"Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a núvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo...e, já agora, privatize-se a puta que os pariu a todos."
José Saramago in "Cadernos de Lanzarote", Diário III, Pág. 148
Mostrar mensagens com a etiqueta Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saramago. Mostrar todas as mensagens
2011/06/18
2010/07/15
A rua da ignorância
Na mesma semana em que a universidade do México prepara uma homenagem a Saramago, a Assembleia Municipal do Porto vetou o nome do escritor para uma rua da cidade. Certamente inspirado por Sousa Lara, o autarca Rui Rio vai ficar na história pela pior das razões: a ignorância.
2010/06/18
José Saramago (1922-2010)
"A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu"
(em "As Intermitências da Morte", 2005)
(em "As Intermitências da Morte", 2005)
2009/10/22
Acendam as fogueiras!
Isto está a aquecer. Ainda não tinhamos percebido bem o alcance das palavras do "inteligente" David de Estrasburgo - que por um lado aconselha Saramago a mudar de nacionalidade e por outro tem vergonha de ser português - e já o Padre Carreira vem a terreno defender a leitura da Nova Bíblia, não vá alguma ovelha tresmalhada querer mudar de rebanho.
A "cereja em cima do bolo" é, no entanto, a última entrevista do Torquemada da paróquia. Sousa Lara - o mesmo que impediu o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" de concorrer ao prémio europeu de literatura quando era secretário da cultura - vem hoje ao púlpito exortar as hostes. Primeiro, desvalorizando o "exotismo" de um escritor que comparou a Berlusconi, pois "pode dizer tudo quanto quer". Depois, mais refinado, lamentando a liberdade de "certas pessoas que chegam a um patamar em que a Humanidade lhes perdoa tudo". Finalmente, este extraordinário pensamento: "há tanto tema para escrever um bom romance, estar sempre a bater nas religiões e a insultar é, no mínimo, de mau gosto...". De facto, com tanta coisa para escrever, porquê logo escolher a religião?
Quem deve estar a pensar o mesmo é o Salman Rushdie. Esteve dez anos enfiado numa cave e ainda hoje não sabe bem porquê. À época, o "fatwa" lançado pelos islamitas radicais, apenas o queria eliminar. Aqui, a coisa sempre fia mais fino. Houve a secularização e não se podem acender fogueiras todos os dias. Mas, com a desculpa do Inverno, já começou a apanha das achas para a lareira...
A "cereja em cima do bolo" é, no entanto, a última entrevista do Torquemada da paróquia. Sousa Lara - o mesmo que impediu o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" de concorrer ao prémio europeu de literatura quando era secretário da cultura - vem hoje ao púlpito exortar as hostes. Primeiro, desvalorizando o "exotismo" de um escritor que comparou a Berlusconi, pois "pode dizer tudo quanto quer". Depois, mais refinado, lamentando a liberdade de "certas pessoas que chegam a um patamar em que a Humanidade lhes perdoa tudo". Finalmente, este extraordinário pensamento: "há tanto tema para escrever um bom romance, estar sempre a bater nas religiões e a insultar é, no mínimo, de mau gosto...". De facto, com tanta coisa para escrever, porquê logo escolher a religião?
Quem deve estar a pensar o mesmo é o Salman Rushdie. Esteve dez anos enfiado numa cave e ainda hoje não sabe bem porquê. À época, o "fatwa" lançado pelos islamitas radicais, apenas o queria eliminar. Aqui, a coisa sempre fia mais fino. Houve a secularização e não se podem acender fogueiras todos os dias. Mas, com a desculpa do Inverno, já começou a apanha das achas para a lareira...
2009/10/19
Não habia nexexidade...
Ler as reacções da Conferência Episcopal aos comentários de José Saramago é como observar os anéis das árvores, a chamada dendrocronologia. A gente pega num tronco de uma árvore com centenas de anos, olha para aqueles anéis, analisa-lhes a forma, desvenda-lhes o conteúdo e pensa: olha como era o mundo naquele tempo!
O mesmo fazem os cientistas que estudam as camadas profundas dos gelos ou os sedimentos terrestres. Dados sobre a temperatura terrestre, a precipitação, a química e a estrutura dos gases da atmosfera, as erupções vulcânicas, a variabilidade da actividade solar, etc, está lá tudo.
Ler os comentários da Conferência Episcopal sobre o livro "Caim" é um exercício semelhante. A gente lê-os e pensa: olha como era o mundo naquele tempo!
Com uma diferença: naquele tempo a Igreja mandava assar os Saramagos que lhe surgissem à frente. Agora faz-se de vítima e acusa o albigense de não saber ler a Bíblia e de ter montado uma "operação publicitária" com o seu livro, advertindo-o que deveria "ir por um caminho mais sério".
O porta voz da Conferência Episcopal diz que "não está nas minhas prioridades a leitura desse livro, porque pela apresentação que aparece na Comunicação Social acho que é de alguém que não entende os géneros literários da bíblia". É uma pena que não o leia porque talvez lá descobrisse também uns anéis ou uns sedimentos cheios de informação interessante. E de descoberta em descoberta talvez conseguíssemos, finalmente, saír todos das trevas...
O mesmo fazem os cientistas que estudam as camadas profundas dos gelos ou os sedimentos terrestres. Dados sobre a temperatura terrestre, a precipitação, a química e a estrutura dos gases da atmosfera, as erupções vulcânicas, a variabilidade da actividade solar, etc, está lá tudo.
Ler os comentários da Conferência Episcopal sobre o livro "Caim" é um exercício semelhante. A gente lê-os e pensa: olha como era o mundo naquele tempo!
Com uma diferença: naquele tempo a Igreja mandava assar os Saramagos que lhe surgissem à frente. Agora faz-se de vítima e acusa o albigense de não saber ler a Bíblia e de ter montado uma "operação publicitária" com o seu livro, advertindo-o que deveria "ir por um caminho mais sério".
O porta voz da Conferência Episcopal diz que "não está nas minhas prioridades a leitura desse livro, porque pela apresentação que aparece na Comunicação Social acho que é de alguém que não entende os géneros literários da bíblia". É uma pena que não o leia porque talvez lá descobrisse também uns anéis ou uns sedimentos cheios de informação interessante. E de descoberta em descoberta talvez conseguíssemos, finalmente, saír todos das trevas...
2009/06/07
Enfermidades
Reagindo certamente à violência do texto de Saramago, os eleitores italianos deram ao partido dessa "coisa perigosamente parecida com um ser humano [que] manda num país chamado Itália" a maioria dos votos nas eleições de hoje naquele país...
O pior é que não parece ter sido só em Itália que os eleitores se mostraram indiferentes aos valores invocados pelo Nobel português. Como sublinhou Paulo Rangel, essa história da penalização dos partidos do governo é uma treta. Só nos países onde os partidos socialistas chefiam governos é que as eleições para o PE lhes foram desfavoráveis. Nos outros países, governados por partidos de direita, os partidos de governo foram premiados, obtendo vitórias, o que significa, na opinião de Rangel, uma rejeição generalizada das políticas "socialistas".
Será que os povos europeus acreditam mesmo que esta "crise" afinal é resultado de políticas de esquerda...? Ou serão os partidos socialistas que teimam em prosseguir as suas políticas andróginas e pagam depois por isso?
E estará Rangel --o declarado vencedor do grande concurso da "chuva de estrelas" da direita portuguesa-- convencido que os partidos à direita do PS já deixaram de precisar da "lebre" socialista para marcar o ritmo da sua própria corrida?
O pior é que não parece ter sido só em Itália que os eleitores se mostraram indiferentes aos valores invocados pelo Nobel português. Como sublinhou Paulo Rangel, essa história da penalização dos partidos do governo é uma treta. Só nos países onde os partidos socialistas chefiam governos é que as eleições para o PE lhes foram desfavoráveis. Nos outros países, governados por partidos de direita, os partidos de governo foram premiados, obtendo vitórias, o que significa, na opinião de Rangel, uma rejeição generalizada das políticas "socialistas".
Será que os povos europeus acreditam mesmo que esta "crise" afinal é resultado de políticas de esquerda...? Ou serão os partidos socialistas que teimam em prosseguir as suas políticas andróginas e pagam depois por isso?
E estará Rangel --o declarado vencedor do grande concurso da "chuva de estrelas" da direita portuguesa-- convencido que os partidos à direita do PS já deixaram de precisar da "lebre" socialista para marcar o ritmo da sua própria corrida?
Subscrever:
Comentários (Atom)