o beneficiam. Um demagogo, portanto.
Não por acaso, estados como Indiana, Montana, Ohio, Pensilvânia e Virgínia (o chamado "cinto da ferrugem") onde outrora existiram grandes indústrias, nomeadamente do aço e do carvão, votaram maioritariamente em Trump. Bastou o candidato acenar com a recuperação das siderurgias e das minas do carvão, para obter o voto de uma classe operária maioritariamente desempregada e desiludida com os efeitos da crise da globalização que a atingiu em cheio. Se esta promessa vai concretizar-se, já é mais duvidoso. O mesmo, relativamente aos grandes grupos de construção civil, muitos deles fazendo parte do seu próprio empório, a quem acenou com chorudos contratos para, segundo as suas próprias palavras, renovar as rodovias, as pontes e os caminhos de ferro decadentes. Um plano "Keynesiano", aparentemente ao arrepio de toda a lógica neoliberal, mas que rendeu apoios e votos das corporações interessadas. Que os impostos vão descer (resta saber, para quem?) já toda a gente percebeu: se ele não pagou impostos, por ser "esperto", algum benefício deve ter tido...Como o dinheiro não dá para tudo (sem impostos, ainda dá para menos), terá de haver cortes nalgum lado. O sistema de saúde pública, vulgo "Obamacare", será o primeiro a sentir os efeitos desta austeridade para os mais pobres. Depois, haverá o famigerado "muro" na fronteira mexicana, que Trump confirmou querer construir (ele é "bom nisso" disse à entrevistadora da CBS). Querer limitar a entrada de muçulmanos e não querer refugiados sírios, são outros pontos do seu programa. Os islamofóbicos agradecem e, por isso, deram-lhe o voto. Finalmente, a questão rácica, que lhe rendeu os votos dos brancos anglo-saxónicos e protestantes (WASP), muitos deles pertencentes à mesma "elite" que critica, e que são filiados em grupos tão obscuros com o Ku Klux Klan de má memória. As suas nomeações para o governo, vão desde um racista assumido para a pasta de secretário-geral dos assuntos de estado (na prática, o seu braço direito), até a um membro do Tea Party, a agremiação mais à direita do espectro político americano, para dirigir a CIA. O mesmo relativamente ao Juiz do Supremo Tribunal, um conservador da ala mais à direita do partido. As minorias vão enfrentar dias difíceis e 11 milhões de emigrantes ilegais (estimativa) podem ser, agora, alvo de perseguição e expulsão imediata. Na primeira conferência de imprensa alargada (cerca de 40 jornalistas convidados para um "briefing" informal) Trump criticou tudo e todos de forma violenta, em especial o representante da CNN, a quem acusou de manipular as notícias sobre a sua pessoa. Enfim, a lista é extensa e o homem ainda nem começou a governar. Imaginem, a partir de Janeiro...
Como chegámos aqui?
Muitas e variadas têm sido as opiniões sobre este resultado eleitoral, aparentemente imprevisível, mas não de todo improvável. Entre as análises lidas e escutadas por estes dias, escolhemos a do filósofo francês Alain Badiou que, no dia a seguir às eleições americanas, deu uma palestra na UCLA (Los Angeles) onde se encontrava como convidado. Badiou destaca quatro razões fundamentais para explicar a vitória de Trump e do populismo crescente nos EUA e na Europa. "1) A violência e  brutalidade do actual capitalismo desregulado, que aumentou as diferenças laborais e a exclusão social na maior parte dos países. 2) A decomposição das oligarquias políticas clássicas (partidos, sindicatos, organizações estatais) que deixaram de constituir referências para grande parte da população. 3) A frustração popular, causada por sentimentos de não-pertença a uma sociedade da qual foi descartada. 4) A ausência de estratégias alternativas, seja a nível ideológico-partidário, seja a nível de movimentos apartidários, que possam constituir modelos de referência para o futuro". Ou seja, estavam reunidos os elementos necessários para a chamada "tempestade perfeita".   
As ideias populistas (de direita) há muito que vêm ganhando terreno na Europa e a América não ficou imune a este fenómeno. O "brexit", no qual poucos britânicos acreditavam, foi apenas o primeiro aviso de que algo estava "podre" no Reino Unido. O surgimento do partido independentista, liderado por outro demagogo (Farage) acabaria por dividir os conservadores e contribuir para a vitória do "não". Também no Reino Unido, a elite ligada à finança, a maioria dos colarinhos azuis e dos rurais conservadores, votariam no "exit". Razões principais: recusa ao centralismo de Bruxelas, medo do futuro e xenofobia em relação aos estrangeiros que "ameaçam" os seus postos de trabalho. Paradoxalmente, a maioria dos votos "não", foi nas regiões rurais, onde a presença de emigrantes é minoritária (!?). Ao contrário, foi nas grandes cidades (Londres, Manchester, Liverpool, Birmingham), onde a multiculturalidade é maior, que o voto "sim" ganhou. Exactamente como nos EUA, onde os votos pró-Hillary, foram obtidos na Costa Leste (Nova Iorque, Washington, Boston, Filadélfia...) e na Costa Oeste (Los Angeles, S. Francisco, etc.) os estados com maior educação e os mais desenvolvidos. Ao contrário, os votos de Trump seriam obtidos, na chamada "América profunda", onde dominam os "red necks", os protestantes evangélicos, o KKK e os trabalhadores proletarizados da cintura industrial, ainda que muitos dos seus apoiantes sejam originários da classe média urbana.
Porque, em ambos os países, a eleição foi democrática, devemos concluir que a maioria (relativa, é certo) do eleitorado, votou nos representantes que defenderam um maior isolacionismo e uma maior exclusão social e política dos grupos minoritários - emigrantes, muçulmanos, grupos de género e negros (no caso dos EUA). Por outras palavras, ganharam os candidatos cujos discursos defenderam os valores mais conservadores e nacionalistas e um modelo de democracia menos aberta e tolerante, portanto, mais autoritária. O populismo de direita, ou o (novo) fascismo, em ascensão.
Seguem-se, agora,  quatro eleições, não menos importantes: Itália (já este ano), Holanda, França e Alemanha (em 2017). Dos seus resultados, muito pode depender o futuro da Europa e da própria ideia da União, como projecto político e social. Guardadas as devidas distâncias, a situação actual começa a apresentar preocupantes semelhanças com o período dos anos 20 e 30 do século passado. Depois de uma guerra devastadora (1914-18) e de uma crise económica e financeira (1929) cujos efeitos perdurariam até às vésperas da 2ª guerra mundial, a Europa assistiu ao aparecimento de movimentos e líderes populistas, que souberam interpretar esta frustração popular e que, através da "linguagem dos efeitos" e da criação de imaginários inimigos internos e externos (os judeus foram apenas os "bodes expiatórios"), alimentaram nas massas, acríticas e desmoralizadas, a ideia que um "novo mundo" era possível. Bastava acreditar e obedecer. Conhecemos os resultados.
Aparentemente, as forças progressistas em geral, e a esquerda em particular, não aprenderam a lição. É necessário identificar as razões desta regressão e perceber onde é que o sistema  - e os seus representantes - falhou nas respostas adequadas. Para os interessados na comunicação de Badiou,  deixamos aqui o vídeo e o texto da sua intervenção, que contém suficiente matéria para reflexão.