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2025/07/02

Da "transparência"...

Lemos e ouvimos, nos orgãos de comunicação social, que o primeiro-ministro se opõe à publicação de dados relativos à sua empresa "Spinumviva", conforme foi solicitado pela Entidade da Transparência. Luís Montenegro apelou para o Tribunal de Justiça e, agora, aguarda-se uma decisão do tribunal.  

Interrogado pelo Comunicação Social, sobre o princípio da "transparência", que deve ser apanágio de qualquer governante, Marcelo Rebelo de Sousa declarou não conhecer o processo, pelo que reservava a sua opinião para mais tarde... 

Começou o "jogo de sombras",  ilustrativo das teias existentes entre a política, os governantes, a justiça e seus cúmplices em Portugal.  

O problema é que a "opacidade" do regime não se circunscreve aos partidos políticos (os do "centrão" e os outros). A "opacidade" ou "falta de transparência", é uma herança cultural que atravessa toda a sociedade portuguesa. 

Vem do fascismo e, muito provavelmente, lá mais de trás (Inquisição?). 

Toda a gente faz um favor a toda a gente (chama-se "compadrio"). É esta reciprocidade, que torna o sistema "opaco". Todos os seus actores, têm "rabos de palha".  Por isso, não são "transparentes". O "clientelismo" é larvar na sociedade portuguesa e tornou-se um "modo de vida". Este é o drama.

Também por isso, mas não só, o populismo cresce. A população deixou de acreditar na classe política governante e essa é uma das fontes da actual insatisfação. Não é apanágio de Portugal, de resto, Basta olhar para a Espanha, onde os casos de corrupção atingiram o partido do poder (PSOE), se bem que o problema de Espanha aos espanhóis diga respeito. 

Neste contexto, não nos devemos admirar do surgimento de movimentos mais ou menos inorgânicos, que capitalizam a insatisfação das camadas mais ignorantes da população. Basta que apareça um demagogo a clamar por mais "justiça" (no caso concreto, o partido do tele-evangelista) para que os fiéis apareçam. Afinal, muitos deles, já frequentavam as igrejas evangélicas...

Não perceber estas coisas simples, num país onde a iliteracia funcional e a falta de cidadania são gritantes, pode ser fatal. Daí que os Montenegros da história, possam continuar impunes, enquanto aguardam julgamento...

 

2016/03/04

É a ética, estúpida!

Assisto a uma das muitas "opiniões públicas", em que a televisão portuguesa é pródiga, desta vez sobre a polémica relativa ao novo "job" da ex-ministra Maria Luís Albuquerque.
Como é habitual nestas "terapias de grupo", há opiniões para todos os gostos: os comentadores "encartados", que juram a pés juntos não saberem nada de leis, mas afirmam peremptoriamente não haver incompatibilidade com a função de deputada; os indignados do costume, que criticam toda esta promiscuidade a que vamos assistindo regularmente; e os conformados do costume, que dizem serem todos os políticos iguais, leia-se corruptos.
Assistimos, de facto, à degradação crescente de uma sociedade onde, apesar, de todos os progressos materiais, continuamos a ser confrontados com a mais despudorada falta de "sentido de estado" (o sempre citado "civil servant") categoria há muito arredada da política portuguesa recente.
Os portugueses em geral, mantêm-se enredados em "rodriguinhos" e assuntos de "lã caprina", sem qualquer relevância para a vida dos cidadãos (futebóis, dramas passionais de famosos, telenovelas, lixo televisivo, prisões de empresários futebolísticos...), enquanto os assuntos, verdadeiramente importantes para o nosso bem-estar quotidiano, continuam por resolver, sem que a "polis" se revolte indignada.
Nunca, como nos dias que correm, o conformismo, o laxismo e a promiscuidade, parecem ter descido tão baixo. O que devia ser fácil (criar uma lei de incompatibilidades entre funções de estado e interesses privados) é tido como uma dificuldade intransponível, com o argumento de que a "exclusividade" de cargos políticos, impediria, no futuro, de contratar os melhores para a função. Mas, se assim é, quem obriga os "civil servant" a fazer serviço público? Ninguém, como é óbvio. Todos lá estão (ou deviam estar) com essa missão: a de servir o povo, que os elegeu para o representar por um período determinado. Uma vez eleitos, só lhes resta cumprir (o melhor que souberem) a função de governantes ou deputados, como é o caso em notícia. Uma vez, este período cumprido, podem sempre optar pelo emprego que melhor sirva os seus interesses. Ninguém os impede.
Logo, uma deputada - que há 3 meses atrás ainda era ministra das finanças e nessa função negociou parte da dívida portuguesa com a empresa especuladora Arrows - não deveria, em tese, poder conciliar o seu cargo de deputada, com o de administradora dessa mesma empresa.
A própria lei de incompatibilidades o afirma, ao explicitar que (aos ex-governantes) se exige um período mínimo de 6 anos de nojo, antes de aceitar uma cargo de chefia numa administração de uma empresa com a qual teve relações institucionais. Claro como a água.
Não se percebe, por isso, as reacções das "virgens ofendidas" do costume, ouvidas a toda a hora e vindas de quem mais proveito tira deste regime de promiscuidade, que só pode interessar a quem não quer perder privilégios inerentes a quem governou o país.
É a ética, estúpida!

2011/06/26

Uma oposição sem ética

António José Seguro, candidato à presidência do PS, veio esta semana declarar que defende um capitalismo com ética. Ou seja, o candidato à presidência do partido (que se diz socialista) quer o capitalismo. Com ética. Ficamos sem perceber quem é que, nesta história, não tem ética: o socialismo ou o José Seguro.

2010/12/07

A mulher de César

Júlio César proferiu a célebre frase "à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta." A diplomacia (e não só!) tem vivido sempre à sombra deste princípio. É a área da actividade humana onde os vestígios da barbárie mais se manifestam e é uma área onde a democracia nunca entrou. Com mais ou menos punhos de renda, em ambientes mais ou menos perfumados, mais à direita ou mais à esquerda, a diplomacia é um antro de cínicos, amorais. E são todos assim, como lembrava alguém ontem, muito candidamente, num programa da CNN sobre o tema do Wikileaks: do Vaticano à China, dos EUA à Venezuela.
Muitos dos que criticam a revelação dos "telegramas" americanos referem, como que a querer encerrar o argumento, que a única "vítima" destas revelações é a diplomacia norte-americana. Não foram revelados segredos dos Chineses ou dos Norte-Coreanos. Se assim fosse ainda vá lá...
É divertidíssimo ouvir estes defensores da institucionalização do cinismo e da mentira como ferramenta política. Até um surpreendentemente reaccionário e míope Miguel Sousa Tavares enveredou por esta via, ao criticar um artigo certeiro do Rui Tavares de ontem no Público sobre esta matéria.
Ora, a verdade é que o que está em causa neste caso não é, sobretudo, a bondade dos meios usados pelas diplomacias dos vários países, mas sim a sua utilização por quem prega moral a toda a hora e se arma em campeão da defesa da virtude mundial. Os EUA são as principais vítimas de todas estas revelações (veremos se assim é...)? Pois é bem feita, porque deveriam ser um exemplo. E, ao contrário do que disse o tirano Romano, à mulher de César não deve bastar parecer ser honesta. É preciso ser mesmo honesta! É este o problema. À "comunidade internacional" também não basta parecer honesta, é necessário que seja honesta. Só isso torna a "comunidade internacional" uma entidade legítima.
O que as revelações do Wikileaks parecem vir demonstrar —independentemente da própria bondade dos seus intentos...— é que os EUA parecem honestos, mas não são. Não estão sozinhos, claro, mas como querem muito parecer o que não são, ficaram com a careca também muito mais à mostra. O grito que se ouve nestas revelações é pela transparência e pela honestidade num sector que tresanda a opacidade e trafulhice. Não seria o facto de revelar telegramas da Coreia do Norte ou do Irão que tornaria as revelações da Wikileaks mais ou menos legítima. Estes países não são exemplos de virtude.
A conclusão é simples: a democracia, a transparência e a ética têm de chegar à diplomacia e às relações entre estados. Tem de chegar ao fim o tempo da diplomacia feita de sociedades secretas, em autogestão e em formato tablóide.

2009/11/25

Cinco dias noutra cidade

É sempre bom sair de Portugal. Ao contrário do meu companheiro de blogue que vê "potencialidades" portuguesas no futebol, a minha experiência do estrangeiro só confirma o atraso contínuo do nosso pais em relação às nações mais desenvolvidas da Europa. Esta é uma tendência de décadas e pode ser observada por simples observação empírica da realidade. As estatísticas, de que fala o Carlos Augusto, sublinham uma triste evidência: a de um país - o nosso - que no seu quotidiano dá cada vez mais sinais de pobreza em contraste com os sinais exteriores de riqueza de uns quantos. Basta um simples passeio pelo centro histórico de Amsterdão - cidade onde vivi 30 anos e que continuo a visitar regularmente - para nos apercebermos disso. Das pessoas às casas, do trato pessoal à eficiência dos serviços, tudo funciona melhor, num país com a superfície do Alentejo e uma das maiores densidades populacionais do Mundo. Sim, também lá há pobreza (relativa), corrupção (noticiada) e racismo (nem sempre disfarçado). Mas, a qualidade do quotidiano para os seus cidadãos é, sem dúvida, superior e o "stress" (eventualmente maior numa sociedade competitiva e inovadora como a holandesa) é compensado pela eficácia e pragmatismo de um estado que há muito compreendeu que do bem-estar da população depende um maior desenvolvimento do país. Dir-me-ão: é um país mais rico e por isso é mais fácil distribuir a riqueza. Certamente. Mas, à excepção do gás no mar do Norte, não se lhe conhece outras matérias-primas de relevo. O resto, a agricultura, a industria, o comércio e as novas tecnologias, são tudo produto do mesmo: mais educação e formação cívica numa sociedade onde a ética não é uma palavra vã. Também, por essa razão, há menos corrupção e a riqueza é mais bem distribuida. Parece simples, mas não é. Enquanto os portugueses - dos governantes aos governados - não conseguirem interiorizar os princípios básicos que devem reger uma sociedade mais justa e igualitária, a "face oculta" do nosso triste quotidiano não vai melhorar. Nem daqui a uma geração...

2009/07/14

Transparência

António Costa anunciou ontem, formalmente, a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. Muito bem, está no seu direito. Como António Costa é, simultaneamente, comentador político no programa televisivo "A Quadratura do Círculo", aguarda-se uma explicação sobre esta duplicidade de funções, pois não é expectável que faça propaganda eleitoral num programa onde é suposto comentar a actualidade nacional. A bem da transparência.