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2010/11/26
2010/05/01
Indústrias criativas
Estamos a viver uma situação verdadeiramente sui generis em Portugal. O governo quer fazer o que quer. Tem a legitimidade governativa para o fazer. Mas a oposição não quer que o governo faça o que quer. Quer que o governo faça o que ela quer. Mas sem a legitimidade governativa. Embora com outra legitimidade para assim proceder, por ser maioria. O governo divide-se. Uma parte anuncia que quer fazer o que quer. Outra parte anuncia que quer fazer o que a oposição quer. Assim, a oposição faz o que quer, sem querer e sem ter legitimidade para o fazer, e o governo faz de oposição a si próprio já que vemos a oposição a limitar-se a querer fazer de governo. Sem poder.
Nem tudo o que o governo quer e faz, nem tudo o que a oposição quer ou pode fazer, porém, interessam minimamente ao País.
Mas governo, oposição, presidente da república, presidente do supremo, procuradores, procurados e demais individualidades, excelências, lá teimam em ir fazendo o que querem e o que não devem. Sem pudor.
O País vai assistindo a tudo isto, atónito e exaurido, com os seus horizontes cada vez mais acanhados. Iminentemente teso, vai ouvindo dizer que cada português deve não sei quantos milhões ao estrangeiro. Iminentemente aterrado, vai assistindo aos "ataques" dos "mercados" --que fazem o que querem e querem o que fazem, com ou sem legitimidade, pouco importa. Iminentemente incrédulo, vai ouvindo falar, de uma crise sem precedentes e de uma situação excepcional, que requer medidas excepcionais.
O País ouve falar da crise, observa a proeminente curva abdominal dos seus anafados arautos, repara no anel brilhante que reluz nos seus dedos, olha para a sua própria barriga encolhida, para os seus dedos desanelados, e deduz, com sabedoria, que a excepção das medidas excepcionais vai pesar sobre as costas dos clientes habituais.
Enquanto, olha para tudo isto, teso, aterrado e incrédulo, o País vai vendo o desfile carnavalesco das inacreditáveis comissões de inquérito e suas inúteis inquirições. Vai-se dando conta de que a máquina de produção de escândalos os cospe a uma cadência incomensuravelmente maior do que a capacidade das ditas comissões para os investigar. Vai-se dando conta de que a máquina judiciária não pode nisto ajudar porque gripou. Vai olhando para os gestores da massa falida pagos a peso de ouro, que conduzem grandes carros puxados por juntas de boys. Vai ouvindo falar das viagens da Medeiros e das incríveis justificações inventadas para as pagar. Vai ouvindo falar de uns submarinos que assentam que nem luvas nos desígnios de não se sabe bem ainda quem, embora se suspeite. Submarinos que, à falta de batalha naval, serão preciosos --as excelências têm disso a certeza-- para vigiar um mar cuja exploração o senhor presidente da república acha que pode no futuro --quando os submarinos já estiverem, quiçá, a precisar de peças novas-- ajudar a evitar que a economia meta ainda mais água. O País vai sendo seduzido, tele-guiado, conduzido a aceitar uns megaprojectos absurdos, de méritos e propósitos duvidosos ou mesmo estruturantemente inúteis. Projectos que lhe são enfiados pela goela abaixo, à força e sem dó, e lhe custarão um dinheirão, que o País não tem, mas que as agências de rating vão cuidando que lhe saia a um preço que os grandes especuladores farão o favor, sem preço, de o obrigar a pagar. Se não pagarem desce-lhe o rating para ter de pagar mais! Assim o País já tem objectivos pelos quais pode lutar. Luta para pagar o preço dos olhos da cara que tudo isto lhe vai custar, pelos séculos dos séculos que aí hão-de vir, amen, amen!, que o País vai afinal poder parar porque o Papa vai cá estar e que jeito que vai dar.
Certamente por tudo isto se fala hoje tanto --e mais uma vez com a ajuda preciosa do senhor presidente da república-- de "indústrias criativas."
Porque tudo o que aqui se passa hoje, em matéria de orientação e actuação política, é de facto o produto de uma pujante, dinâmica, eficiente e nunca como hoje tão espantosamente delirante, indústria criativa. Qual música, qual pintura, qual literatura, qual teatro! A criatividade mudou-se hoje para a política. De S. Bento a Belém está estendida uma linha de montagem que cria fa(c)tos às riscas, à medida destes artistas, moda radical com casaco de banda larga, gravata bordada a ponto-crise e PEC à tiracolo.
A pachorra para aturar tudo isto é que já há muito se esgotou. Trata-se de uma linha de montagem cujo turno era urgente substituir.
Nem tudo o que o governo quer e faz, nem tudo o que a oposição quer ou pode fazer, porém, interessam minimamente ao País.
Mas governo, oposição, presidente da república, presidente do supremo, procuradores, procurados e demais individualidades, excelências, lá teimam em ir fazendo o que querem e o que não devem. Sem pudor.
O País vai assistindo a tudo isto, atónito e exaurido, com os seus horizontes cada vez mais acanhados. Iminentemente teso, vai ouvindo dizer que cada português deve não sei quantos milhões ao estrangeiro. Iminentemente aterrado, vai assistindo aos "ataques" dos "mercados" --que fazem o que querem e querem o que fazem, com ou sem legitimidade, pouco importa. Iminentemente incrédulo, vai ouvindo falar, de uma crise sem precedentes e de uma situação excepcional, que requer medidas excepcionais.
O País ouve falar da crise, observa a proeminente curva abdominal dos seus anafados arautos, repara no anel brilhante que reluz nos seus dedos, olha para a sua própria barriga encolhida, para os seus dedos desanelados, e deduz, com sabedoria, que a excepção das medidas excepcionais vai pesar sobre as costas dos clientes habituais.
Enquanto, olha para tudo isto, teso, aterrado e incrédulo, o País vai vendo o desfile carnavalesco das inacreditáveis comissões de inquérito e suas inúteis inquirições. Vai-se dando conta de que a máquina de produção de escândalos os cospe a uma cadência incomensuravelmente maior do que a capacidade das ditas comissões para os investigar. Vai-se dando conta de que a máquina judiciária não pode nisto ajudar porque gripou. Vai olhando para os gestores da massa falida pagos a peso de ouro, que conduzem grandes carros puxados por juntas de boys. Vai ouvindo falar das viagens da Medeiros e das incríveis justificações inventadas para as pagar. Vai ouvindo falar de uns submarinos que assentam que nem luvas nos desígnios de não se sabe bem ainda quem, embora se suspeite. Submarinos que, à falta de batalha naval, serão preciosos --as excelências têm disso a certeza-- para vigiar um mar cuja exploração o senhor presidente da república acha que pode no futuro --quando os submarinos já estiverem, quiçá, a precisar de peças novas-- ajudar a evitar que a economia meta ainda mais água. O País vai sendo seduzido, tele-guiado, conduzido a aceitar uns megaprojectos absurdos, de méritos e propósitos duvidosos ou mesmo estruturantemente inúteis. Projectos que lhe são enfiados pela goela abaixo, à força e sem dó, e lhe custarão um dinheirão, que o País não tem, mas que as agências de rating vão cuidando que lhe saia a um preço que os grandes especuladores farão o favor, sem preço, de o obrigar a pagar. Se não pagarem desce-lhe o rating para ter de pagar mais! Assim o País já tem objectivos pelos quais pode lutar. Luta para pagar o preço dos olhos da cara que tudo isto lhe vai custar, pelos séculos dos séculos que aí hão-de vir, amen, amen!, que o País vai afinal poder parar porque o Papa vai cá estar e que jeito que vai dar.
Certamente por tudo isto se fala hoje tanto --e mais uma vez com a ajuda preciosa do senhor presidente da república-- de "indústrias criativas."
Porque tudo o que aqui se passa hoje, em matéria de orientação e actuação política, é de facto o produto de uma pujante, dinâmica, eficiente e nunca como hoje tão espantosamente delirante, indústria criativa. Qual música, qual pintura, qual literatura, qual teatro! A criatividade mudou-se hoje para a política. De S. Bento a Belém está estendida uma linha de montagem que cria fa(c)tos às riscas, à medida destes artistas, moda radical com casaco de banda larga, gravata bordada a ponto-crise e PEC à tiracolo.
A pachorra para aturar tudo isto é que já há muito se esgotou. Trata-se de uma linha de montagem cujo turno era urgente substituir.
2009/09/28
O que esta votação quis dizer
A maioria absoluta do PS nas eleições de 2005 foi alcançada porque uma maioria absoluta de portugueses queria, de facto, reformas em muitas áreas da nossa vida colectiva. Estou certo de que mesmo gente que votou nos outros partidos teria igual desejo. Há um desígnio comum, difuso, mas muito amplo e real.
O PS pareceu a muitos de nós capaz de, sob o comando de José Sócrates, levar por diante este projecto. O discurso de tomada de posse do primeiro ministro foi um primeiro sinal de que as expectativas geradas iriam encontrar eco nas políticas do governo. O governo PS teve todas as condições para fazer aquilo para que os seus apoiantes o mandataram. A maioria absoluta foi a expressão deste impulso colectivo, empolgante e necessário.
O desfecho deste episódio não foi, como sabemos, o melhor...
O resultado das eleições de ontem foi uma clara demonstração de que 1) os eleitores continuam interessados nestas reformas e 2) os eleitores perceberam que aquela maioria absoluta infectou o PS.
O PS perdeu o mandato inequívoco que lhe foi conferido em 2005. O PS perdeu!
E terá novos dissabores se continuar a olhar para o umbigo e se se esquecer que o tombo de ontem não foi maior porque há uma percentagem significativa de gente, que lhe deu o voto em 2005, que ainda pensa --legitimamente, ou não, não interessa-- que não houve tempo para cumprir o programa e decidiu dar-lhe, por mais esta vez, o benefício da dúvida.
Privado dos ingénuos que lhe deram o voto em 2005 e de muitos qua ontem teimaram em acreditar ainda na possibilidade de cumprir o programa de 2005, o PS estaria hoje ao nível do CDS-PP.
Ontem, todos os partidos subiram. Todos, até mesmo, pasme-se!, o partido da inimaginavelmente inapta M. Ferreira Leite!. Até o MRPP subiu e vai passar a beneficiar dessa subida...
Só o PS desceu.
O que esta votação quis dizer foi a reafirmação da necessidade das reformas.
O que esta votação quis dizer é que os partidos vão ter de se entender e a solução a solo não funcionou, nem pode funcionar se prevalecerem dentro dos partidos, sejam quais forem, interesses egoistas.
O que esta votação quis dizer é que os eleitores estão mais atentos do que julgavam alguns políticos e observadores medíocres da coisa pública.
O que esta votação quis dizer é que as agendas políticas dos partidos são todas legítimas e são todas para ter em conta, para discutir e dissecar com seriedade, sem ambiguidades, sem manobras manhosas e abertamente.
O que esta votação quis dizer é que uma certa forma de fazer "política", cerzida, frequentemente, na calúnia, no desrespeito, no golpe baixo, na arrogância, na grosseria e no interesse mesquinho, acabou.
O que esta votação quis dizer é que não é possível continuar a deixar que se confunda o governo da Nação com associações de defesa de interesses corporativos, de classe, de actividade económica ou de outra qualquer natureza.
O que esta votação quis dizer é que os responsáveis políticos do país têm de se entender, abandonar este estilo trauliteiro de resolver os nossos problemas colectivos e aprender a respeitar os interesses dos diferentes sectores da sociedade, tentando conciliá-los para bem da sociedade no seu conjunto.
O que esta votação quis dizer é que não há sectores da sociedade portuguesa virtuosos por direito divino, enquanto outros são pecadores contumazes por acção do demónio.
O que esta votação quis dizer é que a ingovernabilidade começa nos próprios políticos que confundem serviço público com o servir-se do público.
Quanto a mim, foi uma nova era que se iniciou ontem. Quem não percebeu isso está condenado a um ocaso político rápido. Chamem-me optimista, mas o futuro apresenta-se agora mais promissor.
O PS pareceu a muitos de nós capaz de, sob o comando de José Sócrates, levar por diante este projecto. O discurso de tomada de posse do primeiro ministro foi um primeiro sinal de que as expectativas geradas iriam encontrar eco nas políticas do governo. O governo PS teve todas as condições para fazer aquilo para que os seus apoiantes o mandataram. A maioria absoluta foi a expressão deste impulso colectivo, empolgante e necessário.
O desfecho deste episódio não foi, como sabemos, o melhor...
O resultado das eleições de ontem foi uma clara demonstração de que 1) os eleitores continuam interessados nestas reformas e 2) os eleitores perceberam que aquela maioria absoluta infectou o PS.
O PS perdeu o mandato inequívoco que lhe foi conferido em 2005. O PS perdeu!
E terá novos dissabores se continuar a olhar para o umbigo e se se esquecer que o tombo de ontem não foi maior porque há uma percentagem significativa de gente, que lhe deu o voto em 2005, que ainda pensa --legitimamente, ou não, não interessa-- que não houve tempo para cumprir o programa e decidiu dar-lhe, por mais esta vez, o benefício da dúvida.
Privado dos ingénuos que lhe deram o voto em 2005 e de muitos qua ontem teimaram em acreditar ainda na possibilidade de cumprir o programa de 2005, o PS estaria hoje ao nível do CDS-PP.
Ontem, todos os partidos subiram. Todos, até mesmo, pasme-se!, o partido da inimaginavelmente inapta M. Ferreira Leite!. Até o MRPP subiu e vai passar a beneficiar dessa subida...
Só o PS desceu.
O que esta votação quis dizer foi a reafirmação da necessidade das reformas.
O que esta votação quis dizer é que os partidos vão ter de se entender e a solução a solo não funcionou, nem pode funcionar se prevalecerem dentro dos partidos, sejam quais forem, interesses egoistas.
O que esta votação quis dizer é que os eleitores estão mais atentos do que julgavam alguns políticos e observadores medíocres da coisa pública.
O que esta votação quis dizer é que as agendas políticas dos partidos são todas legítimas e são todas para ter em conta, para discutir e dissecar com seriedade, sem ambiguidades, sem manobras manhosas e abertamente.
O que esta votação quis dizer é que uma certa forma de fazer "política", cerzida, frequentemente, na calúnia, no desrespeito, no golpe baixo, na arrogância, na grosseria e no interesse mesquinho, acabou.
O que esta votação quis dizer é que não é possível continuar a deixar que se confunda o governo da Nação com associações de defesa de interesses corporativos, de classe, de actividade económica ou de outra qualquer natureza.
O que esta votação quis dizer é que os responsáveis políticos do país têm de se entender, abandonar este estilo trauliteiro de resolver os nossos problemas colectivos e aprender a respeitar os interesses dos diferentes sectores da sociedade, tentando conciliá-los para bem da sociedade no seu conjunto.
O que esta votação quis dizer é que não há sectores da sociedade portuguesa virtuosos por direito divino, enquanto outros são pecadores contumazes por acção do demónio.
O que esta votação quis dizer é que a ingovernabilidade começa nos próprios políticos que confundem serviço público com o servir-se do público.
Quanto a mim, foi uma nova era que se iniciou ontem. Quem não percebeu isso está condenado a um ocaso político rápido. Chamem-me optimista, mas o futuro apresenta-se agora mais promissor.
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