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2011/01/25

Aberrações

A manifestação de uma organização que dá pelo nome de SOS Educação, feita hoje à porta do ME, que misturou crianças com caixões e gente graúda vestida de preto, é das coisas mais aberrantes que se viram neste país tão dado a aberrações. Há certos sectores da nossa sociedade que, ou se calam perante as injustiças em que o país é pródigo, ou, quando decidem intervir e tomar uma atitude cidadã, é isto. Organizam-se e comportam-se como criminosos.
Gostava que os arautos dos bons costumes, das virtudes da vida e da família, designadamente a Igreja Católica, tão pressurosos a tomar posição sobre tudo e mais alguma coisa, nos dissessem o que pensam deste triste espectáculo que consistiu em fazer desfilar crianças com caixões e crucifixos, sob a batuta dos nados mortos dos pais.

2010/08/05

Mas vamos ter submarinos, caraças!

Um "contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública" foi a justificação arranjada pelo Ministério da Educação para congelar as verbas atribuídas ao ensino da música, no âmbito do chamado ensino artístico.
Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda...
A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hora e que dizem querer proteger. E vamos ver como se resolve o problema dos alunos já matriculados, que agora ficam de fora por falta de verba...
É significativo que esta medida seja tomada pelo Ministério da Educação numa altura em que uma, digamos, escritora detém a pasta, e em que temos como Ministra da Cultura, digamos, uma pianista. Diz bem do peso que elas, a educação e a cultura terão no Conselho de Ministros e diz bem do peso que para estas ministras tem o ensino artístico. Cultura e ensino, são, como fica amplamente demonstrado para quem ainda tinha dúvidas, conceitos descartáveis.
Não pode esta medida deixar de suscitar a todos nós o mais vivo repúdio!

2010/07/31

Chumbos

O governo pretende, ao que parece, acabar com os chumbos no ensino. Confesso que não tenho certezas sobre esta medida, como não tenho certezas sobre a continuação dos exames. Mas, tenho umas quantas certezas sobre outros assuntos. Em primeiro lugar, tenho a certeza que esta medida, como outras deste governo, a ser implementada, correria o risco de, passado algum tempo, ser anulada, voltando tudo à primeira forma. Tem sido o modo de governar deste executivo. Primeiro, mandam o barro à parede, se pegar fica, se não pegar remove-se. Tudo depende do barómetro das sondagens e da "conjuntura" política... É isto o "programa" de governo e é assim que uma série de incautos vai mantendo a crença que o primeiro ministro é um "determinado" e alguém cheio de coragem.
Já a reacção da oposição traz-me à mente os filmes do Borat. As situações criadas por este personagem são tão embaraçosas que nem sequer dão vontade de rir. Deixam-nos incomodados. De entre os argumentos que ouvi para contestar a proposta do fim dos chumbos destaco dois: acabar com eles é um ataque à meritocracia e não contribui para preparar as gerações futuras para o mercado de trabalho competitivo.
Ouve-se e pasma-se!
Esquecem os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento do mérito, que não basta tê-lo, é preciso que seja reconhecido. Podem os alunos ser sujeitos a todos os exames e testes possíveis e imaginários, podem-se criar todas as escalas possíveis para aferir a sua resposta a estes testes e exames porque no final vai sempre faltar o reconhecimento, na prática, do mérito. De há muitos anos que o mérito está perfeitamente hierarquizado, que sabemos perfeitamente quem o tem e quem o não tem. Desprezamos os primeiros e promovemos os segundos. Até lhes damos lugares de topo no Estado! E sabemos mais! Sabemos que quanto mais mérito tivermos mais nos vão às canelas! Os meritosos acabam emigrantes...
Esquecem-se os cavalheiros que cantam estas melodias enganadoras, usando o argumento da competitividade, que mais do que preparar os mais novos para competir, interessa ao país prepará-los para cooperar. A competir já andamos todos, cada uma para seu lado, a espernear e a tentar sobreviver nesta sociedade onde as palavras solidariedade e cooperação foram de há muito banidas do dicionário, sem acordo ortográfico nem piedade. Seria interessante experimentar a colaboração e a solidariedade entre todos para resolvermos os nossos problemas, porque assim, a competir, está provado que não vamos lá.
Estão, pois, todos chumbados. Pena termos de gramar os repetentes...