Entre "coligações negativas" e a possibilidade de criação de uma "coligação positiva" para ir mantendo as aparências, há um dado que pode estar a escapar-nos a todos. Há tempos opinei aqui que os agentes políticos portugueses subestimavam as capacidades de Sócrates, o seu grau de ambição e o seu instinto político. A falta de uma avaliação correcta do primeiro ministro tem tido consequências trágicas: tivemos de o continuar a gramar para além da manifesta ultrapassagem do seu prazo de validade e agora arriscamo-nos a vê-lo sair reforçado de tudo isto. Exagero? Mmm... vamos ver como se comportam os seus principais rivais.
Na intervenção a anunciar a sua demissão o primeiro ministro reiterou como firmeza a sua determinação em apresentar-se de novo ao sufrágio eleitoral, e se os outros partidos do "arco da governação" acham que já derrotaram Sócrates é melhor pensarem duas vezes. Não houve líder do "arco do poder" a gerir o poder do arco como ele até agora e, no final de contas, é esta gestão que conta para o poder instalado, ou sistema, como um dirigente desportivo um dia chamou à mafia do futebol.
Duas coisas são certas: no plano interno, Sócrates não tem contestação credível e, por outro lado, os outros líderes do sistema têm-se revelado uns verdadeiros anjinhos no confronto com ele.
Confiar a defesa dos verdadeiros interesses do povo português à capacidade dos outros líderes para gerir o "arco da governação" contra a ambição e resiliência de Sócrates é um gravíssimo erro político.
A luta pode fazer-se com alegria, mas não com ingenuidade. Só poderemos exultar com as eleições quando isto for compreendido. Senão, daqui a uns três meses vamos escolher mais do mesmo.
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2011/03/24
2011/03/23
Ditadura de pantufas (2)
Não pode deixar de chocar a pressão que os políticos e comentadores de serviço do regime exercem sobre os portugueses. Pais, mães, tios, tias e primos da democracia portuguesa, todos opinam. Afinando as gargantas e com mais ou menos variações recomendam, instam, urgem em coro os partidos a estabelecer alianças para a salvação da república neste momento de crise.
Mas, quem é que, na perspectiva desta "família democrática", claramente disfuncional, entra na aliança? Que partidos? Ora, o PS, o PSD e o CDS, pois claro, os tais partidos auto-designados do "arco do poder", os mesmos que, enquanto "arco do poder" e com o poder de definir o arco, deixaram o país neste estado e repetem repetem agora incessantemente que as outras forças presentes na AR, mesmo que representando uma percentagem significativa da população, têm o poder de se auto-excluir desse arco.
"O próximo governo vai exigir mais do que a vontade de um partido", diz um. "Há mais a unir estes partidos [euro, Europa, economia de mercado] do que a dividi-los", justifica outro.
Não creio que os milhares e milhares que desfilaram nas manifestações dos passados dias 12 e 19 tão pouco se revejam nesta lógica do "arco do poder".
O que podem os Portugueses esperar pois para afastar os efeitos da crise? Mais controlo sobre a dívida? Mais medidas para transformar a economia e combater a pior recessão deste Portugal do século XXI? Não creio. O que os partidos do "arco do poder" parecem vir fazendo há anos é arranjar maneiras de se perpetuarem no poder. Amanhando-se sozinhos à vez, ou amanhando-se colectivamente quando a solução individual se revela desajustada como agora.
A resolução dos problemas do país fica para um dia (como se prova com o agravamento contínuo e prolongado dos problemas estruturais). Quando muito, podemos ir esperando que sejam atamancados para efeitos de manutenção do poder.
A democracia portuguesa parece uma daquelas lojas em cujas prateleiras vemos uma limitadíssima selecção de produtos, maus e caros.
O país está assim dependente do sucesso dos efeitos desta lógica de intoxicação do sentido crítico dos portugueses. Só poderemos exultar com as eleições quando tivermos a certeza que os nossos compatriotas estão imunes a estas tentativas de intoxicação.
Ditadura de pantufas (1)
Ninguém com um mínimo de senso imagina que a crise que nos bate agora é resultado de algo que aconteceu há meia dúzia de dias. A dívida e a estagnação da economia, tal como Roma e Pavia, não foram feitas num dia.
Na falta de acesso directo aos números, às estatísticas e às inúmeras análises sérias produzidas ao longo dos tempos, todos puderam, pelo menos, suspeitar que a linha do endividamento se ia empinando perigosamente e de que, tendo em conta a inexistência de medidas sérias para combater a estagnação e falta de competitividade da economia, a coisa iria acabar mal. As fúrias do Medina Carreira tiveram, pelo menos, essa virtude de permitir ver muitos gráficos onde se podia ler claramente a crise.
Repito: deixámos com a nossa atitude indiferente e leviana que o recurso à dívida se tornasse a regra de ouro da economia portuguesa e tolerámos todos esta economia de subsistência em versão delux em que temos vivido até agora.
Quando vejo o modo como muitos exultam tão facilmente com a demissão do primeiro ministro nestas condições, receio que estes (quantos?) se estejam a esquecer de que o que se passou hoje não nasceu ontem. A memória é curta e a arte da retórica tem palavras com asas...
O país está assim dependente do maior ou menor grau de amnésia de uns quantos dos nossos compatriotas. Só poderemos exultar de facto com eleições quando tivermos a certeza que os nossos compatriotas esqueceram a amnésia...
Repito: deixámos com a nossa atitude indiferente e leviana que o recurso à dívida se tornasse a regra de ouro da economia portuguesa e tolerámos todos esta economia de subsistência em versão delux em que temos vivido até agora.
Quando vejo o modo como muitos exultam tão facilmente com a demissão do primeiro ministro nestas condições, receio que estes (quantos?) se estejam a esquecer de que o que se passou hoje não nasceu ontem. A memória é curta e a arte da retórica tem palavras com asas...
O país está assim dependente do maior ou menor grau de amnésia de uns quantos dos nossos compatriotas. Só poderemos exultar de facto com eleições quando tivermos a certeza que os nossos compatriotas esqueceram a amnésia...
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