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2017/11/07

Postais da Holanda (1)

Maria Esmeralda Mendes (1943-2009) era portuguesa e viveu na Holanda, para onde se exilou em 1971. Enfermeira de profissão, foi detida pela PIDE, após ter participado numa greve da classe, no hospital onde trabalhava. Devido às ameaças recebidas, decidiu sair do país, primeiro para Paris e, posteriormente, para Amsterdão, onde acabaria por radicar-se durante 38 anos. 
Durante a permanência na capital holandesa, a sua actividade inicial dividiu-se entre a enfermagem, que exerceu nos primeiros anos de residência e uma activa participação junto da comunidade de portugueses exilados, ao tempo organizados no Comité de Refugiados Portugueses na Holanda.
Após um acidente de trânsito, que a obriga a ficar em casa sem ocupação, redescobre uma antiga paixão pelo desenho e pela pintura, desenvolvida na Escola António Arroio, que chegou a frequentar.
Segue-se um período de grande produção, onde a par da pintura (naíve), desenha e escreve para publicações locais e para Portugal. A sua primeira exposição, tem lugar em 1983, por iniciativa de Vitor da Silva Tavares, editor da & Etc., que publicou igualmente o seu primeiro livro "Rigor Mortis".
Os anos oitenta, são os mais produtivos da sua curta, mas intensa carreira, com inúmeras exposições em galerias e museus na Holanda, Bélgica e Portugal, onde o seu trabalho começa a tornar-se reconhecido. É convidada a ilustrar diversas publicações holandesas e são dela todas as capas de uma série, dedicada a autores portugueses, da editora De Prom. Na mesma época, a prestigiada revista literária holandesa "Maatstaf", dedica-lhe um portofólio, onde sobressai um elogioso texto do escritor, radicado na Holanda, Rentes de Carvalho.
Estamos no início da década de noventa e as suas pinturas (maioritariamente sobre mulheres) tornam-se icónicas e são disputadas por coleccionadores dentro e fora do pais. De novo, a doença, impede o desenvolvimento natural da sua carreira, o que a obriga a reduzir a actividade, assim como o ritmo das exposições. Alarga o campo de interesses e criatividade a outras áreas, como a gravura e a escultura, que desenvolve, a par da pintura, do desenho e da escrita.
Os seus últimos anos, são parcialmente passados em Caminha (Alto Minho), onde se refugia por períodos cada vez mais longos. As suas pinturas reflectem, agora, temas ligados à natureza que a rodeia, iniciando uma nova fase na sua profícua actividade, sem que o traço e a cor percam a força e a coerência. É entrevistada por Maria António Fiadeiro para o JL, que com ela realiza um documentário televisivo e colabora com a escritora Luísa da Costa, para quem ilustra o livro "Os Magos".
Na área do teatro, colabora na feitura dos cenários da peça "Ensaio Geral" (Horovitz) levada à cena pela Companhia do Chiado, em finais dos anos noventa.
Todas estas informações e muitas outras, foram este ano publicadas em livro por Dirk Baartse, seu companheiro ao longo de 38 anos, autor do texto e da composição gráfica de "Maria Mendes, uma biografia", em edição bi-lingue, cuja tradução portuguesa esteve a cargo de Rui Mota.
O livro foi, recentemente, apresentado na Biblioteca do Complexo De Hallen, em Amsterdão, perante uma assistência maioritariamente composta por amigos holandeses e portugueses da pintora. A organização esteve mais uma vez a cargo da agência Q-Arts (Teresa Pinto) e contou igualmente com a presença do prof. Fernando Venâncio, que faria uma comunicação sobre "Autores e rivalidades na literatura portuguesa, ao longo da História", para além da projecção do filme "Sonhar não custa dinheiro", um docu-drama sobre mulheres portuguesas (e.o. Maria Mendes) na Holanda.
Uma sessão evocativa, que justificou a viagem a um passado recente, numa cidade onde tivemos o privilégio de conhecer e conviver com a homenageada. A memória, também se faz destas coisas.

 
 

2017/01/31

Uma semana de Benelux (2)


A distância entre Amsterdão e a capital do Luxemburgo é de cerca de 500km em linha recta.
Pode ser feita de vários modos, mas escolhemos a mais demorada por razões sentimentais. Durante quase uma década, foram inúmeras as vezes que a percorremos em ambos os sentidos, quase sempre de carro ou de comboio. O comboio, tem a vantagem de podermos desfrutar da paisagem das Ardenas, espectacular em qualquer época do ano. Desta vez, os campos estavam cobertos de neve e, à distância, podiam ser observados bandos de corvos e até raposas e doninhas que, afanosamente, procuravam alimento nas terras brancas das colinas à beira da linha férrea. Um deslumbramento.
A parte negativa, foram as mudanças durante o trajecto: à ida, em Maastricht e Liége e, à volta, em Bruxelas-Norte e Roterdão. No total, paragens incluídas, 6 horas de viagem...
Tempo para uma rápida refeição nas gares de transbordo, pejadas de emigrantes de diversas nacionalidades. Em todas elas, um discreto patrulhamento policial, ainda que na Bélgica, por razões conhecidas, a presença dos para-militares fosse uma constante. Dentro do combóio, eram visíveis as patrulhas aos pares, com os policiais a controlar as carruagens, toiletes incluídas. A psicose do terrorismo não desapareceu. Se Amsterdão estava frio, o Luxemburgo estava gelado: menos 10º durante o dia.
Lá fomos apresentar mais uma vez o livro "Exílios", desta vez num centro de documentação dedicado às migrações, situado em Dudelange, na zona sul do país, perto da fronteira francesa. Uma sessão organizada com o patrocínio do Ministério da Cultura e da cidade de Dudelange.
O "Centre de Documentation sur les Migrations Humaines" (CDMH) foi fundado em 1993 e está situado na antiga gare "Dudelange-Usines", que serviu esta região mineira e de siderurgias, encerradas em finais dos anos oitenta. Em redor da antiga gare (agora reconvertida num moderno centro cultural) podem ser observadas as ruínas das antigas instalações industriais, num cenário algo apocalíptico, a lembrar os tempos da industrialização do início do século passado. Foi a esta região que chegaram os primeiros emigrantes, ainda antes da 2ª guerra, maioritariamente italianos, que continuam a constituir a maior comunidade na região. O CDMH está distribuido por dois andares, com um espaço para exposições e uma pequena recepção no rés-do-chão e um centro de documentação e uma biblioteca/auditório, situados no primeiro andar. Foi neste espaço, que três dos colaboradores do livro, falaram sobre a sua experiência de exilados em França, na Holanda e no Luxemburgo, durante os anos setenta. A obra foi apresentada por Thierry Hinger, professor na Universidade do Luxemburgo, especialista em migrações, cuja tese de doutoramento versa a migração portuguesa no Luxemburgo. Excelente sessão, presenciada por uma assistência atenta de portugueses e luxemburgueses, que na sua maioria desconheciam a história de uma geração que recusou a guerra colonial portuguesa em África, já que, à época, o Luxemburgo não aceitava exilados políticos oriundos do nosso país.
De volta a Amsterdão, tempo para visitar o Stadsarchief Amsterdam (Arquivo Municipal), certamente um dos edifícios públicos mais espectaculares da cidade onde, até ao dia 5 de Fevereiro, pode ser admirada a exposição "Amsterdam 1900", com fotografias e filmes dos mais famosos fotógrafos amadores da época. Grandes fotos, na sua maioria a preto e branco, onde a patine do tempo realça a beleza das imagens. Trabalhos de Olie, Breitner, Eilers e contemporâneos, em fotos e filmes, que passam ao longo do dia na sala da cave. A visitar, também pelo edifício, uma das obras de arquitectura mais icónicas de Amsterdão. Se andam por perto, ou contam passar pela cidade esta semana, recomendamos vivamente. 
           

2017/01/30

Uma semana de Benelux (1)



Em viagem para o Luxemburgo, no âmbito da apresentação de um livro de memórias, aproveitámos para dar mais um "salto" a Amsterdão, a "dois passos" de distância...
Como era de esperar, o frio, nesta altura do ano, estava de cortar à faca. Valem-nos as aquecidas casas e espaços públicos, sempre em renovação constante de colecções para visitar e revisitar, ou não fosse a capital holandesa uma cidade-museu por excelência.
Lá fomos, no primeiro dia da nossa passagem por esta cidade dos canais, aqui e ali já meio gelados, a prenunciar um Inverno bastante frio, ainda que longe das temperaturas históricas que permitiam ligar, não há muitos anos, 11 cidades do Norte da Holanda através de diversos canais gelados.
O museu escolhido para iniciar o nosso périplo, foi o "Persmuseum" (Museu da Imprensa),  situado na Zeeburgerkade, um largo canal na zona Leste da cidade, perto do Instituto de História Social, um centro de documentação famoso pelo seu acervo, onde, e. o. documentos, podemos encontrar a acta da I Internacional assinada por Karl Marx, a maior colecção de publicações do movimento anarquista espanhol (ali guardado durante a guerra civil naquele país) e uma das colecções mais representativas de cartazes e publicações do PREC português, adquiridos pelo Instituto na década de setenta.
O Museu da Imprensa, está alojado no rés-do-chão de um bloco de apartamentos, virado para o Zeeburgerkade e é composto de três pequenas salas, divididas tematicamente por épocas e factos jornalísticos relevantes dos últimos 50 anos. A exposição temporária é dedicada ao cartoonista Peter van Straaten (1935-2016) recentemente falecido, a quem o Museu dedicou uma sala com uma selecção dos seus melhores "prints", publicados em alguns dos jornais de referência holandeses ao longo de quase meio século. Uma colecção única, representativa do "ar do tempo" em que a Holanda desafiava a moral vigente, sublinhada pelo humor que Van Straaten sempre emprestava aos seus desenhos. As restantes salas, incluem grandes painéis, com fotografias e textos de imprensa, alusivos a momentos singulares da política e vida social holandesa. Fotos históricas de políticos famosos que marcaram a vida do país nas últimas décadas: Den Uyl, Van Mierlo, Wiegel, van Agt, Lubbers, Brinkman, Wim Kok e Pim Fortuijn. Para além da galeria dos políticos, uma das salas inclui dez factos, escolhidos por outros tantos jornalistas, que marcaram as últimas décadas na Holanda: o movimento anarquista "Provo" (65), a revolução sexual (66), o casamento da rainha Beatriz (66), a 1ª crise do petróleo (73), a captura de um combóio por migrantes Molukkers (anos '70), as manifestações contra o nuclear (anos '80), a construção do metro (anos'90), a morte de Pim Fortuijn (2002) e Theo van Gogh (2004). 
Noutra sala, dez factos internacionais formam uma série escolhida por outros tantos jornalistas: a chegada à Lua ('69), a guerra do Vietnam ('72), a queda do muro de Berlim ('89), o ataque às torres gémeas de New York (2001), a guerra do Iraque (2003) e a captura de Bin Laden (2011) permanecem como as mais icónicas. Curiosos são os textos que acompanham as fotos, todos eles desmentindo as versões apresentadas pela imprensa da época.
A visita a este pequeno, mas simpático museu, passaria por um pequeno hall, onde está exposta uma colecção de desenhos e pinturas alusivas à personagem de "Zwart Piet", pagem de St. Claus (o Pai Natal) contestado pelo politicamente correcto actual.
O dia não terminaria sem um passeio de barco através dos principais canais da cidade, para admirar o Amsterdam Light Festival, a decorrer durante os meses de Inverno, onde são expostas diversas instalações multimédia, cujas cores se alteram ao longo do percurso. Excelente iniciativa, muito concorrida por turistas, apesar da hora tardia a que se efectua. O bom ambiente a bordo e o chocolate quente oferecido pela organização (uma fábrica de cerveja artesanal) contribuiriam para a boa disposição. A repetir.               

2015/10/02

Dez dias noutra cidade (4)


Um dos museus mais emblemáticos de Amsterdão, é o Scheepvaartmuseum (Museu da Marinha). Situado na zona portuária, o Museu esteve, durante os últimos anos, encerrado ao público para obras de modernização. Recentemente reaberto, é visitado por milhares de locais e turistas que ali se deslocam em peregrinação diária. Hoje, o Museu, ainda que dentro do mesmo edifício, ganhou em espaço e informação, graças às novas tecnologias utilizadas e à informação, à distância de um clique, permitida pela multi-média.
A praça central interior, foi libertada dos seus artifícios e é agora um amplo páteo coberto por um telhado envidraçado, que ilumina com luz natural todo o espaço. Depois, as exposições permanentes foram deslocadas para as alas do edifício, dividindo-se agora em três grandes áreas: a ala Oeste, dedicada às histórias (A vida a bordo, A vida da baleia, etc.);  a ala Norte, dedicada às experiências (O porto de Amsterdão, A viagem marítima e a visita aos navios VOC e Christian Brunings, réplicas de veleiros holandeses famosos): e a ala Este (dedicada às pinturas marítimas, aos ornamentos dos navios, aos instrumentos de navegação, aos modelos de iates, aos albuns de fotografias e às porcelanas e pratas usadas a bordo). O Museu tem ainda uma loja de "souvenirs" temáticos e uma biblioteca e cafetaria anexa. Um bom modelo de gestão integrada que vale uma visita e onde é possível apreender a odisseia marítima neerlandesa.
Uma nova "trend" na cidade, que parece ganhar diariamente adeptos, são as pequenas fábricas de cervejas artesanais, que surgem um pouco por toda a cidade. De acordo com uma investigação levada a cabo pela "Nederlandse Brouwers" (Associação das oito maiores cervejeiras da Holanda), a média semanal, de copos de cerveja bebidos,  está a diminuir no país. E, pelos vistos, a uma velocidade acelerada: se, em 2011, a média de copos de cerveja por pessoa era de 7,2 por semana; em 2012, era de 6,4 e em 2013, apenas 5,9 (um copo por dia).
A razão deste decréscimo tem a ver, essencialmente, com o crescimento explosivo do número de cervejeiras alternativas. Esqueçam as marcas conhecidas, a Heineken, a Grolsch ou a Amstel. Hoje não há bar, ou supermercado, que não tenha uma prateleira de cervejas especiais (leia-se biológicas) que, apesar do preço mais alto, são disputadas em todas as festas e reuniões. Também nos restaurantes, já é possível pedir uma cerveja artesanal, fenómeno relativamente recente na cidade.  Pedir uma I.P.A. (India Pale Ale), uma Ciel Blue, uma Mannenliefde, uma Chouffe ou uma Witte, tornou-se quase tão banal como pedir uma "pils" (cerveja à pressão), hoje cada vez mais banal e desconsiderada por conter conservantes, algo a que o consumidor mais crítico (e endinheirado) não é alheio. Mas, a verdade é que uma vez provada, é impossível resistir a uma boa cerveja. Lá fizémos o nosso périplo e não estamos arrependidos. Para o visitante, e estreante, nestas andanças, recomendamos a Brouwerij't IJ, a mais famosa e mais antiga da cidade, não muito distante da Estação Central de caminhos de ferro. Uma verdadeira catedral, reconhecível pelo moinho antigo onde está instalada,  que dispõe de uma esplanada de largas mesas e bancos corridos, onde podem ser degustadas as marcas produzidas no local. Outras (pequenas) cervejeiras, são: a Butcher's Tears, a Oedipus, a Pampus, De Vriendschap, De 7 Deugen, De Prael, a Bekeerde Suster, a Troost, 2 Chefs Brewing, a Kraanspor Brewing, a Bierfabriek e a Brouwerij Zeeburg.
Confuso? Nada como entrar, aleatoriamente, numa e pedir ao barman de serviço, a sua opinião sobre as marcas à venda. Verificará que, na maior parte dos casos, receberá uma informação cuidada e conhecedora do produto que escolher. Depois...bom, depois é só beber...   
Uma nota final sobre a política local: durante o tempo em que permanecemos na cidade, o assunto dominante, nos media holandeses, eram os "refugiados". Lá, como cá, uma matéria sensível, com um governo cauteloso, ainda que disposto a acolher uma quota de refugiados no quadro europeu e com as organizações humanitárias, já em campo, preparando os centros de acolhimento por todo o país. De acordo com o planeamento central, os refugiados serão distribuidos maioritariamente por diversas localidades na província. Localmente, as populações entrevistadas, dividem-se entre os que acham bem receber refugiados das guerras e os que se opõem, veementemente, contra estrangeiros de outra cultura (leia-se muçulmanos) potenciais "causadores" de distúrbios...No parlamento, e à excepção do ismalofóbico e xenófobo Geert Wilders, líder parlamentar do partido PVV (extrema-direita), o consenso, ainda que prudente, é a tónica dominante. Entretanto, na terceira terça-feira de Setembro,  como manda a tradição, o rei, sempre "generoso" e "magnânimo", anunciava no discurso de trono (Orçamento de Estado para 2016) a "devolução" de 5 mil milhões de euros aos contribuintes holandeses. É verdade que o desemprego (600.000 pessoas) continua a preocupar sua alteza, mas dias não são dias...Uma "benesse",  a anunciar o "fim" da austeridade de anos recentes...Onde é que eu já ouvi isto?

            

2015/10/01

Dez dias noutra cidade (3)


Situado no Keizersgracht (Canal do Imperador) no casco histórico da cidade, o FOAM - Fotografiemuseum, é uma das galerias mais prestigiadas de Amsterdão. Num país de fotógrafos, visitar as exposições em exibição temporária, é um "must" para todos os amantes da arte.
Lá fomos, num dia chuvoso, ideal para fugir ao frenesim de uma cidade literalmente invadida por turistas que sempre procuram os museus de pintura. 
A galeria ocupa um prédio senhorial de quatro andares, onde podem ser vistas quatro exposições em simultâneo. Na impossibilidade de ver todas, devido ao adiantado da hora, concentrámo-nos nas mais importantes: "Magnum Contact Sheets" (1930-2010) e "Bible and Dildo" da japonesa Momo Okabe.
Se a primeira constitui um excelente repositório de 60 fotografias icónicas (de Che Guevara a Malcom X, passando por M. Luther-King e John Kennedy) da afamada agência fotográfica, onde pontuaram nomes como Robert Capra, H. Cartier-Bresson, David Seymour, Martin Parr e tantos outros; a segunda constituiu uma revelação (Okabe tem 34 anos e ganhou este ano o prémio especial da galeria Foam) e é um verdadeiro "murro no estômago", devido ao tema (transexualidade e dependentes de droga) e à crueza das fotos (muitas delas tiradas numa clinica médica, algures na Tailândia).  São fotos enormes e a cores, sobre marginais da sociedade japonesa, muitos deles amigos e namorados da fotógrafa, que os acompanha em momentos intimos da sua existência.
Outro dos edifícios icónicos a visitar, é o "Eye", que alberga a moderna Cinemateca Nacional. Situado na margem Norte da cidade, o "Eye" é facilmente identificado pelas suas formas arrojadas e cor branca, a lembrar o avião Concorde.
Para além dos filmes (clássicos e em estreia) que passam em sessões contínuas nas suas 8 salas, a Cinemateca possui ainda um espaço multi-média dedicado à história do cinema, uma loja de "souvenirs" de arregalar o olho, um restaurante e um café, com vista para o "skyline" da cidade. No espaço (enorme) dedicado às exposições temporárias, uma magnífica Mostra sobre Michelangelo Antonioni, que pode ser visitada até 17 de Janeiro de 2016. Oportunidade única para visionar excertos de todos os seus filmes em écrans gigantes. Desde "O Grito", até a "Profissão Repórter",  passando pela trilogia "A Aventura", "A Noite" e o "Eclipse", "O Deserto Vermelho", "Blow-Up" e "Zabriskie Point", para além dos documentários iniciais, dos anos '50, sobre o vale do Pó, ou os seus últimos filmes ("Identificação de uma Senhora" e "O Mistério de Oberwald") em secções separadas, a exposição é a maior de sempre dedicada ao mestre do cinema moderno italiano e merece, por si só, uma visita à cidade. Para além dos filmes de Antonioni, que passam em versões integrais nas salas do "Eye", a exposição está ricamente documentada com inúmeros materiais da mão de Antonioni, entre os quais alguns dos "guiões" dos seus filmes. O catálogo da exposição é outra obra de arte, com uma impressão impecável, a preto e branco, que custa apenas 20euros. Que mais poderia ambicionar um cinéfilo?     

2015/09/30

Dez dias noutra cidade (2)

A par das inúmeras actividades e eventos que a cidade de Amsterdão oferece ao visitante, o "Open Monumentendag" (Dia do Monumento Aberto), constitui uma oportunidade única para visitar, gratuitamente, edifícios classificados que não fazem parte do circuito turístico da cidade. São edifícios ou complexos privados e públicos que, durante o segundo fim-de-semana de Setembro, são abertos à população e, onde, amáveis voluntários, devidamente identificados com uma t-shirt preta, fazem permanências diárias, prestam informações, vendem livros e postais e servem cafés e bolachas a quem o desejar...
Este ano, a municipalidade "abriu" 22 desses monumentos, que podiam ser visitados durante os dois dias do evento, sendo que nalguns casos era necessário marcação prévia, devido a afluência esperada do público.
Na impossibilidade de visitar todos, devido à distância a percorrer, optámos pelos mais próximos de casa, situados na zona Centro-Este da cidade.
Iniciámos a nossa visita pelas instalações da Marineterrein (Terreno da Marinha) um complexo construído em 1656 pelo Almirantado de Amsterdão. Da construção inicial, apenas restam o muro exterior, o edifício do porto e o portão original. Durante 250 anos, foram ali construídos os barcos da marinha de guerra holandesa. Em 1915, devido à falta de espaço, os navios passaram a ser construídos em Den Helder, no norte do país. Hoje, a maior parte das casernas que povoam o espaço, são utilizadas por serviços administrativos da marinha e, no jardim, ainda podem ser vistas diversas peças navais a lembrar os gloriosos tempos da armada neerlandesa.
Seguiu-se o Arcam, um edifício futurista, construído em 1986, onde funciona um centro de informação sobre a cidade e a sua arquitectura. Quatro andares, repletos de maquetas, desenhos e projectos sobre o aproveitamento lacustre de uma cidade construída sobre a água. De realçar a excelente biblioteca e loja, para além da zona creativa, onde as crianças podiam dar largas à sua imaginação através de construções na areia...
As "Foeliepanden" (os prédios Foelie) são uma série de prédios antigos, situados no antigo bairro judeu da cidade, onde existia uma grande e animada comunidade de comerciantes. Com a deportação e morte da maioria dos seus habitantes durante a 2ª guerra, o bairro perdeu os seus habitantes originais e os prédios foram abandonados. Dos que restam, a "Stadsherstel" (Recuperação Citadina) iniciou a restauração de alguns prédios, que podem ser agora visitados na sua traça original.
Seguiu-se o edifício "Burcht van Berlage" (Castelo de Berlage), definitivamente o ponto alto destas visitas. Um imponente e sólido edifício, da autoria do famoso arquitecto H. P. Berlage, onde desde 1900 funciona o mais antigo sindicato holandês (lapidadores de diamantes). Uma obra magnífica, de paredes forradas a tijolo branco e amarelo e decoradas ao estilo Arte Nouveau. O páteo interior, iluminado por candeeiros de ferro forjado, é rodeado por íngremes escadarias que conduzem a salas revestidas a madeira negra, onde se destacam pinturas e cartazes alusivos ao movimento sindical no século XX. Através do telhado envidraçado e dos inúmeros vitrais que decoram o edifício, podem ainda ser apreciados os pormenores da construção onde tudo, desde o mobiliário aos puxadores de portas, tem a mão de Berlage. Um verdadeiro "castelo", a que não falta uma torre, construída num dos ângulos do edifício, ainda que não acessível ao público.
Porque estávamos perto, não perdemos a oportunidade de visitar a esplanada do Zoo, aberta ao público, onde celebrámos a "pausa cultural" com uma não menos apetecível tarte de maçã adequada ao ambiente.
O dia não terminaria sem uma visita ao Hall da antiga Remise de Eléctricos de Amsterdão, situada na zona Oeste da cidade. Um espaço, anteriormente utilizado como terminal e oficina de carros eléctricos, que há dois anos foi totalmente recuperado e onde hoje funcionam lojas, restaurantes, bares, salas de cinema de arte e um hotel.  Um projecto arrojado e bem integrado numa zona depauperada da cidade, ainda que sujeito a pressões imobiliárias inerentes a este tipo de construções.
Depois de um dia preenchido por emoções, só podíamos ambicionar o descanso. Esperava-nos uma cerveja branca de malte, acompanhada por uma magnífica sandes de salmão do Alasca, única forma de recuperar do cansaço...      

2015/09/28

Dez dias noutra cidade


Amsterdão é, por estes dias, uma espécie de Disneyland do Norte da Europa. Dezenas de milhares de turistas de armas e bagagens (leia-se smartphones e trolleys) em punho, na procura do lugar mítico para o último selfie. Nada a que não estejamos habituados em Lisboa, em ritmo acelerado de gentrificação europeia. Se em Julho e Agosto já era mau, Setembro não é melhor e, para pior, já basta assim...
Porque, para além das férias, outros programas culturais se anunciavam em Setembro, lá fomos, na esperança de (re)descobrir a Amsterdão desconhecida que habita em todos nós e tentar conciliar a aventura com cultura...
Desta vez, o evento prometia: "De ouvido e coração", um concerto dedicado à obra de José Afonso, comentado e interpretado por Amilcar Vasques Dias (piano), Luís Pacheco Cunha (violino) e a "cantaora" Esther Merino. Um projecto com quatro anos de "estrada", que temos vindo a seguir e a admirar em lugares tão díspares como Lisboa (3 vezes), Setúbal, Évora, Badajoz e, agora, Amsterdão.
Nenhum dos concertos foi igual (nisso residirá a riqueza do projecto) e as modificações nele introduzidas apenas realçam a diversidade da música do Zeca. Desta vez, Esther cantou 3 canções (uma nana de Lorca e "Canção de Embalar" e "Cantar Alentejano" de Afonso) e Cunha teve "direito" a um "medley", onde brilhou em "Canto da Primavera", "Cantiga do Monte" e "A Formiga no Carreiro". Para o Amilcar, o resto do programa, sempre acompanhado das curtas e pedagógicas intervenções (desta vez em holandês!) a que nos habituou. O concerto terminaria com "Grândola", um encore apropriado, cantado "à capela" por Fernando Lameirinhas, artista português residente na Holanda.
Duas horas, de puro gozo e deleite, intervaladas por uma desnecessária "koffie pauze", aproveitada para rever caras amigas. Tudo isto numa velha igreja de madeira renovada (Amstelkerk) onde, num passado não muito longínquo, os (então) refugiados portugueses, apoiados por organizações holandesas de solidariedade, denunciavam a guerra colonial levada a cabo pelo governo fascista de Salazar e Caetano.
Só faltou o Zeca. Como ele gostaria de ter ali estado, a ouvir a sua música recriada e tocada por três artistas de excepção. Mas, a música é eterna e universal. O CD do concerto está já anunciado e, no ar, a promessa de uma nova digressão, desta vez alargada  a outras capitais europeias. A organização estará, de novo, a cargo da Q.Art (eventos) coordenada pela nossa compatriota Teresa Pinto.
Melhor início de férias, era impossível. A chuva, que caía após o concerto, não esfriou o ânimo para os próximos dias... 


  

2014/08/20

Duas semanas noutra cidade (3)



Uma das zonas mais inovadoras e interessantes de Amsterdão é, actualmente, o Noord, situada numa das margens do Ij, o lago que divide a cidade em duas partes distintas. Porque a maioria dos visitantes tende a permanecer no centro, onde estão concentradas as maiores atracções da cidade, poucos são aqueles que conhecem uma área que sofreu modificações profundas nos últimos 20 anos. Antiga zona industrial da cidade, onde estavam os grandes silos de armazenamento de produtos transportados por via marítima e os estaleiros de construção e reparação naval, o Noord foi perdendo a sua importância, à medida que a construção naval passou a ser feita em países asiáticos de mão-de-obra mais barata. Da mesma forma, os antigos armazéns, originalmente destinados a cereais e especiarias trazidas de outros continentes, acabaram por ser esvaziados das funções para que tinham sido construídos, muitos deles tendo ficado ao abandono. Após um período conturbado, nas décadas de setenta e oitenta, em que muitos destes edifícios foram recuperados por "krakers" (ocupantes de casas), que ali viviam e tinham os seus "ateliers", a zona acabaria por ser requalificada e entregue a empreendores privados que transformaram muitos destes antigos armazéns em "lofts" e apartamentos de luxo, onde hoje vive parte da classe média alta da cidade.  Nem todas as soluções arquitectónicas são admiráveis, mas é nesta zona que podem ser vistos alguns dos edifícios mais marcantes desta inovação. Visitámos a zona de Ijburg, servida por uma linha de eléctricos que parte da Centraal Station da cidade. Ainda em fase de acabamentos, já dispõe de uma marine e de uma praia artificial (blijbeach) onde a população da zona pode nadar em águas calmas e conviver nos inúmeros bares e lojas existentes.
Para os turistas, a parte mais interessante da zona Norte está, no entanto, situada nos terrenos da NDSM (Nederlandsche Dok en Scheepsbouw Maatschappij), os antigos estaleiros da cidade onde, entre 1894 e 1979, foram construidos e reparados centenas de navios e tanques de grande porte. Após anos de decadência e subaproveitamento dos antigos edifícios, também aqui surgiriam iniciativas ligadas às artes performativas (Over Het Ij Festival) e diversos "ateliers" e incubadoras de empresas (Creative Hotspot Amsterdam) que transformaram por completo a imagem de "arqueologia industrial" dos antigos estaleiros. Visitámo-la por duas vezes, a primeira para almoçar no Plekk, um restaurante/discoteca construido a partir de antigos contentores empilhados, que dispõe de uma óptima esplanada e uma praia artificial com vista para a cidade; e a segunda, para jantar no Ij-Kantine, um gigantesco restaurante que funciona num dos antigos estaleiros de construção naval. Mais uma vez, uma vista magnífica do "skyline" de Amsterdão, a partir da doca, onde estão fundeados diversos barcos históricos, desde o velho submarino S-117 holandês, ao mítico barco "Verónica", que foi rádio pirata no Mar do Norte, nas décadas de sessenta e setenta. No Ij-Kantine, é ainda possível ouvir música de jazz cigano, numa programação que faz inveja a muitas salas de espectáculos. Os interessados em visitar esta zona da cidade devem apanhar o "ferry" (pont) que parte todas as meias-horas das traseiras da Centraal Station. É a maneira mais rápida, confortável e é gratuita. Não há desculpas e vale a visita.       

2014/08/19

Duas semanas noutra cidade (2)


Um dos lugares mais refrescantes e tranquilos de Amsterdão é o Jardim Botânico. Para quem deseja fugir à verdadeira "Disneyland" em que se tornou o centro histórico da cidade, invadido por milhares de turistas durante todo o Verão, este é um lugar a visitar. O Hortus Botanicus Amsterdam é um dos mais antigos jardins botânicos do Mundo. No jardim e nas estufas encontram-se nada menos do que 4.000 espécies de plantas originárias de todos os continentes. Originalmente criado em 1638, após a epidemia de peste que assolou a cidade, com o nome de Hortus Medicus, albergava à época um jardim de ervas medicinais. Médicos e farmaceuticos aprimoravam ali os seus conhecimentos sobre as ervas medicinais. As ervas eram, então, a principal fonte de medicamentos. Nos séculos XVII e XVIII os navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) trouxeram plantas ornamentais e especiarias exóticas ao Hortus. Ainda que relativamente pequeno (1,2 ha), a sua riqueza em plantas é enorme. O jardim e as estufas representam sete climas diferentes. A colecção contém somente espécies de plantas naturais e é cientificamente gerada, mediante o intercâmbio de sementes com outros jardins botânicos. 
No lago exterior, aquecido, floresce no Verão a rainha dos nenúfares, a "Victoria Amazonica", que é desde 1859 o ponto culminante da colecção de plantas do Hortus. Porque o acontecimento é publicitado no "site" oficial do Jardim, quis o acaso que, no dia da nossa chegada à cidade, estivesse previsto um dos florescimentos deste ano. Lá fomos, eram 22.30, hora prevista para o desabrochar da Victoria. Nessa noite os portões estavam abertos à população e eram centenas os curiosos que, como nós, se deslocaram ao Hortus. A flor do nenúfar surge ao cair da noite e dura normalmente cerca de 24h, após o que desaparece. Este ano, já tinham florido 10 exemplares, rigorosamente registrados num quadro ao lado do lago e onde uma especialista do Jardim nos guiou através das suas detalhadas explicações. Um verdadeiro acontecimento.  
Outra das atracções, num país de apreciadores de cerveja, é a prova das ditas nos locais próprios, as famosas "bierbrouwerijen" (fábricas de cerveja) das quais existem diversas fábricas artesanais. Esqueçam a "Heineken", a "Amstel" e a "Bavaria", marcas com as quais os portugueses estão familiarizados, e que são aqui meras cervejas de supermercado. 
Se querem provar o que é bom, dirijam-se à Brouwerij't Ij, situada na zona Leste da cidade, não muito longe do Museu Marítimo. É identificável através de um alto moinho de vento, dos poucos que ainda existem em Amsterdão.
Uma vez lá chegados, a dificuldade reside na escolha. Para os iniciados,  recomendamos a Plzeñ (5º) feita a partir de malte de trigo, com aroma de lúpulo e ervas aromáticas. O seu nome deriva da cidade de Plzeñ na Checoslováquia, onde teria surgido a cerveja a copo (pils) original. A minha preferida é a Ijwit (6,5º), uma cerveja branca de malte de trigo. De resto, a palavra "wit" é o antigo termo usado para trigo. Para os apreciadores, a Zatte (8º) é uma prova imperdível. Foi a primeira cerveja saída da fábrica (criada em 1985) e tornou-se um clássico. É uma "tripel", de acordo com a classificação belga dada às cervejas "blonde" mais fortes. Para os mais ousados,  a I.P.A. (7º), uma cerveja "blonde" escura de sabor a lúpulo, ou uma Struis (9º), cerveja de cevada ao estilo inglês, são alternativas a provar. Não esquecer, para acompanhar, o "Old Amsterdam", um queijo bem curado, ligeiramente salgado, ou uma enguia fumada, pois uma boa cerveja biológica exige aperitivos à altura. Um verdadeiro templo de cerveja, a Brouwerij't Ij, que pode ser visitada, individualmente ou em grupo, desde que feitas as marcações com antecedência.        

2014/08/18

Duas semanas noutra cidade


É uma das cidades mais populares da Europa (2.5 milhões de turistas por ano) e continua a crescer. Falamos de Amsterdão, que acabamos de (re)visitar, na enésima visita feita a esta cidade, que não pára de nos surpreender,  apesar (et pour cause) de décadas ali vividas.
Ainda que Agosto não seja o mês mais indicado para o fazer - a cidade esvazia-se de habitantes e enche-se de hordas de turistas que ocupam literalmente o centro histórico - o Verão é, por definição, a melhor estação do ano para visitar esta urbe do Norte da Europa, onde a imprevisibilidade climatérica é um factor de risco a ponderar. Como bem sabem os naturais, o clima pode mudar três vezes ao dia e andar de calções e sandálias não dispensa o chapéu de chuva, pois as trovoadas e aguaceiros são, nesta altura do ano, frequentes.
Sem programa pré-estabelecido, a opção, desta vez, foram lugares ou programas menos populares, que turistas clássicos (mais interessados em Rembrandt, Van Gogh ou Anne Frank) não costumam visitar. Em boa hora o fizemos, pois o que vimos compensou largamente as expectativas, tanto do ponto de vista qualitativo como do ponto de vista da tranquilidade dos museus escolhidos. 
Desde logo, a celebrada Huis Marseille/Museum voor Fotografie, que ocupa duas antigas casas senhoriais do Keizersgracht, um dos principais canais do centro de Amsterdão. Diversas exposições seminais de fotógrafos tão diferentes como Taco Anema (Portraits de Conselhos Directivos de Organismos Municipais), Guido Guidi (fotografias hiper-realistas de uma Itália desconhecida) e Martin Roemers, Frans Beerens e Marrigje de Maar (sobre a China actual), que confirmam a qualidade e os critérios de bom gosto deste verdadeiro templo de fotografia contemporânea.
Outra visita gratificante foi a do Cobra Museum of Modern Art, situado em Amstelveen, zona nobre a sul da cidade, que alberga permanentemente a antiga colecção do Stedelijke Museum (Appel, Constant, Jorn, Corneille, Alechinsky) e onde se encontra, temporariamente, uma selecção da Guggenheim Collection, constituida por 51 trabalhos de 44 artistas do famoso museu nova-iorquino, com trabalhos de artistas como Pollock, Rothko, Willem de Kooning, Louise Bourgelos, José Geurrero e Vieira da Silva. Obras marcantes da arte contemporânea, no período compreendido entre 1949 e 1960.
Inesquecível, seria também a visita à cinemateca da cidade, o futurista edifício "Eye" onde, para além das habituais sessões (4 salas em permanência), visitámos o programa dedicado a David Cronenberg, que inclui a projecção de todos os seus filmes, uma exposição, com painéis explicativos e interactivos, adereços (cápsula do filme "A Mosca", os monstros de "Naked Lunch" e "eXistenZ", ou os trajes de "M.Butterfly" e "Eastern Promises"), completada com diversas entrevistas ao realizador, que passam em modo contínuo numa sala decorada como bar, onde não falta o famoso monstro de "Naked Lunch". Imperdível.
Finalmente, e ainda no campo das exposições, "De Krim - Goud en Geheimen van de Zwarte Zee" (A Crimeia - Ouro e Segredos do Mar Negro), que pode ser vista no Museu Arqueológico da Universidade de Amsterdão, o Allard Pierson Museum. Uma pequena, mas informativa exposição sobre esta península ucraniana, recentemente declarada território russo, onde nas últimas décadas foram feitas escavações arqueológicas e descobertos verdadeiros tesouros em cemitérios de povos tão diversos como os Chyntios, os Godos e os Hunos que ocuparam a região. Porque a Crimeia foi um ponto de passagem entre a Europa e a Ásia, devido à famosa "Rota da Seda", também ali foram recuperadas as primeiras caixas lacadas chinesas conhecidas no Ocidente. Uma revelação, agora que a região é notícia pelas piores razões, e uma curiosidade: a exposição, que deveria ter terminado em Julho, foi prolongada, pois a administração do museu holandês não sabe a quem há-de entregar o acervo exposto, uma vez que este é originário de 5 museus diferentes, uns de Kiev e outros da Crimeia...     

2013/09/28

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (3)


Um dos percursos culturais mais interessantes na cidade é proporcionado anualmente no “Open Monumentendag” (Dia do Monumento Aberto), data em que dezenas de instituições, públicas e privadas, abrem gratuitamente as portas à população. Este ano, porque o dia dos monumentos (15 de Setembro), coincidiu com um domingo, a municipalidade alargou as visitas a todo o fim-de-semana. A melhor altura para fazer o percurso é de manhã, quando as filas são ainda pequenas, mas, quando chegámos ao prédio “De Granada”, uma mansão senhorial situada na Nieuwe Herengracht, o canal tradicionalmente habitado por judeus abastados, já a fila era já tão grande que optámos por outra alternativa, esta situada uns números mais à frente, a “Huize Avondrood”, igualmente propriedade de uma rica família judia. Infelizmente, o tempo de espera afigurou-se tão longo que decidimos passar a outra instituição na vizinhança, a “Uilenburgersjoel”, uma das três sinagogas da cidade, recuperada depois da pilhagem na segunda guerra e que hoje, para além de lugar de oração, é utilizada como escola e local de ensaios. Lá estivemos, a ouvir música de reportório “klezmer”, magnificamente tocada por um “ensemble” de jovens músicos de origem.
Tempo para passar ao monumento seguinte, “De Oude Kerk” (A Igreja Velha), considerado o edifício mais antigo da cidade. Pese a sua antiguidade, a igreja, de culto protestante, apresenta sinais de grande vitalidade depois da restauração a que foi sujeita em 2008 e que ainda não terminou. Para além das cerimónias litúrgicas tradicionais, é intenção da municipalidade criar no seu espaço (gigantesco) uma galeria de arte moderna. Foi lá que vimos uma exposição de fotografia, cujo tema central era a “mulher” em diversas sociedades e profissões. Fotos de grande nível, com destaque para uma série sobre “travestis” mexicanos, premiada com o 1º lugar em fotografia documental. Situada em pleno coração do “bairro vermelho” de Amsterdão, a “Oude Kerk” é um “must” do roteiro turístico da cidade.
Seguiu-se uma visita à “Gulden Trip” no mesmo bairro, uma pequena moradia com quintal, datada de 1565, construída sobre os alicerces de uma das mais antigas casas da cidade, cujas origens remontam a 1380. Durante a sua reconstrução, em finais do século XX, foram descobertos e restaurados os pavimentos e tectos originais, que podem ser admirados em todo o seu esplendor. A “Gulden Tulp” alberga, actualmente, a sede do “Fundo National de Instrumentos”, uma fundação que apoia a divulgação de instrumentos antigos e de um “ensemble” musical de cordas. Vale a visita.
Depois de um breve interregno, seguimos para a “Ambtswoning” (residência oficial do presidente da câmara) famosa pela sua decoração de inspiração francesa e pelas suas tapeçarias e lustres em Arte Deco. Também aí, as centenas de pessoas na fila fizeram-nos optar pelo “Stadsarchief Amsterdam” (O Arquivo Municipal), um edifício imponente que domina toda a Vijzelstraat, uma das principais artérias da cidade. Inaugurado em 1926, o edifício, também conhecido por “De Bazel”, nome do arquitecto responsável pela obra (J.J. Bazel, 1869-1923), foi originalmente construído para sede do Banco HandelsMaatschappij Nederland, que mudaria de local em finais do século passado. Depois de um período em que esteve encerrado, o edifício reabriu ao público em 2007, já nas funções actuais: as de arquivo da cidade desde a sua fundação, que inclui um departamento arqueológico, onde são registradas e catalogadas todas as descobertas posteriores. Trata-se de um edifício de 10 andares (dos quais 3 são subterrâneos), com mais de 40 kilómetros de documentação (muita dela totalmente digitalizada) com a história da cidade e a dos seus habitantes. Influenciado pelo estilo “De Stijl”, as linhas sóbrias e funcionais do edifício espantam pela sua solidez e bom gosto, onde todos os pormenores foram calculados. Dispõe ainda de um centro de documentação, sala de cinema e loja, para além de exposições permanentes e temporárias e a possibilidade de visitas guiadas ao arquivo, localizado na cave imensa com três pisos.
Dada a falta de tempo, deixámos para outra oportunidade a visita aos andares superiores (sala da direcção e de reuniões), tendo assistido à projecção do filme “Fotostudio Merkelbach”, uma selecção de “portraits” do realizador Kees Hin (que passou em 2012 por Lisboa, no Festival Cinema Bioscoop), dedicado à colecção Merkelbach, famoso fotógrafo de Amsterdão do século passado. Pelo seu estúdio, passaram nomes famosos da sociedade holandesa, como Mata Hari, Toon Hermans, Van Halst van Overtoom. entre outros. Todas fotos recuperadas, entre mais de 40 000 negativos salvos de uma cheia recente. Um espanto, o “De Bazel”, finalmente à disposição do grande público.
Chegados ao fim deste excitante dia, tempo para uma sandwiche de espadarte fumado com carpazzio e uma cerveja biológica “De blauwe Bijl”, fabricada artesanalmente numa “brouwerij” da zona Este de Amsterdão. A prova final que Deus existe...

2013/09/26

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (2)

Overhoeks, 't IJ, Amsterdam-Noord, Amsterdam - Netherlands

De todas as obras recentemente levadas a cabo na cidade, duas sobressaem pelo seu arrojo arquitectónico e fins a que se destinam, respectivamente à música e ao cinema. Estamos a falar do “Muziekgebouw” (que inclui a mítica “Bimhuis”, verdadeira meca do jazz internacional) e do edifício futurista “Eye” (a cinemateca local, situada na margem norte da capital holandesa). Ambos têm uma programação de excelência, sendo visitados por milhares de melómanos e cinéfilos diariamente, o que atesta da sua programação e do poder de compra médio dos locais. Lá fomos, numa noite ventosa e com alguma chuva à mistura, assistir a uma sessão de free-jazz , uma das tradições da “Bimhuis” de velhas recordações. A alma de Chet Baker ainda deve andar por lá (o trompetista viveu e morreu em Amsterdão), pois o concerto a que assistimos tinha uma secção de sopros de primeira água. O programa tinha como título “Carte Blanche Oene van Geel”. Van Geel é um virtuoso violinista local que tinha como convidados The Nordians Extended (ensemble ad-hoc de Amsterdão-Norte), Theo Loevendie (uma velha lenda do clarinete e do sax) e a magnífica cantora Nora Fischer. De realçar, ainda, um convidado indiano nas “tablas” e um convidado escocês na flauta e na gaita de foles, que ofereceram duas horas de verdadeiro prazer, num mix de jazz e músicas do mundo, de grande qualidade musical. No final, tempo para percorrer a excelente loja da “Bim”, onde se podem encontrar exemplares únicos de “standards” do Jazz e da World Music, muitos deles em Vinyl. Até a Amália Rodrigues se podia lá comprar. A noite não terminaria sem provarmos algumas “Palm”, cerveja castanha, de beber e chorar por mais... Outra visita, que se tornou um “must”, desde a sua inauguração em 2012, foi à Cinemateca, situada na margem norte do IJ, o lago que divide a cidade em duas margens distintas. O nome “Eye”, assim se chama o novo edifício, é um trocadilho entre a palavra “olho”, em inglês, e a palavra IJ, que se pronuncia de igual modo. Para além das 4 salas de projecções em simultâneo (duas das quais dedicadas a estreias de filme de autor). a nova cinemateca dispõe de salas de exposições permanentes e de uma loja de “gadgets” cinematográficos, que são uma verdadeira tentação para qualquer cinéfilo. A exposição temporária era dedicada a Federico Fellini e estava anunciada por toda a cidade. Trata-se de um projecto original do “Eye”, aqui apresentado em premiére mundial, que ocupa toda a parte superior do edifício. Durante duas horas, passámos em revista a vida e os filmes do genial realizador italiano, apresentadas em painéis bi-lingues, estrategicamente colocados. Para além dos dados biográficos e das notas sobre os filmes, a colecção tinha a particularidade de mostrar os “storyboards” desenhados por Fellini, um ilustrador de reconhecidos méritos. Completavam a mostra, excertos de alguns dos seus principais filmes: “I Vitelloni”, “O Sheik Branco”, “La Dolce Vita”, “8 ½”, “Julieta dos Espíritos”, “I Clowns”, “Roma”, “Amarcord” e “Casanova”, projectados em écrans de grandes dimensões, como estivéssemos numa sala de cinema normal. Um verdadeiro “happening” cultural, que tivemos o privilégio de ver, num espaço que recomendamos a todos os futuros visitantes desta cidade cinematográfica.

2013/09/23

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa


Forçado, pelas circunstâncias, a deslocar-me a Amsterdão, aproveitei para tirar alguns dias de férias e fugir do calor abrasador que se fazia sentir em Portugal.
Acontece que o Outono já começou na Holanda e as temperaturas médias nesta época do ano (15º), acompanhadas de alguma chuva e vento, não foram as mais propícias para quem queria andar a pé pela cidade. Valeu a pena pela oferta cultural, agora que a nova temporada artística teve início e a cidade está mais vibrante do que nunca.
Das visitas incontornáveis, aconselho o renovado Rijksmuseum, a sala de visitas da cidade, reaberto após mais de 10 anos de obras, devido à ampliação do espaço e renovação da sua colecção permanente. Um espanto, o novo “Rijks”, agora com um “hall” de recepção envidraçado, no lugar das antigas caves do edifício, onde se entra através de uma escadaria ladeada por amplos balcões de atendimento e informações de toda a ordem. É neste espaço aberto que estão situadas as duas lojas do museu e a cafetaria, onde os clientes têm de esperar em fila por uma mesa vaga, tal a afluência de visitantes nestes primeiros meses.
Depois, é escolher por onde começar. O Museu tem três pisos acima do nível da rua e um abaixo, também designado por piso 0. Foi aqui que começámos, para ver as colecções especiais, dedicadas às louças, moda, armas e modelos de barcos, agora numa nova disposição dentro do museu. Também neste piso, uma assinalável colecção de pinturas e arte sacra (1100 e 1600), designada como “arte primitiva” pelos locais. Depois de uma boa hora de deslumbramento, tempo para subir ao 2º piso, dedicado ao período 1600-1700. É aqui que estão as obras que fizeram a reputação do Museu: “A Ronda da Noite”, e a “A Noiva Judia” de Rembrandt, ou “A Pequena Rua” e a “Rapariga do Leite” de Vermeer, mas também pinturas de contemporâneos como Steen e Hals. Um deslumbramento absoluto, que só a afluência desmesurada de turistas e respectivos guias, perturbou. Razão para parar e descer à livraria, onde a informação é abundante e multi-lingue. À saída, e porque chovia, tempo para parar numa feira russa de gastronomia, instalada em plena praça dos museus, e provar um pão casqueiro de peru fumado e uma “pancake” coberta de mel, acompanhada de chá original, servidos por uma simpática siberiana vestida com trajos da região. Que mais desejar?
Voltaríamos ao Museu, alguns dias mais tarde, agora para visitar os  pisos restantes que abrangem outros tantos períodos. O primeiro piso (1700-1800) dedicado ao romantismo, e ao impressionismo onde, entre outros, podem ser admirados trabalhos de Gabriel, Breitner, Van Gogh e Goya, para além de colecções representativas da escola de Amsterdão e de Haarlem e à época do iluminismo (William IV e V).
Finalmente, o último piso, dedicado ao século XX. Esta é uma colecção renovada, que está dividida por duas alas distintas: a ala Este (1900 a 1950) onde podem ser admirados magníficos exemplares das correntes “Art Nouveau” e “Stijl”, para além de obras de Rietveld, Mondriaan e um exemplar do primeiro avião fabricado pela Fokker. É nesta sala que é projectado o documentário “Philips Rádio” (1931) da autoria de Joris Ivens. E a ala Oeste (1950-2000) onde o sobressaem os trabalhos de Yves Saint-Laurent, Appel e Constandt, para além de obras dos mais famosos arquitectos e urbanistas holandeses. Também nesta sala, é projectado o documentário, “Deltaplan Phase 1”  de Bert Haanstra, que Lisboa viu recentemente integrado no Festival Cinema Bioscoop.
Era já tarde, quando saímos do Museu, não sem antes termos dado uma volta pelo jardim circundante, onde estão expostas esculturas de Henry Moore.
Uma festa para os olhos e para os sentidos, a provar que a grande arte ajuda a lavar a alma.  

2010/11/07

Notícias de outra cidade (2)

Doze dias em Amsterdão, sendo pouco tempo, permitem perceber algumas alterações de humor neste povo tradicionalmente cordial e afável. A cidade, que durante décadas ostentou o título de uma das capitais mais tolerantes da Europa, está a tornar-se da "cor" da estação do ano. O Outono é, por definição, mais cinzento.
Logo à chegada ao aeroporto, enquanto compro o bilhete de comboio que há-de transportar-me ao centro da cidade, a funcionária - já depois de ter-me atendido - repreende grosseiramente uma mulher muçulmana de meia-idade (que ousou perguntar-lhe uma informação, enquanto eu recolhia o troco do pagamento) obrigando-a a ir para trás de mim e esperar pela sua vez. É verdade que, formalmente, a funcionária tinha razão, mas duvido que usasse aquele tom de voz com um holandês.
Porque o sistema de controlo nos eléctricos é agora feito através de um cartão electrónico (chip-kaart) quem não o tiver terá de comprar um bilhete válido por uma hora. Nem todos os estrangeiros falam holandês, mesmo aqueles que vivem há anos nesta sociedade. Os muçulmanos (normalmente marroquinos) que não se fazem entender à primeira, correm sérios riscos de serem despachados com frases de duplo sentido, ditas entre sorrisos de escárnio e aparente amabilidade.
No dia da meu regresso a Lisboa tento, sem êxito, fazer o "check-in" numa das máquinas do aeroporto. O computador não reconhece o número da minha reserva e pede-me outra identificação. Introduzo o passaporte e recebo uma reserva com outro nome, ainda que com o mesmo apelido. Em desespero de causa dirijo-me a uma funcionária que tenta perceber o erro enquanto me pede o passaporte. Porque tenho cinco nomes não consegue atinar com o apelido. Explico-lhe que a reserva está feita em nome do primeiro e último nome. Ela tenta desesperadamente todos os apelidos e desiste, tentando enviar-me para outro balcão. Recuso e peço-lhe para tentar Rui Mota. Acede, contrafeita e, quando descobre o óbvio, vira-se para mim com ar de enfado e exclama: "com tantos nomes, não é para admirar que não encontre a sua marcação!". Refreio os meus impulsos para lhe responder à letra, pois não quero perder o avião e ainda tenho de tirar o cinto e os sapatos quando passar o controlo electrónico...
Os holandeses andam nervosos e a recente chegada ao poder de uma coligação de direita, apoiada pelo partido do xenófobo Geert Wilders, contribui para o aparecimento dos "little men" de que falava Willem Reich nos idos anos quarenta...