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2019/10/17

Eleições: a contagem final


São já conhecidos os resultados da Emigração.
Como é da tradição, os dois principais partidos, dividiram entre si o número de deputados: 2 para o PS (um pela Europa e outro pelo Resto do Mundo) e 2 para o PSD (um pela Europa e outro pelo Resto do Mundo).
Contas feitas, o PS obteve um total de 36,34% dos votos (correspondente a 108 deputados)  e o PSD um total de 27,76% (correspondente a 78 deputados). Os restantes partidos não elegeram qualquer deputado. Confirma-se, deste modo, a vitória do PS, ainda que sem a maioria absoluta (ficaram a faltar 8 deputados).
Antecipando-se a estes resultados, António Costa lembrou que "os portugueses gostaram da "Geringonça" e desejam a continuidade da actual solução política, agora com um PS mais forte" (discurso da noite eleitoral). 
Acontece que o PS optou por governar sózinho, o que sendo um dos cenários possíveis, causou alguma estranheza nos meios afectos à "Geringonça".
O que se passou, entretanto?
Do PCP, sabíamos que só muito dificilmente repetiria a "experiência", dadas as críticas internas ao posicionamento do partido na "Geringonça", algumas das quais foram sendo tornadas públicas ao longo dos últimos dias. A pesada derrota eleitoral, teria contribuido para esta decisão.
Do BE, sabíamos que estaria disponível para uma 2ª "Geringonça", ainda que houvesse algumas "linhas vermelhas" que não podiam ser ultrapassadas. A estagnação do partido, em número de deputados, não ajudou à negociação.  
Com os restantes partidos de esquerda (Livre e PAN), o PS nunca poderia contar para constituir uma maioria qualificada.
Perante tal cenário, percebe-se a decisão do PS, ainda que seja a mais arriscada: em caso de uma "coligação negativa" na AR, o governo pode cair, como aconteceu com o governo de Sócrates em 2011.
Costa (um optimista) parece estar confiante em que tal não acontecerá, ao garantir a abstenção dos partidos da esquerda nas votações orçamentais, o que lhe permitiria chegar ao fim da legislatura...
Em último caso, poderá sempre "virar-se" para a direita que, neste momento, se prepara para eleger novos líderes. Se isso no CDS é uma certeza, no PSD, é tudo menos certo. Caso Rui Rio se mantenha, Costa sabe ter ali um "aliado" em potência, que pode facilitar-lhe a vida em caso de necessidade.  Não seria a primeira vez, de resto...
A estabilidade da situação interna, só por si, não é uma garantia de uma governação estável. Há variáveis que o governo português não poderá controlar (estagnação económica a nível europeu, guerra comercial entre EUA e China, preço do petróleo nos mercados, Brexit, etc...) que podem pesar no melhor ou pior desempenho da governação. Nessa altura, veremos se a solução "um governo, um partido" foi a melhor.
Para já, os nomes escolhidos para o próximo executivo, são praticamente os mesmos, o que indica uma aposta na continuidade dos governantes. Resta saber se haverá continuidade nas políticas. Essa é a questão

2019/02/15

Taxi Driver (16)

Foto blogue Segirei

Boa tarde
- Boa tarde, então para onde é que vamos hoje?
Hoje vamos para a Rua de São Bento, ali ao pé do Parlamento...
- Estava mesmo a dizer aos meus colegas, que nunca sei para onde levo o senhor...
Pois, é sinal que tenho poucas rotinas...
- Vamos aqui pelo Monsanto?
Parece-me melhor. É sempre mais rápido...
- Isto, hoje, está a anunciar chuva. Será da depressão dos Açores?
É bem possível...há por lá muitas depressões...
- Pois há. Começam sempre lá e, depois, vêm para o continente.
Deixe lá, o Inverno está quase a terminar. Mais duas ou três semanas e já temos bom tempo outra vez.
- Vamos lá ver se este é um bom ano de colheitas. Tenho umas batatas para apanhar e tenho de ir à terra ver como estão e limpar a mata...
Ora bem, nada como prevenir. Para evitar os fogos e não só...
- Já viu como está bonito o Monsanto? Tudo verde. E as árvores que eles plantaram aqui? Há de tudo, pinho bravo, pinho manso, sobreiros, carvalhos, oliveiras, até juncos e palmeiras...
Sim, sim. Um projecto visionário. Do Duarte Pacheco, que foi ministro de obras públicas no regime de Salazar. Tem uma estátua à entrada do viaduto.
- Eu sei. Eu ainda não era nascido, mas isto aqui eram só quintas e eiras e foi tudo expropriado. Lisboa era uma cidade de provincia, nessa altura. Agora, não se pode cá viver e os campos estão desertos.
Estão desertos, porque as populações emigraram para o litoral e para a Europa...
- Claro. Se não tinham dinheiro para comer! O meu pai, que tinha uma pequena leira, onde semeava as coisas que comíamos, contava-nos que nos anos trinta e quarenta, passavam uma fome de rato. Quando havia seca, como em 45 e 46, nem batatas que chegassem, havia! Iam lá os capatazes, buscar os homens para trabalharem à jorna e, depois de dois ou três dias de trabalho, só levavam os mais fortes e deixavam os outros à míngua...
Por isso é que as pessoas fugiram: para as cidades primeiro e, mais tarde, para França e outros países da Europa. Nas aldeias ficaram só os idosos, as mulheres e as poucas crianças que não iam com as famílias. Com a guerra colonial, foram-se embora os jovens em idade de trabalhar e, a partir daí, nunca mais houve repovoamento do interior. Um drama social e demográfico, que ainda hoje continuamos a pagar...
- Pois foi. E ainda há quem diga bem do Salazar! Tenho colegas meus que dizem que no tempo dele havia comida com fartura...Eu lembro-me bem da GNR ir à nossa aldeia, ver se os homens estavam todos lá a trabalhar, não fossem fugir alguns...
Não deve ter servido de muito, pois só nos anos sessenta e setenta, saíram mais de 1 milhão e meio de portugueses, dos quais 200.000 eram jovens que não quiseram fazer a guerra...
- Eu não sei quantos foram, mas sei que todas as semanas partiam homens. Um deles, meu vizinho, até comprou umas botas de couro com solas de borracha para andar e, quando chegou a França, ia com a sola das botas todas rotas. Tanto tinha andado!
Há muitas histórias dessas. Muitas nunca foram contadas, mas todos conhecemos os dramas da emigração. Por um lado, não interessava ao Salazar que os portugueses emigrassem, mas por outro interessava-lhe receber as remessas dos emigrantes, para compensar o dinheiro que gastava com a guerra. Não se esqueça que 40% do orçamento nacional ia para a guerra colonial!
- Sim, sim. E havia muito contrabando na fronteira, pois não havia cá muitas coisas que havia em Espanha. O meu avô, que andou na construção da ponte que liga Belmonte à Covilhã, contava que passaram lá muitos combóios carregados de minério e de armas para ajudar o Franco, que era outro que tal...
Está a ver, só confirma o que eu disse.
- Há gente que não sabe o bem que tem. Se tivessem vivido no tempo do "botas" não se esqueciam do que era fome e miséria.
Fome, miséria e ditadura. Quem falasse contra, era preso e torturado.
- Pois, isso era mais nas cidades, mas a gente ouvia falar das prisões lá na terra. Um sacana o Salazar (o senhor desculpe, a minha linguagem!).
Ora essa! Usou o termo apropriado.


 

     
 

2017/01/31

Uma semana de Benelux (2)


A distância entre Amsterdão e a capital do Luxemburgo é de cerca de 500km em linha recta.
Pode ser feita de vários modos, mas escolhemos a mais demorada por razões sentimentais. Durante quase uma década, foram inúmeras as vezes que a percorremos em ambos os sentidos, quase sempre de carro ou de comboio. O comboio, tem a vantagem de podermos desfrutar da paisagem das Ardenas, espectacular em qualquer época do ano. Desta vez, os campos estavam cobertos de neve e, à distância, podiam ser observados bandos de corvos e até raposas e doninhas que, afanosamente, procuravam alimento nas terras brancas das colinas à beira da linha férrea. Um deslumbramento.
A parte negativa, foram as mudanças durante o trajecto: à ida, em Maastricht e Liége e, à volta, em Bruxelas-Norte e Roterdão. No total, paragens incluídas, 6 horas de viagem...
Tempo para uma rápida refeição nas gares de transbordo, pejadas de emigrantes de diversas nacionalidades. Em todas elas, um discreto patrulhamento policial, ainda que na Bélgica, por razões conhecidas, a presença dos para-militares fosse uma constante. Dentro do combóio, eram visíveis as patrulhas aos pares, com os policiais a controlar as carruagens, toiletes incluídas. A psicose do terrorismo não desapareceu. Se Amsterdão estava frio, o Luxemburgo estava gelado: menos 10º durante o dia.
Lá fomos apresentar mais uma vez o livro "Exílios", desta vez num centro de documentação dedicado às migrações, situado em Dudelange, na zona sul do país, perto da fronteira francesa. Uma sessão organizada com o patrocínio do Ministério da Cultura e da cidade de Dudelange.
O "Centre de Documentation sur les Migrations Humaines" (CDMH) foi fundado em 1993 e está situado na antiga gare "Dudelange-Usines", que serviu esta região mineira e de siderurgias, encerradas em finais dos anos oitenta. Em redor da antiga gare (agora reconvertida num moderno centro cultural) podem ser observadas as ruínas das antigas instalações industriais, num cenário algo apocalíptico, a lembrar os tempos da industrialização do início do século passado. Foi a esta região que chegaram os primeiros emigrantes, ainda antes da 2ª guerra, maioritariamente italianos, que continuam a constituir a maior comunidade na região. O CDMH está distribuido por dois andares, com um espaço para exposições e uma pequena recepção no rés-do-chão e um centro de documentação e uma biblioteca/auditório, situados no primeiro andar. Foi neste espaço, que três dos colaboradores do livro, falaram sobre a sua experiência de exilados em França, na Holanda e no Luxemburgo, durante os anos setenta. A obra foi apresentada por Thierry Hinger, professor na Universidade do Luxemburgo, especialista em migrações, cuja tese de doutoramento versa a migração portuguesa no Luxemburgo. Excelente sessão, presenciada por uma assistência atenta de portugueses e luxemburgueses, que na sua maioria desconheciam a história de uma geração que recusou a guerra colonial portuguesa em África, já que, à época, o Luxemburgo não aceitava exilados políticos oriundos do nosso país.
De volta a Amsterdão, tempo para visitar o Stadsarchief Amsterdam (Arquivo Municipal), certamente um dos edifícios públicos mais espectaculares da cidade onde, até ao dia 5 de Fevereiro, pode ser admirada a exposição "Amsterdam 1900", com fotografias e filmes dos mais famosos fotógrafos amadores da época. Grandes fotos, na sua maioria a preto e branco, onde a patine do tempo realça a beleza das imagens. Trabalhos de Olie, Breitner, Eilers e contemporâneos, em fotos e filmes, que passam ao longo do dia na sala da cave. A visitar, também pelo edifício, uma das obras de arquitectura mais icónicas de Amsterdão. Se andam por perto, ou contam passar pela cidade esta semana, recomendamos vivamente. 
           

2011/06/15

A Chapelada

José Lello, personagem por quem não nutro qualquer simpatia, pronunciou-se negativamente sobre a validação dos votos dos emigrantes recolhidos por um jornal do Rio de Janeiro. Os votos foram colectados por um jornal que fazia propaganda aberta pela candidatura do PSD e, posteriormente, enviados num contentor para Portugal a expensas do jornal em causa.
Na opinião do deputado do PS pela emigração, o Presidente da República devia impugnar a validação destes votos. Não posso estar mais de acordo. Para chapeladas já bastam as do antigo regime. Se estes votos forem validados, o descrédito de Cavaco só aumentará. Ele, que no dia das eleições, veio pronunciar-se sobre os eleitores fantasmas das listas eleitorais. Haja vergonha!

2011/02/13

Um retrato perturbante do País

Depois de Augusta Martinho, a senhora que apareceu mumificada ao fim de 9 anos de encarceramento na sua casa da Rinchoa, há um novo caso de um idoso que, suspeita-se , terá permanecido morto na sua casa em Cantanhede durante três meses.
Um país em falência, cujos velhos morrem sozinhos em casa e aí permanecem sem ninguém parecer dar por isso. Um país em falência cujos novos se ausentam, para ir buscar novamente na emigração a sua salvação económica. Esta ausência, para tratar da vida, talvez explique aliás a dificuldade, que pelos vistos se está a tornar regra, em dar conta da morte dos velhos nos sarcófagos da Rinchoa ou de Cantanhede.
São muitos os que se mostram escandalizados com tudo isto. Não talvez o suficiente, contudo.
A verdade é que falta deitar seriamente mãos à obra e criar as condições necessárias para atacar as causas remotas desta morte solitária dos velhos e desta nova morte longínqua para que empurrámos os novos.


PS- E vão três!