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2020/05/11

Oito semanas noutra cidade: Começou a Fase 1...


Em Espanha, 51% da população entrou, esta semana, na Fase 1 do desconfinamento.
São 11, as actividades permitidas nesta fase, a saber:
Reuniões sociais até 10 pessoas; abertura de pequenos comércios; abertura de esplanadas (50% do espaço); abertura de hotéis e estabelecimentos turísticos; abertura de lugares de culto (30% de participantes); sectores agro-alimentares e pesqueiros; treinos de equipas profissionais; mercados ao ar livre; espectáculos culturais em sala (até 30 pessoas); espectáculos culturais ao ar livre (até 200 pessoas); visitas a museus (30% de visitantes); velórios (em círculo restrito).
De todas as medidas, a mais importante foi a abertura dos pequenos comércios. A razão é simples: abriram os barbeiros.  Pela primeira vez, em 3 meses, pude voltar a cortar o cabelo e a barba. Um luxo, com direito a reserva feita de véspera, e o primeiro cliente a ser atendido ainda não eram 9h da manhã!... Com um sorriso nos olhos, que a sua dupla protecção (máscara e viseira) denunciavam, o verdadeiro Barbeiro de Sevilha "despachou-me" em menos de meia-hora. Cá fora, enquanto aguardavam pela sua vez, dois clientes, de máscara posta, discutiam os inconvenientes do confinamento.
De facto, não tem sido fácil a vida nas últimas semanas, pesem as declarações dos principais responsáveis pela gestão da crise (governo e autoridades sanitárias) nesta luta contra o tempo em que todas as variáveis importantes (saúde, economia, apoios sociais) são avaliadas diariamente. Só no passado fim-de-semana foi possível desbloquear a resistência de dois partidos da oposição (Ciudadanos e PNV) às medidas anunciadas pelo governo para as diferentes regiões espanholas. Devido ao elevado perigo de contágio, ficaram de fora da fase 1 as regiões de Madrid, Cataluña, Valencia e Castilla y León. Em Andaluzia, uma das regiões com mais baixo índice de infectados, só Granada e Málaga, não passaram à fase 1. Todas as restantes regiões de Espanha (correspondendo a mais de 50% da população total) passou o primeiro teste. À medida que o número de infectados e de mortes decrescer, passar-se-á às fases seguintes, com a duração média de 15 dias por fase. De acordo com os últimos dados, a Espanha registava, este fim-de-semana, um total de 268.143 infectados, um total de 26.774 mortos e 123 novos casos registados, o mais baixo número desde o início da epidemia. Já em número de mortes por milhão de habitantes, o país regista 572 casos, uma das mais altas percentagens a nível mundial.
Porque as comparações são inevitáveis, o jornal "El País" dedicou uma página inteira, da sua edição de domingo, ao nosso país, sob o título: "Portugal: misma península, cinco veces menos muertes". No extenso artigo, da autoria de P. Linde e J. Martín de Barrio (correspondente em Lisboa), os articulistas perguntam-se: "?Cual es el secreto? ?Cuales son las diferencias entre dos países de cultura similar que comparten una misma península? Los expertos de uno y otro lado de la frontera señalan varios factores, como el menor trânsito de viajeros (especialmente con Italia), pero, sobre todo, coinciden en que los lusos actuaron antes. Tuvieron tiempo de ver lo que pasaba en otros países y, con un centenar de positivos y sin fallecimientos, declararon el estado de alarma, algo que en España se decidió com 4.209 positivos e 120 decesos. Para la epidemióloga Rita Sá Machado, "lo fundamental ha sido la anticipación y aplicación precoz de las medidas de salud pública, como el cierre de las escuelas". El Govierno lo ordenó el jueves 12 de Marzo (78 contagios en el país) y se aplicó el lunes 16 (331 contagios y la primera muerte). Una semana depués comenzaba el estado de emergencia (1.200 contagios e 12 muertes). "También fueron muy importantes la variedad de medidas aplicadas entonces, pues permitieron controlar la expansión de la epidemia".
O artigo contém ainda opiniões de Alberto Infante (especialista em saúde pública) e de António Pires de Lima (ex-ministro de economia de Passos Coelho). Ambos coincidem na leitura feita pela epidemióloga, elogiando a pronta reacção do governo, ainda que este (relativo) sucesso, seja temperado pelas avisadas precauções de Graça de Freitas, directora-geral da saúde, ao alertar para os perigos de uma recidiva, agora que a população portuguesa parece estar mais descontraída.
Entre as muitas vítimas do Coronavírus, a imprensa espanhola noticiou também a de Billy El Niño, do seu verdadeiro nome Antonio Gonzalez Pacheco, famigerado torturador da polícia franquista, que tinha dado entrada numa clínica de Madrid esta semana. Ainda que tenha passado apenas onze anos na Polícia Nacional (1971-1982) era um dos homens mais temidos nos calabouços da Direcção Geral de Segurança, situada nas Portas del Sol, em Madrid. Existem centenas de testemunhos de vítimas, que descrevem as torturas a que foram submetidos por El Niño. Ums das mais conhecidas é a de José Maria "Chato" Galante, que denunciou o polícia franquista à justiça argentina, num processo conduzido pela juíza Maria Servini, que serviu de fio condutor ao documentário "El Silencio de Otros", sobre as vítimas da ditadura franquista. Galante morreria no passado dia 28 de Março, também ele vítima do Coronavírus. No entanto, legalmente, Gonzaléz Pacheco estava blindado, uma vez que o processo instaurado pelo tribunal argentino, que pediu a sua extradição para ser julgado por crimes contra a humanidade, foi considerado prescrito em 2014.
Pesem as tentativas canhestras de apagar a memória da ditadura, alguns passos positivos vão sendo dados na boa direcção. Um dos mais importantes, pelo seu simbolismo, foi o do Conselho Andaluz de Cultura, ao declarar "Bem de Interesse Cultural" (BIC) o legado de Federico Garcia Lorca, depositado no centro, que leva o seu nome, em Granada. O legado do escritor, que chegou ao Centro Federico Garcia Lorca, enviado da Residência de Estudantes de Madrid, em Junho de 2018, integra 5000 objectos que incluem praticamente todos os manuscritos das suas obras teatrais, poética e em prosa. A partir de agora, o legado de Lorca em Granada, que pertence a uma fundação ligada à família do escritor, mas que pode ser consultado no Centro García Lorca, tem garantidas a "unidade e a sua conservação em optimas condições", segundo o Conselho de Cultura. Para Laura Garcia Lorca, sobrinha do poeta, esta protecção do legado "tem todo o sentido e é uma satisfação para a fundação, para a família e tem que sê-lo para Andaluzia".
Algo é algo, como dizia o poeta...

2020/04/19

Duas semanas noutra cidade (10): Modelos, Medos e Medidas Avulsas

photo NYTimes
A disseminação do coronavírus, agora de forma constante em todo o hemisfério Norte, obrigou a maior parte dos governos a tomarem medidas de acordo que, para além de sanitárias, reflectem o cariz de cada regime.
Depois do alarme ter soado na China (23 de Janeiro, n.r.), seguiu-se uma rápida reacção dos países limítrofes (Coreia do Sul, Taiwan, Japão...) que, alertados para o perigo de contaminação grave, rapidamente puseram em prática modelos sanitários, de detecção e prevenção, eficazes. Decisivo neste combate, foi o sistema de vigilância digital dos cidadãos que permitiu, em tempo real,  identificar quem estava infectado e avisar potenciais contaminados. Não é só na China, (portanto um estado totalitário) que os cidadãos são controlados no seu quotidiano. Também em sociedades asiáticas mais democráticas, o controlo digital é praticado, de forma semelhante, há muitos anos.
Em Taiwan, o estado envia simultaneamente a todos os cidadãos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contactos com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios onde houve pessoas contagiadas. Ainda numa fase inicial, Taiwan utilizou uma ligação dos diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que tinham realizado.
Na Coreia do Sul, quem se aproxima de um edifício onde tenha estado um infectado, recebe um sinal de alarme através de um "app", especial criado para o Coronavírus. Todos os lugares, onde havia infectados, estão registrados nesta aplicação. Não se tem muito em conta a protecção de dados nem a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmaras de vigilância em cada andar, em cada escritório, em cada loja. É praticamente impossível a movimentação em espaços públicos sem ser filmado por uma câmara de vídeo. Com os dados do telefone móvel e do material filmado por vídeo, pode criar-se o perfil de movimento completo de um infectado. Os movimentos de um infectado, são todos publicados. Nos escritórios do ministério coreano da saúde, existem pessoas, chamadas "trackers" que, dia e noite, não fazem outra coisa do que visionar o material filmado por vídeo para completarem o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tenham tido contacto com estas.
Outra diferença fundamental, entre a Ásia e a Europa, são, sobretudo, as mascarilhas protectoras. Na Coreia do Sul, não há praticamente pessoas, que saiam à rua, sem mascarilhas respiratórias especiais, capazes de filtrar o ar do vírus. Não são as habituais mascarilhas quirocirúrgicas, mas mascarilhas protectoras especiais, com filtros, também usadas pelos médicos que tratam os infectados. Nas primeiras semanas, após o alarme, o tema prioritário na Coreia foi a distribuição massiva de máscaras à população. Perante as longas filas de espera nas farmácias, os governantes tomaram medidas radicais: foram construídas, à pressa, novas máquinas para fabricá-las. Aparentemente, com sucesso. Existe, inclusive, um "app", que indica quais as farmácias mais próximas que dispõem de máscaras.
Assim que souberam do vírus na China, as 4 fábricas farmacêuticas existentes, receberam dinheiro e autorização do governo, para fabricarem "kits" de teste. No pico da crise, chegaram a ser testados 20.000 cidadãos por dia. Para analisar os testes, foram criados 56 laboratórios especiais. As pessoas eram testadas nos hospitais ou em clínicas de proximidade, em casa e dentro dos próprios carros. Os infectados foram isolados em casa e o resto da população pode prosseguir a sua vida. Mais importante ainda, os sul-coreanos não esperaram por ajudas exteriores e fabricaram todo o material de que necessitavam em fábricas nacionais. O único país que fez mais testes do que a Coreia do Sul, foi a Alemanha (60.000/diários), graças a um bom sistema sanitário de prevenção e à capacidade industrial de que o país dispõe.
Na maioria dos países europeus e após um período de subvalorização da crise, o número de infectados e mortes disparou, tendo atingido números impensáveis há dois ou três meses, ainda que, comparativamente, o número de falecidos devido às gripes anuais, seja maior.
Dois meses após terem sido detectados os primeiros casos na Europa (Itália), o número de mortes por coronavírus continua a crescer nos países mais industrializados, sem que se veja um fim à vista: Itália (23.227), Espanha (20.453), França (19.323), UK (15.464), Bélgica (5.683), Holanda (3.684)...
Por outro lado, as medidas de contenção tomadas em cada país, divergem na sua aplicação e nos instrumentos postos à disposição pelos respectivos governos e serviços sanitários.
Uma das falhas, parece residir na capacidade de responder em tempo (material e logisticamente) a uma epidemia nova e com estas dimensões. Um dilema que atravessa a maioria dos países europeus, como bem exemplificou Erdad Balci, no semanário holandês HP/DeTijd do passado dia 23 de Março: "A Holanda, com a sua economia do conhecimento e o seu sector de serviços, viu-se reduzida a um país em vias de desenvolvimento, que tem de pedir materiais simples para que os seus súbditos não morram. É tempo de acordar". Utilizando a metáfora do "cavalo de competição que ganha sempre e que, por isso, continua a correr depois de perder...", o articulista prossegue: "na passada quarta-feira, chegou uma avião de mercadorias a Schipol, com um carregamento de 80.000 máscaras sanitárias vindas da China. Os chineses ofereceram as máscaras, porque tinhamos necessidade. Grande alegria à chegada das paletes, com direito a fotografia da tripulação chinesa e aplausos dos presentes. O carregamento gratuito é o espelho em que nos devemos mirar. Para obter uma coisa tão simples como máscaras orais, a Holanda teve de pedir a uma potência estrangeira que, na primeira oportunidade, também acaba com a nossa "open society" (em inglês, no texto). A chegada das máscaras, é o mesmo tipo de ajuda para o desenvolvimento, que um poço de água num aldeia africana. Sabíamos, há meses, da existência do vírus, mas não conseguimos fabricar máscaras para nos protegermos!". A razão, explica Balci, reside num factor muito simples: o desmantelamento progressivo da industria no Ocidente e a transferência de investimentos para a China e países límitrofes, onde a mão-de-obra é barata e os operários obedientes. Só que, agora, estamos todos nas mãos dos chineses. Esta constatação, leva-nos a outro tipo de questões que a crise epidémica levantou.
A pandemia põe à prova os regimes políticos em todo o Mundo.
A rivalidade entre USA e China, está a ser vista como uma competição entre dois modelos políticos opostos: A democracia e o autoritarismo. Qual deles respondeu melhor a esta crise e qual dos dois vai prevalecer depois da crise?
A China foi o primeiro país a registrar o contágio do Covid19. Em Novembro de 2019, ocorreu o primeiro caso em Wuhan, na província de Ubei, que seria abafado até começarem a correr notícias de que o médico que tinha detectado o vírus - Li Weng Lian - tinha sido afastado e, posteriormente, falecido devido à infecção, que alastrou em pouco mais de um mês. Em Janeiro deste ano, a China confirmava a epidemia e informava a OMS. As nações ocidentais não podem declarar que não sabiam da existência deste vírus.
Trump, como sempre, seguiu uma politica errática. Começou por fechar as fronteiras e abandonou o palco internacional, acusando a China de ser responsável pela disseminação do vírus, que apelidou de "vírus chinês". Xi Jinping seguiu uma política assertiva. Abre a China ao Mundo e quer ocupar o vazio deixado pelos EUA na liderança global.
A ideia que daqui resulta é a de que o autoritarismo é mais eficaz que a democracia e sairá reforçado desta crise.
Nesta crise, encontramos três componentes, que correspondem "grosso modo" a três tipos de regime  diferentes:
1) O Autoritarismo: do qual o melhor exemplo é a China. Começou por negar o problema, depois tentou escondê-lo, impedindo o médico de denunciar a doença, no que perdeu um mês que pode ter sido decisivo no combate à epidemia. Finalmente, tomou medidas draconianas e, uma vez controlado o surto,  fez aproveitamento político. Foi eficaz na resposta. Venceu o vírus (ainda que não saibamos se os números são exactos), enviou ajuda, material sanitário e médicos, para os países mais atingidos (Itália e Espanha). É o líder mundial desta crise.
2) As Democracias governadas por Populistas: Trump, Bolsonaro, Boris Johnson. Começaram por ridiculizar a gravidade da doença ("é só uma gripezinha", dizia Bolsonaro) contribuindo para a desinformação e adiando as soluções. Desvalorizaram o papel da ciência e as opiniões de médicos, em nome de uma suposta superioridade étnica. Finalmente, foram forçados a reagir, tarde e a más horas. Hesitaram entre o valor da vida humana e os interesses económicos.    
O resultado não foi o melhor. Em apenas quatro semanas, os EUA atingiram já os 40.000 mortos (metade das quais no estado de Nova Yorque) e os 30 milhões de desempregados (20% da força de trabalho). A maior percentagem dos últimos 10 anos!
Do Brasil, nem vale a pena falar: Bolsonaro, o pior presidente da história brasileira, continua a passear-se entre os seus adeptos, tão mentecaptos como ele e, entretanto, despediu o ministro da saúde, por este ousar criticar a sua gestão nesta crise. O país é um barril de pólvora, com milhões de pessoas a viver em condições infra-humanas nas favelas do Rio e São Paulo, para além dos 200.000 presos, confinados em prisões sobrelotadas. O caos é tão grande que os militares (chefiados por Mourão, vice-presidente) estão à beira de forçar uma demissão (por "impeachment" ou acordo) de Bolsonaro e da sua família, o que não augura grande futuro para o país.
Entre os populistas, há ainda quem se aproveite dos poderes de excepção para reforçar a autocratização do regime. É o caso de Orban (Hungria) que aproveitou a epidemia, para decretar o "estado de excepção" por tempo indeterminado. Quem desobedecer pode apanhar 5 anos de prisão! A Hungria passou a ser a primeira ditadura na União Europeia.
3) As Democracias Liberais: umas mais cedo, outras mais tarde, todas levaram o problema a sério e tomaram decisões com base na ciência, ainda que os "confinamentos" (lockdowns) sejam diferentes de pais para país. Os mais liberais (Suécia, Finlândia, Noruega, Holanda, etc...) optaram por um sistema semi-aberto, onde os cidadãos são responsáveis pelo seu comportamento; enquanto outros (Portugal, Espanha, Itália...) seguem guiões mais tradicionais e prolongaram os estados de excepção até à primeira quinzena de Maio.
Uma coisa, parece certa. Depois da pandemia, nada ficará como dantes. Resta saber se para melhor. Os indicadores, para já, são péssimos. Primeiro, assustaram as pessoas com o vírus e, agora, assustam-nas com a próxima crise económica. Como bem explicou Naomi Klein em "A Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo do desastre", o sistema aproveita-se do medo, causado por crises (económicas, humanitárias ou outras) para manipular e reforçar o seu poder. Nuvens negras no horizonte.

(continua)

2020/04/15

Duas semanas noutra cidade (9): Espanha, Confinamentos e Estratégias


Rainha Máxima da Holanda e o marido Rei Willem-Alexander na Feria 2019 (foto Look)

Depois de uma semana "santa", em que o sol brilhou e a temperatura não baixou dos 22º, voltou a chover em Sevilha. Chuva e trovões, que o "criador" não parece ter gostado da forma como os citadinos voltaram à "festa"...
Mal passou a Quaresma, mudaram as regras sociais. O que antes era penitência e martírio, transformou-se em música pop e "sevilhanas". A explicação é simples: dentro de quinze dias, teria lugar a "Feria", este ano cancelada por motivos óbvios, pelo que os habitantes da cidade não podem reencontrar-se naquela que é considerada a maior festa tradicional andaluza: dez dias de feira popular gigante, visitada anualmente por milhares de pessoas, vindas de todo o país para ver e frequentar as centenas de tendas, agrupadas em colectividades culturais e associações de ganadeiros e agricultores da região, onde a entrada é exclusiva. Depois, existem as tendas públicas, onde se pode provar tudo o que é petisco regional e ouvir música ao vivo. Com sorte, é possível ver bons espectáculos de Flamenco e dançar "sevilhanas", em palcos espalhados pela Feira. Pelas largas alamedas, passeiam grupos de sevilhanas, deslumbrantes nos seus trajes de lunares, enquanto os ganadeiros da região ostentam riqueza, montados em "puros sangue" andaluzes e passeando em charretes descobertas, com cocheiros de libré. Anexo ao recinto principal, existe ainda um "lunapark", onde os mais jovens se divertem sob o olhar condescendente dos pais. A polícia, omnipresente, regula o trânsito e impede os excessos. Uma orgia de côr e música, que nenhum sevilhano que se preze, deixa de visitar uma vez por ano.
Desta vez, devido ao "confinamiento", restam as varandas e as açoteias dos prédios, onde todos os dias, pelas 20h, os habitantes da cidade agradecem aos profissionais da saúde, com uma longa salva de palmas e música: depois de uma semana de marchas e pregões religiosos, a alegria das "sevilhanas", transmitidas através de aparelhagens sonoras que são escutadas em todo o bairro. Uma festa contagiante.
Esta (genuína) alegria, não ignora a triste e dura realidade. Pesem as medidas draconianas, anunciadas e postas em prática pelo governo espanhol, de que somos testemunha diariamente (patrulhas de policias armados de metralhadora, controlo severo nos transportes públicos e unidades paramédicas instaladas em lugares estratégicos, para acudir aos necessitados), a verdade é que o número de infectados e mortes, causado pelo coronavírus, não pára de subir. Hoje, eram 177.633 e 18.579, respectivamente, o que faz de Espanha o segundo país com mais infectados e o terceiro com mais mortes, a nível mundial. A maior crise humanitária, desde a segunda guerra mundial.
Da situação, tentam tirar proveitos politicos os dois maiores partidos da oposição, que não perdem uma ocasião para criticar as medidas do governo. Enquanto, Casado (líder do PP, direita conservadora) acusa o governo de tomar decisões de forma unilaterar e declara não estar disposto a apoiar o governo ou assinar mais "Pactos de Moncloa" (acordo entre partidos parlamentares, em 1977, n.r.); Abascal (líder do Vox, fascista) acusa o governo de practicar uma "eutanásia feroz" e de ter uma "gestão criminosa", na contenção da pandemia do vírus. As declarações, deste homem defensor do "senso comum", têm sido acompanhadas por mentiras nas redes sociais, onde sugere que o governo censura as mensagens telefónicas relacionadas com o vírus, que os imigrantes são beneficiados no tratamento em hospitais, ou que a causa de morte dos infectados é devido à "peste chinesa", entre outros mimos. Nada que nos surpreenda, já que o nihilismo e as "fakenews", a par da negação da ciência e o ódio aos estrangeiros, faz parte do discurso de todos os populistas de direita. Veja-se o caso de Trump (USA) Bolsonaro (Brasil) ou, mais perto de nós, Orbán (Hungria), Le Pen (França), Wilders (Holanda) e Ventura (Portugal).

Acontece que o sucesso da China e de outros países asiáticos, no combate ao Coronavírus, se deve a factores culturais e políticos específicos, que explicam a forma como abordaram a pandemia, para a qual, de resto, a OMS já tinha alertado em 2016.
No excelente ensaio "Coronavirus y estado policial. La revolución viral",  publicado em 22 de Março último no El País, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, traça uma panorâmica da expansão do vírus e aponta as razões pelas quais, segundo ele, a Europa está a fracassar no combate à pandemia.
Um resumo: as cifras dos infectados não param de aumentar em Itália, Espanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suiça ou Alemanha, onde diariamente morrem centenas de pessoas e têm de ser tirados ventiladores aos mais velhos para dá-los aos mais jovens, enquanto se decretam estados de excepção que, em última análise, legitimam o "estado soberano" (que decide sobre o estado de excepção) e fortalecem o nacionalismo. Segundo ele, esta é uma exibição de soberania que de pouco serve, da mesma forma que proibir a entrada de estrangeiros nesta altura, é um acto absurdo, já que a Europa é justamente o continente para onde ninguém quer vir agora. Seria muito mais útil a eficaz cooperação entre estados europeus e proibir a saída de europeus para outros continentes, uma vez que a Europa é o epicentro da epidemia.
Em comparação com a Europa, quais as vantagens que o "sistema asiático" pode oferecer na eficiência do combate ao vírus? Estados asiáticos, como o Japão, a Coreia, a China, Hong-Kong, Taiwan e Singapura, têm uma mentalidade autoritária que vem da sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos negativas e mais obedientes que na Europa. Também confiam mais no estado. Não apenas na China, mas também na Coreia e no Japão, a vida está organizada de uma forma mais estrita que na Europa. Sobretudo, para detectar o vírus, os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Admitem que a "big data" pode encerrar um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderia dizer-se que as pandemias na Ásia não são apenas combatidas por virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo por informáticos e especialistas em macrodata. Uma mudança de paradigma, da qual a Europa não parece ter-se dado conta. Ou seja, a "bigdata" salva vidas humanas.
A consciência crítica, perante a vigilância digital, praticamente não existe na Ásia. Apenas se fala da protecção de dados em democracias liberais como o Japão ou Coreia. Ninguém se opõe à recolha de dados pessoais pelas autoridades. Na China, criaram um sistema de crédito social, inimaginável para europeus, que permite uma valorização e uma avaliação exaustiva dos cidadãos. Na China, não há nenhum momento da vida quotidiana que não esteja submetido a avaliação. Controla-se cada clic, cada cada compra, cada contacto, cada actividade nas redes sociais. A quem atravessar o semáforo vermelho, a quem tiver contactos com críticos do regime, ou a quem coloque comentários críticos nas redes sociais, tiram pontos. Nesse caso, a vida pode tornar-se muito perigosa. Ao contrário, a quem comprar alimentos sãos ou quem ler publicações do regime, dão pontos. Na China isto é possível, porque existe um intercâmbio, sem restrições, entre os provedores da internet, os telemóveis e as autoridades. Praticamente, não existe protecção de dados e não se conhece o conceito "esfera privada".  
Na China, 200 milhões de câmaras de vigilância, muitas delas dispondo de tecnologia de reconhecimento facial detalhado, permitem vigiar e controlar todos os cidadãos em espaços públicos. Ao sair do metro ou do comboio, as câmaras medem a temperatura corporal dos passageiros e avisam-nos, assim como aos restantes passageiros, do perigo de contágio. Este tipo de rastreio, permitiu isolar e testar potenciais infectados e dirigi-los para unidades hospitalares onde são tratados. Esta foi, de resto, uma das razões do sucesso do combate ao vírus, que em menos de três meses, limitou a epidemia, em Wuhan e em 12 cidades circundantes, a números residuais. Sobre isto e muito mais, no próximo "post".

(continua)

2020/04/07

Duas semanas noutra cidade (7): Santos, Vírus e Testes


Em tempos normais, a semana da Páscoa é, por tradição, a mais celebrada e concorrida em toda a Espanha. Em Sevilha, o epicentro das comemorações, a "Semana Santa", congrega o maior número de devotos e forasteiros, ainda que haja celebrações nos principais centros urbanos do país.
A cidade pára literalmente durante a maior parte da semana, com serviços públicos, departamentos e escolas,  encerrados para o grande evento. A população, calculada em mais de 700.000 pessoas, prepara-se o ano inteiro para a celebração. Desde logo, através do "Consejo General de Hermandades e Cofradías de la cidade de Sevilla", orgão máximo, responsável pela organização dos rituais religiosos, que determina quais as confrarias participantes (são mais de cinquenta!), quais os percursos seguidos pelas procissões (todas passam, obrigatoriamente, pela Catedral de Sevilha e pelo "Ayuntamiento", onde são instaladas bancadas para os "vips" da cidade); quem transporta os andores nas procissões (constituídas por santos, virgens, mistérios, penitentes e crucificados); os "costaleros" (equipas de 30 moços que alternam, à vez, o transporte dos altares, que chegam a pesar toneladas); os "hermanos", representantes das dezenas de irmandades existentes na cidade; os "nazarenos", reconhecidos pelos seus capuzes ponteagudos de diversas cores, a lembrar os acólitos do "klu-klux klan"; para além de familiares e amigos, que encorajam e apoiam, com água e alimentos, os mais jovens. Toda a gente participa, dos veteranos aos mais novos, que vestem a rigor durante a semana: as mulheres, deslumbrantes nos seus trajes clássicos de "mantilla sevilhana"; os homens, em traje formal, de fato e gravata a condizer. As varandas, engalanadas para a ocasião, são alugadas com antecedência, não sobrando lugares nas açoteias e terraços nos percursos conhecidos. O turismo local, em colaboração com as diversas confrarias, edita pequenos guias em diversas línguas, sobre os locais e horas previstas da passagem de cada procissão, de modo a possibilitar, aos interessados, a possibilidade de escolher os melhores lugares para apreciar o evento. A maior parte das confrarias, são acompanhadas por bandas filarmónicas, que ensaiam todo o ano nas praças da cidade para o grande momento. As procissões têm lugar durante o dia, ainda que algumas só iniciem o seu percurso ao cair da noite, para terminar já de madrugada. Nessas ocasiões, as luzes apagam-se junto à igreja onde recolhe o andor e os estabelecimentos comerciais encerram. O único som audível, à distância, é o arrastar dos pés dos "costaleros", enquanto os "nazarenos", cobertos pelos seus capuchos e capas, empunham longas tochas de cera a arder e continuam a desfilar durante horas. Não raramente, as procissões nocturnas terminam com "saetas" flamencas, cantadas à capela por aficionados e profissionais das varandas mais próximas. Momentos de êxtase e "cante jondo" (canto profundo) sublimes.
A anormalidade, imposta este ano pelo "confinamiento", impediu a celebração centenária, mas não diminuiu a devoção dos habitantes de Sevilha. À falta de festa, os vizinhos do bairro esmeram-se, decorando as janelas e colocando altifalantes nas varandas, através dos quais transmitem "saetas", bandas filarmónicas e "pregões" (declarações) da Semana Santa. Os mais nacionalistas (estas coisas, andam sempre ligadas) mantém as bandeiras franquistas, que penduraram durante a crise catalã de 2018.
Não faltam episódios hilariantes nesta quarentena: desde o homem que saiu a passear o cão, vestido de nazareno e carregando uma cruz às costas (o vídeo tornou-se viral e a polícia acabaria por detê-lo); à mulher infectada, que fugiu de um hospital onde estava isolada (acabaria por ser presa e voltar à quarentena), passando pelo vizinho do condómino onde me encontro, que ameaçou filmar e denunciar outro morador à polícia (!?) por este ter ousado sair à rua sem máscara (há sempre um "pequeno homem" com medo, como escreveu Reich, num dos seus escritos mais citados). Encontra-se de tudo um pouco. Entretanto, na Galiza, foi roubado um carregamento de um milhão máscaras, no valor de 5 milhões de euros, destinadas a Portugal (!?). Em tempo de crise, "quem tem olho..."
A crise viral continua a dominar os noticiários e as preocupações dos espanhóis. O país é já o segundo com maior número de infectados e mortos a nível mundial, resp. 146.690 e 14.555, não se vislumbrando decréscimo na curva de infecções nos próximos dias. Perante a catástrofe anunciada (20.000 mortes na projecção mais optimista e 40.000 mortes na mais pessimista), a Espanha entrou na terceira semana de "confiniamento", agora prolongado até ao próximo dia 26. As pressões e as críticas ao governo de Sánchez, para que reabra o congresso (actualmente encerrado) e para diminuir progressivamente as medidas de quarentena, têm vindo a aumentar, ainda que não seja fácil tomar esta decisão, enquanto o número de infecções não diminuir. As mais acérrimas críticas vêm, como sempre, do "pequeno homem" Abascal (VOX), que diariamente grava vídeos através do Instagram onde ameaça processar Sanchéz pela prorrogação do período de isolamento. Ontem, em mais uma histérica comunicação ao país, anunciou com ar solene "cortar relações" com o governo, enquanto este não abrisse o Congresso. A estupidez continua a dominar o discurso dos pequenos líderes. 

Conforme nos explicam diariamente os "experts" na matéria, há 3 questões a considerar nesta crise pandémica: a vacina (que não existe), o distanciamento social (como forma de reduzir a disseminação do vírus) e os testes (para avaliar quem está infectado). Sobre a vacina, é consensual entre vírologistas e epidemiologistas, poder demorar entre 12 e 18 meses, até ser comercializada. Sobre o distanciamento social (tomando as devidas precauções, com máscaras, luvas, desinfecções diárias de roupa e calçado) é fundamental, mas não impede a contaminação. Mais, podemos estar infectados e não ter sintomas. Quando a febre surge, a infecção já existe e, entretanto, já infectámos outras pessoas.
Finalmente, os testes. Há dois tipos de teste: o de diagnóstico rápido (aplicado na maioria de países e populações) e o teste serológico (que é caro e não está ao alcance de toda a gente). No primeiro teste, este pode dar negativo, mas podemos contrair a infecção no dia seguinte; no segundo teste, a imunidade é garantida pelos anti-corpos já existentes, o que permite contactos com outras pessoas, sem as infectar. A experiência, levada a cabo nos primeiros países infectados (China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Singapura) permitiu perceber que o isolamento, seguido à risca, pode resultar, ainda que só ao fim de alguns meses. Acontece que, em países de regime autoritário (como os países asiáticos referidos) é sempre mais fácil manter as populações confinadas, dada a obediência e disciplina existentes (confucionismo). Também o sentido colectivo e a confiança no estado é maior do que no Ocidente. Acresce que, em países como a China (portanto, um estado totalitário) a "data" existente, devido à ligação dos telemóveis pessoais às câmaras de vigilância em todo o país (mais de 200 milhões!) permite identificar, rapidamente, quem tem febre, através de um "app" que mede a temperatura do corpo. As pessoas assinaladas, são avisadas através do seu telemóvel e enviadas para quarentena. Essa é uma das razões, porque os países asiáticos conseguiram reduzir substancialmente a epidemia, enquanto na Europa e nas Américas, portanto mais atrasadas no uso da tecnologia existente, o surto viral continua a crescer exponencialmente. Preocupantes são, agora, os surtos em grandes países como os EUA e o Brasil, que não dispõem de sistemas de saúde de qualidade e onde o número de vítimas pode atingir proporções catastróficas. 

(continua)

2020/04/03

Duas semanas noutra cidade (6): Todavia, vivos...


Hoje, acordámos, com uma notícia previsível: de acordo com o "site" da OMG que monitoriza o "coronavírus" a nível mundial, o número de infectados, ultrapassou o primeiro milhão. Mais exactamente, 1.030.570 pessoas, das quais 54.226 falecidas.
Em Espanha, onde me encontro, o número de infectados era, esta manhã, 117.710 e, o número de mortes, 10.935. Em termos absolutos, a Espanha é já o segundo país com mais infectados a nível mundial e, em termos relativos, o primeiro país, com um total de 2350 infectados por milhão de habitantes.
Números terríveis, que entram diariamente pela rádio e tv dentro, em contínuos boletins emitidos pelo Ministério Nacional de Saúde, a partir da "task force" criada para esta pandemia, instalada no palácio de Moncloa em Madrid.
A Andaluzia, registrava 7.374 infectados e 408 mortos, um número relativamente baixo, quando comparado com as regiões mais infectadas (Madrid, Catalunha e País Vasco).
Em Sevilha, o hospital "Virgen del Rocío", criou dois circuitos paralelos de detecção e tratamento de potenciais doentes, onde estes são testados e internados. Comparativamente a Madrid, onde o número de mortes em lares de idosos ultrapassou as 3000 pessoas (infectados incluídos), a cidade de Sevilha também registava um número relativamente baixo: 57 falecidos. As agências funerárias não têm capacidade para responder atempadamente a esta calamidade e muitos corpos, tiveram de permanecer em morgues, antes de serem incinerados. Dadas as medidas sanitárias impostas, muitas pessoas não conseguem sequer despedir-se dos seus familiares. Um filme de terror, que fez manchete na comunicação internacional. Acresce, que a maioria dos "lares" são residências privadas, que não dispõem de equipas médicas permanentes, o que dificulta a detecção (e testes) dos residentes infectados.
Perante a situação, o governo já anunciou o prolongamento do estado de excepção, que durará até ao dia 26 de Abril. Entretanto, a polícia aumentou as medidas de coacção e, nos transportes públicos de Sevilha, passou a controlar os passageiros para avaliar da necessidade da sua deslocação. Quem não consegue justificar a viagem, pode ser obrigado a sair ou a pagar uma multa. A desobediência, pode custar entre 200 e 20.000 euros, no caso de automobilistas que infrinjam a lei.
Nem tudo é mau, no entanto. Diariamente, pelas 20h, milhões de cidadãos do país, continuam a assomar à janela, para agradecer aos profissionais de saúde que enfrentam esta luta sem desfalecer. Uma homenagem que, ontem, graças à temperatura amena de Sevilha, se prolongou no tempo. Após o ritual das palmas, os moradores permaneceram nas janelas e em açoteias vizinhas, onde aproveitaram para pôr a "conversa em dia", muitos deles pela primeira vez entre si. Não faltam críticas aos governantes, pois sempre há algo mau nos hospitais, nas farmácias ou nos supermercados. Habituados à sociedade de consumo, os espanhóis (como os europeus em geral) lamentam-se das "carências" e, o que é pior, temem pela sua existência, agora mais frágil. Um bom teste de sobrevivência e resiliência, quando comparado com a situação (essa sim, deplorável) dos refugiados, amontoados em campos gregos, italianos e líbios. É de esperar que este período de austeridade e confinamento traga, a todos, mais humanidade e solidariedade em tempos de crise.
Solidariedade tem sido, de resto, uma das palavras mais inflacionada por estes dias. Depois das reservas mostradas pelos chamados países do "bloco do marco" (Holanda, Alemanha, Austria e Finlândia) em apoiar a criação de um fundo europeu especial para esta crise (os chamados "coronabonds") seguiram-se as infelizes declarações do ministro holandês das finanças, que só vieram piorar as coisas. A reacção crítica e de repúdio por parte de António Costa, no que foi apoiado pelos restantes países do Sul, seria transcrita nos principais orgãos de informação europeus, como o El País, Le Monde, The Guardian, NRC, De Volkskrant, HP/Tijd (estes três últimos, holandeses).
No Público, a articulista Teresa de Sousa, especialista em assuntos europeus, resumiu bem a situação, num artigo intitulado "Se o Sul se afundar, o Norte opulento deixará de existir":
"Já não é apenas um caso entre António Costa e Mark Rutte e o seu ministro das Finanças. Nem apenas um caso entre Países-Baixos de um lado, e a Itália e a Espanha, os dois países europeus mais brutalmente fustigados pela pandemia, do outro. De repente, os Países-Baixos transformaram-se no lugar geométrico de prova de vida a que a Europa e as suas democracias, estão a ser sujeitas neste exacto momento da História. O debate interno ameaça a coligação de governo (holandês n.r.). A pandemia aproxima o sistema de saúde da ruptura".
As críticas europeias, acabariam por fazer "mossa" na frente germânica, que se apressou a "emendar a mão". Já esta semana, Mark Rutte (primeiro-ministro holandês) veio declarar que não tinha sido muito "diplomático" (a expressão é "bot", em neerlandês) e, ontem mesmo, Von der Leyen (presidente alemã da Comissão Europeia) reafirmou o apoio da Europa à Itália, anunciando um crédito sem limites ao país mais fustigado por esta crise. Algo é algo.

P.S. Recebemos um mail da "COVID19", uma linha de apoio, aberta pelo MNE, para portugueses impedidos de regressar ao país. Pedem desculpa pelo atraso na resposta e perguntam se ainda necessitamos de ajuda (?). Vale mais tarde, que nunca. Claro que necessitamos de ajuda. Ainda estamos vivos...

(continua)