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2026/01/28

Debates Presidenciais (2)

Foi um debate fraco e demasiado longo para a importância que lhe quiseram dar.

A Seguro bastou fazer-se de "morto" e controlar as emoções (ele é bom nisso), enquanto Ventura esteve ao nível de arruaceiro a que nos habituou. 

Ainda bem que os debates terminaram. Já não há paciência para tanto disparate.  

Mais uma vez, pouco ou nada se falou de política internacional, como se Portugal fosse uma ilha isolada neste Mundo em convulsões. Ninguém sabe o que os candidatos pensam ou farão, em crises tão graves como a guerra na Ucrânia, a situação na Palestina, a política hegemónica dos Estados Unidos sob Trump, a posição de Portugal na UE e na NATO ou os acordos do Mercasul, para citar algumas questões pertinentes. 

Neste capítulo, a responsabilidade foi também dos jornalistas, mal preparados e atemorizados perante o chorrilho de asneiras e as interrupções do candidato de extrema-direita. 

Seguro vai ganhar (quem duvida?), mas não deixará de ser um candidato mole e sem chama. Dali não virão criticas a Montenegro. Já o primeiro-ministro terá de preocupar-se com Ventura, a maior ameaça à sua direita, agora que disputam o mesmo campo ideológico.

O candidato fascista perderá, mas o fascismo não desaparecerá ("O eterno retorno do fascismo", Rob Riemen, ed. Bizâncio, 2012).  Estamos avisados.  

2022/03/24

Por assim dizer...


Como não vejo "noticiários" nos dias que correm, teve que ser mão amiga a chamar-me a atenção para as declarações feitas por este comentarista de nome José Manuel Fernandes, ontem na RTP3 no 18/20. Delas retirei o extracto que pode ser visto e ouvido no vídeo supra. 

Ontem passámos, como tem sido amplamente divulgado, a ter mais tempo de Democracia que de ditadura. Tempo de Democracia que nos  trouxe muita coisa boa, incluindo o facto de as pessoas se poderem revelar livremente, sem medo de represálias.

Mas, no dia preciso em que o relógio da História marcou esta nova era, como que a fazer pouco da data, as declarações desta criatura inqualificável, fazem-nos reflectir sobre este regime em que nos vamos arrastando. 

O 25A trouxe a liberdade de expressão. Um privilégio que, como se pode ver a toda a hora, por todo o lado, dá para tudo. O significado da "liberdade de expressão" ficou patente com a crise da covid e está a ser possível percebê-lo agora, com o conflito na Ucrânia. São, diria, exemplos clros e inequívocos, mas é possível perceber isso noutros aspectos da nossa vida social, até na mais inocente conversa de café. Através do entendimento que cada um tem da "liberdade de expressão" é possível concluir o que aquele ou aquela que se exprime, entende por liberdade.

O que a criatura do vídeo revela, através do seu exercício da "liberdade de expressão," é mais, ou, pelo menos, tão grave quanto a privação dessa liberdade… E os exemplos mutiplicam-se, desde o mais notório órgão de comunicação, até ao mais banal mural de facebook, passando, como acima referi, por uma banal conversa de café. Só é preciso estar atento. 

Mas com tanta "liberdade de expressão," os desatentos, por mais notórios ou anónimos que sejam, por mais ou menos ingénuos que se revelem, transformaram-se, verdadeiramente, no mal maior. O que os leva a, por assim dizer, serem os carrascos do regime que lhes concede o exercício impune dos seus privilégios.

2021/04/25

O 25 de Abril e o SNS

 


Falar do 25 de Abril, nesta altura, leva forçosamente a ter de falar do SNS. Que nesta data fundadora pousa as suas raízes estruturais. 

Nem quero imaginar o que teriam sido os últimos meses se não houvesse SNS. Fundado e assente, ainda hoje, num espírito de resistência e de visão da sociedade, que já tinha dado provas antes da data revolucionária. Lembro-me de ver pessoal da saúde, incluindo muitos estudantes de medicina de então, ajudando, como voluntários e contra as manobras, a inacção e a vergonhosa incompetência do regime de então, durante episódios como as cheias de 1967 (ver aqui). Lembro também a criação do Serviço Médico à Periferia, o seu papel revolucionário, que, penso, de alguma forma prenunciou a criação do SNS (ver aqui.)

Nesta altura da vida do País é bom lembrar a importância do SNS e a sua actuação durante esta crise. Uma actuação exemplar, reconhecida por muitos, mas talvez ainda não tão amplamente valorizada quanto seria justo que fosse. De tão mal tratado, o SNS banalizou-se. Porquê? Talvez a Democracia precise de dar uma resposta a esta pergunta.

É preciso repensar constantemente a Democracia. É fundamental sublinhar que o SNS é uma das mais importantes conquistas de Abril, incompatível, ou melhor, só possível, com a instauração da Democracia. Sem ela não haveria SNS. É bom lembrar isto.

25 de Abril sempre!

2020/09/13

Cucú...

Há várias palavras que me vêm à mente quando penso no recente episódio do apoio do Primeiro Ministro António Costa à candidatura do presidente de um clube de futebol. Nenhuma delas é simpática. Fiquemos por três das mais benignas: vergonha, irresponsabilidade e traição. 
Quando António Costa se candidatou ao cargo de Secretário Geral do seu partido fui um dos que passou por todo aquele processo de inscrição no PS para poder votar nas eleições abertas que o conduziram a esse cargo. Não sou dessa área política e nunca estive militantemente envolvido nela. Tenho, aliás, as mais sérias reservas em relação ao PS. Mas o trauma causado pelo Coelho et al era imenso e numa perspectiva democrática e de esquerda, o PS parece ser um partido que tem um papel importante a desempenhar. Entendi então — eu e, pelo que sei, muita gente como eu — que a unidade de esquerda é um valor absolutamente vital e que, nesse contexto, Costa parecia a pessoa indicada para a promover. Aquele primeiro mandato correu inegavelmente bem. A fasquia também não estava muito alta, é certo, tal foi o descalabro do governo anterior. Mas mesmo com a fasquia baixa haveria sempre a possibilidade de passar por baixo, o que não foi o caso. Este segundo mandato começou mal. A pandemia veio pôr a capacidade do governo e da oposição à prova. Se é certo que a oposição foi igual a si própria, ie, um desastre, do PS esperar-se-ia muito mais. A oportunidade oferecida pela crise para criar condições de reequilíbrio e retoma foi vergonhosamente desperdiçada. Nem a pseudo indignação perante as atitudes criminosas dos dirigentes de alguns países europeus nem a bravata da "bazuca" podem esconder a falta de golpe de asa, a submissão aos grandes interesses e a condescendência para com as forças que teimam em conduzir o mundo para o cataclismo final. O governo PS tem sido um desastre que se tem, a pouco e pouco, aproximado daquele partido que nos habituámos a ver envolvido com a direita, no regabofe a que eufemisticamente se chamou de "arco da governação." A reaproximação de algumas figuras particularmente sinistras do PS, a que ultimamente temos assistido e as públicas provas de dissensão interna vêm provar que a deriva era real e não uma fantasia. Não era, afinal, fruto de uma qualquer teoria da conspiração mal enjorcada. A provocação insuportável feita agora aos partidos da coligação informal de esquerda, que foi feita a propósito do OE, não é uma tentativa de estabelecer um compromisso realista, é uma chantagem miserável, mais um episódio naquele processo de meter o socialismo na gaveta, que infelizmente parece ter dado novamente à Costa... Passámos da terceira via para a via Vieira. Uma vergonha tudo isto, portanto, em nome do chuto na bola... 

Mais do que o exercício de um direito que assistiria a Costa, como cidadão, não fosse ele Primeiro Ministro, esta inclusão na "comissão de honra" de um candidato à direcção de uma agremiação do chuto na bola cava um fosso brutal na sociedade portuguesa. A "futebolização" do processo político é um erro trágico. O futebol tem peso, é certo, mas terá efeitos em todas as direcções. Afasta os adeptos dos outros clubes e não é sequer unânime dentro do seu clube. Tudo isto seria mau em qualquer altura, porque a responsabilidade sagrada de um dirigente político é construir a unidade do povo que serve e contribuir para a preservar. Mas num momento como este, essa responsabilidade é ainda maior, porque o que ele está a pedir repetidamente aos portugueses é que não se esqueçam disso. Só juntos vamos conseguir ultrapassar a "crise," ouvimos dizê-lo até à exaustão. Perdeu agora toda a autoridade para o fazer e colocou com isso o povo que serve numa situação de risco. Ele é o chefe de um executivo que tem responsabilidades na condução de uma política que por mais bem gizada que estivesse tecnicamente (e aí também há inúmeras razões de queixa,) necessitaria sempre de uma coesão total do país para ter sucesso. Imagine-se o que é um tipo qualquer de outro clube se recusar a usar máscara ou, infectado, a obedecer a uma imposição de quarentena porque o Costa é "lampião"... O pior que nos poderia acontecer era entramos em autogestão. Mas as portas estão escancaradas para que isso aconteça. Uma irresponsabilidade, portanto, em nome do chuto na bola... 

Quando fomos fazer aquela inscrição no PS para conduzir António Costa ao cargo de Primeiro Ministro, fizemo-lo em prol da ideia de Democracia e numa perspectiva de esquerda. Democracia e esquerda! O contrato era este: preservar os princípios da Democracia numa perspectiva de esquerda, assente em ideais de esquerda, humanistas e de solidariedade social. Esta atitude do Primeiro Ministro põe em causa este combate e fere o nosso contrato. O futebol é um campo de divisão. Enfraquece, estupidamente, o combate ao criar condições para afastar dele os cidadãos, em vez de os congregar. E começa logo por afastar gente de outros clubes e, até muita gente dentro do seu clube, que não se identifica com o candidato que ele apoia. As consequências de tudo isto vão certamente ser desastrosas para o regime democrático, na perspectiva de um pensamento de esquerda. Não foi isto que nos levou a apoiá-lo. Trata-se, portanto, de um traição aquilo para que António Costa arrastou aqueles que atraiu em 2015. Em nome do chuto na bola... 

Tudo isto é tão bazaroco que a única explicação possível que encontro é esta: António Costa está cansado, farto do cargo, deve ter arranjado já um tacho qualquer numa dessas instituições internacionais, onde todos eles acabam, quer provocar eleições e pôr-se ao fresco. Poderá também estar a precipitar uma crise no próprio PS. Porque se é certo que o PS é necessário à Democracia, também é verdade que o PS é necessário... ao PS. Uma coisa é garantido: vai à vida dele. Outra coisa garantida: com o meu voto e o meu empenho, os Costas deste mundo não vão de certeza voltar ao poleiro.

2019/07/31

Criadores e Criaturas

Maus de Art Spiegelman
Que o Mundo pode ser um lugar perigoso, já sabíamos há muito tempo.
Provavelmente, desde que o homem é "sapiens" e iniciou a luta pelo seu território.
Com altos e baixos, a História foi-se fazendo, sempre de maneira diferente, mas nem por isso menos surpreendente, uma vez que a História (em princípio) não se repete. Ou melhor, como dizia o filósofo, repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.
Tudo isto, a propósito da recente "onda" de ditadorzecos, uns exercendo o poder de facto e outros aspirando a tal, que têm surgido um pouco por todo o lado. O processo vem de trás, mas o "Brexit", a eleição de Trump e a ascensão dos populismos na Europa, são sinais inequívocos desta tendência regressiva. Juntem-se, a estes exemplos, a China de Xi Jinping, onde o poder é exercido com mão de ferro; a autocracia mal disfarçada de Putin; a democracia musculada de Erdogan; a demência de Duterte; ou o regime proto-fascista de Bolsonaro, para termos uma ideia do que pensam e fazem tais persongens.
Ainda que tenham características comuns, a verdade é que o poder de uns (Trump, Xi, Putin...) é incomensuravelmente maior do que outros, os quais representam um perigo regional, que não deve ser subestimado. Estão neste caso, Erdogan, Duterte, Maduro ou Bolsonaro.  
Como chegámos aqui?, é uma pergunta recorrente, feita pelos mais diversos analistas. As causas são várias, pois nem todos os países foram confrontados com o mesmo tipo de problemas que poderão estar na origem de tal fenómeno: dos efeitos da recente crise económico-financeira, ao terrorismo internacional, passando pela crise dos refugiados e emigrantes (ligada à islamofobia e ao racismo crescente), são múltiplas as explicações para o recrudescimento do autoritarismo, da xenofobia e da "supremacia branca", que existe em todos os regimes populistas mencionados.
Em artigo recente, Nuno Severiano Teixeira ensaia uma explicação para o ataque a que as democracias estão, actualmente, sujeitas: "Mas, sejam quais forem as razões, uma coisa é certa: a liberdade e a democracia estão sob assalto e globalmente em retrocesso. Mais: se olharmos para esse retrocesso, uma coisa parece evidente: a queda das democracias já não é o que era. Dantes, caíam de um só golpe, súbita e estrondosamente, à força de armas. Era o tempo dos golpes de Estado. Hoje, caem lenta e silenciosamente. Na verdade, não caem, vão caindo, à medida que os incumbentes usam os mecanismos democráticos para subverter a própria democracia - isto é, as democracias já não caem pelo método violento do derrube, mas sim pelo método incremental da erosão" (in "Público", d.d. 31.7.19).
Se dúvidas houvesse, bastava olhar para o que se passa nos Estados Unidos - portanto, uma democracia consolidada - onde o populista Trump faz diariamente discursos racistas e apelos à expulsão de congressistas de origem estrangeira (ele, cuja família é de origem escocesa!) entre ataques descabelados ao reverendo Al Shappton, por este ousar criticá-lo; ou, mais a Sul, o que se passa no Brasil - uma democracia desde 1985 - onde o mentecapo Bolsonaro protege garimpeiros que querem destruir o Amazonas e as comunidades índigenas, enquanto continua a negar a existência da ditadura militar, que governou o país durante 21 anos!
Porque as democracias não são todas iguais, diria que Trump (sendo mais perigoso) é mais controlável, devido ao sistema de "checks and balances" existente na democracia americana; Já Bolsonaro (um ex-militar ignaro e fascistóide) é suportado por uma bancada de evangélicos, ruralistas e militares, que detém a maioria num congresso, onde as leis são aprovadas através da compra de votos.  
Uma coisa é certa: todos estes personagens - criadores e criaturas - sairão de cena, mais cedo ou mais tarde. Quanto mais não seja, pela inevitabilidade da morte. Também, porque, aos períodos de autoritarismo, sempre sucedem períodos de democracia. Ninguém, em consciência (a menos que seja masoquista) deseja viver em ditadura. O apelo da liberdade, será sempre mais forte.  

2019/05/25

Eleições Europeias (eles "andem" aí...)


Terminaram as campanhas eleitorais e hoje, como é da tradição em Portugal, é "dia de reflexão".
Nada a opôr, ainda que nalguns países se faça campanha até à vespéra das eleições (caso da Grã-Bretanha ou da Holanda), da mesma forma que, em muitos países, as eleições sejam em dias de semana (Holanda e Grã-Bretanha votaram na quinta-feira e Irlanda, Eslováquia, Letónia e República Checa, votaram na sexta); já em Portugal, vota-se ao domingo. Também não se percebe muito bem porque é que, na era digital, ainda continuamos a votar em papel (que desperdício!) quando as novas tecnologias já permitem o voto electrónico muito mais prático e seguro. É verdade que, este ano, foi autorizado o voto antecipado em Lisboa e, amanhã,  haverá um teste de voto electrónico em Évora. Algo é algo.
Outra coisa que não se percebe, é como foi possível (em plena campanha eleitoral) 30.000 cidadãos poderem votar antecipadamente em Lisboa, quando 6 milhões de votantes estão, hoje, impedidos de terem qualquer actividade partidária no espaço público, só porque devem "reflectir" um dia, sobre a sua escolha política...
Isto, para não falar de milhares de portugueses (e outros estrangeiros) a viver no Reino Unido que, depois de terem votado nas últimas eleições distritais daquele país, não puderam votar nas eleições europeias, por não terem recebido o boletim de voto em tempo (!?).
Pese o número de "indecisos", sempre existente em todas as eleições, não parece que a percentagem seja suficiente para alterar a tendência observada nas sondagens publicadas ao longo do último mês. Já a taxa de abstenção (normalmente maior, em eleições europeias), será da ordem dos 60% (66% em 2014), o que é deveras preocupante. A questão da abstenção é, de resto, um problema em muitos países, pois a média europeia ronda os 55% nas eleições para o Parlamento Europeu. A abstenção, levanta ainda outro tipo de problemas, como seja a percentagem em termos populacionais, havendo exemplos em que o presidente da república de um país (Portugal, por exemplo) representar apenas 25% da população...
De acordo com diversas sondagens publicadas por estes dias, o resultado das eleições de amanhã não deve ser muito diferente das projecções publicadas pelo "Público", já que este matutino congregou as 4 sondagens principais e extraíu uma média aritmética, considerada a forma mais correcta (ainda que falível) de obter resultados aproximados. Teremos assim, uma vitória expressiva do partido do governo (PS), que obterá 33% dos votos; seguido do PSD com 23%; do Bloco de Esquerda com 9%; do PCP e do CDS, com 8% cada e a provável estreia, no Parlamento Europeu, dos partidos PAN e ALIANÇA, com 3% cada.
A confirmarem-se estas projecções, o Partido Socialista aumentará a sua representação no Parlamento de Estrasburgo, passando de 8 para 9 deputados; o PSD diminuirá a sua representação de 7 para 6 deputados; o BE aumentará a sua representação de 1 para 2 deputados; enquanto, os restantes partidos (PCP, CDS, PAN e ALIANÇA) poderão eleger 1 a 2 deputados, cada.  Portugal têm, actualmente, 21 deputados no PE.
Já nos países europeus, que entretanto foram a votos (Holanda e Grã-Bretanha), as sondagens à boca das urnas (exit-polls), deram uma clara e surpreendente vitória ao PvDA (Partido Trabalhista) na Holanda e ao novo partido populista de Neil Farage (Brexit Party), respectivamente. 
Difíceis de vaticinar, são as eleições em França, onde o partido de Macron (em perda acelerada de popularidade) e a União Nacional, de Marine Le Pen (com o seu discurso nacionalista e anti-imigração) se mantém num "empate técnico" imprevisível. Ao contrário, em países como a Itália, a Hungria e a Polónia (ainda que por razões diferentes) onde imperam os discursos xenófobos e nacionalistas, os partidos de extrema-direita devem ser os mais votados. Essa é, de resto, a esperança de Putin, interessado como está, no enfraquecimento da UE; assim como Bannon, ex-conselheiro de Trump e ideológo do Alt-Right americano, que aposta numa grande representação do bloco populista de extrema direita a nível europeu.
Como nos lembra Severiano Teixeira, esta semana: "Acontece que o populismo, não é uma ideologia como as outras. Ao contrário do liberalismo, do fascismo ou do comunismo, não tem uma visão global do Mundo, nem uma agenda política completa. É uma ideologia estreita, não é auto-suficiente e, por isso, surge associada a outras ideologias de esquerda e de direita (...) Em qualquer dos casos, afirmam-se sempre pela negativa. São sempre contra qualquer coisa. São, essencialmente, "anti-austeridade, anti-imigração, anticorrupção, anti-Europa". Se a estas questões juntarmos o "regionalismo", temos a agenda completa" (in "Público", 22 de Maio).     
Nalguns casos (Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Vox em Espanha ou Forum voor Democratie na Holanda) vão ainda mais longe e são contra o que chamam "ideologia de género", criticando a emancipação feminina, quando advogam o regresso da mulher ao lar ou penalizando o aborto. Um verdadeiro retrocesso civilizacional, como se o regresso aos anos '50 do século passado, seja algo realizável e desejado pelas mulheres actuais. 
Aparentemente, Portugal parece estar imune ao fenómeno dos populistas de extrema-direita. Resta saber, até quando. Porque a idiotice não conhece fronteiras, não vão desaparecer de um dia para o outro. Pelo contrário: vão andar por aí e há que continuar a combater, firmemente, as suas ideias. Até que desapareçam no caixote de lixo da História. 

2019/03/28

O eterno retorno do fascismo (6)


Os recentes actos eleitorais, em países como Espanha e Holanda, respectivamente para o parlamento andaluz e para a 1ª câmara dos Países-Baixos, confirmaram uma tendência europeia dos últimos anos: o crescimento de partidos populistas de direita, fora do "mainstream" partidário, que defendem ideias nacionalistas, proteccionistas, xenófobas, racistas e anti-feministas. Têm, ainda em comum, serem formações oriundas da direita tradicional (conservadora, cristã e liberal), que acusam de fazerem parte do "sistema" ao qual, afirmam, não pertencer (!?).
É o caso do VOX (Espanha), fundado em 2013 por dissidentes do PP, que acusam de estar minado pela corrupção e de ser pouco firme na questão catalã, considerada uma ameaça para a unidade nacional. Após um período de hibernação e de pouca expressão nacional (elegeu 1 deputado provincial), o VOX cresceria 20% em 2017, devido ao atentado terrorista em Barcelona e ao processo independentista catalão. Embalado por este êxito e aproveitando a realização de eleições intercalares na Andaluzia, o novo partido surgiria na praça pública com um programa "renovado", que expressa bem a ideologia que defende: condena o aborto, condena o matrimónio de pessoas do mesmo sexo, é contra a exumação dos restos mortais de Franco, é contra a Lei de Memória Histórica (que denuncia os crimes do franquismo), é contra o islão, a favor de imigração por quotas, contra o multiculturalismo, defende a centralização do estado e o nacionalismo espanhol. Com este programa, apresentou-se às eleições regionais de Dezembro último, tendo conquistado 10% dos votos e eleito 12 deputados para o parlamento andaluz. Esta votação, permite-lhe apoiar a coligação de direita (PP-Ciudadanos) que, desta forma, passou a ter maioria no parlamento regional.
Já na Holanda, o Forum voor Democratie (FvD), surgido em 2016 a partir de um "think tank" de inspiração neoliberal, conquistou 13 dos lugares em disputa para a 1ª câmara holandesa, tornando-se o partido mais votado nas recentes eleições de 20 de Março. Entre 2017, quando elegeu dois deputados para o parlamento nacional, e 2019, conheceu diversas purgas, devido à saída de alguns membros prominentes, que acusaram o partido de ser pouco democrático. Hoje, o FvD, está fortemente centralizado à volta da figura carismática do seu líder e ideólogo, T. Baudet, um filósofo de formação, cujo programa, defende menos dinheiro para as questões climatéricas, menos imigração, menos Islão, corte nos impostos, sobre as doações e as rendas, alterações radicais no ensino obrigatório, expansão das forças armadas, privatização da emissora nacional pública e reforma do sistema eleitoral. O FvD, é ainda pró-Nexit (saída da União Europeia), defende uma cultura de referendo, quer mais controlo fronteiriço e proibição do véu islâmico. Um programa populista de direita, que conquistou votos de uma grande franja eleitoral, nomeadamente da população mais idosa e dos descontentes com a política de imigração holandesa, esta semana posta em causa com um atentado terrorista cometido na ante-véspera das eleições. Contrariamente ao solicitado pelo governo (suspensão da campanha eleitoral, num país em luto), o FvD viu aqui uma oportunidade para granjear mais votos, tendo sido o único partido a fazer campanha no dia seguinte ao atentado. Entre oportuno e oportunista, que venha o diabo e escolha...
Após diversas vitórias, ainda que parciais, em países democráticos como o Reino Unido, a França, a Suécia e na Austria, na Polónia e na Hungria (onde são governo), os partidos populistas de extrema-direita, crescem na Europa onde, apenas Portugal e Irlanda, são agora as excepções.
Da Russia de Putin, à Turquia de Erdogan, das Filipinas de Duterte à Venezuela de Maduro, passando pela América de Trump e pelo Brasil de Bolsonaro, a democracia está em retrocesso e não se trata de uma opinião. Estas são, de resto, as conclusões do último relatório Freedom in the World, publicado no passado mês, pela Freedom House, uma organização independente, sem fins lucrativos, que publica anualmente um relatório sobre o estado da democracia no Mundo.
Em 2018, 68 países desceram nos índices de liberdade, enquanto apenas 50 subiram. Desceram a Hungria (suspensa pelo Parlamento Europeu por não respeitar os direitos humanos), a Sérvia, a Polónia, a Nicarágua e o Uganda. Subiram, a Etiópia, a Malásia e Angola, entre outros.
Não é o fim do Mundo, mas é bom saber reconhecer os sinais. O fascismo, ainda que sob outras designações, está em marcha e ignorá-lo pode ser fatal.      
          




2018/10/03

O eterno retorno do fascismo (4)

EPA/SEBASTIAO MOREIRA
A menos de uma semana das eleições brasileiras, os dados parecem estar lançados: nenhum dos candidatos à presidência reunirá os votos necessários para ganhar à primeira ronda, pelo que será necessária uma segunda volta (prevista para o último fim-de-semana de Outubro), para saber quem irá ocupar o palácio do Planalto.
Os candidatos mais bem posicionados para passarem à segunda volta, são: Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita mais reaccionária e troglodita do país (apoiado pelos militares saudosistas da ditadura, pela alta-finança e pelas igrejas evangélicas, das quais, a IURD de Edir Macedo, é a mais conhecida); e Fernando Haddad, lançado à última hora pelo PT, em substituição de Inácio Lula, impedido de concorrer por se encontrar preso. 
De acordo com as últimas sondagens, Bolsonaro passará à segunda volta com cerca de 30% dos votos, enquanto Haddad, com cerca de 20%, já se distanciou dos outros concorrentes, ainda que continue longe dos 38% atribuídos a Lula, em finais de Agosto.
Perante este cenário e partindo do princípio que a maioria dos votantes não se revê em nenhum dos dois potenciais candidatos, resta saber em quem votarão os brasileiros (cerca de 50%), que rejeitam o fascismo e o PT.  Porque é disso que se trata, goste-se ou não da escolha.
Uma terceira alternativa, seria a abstenção, mas a constituição brasileira não o permite e o voto é obrigatório. Logo, quem não votar é multado e quem votar em branco favorece o candidato mais bem posicionado, neste caso Bolsonaro. Para mim, que defendo a democracia, a escolha seria fácil. Da mesma maneira que, se fosse americano, teria votado em Hillary Clinton, um mal menor relativamente ao escroque Trump.
Para grande parte da classe média brasileira, o "problema" parece residir no PT, que continua a gerar anti-corpos, muito por causa da corrupção generalizada, da criminalidade e da recessão económica, que o país atravessa de há anos a esta parte. Acontece que, estes problemas, sendo genuínos e reais, não se devem exclusivamente aos governos PT, por uma razão simples: o Brasil é, de há séculos, uma sociedade de "castas" e clientelas, onde a corrupção se tornou "um modo de vida" e o sistema de subornos e nepotismo criou e manteve uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esta herança de séculos, que o PT tentou contrariar (sem nunca tocar nos privilégios das elites!), através de programas de combate à desigualdade - elogiados pela ONU, pelo PNUD, pela UNESCO e pelo Banco Mundial - não foi, contudo, suficiente para evitar uma crise social e económica. Os sucessivos escândalos de suborno e corrupção (Mensalão, Odebrecht, Petrobras, etc.) demonstraram à saciedade, que algo estava "podre no Brasil" e não era pouco. O processo de investigação, conhecido por "Lava Jato" (uma alusão à "lavagem" de dinheiro desviado) deu cabo das últimas esperanças do brasileiro médio, pouco politizado e manipulado por uma imprensa sensacionalista, que deixou de acreditar nos políticos. O desemprego galopante, a inflação e a recessão, que se seguiram, fizeram o resto. Perante a descrença total e sem soluções à vista, a panaceia para todos os males parece ser um homem "forte", de preferência militar. Falta-lhe o bigode, mas o filme é conhecido.
Alguém, nas redes sociais, dizia por estes dias que existem dois tipos de anti-petistas: os ideológicos e os patológicos. Penso que, a maior parte, pertence ao segundo grupo: não interessa em quem se vota, desde que o PT perca! No limite, muitos deles, nem gostarão de Bolsonaro, mas como é o único que pode impedir a vitória do PT, então, votam nele (!?).
Há claro, forças interessadas na sua vitória: desde logo os militares, saudosistas do tempo da ditadura (1964-1985) que vêem aqui uma oportunidade de sair dos quartéis; depois, há os evangélicos de diversa plumagem, que dão indicação de voto aos "fiéis", argumentando que o capitão psicopata defende os valores da  família e do cristianismo (!?); finalmente, a finança, que controla a banca, as grandes empresas e domina a comunicação social (Globo, Veja, Data Folha, TV Record, etc.).
Ora a finança (vulgo "mercados") está interessada numa ditadura, a melhor forma de controlar a economia. A "economia" sempre se deu bem com o fascismo, pois é a melhor maneira de manter os trabalhadores submissos. Claro que o fascismo tem a "perna curta" e, no médio prazo, acabará por cair, mas isso não interessa nada aos neoliberais, desde que o "mercado" funcione. Por alguma razão, Bolsonaro já anunciou que não percebe nada de economia (em rigor, ele não sabe nada de coisa nenhuma) e, por isso, nomeará para "ministro da fazenda", o célebre Paulo Guedes, um rapaz da "Escola de Chicago" que, em tempos, foi conselheiro de Pinochet...
Conheço, inclusive, brasileiros cristãos, casados e com filhas, que vão votar em Bolsonaro, apesar do seu discurso onde defende a pena de morte, a tortura, a violação, a misoginia, a homofobia e o racismo. Para essas pessoas, isso não interessa nada. O que interessa, agora, é impedir que o PT volte ao poder. Depois, logo se vê...
É como a história de Mephisto (Fausto): vendeu a alma ao diabo, acreditando na sua salvação.
Depois...fodeu-se!

2016/04/05

O filme

Cometeram um erro aqueles que votaram no professor Marcelo. As razões começam a tornar-se claras.
Num primeiro momento o actual PR surpreendeu-me, surpreendeu-nos, com um discurso apaziguador, bonacheirão e com uma postura mais descontraída que a do seu antecessor. Ilusão!
Para provar que não há motivos para surpresas ouçam-se as suas declarações de hoje, a propósito dos chamados Panama Papers. Falou em "fragilidades das democracias" e referiu que as revelações que estão a causar tanta agitação constituem "más notícias" para os defensores da liberdade.
É estranho porque, na minha opinião, ele deu um contributo decisivo, durante anos e de várias formas, para fragilizar a democracia portuguesa. Não conheço os dotes pedagógicos do professor.  Na minha própria prática pedagógica procuro seguir o princípio de que é meu dever fornecer aos alunos pistas para que possam pensar por si. Está assim proscrito do meu arsenal pedagógico a injeção gratuita de matéria e, sobretudo, a transmissão de ideias pré-fabricadas, com a consequente formatação ou condicionamento de uma capacidade autónoma de resposta.
Pelo pouco que percebi da intervenção pública do actual Presidente da República, foi o que ele fez durante anos, sem quartel. Isso sim, essa formatação do pensamento é que fragiliza a democracia. Cidadãos que não sabem pensar e que se apoiaram na homilia dominical para formar o seu comportamento cívico e político não podem construir uma democracia forte. Foi a prática do actual Presidente da República durante décadas. O seu contributo para fragilizar a democracia que temos foi, assim, decisivo.
Enalteceu o papel da imprensa na denúncia destes casos, mas creio que não será complicado demonstrar que a imprensa, no seu conjunto, é um dos agentes que mais desgraçadamente contribui para fragilizar a democracia. Citem-me um órgão de informação que mereça algum crédito! Marcelo sabe-o, de resto, bem.
Uma democracia fragilizada enfraquece a liberdade. Liberdade enfraquecida é má notícia para a democracia.
O projecionista enganou-se e colocou a bobine no projector ao contrário. E Marcelo veio contar mal o filme...

2015/05/13

Atrevam-se!

Perante os sinais evidentes da falência total das democracias ocidentais, como esta em que vivemos, o que Manuel Arriaga nos propõe neste seu "Reinventar a Democracia, 5 ideias para um futuro diferente" é simples: como criar uma verdadeira alternativa de controlo e exercício do poder que não seja um travesti deste sistema que faliu?
Um corolário imediato desta proposta é o seguinte: poderão as “alternativas” que vemos surgirem por aí quase todos os dias, dentro e fora do sistema, ser consideradas verdadeiras alternativas?
E há um outro corolário óbvio, que se pode ainda extrair: é possível construir uma alternativa sem cair na tentação de usar os mesmos meios que o sistema que queremos reformar usa, eles próprios sustentáculos e causas dessa falência?
A resposta a estas perguntas é simples: sim, é possível, usando a inteligência. A única forma que o Homem teve para assegurar a sobrevivência da espécie durante 200 000 anos.
As palavras chave, neste caso, são "usar" e "inteligência".
A democracia de tipo ocidental é um sistema cheio de imperfeições, que tem, por via delas, destruído a sua própria promessa. A democracia ocidental está hoje no estado daqueles corpos que, sem alimento, começam a consumir as suas próprias gorduras até nada mais restar.
Sem vergonha, o modelo até é exportado para as paragens mais "selvagens", apoiado no cliché “churchilliano” de que a democracia é "a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as outras que foram experimentadas.” Uma forma hábil de impedir o surgimento de alternativas antes mesmo de nascerem, classificando-as desde logo como experiências…
Como se a democracia não tivesse, ela própria, começado por ser uma experiência.
Chegámos a um ponto, porém, em que esta democracia não corresponde mais ao estado de evolução das sociedades humanas. Os problemas avolumaram-se e avolumam-se, não há soluções dentro do sistema, e as "soluções" tornaram-se, elas próprias, problemas, a partir do momento em que os detentores do poder as impõem, em nome dos seus interesses. Alapados nesses interesses e neste horror ao experimentalismo, esses crónicos detentores do poder velam para que nada mude, desde que os seus interesses não sejam afectados. O descrédito e o descontentamento perante esta situação são generalizados e a revolta, mesmo que nem sempre claramente sentida ou expressa, é profunda.
O olhar atento revela-nos que o sistema contém um mecanismo de auto-regulação que impede a sua reforma e o blindou contra todas as tentativas de mudança. Uma ínfima minoria não terá a inteligência para se aperceber disso. E uma esmagadora maioria que pensa em tornar-se um dia dona disto tudo, não quer, simplesmente, usar a inteligência que lhe resta. 
Eis a génese do impasse que inviabiliza a mudança: os descontentes parecem preferir não usar a sua inteligência e demitiram-se de intervir nos mecanismos que decidem as suas vidas. Preferem demitir-se a provocar a mudança. Preferem demitir-se a contribuir para resolver os problemas de que se queixam.
Como explicar este disparate a quem não quer ouvir? Como dizer-lhes que a raiz do seu desconforto são eles próprios, sem os hostilizar?
Eu acredito, porém, como Manuel Arriaga, que a natureza humana é boa, embora admita, como ele, que os perigos e as dificuldades gerados por estas propostas de mudança, que de forma corajosa, saudavelmente clara, surpreendentemente serena  e candidamente optimista, ele aqui propõe, são reais e imensos.
A vantagem destas propostas é que, ao contrário de outras baseadas em perspectivas reformistas ou revolucionárias — mas sempre convenientemente encaixadas numa qualquer forma de poder actual —, permitem estabelecer o diálogo, sem excluir nem afrontar ninguém à partida.
Dialogar não significa antagonizar. Só através do diálogo inteligente poderemos aspirar a construir uma sociedade auto-determinada, aí onde, como aponta John Holloway, outras propostas que dominaram o pensamento político ao longo de todo o século XX, quando o mal estar se começou a instalar, falharam em toda a linha.
Acredito, portanto, que mais depressa do que se pensa o bloqueio será furado. Não nos restará outra coisa senão sermos atrevidos. 
Atrevamo-nos, portanto.
Comece por se atrever a ler este livro.
Ver-nos-emos certamente por aí.
Até já.

2015/01/31

Democracia



Seja qual for a justificação, nunca aceitarei que em Democracia se abuse da Democracia. As razões pelas quais a actual maioria chumbou a audição do PR sobre o caso BES são ditadas por uma de duas coisas. Ou a maioria é conduzida por um espírito totalitário ou tenta esconder algo.
Em Democracia não há, ou não deveria haver, tabus. Os agentes políticos são votados e são pagos pelos que neles votaram para exercer o seu cargo. Têm de prestar contas!
Se a maioria tem alguma coisa a esconder ou pretende esconder alguma coisa que o PR tenha feito é porque alguma fez...

2015/01/08

Uma única solução: mais Democracia!

Os acontecimentos de ontem deixaram-me num incontrolável estado de choque e com um profundo sentimento de impotência. Liquidar 12 pessoas, entrando-lhes pela casa dentro, desta forma brutal e programada, liquidar pessoas cujo "crime" foi produzirem e publicarem uns desenhos, é algo que ultrapassa os prodígios da mais fértil imaginação. Por outro lado, parece que ninguém está a salvo desta situações. Seja quem for, onde for, em França ou aqui em Portugal. Nem os próprios autores deste crime reles.
Cometido o crime, ninguém parece ser capaz de nos poder defender de uma situação semelhante no futuro. Os guardiães das liberdades e garantias, o Estado e a Justiça que nós pagamos e a "austeridade" faz encolher ainda mais, estão, eles também, envolvidos num jogo ambíguo que continuamos a não conseguir controlar ou, relativamente ao qual, escolhemos fazer vista grossa.

Solução: mais democracia! O que temos hoje é uma sociedade que a esqueceu. Uma sociedade que se compraz em aceitar as "recomendações" da televisão para depois depositar um papelinho num caixote de 4 em 4 anos (se se der a esse trabalho; cada vez o faz menos) é uma sociedade que está doente, com o sistema imunitário em baixo e, portanto, sujeita a ataques como o que ontem aconteceu contra o Charlie Hebdo. É a fraqueza ou a falta de democracia que atentam contra a liberdade de expressão, que pode vir a degenerar num ataque contra a própria liberdade de pensamento. As tropelias contra a democracia não estão só a ser cometidas em África, no Próximo ou no Médio Oriente. Estão a ser cometidas aqui, por nós, contra nós próprios.

Ao contrário do que pensam estes assassinos, um desenho não vai mudar o mundo. Nunca mudou. Os desenhos reflectem mudanças. Decidir matar o desenhador por retratar uma determinada situação é um crime tão grosseiro como pensar que foi o desenho provocou a situação retratada. Um erro que, de resto, nenhum dos desenhadores cometeu. Jean Cabut, um dos desenhadores assassinados ontem, sabia-o bem. Ainda não há um mês, dizia numa entrevista: "nós não passamos de humoristas, estamos aqui para fazer rir. Mas, no final, não servimos para grande coisa."

Neste sentido, está já seguramente em curso uma mudança que os desenhos irão certamente reflectir em breve. Estes assassinos não impõem medo a quem quer que seja, somos nós que começamos por ter medo. Temos medo da democracia! É este medo que leva os assassinos a matar. É este medo que leva os franceses, todos nós, a ter medo de que isto se possa repetir. É necessário deixar de ter medo da democracia. Essa é a mudança necessária. Mas, não são os desenhos que a vão determinar, foram os tiros.

2014/12/05

Da Transparência

Rodrigo Gatinho/Portugal.gov.pt


O Índice de Percepção de Corrupção 2014, esta semana divulgado pela ONG Transparency International, confirma a mediana classificação de Portugal, apesar de uma ligeira melhoria (dois lugares) relativamente a 2013.
Portugal ocupa, agora, o 31º lugar, numa lista de 175 países avaliados, onde os primeiros 5 lugares são, respectivamente, ocupados pela Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Suécia e Noruega.
No fim da lista, estão, como habitualmente, o Afeganistão (172º), o Sudão (173º), a Somália e a Coreia do Norte (174º).
O índice permite ainda avaliar o nível de corrupção nos países de língua portuguesa, onde Cabo Verde (42º) é, de novo, o mais bem classificado, e Angola e a Guiné-Bissau (161º) os piores da lista.
É isto bom ou mau?
Num ano em que os casos de suspeita de corrupção activa e passiva na sociedade portuguesa foram alvo de noticias quase diárias (BES, Vistos Gold, Duarte Lima, Sócrates, etc.) só é de espantar que a classificação de Portugal tenha melhorado. Não podemos, no entanto, esquecer que o índice é elaborado a partir de dados reunidos no ano transacto, pelo que, em 2015, a classificação poderá bem ser outra.
Também aqui, as opiniões se dividem: os arautos do "politicamente correcto" viram nesta melhoria um sinal do "copo meio-cheio", enquanto os "arautos da desgraça", só vêem "copos meio-vazios".
Acontece que estes índices, com todas as suas limitações, são um misto de relatórios fornecidos pelas delegações nacionais da Transparency International, da análise dos processos judiciais por corrupção e da observação empírica da realidade, pelo que a soma destas três variáveis é determinante para avaliar do nível de transparência em cada país.
Sendo assim, convém relembrar algumas verdades incontornáveis, que permitem aferir da relativa justeza de tais índices. Em primeiro lugar, as razões porque os países mais bem classificados são, normalmente, países escandinavos e/ou anglo-saxónicos: são todos eles, sem excepção, países onde a tradição democrática está mais enraizada, a educação é maior e a orientação religiosa (protestantismo) desenvolveu uma ética de responsabilidade (accountability), meritocracia, rigor, austeridade e cidadania, que exigem maior transparência dos seus cidadãos.
No fundo da lista, os países onde nada disto funciona: são, todos eles, sem excepção, países onde não há democracia (ditaduras ou estados-párias), onde a ignorância é maior e a orientação religiosa (fundamentalista) fomenta o clientelismo, o nepotismo, o suborno e a corrupção. Logo, onde há menos transparência.
No meio da tabela, estão países (como Portugal) que nas últimas décadas têm vindo a sair desta espiral de regimes autoritários e onde a desigualdade, a pobreza e a ignorância, continuam a ser factores impeditivos da construção de sociedades mais justas e equitativas, como é desejável.
Não nos devemos, portanto, admirar que os países onde há maior transparência, são aqueles onde há mais igualdade, mais educação e maior participação, portanto mais democracia. É tão simples como isto e ignorá-lo será sempre fatal.  

2013/11/07

A Constituição, esse “papão”...

As afirmações, ontem produzidas pelo ministro Aguiar-Branco, sobre a necessidade de rever a actual Constituição, argumentando que vivemos num  “estado totalitário” (!?), só não espanta por conhecermos bem o personagem.
Contudo, não nos devemos admirar.
Durão Barroso, ainda que indirectamente, disse o mesmo em Bruxelas relativamente ao Tribunal Constitucional e, na passada semana, Paulo Portas apresentou o famigerado Plano de Reforma do Estado, que mais não é do que uma tentativa canhestra de alterar as relações sociais existentes, coisa que a actual Constituição assegura. De resto, a tentativa de alterar a Constituição já tinha sido expressa no livro-programa de Passos Coelho, apresentado durante a campanha eleitoral de 2011, objectivo que só não foi atingido ainda por falta de maioria qualificada para poder fazê-lo.
Ou seja, desde que chegou ao poder, a direita vem tentando, umas vezes de “pantufas”, outras de “botas cardadas”, modificar o texto da Constituição que, interpretado pelo Tribunal Constitucional, tem muitas vezes impedido o actual governo de alterar completamente o modelo económico em que a nossa sociedade se baseia e que, nas suas grandes linhas, foi rectificado em sucessivas alterações à Constituição, todas elas posteriores a 1976.
Como muito bem explicou Jorge Miranda, “pai" da actual Constituição, e portanto insuspeito nesta matéria, o texto da actual Lei foi exactamente aprovado contra as tentativas totalitárias de 1975 e não é impeditivo de reformas consideradas necessárias para a sociedade portuguesa, assim o legislador o queira...
O que se está a passar é muito mais grave do que as afirmações de direitolas reaccionários, como Aguiar-Branco e congéneres, fazem supor. Trata-se, no fundo, de modificar as relações económicas que têm prevalecido na Europa do Estado Social e que a recente crise, provocada pela desregulação dos mercados financeiros, está a alterar profundamente em todo o Mundo Ocidental. Ou seja, há uma clara estratégia internacional para alterar o paradigma politico europeu vigente (assente numa economia de mercado supervisionada pelo estado e onde os cidadãos, trabalhadores ou não, estão inseridos num sistema que protege o emprego, a inclusão e a solidariedade social). Os ataques a este modelo, desencadeados um pouco por toda a Europa (veja-se o caso de países relativamente ricos, como a França, a Itália ou a Espanha) mais não são do que tentativas desesperadas do capital financeiro para desregular os mercados, com a conivência dos principais governos europeus, Alemanha à cabeça.
Em Portugal, como de resto noutros países periféricos e de economias mais débeis, já foi atingida a fase de intervenção directa, estádio último do empobrecimento gradual que nos conduzirá à dependência futura, chame-se esta “resgate” ou “programa cautelar”, eufemismos da “troika” que mais não significam do que alteração do sistema democrático vigente. Este é o grande perigo e o grande desafio da sociedade portuguesa, pois dele depende o nosso futuro como nação  independente. Combatê-lo, para além de entendê-lo, é hoje a tarefa prioritária de todas as forças que se reclamam de democratas.

2013/05/11

"Ceci n'est pas une pipe"



Ouvimos Manuela Ferreira Leite insurgir-se esta semana, em vocalizos muito amplificados, contra a insensibilidade e crueldade com que o executivo trata os reformados. Já tínhamos ouvido Pacheco Pereira falar em "desobediência civil" e alertar para o sofrimento que as políticas de Coelho & Cia. causa ao povo e para o perigo que isso representa para a democracia e para as instituições democráticas. Ouvimos Bagão Félix acusar o governo de promover uma OPA hostil sobre as pensões dos reformados. Nem mais! Ouvimos Adriano Moreira defender a Constituição de Abril. Ouvimos, ainda hoje, Carlos Abreu Amorim dizer que o ciclo Gaspar acabou e que o ministro tem de abandonar, não a política que conduz, mas o próprio cargo. Acabou o seu ciclo, afirma grave.
O Povo, a Constituição, a Democracia. De Abril.
Ouvimos tudo isto e pasmamos. É gente de direita! Soa a esquerda, mas, não! Não há ilusão: é gente de direita, proveniente de uma matriz ideológica de direita.
Ouvimos, no passado, a esquerda a queixar-se vezes sem conta do mesmo de que esta direita agora se queixa em tom inflamado. Ouvimo-la usar até, sem qualquer efeito que se perceba, o mesmo discurso, por vezes, até a mesma linguagem que esta direita agora usa. Ouvimo-la reclamar a demissão do governo. Ouvimos tudo isto, mas não podemos nunca confundir as razões da queixa. Só poderemos lamentar a falta de eficiência do protesto de esquerda.
Neste momento estamos a assistir a um fenómeno absolutamente inaudito: ouvimos o discurso indignado da direita, cínica e despudorada, contra a política que andou a promover, por acção ou omissão, durante quase 40 anos!
Há, no que à esquerda diz respeito, qualquer coisa que me deixa perplexo. Anos a reclamar contra a política de desastre conduziram... à vitória da política do desastre! De anos a reclamar contra a política do desastre resulta que os responsáveis por essa política venham agora criticá-la. E receio mesmo, com fundadas razões, que será a "narrativa" da direita que ficará retida na mente dos portugueses. É o grito de Manuela Ferreira Leite contra o governo que vai ficar no ouvido. É a sua indignação que vai merecer a atenção das vítimas do desastre, não o grito do PCP ou do BE. Se Gaspar sair do governo não será em consequência da política desastrosa que os partidos de esquerda o acusam de estar a levar a cabo. Neste momento será sempre porque Amorim o exigiu.
Quem vai beneficiar politicamente do profundo descontentamento que a política do desastre está a gerar não será a esquerda, mas a própria direita que a provocou. Depois de se livrar das abencerragens que aterraram no poder dos respectivos partidos, a direita estará back in business.
A direita tem um património de credibilidade política que a esquerda não tem ou não quer ter, ocupada que tem andado certamente com problemas muito mais prementes...
Seria normal que as vítimas geradas pela política de direita seguida ao longo de todos estes anos, se virassem  para os adversários naturais dessa política e com eles congregassem esforços para a combater. Mas, não! A esquerda não conseguiu senão ganhos marginais entre as vítimas da política de direita, seus companheiros de jornada naturais. É a direita e a sua política, esta mesma ou travestida, que vai acabar por sair vitoriosa deste momento de provação.
Não admira que a direita não tenha aquele tombo nas sondagens que o desastre, o sofrimento, a crueldade e a insensibilidade social de que é acusada fariam prever. É a própria direita que se mostra mais eficaz a combate-la!
Quando fala em tom indignado contra a política de direita, é, paradoxalmente, a direita que tem a credibilidade para aparecer como paladina do combate à política que ela própria ajudou a implementar. Esperar mudanças políticas profundas e fiáveis desta direita que nos calhou em rifa é um exercício inútil quod erat demonstrandum, mas ela mantém intactas a sua credibilidade política e a reserva junto do eleitorado de que é capaz de o fazer. É no jogo democrático —que a esquerda recusa jogar em pleno— e na tibieza da esquerda que a direita ganha credibilidade política. Tudo o resto é folclore.
A ignorância, a ausência de cultura cívica e democrática, a iliteracia, a falta de sustentação profunda de que o inegável desenvolvimento gerado pela Democracia de Abril obviamente padece, apenas explicam uma parte de todo este problema. Um outro contributo não despiciendo é o que resulta do papel absolutamente de embrulho que a esquerda portuguesa vem cumprindo desde há anos. Uma esquerda frouxa que demonstrou até agora ser parte indevisível do problema, que joga o jogo da democracia da bancada e a feijões. Uma esquerda que representa bem o carácter merdoso das elites portuguesas.
Um traço que a direita —que consegue ser bem mais merdosa, mas que evidencia uma habilidade e uma aderência ao terreno de que a esquerda carece escandalosamente— parece ser tão bem capaz de parasitar.

2012/05/30

"A taxa de pobreza infantil é o melhor indicador que uma sociedade pode ter acerca de si própria"

Um relatório da Unicef, acabado de publicar, sobre pobreza infantil nos países ricos diz que "cerca de 13 milhões de crianças na UE, incluindo ainda a Noruega e a Islândia, foram consideradas em estado de privação. São crianças a quem faltam os elementos básicos para o seu desenvolvimento. Entretanto, 30 milhões de crianças vivem em estado de pobreza em 35 países com economias desenvolvidas."
De que "crise" falamos quando falamos em crise? A que estado de desvergonha foi preciso chegar para chegarmos a este estado?  A que estado de lassidão se deixou conduzir a "democracia de tipo ocidental" —que se compraz dizendo irresponsavelmente de si própria ser "o pior sistema com excepção de todos os outros"— que a leva a, com auto-instituída impunidade, fazer agora vista grossa a estas realidades?
O relatório é claro: que chance terão as crianças africanas se a francesa Lagarde nem sequer consegue perceber a vergonha que é seu próprio país?


 


(PS- Resta acrescentar que o lugar que Portugal ocupa neste relatório deveria constituir prova suficiente para levar os responsáveis políticos que a ele conduziram à barra dos tribunais...)

2012/05/15

Da democracia na Grécia

É oficial: a Grécia vai para eleições, agora que o Presidente da República deu por terminada a ronda de conversações com os principais partidos gregos sem ter conseguido um acordo. Este era um desfecho previsto, quando os partidos da Troika (Nova Democracia e PASOK) não quiseram aliar-se num governo de coligação e a frente anti-troika (SYRIZA) não reunia votos suficientes para formar governo. Restava a opção tecnocrata, que todas as forças partidárias recusaram. Cabe ao povo grego (voltar a) escolher a via que deseja seguir: aceitar os ditames da Troika, sabendo que mais sacrificios e privações serão pedidos, numa espiral sem fim à vista; ou romper com este círculo vicioso, sabendo que os sacrifícios e privações continuarão de qualquer forma, ainda que feitos numa perspectiva libertadora. Uma escolha difícil, que irá condicionar, não só o futuro da Grécia, mas toda a Europa e os países intervencionados (Portugal e Irlanda) em especial. É por isto que estas eleições são tão importantes: uma derrota das forças progressistas significará o reforço das medidas neoliberais na Europa e um passo atrás na mudança da opinião pública (que, timidamente, começara a manifestar-se com Hollande); enquanto uma vitória dos partidos anti-troika, poderá significar um "turning point" na política de intervenção levada a cabo nos países da periferia que, desta forma, ficarão em melhores condições de renegociar os ditames dos credores internacionais. Também por isto, estas eleições não serão apenas gregas, pois a todos dizem respeito. Em particular, aos portugueses.

2012/01/12

Estão loucos!

Depois de, há cerca de 3 anos, nos ter lançado um desafio, ao perguntar se "a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então, venha a democracia!" Manuela Ferreira Leite volta a desafiar-nos sugerindo que os doentes sujeitos a tratamentos de hemodiálise com mais de 70 anos passem a pagar esses tratamentos.
Em qualquer dos casos, não se trata de um problema de perda temporária do conhecimento ou de outra qualquer manifestação mais grave do foro psicológico. As sugestões são genuinas e feitas com plena consciência das suas consequências. E, não tenhamos ilusões, não se trata de sugestões espontâneas ou actos isolados. A senhora ecoa outras vozes, está muito bem acompanhada e resguardada nestas suas opiniões.
Quem definitivamente perdeu o conhecimento e quem sofre de profundas perturbações do foro psicológico é quem há anos anda a dar crédito a gente como esta, pagando-lhes ainda por cima um ordenado para os representar e mantendo assim trastes como estes confortavelmente instalados na vida pública .

2011/10/17

Ainda os ecos do 15 de Outubro

O local escolhido para a Assembleia Popular de 15 de Outubro não podia ser mais apropriado. É do exercício da democracia que estamos a falar.
Não posso deixar de me rir quando ouço e leio algumas críticas a todo este movimento do 15.O.
E agora, perguntam uns? Sim senhor, estive lá, fui para casa, e agora? O que se segue no programa?
O movimento, acusam outros, é emocional. Falta-lhe reflexão, pensamento, conceitos.
Onde está a representatividade destes movimentos, perguntam, finalmente, outros? A pergunta vem, sobretudo, dos mais significativos contribuintes líquidos para o folclore em que se tornou esta espécie de regime em que vivemos.
Muito se poderia dizer sobre estas críticas. A história não regista, infelizmente e por razões óbvias, os que lhe passam ao lado, mas todas as clivagens profundas tiveram os seus detractores. Camões criou o símbolo do "velho do Restelo" para os definir.
Aos que foram lá e perguntam e agora?, digo: voltem e continuem a luta. Não se pode pedir aos organizadores de todo este movimento que inchem e que o engrossem com o seu próprio inchaço. E agora?, perguntam vocês? Pois, agora somos justamente nós, vocês, que temos de tomar a palavra, agir, organizar, dinamizar. O 15.O não é, em si, um movimento de vanguarda, nem é, por si, a resolução dos problemas que nos apoquentam. É uma forma possível de criar soluções. Tem de ser construída, tem de ser solidária e gerar solidariedades. A palavra cabe, justamente, aos que fazem a pergunta e agora?.
Aos que acusam o 15.O de falta de pensamento e de reflexão digo: vejam aonde o vosso "pensamento" e a vossa "reflexão" nos conduziram! Não foi o 15.O que dirigiu as coisas. Foram vocês, as vossas facções. E são vocês que se tornaram um problema. Parecem ignorar, uns, que o pensamento se forja na acção, e esquecem ou escondem, outros, na sua ânsia controleira, os princípios que lhes deram origem e tornaram possível a sua própria existência. Criticam um movimento que lhes foge manifestamente por entre os dedos.
Aos que acusam o 15.O de falta de representatividade, digo: vocês são os avós do fugaz e os pais da ilusão. Estão demasiadamente habituados à liturgia e aos paramentos desta sociedade e ajudaram a manter este regime mínimo. Não percebem nada do que se está a passar à vossa volta. Nasceram moribundos. A maior parte de vocês está cá já a mais.
Boaventura Sousa Santos chamava há dias a atenção para o facto de que a ideia principal que subjaz todo este movimento é, simplesmente, a de exigência pacífica de mais democracia. Não se reivindicam ideologias, implantação deste ou daquele regime, mas mais participação dos cidadãos. Democracia! E desobediência civil perante esta democracia defeituosa que nos é servida, que temos de pagar com dinheiro que não temos.
Só se exige democracia quando se vive em ditadura. Quem são agora os ditadores?