2026/03/27

Generais de sofá (a guerra lá longe...)

Agora que a guerra parece estar "na moda", não há bicho careto que não venha aos estúdios televisivos mostrar a sua sapiência em geoestratégia e armamento sofisticado, coisas só ao alcance de mentes esclarecidas, que não se cansam de afirmar que a guerra está por um fio e que os vencedores serão (quem duvida?) os combatentes do "bem". 

Chamam-lhe "comentadores" e há-os de todas as matizes e plumagens. Uma coisa, parecem ter em comum: os combatentes do "mal" são, invariavelmente, russos, muçulmanos ou chineses, que também não são de fiar. Bons mesmo, são os americanos, mesmo quando sabemos que já provocaram centenas de guerras desde que existem como nação e que têm mais de 800 bases militares espalhadas pelo Mundo. Tudo para defender a democracia e a paz, claro.

Já os portugueses sempre foram anti-russos (48 anos de fascismo deixaram marcas). Acresce que os portugueses saíram dos fascismo, mas o fascismo não saiu da cabeça dos portugueses. Faz sentido: não basta mudar a Constituição para passarmos a ser democratas. Estas coisas são culturais e levam gerações a mudar. 

Com as recentes crises (subprime, covid, guerras...) a situação agravou-se e os velhos "fantasmas" voltaram, agora apelidados de "populistas" (um eufemismo para neo-fascistas mascarados de revoltados contra o sistema). Nada de muito novo aqui, já que o fascismo volta sempre, ainda que nem sempre seguindo os mesmos métodos. 

De todos os "combatentes pela liberdade", os militares são um grupo à parte. Destacam-se os generais, uma "casta" privilegiada, que raramente dá o corpo às balas, mas que manda os jovens para a frente da batalha, morrer em nome da pátria (!?).   

De há quatro anos a esta parte (Ucrânia) que os canais televisivos, estão enxameados de "experts" militares, para nos explicar a arte da guerra. Uns, porque dela nunca saíram e sofrem de stress pós-traumático (o Lobo Antunes explica); outros, porque têm pouca utilidade na vida civil e, já que não podem ganhar as estrelas de generalato nos campos de batalha, tentam compensar a inactividade com comentários no sofá. 

É fazer as contas: 4 anos de guerra (já são 3 guerras, entretanto...) a comentar diariamente os avanços das "tropas russas", pagos em avenças chorudas, sempre dá um bom pecúlio. 

E ainda dizem que a guerra não compensa...

2026/03/14

Foi você que pediu uma guerra?

Há duas semanas que o Médio-Oriente é palco de uma das mais devastadoras guerras em que a região tem sido pródiga. 

Desta vez, a razão invocada, para atacar o Irão, seria a alegada existência de capacidade nuclear daquele país. Dito de outro modo: o crescente programa de enriquecimento de urânio, levado a cabo pelo governo iraniano, faz suspeitar que o Irão possa fabricar bombas nucleares muito em breve e, com isso, ameaçar os países vizinhos. 

Esta é, pelo menos, a teoria de Netanyahu, que há mais de cinquenta anos se esforça por "provar" que o Irão está em vésperas de fabricar uma bomba para aniquilar Israel...Se é verdade ou não, ninguém pôde assegurar, ainda que os iranianos continuem a afirmar que o urânio enriquecido se destina a fins pacíficos e os israelitas (secundados pelos americanos), afirmem o contrário. 

Durante muitos anos a dúvida subsistiu, até que, no consulado de Obama, o presidente americano convenceu o Irão a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (2015). Esta situação permitia a inspecção e controlo periódico da IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) às reservas de urânio iranianas. O "Mundo" pareceu aliviado, ainda que os ataques perpetrados contra Israel por parte dos "proxis" do Irão (Hamas, Hezbollah, Houthis...) fossem frequentes.

Com a chegada de Trump ao poder, o acordo EUA/Irão foi abandonado unilateralmente (2018) pelos EUA. A partir daí, o Irão sentiu-se "livre" para continuar com o programa de urânio, que dura até hoje. Ou seja, não foi o Irão que abandonou o Tratado de Não-Proliferação, pelo qual se obrigava a permitir inspecções da IAEA, mas o governo americano. 

Com o regresso de Trump ao poder, Netanyahu, a contas com um processo judicial (que pode levar à sua destituição e prisão por corrupção, além de um mandato de captura emitido pelo TIJ) viu aqui uma oportunidade para reiniciar a sua "velha" guerra e obsessão: derrotar os Ayatollas. Agora, com o apoio dos EUA. 

Em Junho passado, houve uma primeira tentativa para destruir as centrais iranianas, naquela que ficou conhecida pela "guerra dos 12 dias". De acordo com Trump, o ataque tinha corrido tão bem que as centrais nucleares tinham sido completamente "obliteradas" (!?). Não teria ficado "pedra sob pedra", pelo que levaria anos até o Irão ter capacidade para fabricar bombas atómicas...

Depois desta guerra, as partes voltaram ao diálogo e recomeçaram as conversações com vista a controlar os ímpetos belicistas iranianos. Eis senão, quando, durante as reuniões entre os EUA e o Irão para estabelecer um novo acordo, os EUA/Israel decidem iniciar uma guerra, a que o presidente americano chamou de "preventiva". Uma guerra ilegal, à margem do direito internacional e condenada pela maioria dos países democráticos. 

É aqui que estamos. 

Porque a situação, para além de perigosa, raia a insanidade dos actores envolvidos, vale a pena relembrar algumas das declarações dos responsáveis americanos, nas duas últimas semanas:  

28 de Fevereiro (Trump): "Eles nunca poderão ter uma arma nuclear. Nunca".       

2 de Março (Marc Rubio): "Os EUA foram informados que Israel estava a preparar um ataque ao Irão e decidiram atacar "preventivamente". 

3 de Março (Marc Rubio, perante a imprensa) "foram os EUA a pressionar Israel para atacar".   

3 de Março (Trump): "Nós esmagámos o inimigo. A capacidade de "drones" e mísseis do Irão foi completamente destruída".

9 de Março (Trump): " A marinha do Irão já não existe. A aviação não existe. Podem render-se ou lutar até não terem mais homens". Ao NYT, Trump declara que tinha 3 boas opções (interlocutores) para negociar a rendição, mas que, entretanto "já tinham morto o Ayatollah Khameney e mais 20 subalternos e não havia ninguém com quem negociar" (!?).

9 de Março (Trump): "Não há uma resposta concreta para o fim da guerra. Pode durar 2, 4, 5 ou 6 dias. Durará o tempo que for necessário. Temos a capacidade para continuar mais 5 semanas e é isso que faremos".  No mesmo dia, declara que "já ganhámos a guerra".

11 de Março (Trump): "A guerra está quase a acabar. Já não existem mais "drones". Quando eu quiser, pode acabar".

11 de Março (Trump): "Não queremos sair mais cedo do Irão. Temos de terminar o trabalho. Ainda não estamos prontos".

11 de Março (Peter Hegseth): "Cabe ao presidente decidir, se estamos no início, no meio ou no fim da guerra". 

13 de Março (Trump, à entrada para o seu helicóptero): "Quando termina a guerra? Não sei. Essa resposta não lhe posso dar..."

Sobre opiniões erráticas e contraditórias, estamos conversados. Pior, era difícil. Começaram a guerra, mas não sabem quando esta termina e qual o plano para o dia seguinte (!?). Resta aguardar pelo fim deste conflito que, entretanto, multiplicou por três (Ucrânia, Irão, Líbano...) e esperar que o Mundo não incendeie de vez. Já estivemos mais longe. 

 

(foto Tel Aviv, BBC)

2026/02/28

Taxi Driver (46)

Cheias deixam rasto de destruição em Leiria

- Para a Buraca, sff.

Por onde quer ir?

- Talvez pelo Rato. Pela Ferreira Borges, parece-me difícil, está em obras... 

Pela Ferreira Borges, nem pensar. Nunca mais de lá saímos. Vamos tentar pelo Rato, concorda?

- De acordo. É sexta-feira, nunca se sabe...

É obras por todo o lado. Agora, até a D. Carlos 1º está em obstruída, por causa do metro. Isto nunca mais acaba. Quanto mais tempo demorarem as obras, mais dinheiro custam e mais gente ganha com isso...

- É a tradição portuguesa. Tudo demora mais tempo que o previsto e custa mais dinheiro do que o orçamentado. Somos bons a criar, mas não sabemos gerir. 

É verdade. Se for um alemão a montar um móvel e não tiver o parafuso certo, já não o monta. Mas, se for um português, arranja sempre uma solução. Desenrascamos...

- Não é bem assim. O que se passa é que os alemães são mais organizados e fazem bem aquilo em que se especializaram. A nossa cultura é geral, mas não somos especialistas em nada. Por outro lado, temos opinião sobre tudo. 

É verdade. No Verão passado eu e a minha mulher fizemos férias na Dinamarca e parecia que estávamos num jardim. Tudo organizado e limpo, as pessoas felizes e simpáticas, até o tempo estava óptimo e havia pessoas na praia. Quero lá voltar. Aquilo sim, é um país organizado. Gostámos muito. 

- Conheço bem. Onde esteve? 

Fomos de carro e estivemos em Copenhagen e em Aarhus, onde temos amigos. Também andámos no barco que faz a travessia. Muita gente a andar de bicicleta...aquilo é outra vida. Não se vê stress...

- A quem o diz. Vivi muitos anos na Holanda e há muitas semelhanças entre os dois países. São ambos países pequenos, mas com populações educadas. Por isso são ricos e bem organizados. Tem a ver com a educação e disciplina no trabalho.

Deve ser isso. Aqui as pessoas são mais individualistas. Já viu como os portugueses andam no trânsito? Parece uma luta de vida ou de morte. Ninguém respeita ninguém. Eu moro em Benfica e tenho um vizinho em frente que, quando chega a casa, estaciona o carro atravessado para ocupar dois lugares. O outro lugar é para a mulher quando chega do emprego! Só pensam neles. 

- É verdade, mas, lá está: a educação e a urbanidade não são o nosso forte... 

Vou-lhe contar outra história: fiz diálise durante muitos anos e o SNS pagava-me o táxi para ir ao hospital. Também ia lá um casal, ambos fazerem diálise. Como o táxi era pago, em vez de irem os dois num só táxi, ia cada um no seu! Isto, faz algum sentido? 

- Pois...não sabia que o SNS pagava táxis...

Até paga ambulâncias para fora da cidade. Uma vez, não pude fazer a diálise aqui em Lisboa e pagaram-me a ambulância para ir ao Porto. Já imaginou quanto é que aquilo custou? 

- Deve ter sido no tempo das "vacas gordas" do SNS. Agora, até os partos são feitos em ambulâncias...

Nada funciona. Já viu os estragos destas últimas semanas. Tudo destruído. Agora dizem que a Europa vai ajudar, mas nunca vai chegar.

- Pois não. A UE tem um fundo para catástrofes naturais, que anda à volta de 3% do PIB. No nosso caso, será qualquer coisa como 6.000 milhões de euros. Não chega sequer para a região de Leiria...

Ainda por cima, é das zonas mais industriais do país, com milhares de empresas exportadoras. E agora?

- Um drama. Para os empresários, mas também para os trabalhadores, que ficam sem salário. É preciso um plano nacional. 

Se demorarem tanto tempo, como a planear o novo aeroporto, nunca mais vão reconstruir nada. Há um aeroporto em Beja, que não é utilizado e está ali às moscas. Bastava construir uma linha de comboio até Lisboa e, depois, até ao Algarve e podia ser um motor de desenvolvimento para toda a região. Quando fui a Londres, desembarcámos no aeroporto de Tunstead, que fica a mais de uma hora da cidade. Qual é o problema?

- Sim, conheço o aeroporto do Beja. Tem a maior pista do país, mas faltam infraestruturas. Um aeroporto, não é só uma pista e uma hangar para aviões e passageiros. De acordo com os especialistas, não se justifica construir um aeroporto nacional em Beja, porque isso exigiria uma cidade de 50.000 pessoas que justificasse tal obra. Não é rentável. Londres tem outra dimensão. 

Nunca mais saímos da cepa torta, é o que é! O senhor ainda é mais pessimista do que eu...

- Eu? Nem por isso. Basta comparar. Podíamos ser um pequeno paraíso, mas não sabemos governar-nos. É pena. 

Pois é, mas há gente que se governa bem...

- Eu sei, eu sei. 

(foto Diário de Leiria)

2026/02/16

Um presidente de galochas

Terminadas as votações, nas freguesias inundadas pelo mau tempo, confirmou-se a vitória do candidato social-democrata, António José Seguro, vencedor incontestável a 8 de Fevereiro. 

Nada que surpreenda, a não ser a esmagadora vitória, a maior de sempre da história da democracia, com mais de 3,5 milhões votos, mais do dobro do candidato fascista.

Esta é uma vitória, conseguida a pulso, de alguém em quem poucos acreditavam à partida (a começar pelo próprio partido do vencedor) que, na fase final, conseguiu galvanizar as forças democráticas contra o candidato populista de extrema-direita.

Se alguma conclusão há a extrair, é a existência de uma maioria sociológica democrática que, de resto, já era evidente na desproporcionalidade de votantes nos candidatos em disputa: 75% versus 25%. 

Uma boa notícia, que deve ser saudada por todos os democratas, em tempos de ascensão do populismo/fascismo que assola grande parte do Mundo Ocidental. 

Se a vitória de Seguro (em tempos de escuridão) pode significar uma "luz ao fundo do túnel", só o futuro dirá. Conhecido como um representante da ala "moderada" do PS, herdeira da famigerada 3ª via de Blair e Clinton, o novo presidente não terá uma tarefa fácil. Desde logo, na dificuldade pessoal em (auto) definir-se como de esquerda, num ciclo político em que a direita governa e tem maioria parlamentar. 

Depois, os seus problemas, não serão apenas de foro pessoal. À esquerda, o PS (do qual foi secretário-geral) está longe de recuperar da "travessia do deserto" que iniciou com a dupla derrota de Pedro Nuno Santos; enquanto, à direita, para além dos partidos da governação, existe agora uma terceira-força, que já é segunda em número de deputados.

Ou seja, Seguro terá de exercer a sua magistratura de influência, entre três forças teoricamente antagónicas, que continuarão a esgrimir argumentos na arena política nacional: um governo tentando chegar ao fim da legislatura e os partidos da oposição tentando evitá-lo, para poderem tirar dividendos da situação.

Para piorar este quadro, adivinha-se um período de recessão económica, em consequência dos custos (estimados em mais de €5000 milhões) com as reparações da tempestade e das cheias, que não deixarão de reflectir-se nas contas finais do défice.  

Para já, e citando o  célebre marquês, "há que tratar dos vivos e enterrar os mortos". Esta é a prioridade nacional. Perante a catástrofe, que assolou o país nas últimas semanas, qualquer aproveitamento seria voltar ao grau zero da popularidade dos políticos, que continua a andar pelas ruas da amargura.  

Esta situação, parece ter sido compreendida pelo futuro presidente que, mesmo antes de tomar posse, preocupou-se em avaliar os estragos. Portugal necessita de políticos que saiam dos gabinetes. Agora, necessitamos de um presidente que dê o exemplo e calce as galochas. 

 

2026/01/28

Debates Presidenciais (2)

Foi um debate fraco e demasiado longo para a importância que lhe quiseram dar.

A Seguro bastou fazer-se de "morto" e controlar as emoções (ele é bom nisso), enquanto Ventura esteve ao nível de arruaceiro a que nos habituou. 

Ainda bem que os debates terminaram. Já não há paciência para tanto disparate.  

Mais uma vez, pouco ou nada se falou de política internacional, como se Portugal fosse uma ilha isolada neste Mundo em convulsões. Ninguém sabe o que os candidatos pensam ou farão, em crises tão graves como a guerra na Ucrânia, a situação na Palestina, a política hegemónica dos Estados Unidos sob Trump, a posição de Portugal na UE e na NATO ou os acordos do Mercasul, para citar algumas questões pertinentes. 

Neste capítulo, a responsabilidade foi também dos jornalistas, mal preparados e atemorizados perante o chorrilho de asneiras e as interrupções do candidato de extrema-direita. 

Seguro vai ganhar (quem duvida?), mas não deixará de ser um candidato mole e sem chama. Dali não virão criticas a Montenegro. Já o primeiro-ministro terá de preocupar-se com Ventura, a maior ameaça à sua direita, agora que disputam o mesmo campo ideológico.

O candidato fascista perderá, mas o fascismo não desaparecerá ("O eterno retorno do fascismo", Rob Riemen, ed. Bizâncio, 2012).  Estamos avisados.  

2026/01/19

Democracia versus Autoritarismo

Os resultados das eleições presidenciais, não constituem propriamente uma surpresa. Passaram à 2ª volta, os candidatos que, ao longo da campanha, foram apontados como os finalistas mais prováveis. 

Se houve surpresa, foi nas percentagens finais, já que a maioria das sondagens sempre colocou Ventura à frente de Seguro, o que se revelou ser um erro de "percepção". Resta saber, se dos entrevistados, se das empresas de sondagens, ou de ambos...

Para esta, aparente, discrepância, poderá haver várias explicações: o número de candidatos, que tornou esta eleição a mais disputada de sempre; a alta percentagem de indecisos, ate às vésperas da eleição; e a consciência do perigo de uma vitória do candidato fascista. 

Pesem todos os prós e contras, o resultado de ontem não pode deixar de agradar aos democratas que, não se revendo na personalidade e nas ideias de Seguro (contra mim, falo), não deixaram de congratular-se por esta primeira vitória da democracia. Apesar disso, este resultado, sendo importante, poderá não ser suficiente. Nada está garantido, ainda que a dinâmica de vitória e os apoios, possam crescer a partir de agora. 

Contas feitas, Seguro tem agora, para além dos 31% da sua campanha, mais 5% dos pequenos partidos de esquerda e grande parte dos votos de Marques Mendes, de Gouveia e Melo e, quem sabe (?), de muito boa gente da Iniciativa Liberal, que não se revê necessariamente no fascismo de Ventura e das franjas mais liberais da AD e da IL. Tudo somado, certamente suficiente para obter 50% dos votos na 2ª volta. 

Já Ventura, apesar de ter mantido os votos do seu grupo-alvo (23,5%, a votação máxima do partido), poderá crescer à direita, agora mais dividida que nunca e pressionada perante o perigo de deixar crescer demasiado o Chega. Será realista pensar que (o Chega) pode crescer até aos 30% ou 35%... 

Estranho, ou talvez não, foi o "silêncio ensurdecedor" do primeiro-ministro e das candidaturas de Marques Mendes e de Gouveia e Melo, relativamente ao endosso de votos na 2ª volta. Era de esperar mais clarificação nas suas opiniões. Afinal, o que está em causa, é defender a eleição de um candidato democrata versus um candidato autoritário. Será que têm dúvidas?...

Faltam três semanas para a próxima ronda e nada está garantido. Para Montenegro, a ideia de ter um presidente da área "socialista", não deve "assustar" mais do que ter um presidente fascista. Ventura já disse ao que vem e tudo fará para canibalizar o PSD e tornar-se o líder da direita portuguesa. Já de Seguro, um representante da "3ª Via", pouco há a temer. Com ele, o governo, poderá "dormir" tranquilo... 

2026/01/12

A Campanha


A menos de uma semana das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 18, a imprevisibilidade é maior que nunca. 

Algumas coisas são, no entanto, previsíveis. Assim, e ao contrário de todas as presidenciais, haverá uma segunda volta. A excepção, foi em 1986, quando houve necessidade uma volta-extra, para apurar o vencedor, entre Mário Soares e Freitas do Amaral. 

Outra coisa previsível, é o número de candidatos com possibilidade de passar à 2a volta. São cinco neste momento. Os restantes, independentemente da votação final, não ultrapassarão a fasquia dos 5%, considerada insuficiente para almejar voos mais largos.  

Destes cinco, três ficarão pelo caminho, no próximo domingo. Porque todos têm, teoricamente, possibilidade de passar (a margem de erro entre o primeiro e quinto candidato não ultrapassa, neste momento, 4%) não são de prever desistências ou apelos ao "voto útil". Todos os candidatos afirmam a sua independência e desejo de passarem, sabendo que, no dia 8 de Fevereiro, haverá a decisiva "contagem de espingardas". Será então, que os "campos", vão definir-se. 

A acreditar nas últimas sondagens (saídas antes do início da Campanha), o candidato da extrema-direita (André Ventura) parecia ser o único com lugar "garantido" na 2a volta. Sendo assim, restam quatro candidatos, respectivamente Gouveia e Melo, Marques Mendes, António Seguro e Cotrim de Figueiredo, com possibilidades reais de disputar a "finalíssima". 

Com o início da Campanha, um factor importante parece estar a alterar o comportamento dos eleitores: o surgimento dos "tracking polls" que, diariamente, publicam uma sondagem feita numa população aleatória, de 200 pessoas. Todos os dias são interrogadas 200 pessoas diferentes, que substituem os 200 inquiridos mais antigos. Esta flutuação, nas intenções de voto, está a alterar o comportamento dos eleitores que, começam a admitir a passagem à 2a volta de António Seguro e Cotrim de Figueiredo, os candidatos menos votados após os debates. Contrariamente, figuras como Gouveia e Melo (durante muitos meses visto como vencedor incontestado) e Marques Mendes (candidato apoiado pelos partidos do governo) parecem estar a perder gás e correm o risco de nem sequer passar à volta seguinte. 

Tudo em aberto, pois, já que as diferenças percentuais entre estes candidatos se mantêm dentro da margem de erro. 

Esta semana, sairão as últimas e mais importantes sondagens (TSF, JN, Público, Católica) que, para além da sua maior fiabilidade, são publicadas a menos de 4 dias do escrutínio e podem decidir o voto da "última hora", a melhor sondagem de todas. 

Uma coisa é certa: de todas as campanhas realizadas, esta é a que tem maior número de candidatos e, provavelmente, os menos qualificados. Nenhum convence e nunca foi tão difícil escolher. Também, neste capítulo, Portugal não é diferente da maioria dos países europeus, onde a mediocridade é regra. Como diriam os franceses, é apenas "l'air du temps"...

 

2026/01/05

Taxi Driver (45)

Está "livre"?

- Sim, para que lado vai?

Para a Buraca.

- Bom, estava a pensar ir jantar, mas entre lá. Ainda há pessoas dentro do Shopping? Já são 8horas...

Há, mas eu venho do cinema e as sessões terminam mais tarde.

- Alguma coisa de interesse em cartaz?

 Alguns filmes interessam, sim. Mas são poucos, nesta época.

- Eu para mim, só musicais. Tenho visto quase todos. Ainda estou à espera de um bom sobre o Freddie Mercury...

Dos "Queen"? Parece que há um filme biográfico, com um actor parecido...

- Ninguém imita o Freddie! Já vi bons filmes sobre o Dylan, o Springsteen, mas o Freddie é inimitável.

Sim, acredito que seja difícil, mas arranja-se sempre um bom actor ou cantor que o faça. Já vi bons filmes sobre cantores norte-americanos e europeus e eram bastante bons.  

- Conhece o Léo Ferré? Conhece com certeza... 

Conheço, claro. Tenho discos e vídeos dele e até o vi ao vivo duas vezes. 

- No Coliseu? Também, estive lá...

Por acaso, vi-o no estrangeiro. Na Holanda, na década de oitenta...

 - Que sorte! Quem é que viu mais?

- Sei, lá, grupos famosos da altura...os Stones, os Pink Floyd, os The Band, os Beachboys, o Dylan, os Chicago...

- Desculpe lá a pergunta. E tem discos dessa gente toda? 

Tenho, claro. Entre LPs e CDs, mais de dois mil. Perdi a conta...

- Isso vale uma fortuna...

Talvez, nunca avaliei a discografia...

- Sabe qual o artista que tem o "record" mundial de vendas? Veja lá se adivinha...

Talvez a cantora norte-americana da moda...

- A Taylor Swift? Está perto. Não, quem continua a vender mais é o Elvis. Sabia? 

Não me surpreende, mas não sabia, não...

- E tem LPs do Elvis? E, já agora, do Johnny Cash?  

 Por acaso, tenho. Não muitos, mas os mais antigos. A melhor fase de ambos. 

- E dos Emerson Lake and Palmer? E do Jethro Tull, também? E dos Crosby, Stiil and Nash? São muito difíceis de encontrar...

 Por acaso, tenho deles todos. Um ou dois de cada grupo, no máximo...

- Já percebi. O senhor é como eu. Um coleccionador.  Desculpe lá, só mais uma pergunta: também tem o "White Album" dos Beatles? Não se arranja...

Por acaso, tenho. Tenho a maior parte dos discos dos Beatles. Todos em LP.

- E tem a certeza que não quer vender esse? 

A certeza absoluta. 

- Pronto, não faz mal. Eu faço sempre esta pergunta. Nunca se sabe. Há tempos, em conversa com uma senhora, ela disse-me que tinha uma coleção de LPs em casa e que queria desfazer-se deles. Fui lá ver, mas, a maior parte, eram de música clássica. Não valem nada. Comprei-lhe a colecção toda de Pop/Rock. A 5euros cada. Um bom negócio! Para ela e para mim. Está a ver?...

Estou a perceber. Boa noite e bons negócios. 

2026/01/03

2026: O Inverno do nosso descontentamento

Não começou bem o ano. 

Para quem, ainda há três dias, fazia votos de paz no Mundo, Trump (who else?) encarregou-se de desfazer as poucas ilusões que restavam. 

O ataque, esta madrugada, à Venezuela, um país soberano (ainda que governado por um autocrata), deve ser objecto de condenação e repúdio por todas as forças democráticas internacionais, única forma de salvaguardar o que resta do direito internacional e das instituições que asseguram o cumprimento das suas leis. 

Acontece que o Mundo mudou e não foi para melhor. A chegada ao poder de autocratas como Trump, fortaleceu outras ditaduras que, por sua vez, vêem na eleição do presidente americano, a validação das suas próprias políticas de expansão. O caso mais notório é o de Israel, que continua impunemente a ocupar territórios e a matar indiscriminadamente civis, num dos maiores genocídios cometidos no pós-guerra. 

O Mundo unipolar acabou. As grande potências (leia-se, ditaduras) preparam-se para dividir o Mundo em zonas de influência, com vista a dominar o controlo e exploração das riquezas fundamentais para a sua dominação. Os EUA voltaram à "doutrina Monroe" e preparam-se para "libertar" a América Latina de influências estrangeiras; em troca, Trump "oferece" a Ucrânia a Putin, que continua a sua expansão imperialista para Ocidente; enquanto a China, ficará com o Pacífico e, mais cedo ou mais tarde, anexará Taiwan. 

Resta saber, como foi possível raptar Maduro da Venezuela sem cumplicidades internas e, eventualmente, do apoio implícito de outros governos, informados previamente da operação...  

Da Europa, como de costume, nada de relevante a assinalar, à excepção das declarações de Kallas, a "tonta" de serviço, que se apressou a condenar o governo de Maduro, como se o facto, de ele ser um ditador, pudesse justificar o ataque a um país soberano. Já de Rangel, certamente desaparecido em combate, nada de significativo como de costume, salvo a pífia declaração de que a comunidade portuguesa emigrada na Venezuela, está sã e a salvo. Antes assim...

Bem vindos a 2026!