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2023/04/24

O "25 de Abril", o Brasil, Lula e Chico

Após sete anos de interregno, Portugal e Brasil voltam a reencontrar-se no âmbito das Cimeiras Oficiais entre os dois países. A última Cimeira, que juntou o (então) presidente brasileiro Michel Temer e o primeiro-ministro português António Costa, teve lugar em Brasília no 1º dia de Novembro de 2016. Nessa Cimeira (a 12ª), foram acordados 5 protocolos de cooperação entre ambos os governos.

Desde então, as Cimeiras, destinadas a fortalecer os acordos de cooperação entre os dois países, foram interrompidas unilateralmente por Bolsonaro (2018-2022) e pela pandemia Covid (2020-2022). 

Lula da Silva, que ainda antes de tomar posse tinha anunciado retomar as Cimeiras, concretiza este objectivo na primeira visita que faz a um país europeu. Esta é uma boa notícia, que deve ser saudada por todas as forças democráticas portuguesas e brasileiras, interessadas em fortalecer a amizade entre os dois países e, dessa forma, contribuir para uma melhor cooperação bilateral, no campo político, social e económico. Era tempo do Brasil voltar à ribalta internacional, após os "anos de chumbo" da governação   Bolsonaro (um fascista assumido), que condenaram o país ao isolamento diplomático de um estado-pária.

Lula da Silva que, com todas as suas limitações e defeitos, é um político experimentado e reconhecido mundialmente, viu aqui a oportunidade de relançar o Brasil nos Fora internacionais (é a economia, estúpido!), iniciando de imediato um périplo mundial, que passou pelos EUA, pelos países do Mercosul, pela China e, agora, pela Península Ibérica.

Em Portugal, o presidente brasileiro assinou 13 acordos de cooperação, nas áreas das agências espaciais, de cinema e produções áudio-visuais, equivalências em estudos básicos e médios, equivalência de cartas de condução, produtos farmacêuticos, minérios, produtos industriais e agrícolas, e.o.

Antes de partir, porém, Lula da Silva assistirá ainda às cerimónias oficiais do 25 de Abril no Parlamento Português. Hoje, será o dia da entrega do Prémio Camões 2019, o mais alto galardão literário da língua portuguesa, ao músico e escritor Chico Buarque da Holanda. 

Para o Chico, um dos cantores da nossa vida, a singela homenagem na data que inspirou esta canção:

"Foi bonita a festa, pá/Fiquei contente/E inda guardo renitente/Um velho cravo para mim/Já murcharam tua festa, pá/Mas certamente/Esqueceram uma semente/Nalgum canto do jardim/Sei que há léguas a nos separar/Tanto mar, tanto mar/Sei também quanto é preciso, pá/Navegar, navegar/Canta a Primavera, pá/ Cá estou carente/Manda novamente/Um cheirinho de alecrim".

Obrigado Chico. O cravo não murchou. A semente está cá. O Fascismo não passará.

2022/10/31

Lula ou a vitória da democracia

foto EFE

Lula da Silva é, desde ontem, o novo presidente do Brasil.  

Foi preciso esperar até às 22.58h (hora portuguesa) para confirmar a vitória de Lula, naquelas que foram consideradas as eleições mais disputadas do país. No final, o resultado foi de 51% para Lula, contra 49% para Bolsonaro, o que corresponde, "grosso modo", a 2 milhões de votos de diferença entre os candidatos.

Apesar de não constituir propriamente uma surpresa, a vitória de Lula (prevista em todas as sondagens) era aguardada com alguma expectativa, já que as percentagens anunciadas situavam-se dentro da margem de erro. Esta dúvida, que persistiu até final, aumentou com o bom resultado conseguido por Bolsonaro na 1ª volta das presidenciais (muito acima do previsto) e pela polémica gerada sobre a fiabilidade das sondagens, contestadas pelo (ainda) actual presidente.       

Como previsto, à medida que os votos iam sendo contados, os estados mais populosos (S. Paulo, Rio, Minas, Bahia) começaram por dar mais votos a Bolsonaro, que se manteve à frente até cerca de 2/3 da contagem. A "virada" deu-se por volta das 22horas, quando estavam contabilizados cerca de 67% dos votos e Lula passou para a frente. A partir daí, a diferença foi-se acentuando e a vantagem do candidato do PT, nunca mais esteve em dúvida. A única questão, residia na diferença final, já que uma pequena margem de vantagem poderia dar argumentos a Bolsonaro para contestar os resultados. 

Não sendo 2% uma diferença expressiva, é uma vitória clara e indiscutível - por um se ganha, por um se perde - obtida de forma legal e limpa, pesem as acusações (infundadas) dos mais fanáticos apoiantes de Bolsonaro, que não se conformam com a derrota do "mito". Após o resultado ser conhecido, o presidente remeteu-se a um silêncio, que dura há 20 horas, o que alguns analistas interpretam como a sua incapacidade de justificar uma derrota, para a qual não tem saída airosa. Outra interpretação é, à imagem de Trump, esperar que os seus acólitos venham para a rua protestar contra os resultados e aproveitar-se do caos instalado para tentar atrasar e, no limite, impedir a nomeação de Lula. Há ainda uma terceira leitura possível: contra membros da família Bolsonaro, correm diversos processos por corrupção e implicação noutros crimes (Marielle), pelos quais o "clã" poderá ter de responder em tribunal. Uma vez terminada a presidência e, sem a imunidade de que gozam nos cargos, poderão mais facilmente ser acusados.

Já em relação a Lula, qual Ajax renascido das cinzas, esta é a vitória da coragem e da resiliência que sempre mostrou ao longo da vida. Um "animal político", que influenciou e moldou o Brasil dos últimos 40 anos. Pesem todas as vicissitudes porque passou e apesar das acusações que continuam a ser-lhe feitas, Lula não se deixou quebrar pelo desânimo, nem nunca desistiu. Voltou, com a força da razão, quiçá mais sábio, sabendo que tem pela frente uma tarefa ciclópica: a de "unir os brasileiros" e de voltar a "pôr o Brasil no mapa". Tem a seu favor a experiência acumulada e o carisma inato, que fazem dele o mais popular líder político de toda a América Latina. Não por acaso, os líderes das principais potências mundiais - Biden, Macron, Putin, Xi Jinping, Sunak, Mori, Sanchez, Von der Leyen - apressaram-se a reconhecer a vitória. Todos eles sabem ser mais fácil negociar com um país democrático, do que com um país "pária" (o Brasil de Bolsonaro), isolado pela comunidade internacional. Da mesma forma que no passado, esse será o maior trunfo de Lula. Se puder (e souber) usá-lo, este terceiro mandato poderá tornar-se o seu maior legado. O Brasil espera por ele.

2022/10/20

Brasil: democracia versus barbárie

 

Faltam 10 dias para a 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras. 

De acordo com a maioria dos analistas e institutos de opinião, o debate do passado domingo, entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, saldou-se por um "empate técnico", o que não permite extrair grandes conclusões para as eleições do próximo dia 30. O debate teve uma primeira parte de nível bastante aceitável, resvalando, na segunda, para as habituais acusações "ad hominem", que não contribuíram para elevar a discussão. De facto, ambos os candidatos pareceram bem preparados, com um Lula mais desenvolto, usando a sua experiência política e poder de comunicação que sempre o caracterizou; e um Bolsonaro, mais hirto e em pose militar, com as mãos atrás das costas, que teve de socorrer-se de uma cábula para defender os seus argumentos. As críticas de Lula, centraram-se fundamentalmente nas políticas de educação, na gestão da pandemia e na desflorestação da Amazónia, durante a actual legislatura; enquanto as críticas de Bolsonaro, tiveram como alvo o tema da corrupção durante os governos de Lula, de que foram exemplos maiores o "mensalão" e o "lava jato", como se previa. Até aqui, poucas novidades. 

Esta parece ser, também, a opinião da maioria da população, a avaliar pelas sondagens posteriores ao debate e publicadas esta semana pelo IPEC e pela Data Folha, dois dos principais centros de sondagem no Brasil. Assim, com base na sondagem do IPEC (efectuada entre 15 e 17 de Outubro últimos) Lula terá agora 50% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro terá 43% (na primeira volta, estas percentagens foram, respectivamente, de 48% e 43%). Ou seja, Lula, depois do debate, terá aumentado ligeiramente a sua vantagem para 7 pontos percentuais. Já na sondagem da Data Folha, publicada hoje (19 de Outubro) as percentagens são de 50% para Lula e 44% para Bolsonaro (uma diferença de 6 pontos). Para além destes votos, há ainda a considerar 5% de votos nulos e 2% de votantes, que não sabem e/ou desconhecem em quem votar. 

Resumindo: os votos em Lula mantêm-se constantes (a rondar os 49%) enquanto os votos em Bolsonaro, (depois de um crescimento surpreendente, relativamente às sondagens pré-eleitorais) parecem ter atingido o seu valor máximo (a rondar os 44%). A percentagem dos votantes, que não mudam de opinião, mantém-se estável: 93%. A dúvida parece estar, agora, nos 7%, que ainda não decidiram em quem votar. É neste grupo, com cerca de 10 milhões de eleitores, que ambos os candidatos se concentram, pois dele pode depender a vitória no dia 30. Uma coisa é certa: mesmo que Lula ganhe, como previsível, Bolsonaro terá a maioria no Senado e no Congresso, o que não facilitará a vida do próximo governo. É prevendo este desfecho, que ambos os candidatos se desdobram, esta semana, em múltiplas acções eleitorais de última hora, para tentar conquistar o voto dos indecisos. Lula, mantém o apoio do Nordeste, da população mais pobre, do mundo cultural e do eleitorado feminino; enquanto Bolsonaro, tem o apoio da maioria das seitas evangélicas, dos ruralistas e dos militares, os chamados três BBBs (Bíblia, Boiada e Bala),  tradicionalmente os grupos populacionais mais despolitizados e conservadores do país.     

De Lula, todos sabemos que foi operário metalúrgico, sindicalista, fundador do PT, candidato perdedor em três eleições presidenciais e ganhador noutras duas. Durante os seus mandatos (2002-2010) muita coisas boas e más aconteceram. Desde logo, as políticas sociais e educacionais, que tiraram da miséria extrema 40 milhões de brasileiros e permitiram aos mais desfavorecidos estudar e tirar cursos superiores, contribuindo para a qualidade de vida do brasileiro médio e aumentando o PIB nacional, como nunca até aí. O Brasil tornou-se uma das dez economias mais competitivas do Mundo e acedeu ao excelso clube do G20, fazendo parte dos BRICs de sucesso. Lula saiu do governo com uma taxa de popularidade de 87% e, só não foi eleito pela terceira vez, porque a constituição não o permite. Há, no entanto, um lado escuro nesta história de sucesso, devido às acusações de corrupção, que lhe custaram diversos processos judiciais e, inclusive, a prisão. Sobre este candidato, que muitos preconizavam morto politicamente, escreveu esta semana, André Lamas Leite, cronista do "Público": "O "cadáver político" que esteve 20 meses preso e que - digamo-lo com frontalidade - não se duvida que tenha cometido os crimes pelos quais foi condenado transitoriamente, beneficiou messianicamente de Sérgio Moro - oportunista obcecado, agora senador, e que mercadejou o seu cargo por uma breve passagem pela pasta da Justiça - que, assim, se transformou, suprema ironia, no desfibrilhador "lulista"". Ou seja, apesar de todos os revezes, Lula renasce das cinzas, graças ao seu principal acusador no processo Lava Jato. "Bolsonaro, não teve o engenho de transformar os 87% de aprovação, com que Lula abandonou a presidência em cinzas, mesmo após as condenações judiciais" (Leite, André Lamas: in "Público" d.d. 4/10/22).

De Bolsonaro, sabia-se pouco até ter chegado ao Planalto, mas os quatro anos que leva à frente do governo, chegam e sobram para fazer o retrato da criatura. O que sabemos de Bolsonaro? Sabemos que: "Bolsonaro acha bem os cidadãos terem em casa armas de uso militar. Na primeira campanha presidencial, em 2018, disse que "Uma arma, mais que defender a nossa vida, defende a nossa liberdade". Agora, na segunda campanha, descreveu-se como "Um presidente que defende a legitima defesa e o armamento para o cidadão de bem". "E digo a vocês: povo armado jamais será escravizado". Desde que chegou ao governo, assinou um decreto a facilitar a venda de armas. Em 2018, havia 350 mil armas registadas em nome de "coleccionadores, atiradores e caçadores". Em 2022, há 1 milhão. Os brasileiros compram hoje uma média de 1300 armas por dia". Entretanto, a criminalidade no país, cresceu para 63.000 vítimas por ano. "Bolsonaro não acredita na ciência. Em 2020 disse que o Covid-19 era "uma gripezinha" e que os brasileiros não apanhavam doenças. No Orçamento do Governo Federal de 2021, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, teve um corte de 30%, o maior de todos. O segundo maior corte foi na Educação e o terceiro no Ambiente. O Brasil, registou 700.000 mortes por Covid, uma das maiores percentagens do Mundo". "Bolsonaro não acredita na importância da Amazónia. Em 2019, disse que "é uma falácia dizer que a Amazónia é património da humanidade" e que "é um equívoco dizer, como atestam os cientistas, que a Amazónia, a nossa floresta, é o pulmão do Mundo". Nos anos do governo Bolsonaro, a desflorestação na Amazónia brasileira cresceu 56,6%" (Reis, Bárbara: in "Público" d.d. 8/10/22). Podermos ainda falar da misoginia. Bolsonaro, pai de três mulheres, disse que teve uma filha assim "Dei uma fraquejada e veio uma mulher", da homofobia (disse "Seria incapaz de amar um filho homosexual: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo", ou do racismo (disse que "os índios estão a ficar seres humanos como nós" e fala do peso dos negros em arrobas, medida para pesar gado)" (Ibidem).  

Perante tal cenário, e uma vez afastados os restantes concorrentes políticos (que ficaram pelo caminho na primeira volta e hoje se perfilam ao lado de um dos candidatos) só resta aos brasileiros votar num dos finalistas. Acontece, que estas eleições, as mais importantes no período pós-ditadura militar, não são apenas entre Lula ou Bolsonaro. Estas eleições, são sobre dois projectos antagónicos, dos quais dependerá em grande parte o futuro próximo do Brasil. Na realidade, as eleições brasileiras são entre a Democracia e a Barbárie.             

2021/03/14

Em Brasília, a Terra é "plana"...

Desde 2019 que o Brasil é governado por um fascista. Não é a primeira vez. A última tinha sido durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988. De então para cá, muitos foram os presidentes que governaram o país, o maior do continente sul-americano. Todos eles, democratas, como Fernando Henrique Cardoso, Lula Inácio da Silva, Dilma Rousseff, entre outros. Dilma Rousseff (2011-2016) foi, inclusive, a primeira mulher a ser eleita presidente em toda a América do Sul. 

O Brasil era, à época, um país respeitado, não só pela sua democracia (a maior do continente), mas também pelos seus programas de inclusão social, lançados ainda durante o governo de Lula da Silva (2002-2010) e pela sua robusta economia, a 7ª maior do Mundo. Os índices sociais e económicos dessa década, eram referidos como exemplo para os países em vias de desenvolvimento (Brics). Sem admiração, o país passou a integrar o G'20 (o "forum" dos países mais desenvolvidos do Mundo) e conquistou a simpatia internacional.

As coisas começaram a "derrapar" no primeiro mandato de Dilma (2011-2014). Erros cometidos com o modelo de desenvolvimento social e económico seguido (o PIB chegou a ter uma contracção de 9% e o desemprego a atingir 11% da população activa), num contexto de crise financeira mundial (sub-prime) e de despesas acrescidas (provocadas pela organização do Campeonato do Mundo de Futebol 2014 e pelos Jogos Olímpicos 2016), contribuiriam para a queda de popularidade do seu governo. 

Seria, no entanto, no segundo mandato de Dilma (2014-2016) que a situação se extremou. O anúncio de um aumento nas tarifas de transportes (enquanto o país gastava fortunas em eventos desportivos) para além da acusação de má gestão (a alegada "pedalada fiscal"), levariam os seus detractores (maioritariamente brancos da classe média) a pedir a impugnação do cargo (impeachment), moção que seria levada a votação no Congresso a 17 de Abril de 2016.

O que se passou nesse dia, está ainda na memória de todos os que puderam presenciar em directo a mais bizarra e degradante sessão vista num parlamento. Uma sessão, que pode ser considerada um "case study" em demagogia e manipulação nos parlamentos democráticos, tal a ignorância e virulência demonstradas pelos seus participantes: de deputados evangélicos histéricos a "maçons" desbragados, passando por militares saudosistas da ditadura e corruptos de diversa plumagem, todos eles representantes das forças mais retógradas do país, houve de tudo um pouco. Foi nessa histórica (e histérica) sessão que vi, pela primeira vez, Jair Bolsonaro, um obscuro deputado e ex-militar na reserva, conhecido pelas suas simpatias com a ditadura militar. A sua declaração de voto, em que elogiou o maior torcionário do regime militar, o coronel Carlos Ustra, o responsável máximo pelas torturas infligidas a Dilma Rousseff, revelaram ao Mundo o seu lado mais pulha. O resto, é História. Dilma acabaria por ser demitida (em Agosto de 2016) para ser substituída por um personagem cinzento, o vice-presidente Temer, o "mordomo", que se limitou a marcar presença, sem que hoje em dia alguém se lembre de um acto seu. 

Com a prisão de Lula, acusado num processo polémico, montado pelo juíz Moro para o afastar das eleições de 2018, o caminho para a eleição de Bolsonaro, o candidato da direita, ficou mais livre. Ganharia as eleições com 55% dos votos, apoiado pelas forças mais conservadoras e reaccionárias do Brasil: os evangélicos, os ruralistas e os militares. 

Como era previsível, a coisa só podia correr mal. Bolsonaro, para além de fascista, é um calhau, sem qualquer educação ou preparação para o cargo. As suas "boutades" são de antologia e já fazem parte do anedotário nacional. É difícil escolher um só defeito: é autoritário, racista, machista, misógino, homofóbico e negacionista. Nega as alterações climáticas e autoriza a devastação da mata amazónica, o que lhe tem valido criticas de toda a comunidade internacional. Discrimina os índios, hoje cada vez mais confinados em reservas, onde são sujeitos a "queimadas" provocadas por fazendeiros, criadores de gado e de plantações de soja. É adepto do porte de arma, invocando a defesa pessoal dos cidadãos contra a criminalidade existente, que só tem aumentado desde que chegou ao poder. Diz combater a corrupção (a sua maior acusação contra Lula) mas levou toda a família para o governo e dois dos seus filhos já foram acusados de peculato e de participação em crimes, como a da activista Marielle, no Rio de Janeiro.

O modo como "gere" a actual crise pandémica, é a maior prova da sua imbecilidade. Começou por negar o perigo do vírus, apelidando-o de "gripezinha" e "resfriado", coisas sem importância. Passou meses sem usar máscara ou distanciamento social, apelidando de "maricas", quem mostrava medo de ser contaminado. Devido às suas políticas negacionistas, o país entrou em crise sanitária profunda e, nalgumas regiões (Manaus), as populações não recebem suficiente oxigénio e morrem por asfixia. Hoje, o Brasil, é o 2º país com maiores índices de contágio e mortes a nível mundial, só ultrapassado pelos EUA, respectivamente: 11.439.250 / 9,52% e 30.055.349 / 25,01%. O número de mortes, ultrapassou esta semana pela primeira vez 2.000 casos, num dia apenas! Uma catástrofe sem procedentes, só possível num país governado por um louco. Está em curso um verdadeiro genocídio no Brasil, denunciado pelas organizações de saúde internacionais. Entretanto, criticado à esquerda e à direita, Bolsonaro, tem-se refugiado no seu ministro de saúde, o militar Pazuello, outro ignorante como ele. Provavelmente, este virá a ser substituído, já que o "mito" necessita de ganhar as eleições em 2022 e precisa de um "bode expiatório" para justificar as suas políticas de extermínio. Perante a desobediência de alguns governadores estaduais (S. Paulo, por exemplo) que decretaram planos de confinamento para evitar mais contágios, o fascista ameaça com tanques e exército nas ruas, como forma de obrigar os governadores a obedecerem. Pior, é impossível.

Como afirmou, esta semana, o ex-presidente Lula, entretanto ilibado das acusações de Moro num processo ilegal, a Terra não é plana. Nunca foi. A Terra é redonda! 

 

2020/05/25

Dez semanas noutra cidade: Fases, Calamidades e Solidariedade Europeia


A Espanha entrou hoje, oficialmente, na fase 2 do "desconfinamiento".
À excepção das regiões de Madrid, La Mancha Y Léon e Catalunha, que permanecem na fase 1 devido ao elevado número de casos, o resto do país passará de imediato à fase seguinte.
Em termos práticos, isto quer dizer que, a partir de hoje, é permitido: reuniões de grupos até 15 pessoas; organizar visitas a residências de idosos; celebrar bodas; alojamento em hóteis e AL; frequentar lojas sem limite de superfície e centros ou parques comerciais;  sair a qualquer hora do dia, à excepção do horário reservado a maiores de 70 anos; ir à piscina ou à praia: organizar actividades turísticas e da natureza, até um máximo de 20 pessoas; ir a restaurantes ou cafés e esplanadas até a um máximo de 15 pessoas; visitar exposições, monumentos e equipamentos culturais; ir ao cinema, teatro e auditórios.
Nada mau, para quem há um mês atrás mal podia pôr um pé na rua, sem usar máscara, luvas e dentro de horários específicos. Um tormento, quiçás necessário, para o qual continua a haver muitas dúvidas, já que os resultados das diversas políticas seguidas - confinamento, semi-confinamento, "intelligent lockdown" e controlo digital - tiveram resultados diferentes. Os testes continuam a ser fundamentais para ajuizar da quantidade de infectados e fazer prevenção (sem testes não é possível saber quem está ou não infectado); da mesma forma que, a contagem de infectados e de mortes em consequência do coronavírus, continua a ser posta em dúvida, já que nem todos os países seguem as mesmas normas  (os números oscilam entre registos de mortes directamente causadas pelo vírus e registo de todas as mortes, patologias associadas, inclusive). No fim, espera-se, haverá uma avaliação da OMS, mas até lá haverá recidivas, ou não, uma vez que também neste campo não existe unanimidade. O próprio vírus, deve andar um pouco "baralhado", pois estava a contar com mais umas infecções enquanto não descobrem a vacina e corre o risco de ser "descontinuado" muito antes disso.

Até lá, a pandemia acelera em todo o Mundo, registando uma média de 100.000 contactos diários. Após a Ásia (onde tudo começou) e a Europa (onde o "pico" da crise parece ter passado) é na América do Norte (Estados Unidos) e na América do Sul (Brasil) que a pandemia atingiu os números mais altos e onde se espera o maior número de vítimas.
Por coincidência (ou talvez não) os 3 primeiros países da lista de infectados (EUA, Brasil e Russia), têm líderes populistas e autoritários, dois dos quais negam a ciência (Trump e Bolsonaro) e um (Putin) não olha a meios para atingir o poder absoluto. Neste caso, o "coronavírus" e as medidas de confinamento, são uma óptima ocasião para melhor controlar a população, a exemplo do seu homólogo Orbán, (Hungria) que aproveitou o "estado de emergência" para declarar o "estado de sítio" permanente. A dissidência paga-se caro, nos antigos países do Leste Europeu.
No Brasil, Bolsonaro um caso patológico de estudo, continua a refutar tudo e todos, numa desesperada tentativa de manter o poder que pode estar por um fio. Depois de negar os perigos de infecção e movimentar-se livremente por entre os seus apoiantes (desvalorizando dessa forma o contágio), perdeu os seus ministros de saúde, que recusaram aplicar medidas sanitárias contraproducentes e nomeou, para o mesmo ministério, um militar sem qualquer formação médica. No meio da polémica, perdeu ainda Moro (ministro da justiça) que denunciou a ingerência do presidente no seu departamento, para além de ter convocado uma manifestação (falhada) com vista a pressionar o Congresso brasileiro, o que lhe valeu um processo de "impeachment". De resto, não é o primeiro que lhe é movido o que, a acontecer, poderá provocar a sua queda.
A manter-se o aumento exponencial de infecções, provocadas pelo vírus, o Brasil corre sérios riscos de se tornar um país ingovernável a curto prazo: desde logo pela estupidez do seu presidente, um demente fascista, para quem a vida dos seus cidadãos nunca importou (sempre elogiou a ditadura e os seus torturadores); depois, pelos meios sanitários insuficientes para acudir a uma população empobrecida e desesperada em sobreviver, que pode vir a revoltar-se, se não tiver alternativas.
Temendo isso, os militares (com Mourão à cabeça) movimentam-se na retaguarda, construíndo cenários e fazendo ameaças, projectando já um futuro sem Bolsonaro. Mas, com quem? Essa é a grande questão neste país, dividido após o golpe contra Dilma, que permitiu aos fascistas chegar ao poder através de eleições.

Entretanto, na Europa, continuam as negociações para criar um fundo europeu de ajuda aos países afectados pela pandemia. Depois de um primeiro confronto no Eurogrupo, entre os defensores de "eurobonds" (Espanha, Itália, Portugal e França) e os defensores de empréstimos, através do Fundo de Estabilidade e Emergência Monetária (Holanda, Austria, Finlândia e Suécia), que opôs violentamente a Holanda e a Itália, conseguiu chegar-se a um acordo de intenções, que resultou na aprovação de um Fundo de 500.000 milhões de euros a fundo perdido (proposta da Comissão). Esta semana, a proposta foi, de novo,  alvo de discussão. Em princípio, os países pareciam estar de acordo, já que a crise actual não é uma crise económica (como a anterior), mas sanitária (que a todos afecta) e para a qual são exigidas medidas de solidariedade. Acontece que, a solidariedade europeia, já conheceu melhores dias. Os países do Norte (Holanda, Austria, Suécia e Dinamarca) só aceitam a subvenção a "fundo perdido" (uma variante da "mutualização da dívida") caso as contas dos países do Sul possam ser auditadas e controladas exteriormente...Subjacente a esta ideia, está a convicção de que a fraude é uma especificidade do Sul, como se os países do Norte fossem mais sérios. Basta lembrar a existência do "offshore" holandês, que enche os seus cofres com o dinheiro de impostos desviados do Sul, para constatar que a Holanda (e os restantes países que apoiam a sua posição), não tem qualquer moral nesta questão, pois pratica uma política de "olha para o que eu digo, mas não olhes para o que faço". Maior hipocrisia, era difícil.
Posto isto, qual a solução? 
A não ser que, mais uma vez, Merkel (e Macron) "ponha ordem" nesta inacreditável exigência por parte de países que se consideram "moralmente superiores" (como se não tivessem todos sido atingidos pelo mesmo vírus), não se vê uma saída airosa para esta crise. A menos que a Europa se divida ainda mais.  Nesse caso, terminará enquanto projecto europeu. Já faltou mais.

2020/02/10

O Vírus Fascista

Uma nova epidemia alastra pelo Mundo: o coronavírus.
De acordo com o mais recente balanço, teriam morrido 909 pessoas, a maior parte delas na China, o país onde o vírus foi detectado. O número de infectados ultrapassou os 40.235 e há casos confirmados em países europeus, como a Alemanha, Finlândia, Suécia, Bélgica, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Portugal. Uma pandemia, apesar dos cuidados tomados pelas autoridades chinesas que, numa primeira fase, tentaram silenciar o médico Li Wengliang (a primeira pessoa a alertar as autoridades para existência deste vírus) que também acabaria por morrer, vítima de contaminação. Ontem mesmo, surgiu a informação sobre outro cidadão chinês, que divulgou notícias sobre a forma de actuação das autoridades em Wuhan (cidade onde teve origem o surto) que, entretanto, se encontra desaparecido. O advogado Chen Qiushi, conhecido por fazer denúncias de questões sociais, nas redes sociais, terá sido colocado em "quarentena forçada". Um vídeo, sobre o isolamento forçado de Chen Qiushi, tornou-se viral na Weibo, uma rede social chinesa, com muitos utilizadores a pedirem ao governo que liberte o advogado. Não está fácil a vida na China onde, para além da epidemia provocada pelo coronavírus, o estado totalitário não permite aos cidadãos a informação a que têm direito. Um clássico.
Tão ou mais grave que o coronavírus, é a ideologia fascista, que os populistas de todas as matizes procuram disseminar, umas vezes subtilmente, outras à descarada. É o caso do Brasil, um verdadeiro "case study" nesta matéria, onde os atropelos aos direitos humanos há muito ultrapassaram todos os limites.
Disso mesmo, dão conta mais de 2000 artistas, intelectuais e cientistas, que publicaram um baixo-assinado nos principais jornais de referência internacional, apelando à condenação do regime e à solidariedade com o povo brasileiro. Entre os nomes conhecidos estão Sting, Noam Chomsky, Willem Dafoe, Caetano Veloso, Chico Buarque, Philip Glass, Sebastião Salgado, Saori Tukado, Paulo Coelho, Petra Costa, Boaventura Sousa Santos, Valter Hugo Mãe, Jean Wyllys, Pilar del Rio, Mia Couto, Maria Gadu, José Luís Peixoto, Maria de Medeiros, Helder Costa, João Pina Cabral, etc...
Resumimos algumas das passagens do baixo-assinado:
"As instituições democráticas do Brasil, estão sob um ataque, desde que a administração de Jair Bolsonaro, ajudado pelos seus aliados da extrema-direita, tem sistematicamente minado as instituições culturais, científicas e educacionais  do país, além de toda a imprensa adversa.
Inicialmente, membros do ex-partido político de Bolsonaro (PSL), lançaram uma campanha para encorajar os jovens estudantes a filmarem os seus professores e a denunciarem a "indoctrinação ideológica". Esta campanha, conhecida como "escola sem partido", criou um sentimento de intimidação e medo nas instituições do país, que saíu há pouco mais de 30 anos de uma ditadura militar.
No mês passado, Bolsonaro sugeriu que o estado deveria censurar livros do programa escolar e substitui-los por textos que defendessem valores conservadores. No ano passado, enquanto a Amazónia ardia sem controlo, a administração retaliou contra cientistas que ousaram apresentar provas das queimadas e da deflorestação, provocadas pelos madeireiros. Foi o caso de Ricardo Gabão, ex-director do INPE (Instituto Nacional de Investigação do Território), demitido após ter divulgado dados obtidos por satélite, que comprovavam a deflorestação acelerada da Amazónia.
Também no ano passado, a administração despediu o director de "marketing" do Banco do Brasil, Delano Valentim, por este ter lançado uma campanha de promoção da diversidade e de inclusão.
O governo também é hostil aos "média". No dia 21 de Janeiro deste ano, o Ministério Público Federal abriu uma investigação sem provas, contra o jornalista Glenn Greenwald e seus colaboradores, por alegada conspiração e espionagem de telemóveis das autoridades brasileiras. A acusação - um claro ataque à liberdade de imprensa - foi uma resposta à série de factos comprovados por Greenwald e publicadas pela agência Intercept, sobre a corrupção existente nos círculos próximos do presidente, entre os quais os membros da sua família.
Este, não foi um caso isolado.  Os representantes do governo, desde os tribunais regionais à polícia militar, encarregaram-se de defender Bolsonaro e impedir a imprensa livre. Só em 2019, foram relatados 208 ataques aos "média" e jornalistas no Brasil.
No dia 16 de Janeiro passado, Bolsonaro e o secretário-especial para a Cultura, Roberto Alvim, apresentaram em conjunto um filme sobre os seus planos ideológicos para o país, onde elogiavam a deriva conservadora e censória da cultura. No dia seguinte, Alvim, foi ainda mais longe: durante um vídeo-fragmento, onde anunciava um novo prémio para as Artes, fez alusões aos princípios nazis e utilizou frases do célebre propagandista nazi Joseph Goebbels. Posteriormente, devido à celeuma provocada no país e a nível internacional, Alvim seria demitido. No entanto, o ministro de Bolsonaro, foi apenas o seu mensageiro.
Instituições públicas, que representam a herança cultural brasileira, como o Conselho Superior do Cinema, Ancine, O Fundo do Audiovisual, a Biblioteca Nacional, O Instituto da Herança Histórica e Artística, a Fundação Palomares para a Cultura Negra, foram igualmente censuradas, tendo sofrido cortes nos apoios estatais e outras formas de pressão política.
Petra Costa, realizadora do filme "No Fio da Democracia", este ano nomeada para os óscares, foi criticada num "tweet" da secretaria de comunicação do governo por, alegadamente, ter mostrado uma face menos "simpática" da governação Bolsonaro.    
O governo de Bolsonaro, continua a trabalhar para fazer regredir importantes conquistas das últimas décadas: entre 2003 e 2017, a proporção de estudantes negros que entrou para a universidade aumentou em 51%. Bolsonaro quer diminuir esta percentagem.
Os ataques às minorias étnicas e à comunidade LGBTQ, continuam a aumentar, enquanto são ignoradas a violência e a criminalidade das milícias para-militares de extrema-direita.
Este é um governo que não tem um plano de desenvolvimento para o seu povo.
Pelo contrário, o governo combate qualquer sinal de progresso, nega o aquecimento global, os incêndios na Amazónia, a deflorestação e a diminuição do "habitat" dos povos índios, confinados a cada vez menos território. Uma das suas últimas directrizes, foi a de enviar missionários para ensinar religião às tribos índias.
A lista de livros, que devem ser retirados do programa escolar, inclui 43 obras, das quais 19 de autores brasileiros, entre os quais Rubem Fonseca, Ferreira Gullem (prémios Camões), Machado de Assis, Carlos Heitor Sony, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Euclides da Cunha, mas também Kafka, Edgar Alan Poe, entre muitos outros. Chico Buarque de Holanda (prémio Camões 2019) a quem Bolsonaro recusa entregar o prémio, virá recebê-lo a Portugal no dia 25 de Abril.
Esta lista, que deve constar do "index" escolar, é da autoria de Marcos Rocha, secretário de educação da Randónia, um ex-coronel da polícia militar, filiado no PSL, onde militou Bolsonaro. Perante a divulgação da lista, o documento foi retirado e considerado sigiloso pelo governo, ainda que não tivesse sido desmentido".
Faltaria ainda referir as ridículas afirmações da ministra de educação que considerou "o sexo fora do casamento, uma coisa de esquerda", ou as campanhas nacionais de "aconselhamento sexual", para pessoas acima dos 16 anos...
Da mesma forma que o vírus, a demência parece ter afectado os brasileiros. Mas, Bolsonaro, não está isolado. A apoiá-lo, estão 55 milhões de votantes, que não devem ser desvalorizados. Como escreveu um famoso escritor:
"Deve valorizar-se a opinião dos estúpidos: são a maioria". Lev Tolstoi (1828-1920)


 
 
     

2019/09/11

Brasil: a deriva autoritária

Carlos Bolsonaro, filho do actual presidente brasileiro e vereador pelo PSC-RJ, escreveu no twitter que, por vias democráticas, não haverá as mudanças desejadas no país "na velocidade que almejamos...e se isso acontecer". Para acrescentar: "Só vejo todo o dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominam, continuam nos dominando de jeitos diferentes!".
Resta saber a quem se dirigia, já que os que sempre dominaram o Brasil, continuam no poder.
Era previsível.
Depois de tantos "tiros no pé", por manifesta incompetência e impreparação para os cargos, a "famiglia" Bolsonaro, cada vez mais isolada a nível nacional e internacional, ensaia uma "fuga em frente", que poderá passar por uma "democracia musculada" (eufemismo para ditadura militar).
Acontece que o actual governo é, ele mesmo, o representante das forças mais retógradas da sociedade brasileira: as seitas evangélicas, os ruralistas e os militares. Estes últimos, que têm andado "caladinhos", quando interrogados sobre as suas pretensões, dizem sempre (declarações do vice-presidente Mourão ao "Expresso" e à SIC, no Estoril), que o actual exército brasileiro não é "golpista" e que respeita a constituição. À cautela, Bolsonaro nomeou 8 (oito!) militares para o seu governo (1/3 dos ministérios!), seguindo o velho princípio "se não podes vencê-los, junta-te a eles". Até agora, os militares têm respeitado as "regras do jogo". Resta saber, até quando? Entretanto, do seu exílio em Miami, Olavo Carvalho, o guru da extrema-direita brasileira, vai avisando que "ou governo melhora a sua "performance", ou os militares poderão ter de intervir"...
Uma das teses em presença é, precisamente, a que diz que serão os militares a acabar com a influência da "famiglia" Bolsonaro e não o contrário.
Em qualquer dos cenários, o futuro do Brasil, a curto prazo, parece mais sombrio que nunca.
Resta saber o que pensa e faz a oposição, que parece algo "anestesiada", depois da prisão de Lula e da derrota nas últimas eleições...
 

2019/08/23

Brasil, um país à deriva

A núvem de fumo, que cobriu esta semana a cidade de S. Paulo, provocada pelos incêndios da floresta amazónica a 3000km de distância, é a metáfora perfeita para um país mergulhado na escuridão. De acordo com os dados disponibilizados pelo Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Nacionais), que monotoriza o fenómeno , os fogos deste ano correspondem ao maior flagelo registrado nos últimos cinco anos.
Os números não mentem: o fumo do incêndio da Amazónia pode ver-se do espaço. Entre os estados atingidos, Mato Grosso é o campeão, com 13682 focos de incêndio, num total de 72843 no país inteiro, entre Janeiro e Agosto, um aumento de 87% face ao mesmo período do ano passado, segundo o Inep.  Em segundo lugar, está o Pará com 7975. A situação tornou-se tão grave que o estado do Amazonas, com mais de sete mil focos de incêndio, decretou situação de emergência na região Sul e na região metropolitana de Manaus. O governo de Acre decretou crise ambiental.
Perante o alarme, o presidente Bolsonaro, tentou arranjar um bode expiatório (as ONGS, que trabalham no terreno, descontentes por terem perdido apoios governamentais), o que não convenceu ninguém, conhecendo o trabalho que estas organizações fazem no terreno, onde são das mais activas na defesa e preservação do ambiente, como é do conhecimento geral. Mais tarde, admitiria que os causadores dos fogos poderiam ser os fazendeiros, que anualmente procedem a queimadas para desmatar a floresta e preparar os terrenos para o cultivo e agro-pecuária.
Contudo, o número e a velocidade com que surgiram, sugerem actos criminosos - as queimadas foram feitas para fazer desaparecer o que sobra do desmatamento.
De acordo com Vinícius Silgueiro, coordenador de geotecnologia do Instituto Centro Vida, sediado em Mato Grosso, já se detectaram em Colniza (um município de Mato Grosso) 1049 focos de incêndio. "Associamos sempre a queimada nesta época com o desmatamento e neste ano aumentou bastante. É bom para a especulação fundiária" (in "Público" d.d. 23/8/19).
De acordo com os dados fornecidos pelo Instituto, 60% das áreas do fogo ficam em áreas privadas cadastradas. 18% em áreas privadas sem cadastro, 16% em terras indígenas e 1% em área da conservação da natureza (ibidem).
Os números são assustadores: a destruição do Amazonas arrasta-se de ano para ano, muitas vezes de forma irreparável - o desmatamento aumentou 88% em Junho e 278% em Julho, segundo o Inep. Só nas última semanas, teria ardido uma superfície equivalente à da Alemanha. Se pensarmos que a área da Amazónia corresponde à superfície da Europa, podemos ter uma ideia do que um desastre ambiental naquela zona pode significar para todo o planeta.
As causas para esta tragédia brasileira (e planetária) são conhecidas e não podem ser ignoradas.
Elas radicam no governo de Bolsonaro, que tem apostado numa estratégia de desregulamentação e desprotecção do Amazonas, incentivando à exploração económica, seja mineira ou agrícola. Apoiados pelas palavras do presidente, que declarou querer transformar a Amazónia na "alma económica do Brasil", vários fazendeiros reuniram-se para declararem o "dia do fogo" a 10 de Agosto, quando iriam atear incêndios diversos. Sem controlo, atearam fogos em massa.
Só nesse dia, o Inep, registou um aumento de 300% de focos de incêndio, em Novo Progresso, no Pará, num total de 124 casos e, no dia seguinte, ainda mais: 203 casos. Em Altamira, no mesmo estado, foi ainda maior: 743%, um total de 194 focos no sábado e 237 no domingo.
Os causadores destes fogos agem impunemente, pois sabem estar protegidos pelo governo federal e actuam em território não controlado. Só em 2018, 23 ambientalistas foram assassinados no Brasil, transformando-o no quarto país mais perigoso do Mundo para estes activistas. Se recuarmos a 2002, já foram assassinados 653 ambientalistas no país (dados da Global Witness).
No entanto, nada disto nos devia surpreender. Ainda antes de ser eleito, e quando poucas pessoas acreditavam nas suas capacidades (o que se veio a confirmar) Bolsonaro disse logo ao que vinha. Negou as alterações climáticas, defendeu a transformação da Amazónia, cortou nos orçamentos das instituições ambientais  - 38,4% das verbas para prevenção e controlo de incêndios florestais - e contestou os dados oficiais que falavam no aumento da deflorestação de 278% em Julho, exonerando de seguida o presidente do Inep, Ricardo Galvão.            
Quando chegou ao governo, a maioria dos analistas vaticinou-lhe uma curta vida política. Havia três vias possíveis: pôr em prática as suas ideias (fascistas), o que poderia isolar o Brasil na cena internacional; navegar "à bolina", governando de acordo com os problemas que fossem surgindo; ou apoiar-se nas bancadas ruralistas, evangelistas e nos militares que o apoiaram. Todos este grupos estão, hoje, representados no governo, constituido por 1/3 de militares.
A chamada "bancada ruralista" (a do agro-negócio) é um dos sustentáculos da presidência do Congresso e o Presidente tem retribuido o apoio. Mas, há perigos. Diversas organizações do sector, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e agrónomos diversos, avisam que, se a destruição da Amazónia continuar a este ritmo, o agro-negócio definhará com ela.  O desmatamento alterará a duração das épocas de chuva e o tempo brando e seco que se lhe segue prejudicará as colheitas. Em caso de desmatamento prolongado, os terrenos deixarão de ser húmidos e a regeneração da floresta pode nunca mais se verificar.    
Nem tudo é mau, no entanto: a Alemanha e a Noruega, congelaram o apoio (70 milhões de euros a fundo perdido) dado ao Brasil para a conservação da Amazónia; a Finlândia apelou ao boicote activo em toda a UE da carne brasileira; o presidente Macron conseguiu agendar a Amazónia, para a próxima reunião do G7, a realizar este fim-de-semana; publicações de referência (The Economist, The Guardian, The New York Times, The Independent, Le Monde...) dedicam esta semana as suas capas e extensos artigos aos fogos da Amazónia e as redes sociais nunca estiveram tão activas e mobilizadas por uma causa. Amanhã, haverão manifestações nas principais cidades europeias, em defesa da Amazónia e, no Brasil, a mobilização não é menor.
No fundo, se a questão da Amazónia, tiver o condão de condenar e correr com Bolsonaro e o seu governo de corruptos fascistas, nem tudo se perderá e o Mundo ficará, certamente, menos poluído. Também porque não há planeta B.

2019/03/20

Brasil-EUA: quando os "bons espíritos" se encontram


Contrariamente ao que tem sido a tradição de anteriores presidentes brasileiros, a primeira visita ao estrangeiro de Jair Bolsonaro, não foi à Argentina, mas aos Estados Unidos da América.
Faz sentido. Bolsonaro nunca escondeu a sua admiração por Trump, o seu ídolo.
Agora que o Brasil necessita de abrir-se ao exterior, para cativar investimentos em áreas nevrálgicas para a sua economia, nada melhor que o "amigo americano", para garantir o apoio e a cooperação de que o pais precisa.
Mas, Bolsonaro e Trump comungam outras coisas, para além de interesses económicos. Ambos são particularmente broncos, desprovidos de qualquer experiência ou visão política; não se lhes conhece uma ideia positiva, sobre questões prementes para o planeta, como o desarmamento ou o clima; ambos governam por "tweets" e usam "fake news", através das quais espalham o ódio, que é a "marca de água" de todos os seus discursos; ambos são apoiados pelas facções mais retrógadas da sociedade, desde o "Tea Party" e os "Wasp" (que defendem a supremacia branca na América), até às seitas evangélicas e os ruralistas, que pululam no Brasil; ambos são profundamente racistas e xenófobos, seja contra os negros e imigrantes (Trump), seja contra os negros e índios (Bolsonaro); ambos são notórios misóginos e criticam os movimentos de emancipação das mulheres; ambos defendem o uso de armas por civis.
Não admira, pois, que a sua estratégia, seja semelhante.
O alvo é o mesmo: fanatizar os grupos dominantes na sociedade, assustar o adversário, mobilizar os deserdados. A abordagem, também é a mesma: gerar bolsas de ódio contra indivíduos ou colectivos. Os temas escolhidos, são idênticos: queremos andar armados, a família está sob ataque (ideologia de género), os imigrantes aproveitam-se das facilidades das nossas sociedades e ficam com os nossos empregos.
Quando Bolsonaro foi eleito, em finais do ano passado, muitos analistas duvidavam que pudesse ser tão cretino, ao ponto de pôr em prática as ideias que defendeu antes das eleições. Um atentado, de que foi vítima durante a campanha eleitoral, poupou-o à humilhação nos debates, para os quais não estava manifestamente preparado. Um tosco, o Jair.
Nessa altura, as opiniões dividiram-se sobre o caminho que o presidente poderia seguir, quando fosse eleito: manter-se coerente com o seu discurso, contra tudo e contra todos, correndo o risco de ficar isolado; negociar com as bancadas dos sectores que o apoiam no Congresso, os tradicionais três "Bs" (Bala, Boi e Bíblia); ou decidir, de acordo com as matérias em discussão, tentando "surfar a onda" conforme os temas e os apoios. 
Menos de três meses decorridos sobre a tomada de posse, a presidência de Bolsonaro não podia ter sido mais errática. A tal ponto que, Olavo de Carvalho, um dos ideólogos do populismo brasileiro, já veio avisar que, caso o governo não melhore, o Brasil corre sérios riscos de um golpe militar. Lembremos, que os militares, têm 8 ministros no actual governo, mais de 1/3 do total de governantes. Os casos começam a ser muitos e demasiado graves para passarem em claro: Bolsonaro (a exemplo de Trump, de resto), começou por levar a família para o governo. Um dos filhos (governador do Rio) foi, entretanto, associado às mílicias para-militares, acusadas de matarem Marielle Franco, há um ano atrás. Os alegados assassinos, já foram presos, faltando esclarecer quem foram os mandantes. O outro filho, que faz parte do governo, depois do pai ter anunciado a proclamação da Lei de Porte de Armas, foi o primeiro a exibir uma arma, em vídeo divulgado nas redes sociais. O pai, não lhe ficou atrás e declarou, após o morte dos alunos da escola em Suzano, que dormia com uma arma debaixo da almofada. Não contente com isto, divulgou um vídeo de índole pornográfica, sobre os "desmandos" do carnaval carioca, que pode valer-lhe um "impeachment". Frequentemente, as suas declarações são emendadas pelos assessores e, não raro, os ministros têm de vir desculpá-lo pelas "gaffes" cometidas. Pior, era impossível.
Conforme escreve o "El País" de hoje: "Quando o presidente assinou um decreto para facilitar a posse de armas no Brasil, a professora Marilene Umizu, escreveu numa rede social: "Estamos a favor do porte de livros, que é a melhor arma para salvar os cidadãos na educação". No dia 13 de Março, a professora Marilene, era um dos sete corpos crivados de balas no solo da escola estatal Professor Raul Brasil, em Suzano, na região de São Paulo. Bolsonaro não é o responsável directo pelo massacre. Não premiu o gatilho. Mas, deve ser responsabilizado por apertar todos os dias o gatilho com as suas palavras e actos, perante 200 milhões de brasileiros, como fez durante a campanha em que imitava uma arma com os dedos".
Um dos seus assessores, Mayor Olímpio, chegou ao desplante de declarar que "se os professores estivessem armados, podia ter-se evitado a tragédia". Entretanto, o filho mais velho de Bolsonaro, senador eleito, já apresentou o primeiro projecto-lei: A autorização para instalar fábricas civis de armas e munições.
É este Brasil que convive com o genocídio da juventude (negros na maioria, as principais vítimas) e um índice de criminalidade de 63.000 mortos por ano (a maior do Mundo), para além do silêncio que continua a pairar sobre mais de 200 mortos desaparecidos durante a ditadura militar.
Nas conversações entre Bolsonaro e Trump, não foram estabelecidos acordos, mas intenções. Sobre instalação de uma base americana em Maranhão, sobre privatizações que facilitem a entrada de capital americano no país e uma política mais flexível de taxas aduaneiras, o que obrigará o Brasil a "abrir mão" do seu proteccionismo, em troca de entrada na OMC, na OCDE e, quem sabe, na NATO (!?). 
Não é pois de admirar que Bolsonaro, após o encontro com Trump, tenha declarado à Fox News que estava em sintonia com o presidente americano e que os imigrantes deviam ser impedidos de entrar no país, pois muitos deles eram criminosos.
É verdade. Os índios, que o digam!

 

2018/10/29

Bye Bye Brasil...


... É o título de um dos mais célebres filmes brasileiros da década de 1970, quando a ditadura militar governava e, para além da repressão e da tortura, vendia o país a retalho a multinacionais estrangeiras.
O filme, uma comédia de Carlos Diegues (1979), sobre as peripécias de uma família de saltimbancos em viagem pela Transamazonia, mostra um país de contrastes e desigualdades, tendo como pano de fundo a luta pela sobrevivência dos seus habitantes e a exploração desenfreada das suas riquezas naturais.
Sobre a obra escreveu, então, o crítico Cassiano Terra Rodrigues no "Correio Cidadania":
"Bye Bye Brasil é um filme de um país que está deixando de ser o que por muito tempo foi para se tornar não se sabe o quê...". Lembrei-me desta citação, quando assistia ontem à emissão especial de um canal televisivo sobre o acto eleitoral brasileiro.
Ainda que o resultado final não tenha sido propriamente uma surpresa (todas as projecções apontavam neste sentido), o facto de 57 milhões de brasileiros terem votado num bronco fascista é por demais preocupante para deixar indiferente qualquer democrata.
O Brasil (e por extensão, a América Latina) corre o risco de um retrocesso civilizacional, como não se via desde a década de setenta, quando a maior parte do continente sul-americano era governada por juntas militares, cuja política assentava na repressão, na tortura e na morte dos seus oponentes. Foi assim no Brasil, como no Chile e na Argentina, no Uruguay, como no Paraguay... O tempo da "operação Condor", idealizada por Kissinger e executada com o apoio da CIA. Toda a gente está lembrada disso e existem quilómetros de documentação escrita e filmada sobre os "anos de chumbo" que se abateu sobre a América do Sul, certamente um dos períodos mais negros do pós-guerra no Mundo Ocidental. Já lá vão mais de trinta anos e, desde então, muita coisa mudou no Mundo, a começar pelo Fascismo clássico que, não tendo desaparecido, ganhou, entretanto, outras formas. Com a queda do "muro de Berlim" e a implosão da União Soviética, o "papão comunista" pode ter desaparecido, mas a apetência pelas riquezas naturais, não. A "globalização" que se seguiu, ao contrário do que muitos profetizavam, não trouxe mais riqueza para todos e, muito menos, melhor distribuição dessa mesma riqueza. Os ricos aumentaram os seus proveitos (50% da riqueza do Mundo está, hoje, nas mãos de 1% da população mundial) e o capitalismo, agora menos regulado, tornou-se ainda mais predador do que já era.
A desregulação do sistema (que originou uma transferência do capital produtivo para a esfera do capital especulativo) levou os agentes económicos a procurar outras formas de intervenção que, em períodos de crescimento económico e em sistemas democráticos estáveis dispensa intervenções "musculadas", mas que, em regimes fracos, podem ser equacionadas. 
O que se está a passar no Brasil, como de resto noutras partes do Mundo - do Brexit inglês, à América de Trump, passando pela Hungria de Órban, ou à Austria e à Itália, onde governam  ditadores do "novo tipo" - não se trata de um hiper-fenómeno, mas de uma tendência que tem vindo a alastrar nos últimos anos. É verdade que o fascismo de hoje, tem características diferentes daquelas enunciadas por Eco no ensaio "Como reconhecer o fascismo" (Relógio de Água, 2017) no qual, o conhecido semiólogo italiano, utiliza 14 arquétipos para definir a "besta". No entanto, bastou ter ouvido Bolsonaro durante a campanha eleitoral (durante a qual se recusou a debater com o oponente) para reconhecer os principais traços de um ditador. Está lá tudo: o culto da tradição, a rejeição do modernismo, o irracionalismo, o sincretismo, o medo da diferença, o apelo às classes médias frustradas, a obsessão da conspiração, o nacionalismo, a deslocação do registo retórico, o apelo à violência, o desprezo pelos fracos, o culto dos heróis, o machismo, o populismo, a "neolíngua". Não por acaso, Bolsonaro é apoiado pelas forças armadas (bala), pelas seitas evangélicas (bíblia) e pelos grandes agrários (boiada), os três "Bs" que sustentam a sua candidatura. Que esperar de um candidato que elogiou a ditadura e, em pleno congresso, deu vivas a Ustra, o torturador-mor da junta brasileira; que disse que a ditadura matou pouca gente e que Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente da República) devia ter sido morto; que as mulheres deviam ganhar menos que os homens e que as pobres deviam ser esterilizadas porque têm muitos filhos; que bandido morto é bandido bom; que quer armar a população; e que não gostaria que um filho seu fosse homosexual, entra outras barbaridades? Bom, esse candidato é Bolsonaro, ontem eleito presidente da maior democracia da América do Sul. Os brasileiros que nele votaram, não podem dizer que não sabiam. Todas estas declarações estão gravadas e foram amplamente noticiadas em todo o Mundo. Tiveram o apoio de mais de 50 milhões de votantes, muitos conscientes do que queriam, outros sem consciência alguma. Que se seguirá? Não sabemos, mas parece que governar o Brasil parece, agora, estar tão distante, como no filme de Diegues.
Nota final: em Portugal, os imigrantes brasileiros superaram os 55% atingidos pelo candidato fascista na média final. Mais de 64%, só em Lisboa! É obra. Perante tais números e partindo do princípio que estes "bolsonaristas", agora, já não têm nada a temer e podem regressar à pátria, faço, desde já, uma sugestão: trocá-los por um número igual de democratas brasileiros. Desta forma, ganhamos todos.     
      

2018/10/23

O eterno retorno do fascismo (5)


O fascismo cavalga sempre a ignorância. A ignorância e o medo.
As desigualdades sociais, a religião, a criminalidade e a corrupção, explicam o resto.
Num país de "castas", que dois séculos de independência não aboliram e onde o patrocinato e o clientelismo são regra, a corrupção é transversal e tornou-se um "modo de vida".
Não é de espantar esta reacção, contra elites e governantes corruptos que, não só não resolveram os problemas mais urgentes da população como, em muitos casos, os agravaram. Obviamente que a culpa não foi só do PT. Mas, agora, ninguém quer saber disso...
O apelo ao "homem forte" é uma constante da História em tempos de crise moral e social. Nomeadamente, em sociedades onde o estado é fraco. Onde o estado é fraco, a criminalidade aumenta (lei sociológica).
Sem esperança de dias melhores, numa sociedade com índices de criminalidade que rondam os 60000 homicídios/ano, os brasileiros querem "segurança" que - pensam eles - só um governo autoritário pode garantir.
A "lavagem cerebral" das seitas evangélicas, ampliadas pelas "fake news" e manipuladas pelos média, ao serviço de interesses vários, contribuem para o caos instaurado.
A alienação e o ódio, são totais.
Entrámos (entraram, os brasileiros) na fase da irracionalidade.
Nada é previsível e o pior pode acontecer.
Uma tragédia anunciada, o Brasil.

2018/10/03

O eterno retorno do fascismo (4)

EPA/SEBASTIAO MOREIRA
A menos de uma semana das eleições brasileiras, os dados parecem estar lançados: nenhum dos candidatos à presidência reunirá os votos necessários para ganhar à primeira ronda, pelo que será necessária uma segunda volta (prevista para o último fim-de-semana de Outubro), para saber quem irá ocupar o palácio do Planalto.
Os candidatos mais bem posicionados para passarem à segunda volta, são: Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita mais reaccionária e troglodita do país (apoiado pelos militares saudosistas da ditadura, pela alta-finança e pelas igrejas evangélicas, das quais, a IURD de Edir Macedo, é a mais conhecida); e Fernando Haddad, lançado à última hora pelo PT, em substituição de Inácio Lula, impedido de concorrer por se encontrar preso. 
De acordo com as últimas sondagens, Bolsonaro passará à segunda volta com cerca de 30% dos votos, enquanto Haddad, com cerca de 20%, já se distanciou dos outros concorrentes, ainda que continue longe dos 38% atribuídos a Lula, em finais de Agosto.
Perante este cenário e partindo do princípio que a maioria dos votantes não se revê em nenhum dos dois potenciais candidatos, resta saber em quem votarão os brasileiros (cerca de 50%), que rejeitam o fascismo e o PT.  Porque é disso que se trata, goste-se ou não da escolha.
Uma terceira alternativa, seria a abstenção, mas a constituição brasileira não o permite e o voto é obrigatório. Logo, quem não votar é multado e quem votar em branco favorece o candidato mais bem posicionado, neste caso Bolsonaro. Para mim, que defendo a democracia, a escolha seria fácil. Da mesma maneira que, se fosse americano, teria votado em Hillary Clinton, um mal menor relativamente ao escroque Trump.
Para grande parte da classe média brasileira, o "problema" parece residir no PT, que continua a gerar anti-corpos, muito por causa da corrupção generalizada, da criminalidade e da recessão económica, que o país atravessa de há anos a esta parte. Acontece que, estes problemas, sendo genuínos e reais, não se devem exclusivamente aos governos PT, por uma razão simples: o Brasil é, de há séculos, uma sociedade de "castas" e clientelas, onde a corrupção se tornou "um modo de vida" e o sistema de subornos e nepotismo criou e manteve uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esta herança de séculos, que o PT tentou contrariar (sem nunca tocar nos privilégios das elites!), através de programas de combate à desigualdade - elogiados pela ONU, pelo PNUD, pela UNESCO e pelo Banco Mundial - não foi, contudo, suficiente para evitar uma crise social e económica. Os sucessivos escândalos de suborno e corrupção (Mensalão, Odebrecht, Petrobras, etc.) demonstraram à saciedade, que algo estava "podre no Brasil" e não era pouco. O processo de investigação, conhecido por "Lava Jato" (uma alusão à "lavagem" de dinheiro desviado) deu cabo das últimas esperanças do brasileiro médio, pouco politizado e manipulado por uma imprensa sensacionalista, que deixou de acreditar nos políticos. O desemprego galopante, a inflação e a recessão, que se seguiram, fizeram o resto. Perante a descrença total e sem soluções à vista, a panaceia para todos os males parece ser um homem "forte", de preferência militar. Falta-lhe o bigode, mas o filme é conhecido.
Alguém, nas redes sociais, dizia por estes dias que existem dois tipos de anti-petistas: os ideológicos e os patológicos. Penso que, a maior parte, pertence ao segundo grupo: não interessa em quem se vota, desde que o PT perca! No limite, muitos deles, nem gostarão de Bolsonaro, mas como é o único que pode impedir a vitória do PT, então, votam nele (!?).
Há claro, forças interessadas na sua vitória: desde logo os militares, saudosistas do tempo da ditadura (1964-1985) que vêem aqui uma oportunidade de sair dos quartéis; depois, há os evangélicos de diversa plumagem, que dão indicação de voto aos "fiéis", argumentando que o capitão psicopata defende os valores da  família e do cristianismo (!?); finalmente, a finança, que controla a banca, as grandes empresas e domina a comunicação social (Globo, Veja, Data Folha, TV Record, etc.).
Ora a finança (vulgo "mercados") está interessada numa ditadura, a melhor forma de controlar a economia. A "economia" sempre se deu bem com o fascismo, pois é a melhor maneira de manter os trabalhadores submissos. Claro que o fascismo tem a "perna curta" e, no médio prazo, acabará por cair, mas isso não interessa nada aos neoliberais, desde que o "mercado" funcione. Por alguma razão, Bolsonaro já anunciou que não percebe nada de economia (em rigor, ele não sabe nada de coisa nenhuma) e, por isso, nomeará para "ministro da fazenda", o célebre Paulo Guedes, um rapaz da "Escola de Chicago" que, em tempos, foi conselheiro de Pinochet...
Conheço, inclusive, brasileiros cristãos, casados e com filhas, que vão votar em Bolsonaro, apesar do seu discurso onde defende a pena de morte, a tortura, a violação, a misoginia, a homofobia e o racismo. Para essas pessoas, isso não interessa nada. O que interessa, agora, é impedir que o PT volte ao poder. Depois, logo se vê...
É como a história de Mephisto (Fausto): vendeu a alma ao diabo, acreditando na sua salvação.
Depois...fodeu-se!

2018/09/14

O eterno retorno do fascismo (3)



A última semana foi pródiga em acontecimentos relacionados com o aumento (e rejeição), de movimentos associados à extrema-direita (vulgo fascismo), a nível internacional.
Veja-se o Brasil, um país onde o futuro teima em não chegar, apesar dos desejos expressos por gerações de brasileiros, confiantes em que, desta vez, "vai dar certo". Não sabemos o que o futuro nos trará, mas as expectativas nunca foram tão baixas.
Começou com o atentado contra Jair Bolsonaro, o candidato da extrema-direita mais retrógada do planeta, que - pasme-se! - lidera as intenções de voto para a presidência daquele país (22%), ainda que, de todos os candidatos, seja também aquele com maior percentagem de rejeição entre os votantes (44%). Um fenómeno, aparentemente inexplicável, ainda que os recentes acontecimentos no Brasil - relacionados com os sucessivos escândalos de corrupção e acusações que atingiram toda a classe política sem excepção - ajudem a compreender a trajectória deste populista de direita que, ao longo dos últimos anos, vem apelando ao golpe militar e ao regresso da ditadura, num discurso onde o racismo, a homofobia e a misoginia, fazem parte do léxico habitual.
Foi este homem, sem escrúpulos e desprovido de qualquer ideologia identificável, à excepção do ódio propagado, que foi apunhalado num comício eleitoral e que - como era expectável - subiu na cotação das sondagens pré-eleitorais. Se era preciso um mártir, ele está criado.
Ainda que a maioria dos analistas não acredite que Bolsonaro tenha hipóteses numa segunda volta, onde poderá defrontar Ciro Gomes (candidato do PDT) e mesmo Fernando Haddad (candidato do PT) a verdade é que, a confirmarem-se as projecções, o ex-militar irá à segunda-volta e só a congregação de votos democratas, poderá evitar a sua eleição. Resta saber se a direita conservadora, que andou a bater panelas contra Dilma, prefere o tresloucado capitão, ou se, num rebate de consciência, optará por um candidato com maior experiência política (Gomes), ou por um académico com provas dadas (Haddad), o qual, após o afastamento compulsivo de Lula, poderá dar um novo fôlego a um PT demasiado marcado pelo escândalo "Lava Jato".
Já na Europa, o centro das atenções esteve na Suécia, onde decorreram as eleições legislativas e no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde se votava a condenação da Hungria, por práticas anti-democráticas.
No primeiro caso, o resultado das eleições suecas (que resultou num empate técnico entre os principais facções no Parlamento, a de "esquerda" com 144 lugares e a de "direita", com 143 lugares), não permite uma solução maioritária (qualquer coligação necessita de, pelo menos, 175 lugares para governar) e não impediu o crescimento exponencial do partido de extrema-direita, racista e anti-imigração (KD) que tem agora 62 lugares, e que coloca os partidos de direita perante um dilema: ou apoiar o KD e deixar que os fascistas cheguem ao governo (como na Áustria); ou apoiar um governo democrático, criando um "cordão sanitário" (como na Holanda) para impedir que os fascistas governem. Na Suécia, o país com a maior percentagem de estrangeiros de toda a União Europeia, a questão da imigração tornou-se central em todos os debates, normalmente associada ao terrorismo, medos que a extrema-direita explora, a exemplo de movimentos nacionalistas congéneres.
Finalmente, a votação no Parlamento Europeu, pedida após um relatório da deputada holandesa Judith Sargentini (Verdes), exigindo a aplicação de sanções contra a Hungria, com base no Artigo 7º do Tratado de Lisboa e que se saldou por uma importante vitória das forças democráticas: com 448 votos a favor, 197 contra e 48 abstenções, o governo de Orbán, foi formalmente acusado de violação reiterada do estado de direito, o que de resto já tinha sido amplamente demonstrado por um relatório anterior, coordenado pelo (então) deputado português, Rui Tavares. Um "unicum" na história da UE. Segue-se um processo para aplicação das medidas penalizadoras, que terão de ser apoiadas por unanimidade, e que podem ir até ao impedimento da Hungria nas votações parlamentares e em "dossiers" tão importantes como o orçamento europeu, entre outras. Ainda que não seja de esperar uma condenação unânime por parte dos países membros (a Polónia, igualmente sujeita a uma penalização, deve votar contra), esta vitória, ainda para mais apoiada por parte da facção conservadora do Parlamento (PPE), da qual o partido de Orbán faz parte, é um passo importante na condenação de regimes autoritários dentro da UE. De registar ainda, pelo ridículo, o voto contra do Partido Comunista Português que, fiel aos seus princípios de "não-ingerência" na política interna dos países, criticou a União Europeia pela condenação da Hungria. Resta saber se, para os nostálgicos do PCP, a Hungria ainda fará parte do antigo bloco soviético. Há vícios que levam tempo a passar.
     
 

2018/07/11

A república brasileira é uma banana


Se dúvidas houvesse sobre a situação política e a justiça brasileira actuais, os acontecimentos do último fim-de-semana (relacionados com a prisão do ex-presidente Lula da Silva) bastariam para dissipá-las
O que se passou, afinal?
No passado domingo, o Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, aceitou um pedido de "habeas corpus" para a libertação de Lula, que está a cumprir uma pena de 12 anos e um mês por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. O "habeas corpus", fora apresentado na passada sexta-feira, por 3 deputados do Partido dos Trabalhadores (PT), com o argumento de que não existiria fundamento jurídico para a prisão de Lula. Surpreendentemente, o juiz desembargador Rogério Favreto, de turno no fim-de-semana, deferiu o pedido no domingo. A reacção não se fez esperar: o juíz Sérgio Moro, responsável pela investigação e acusação de Lula, no processo Lava Jato, recusou o cumprimento da ordem, argumentando que Favreto (na sua qualidade de juíz de turno) seria "incompetente" para deliberar, sem o acordo do relator (João Gebran Neto) do Tribunal Regional Federal (TRF). 
Seguiu-se uma nova ordem de libertação, por parte de Favreto, a exigir a libertação imediata de Lula. Foi nesta altura, que João Gebran Neto, na sua qualidade de relator do processo e instigado por Moro, decidiu suspender a ordem, subscrita pelo desembargador, pela segunda vez. O argumento utilizado, foi o de "evitar maior tumulto para a tramitação do "habeas corpus", dado que a decisão foi tomada durante um turno (plantão)" pelo que só ele a poderia confirmar ou recusar.
Ou seja, Lula esteve "livre", durante duas vezes e, no mesmo dia, "regressou" à prisão, sem desta ter saído. A "saga" parece, no entanto, não ter terminado e aguardam-se os próximos capítulos deste caso singular, sobre o qual o parecer dos especialistas está dividido: enquanto Sérgio Moro, defende a decisão, com base na condenação de Lula em 2ª instância (que, na sua interpretação, permite enviar um acusado para a prisão); outros especialistas, como o juíz Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal de Justiça (que ainda não se pronunciou sobre o caso), considera a prisão ilegal, com base no estado de direito internacional, segundo o qual um acusado é considerado inocente, até o processo transitar em julgado. Como na justiça portuguesa, por exemplo.
Independentemente das interpretações da lei, a verdade é que todo o processo está inquinado desde o início, pois há muito deixou de ser apenas um processo judicial, para tornar-se um processo político, no qual os juízes possuem a sua própria agenda. Mais do que provar quem cometeu crimes de corrupção, de que toda a "elite" brasileira é hoje acusada, os juízes (com Moro à cabeça) aspiram a tornar-se uma força determinante na cena brasileira, a exemplo do que sucedeu em Itália, onde - perante o caos e a desagregação da sociedade italiana - juízes "justiceiros", como Falcone, decidiram "limpar a sociedade de políticos corruptos, com ligações à Máfia". Sabemos o que aconteceu: os partidos políticos tradicionais perderam a pouca credibilidade que ainda tinham e, em sua substituição, surgiu o populista Berlusconi que, após três mandatos e inúmeros processos em tribunal, acabaria por ser condenado por...corrupção.
Mais importante do que isto, no entanto, parece ser a completa desorientação da maioria do povo brasileiro, dividido entre o apoio a um líder popular preso, que poucas hipóteses parece ter neste momento; e um governo impopular, destituído de qualquer moral, tantos são os implicados na corrupção generalizada que atravessa o país.
O que resta?
Muito pouco e mau: à direita, as principais forças políticas estão fragmentadas e não conseguem arranjar um candidato unificador que possa destronar Lula (31% da intenção de voto). À esquerda, é notória a incapacidade em arranjar outro candidato, que não Lula, no qual o PT e as restantes forças parecem apostar todas as fichas. Entretanto, na extrema-direita populista, o candidato preferido parece ser o fascista Jair Bolsonaro (17% na intenção de votos), que é hoje apoiado pela maioria das forças evangélicas, cuja mensagem o candidato passou a utilizar com vista a obter os votos que lhe dêem uma vitória na segunda volta. Como aconteceu com Trump, na América, de resto.
As eleições são já em Outubro e, a menos que surjam novos candidatos para além dos nomes tradicionais, não há ninguém, suficientemente consensual, que possa ganhar numa primeira volta. À excepção de Lula, que está preso. Ora, parece ser essa, precisamente, a questão. Com Lula em liberdade, as probabilidades do ex-presidente se candidatar e ganhar, seriam enormes. Esse é, de resto, o medo da "elite" e da classe média brasileira, que acantonadas nos seus privilégios de classe, querem, a todo o custo, impedir o regresso do PT ao poder.
Entre o medo e o desânimo, a maioria do povo brasileiro parece descrente numa solução que possa melhorar o seu futuro. Se nada de radical mudar, o país pode vir a tornar-se uma república inviável, igual a tantas outras da mesma latitude que, num passado não muito longínquo, determinado fruto ajudou a popularizar.
   

 

2018/03/20

Marielle, presente!

foto Esquerda.net
Realizaram-se, ontem, em todo o país, diversas vigílias em memória da deputada brasileira Marielle Franco, barbaramente assassinada, há uma semana, na cidade do Rio de Janeiro. Em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Aveiro, Santarém, Faro e Vila Real, as comunidades brasileiras, apoiadas por milhares de portugueses e representantes de partidos políticos com assento no Parlamento, sairam à rua para denunciar mais um crime (este político) cometido pelas forças para-militares, que controlam, hoje, a cidade do Rio.
O ocorrido com Marielle, infelizmente, não é um facto isolado. Em cada 100 pessoas assinadas no Brasil, 71 são negras. Em cada 100 mulheres assassinadas, 66 são negras. Tão pouco é incomum a violência contra lideranças de movimentos sociais: vide o assassinato de Paulo Sérgio Almeida Nascimento - líder da Associação de caboclos, indígenas e quilombolas da Amazónia - no Pará, há quatro dias.
O Brasil tornou-se um país tenebroso, onde o fascismo avança a passos largos. O terror é parte desta estratégia e visa a instauração de um estado de excepção, com vista a implementação de uma ditadura (militar) "desejada" e aceite pela população que vive, há muito, num clima de medo.
Começou com a farsa do "impeachment" de Dilma, (para impedir processos como o Lava-Jato, onde estão envolvidos muitos dos governantes do país, a começar pelo presidente Temer); seguiu-se a sua destituição, num processo que muitos apelidaram de golpe constitucional; prosseguiu com as acusações a Lula, (muitas das quais baseadas em delações, sem que algum facto tenha sido provado), tentando, dessa forma, impedi-lo de concorrer às próximas eleições, onde é indicado como favorito; e, finalmente, há um mês, concretizou-se com a ocupação militar do Rio de Janeiro, onde o exército passou a desempenhar as funções da polícia da cidade.
Temer, o grotesto vampiro, ensaia, deste modo, uma "fuga para a frente", tentando satisfazer uma burguesia branca e urbana, que há dois anos batia panelas pela demissão da presidente democraticamente eleita, reclamando medidas contra a "corrupção". Uns tristes, estes brasileiros da classe média, que não aprenderam nada com o Chile de Pinochet.
O assassínio de Marielle (um, entre milhares no último ano) é mais um passo nesta escalada do terror, com vista a incutir o medo na população e a evitar o aparecimento de líderes carismáticos que critiquem o sistema.
A canadiana Naomi Klein, num extraordinário livro (A Doutrina do Choque) explica bem como funciona esta estratégia, utilizada pelo capitalismo desregulado e predador, em situações de caos e calamidade: perante a perda da margem de lucro e na eminência da falência do "sistema" que sempre protegeu os seus ganhos e mordomias, cria (artificialmente) um clima de caos (a criminalidade, apoiada pelas milícias para-governamentais, faz parte deste cardápio) não hesitando em eliminar todos aqueles que denunciam o estado de violência consentido por um estado fraco. Desta forma, procuram assegurar a manutenção da "Ordem e Progresso", tão de agrado das classes dominantes, apenas interessadas num mercado a funcionar "normalmente".
No Brasil, morrem anualmente 60.000 pessoas por homicídio (um record mundial!) A maior parte, vítima de assaltos e do crime organizado (máfias de drogas, etc.). Os crimes políticos (24, no último ano), são de natureza diferente, pois visam atingir aqueles que denunciam esta situação e servir de exemplo para outros que ousem criticar o "sistema". Uma estratégia conhecida, utilizada em diversos países sul-americanos, nas décadas de setenta e oitenta (Operação Condor), quando quase todo o continente esteve sujeito a ditaduras militares de direita.
Aparentemente, alguns brasileiros nada aprenderam com a História e já esqueceram a ditadura militar sob a qual viveram entre 1964 e 1985. Não foi o caso de Marielle que, como muitos outros brasileiros, continuam a lutar por um país mais igualitário, onde a exclusão social, o racismo, o machismo e a homofobia, não tenham lugar.       

2016/10/19

Outono em Amsterdão

Sair de Lisboa e chegar a Amsterdão com 24 graus de temperatura positiva é coisa que, raramente, nos lembramos de ter experimentado. E, no entanto, foi isso que aconteceu há umas semanas atrás, aquando da nossa última visita àquela cidade holandesa, onde se fazia sentir um Outono, digno do melhor "indian summer". Doze dias de Verão meridional, a lembrar que o "aquecimento global" não é uma palavra vã. Mais uns anitos e teremos vinhas plantadas nas margens do Amstel...
Para quem se queixa da gentrificação em Lisboa, a capital holandesa oferece um bom exemplo do que nos está reservado. Não que o fenómeno seja novo (afinal, a cidade sempre foi uma das mais visitadas da Europa), mas a dimensão do "estrago" começa a ser de tal ordem que, passear e viver no centro daquela que foi uma das mais pacatas urbes europeias, é o mesmo que desembarcar numa grande Disneyland enxameada de turistas, lojas de conveniência e "fastfood" em todas as ruas. Algo que um famoso escritor holandês, do século passado, apelidou de "patat cultuur" (a cultura da "batata frita"), ao escrever sobre as transformações sofridas num dos bairros mais sofisticados da cidade. Dirão que não há nada a fazer e o turismo é predador. É verdade. O turismo de massas descaracteriza as cidades, principalmente quando os habitantes locais são literalmente "expulsos" das habitações - onde sempre viveram e pagavam rendas razoáveis - para darem lugar a novos moradores (com poder de compra) e a novos prédios, transformados em AirB&bs, uma tendência das grandes urbes na era dos voos "low-cost". Foi assim em Veneza, como em Barcelona ou Berlim, cuja municipalidade se viu obrigada a impôr restrições à proliferação de hóteis baratos, única forma de preservar prédios para habitação social. Amsterdão não é excepção (recebe 15 milhões de turistas ao ano!) e muitas das habitações sociais, quando vagam, deixam de pertencer ao sector de arrendamento e passam a ser vendidas no mercado livre. Manter uma casa no centro histórico é um privilégio, só ao alcance daqueles que lá moram há gerações ou novos proprietários endinheirados. Pelo meio, as lojas de conveniência, restaurantes "fastfood" e "hostels", continuam a proliferar. 
Porque a cidade é relativamente pequena (700.000 habitantes) fácil é percorrê-la nos eléctricos e autocarros, que nos levam a qualquer bairro periférico. Foi o que fizemos, logo na primeira noite. Alertados pela programação do Teatro Munganga, uma companhia brasileira local a comemorar o seu 20º aniversário, lá fomos ouvir o grande Rogério (Bicudo de seu apelido), um tocador de violão de 5 quilates, velho amigo das músicas e não só. O concerto, intitulado "As Américas", foi uma excelente forma de conhecer e rever autores tão díspares como John Coltrane, Wayne Shorter (USA), Eric Calmes (Curaçao), Leo Brouwer (Cuba), Agustin Barrios (Paraguay), Villa-Lobos, Garoto, Nelso Cavaquinho ou Baden Powell (Brasil). Uma "performance" inesquecível, de um virtuoso guitarrista que, às vezes, passa por Lisboa. No final, tempo para uma "caipirinha" e troca de impressões sobre a actual situação brasileira, que a comunidade "brasuca" vê com apreensão. Há por aqui mais apoiantes do "Fora Temer", do que eu suspeitava. A estadia não podia ter começado melhor...    

foto Editie NL / Agnes de Goede

 

2016/03/16

Quem condena quem?

A corrupção, que é endémica na sociedade brasileira (o país ocupa a 78ª posição no índice "transparency" da ONU), sempre existiu antes e durante o consulado do PT.
Lula, ao aceitar a nomeação para um cargo de super-ministro (mesmo que inocente das acusações que lhe são feitas), só fará aumentar as suspeitas existentes e não se libertará do cerco.
E isto é mau para a democracia.
O Brasil, como os restantes "BRICs", depois de uma década de crescimento económico sem paralelo na história, entrou numa crise profunda: social, económica, na inflação, no desemprego e, como sempre, na corrupção, que é hoje transversal a toda a sociedade.
Se Dilma for afastada por "impeachment", quem a vai substituir? O vice-presidente acusado, ele também, de corrupção? O presidente da Assembleia, o "maior" corrupto? E quem a vai julgar? Tribunais e juízes, provavelmente tão corruptos como os demais? Ou a polícia, conivente com o crime organizado, como é do conhecimento público?
Quem tem moral para condenar quem?
Este é, provavelmente, o maior dilema da sociedade brasileira, que deixou de acreditar em soluções democráticas. Ora, quando se deixa de acreditar nas instituições, abre-se caminho para outras "pulsações".
Estamos a assistir a uma situação, onde tudo se conjuga para a chamada "tempestade perfeita". Em tempo de crise moral e social, os apelos a soluções autoritárias, aumentam. É da história e já assistimos a este filme no passado.
Também eu quero acreditar, que o tempo dos "generais" já passou, mas o "populismo" (outra das características da América Latina) está ainda bem presente (ver países vizinhos onde a "democracia musculada" vai fazendo o seu caminho...)
As reacções da apelidada "classe média branca", vistas da Europa, parecem típicas de um grupo social descaracterizado e sem grande consciência social. Com medo do presente e sem alternativa política. Não se manifestavam há dois anos atrás, mas, agora, parecem ter todos "descoberto" a corrupção (!?). Uma fuga em frente?
Provavelmente, não sofrem tanto com a corrupção, como fazem crer (também eles beneficiam dos privilégios advindos das desigualdades, do racismo e da estratificação social existente naquele país).
Não tenho certezas. Temo o pior, mas quero acreditar que a democracia acabará por vencer.
Com eleições democráticas, claro. 

2011/06/15

A Chapelada

José Lello, personagem por quem não nutro qualquer simpatia, pronunciou-se negativamente sobre a validação dos votos dos emigrantes recolhidos por um jornal do Rio de Janeiro. Os votos foram colectados por um jornal que fazia propaganda aberta pela candidatura do PSD e, posteriormente, enviados num contentor para Portugal a expensas do jornal em causa.
Na opinião do deputado do PS pela emigração, o Presidente da República devia impugnar a validação destes votos. Não posso estar mais de acordo. Para chapeladas já bastam as do antigo regime. Se estes votos forem validados, o descrédito de Cavaco só aumentará. Ele, que no dia das eleições, veio pronunciar-se sobre os eleitores fantasmas das listas eleitorais. Haja vergonha!

2010/06/27

Swiss-brazuca


Este desporto da febril troca de videos do Youtube que grassa por aí traz-nos, por vezes, surpresas. É raro, mas acontece. Um amigo chamou-me há tempo a atenção para o video anexo (Top Secret Drum Corps, de Basileia - Suiça), adicionando o comentário: "parecem brazucas disfarçados"...
É preciso ver o video para compreender a expressão, que é, de facto, totalmente apropriada.
Para honrar o comentário criei o singelo poema que aqui vos deixo. Dedico-o ao querido amigo que me deu isto a conhecer e, em pleno espírito do Mundial 2010, a todos os sopradores da vuvuzela por esse mundo fora... Que o som dela vos traga os piores pesadelos!
Assim se dá oficialmente início à silly season aqui no Face.


Swiss-brazuca

Misto de precisão tresloucada!
Relógio que tiqui-tiqui-táka!
Tikitikitikiti!
Tá-tá-boom-boom!
Acarajé de chocolate!
Edelweiss do Pantanal!!
É Wilhelm? No telling...
É Guilherme? More likely!
Eh suiço ruim!
Nestlé-té-té-ré-ré!
Eh brazukas dos alpes!
Pauliteiros de pulso e de bolso.
Cangaceiros da confederação helvética do Piáui!!
Yodelériti-ti-ti-ti-taka-dadabum-bum!
A conta é secreta?
Que grande forró.
Cuíca não é cantão!
Tem mania d'arrumação?
Samba tem precisão?
Não, é anal na retenção.
E é neutral de coração...
Saravah, meu'irrrrrmão!!