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2025/04/03

As sondagens valem o que valem...

A sete semanas das eleições legislativas, antecipadas para 18 de Maio devido à moção de confiança do governo, rejeitada pela oposição, começaram a surgir as primeiras sondagens dos mais variados quadrantes. Há para todos os gostos e nem todas são uniformes, mas as tendências começam a definir-se, o que não será de estranhar, conhecendo os pormenores que antecederam a dissolução do parlamento. 

Porque umas são mais fiáveis que outras (há um histórico que valida os resultados publicados ao longo dos anos), vale a pena realçar a mais recente, da responsabilidade da CESOP- Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público, feita entre os dias 17 e 26 de Março último. 

"O universo-alvo é composto por eleitores residentes em Portugal, sendo que os inquiridos foram seleccionados aleatoriamente, a partir de uma lista de números de telemóvel, também ela gerada aleatoriamente. Foram obtidos 1206 inquéritos válidos, sendo 43% dos inquiridos mulheres. A taxa de resposta foi de 29%. A margem de erro máximo associada a uma amostra aleatória de 1206 inquiridos é de 2,8%, com um nível de confiança de 95%" (da ficha técnica).

E o que nos diz a sondagem da CESOP?

Que o PSD/CDS (AD) e PS estão em empate técnico, em relação à ultima sondagem da CESOP (Outubro 2024). Que o CHEGA, mantém a terceira posição, com uma ligeira quebra. Que todos os restantes, (IL, BE, Livre, CDU, PAN) sobem ligeiramente ou igualam as intenções de voto de há seis meses atrás. Os indecisos/não votantes, totalizam 23%.

Extrapolando (incluindo os indecisos) temos: 

AD-29%, PS-27%, Chega-17%, IL-8%, BE-5%, Livre-5%, CDU-3%, PAN-2%, Brancos/Nulos-4%

Ou seja, descem os três maiores partidos e sobem/igualam os restantes. A confirmarem-se estes resultados, não haverá maioria absoluta de nenhum partido. Isso pressupõe um governo minoritário (da AD ou do PS) já que coligações à esquerda e à direita não parecem muito prováveis. Uma coligação à esquerda, se bem que desejada pelas forças partidárias, dificilmente obterá os 42% ou 43% necessários para formar governo; enquanto à direita (que detém uma maioria confortável), o "cordão sanitário", imposto ao Chega, elimina a possibilidade de um governo de coligação. A menos que...

A menos que os dois principais partidos se entendam e, independentemente de quem vencer, o maior partido da oposição se comprometa a viabilizar os orçamentos e principais decisões do partido que governar. Uma espécie de "bloco central", que toda a gente diz não querer, mas que na prática pode funcionar. 

Caso não haja acordos, o mais provável será entrarmos num novo mini-ciclo, que pode terminar seis meses após a eleição do novo presidente da república que, em Julho de 2026, já poderá dissolver o parlamento e convocar novas eleições. Será isto que queremos?    

2024/11/05

EUA: eleições num país esquizofrénico

How the U.S. election could help shape Canadian politics

Disputam-se hoje as eleições americanas, já consideradas as mais disputadas e, para alguns, as mais importantes da história dos Estados Unidos. 

Não sabemos se assim é, mas uma coisa é certa: um dos concorrentes (Donald Trump) já afirmou não acreditar no resultado eleitoral (!?), enquanto um dos seus principais apoiantes (Stephen Bannon), afirmou que a primeira coisa que Trump deve fazer, é declarar vitória, antes de saber os resultados (!?). Sobre democracia, na primeira democracia do Mundo, estamos conversados.

Nada que surpreenda, num país onde, para além de todas as conquistas e feitos dos últimos oitenta anos (e foram muitas!), o seu lado mais "negro" foi sempre uma constante, dentro e fora das fronteiras. Um política, baseada na doutrina do "pau e da cenoura", onde os aliados são avaliados em função da vassalagem ao modelo liberal (leia-se "mercado livre"), que permite o negócio puro e duro, independentemente de princípios ou ideologias. Há quem lhe chame "Real Politik". Quem a pratica, recebe a recompensa (a cenoura); quem não concorda, é penalizado (com o pau). Uns "democratas", os americanos...

Sobre Bannon, sabemos que é um apoiante do movimento Alt Right e que foi assessor de Trump na Casa Branca, donde sairia após os acidentes racistas de 12 de Agosto de 2017 em Charlotteville (Virgínia), causados pelos movimentos "KKK", "Supremacia Branca" e "Golden Boys", conhecidos pelas suas teorias racistas e de "substituição". O caso provou grande polémica a nível internacional, após o que Bannon se refugiou na Europa, tendo sido acolhido pelo governo italiano de Salvini. onde se dedicou a organizar e a financiar uma internacional europeia de extrema-direita (neo-fascista), com vista a influenciar as eleições europeias de 2019. Este período, está amplamente documentado no filme "The Brink", da realizadora Allison Klayman (2019) exibido no Festival DOCs de Lisboa, em 2020. Pode ser visionado no Youtube, contra o pagamento da módica quantia de $5. Muito educativo. É este mesmo Bannon, entretanto condenado e preso por fraude e peculato, durante a campanha das eleições intercalares americanas de 2018 que, libertado a semana passada, quer declarar à priori a "vitória" de Trump. Para quem tinha dúvidas...

Quer isto dizer que não existem democratas e defensores acérrimos de uma democracia que, justamente, se orgulha dos princípios que defendem a sua Constituição? Existem e representam cerca de metade dos votantes. Para o bem e para o mal, estes votos estão corporizados na candidata do partido democrata, a liberal Kamala Harris, ainda que esta definição seja, para um europeu, algo diferente daquela que defendem os americanos. Difícil? Talvez não. Afinal, Harris, a democrata, defende a pena de morte, a lei das armas que lhe permite ter um revólver em casa (para o caso de ser assaltada...), que afirma defender a solução de dois estados para o problema da Palestina (enquanto aprova o envio de armas para Israel), mas não tem uma palavra de solidariedade para com o povo palestiniano. Sobre a NATO e a guerra comercial com a Europa e a China, não se lhe conhece uma ideia ou visão consistente. Uma liberal, vá...

Para os europeus (que não podem votar nas eleições americanas), a decisão pertence aos cidadãos americanos. Já as consequências desta votação, terão impacto em todo o Mundo, pelo menos no chamado "Mundo Ocidental".  Só amanhã, saberemos. Enquanto esperamos, faço minhas as palavras de Noam Chomsky: "ainda que os europeus pensem que há dois partidos na América, Republicanos e Liberais, isso não é verdade. Só há um partido: o partido do Capital". 

Mais claro, era impossível.

 

2024/03/08

Opções e Incógnitas de uma campanha inconclusiva


Termina hoje a campanha dos partidos concorrentes às eleições do próximo domingo. 

Após meses de agitação frenética, entre congressos partidários, eleição de novos líderes, debates e campanhas de rua, a pergunta que se impõe é esta: estarão os eleitores, hoje, melhor informados após a maratona iniciada há quatro meses?

Teoricamente, sim. Nunca como nestas eleições, a informação foi tão extensa e diversificada: da imprensa escrita às redes sociais, da rádio à televisão, dos cronistas aos "comentadores", que disputaram horários de "prime-time", atribuindo"notas" (!?) aos candidatos, houve de tudo um pouco. Não nos podemos queixar, ainda que questões importantes tivessem ficado por discutir. Discutiram-se temas como a saúde, a educação ou a habitação, mas faltaram outros, não menos relevantes: a guerra em curso na Europa, o papel de Portugal na UE, a inflação que afecta toda a zona Euro, as alterações climáticas e a seca no Sul do país, a desertificação do interior, a imigração, a cultura, etc...

Acontece que o panorama político português mudou. Se não radicalmente, pelo menos na intenção de voto. Desde logo, pelo número de partidos que, à "esquerda" e à "direita", disputam a arena política. Se até 2015, a situação era estável, com 5 partidos representados na AR, desde então (apesar do desaparecimento temporário do CDS) surgiram quatro novos nomes, o PAN, o Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre. 

É esta maior diversidade, que explica a "pulverização" do voto, agora distribuído por oito partidos com possibilidade de eleger deputados. Serão os partidos mais pequenos a beneficiar, ao mesmo tempo que diminui a influência dos partidos tradicionais. Por outras palavras, Portugal "deixou" de ter dois grandes partidos do governo (PS e PSD) e passará a contar com três partidos de tamanho médio (PS, PSD e Chega), para além dos restantes cinco pequenos, que serão fundamentais nas contas finais para a formação do governo. 

Esta é a conclusão provisória das sondagens publicadas ao longo dos últimos meses, que demonstram uma tendência inequívoca: não haverá maiorias absolutas de nenhum partido (ou coligação), da mesma forma que o partido (ou coligação), que ganhar as eleições, não poderá governar sem alianças. Resta saber, que coligações poderão ser formadas e, em consequência, que governo terá mais viabilidade no longo prazo.

A acreditar na última "grande sondagem", da responsabilidade da CESOP e Universidade Católica, para o Público, TSF e Rádio Renascença, hoje mesmo tornada pública, as contas são fáceis de fazer (nesta projecção já estão incluídos os votos dos indecisos, que rondam os 16%):  

A direita (AD+IL) está à frente nas intenções de voto (34%) e deve ganhar ao PS (28%), mas não é líquido que possa formar governo, a menos que faça uma coligação com o Chega (partido com quem ninguém quer governar) o que lhe daria 56% de votos,   

Resta uma coligação dos partidos de esquerda (PS, BE, CDU, LIVRE e PAN) que podem somar 42% das intenções de voto, muito perto da maioria absoluta e suficiente para governar, uma vez que a soma dos partidos à esquerda é maior do que a dos partidos à direita (sem o Chega).

Neste quadro, ganha relevo a decisão do presidente da república que, como é seu hábito, "dá uma no cravo e outra na ferradura", afirmando que dará posse ao partido mais votado, mas não quer o Chega no governo (?). Descodificando: Marcelo (sempre hipócrita) não se importa que a direita seja apoiada pelo Chega (governo de incidência parlamentar), desde que o partido fascista não tenha ministérios...

Estes são os cenários e nenhum deles garante um governo estável. A confirmarem-se estas projeções, o próximo governo será de coligação e terá curta duração. Daqui a um ano, poderá haver novas eleições.

Domingo, saberemos mais pormenores. Até lá, boa reflexão e melhor votação.

2023/12/04

Eleições à vista (aceitam-se apostas)


Esta semana, o Presidente da República demitirá formalmente o primeiro-ministro, uma decisão adiada para permitir a aprovação do Orçamento de Estado, entretanto concluída no passado dia 29 de Novembro. 

Com esta decisão, encerra-se o ciclo de governação de António Costa que, a partir de agora, passará a dirigir um governo demissionário até à data das próximas eleições, convocadas para o dia 10 de Março de 2024. 

No intervalo que se segue, realizam-se as eleições primárias do PS, destinadas a eleger o próximo secretário-geral do partido e as eleições regionais dos Açores, antecipadas devido ao chumbo do Orçamento naquela região.

Três meses de "frenesim" eleitoral, que o país dispensava, mas que por razões conhecidas se tornaram obrigatórias. Entretanto, e enquanto as máquinas partidárias "aquecem os motores", as empresas de sondagem "foram ao terreno" (um eufemismo para os milhares de entrevistas feitas telefonicamente) auscultar o sentido de voto da população...

E que revelam os estudos de opinião da CESOP e da Aximage, esta semana publicados pela Universidade Católica/Público/RTP e pelo DN/JN/TSF, respectivamente?

Nada que surpreenda, ainda que nos partidos mais votados (PS e PSD) a ordem das percentagens se inverta, a percentagem do Chega se mantenha e a IL desça nas intenções de voto. Isto, no que aos quatro partidos mais votados diz respeito. Já os restantes partidos, à esquerda e à direita do hemiciclo, mantém  valores semelhantes em ambas as sondagens. 

Comparem-se os resultados (entre parêntesis, a sondagem da Aximage): 

PS 28% (32,9%); PSD 29% (26,7%); CHEGA16% (16,2%); IL 9% (5%); BE 6% (6,9%); CDU 3,2% (3%); PAN 2% (2,9%); LIVRE  2% (2%); CDS 2% (1,5%); Outros 3% (2,7%).

Que concluir destas duas sondagens, a três meses das eleições, quando sabemos que 30% dos inquiridos ainda não sabem (ou não vão votar) no próximo mês de Março? 

Muito pouco, já que as sondagens reflectem amostragens, necessariamente limitadas a um pequeno universo, feitas aleatoriamente e em períodos conturbados da vida nacional, como é o caso com o despoletar da crise institucional de 7 de Novembro.    

Grosso modo, mantém-se a tendência verificada há seis meses atrás, quando o PS já baixava aos 30%, o PSD não ultrapassava os 30% e o Chega crescia acima dos 15%. Também o IL, apesar de descer, mantém uma percentagem média (7%) que lhe garante o quarto melhor resultado nas sondagens e no parlamento. Ou seja, descem os partidos do centro (PS e PSD) e sobem os partidos dos extremos (Chega e IL). 

Uma coisa, parece certa: nenhum dos partidos conseguirá uma maioria absoluta, pelo que o próximo governo será sempre de coligação, seja à esquerda, seja à direita. Qual dois dois cenários terá mais possibilidade de vingar, depende muito das eleições internas do PS (quem será o próximo secretário-geral do partido?) e do evoluir da tendência mostrada em sondagens futuras. Caso um dos dois partidos (ao centro) se destaque daqui até Março, é bem provável que os indecisos optem pelo partido mais bem posicionado, pois os eleitores preferem a estabilidade à confusão. Mas, o voto (num dos dois partidos) só por si não garante a governação do mais votado.

Se o PS ganhar as eleições, pode muito bem acontecer não ter uma maioria parlamentar que lhe garanta a governação, da mesma forma que, pela mesma razão, o PSD pode ganhar as eleições e não governar. É neste contexto, que ganham relevo as "alianças" anunciadas, sejam elas pré- ou pós-eleitorais. Até agora, nenhum dos candidatos quis "abrir o jogo" a este respeito, mas terá de o fazer mais tarde ou mais cedo. Em última análise, se nenhum dos grandes partidos o anunciar explicitamente, serão os resultados eleitorais que irão definir os contornos do próximo governo.

À "esquerda" ninguém se quer comprometer, mas uma segunda "geringonça" parece não estar fora dos planos; já à "direita", uma "geringonça" (sem o Chega) parece impossível de alcançar. Este é o dilema de Montenegro que, apesar de "jurar" não querer aliar-se com a extrema-direita, poderá não resistir à tentação de o fazer, caso a aritmética seja favorável a esta solução. Teríamos assim, um partido racista, xenófobo e anti-sistema (o "novo" fascismo) no poder, entrando directamente no governo, ou apoiando-o através do voto parlamentar. Uma combinação que, de resto, foi tentada nos Açores (apesar de fracassada) e noutros países europeus, onde a solução encontrada foi a de constituir um "cordão sanitário", que impedisse os partidos de extrema-direita de chegar ao poder.  

Nada garante que Portugal, até hoje imune ao "vírus" fascista, não possa vir a ter um governo de extrema-direita. Se aconteceu na maior parte dos países do Norte da Europa, pode acontecer aqui.   

Esta é a questão central, que deve levar os votantes a decidir quem querem a governar depois do dia 10 de Março. Até lá, muita água irá correr debaixo das pontes. Neste momento, é extemporâneo avançar com prognósticos. Entretanto, há que suportar as promessas habituais das campanhas eleitorais. Desta vez, num contexto bem mais perigoso do que no passado. Estamos avisados. 

2022/01/14

Entre o PAN e o "Pântano", venha o diabo e escolha...

 

Terminadas as festas, começaram os saldos. Este ano, para além das promoções com desconto, temos as promessas eleitorais, que - a acreditar no Pai Natal - estão cheias de "presentes" para oferecer a quem se portar bem. Desde logo, o famigerado PRR (vulgo "bazuka") que é suposto "curar" grande parte dos nossos males e, lá mais para diante, os dinheiros dos programas europeus de coesão, que dão pelo nome de "20-20" e "20-30". No total, cerca de 60 mil milhões de euros, até finais da década. Ou seja, Portugal (se nos portarmos bem, lá está...) vai receber, só nesta década, tanto quanto recebeu desde a sua adesão à CEE, já lá vão 36 anos...

Por razões que a razão desconhece, a legislatura (que devia ter durado até 2023) foi interrompida a meio,  obrigando a eleições antecipadas (agendadas para o dia 30 de Janeiro). Até lá, teremos duas semanas de debates (que estão a decorrer neste momento) e duas semanas de campanha propriamente dita que, este ano, por via da restrições sanitárias, será mais contida no tempo e no espaço. 

Regressado do estrangeiro esta semana, perdi metade dos debates e, dos que restavam, vi os considerados mais importantes, entre os quais o frente-a-frente entre o actual primeiro-ministro (António Costa) e o "challenger" de serviço, o líder do principal partido da oposição (Rui Rio).

Primeira Nota: ao contrário dos restantes debates, que tiveram a duração média de 30 minutos, este debate durou 60 minutos. O dobro. Porquê? Claro que podemos sempre argumentar que se tratava do debate mais importante, já que um dos dois oponentes irá ser o próximo primeiro-ministro. Mas, se 60 minutos não dão para falar em mais de 4 ou 5 temas, como é que 30 minutos poderão ser suficientes para explicar o que quer que seja? A menos que os jornalistas de serviço estivessem interessados em aprofundar os temas em discussão, o que não era o caso.

Segunda Nota: para além de temas clássicos (economia, saúde, emprego, reformas...) e à excepção de temas marginais trazidos por partidos da extrema-direita (impostos, subsídios diversos, pena de prisão perpétua ou castração química de pedófilos...), nunca ouvimos falar de coisas tão importantes como: educação, cultura, habitação, transportes, mobilidade, ambiente, imigração, problema demográfico, descentralização e desertificação do interior. Isto, para não falar na política estrangeira (temos alguma?) ou da Europa, que nos subsidia há 36 anos. 

Terceira Nota: todos os oponentes, sem excepção, falaram no passado (virtudes próprias e defeitos alheios) sem apresentarem uma estratégia futura que nos permita ter uma ideia, ainda que geral, do que é que se propõem fazer, caso sejam governo. Mais, no caso dos partidos de esquerda, passaram o tempo a culparem-se mutuamente, pelo chumbo do Orçamento e pela consequente queda do governo. É verdade que existem programas partidários e, em tese, todos nós podemos lê-los e aferir do seu conteúdo. Mas, quem é que, nos tempos que correm, lê programas de 20 partidos?   

Quarta Nota: estamos em eleições legislativas para eleger deputados para a Assembleia da República. Só depois, saberemos a composição da AR. Porque razão é que, nestas eleições, António Costa, passou a afirmar que estamos a eleger o primeiro-ministro (!?). A menos que se trate de um "lapso freudiano", não se percebe esta afirmação, ainda que nela possa estar implícita a mensagem subliminar "votem em mim" (se querem que o PS governe...). 

Quinta Nota: do debate de ontem, algumas coisas parecem claras: Costa parece apostar numa maioria absoluta (usando o eufemismo "uma maioria estável") o que lhe permitiria dispensar alianças à esquerda e à direita; ou, caso não a obtenha, procurar governar com quem o apoiar (chegou a mencionar o PAN) ou continuar como até aqui, fazendo acordos caso a caso, como aconteceu durante o consulado de Guterres, no qual ele foi ministro dos assuntos parlamentares e que terminou no "pântano". Ou, terceira hipótese, aceitar o repto de Rio (governar com o apoio do segundo partido mais votado), o que ficou por esclarecer, já que ninguém sabe qual vai ser a composição da próxima assembleia.  

Sexta Nota: não é provável que qualquer dos dois maiores partidos (PS e PSD), ganhe as eleições com maioria absoluta. A acreditar nas sondagens publicadas entretanto, há uma tendência que se mantém constante em todas elas: existe uma maior polarização à esquerda e à direita e o PS ganhará as eleições, ainda que sem maioria absoluta. "De acordo, com os dados da sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa, para o PUBLICO, RTP e Antena, entre os dias 6 e 10 de Janeiro, os socialistas poderão beneficiar de uma significativa transferência de votos de eleitores que em 2019 votaram na CDU, no Bloco de Esquerda, no Livre e no PAN, enquanto o PSD também faz uma boa "pescaria" nos eleitores do CDS, além de algumas franjas do Chega, Iniciativa Liberal e até do PAN" (in "Público" d.d. 14/01/22). 

Sétima Nota: De acordo com a mesma sondagem, o PS vencerá com cerca de 39%, o PSD terá cerca de 30%, o BE 6%, o Chega 6%, a CDU 5%, a IL 4%, o PAN 3%, o CDS 2% e o Livre 2%. Estes serão, em princípio, os partidos que elegerão deputados. A confirmar-se este cenário, não haveria grandes alterações na composição da AR, maioritariamente de esquerda, o que levantará de novo a questão de Outubro: se o Orçamento de Estado foi chumbado, porque é que o mesmo orçamento seria, agora, aprovado?

Oitava Nota: ainda que o debate de ontem não esteja contabilizado nas sondagens, não é muito provável que a opinião dos votantes se altere, já que a maioria tem o seu voto definido. No entanto, daqui até ao lavar dos cestos, é vindima. Pode acontecer o PS ganhar as eleições, mas a esquerda ficar em minoria no Parlamento; ou, o contrário: o PSD ganhar, mas a maioria do Parlamento continuar a ser de esquerda. Nesse caso, qual será a solução preconizada? Uma "geringonça" de direita, ou uma (segunda) "geringonça" de esquerda? E Costa, sairá do governo, se perder? E Rio, ficará como líder do PSD? As máquinas partidárias não costumam ser benevolentes para líderes perdedores. O mesmo é válido para os líderes de outros partidos, de resto.

Tempos interessantes. No dia 30, saberemos mais.

2021/01/23

Eleições Presidenciais: contas (im)prováveis

Em dia de reflexão, as reflexões possíveis sobre umas eleições atípicas que, no último mês, mobilizaram os portugueses - candidatos e votantes - para mais um acto eleitoral. 

Desde logo a especificidade destas eleições, em meio de uma pandemia que, inevitavelmente, vai influenciar o resultado, dado o nível de abstenção esperado. O próprio presidente da república admitiu, esta semana, não ser improvável uma segunda volta, caso a percentagem de votantes seja inferior a 30%. Percebe-se o receio de Marcelo: se a abstenção ficar acima de 70%, é bastante provável que haja uma distorção das percentagens previstas e, nesse caso, o candidato mais votado (o próprio Marcelo) pode não atingir os 50%+1, necessários para eleger um presidente à primeira volta. A única vez que tal aconteceu foi em 1986, quando Soares e Freitas do Amaral necessitaram de uma segunda volta para apurar o vencedor. Todos os restantes presidentes (Eanes, Sampaio, Cavaco) ganharam sempre à primeira volta as eleições que disputaram, da mesma forma que todos (inclusive Soares) fizeram dois mandatos (dez anos no total). 

Depois, a pandemia em si, que nas últimas semanas atingiu números impensáveis há um mês e tornou Portugal o país do Mundo com mais mortes por milhão de habitantes (!?). Perante tal quadro, seria avisado adiar estas eleições ainda que, do ponto de vista formal, tal não fosse possível sem alterar a Constituição, o que, desde logo, se revelou uma impossibilidade de calendário. É, portanto, em clima de estado de excepção (próximo do estado de calamidade) que as eleições vão disputar-se amanhã. Com vista a reduzir as filas de votantes e os perigos de contágio implícitos, foi possível aderir ao "voto antecipado", no qual participaram cerca de 250.000 votantes, que já votaram no passado dia 17. De mal a menos. Como sempre acontece nestas coisas feitas em "cima do joelho", os votantes do passado fim-de-semana esperaram horas nas filas para poderem votar, o que não abona em favor da organização. Porque não prolongar a votação por dois dias (sábado e domingo, por exemplo)? 

Para além da pandemia, outra das razões que podem contribuir para a pouca participação, é o facto do vencedor ser conhecido antecipadamente. Marcelo Rebelo de Sousa é, de há muito, o político mais popular do país e, não por acaso, foi o último a anunciar a sua candidatura, pois sabe não necessitar de fazer campanha para ganhar estas eleições. Basta-lhe "estar". De resto, também aqui se repete a história: todos os presidentes, depois do 25 de Abril, foram reeleitos.

Finalmente, a campanha eleitoral, que decorreu ao longo de um mês e constou de duas partes distintas: os debates e as acções públicas, ao ar livre e em espaços confinados. Foi uma campanha atípica, como não podia deixar de ser, onde rapidamente se perceberam as tendências predominantes. Nos debates, em que os candidatos tentaram em 30 minutos (15 para cada lado) apresentar as suas ideias; e nas acções, onde não havia contraditório e as posições ficaram mais claras. 

Os debates

Foram "mornos" e pouco motivadores. Entre um presidente em funções, experiente em evitar provocações (Marcelo) e as arruaças de um candidato sem ideias, que fez da provocação a sua arma (Ventura), restavam cinco candidatos democratas, três dos quais representantes de forças partidárias (Marisa Matias, João Ferreira e Tiago Mayan) e dois independentes (Ana Gomes e Vitorino Dias). Mais do que apurar "vencedores", ainda que nalguns momentos a clarividência de Marcelo tenha sido evidente, a sensação que ficou, foi a da maior parte dos candidatos, terem um discurso mais próximo de um candidato a 1ª ministro do que um candidato a presidente da república. Pelos vistos, nem todos conheciam os poderes atribuídos pela Constituição. Neste campo, o único candidato que propôs alterar a Constituição (para limitar os poderes do Parlamento) foi o candidato da extrema-direita que, como todos os ditadores em potência, não gosta de ser escrutinado....Já ouvimos este discurso em qualquer lado.

As campanhas 

Foram esparsas e confinadas, o que não aumentou a interesse pelo acto eleitoral. Marcelo (vencedor antecipado) deixou praticamente de fazer campanha de rua, limitando-se a aparecer em lugares ou cerimónias escolhidas, enquanto os restantes candidatos procuraram um contacto mais pessoal, ainda que reduzido em participantes. Foram utilizados mais meios tecnológicos (plataformas "zoom" e outras) o que permitiu abrir o leque de participantes, mas nem tudo correu bem. Ter trazido a campanha para a rua, ajudou, no entanto, a melhor compreender a mensagem e o comportamento dos candidatos. Isso foi mais visível na campanha de Ana Gomes (a candidata democrata, mais bem posicionada, depois de Marcelo) e na campanha de André Ventura, que usou e abusou da demagogia habitual, para chamar as atenções dos incautos. Aparentemente, o "tiro saiu-lhe pela culatra", seja pelas manifestações de repúdio que encontrou em Serpa, Coimbra, Évora e Setúbal (foi o único candidato vaiado), seja pela perda nas intenções de voto, onde seria ultrapassado por Ana Gomes, que recolhe desta forma os dividendos do "voto útil" de outras candidaturas democratas. 

Chegados aqui, resta-nos esperar por domingo. De acordo com a maioria das sondagens, publicadas na última semana, os resultados não devem afastar-se muito do quadro abaixo. Isto, no que respeita o lugar dos candidatos. 

Partimos de um cálculo simples: somámos as percentagens, de cada candidato, apuradas pelas quatro principais sondagens publicadas (RTP/Público/Católica, SIC/ISCTE/ICS, TVI/Pitagórica/Observador e TSF/JN/DN) e dividimos o total de cada um, por 4. Os resultados, deste inquérito "caseiro", foram:

Marcelo Rebelo de Sousa - 61,5%

Ana Gomes - 14%

André Ventura - 10%

João Ferreira - 4,9%

Marisa Matias - 4,2%

Tiago Mayan - 3,1% 

Vitorino Dias - 1,5% 

Vale o que vale, mas podia ser pior...

Até lá e para quem possa votar: máscara, gel, caneta e cartão de cidadão, bastam. 

Votem! 

2019/10/03

Eleições: até ao lavar dos cestos...

A campanha eleitoral entrou na recta final.
Ainda que poucas surpresas sejam esperadas nestes últimos dias, não deixam de espantar os resultados da mais recente sondagem, feita pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da UCP para o Público/RTP onde, pela primeira vez, o PSD surge com uma votação acima dos 30% e o PS com uma votação abaixo dos 40% o que, a verificar-se, inviabilizará a maioria absoluta desejada pelos socialistas.
Dada a relativa fiabilidade das sondagens da Cesop, é de admitir que, no próximo domingo, não fiquemos muito longe destes resultados. Ainda segundo a mesma sondagem, os restantes partidos do hemiciclo (BE, CDU, CDS e PAN) terão, sensivelmente, a mesma percentagem de votos, com excepção do PAN que, tudo indica, será o único partido a crescer. A dúvida reside, agora, nos pequenos partidos, dos quais dois (Iniciativa Liberal e Livre) podem eleger o seu primeiro deputado, dada a dispersão de votos nos círculos de maior densidade populacional.
Porque é que o PSD, que chegou a ter percentagens de 20% nas sondagens, surge nesta última projecção como o partido que mais aumenta a sua votação?
Dois acontecimentos, podem ajudar a explicar este "súbito" aumento nas intenções de voto dos sociais-democratas: os debates televisivos, onde a prestação de Rui Rio foi francamente melhor do que vinha fazendo nos comícios; e a entrada do "caso Tancos" na campanha, por via da acusação do MP, tornada pública na passada semana.
As boas prestações de Rio (nos debates com Costa) e as acusações do MP contra membros do governo PS (no caso de Tancos) parecem ter dado novo alento e "cartuchos" à oposição que, depois de uma campanha morna, viu aqui a sua última oportunidade para tentar inverter a situação. Essa foi, de resto, a razão porque Rio alterou o seu discurso de não-ingerência em casos de justiça e exigiu uma reunião urgente da Comissão Parlamentar de Líderes, com vista a discutir o "caso Tancos", antes das eleições (!?). Como era de esperar, a sugestão não colheu junto do presidente da Assembleia, que agendou a discussão para a semana a seguir às eleições.    
Dadas as circunstâncias, não é certo que a tendência, apontada em todas as sondagens (vitória dos partidos de esquerda e derrota dos partidos de direita) se altere nos últimos dias. Duas coisas, no entanto, o PSD parece ter conseguido: fugir a uma derrota clamorosa e dessa forma poupar Rui Rio a uma resignação precoce, num partido em clara crise de identidade, onde a direita tradicional e a direita neoliberal, têm dificuldade em cohabitar; e impedir que o PS alcance uma maioria absoluta, o que poderá abrir espaço a negociações futuras, entre os dois maiores partidos.
Perante este cenário, resta saber qual será a posição do PS, após a mais que provável vitória sem maioria absoluta. Três hipóteses: governar em minoria, estabelecendo acordos pontuais no Parlamento com outras forças políticas; governar em coligação com o partido mais votado à sua esquerda (BE); governar em coligação com mais partidos, numa reedição da "geringonça", ainda que com outros pressupostos. Curiosamente, ou talvez não, a maioria dos entrevistados pela Cesop (37%) declarou-se favorável à reedição de uma coligação com um ou mais partidos à esquerda do PS (Geringonça 2). Percebe-se: depois dos 4 anos de austeridade (2011-2015) devido às medidas aplicadas pela coligação de direita (PSD/CDS), a maioria dos votantes não quer regressar aos "anos de chumbo" da Troika. Com todas as suas condicionantes, avanços e recuos, os anos do governo PS, apoiados pelo BE e pela CDU (2015-2019), foram indubitavelmente melhores para a maioria da população, em termos de direitos sociais, poder de compra e avanços significativos em áreas tão importantes como as reformas e pensões, o emprego, os manuais escolares gratuitos ou os passes sociais...
Uma última palavra para os debates durante a campanha, onde a economia e as finanças, continuaram a ser os temas dominantes.  Como bem assinalou Raquel Varela ("Público" de 30 de Setembro), desde a dívida pública ao turismo, há temas que nenhum político discute. Mas, há mais: a questão climática, a dívida "odiosa" (parte substancial da dívida soberana portuguesa), a banca portuguesa, as ruinosas PPPs, a TAP, o CTT, as dívidas impagáveis do Metro, as consequências do turismo "low cost" nas cidades, a crise habitacional em Lisboa e no Porto, o racismo e o populismo crescentes. Esperemos que o futuro governo ouse fazê-lo e, mais importante, que tome medidas concretas, com vista a abolir de vez com a miséria insuportável de mais de 20% da população portuguesa, obrigada a viver com um rendimento médio de 482euros mensais.
Porque até ao "lavar dos cestos é vindima", reservamos os nossos prognósticos para o fim, na certeza de que só votando podemos influenciar o jogo...

2009/09/27

Prognósticos Finais

Ao fim de treze anos de "jejum" fui hoje, de novo, votar.
Gostei do que vi: centenas de pessoas em longas filas de espera, aguardando a sua vez de cumprir o ritual.
Se as sondagens não falharem, teremos uma grande afluência às urnas e uma vitória, mais ou menos folgada, do partido do governo. De acordo com o meu "trabalho de campo", levado a cabo em supermercados da zona, padarias, farmácia, quiosque de jornais e junto de moradores do bairro (acamados incluidos), o resultado das eleições de hoje deve andar próximo deste:

PS: 35%
PSD: 32%
BE: 10%
CDU: 9%
CDS: 7%
MEP: 2%
MMS: 1%
Outros: 2%
Brancos: 2%

A margem de erro é enorme. A ingovernabilidade seria total. Mas, não deixava de ter graça...