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2025/06/20

Fascismo 3D

Sem surpresa, foram desmanteladas duas milícias neonazis nos últimos dias, que integravam agentes das forças de segurança nas suas hostes. 

A Comunicação Social refere uma obscura organização que dá pelo nome de Movimento Armilar Lusitano (MAL) que incluía 4 agentes, entre duas dezenas de pessoas sinalizadas pela polícia. "O MAL é descrito como sendo uma milícia armada, com suspeitas de actividades terroristas, discriminação e incitamento ao ódio e à violência. Na operação da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo (UNCT) foram apreendidos explosivos, armas brancas e armas de fogo, Foram ainda encontradas armas desenhadas em impressoras 3D com capacidade para disparar, algo inédito em Portugal" (in "Público" d.d. 19 de Junho). Dos planos apreendidos, constava um assalto ao parlamento, ao palácio presidencial e ataques a diversas personalidades políticas.   

O que é que isto nos diz? Provavelmente, que a ideologia e métodos fascistas, não sendo de hoje, existem há muito na sociedade, aguardando uma oportunidade para actuar. A chegada de um partido fascista ao parlamento em 2019, deu-lhes a confiança necessária para se mostrarem e exibirem a violência e o ódio que sempre os caracterizam. A violência é a principal característica do fascismo.  

Só que, estas coisas não surgem do vácuo (como diria o outro) tendo causas mais profundas. Uma delas é a herança da ditadura, longa de 50 anos, para além da ignorância que continua a influenciar grandes estratos da população. De acordo com dados recentes, a iliteracia funcional entre os portugueses é de 42% (in "Observador" d.d.18/12/24). Ou seja, cerca de metade da população, não entende o que lê. Este dado vale o que vale, mas não deve ser menosprezado. 

Como explicar o nível de abstenção crescente (um dos mais altos da Europa) nas eleições em Portugal? Ou a pouca participação cívica dos portugueses em assuntos nacionais e internacionais? Não há cidadania, e este é um problema cultural que influencia todo o resto. 

Durante muito tempo, as forças democráticas, que emergiram após o 25 de Abril, dominaram a arena política e pensou-se que bastava votar de quatro em quatro anos e descer anualmente a Avenida da Liberdade, para garantir a Democracia. Os fundos europeus de coesão alimentaram essa ideia e as gerações, que fizeram o "25 de Abril", reformaram-se, passando a "participar" na política através da televisão. O "sofá" substituiu a democracia participativa. A posterior liberalização de costumes e a cultura do consumismo, criou a ideia, numa certa classe média, de que já éramos europeus, porque já podíamos comprar tudo como na Europa. Ter ou não ter "roupa de marca", substituiu a "luta de classes". Naomi Klein, socióloga e activista canadiana, escreveu um livro seminal sobre esta questão (No Logo). 

Só que...os tempos e os contextos mudam. A crise do "crédito fácil" (subprime) em 2008, foi o primeiro sinal de alarme a afectar todo Mundo Ocidental. Seguiu-se a crise das "dívidas soberanas", das quais Portugal é um caso paradigmático (com a intervenção da Troika em 2011) e, mais tarde, a crise  pandémica, terminada em 2021. Ainda mal refeitos do vírus, e quando tudo parecia acalmado, começou uma guerra que criou mais inflação, o que hoje afecta toda a população. Se é assim em países mais desenvolvidos, porque seria diferente em Portugal, um dos elos fracos desta corrente? 

É neste contexto, que os portugueses mais desfavorecidos, com ou sem razão, procuram uma alternativa ao pântano actual. Esta é, certamente, uma das explicações para os votos no partido populista, cuja única actividade conhecida é a denúncia de um "sistema" que corrói a República. 

Só que, esta constatação, não explica tudo. Concorreram às últimas eleições cerca de 20 partidos. Porque é que podendo votar num partido fora do "arco da governação", 1,5 milhões de portugueses optaram pelo pior deles todos? Hoje, 40% dos jovens, entre 18 e 34 anos, dizem apoiar o "Chega". Alguma coisa está mal na sociedade e não são apenas as questões sócio-económicas que as explicam. 

Não partilho da opinião que são todos "coitadinhos" e devemos tentar entender as razões deste voto de protesto, contra o "sistema". Mas, qual sistema, se a "seita", que dá pelo nome de Chega, outra coisa não deseja do que pertencer ao sistema que tanto criticam? Penso que existe um certo "paternalismo" de esquerda nesta observação: procura-se justificar a ignorância, argumentando com uma entidade (o povo) que terá sempre razão (!?). Não é verdade. Quando os nazis cometeram os crimes que conhecemos, a maioria da população alemã apoiou-os. Mais tarde, quando interrogados, diziam que não sabiam...

É por isso que o aparecimento de milícias neonazis, apoiantes da ideologia do partido fascista no parlamento, não deve constituir uma surpresa. Constitui um aviso para o que aí vem. Não aprender com a História, pode revelar-se fatal. Quem adormece em democracia, pode acordar em ditadura.  

2017/11/05

Dias Maus


De acordo com o advogado de defesa de um dos "seguranças" da discoteca "Urban Beach" (o nome é todo um programa), o seu cliente teve um "dia mau", o que explicará os pontapés que deu na cabeça do jovem atingido por três defensores da "ordem e tranquilidade" na praia urbana. De resto, e ainda segundo o mesmo advogado, trata-se de equimoses "sem grande importância": um olho negro, um lábio rachado, um dente partido, uma perna esfacelada, dores no corpo, três semanas de recuperação médica, tudo coisas fáceis de "sarar", como se depreende... 
O que é isto, comparado com as agressões sofridas por dois jovens em Coimbra, barbaramente espancados perante testemunhas e provas irrefutáveis, gravadas em vídeo, como aliás já tinham sido testemunhadas e gravadas as agressões da mais famosa "praia portuguesa"?  Certamente, um "dia mau" dos agressores, que continuam a monte, apesar da gravidade do acto (passível de uma pena por tentativa de homicídio até 25 anos) como foi sublinhado por todos especialistas ouvidos neste caso.
O mesmo, ainda que com outros contornos, se passou com aquela mulher que teve o azar de ser raptada pelo seu ex-companheiro e ser igualmente espancada pelo ex-marido, num caso de extrema violência doméstica, que um acordão anedótico equiparou a "punição bíblica".
Dias maus.
Imaginemos que todos nós - que temos maus dias - saíamos à rua e desatávamos aos pontapés nos primeiros cidadãos que encontramos para, dessa forma, libertarmos a frustração pelos dias menos bons, que a nossa pacata vida encerra?
Nem quero imaginar.
Pior do que tudo isto, em si já extremamente preocupante, é saber que estamos dependentes de agentes da justiça (advogados, magistrados, polícias...) que continuam a interpretar a lei e a sua aplicação de forma a garantir o máximo de protecção para os (confessados) agressores e o mínimo de garantias para o comum dos cidadãos.
Não por acaso, a violência gratuita (doméstica e no espaço público) tem vindo a aumentar na sociedade portuguesa, como se depreende dos inúmeros relatórios e provas (filmes) com que somos confrontados diariamente nas redes sociais. Certamente, uma consequência da proliferação dos "smartphones", que permitem em tempo real divulgar muita da violência que campeia nas escolas e não só.
O que todos estes casos parecem revelar, é a existência de um caldo cultural que, a banalizar-se, pode tornar-se um "modo de vida" (a banalidade do mal), cujas consequências são de todo imprevisíveis. Uma coisa é certa: onde falham as instituições (o estado) cresce a criminalidade. É dos livros.
Não faz sentido que um estabelecimento comercial (neste caso uma discoteca) tenha sido alvo de 38 queixas no último ano, por violência privada, a cargo de uma qualquer empresa de segurança (!?) que se comporta como um "estado dentro do estado", sem que nada tivesse acontecido.
Trinta e oito dias, são dias maus demais.  

2010/05/12

Os portugueses, esse povo manso...

Teixeira dos Santos, antecipando as medidas que o governo se prepara para anunciar, disse hoje esperar contestação social, mas não violência, que os portugueses não são como os gregos...