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2021/12/22

No vacinar é que está o ganho (business as usual)

Como era expectável, o governo anunciou mais medidas restritivas para o período de festas que vai iniciar-se esta semana. A coisa já estava a ser preparada com alguma antecedência, mas a súbita explosão da variante Ómicron veio alterar os planos governamentais. Assim, em vez de confinarmos apenas na quadra natalícia e na primeira semana do ano, quando as escolas e a "vida normal" deviam recomeçar, eis-nos perante um novo plano de contingência.

Desta vez, António Costa, após auscultar o conselho de ministros, pôs o fato azul dos momentos solenes e anunciou, sem se rir, as novas medidas para a próxima quinzena. Estas incluem tele-trabalho obrigatório,  encerramento de escolas e ATLs para crianças, encerramento de bares e discotecas, limitação do número de clientes e distanciamento em restaurantes, proibição de ajuntamentos de mais de 10 pessoas na via pública, proibição de festas de fim-do-ano e de espectáculos e eventos desportivos. O controlo fronteiriço será retomado e os testes para entrar em determinados espaços passam a ser exigidos. Quem não fizer testes e não tenha certificado digital, não entra. Para pior já basta assim...

Para sublinhar a gravidade da situação, o primeiro-ministro pôs um ar ainda mais compungido e revelou os planos para a sua ceia de Natal que, este ano, não terá mais de 6 pessoas, a saber: ele, a mulher e a filha, o sogro, a mãe e o padrasto. De fora, ficará o irmão Ricardo (e respectiva família) que, à mesma hora, deve estar a fechar a edição da SIC-notícias. Era difícil imaginar pior cenário.

Depois de um ano memorável, em que Portugal começou com um dos piores índices de contágios a nível europeu, para se tornar o campeão da vacinação mundial, com uma percentagem de vacinados a rondar os 90% da população, eis-nos de volta ao local de partida! Mas, então, as vacinas não têm um efeito duradouro? E qual é a duração da vacina, que nos venderam como a solução milagrosa para os tempos mais próximos? E só algumas é que são efectivas, ou são todas? Ou, não é nenhuma? Estas e outras questões, são hoje alvo de polémica e acesas discussões nos Fora internacionais, com os especialistas das mais diversas áreas, a opinarem sobre o vírus e a melhor forma de o combater.

Uma das explicações mais óbvias, tem a ver com o aparecimento de novas variantes do vírus original, do qual já foram detectadas 4 ou 5 estirpes, entre as quais a Alfa, a Delta e, mais recentemente, a Ómicron. Porque o vírus se adapta e transmuta, é de esperar o aparecimento de mais estirpes num futuro próximo. Uma das formas de combatê-las, é através da vacinação. Neste campo, muitos progressos foram obtidos no último ano, com uma campanha de vacinação em massa a nível mundial. Só que, a sua distribuição, deixa muito a desejar. Num recente artigo sobre o tema, o cronista Daniel Oliveira (Expresso, d.d. 4/12), lança alguma luz sobre a desigualdade na distribuição das vacinas a nível mundial e os efeitos perniciosos desta política:

"O açambarcamento das vacinas para usar em grupos cada vez menos eficazes deixa o vírus à solta nos países mais pobres, que se tornam em viveiros de novas variantes potencialmente mais poderosas ou contagiosas". (...) "Mesmo com elevadas bolsas de resistência, 66% da população da UE tem a vacinação completa. Em África, são 6%. O número de pessoas dos países mais ricos que já receberam o recente reforço da vacina é quase o dobro dos que têm a vacinação completa nos países mais pobres. Gastamos dezenas de milhões de doses em crianças cada vez mais novas, com eficácia discutível, enquanto o vírus ganha força descontrolada nos países pobres". E, mais à frente: "uma das consequências da pandemia foi o reforço do poder dos Estados, que compreensivelmente limitam as liberdades individuais  e o funcionamento da economia. Mas, não beliscam as sacrossantas patentes de vacinas financiadas por fundos públicos. Junta-se a isto, o "neocolonialismo" denunciado há uma semana por Gordon Brown no "The Guardian": países que precisam de vacinas, como a África do Sul, são obrigadas a entregar à Europa as que eles próprios produzem. Em apenas um ano, a vacina Pfizer tornou-se o medicamento com maior volume de vendas em todo o Mundo: 36 mil milhões de dólares em 2021. É responsável por 80% das inoculações  na UE e 74% nos EUA". (...) "De acordo com o "Financial Times", longos meses depois do início da comercialização da vacina, a UE aceitou que o valor por dose passasse de €15,50 para €19,50. Numa nota aos accionistas, a empresa diz que conseguirá aumentar ainda mais as margens de lucro com o fim da pandemia" (...)

"Recusando abrir mão das patentes, a "solução" encontrada pelo G7 foi a doação. Mas o objectivo proclamado em Junho - 40% de vacinação para os 92 países mais pobres - está irremediavelmente comprometido. Os EUA estão em 25% do prometido, a UE 19%, o Reino Unido 11% e o Canadá 5%. Ao contrário do que acontecia no início, o problema já não é a produção, que está nos dois mil milhões de doses por mês. O problema é o açambarcamento. Os EUA têm 162 milhões de doses em stock, a UE 250 milhões e o Reino Unido 33 milhões. Que esta medida é completamente irracional, é o facto de 100 milhões de vacinas terem, entretanto, ultrapassado o seu prazo de validade em Dezembro, segundo a COVAX". (...) "O egoísmo vacinal está a concentrar as vacinas nos países mais vacinados. A Pfizer tem um esquema de preço distinto pelo nível económico dos países, variando entre os €19,50 na Europa, €9 nos países em via de desenvolvimento e €6 nos países mais pobres. É fácil perceber a quem lhe compensa mais vender e como as novas doses compradas pela UE para crianças e para a terceira toma passam à frente de encomendas mais antigas e mais urgentes dos países pobres". 

Ou seja, por mais vacinas que o Mundo desenvolvido produza e por mais vacinados que estejamos, as mutações do vírus vão continuar a infectar-nos, enquanto 1/3 da população mundial continuar por vacinar.  Nas palavras do articulista: 

"Tentamos combater a pandemia como não resolvemos as crises migratórias: julgamos que nada do que se passa "lá fora" nos incomodará. Mas, para o vírus não há muros ou o medo da morte no Mediterrâneo. Se não for a Ómicron a recordar-nos será outra variante qualquer". (...) "Mas, se o egoísmo mata, não deixa de ser lucrativo. E para boa parte dos governo o poder das farmacêuticas conta mais que o interesse comum".         

Moral desta história: quando virem o Costa, com ar circunspecto, a anunciar mais vacinas e mais um confinamento, pensem naqueles que nem sequer a primeira dose da vacina tomaram...

2021/03/08

Desconfinamento: do Oito ao Oitenta...

Os especialistas do INFARMED, reuniram e divulgaram hoje os últimos números da Pandemia e as possíveis consequências para um (des)confinamento a curto prazo. Todos os indicadores, em todas as faixas etárias, melhoraram significativamente. 

Resumindo: Portugal, que há um mês atrás detinha (em números relativos) os piores números de infectados e mortes a nível mundial, passou a ter o RT (Risco de Transmissão) mais baixo da Europa: 0,74%! 

O país regista hoje mais 365 novos casos e 12 mortes, o valor mais baixo dos últimos seis meses. Pelo 24º dia consecutivo, o número de pessoas em UCI (Unidades de Cuidados Intensivos) diminuiu para 342 pessoas (-12). O número médio de internados continua a decrescer e aproxima-se dos 200 casos diários, uma fasquia considerada segura para começar o desconfinamento. A manter-se tal média, os especialistas prevêem que, em finais de Março, haverá cerca de 120 internados nas UCIs. Uma boa notícia.

Na posse de tais dados, o governo, tomará esta semana uma decisão sobre o modelo de desconfinamento a seguir. Certo é que será lento e em fases (quantas, não se sabe).

De acordo com opiniões, entretanto ouvidas, poderá haver uma primeira fase (a partir de 15 de Março), quando serão abertas as escolas do 1º ciclo (infantis e primárias); Uma segunda fase (a partir da Páscoa), quando serão abertas as escolas do 2º ciclo e o ensino superior (nesta fase, poderá haver uma abertura selectiva de pequenos comércios, como barbeiros, cabeleireiros e afins, ou esplanadas de restaurantes). Seguir-se-á uma terceira fase, para o restante comércio e actividades paralelas (ginásios, etc...). Finalmente, uma quarta-fase, para eventos desportivos e festivais ao ar livre...

Todas estas opiniões/sugestões não passam, no entanto, de especulações sujeitas à aprovação e confirmação por parte do governo, que ainda não se pronunciou sobre fases e/ou datas de desconfinamento. O anúncio oficial, será feito no próximo dia 11 de Março. Até lá só podemos (des)esperar...

2021/02/16

Pandemia: avanços e recuos

Há um ano atrás, o Covid19 ainda não tinha chegado a Portugal. Seis meses mais tarde, e apesar de todas as vicissitudes conhecidas, o país orgulhava-se de ter um dos melhores "ratios" de internados/mortes, por milhão de habitantes, em toda a Europa. O "milagre português", como chegou a ser apelidado pela imprensa estrangeira, deveu-se fundamentalmente a três ou quatro medidas atempadas: confinamento severo (que incluiu escolas, recintos desportivos e espectáculos em geral); encerramento de fronteiras e suspensão de todas as actividades não essenciais. Factores aleatórios, como a situação geográfica, a diminuição de turismo em fim de estação ou um clima mais ameno, contribuíram para este sucesso, mas não explicam tudo. O medo, perante um vírus desconhecido para o qual não eram conhecidos antídotos e o "respeitinho", inculcado ao longo de décadas no espírito dos portugueses, fez o resto. 

Embalados pelo "sucesso" desta campanha e convencidos que o pior já tinha passado, os portugueses voltaram a fazer o que sempre fizeram no Verão: férias e praia. Diga-se, em abono da verdade, que também o governo contribuiu para a euforia geral, já que Portugal se candidatou a tudo o que era prova desportiva internacional (Fase Final da Taça dos Campeões Europeus, Grandes prémios de Fórmula 1 e de Motos no Algarve...) certamente na esperança de obter receitas extraordinárias, num ano de pandemia. Como se tudo isto não chegasse, descurámos a 2ª vaga, anunciada desde Janeiro do passado ano pela OMS, quando o vírus foi detectado na China. 

Como previsto, a segunda vaga chegou e, para nosso "azar", mais cedo do que esperávamos. Pior: não só chegou mais cedo, como continuava a não haver uma vacina que pudesse limitar os danos. Estávamos em Novembro e o aumento exponencial de infectados e de mortes era já um dado adquirido. Perante as projecções conhecidas, que fez o governo? Anunciou um novo confinamento, mas "suave": Ao contrário do primeiro, que teve 25 excepções, este segundo teria 52, as escolas manter-se-iam abertas e haveria computadores para todos os alunos que necessitassem de seguir as classes em casa. Um confinamento, pensado para um mês, que obrigaria a um sacrifício inicial, mas seria compensado com uma abertura na época natalícia, quando as famílias estão juntas "para oferecer prendas e comer o bacalhau e o bolo-rei"... Já a nível internacional, não haveria limitações e toda a gente (emigrantes incluídos) podia visitar Portugal por esses dias...

O que se passou, entretanto, é conhecido: com a abertura de fronteiras e a ausência de testes nos aeroportos, aumentaram os contágios, agora também provocados por estirpes novas (a inglesa, a brasileira e a Sul-Africana), para as quais não sabemos se, as vacinas existentes, são efectivas. Junte-se a este cenário, uma das populações mais envelhecidas da Europa, as temperaturas excepcionalmente baixas de Janeiro (o Inverno mais frio dos últimos 20 anos!), num país onde a maioria das casas são mal isoladas e temos aqui reunidos os ingredientes para a chamada "tempestade perfeita": o número de incidências, atingiu proporções catastróficas, com picos diários de 15.000 infectados e 305 mortos, um "record" mundial em termos relativos!   

Perante tal calamidade, "soaram as campainhas" no governo. Portugal pediu ajuda ao estrangeiro, para colmatar as insuficiências de pessoal qualificado, no que foi correspondido pela Alemanha, França e Luxemburgo, que já enviaram equipas médicas para a área de Lisboa. Entretanto, também a Áustria se mostrou disponível para receber doentes portugueses e outros países poderão seguir-se. No terreno, os hospitais montaram tendas de rastreio e tratamento diferenciado, agora que os doentes Covid foram separados dos restantes. 

Resta falar das vacinas: as da Pfizer, começaram a chegar em Dezembro e, desde o dia 27 desse mês, que a população prioritária (idosos com mais de 80 anos, residentes em lares e pessoal sanitário) começou a ser vacinada. De acordo com os números apresentados até ontem (15/2) teriam sido recebidas 694 800 doses, com as quais foram vacinadas 533 070 pessoas. Meio milhão de vacinas em 51 dias dá uma média aproximada de 10 000 vacinas diárias (1ª e 2ª dose). A manter-se tal ritmo, no fim do ano terão sido vacinados cerca de 3 650 000 portugueses (1/3 da população), quando a meta anunciada pelo governo é de 7 milhões de portugueses vacinados até ao fim do Verão (o que corresponde aos tais 70% necessários para atingir a "imunidade de grupo"). A justificação do governo, para uma tão baixa percentagem de vacinados nestas primeiras 7 semanas, deve-se à falta de vacinas. Um problema de produção/distribuição das farmacêuticas, que não têm cumprido com os contratos feitos com a UE. Acresce que Portugal comprou uma quantidade menor de vacinas a que tinha direito (quota de cada país) e parte das vacinas excedentes foram para França e para a Alemanha. Por outro lado, países como Israel, compraram directamente às farmacêuticas, ainda que a um preço mais elevado (a troco do fornecimento de dados dos seus pacientes aos fornecedores), o que lhe permitiu vacinar metade da população em 6 semanas. É caso para dizer "o barato, sai caro"...

Outra questão que parece não reunir consenso é o do encerramento/abertura das escolas. Os professores/pedagogos são unânimes em reconhecer que o ensino presencial é sempre preferível ao ensino à distância. Até porque nem toda a gente tem computador em casa e, quando tem, muitas vezes não tem "rede" que lhe permita seguir as aulas "online". Acontece com frequência no interior de Portugal. Acresce que muitos dos computadores prometidos não chegaram aos interessados. Por outro lado, o encerramento das escolas nas últimas três semanas, parecem ter contribuído para uma redução significativa dos contágios. Os números demonstram isso: após o "pico" de Janeiro, as incidências têm vindo a diminuir significativamente e ontem já totalizavam 4482 internados e 90 mortes, respectivamente. Uma queda de mais de 70%. Algo é algo.   

Estamos em plena 3ª vaga e todos os especialistas dizem que virá uma quarta, lá mais para o fim do ano. No início de um processo que se prevê longo e difícil, muita coisa pode e deve ser melhorada. Desde logo, a preparação atempada, o tal planeamento que continua a ser uma pecha portuguesa. Com plano, podemos falhar; sem plano, falhamos de certeza. Para que da próxima vaga, possa correr melhor. 

2021/01/16

Confinamento Suave (here we go again...)

Portugal está, desde ontem, mais uma vez "confinado". Um confinamento esperado, já que a maioria dos países europeus, da vizinha Espanha à longínqua Suécia, seguem o mesmo padrão de comportamento.

É natural. De acordo com a ciência médica, só será atingida a "imunidade de grupo", quando 70% do grupo-alvo estiver infectado (ou vacinado). Um longo caminho a percorrer, portanto.

Aquando da primeira "vaga" de contágios no Ocidente (Março do ano passado), alguns países tentaram adquirir essa imunidade, através da chamada "imunidade do rebanho" (herd's immunity). É o caso da Suécia, durante muitos meses considerada a "nação-modelo" que todos invejavam, ou a Holanda e o Reino Unido e, no outro lado do Atlântico, os EUA e o Brasil. Entre "intelligent lockdown" e negativismo anti-científico, os respectivos governos tentaram tudo para conciliar o inconciliável: saúde e economia. Ainda que toda a gente "ache" que a saúde é mais importante, a verdade é que sem economia (para as pessoas) não há saúde e vice-versa. Uma "pescadinha de rabo na boca". Portugal, nesses primeiros meses, esteve relativamente bem, com poucos infectados e poucas mortes. A explicação para o "milagre português" (como chegou a ser apelidado pela imprensa internacional), prende-se essencialmente com o relativo isolamento do país (fora dos circuitos internacionais), fim-da-época turística e desertificação do interior, o que dificultou uma rápida propagação do vírus. O célere encerramento das escolas e a proibição de eventos desportivos e culturais, contribuíram para o bom desempenho do sistema de saúde, que nunca atingiu o estado de sobrecarga de outros países como a Itália, a Espanha, a França, ou a Bélgica, neste período.   

Entretanto, e logo nessa fase, a Europa foi avisada pela China (onde o vírus foi detectado pela primeira vez) que, a esta 1ª vaga, se seguiria uma segunda, quiçá mais mortífera. Esta 2ª vaga, surgiria no Outono, quando as temperaturas baixassem no Hemisfério Norte e as populações, mais vulneráveis, fossem atingidas pela pandemia. 

E que fez a maioria dos países, Portugal inclusive?  Relaxaram, após 3 meses de "stress pós-traumático", provocado pelo confinamento obrigatório. Foram (também fui) de férias, pensando que o sol e o mar "limpavam" tudo. No intervalo, baixaram as defesas e não se prepararam devidamente (a prevenção, lá está) para a anunciada 2ª vaga. 

Como previsto, a 2ª vaga chegou em fins de Setembro, ainda que tenha abrandado ligeiramente em Novembro. Perante tal resultado ("achatamento" da curva), os governantes portugueses exultaram, optando por manter o confinamento, mas só até ao Natal. Nessa quadra, as famílias poderiam reunir-se de novo, em pequenos núcleos para comer o bacalhau e o bolo-rei do costume, pois o Natal é uma tradição e a "tradição ainda é o que era"...

Não é preciso ser bruxo, para adivinhar o que se seguiu. Quinze dias depois das festas e dos jantares familiares, o número de infectados disparou exponencialmente. Portugal passou de 3000 infectados, em finais de Novembro, para 10 600 em 16 de Janeiro (a maior taxa de incidência mundial!) e já é o quarto país em número de mortos (por milhão de habitantes). Consequentemente, o número de mortos também aumentou e já ultrapassa os 160 diários, uma das maiores percentagens europeias. Os serviços hospitalares estão à beira da ruptura, casos dos hospitais públicos da região de Lisboa, Torres Vedras, Évora, Santarém, Coimbra, Porto, Braga, Viana do Castelo, enquanto na morgue de Lisboa, os cadáveres se amontoam. Um cenário dantesco, que nos remete para a Itália e a Espanha, dos primeiros meses da pandemia. 

É neste quadro, que o governo, apesar das promessas anteriormente feitas de que não haveria um confinamento igual ao de 2020, se viu obrigado a decretar um novo estado de excepção. Desta vez, por 30 dias. Chamou-lhe "suave", como o cigarro de boa memória, para não assustar o pessoal. Em comparação com 2020 (quando 70% das pessoas chegaram a estar confinadas), nestes primeiros dias do ano novo, apenas 39% das pessoas ficaram em casa (dados da DGS). 

A boa notícia, é que as primeiros carregamentos de vacinas (da Pfizer) já começaram a chegar. Na primeira quinzena deste ano, foram vacinadas 100 000 pessoas (1% da população). A manter-se esta média, no fim do ano haverá 2,4 milhões de portugueses vacinados (25% da população). Ou seja, um terço dos 70% necessários para atingir a tal imunidade de grupo...Até lá, o "rebanho" tuge e não muge. Por comparação, Israel já vacinou cerca de 2,5 milhões da sua população e espera, em três meses, ter toda a população (9 milhões) vacinada. Toda a população, à excepção dos palestinianos (!?), acrescente-se... Também o Reino Unido já vacinou 2 milhões de cidadãos e tem uma das maiores percentagens de vacinados no mesmo período de tempo.

Porque parte do comércio se manterá aberto (há 52 excepções à regra) e ninguém percebe os critérios adoptados, o pessoal continua a sair e a consumir nos centros comerciais, pois sem consumo não há economia e sem esta...

Pior: os critérios são tão "suaves" que, em comparação com Espanha, onde me obrigaram a fazer um teste PCR quando cheguei ao aeroporto de Sevilha (e ameaçaram-me de multa, por não ter feito um teste 72h. antes),  ninguém me controlou quando voltei a Lisboa. Nem a mim, nem a nenhum passageiro. Somos uns "bacanos"...

Não há de ser nada, é a "consigne". 

2020/11/18

Confinamento "Suave"

Dia 7.11.2020

Combóio: Trajecto Lisboa-Faro

Lugares ocupados: 10.  Máscara obrigatória. Para dormir, destapo o nariz. 

Minutos mais tarde, um ligeiro toque no ombro. 

- "Máscara para cima, sff." (era o revisor)

- Com certeza. Tem toda a razão.

-"Não volto a avisar!" 

- Como?

- "Já disse, não volto a avisar!"

- Deve estar a gozar comigo. Não estamos na tropa. E se fizesse o seu trabalho, em vez de pregar moral? 

Dia 8.11.2020

Autocarro: Trajecto Faro-Sevilha

Lugares ocupados: cerca de 1/3. Máscara obrigatória.

Motorista (em castelhano): "A máscara é obrigatória, durante toda a viagem. Estou a ver os passageiros pelo retrovisor. Quem não tiver a máscara posta, rua!" (olha para mim e pisca-me o olho...) 

Dia 9.11.2020

Entrada em vigor do 2º período de confinamento em toda a Andaluzia. Cancelamento de transportes públicos terrestres para Portugal.

Dia 13.11.2020

Tento marcar uma viagem aérea Sevilha-Lisboa. Há lugares. Após a reserva, a TAP exige-me o preenchimento de um formulário de "Responsabilidade COVID". Pedem-me, para além dos dados pessoais, o contacto de uma pessoa (nome completo e telefone), para o caso de estar infectado. 

Dia 15.11.2020

Avião: Trajecto Sevilha-Lisboa

Lugares ocupados: 12. Máscara obrigatória.

Aeroporto de Sevilha. Para além do controlo de bagagem, não há qualquer controlo sanitário. 

Aeroporto de Lisboa. Não há qualquer controlo sanitário, para quem chega de países europeus. 

P.S.: Leio, entretanto, que o governo aconselha não sairmos de casa até ao próximo dia 23 de Novembro (fim do 2º período de confinamento). Só quem for trabalhar, o pode fazer. Um vírus selectivo, portanto: só ataca turistas, não ataca quem trabalha... 

2020/06/16

Treze semanas noutra cidade: da Memória Histórica às Medidas do Pós-Confinamento


Com o progressivo levantamento das restrições impostas pelo Coronavírus, o território espanhol regressa lenta, mas seguramente, à situação existente antes de 16 de Março, data em que foi declarado o "estado de alarme" nacional.
Entre as muitas actividades, entretanto retomadas, destaque para os trabalhos de exumação de valas comuns das vítimas do fascismo, levadas a cabo em diversas regiões de Espanha, por iniciativa da Associação de Memória Histórica e Vítimas do Franquismo (AMHVF), com o apoio do governo central e das autoridades regionais respectivas. Um longo e penoso trajecto, iniciado no ano 2000, aquando da primeira exumação em territórios de Léon y Castilla. O posterior reconhecimento da Associação, pelo governo de Zapatero (2007), contribuiu para a sua implementação em todo o território e tem sido decisivo na recuperação e identificação de centenas de cadáveres, desde então exumados e entregues aos familiares que, finalmente, podem despedir-se dos seus entes queridos. Um trabalho meritório e ciclópico, que demorará anos, já que o número total de vítimas enterradas, está calculado em 115.000. A Espanha é o segundo país do Mundo, depois do Cambodja de Pol-Pot, com maior número de vítimas em valas comuns.
Pesem os percalços de percurso, durante os governos de Aznar e Rajoy, que sempre se opuseram a reabrir este "dossier" e reconhecer os crimes do Franquismo, os trabalhos da Associação de Memória, com mais ou menos dificuldade, nunca pararam e estão mais activos que nunca. Prova disso, foi a recente Assembleia Andaluza das Associações de Memória Histórica das Vítimas do Franquismo (que engloba 33 associações regionais), realizada no dia 14 de Junho (dia da memória histórica andaluza) no cemitério de S. Fernando (Sevilha), onde decorrem os trabalhos de exumação da vala de Pico Reja, que contém cerca de 1.500 corpos. No cemitério de S. Fernando, existem ainda outras valas, onde estarão enterradas mais de 4.500 pessoas, fuziladas pelas tropas franquistas entre 1936 e 1955. 
A cerimónia, onde participaram largas dezenas de familiares e activistas, teve o apoio de individualidades políticas, orgãos de imprensa local e seria retransmitida pela TVE. Foi ainda lido o Manifesto da Associação e houve tempo para intervenções de familares das vítimas que relataram episódios relacionados com o período dos massacres. Um exemplo de cidadania exemplar, marcado por uma Memória Histórica que urge preservar, em tempo de negação dos crimes do fascismo.


Com 70% do território na fase 3, a Espanha prepara-se para desconfinar completamente a 21 de Junho, data anunciada pelo governo para retomar todas as actividades suspensas. Algumas regiões, inclusive, como as Baleares e a Galiza, passaram já à fase 4 e podem receber turistas de todos os países Schengen, a partir de 15 deste mês. Todos, à excepção de Portugal que, aparentemente, receia o "contágio espanhol" e teme uma invasão de turistas do país vizinho (!?). Para além do insólito da medida (os espanhóis dizem que foi uma decisão unilateral de Portugal) não se percebe porque é que o governo português receia abrir fronteiras terrestres com Espanha e permite voos de Londres para Lisboa, para trazer mais turistas britânicos para o Algarve...A única coisa acertada entre os governos ibéricos, parece ser agora um almoço (há sempre um almoço antes, durante ou depois de um negócio com portugueses) na fronteira de Badajoz-Caia, marcado para o dia 1 de Julho, quando forem abertas as (últimas) fronteiras de Schengen. Se isto, não é excesso de zelo, só pode ser cretinice.   
Já os alemães, não estão com meias-medidas e inauguraram ontem uma "ponte aérea" que ligará os principais aeroportos da Alemanha, às Baleares e a Ibiza, onde muitos possuem segundas habitações. Só esta semana, são esperados mais de 9.000 alemães nas ilhas espanholas, cujos aeroportos foram adaptados com censores digitais para medir a temperatura dos turistas. Quem acusar positivo não entra no país. O "método chinês" começa a conquistar o Mundo...

Porque o turismo, este Verão, poderá ter quebras da ordem dos 50%, os países que mais dele dependem (caso de Espanha, de Itália, França, Croácia, Grécia e Portugal), começam a tomar medidas estruturais para evitar a crise económica e social que se anuncia para o período pós-confinamento. Em Espanha, onde a industria turística corresponde a 12% do PIB e o Banco Central projecta uma quebra de 15% do PIB para este ano, o governo prepara-se para pôr "toda a carne no assador" e anuncia reformas estruturais de vulto para combater a crise. O executivo debate um plano de estímulos e reformas, preparado pela ministra Calviño (presumível sucessora de Centeno no Eurogrupo), que prevê investimentos da ordem dos 150.000 milhões para combater a crise ao longo dos próximos dois anos. Trata-se, para já, de um "borrão" do documento final a ser enviado para Bruxelas, onde Espanha pretende aceder ao grande "fundo europeu de reconstrução" de 750.000 milhões, aprovado na generalidade e que será objecto de discussão na próxima sexta-feira.
Angela Merkel, que assumirá a presidência semestral da UE no próximo dia 1 de Julho, confia em fechar este acordo, sobre o Fundo Europeu de Recuperação, no primeiro mês de mandato. A urgência desta decisão, corresponde ao convencimento generalizado, tanto em Bruxelas como em Berlim e Frankfurt, de que a eficácia da resposta europeia à crise, não depende só da envergadura do fundo, mas também da sua rapidez operacional. O possível acordo do Conselho Europeu requer o visto do Parlamento Europeu, onde igualmente impera uma sensação de urgência. Os dois maiores grupos da Cãmara (PPE e PS) apoiam a proposta de Von der Leyen, mas mantêm divergências sobre as condições de distribuição dos 500.000 milhões em subsídios e dos 250.000 em empréstimos. Manfred Weber, líder do PPE, assinala que o "condicionalismo de ajuda, é a palavra-chave para o seu partido. Deve ser claro que o dinheiro é investido no futuro do país"; enquanto Iratxe García, presidente do PS, considera  que "o único condicionalismo aplicável ao Fundo, é destinar o investimento a políticas do futuro, como a sustentabilidade, a digitalização e o reforço industrial". Aguardam-se decisões.

2020/05/25

Dez semanas noutra cidade: Fases, Calamidades e Solidariedade Europeia


A Espanha entrou hoje, oficialmente, na fase 2 do "desconfinamiento".
À excepção das regiões de Madrid, La Mancha Y Léon e Catalunha, que permanecem na fase 1 devido ao elevado número de casos, o resto do país passará de imediato à fase seguinte.
Em termos práticos, isto quer dizer que, a partir de hoje, é permitido: reuniões de grupos até 15 pessoas; organizar visitas a residências de idosos; celebrar bodas; alojamento em hóteis e AL; frequentar lojas sem limite de superfície e centros ou parques comerciais;  sair a qualquer hora do dia, à excepção do horário reservado a maiores de 70 anos; ir à piscina ou à praia: organizar actividades turísticas e da natureza, até um máximo de 20 pessoas; ir a restaurantes ou cafés e esplanadas até a um máximo de 15 pessoas; visitar exposições, monumentos e equipamentos culturais; ir ao cinema, teatro e auditórios.
Nada mau, para quem há um mês atrás mal podia pôr um pé na rua, sem usar máscara, luvas e dentro de horários específicos. Um tormento, quiçás necessário, para o qual continua a haver muitas dúvidas, já que os resultados das diversas políticas seguidas - confinamento, semi-confinamento, "intelligent lockdown" e controlo digital - tiveram resultados diferentes. Os testes continuam a ser fundamentais para ajuizar da quantidade de infectados e fazer prevenção (sem testes não é possível saber quem está ou não infectado); da mesma forma que, a contagem de infectados e de mortes em consequência do coronavírus, continua a ser posta em dúvida, já que nem todos os países seguem as mesmas normas  (os números oscilam entre registos de mortes directamente causadas pelo vírus e registo de todas as mortes, patologias associadas, inclusive). No fim, espera-se, haverá uma avaliação da OMS, mas até lá haverá recidivas, ou não, uma vez que também neste campo não existe unanimidade. O próprio vírus, deve andar um pouco "baralhado", pois estava a contar com mais umas infecções enquanto não descobrem a vacina e corre o risco de ser "descontinuado" muito antes disso.

Até lá, a pandemia acelera em todo o Mundo, registando uma média de 100.000 contactos diários. Após a Ásia (onde tudo começou) e a Europa (onde o "pico" da crise parece ter passado) é na América do Norte (Estados Unidos) e na América do Sul (Brasil) que a pandemia atingiu os números mais altos e onde se espera o maior número de vítimas.
Por coincidência (ou talvez não) os 3 primeiros países da lista de infectados (EUA, Brasil e Russia), têm líderes populistas e autoritários, dois dos quais negam a ciência (Trump e Bolsonaro) e um (Putin) não olha a meios para atingir o poder absoluto. Neste caso, o "coronavírus" e as medidas de confinamento, são uma óptima ocasião para melhor controlar a população, a exemplo do seu homólogo Orbán, (Hungria) que aproveitou o "estado de emergência" para declarar o "estado de sítio" permanente. A dissidência paga-se caro, nos antigos países do Leste Europeu.
No Brasil, Bolsonaro um caso patológico de estudo, continua a refutar tudo e todos, numa desesperada tentativa de manter o poder que pode estar por um fio. Depois de negar os perigos de infecção e movimentar-se livremente por entre os seus apoiantes (desvalorizando dessa forma o contágio), perdeu os seus ministros de saúde, que recusaram aplicar medidas sanitárias contraproducentes e nomeou, para o mesmo ministério, um militar sem qualquer formação médica. No meio da polémica, perdeu ainda Moro (ministro da justiça) que denunciou a ingerência do presidente no seu departamento, para além de ter convocado uma manifestação (falhada) com vista a pressionar o Congresso brasileiro, o que lhe valeu um processo de "impeachment". De resto, não é o primeiro que lhe é movido o que, a acontecer, poderá provocar a sua queda.
A manter-se o aumento exponencial de infecções, provocadas pelo vírus, o Brasil corre sérios riscos de se tornar um país ingovernável a curto prazo: desde logo pela estupidez do seu presidente, um demente fascista, para quem a vida dos seus cidadãos nunca importou (sempre elogiou a ditadura e os seus torturadores); depois, pelos meios sanitários insuficientes para acudir a uma população empobrecida e desesperada em sobreviver, que pode vir a revoltar-se, se não tiver alternativas.
Temendo isso, os militares (com Mourão à cabeça) movimentam-se na retaguarda, construíndo cenários e fazendo ameaças, projectando já um futuro sem Bolsonaro. Mas, com quem? Essa é a grande questão neste país, dividido após o golpe contra Dilma, que permitiu aos fascistas chegar ao poder através de eleições.

Entretanto, na Europa, continuam as negociações para criar um fundo europeu de ajuda aos países afectados pela pandemia. Depois de um primeiro confronto no Eurogrupo, entre os defensores de "eurobonds" (Espanha, Itália, Portugal e França) e os defensores de empréstimos, através do Fundo de Estabilidade e Emergência Monetária (Holanda, Austria, Finlândia e Suécia), que opôs violentamente a Holanda e a Itália, conseguiu chegar-se a um acordo de intenções, que resultou na aprovação de um Fundo de 500.000 milhões de euros a fundo perdido (proposta da Comissão). Esta semana, a proposta foi, de novo,  alvo de discussão. Em princípio, os países pareciam estar de acordo, já que a crise actual não é uma crise económica (como a anterior), mas sanitária (que a todos afecta) e para a qual são exigidas medidas de solidariedade. Acontece que, a solidariedade europeia, já conheceu melhores dias. Os países do Norte (Holanda, Austria, Suécia e Dinamarca) só aceitam a subvenção a "fundo perdido" (uma variante da "mutualização da dívida") caso as contas dos países do Sul possam ser auditadas e controladas exteriormente...Subjacente a esta ideia, está a convicção de que a fraude é uma especificidade do Sul, como se os países do Norte fossem mais sérios. Basta lembrar a existência do "offshore" holandês, que enche os seus cofres com o dinheiro de impostos desviados do Sul, para constatar que a Holanda (e os restantes países que apoiam a sua posição), não tem qualquer moral nesta questão, pois pratica uma política de "olha para o que eu digo, mas não olhes para o que faço". Maior hipocrisia, era difícil.
Posto isto, qual a solução? 
A não ser que, mais uma vez, Merkel (e Macron) "ponha ordem" nesta inacreditável exigência por parte de países que se consideram "moralmente superiores" (como se não tivessem todos sido atingidos pelo mesmo vírus), não se vê uma saída airosa para esta crise. A menos que a Europa se divida ainda mais.  Nesse caso, terminará enquanto projecto europeu. Já faltou mais.

2020/05/11

Oito semanas noutra cidade: Começou a Fase 1...


Em Espanha, 51% da população entrou, esta semana, na Fase 1 do desconfinamento.
São 11, as actividades permitidas nesta fase, a saber:
Reuniões sociais até 10 pessoas; abertura de pequenos comércios; abertura de esplanadas (50% do espaço); abertura de hotéis e estabelecimentos turísticos; abertura de lugares de culto (30% de participantes); sectores agro-alimentares e pesqueiros; treinos de equipas profissionais; mercados ao ar livre; espectáculos culturais em sala (até 30 pessoas); espectáculos culturais ao ar livre (até 200 pessoas); visitas a museus (30% de visitantes); velórios (em círculo restrito).
De todas as medidas, a mais importante foi a abertura dos pequenos comércios. A razão é simples: abriram os barbeiros.  Pela primeira vez, em 3 meses, pude voltar a cortar o cabelo e a barba. Um luxo, com direito a reserva feita de véspera, e o primeiro cliente a ser atendido ainda não eram 9h da manhã!... Com um sorriso nos olhos, que a sua dupla protecção (máscara e viseira) denunciavam, o verdadeiro Barbeiro de Sevilha "despachou-me" em menos de meia-hora. Cá fora, enquanto aguardavam pela sua vez, dois clientes, de máscara posta, discutiam os inconvenientes do confinamento.
De facto, não tem sido fácil a vida nas últimas semanas, pesem as declarações dos principais responsáveis pela gestão da crise (governo e autoridades sanitárias) nesta luta contra o tempo em que todas as variáveis importantes (saúde, economia, apoios sociais) são avaliadas diariamente. Só no passado fim-de-semana foi possível desbloquear a resistência de dois partidos da oposição (Ciudadanos e PNV) às medidas anunciadas pelo governo para as diferentes regiões espanholas. Devido ao elevado perigo de contágio, ficaram de fora da fase 1 as regiões de Madrid, Cataluña, Valencia e Castilla y León. Em Andaluzia, uma das regiões com mais baixo índice de infectados, só Granada e Málaga, não passaram à fase 1. Todas as restantes regiões de Espanha (correspondendo a mais de 50% da população total) passou o primeiro teste. À medida que o número de infectados e de mortes decrescer, passar-se-á às fases seguintes, com a duração média de 15 dias por fase. De acordo com os últimos dados, a Espanha registava, este fim-de-semana, um total de 268.143 infectados, um total de 26.774 mortos e 123 novos casos registados, o mais baixo número desde o início da epidemia. Já em número de mortes por milhão de habitantes, o país regista 572 casos, uma das mais altas percentagens a nível mundial.
Porque as comparações são inevitáveis, o jornal "El País" dedicou uma página inteira, da sua edição de domingo, ao nosso país, sob o título: "Portugal: misma península, cinco veces menos muertes". No extenso artigo, da autoria de P. Linde e J. Martín de Barrio (correspondente em Lisboa), os articulistas perguntam-se: "?Cual es el secreto? ?Cuales son las diferencias entre dos países de cultura similar que comparten una misma península? Los expertos de uno y otro lado de la frontera señalan varios factores, como el menor trânsito de viajeros (especialmente con Italia), pero, sobre todo, coinciden en que los lusos actuaron antes. Tuvieron tiempo de ver lo que pasaba en otros países y, con un centenar de positivos y sin fallecimientos, declararon el estado de alarma, algo que en España se decidió com 4.209 positivos e 120 decesos. Para la epidemióloga Rita Sá Machado, "lo fundamental ha sido la anticipación y aplicación precoz de las medidas de salud pública, como el cierre de las escuelas". El Govierno lo ordenó el jueves 12 de Marzo (78 contagios en el país) y se aplicó el lunes 16 (331 contagios y la primera muerte). Una semana depués comenzaba el estado de emergencia (1.200 contagios e 12 muertes). "También fueron muy importantes la variedad de medidas aplicadas entonces, pues permitieron controlar la expansión de la epidemia".
O artigo contém ainda opiniões de Alberto Infante (especialista em saúde pública) e de António Pires de Lima (ex-ministro de economia de Passos Coelho). Ambos coincidem na leitura feita pela epidemióloga, elogiando a pronta reacção do governo, ainda que este (relativo) sucesso, seja temperado pelas avisadas precauções de Graça de Freitas, directora-geral da saúde, ao alertar para os perigos de uma recidiva, agora que a população portuguesa parece estar mais descontraída.
Entre as muitas vítimas do Coronavírus, a imprensa espanhola noticiou também a de Billy El Niño, do seu verdadeiro nome Antonio Gonzalez Pacheco, famigerado torturador da polícia franquista, que tinha dado entrada numa clínica de Madrid esta semana. Ainda que tenha passado apenas onze anos na Polícia Nacional (1971-1982) era um dos homens mais temidos nos calabouços da Direcção Geral de Segurança, situada nas Portas del Sol, em Madrid. Existem centenas de testemunhos de vítimas, que descrevem as torturas a que foram submetidos por El Niño. Ums das mais conhecidas é a de José Maria "Chato" Galante, que denunciou o polícia franquista à justiça argentina, num processo conduzido pela juíza Maria Servini, que serviu de fio condutor ao documentário "El Silencio de Otros", sobre as vítimas da ditadura franquista. Galante morreria no passado dia 28 de Março, também ele vítima do Coronavírus. No entanto, legalmente, Gonzaléz Pacheco estava blindado, uma vez que o processo instaurado pelo tribunal argentino, que pediu a sua extradição para ser julgado por crimes contra a humanidade, foi considerado prescrito em 2014.
Pesem as tentativas canhestras de apagar a memória da ditadura, alguns passos positivos vão sendo dados na boa direcção. Um dos mais importantes, pelo seu simbolismo, foi o do Conselho Andaluz de Cultura, ao declarar "Bem de Interesse Cultural" (BIC) o legado de Federico Garcia Lorca, depositado no centro, que leva o seu nome, em Granada. O legado do escritor, que chegou ao Centro Federico Garcia Lorca, enviado da Residência de Estudantes de Madrid, em Junho de 2018, integra 5000 objectos que incluem praticamente todos os manuscritos das suas obras teatrais, poética e em prosa. A partir de agora, o legado de Lorca em Granada, que pertence a uma fundação ligada à família do escritor, mas que pode ser consultado no Centro García Lorca, tem garantidas a "unidade e a sua conservação em optimas condições", segundo o Conselho de Cultura. Para Laura Garcia Lorca, sobrinha do poeta, esta protecção do legado "tem todo o sentido e é uma satisfação para a fundação, para a família e tem que sê-lo para Andaluzia".
Algo é algo, como dizia o poeta...

2020/05/04

Sete semanas noutra cidade: começou a fase 0...


Depois do levantar o confinamento para "niños" até aos 14 anos, desde que acompanhados pelos pais ou tutores identificados, o governo espanhol "autorizou" os maiores de 70 anos (leia-se "grupo de risco") a saírem da quarentena, em períodos diferenciados do dia. Podem, agora, sair das 10h às 12h e das 19h e as 20h, diariamente. Uma alegria.
Durante o dia, só os adultos empregados em funções imprescindíveis (médicos, enfermeiros, maqueiros, bombeiros, condutores de transportes públicos, taxistas, polícia, ou serviços indispensáveis, como a água, electricidade e gaz) estão autorizados.
Para além destes grupos etários, as restantes pessoas (todas, portanto!) podem sair para tarefas indispensáveis: ir ao supermercado, à farmácia, ao multibanco, passear o cão e fazer "jogging", desde que mantenham o distanciamento social de dois metros e usem máscara e luvas. Para dentro de casa mantêm-se as recomendações iniciais: lavar as mãos com álcool ou gel (sabão azul e branco, também serve), mudar de roupa e acessórios quando se sai/entra em casa, lavar as máscaras e as luvas com desinfectante, etc. Uma trabalheira, para além da despesa implícita. Já vou na terceira versão da máscara e cada vez as compro mais caras. Há as ordinárias (misto de papel e têxtil) que custam 96c e são para usar e deitar fora; as de têxtil melhorado, que custam €5,90 e as profissionais ("bico de pato") que custam €6,60. As primeiras (quirocirúrgicas) evitam contaminar o parceiro, mas nós podemos ser infectados; as segundas, sendo mais seguras, exigem lavagens frequentes; as terceiras, que parecem viseiras da idade média, dada a sua forma ponteaguda, impõem respeito e mantêm as pessoas à distância. O pior é o calor na cara. Ontem, estiveram 35 graus em Sevilha e as máscaras profissionais são insuportáveis. Se o vírus não morrer com esta temperatura, morrem os cidadãos de certeza...

Fase 0
A Espanha entrou, oficialmente, na fase 0.
Entretanto, o governo deu a conhecer o programa de desconfinamento por fases. Serão cinco no total, com a duração de duas semanas, cada. Se tudo correr bem, em Julho terminará a quarentena. Se não (leia-se, aumento do número de infecções), volta tudo ao princípio.
A estratégia, subordinada ao título "A que horas posso sair à rua?", é a seguinte:   
Das 06h às 10h -  Maiores de 14 anos, sózinho ou acompanhado, num raio de 1km, sempre à distância de dois metros. Os desportistas individuais, não têm limite de circulação, dentro do município;
Das 10h às 12h - Maiores de 70 anos, sózinhos ou acompanhados.
Das 12h às 19h - Menores de 14 anos acompanhados.
Das 19h às 20h - Maiores de 70 anos, sós ou acompanhados.
Das 20h às 23h - Exercícios físicos ou passeios. Não são permitidos carros ou transportes públicos.
Estas medidas não se aplicam em municípios com menos de 5000 habitantes.
Consultada a tabela, verifico que posso sair em todos os períodos, à excepção daquele compreendido entre as 12h e as 19h, dedicado aos "niños". Nada mau...
Como era de esperar, pouca gente respeita as regras e não se vê tanta polícia como nas primeiras semanas de confinamento. Os carros de patrulha, passam agora discretamente pelos transeuntes e só interferem quando vêem grupos parados nos passeios. A ordem, nesta altura, é para circularem.
O plano gerou inquietação no mundo empresarial (indústria, hotelaria, restauração, imobiliárias e grandes armazéns) e os protestos não se fizeram esperar. Na melhor das hipóteses, só na 2ª quinzena de Maio e com restrições (ocupação de 1/3 dos lugares disponíveis, distanciamento mínimo nos hotéis, restaurantes, etc...), haverá um afrouxamento de algumas medidas. As reuniões e as petições contra as medidas do governo, já surgiram e os partidos políticos da oposição aproveitam o descontentamento dos empresários, para apertarem o cerco a Sanchéz/Iglésias, que tentam manobrar no meio da tempestade que se avizinha. O PIB deve cair 9% e tudo aponta para que a dívida espanhola ultrapasse os 120% do PIB, enquanto o desemprego pode disparar até 20% da população activa. A "tempestade perfeita", no dizer dos analistas. É por isso, natural, que o PP, o CCds e o VOX tentem explorar a crise. 
A boa notícia, é que o IFEMA (hospital provisório, construído em Madrid, para receber infectados) encerrou as suas portas, por não ter mais pacientes. Pelas suas instalações, passaram no último mês, mais de 4000 infectados. Ontem, foram registadas 164 mortes,  a nível nacional, o número mais baixo desde a primeira quinzena de Março.

Ainda que estejamos longe do fim da pandemia (que parece ter ultrapassado o seu pico na Europa, mas continua a deslocar-se para outros continentes), os métodos utilizados para combatê-la, podem ser reduzidos a três tipos de intervenção distintos: o do confinamento tradicional (exemplos: Portugal, Espanha, Itália, França, etc...); o do semi-confinamento ou sistema aberto (exemplos: Suécia, Holanda, UK, EUA) e o sistema asiático, de controlo digital (exemplos: China, Coreia do Sul, Taiwan, Japão e Singapura). Todos têm os seus adeptos e detractores, pelo que a polémica está longe de encerrada.
Na Ásia, onde o vírus foi detectado (China), os países mais atingidos debelaram o vírus com relativa rapidez e eficácia, graças ao sistema de controlo digital existente, que permite seguir todos os passos dos cidadãos, através de uma "app" instalada nos seus telemóveis que, por sua vez, estão ligados a um sofisticado sistema de cãmaras de vigilância. A "app", que serve para medir a febre do portador do telemóvel, está ligada ao sistema central de informação e, a partir de identificação pessoal, é fácil rastrear quem está infectado ou não. Dessa forma, foi possível confinar a população infectada e isolá-la do resto da população. Um êxito (só possível em estados fortemente centralizados e autoritários) onde os cidadãos, aparentemente, confiam no estado "protector" e não se importam de partilhar informação.
Método diferente, e mais consensual, é o do confinamento total (afinal, já usado na Idade Média) quando se desconhecem as causas (vírus) e não existe tratamento (vacina) para a cura. Isolam-se as populações em casa, coercivamente se necessário, de forma a diminuir o risco de contágio e a evitar o colapso das unidades hospitalares que, em caso de pânico, ficariam sobrecarregadas.
Finalmente, o sistema aberto (ou "inteligent lockdown") que tem os seus adeptos nos países europeus mais liberais e foi seguido e.o. pela Holanda, pela Suécia, pela Noruega, pelo UK e pelos EUA. Este sistema defende a "imunidade do rebanho" (herd's imunity) segundo a qual, a imunidade de grupo, é atingida quando 60% da sua população fica infectada. Nessa altura, o grupo-alvo, está imune. Isto, enquanto não houver vacina, claro.
Johan Giesecke, ex-director geral da saúde sueca e actual assessor para questões epidemiológicas naquele país, deu ontem uma entrevista ao "Público", onde defende o método sueco, aconselhando as pessoas a fazer a sua vida normal ao ar livre, ainda que mantendo o distanciamento social aconselhável. Também diz que a imunidade de grupo, na Suécia, rondará os 25% na região da grande Estocolmo (2,5 milhões de habitantes), o que quer dizer que cerca de 625.000 cidadãos suecos, já estarão imunes. Na mesma entrevista, afirma que, quando esta pandemia terminar, os números de mortes serão muito semelhantes em todo o continente europeu...
Fomos consultar os dados disponibilizados pela Organização Mundial de Saúde (site "worldometer"):
Dos 30 primeiros países da lista, só 6 países apresentam mais mortes em números relativos (mortos por milhão de habitantes) do que a Suécia: a Espanha (544), a Itália (478), o Reino Unido (419), a França (381), a Bélgica (684) e a Holanda (297). A Suécia tem 274/por milhão. Os restantes 23 países, entre os quais Portugal (104/por milhão), têm todos menos mortes.
Em ambos os grupos, há países que defendem o confinamento geral e países que defendem o sistema aberto. Portugal, que tem sensivelmente o mesmo número de habitantes da Suécia (10 milhões) e defende o confinamento geral, tem quase 3 vezes menos mortos que a Suécia, que tem um sistema aberto. Afinal, em que ficamos?
Numa coisa, estou de acordo com Giesecke. Ele alerta para os perigos dos estados de emergência, que os ditadores não deixarão de aproveitar para aumentar o seu poder. Dá o exemplo de Orbán (Hungria). É verdade. Por isso, para além de combater o vírus, também é preciso combater os ditadores.

2020/04/29

Seis semanas noutra cidade: uma luz ao fundo do túnel...

foto Extra Venezuela
Pela primeira vez, em 6 semanas, as crianças espanholas puderam sair à rua depois de 42 dias de "confinamiento". Um acontecimento nacional, celebrado por todas as famílias com filhos menores, impedidos de ir à escola desde o dia 16 de Março. Na passada segunda-feira, as ruas de Sevilha encheram-se de pais atentos e cuidadosos, que passeavam de mão dada com os "niños", como se fora a primeira saída da sua vida. Milhares deles, pais e filhos, em grupos de 3 e 4 pessoas, a pé ou de bicicleta, nos parques e ruas da cidade. Uma festa!
O episódio gerou uma onda de anedotas nas redes sociais, das quais destacamos aquela onde um pai pressuroso, é interrogado por um polícia, que lhe pergunta: "onde vai o senhor, sózinho?"... "ah, pois, tenho de voltar, tenho de voltar...na pressa, trouxe os bilhetes de identidade, meu e do "niño", a licença paternal para poder acompanhá-lo, o "lanche", a garrafa de água, a máscara, as luvas, a mochila, a fita métrica para medir a distância permitida e... esqueci-me do "niño"!".  
Para que isto acontecesse, foram necessárias semanas de isolamento draconiano, preconizadas num dos países mais afectados pela actual pandemia: 236.899 infectados e 24.275 mortes, o que tornou a Espanha no 2º país com maior número de infectados e o 3º com maior número de mortes, a nível mundial. Tratam-se de números absolutos (fonte: worldometer), que não contabilizam os números relativos por país. Pior, só mesmo os EUA e a Itália (em número de mortes), ainda que, noutros países (França, UK, Alemanha, Turquia, Irão, Brasil, China, Bélgica, Holanda...) o número de infectados continue a crescer. Dado que os infectados são sempre mais do que revelam as estatísticas e sabendo que o número de testes está muito aquém do necessário, fácil é concluir que estamos longe de uma pandemia controlada. Isto, apesar dos sinais positivos que vão sendo dados nalguns países onde o "pico" da pandemia foi ultrapassado e onde se iniciou a chamada fase do "achatamento" da curva de infecções. Mas faltam muitos países de risco anunciado, como o Brasil (onde em poucas semanas, o número de infectados e mortos ultrapassou os da China), a Índia ou a Indonésia, países de grande densidade populacional, com graves problemas sanitários e onde os sistemas de saúde deixam a desejar. Uma longa marcha e ainda falta África...
Não está fácil o combate ao vírus, ainda que algumas análises pretendam desvalorizá-lo, apresentando estudos comparativos, onde demonstram que a gripe mata mais pessoas no Mundo inteiro do que o Covid19. É verdade, mas para a gripe há vacina e para o Covidis19 (ainda) não. Enquanto não for resolvido este problema (que pode demorar um ano ou mais) o vírus vai continuar a disseminar-se pelo Mundo e voltar a "atacar". Os especialistas (vírologistas, epidemiologistas...) já avisaram sobre a recidiva no próximo Inverno. Só negacionistas, como Trump e Bolsonaro, desprezam a ciência e, por isso, estão a pagar com "língua de palmo" a sua ignorância. Boris Jonhson, outro tonto, também pensava que o Reino Unido podia continuar com a "city" aberta, pois a economia não devia parar, mas a realidade foi mais forte que o "mercado de capitais". Resta saber se, depois da quarentena forçada a que foi obrigado, aprendeu alguma coisa com a infecção...
Em Espanha, independentemente das medidas que o governo anuncie, a oposição condena sempre. Sem poder constituir uma alternativa de poder, dada a composição parlamentar actual, os partidos de direita franquista (PP e Vox), alternam-se nas críticas ao executivo: ou porque faltam máscaras, ou porque estas são caras, ou porque faltam testes, ou porque a economia não pode parar, ou porque os apoios para as regiões são poucos, enfim, a lista é longa. Mesmo depois do pré-acordo, conseguido na passada semana em Bruxelas, que prevê a maior ajuda europeia para esta crise, o governo de Sánchez não parece ter a vida facilitada. O endividamento do país (dívida pública), o fraco crescimento económico e o desemprego, previsiveis após a crise sanitária, apresentam-se como os grandes obstáculos para uma recuperação rápida da economia e a oposição tudo fará para derrubar a coligação actual (PSOE/Podemos) no poder. Só não o conseguirá, se os catalães (uns cretinos, nesta crise) o não quiserem. Tudo em suspenso, em Espanha, pois.
Interessantes, têm sido as opiniões do homem comum e dos "media" espanhóis (El País, El Diario de Sevilla) sobre Portugal. Depois dos rasgados elogios do New York Times e da Euronews, à forma como Portugal tem enfrentado esta crise - um país com fracos recursos e um sistema de saúde fragilizado depois da crise de 2008 - é a vez dos espanhóis se "renderem" à eficácia do método português. Um excerto de um artigo, intitulado "La Excepción Portuguesa", no "El País" de ontem (dia 28 de Abril):
"Con la quarta parte de población que España, Portugal tiene una tasa de mortalidad por coronavirus del 3%, mucho más baja que las de España (10%), El Reino Unido (12%) o Francia (15%) y la razón de esta notable diferencia es analisada por el periodista Paul Ames, quien destaca que ni su aventejada población ni una sanidad con escasos recursos han impedido un éxito de gestión que ha mitigado el castigo de la Covid19". E o cronista, continua: "Los portugueses comprendieron de imediato que debían compensar sus limitaciones. El autor ha conversado con Ricardo Baptista Leite, médico especialista en enfermedades infecciosas y diputado del PSD, el partido de oposición de centroderecha, quien destaca la enorme solidaridad que han demonstrado por ser conscientes de que Portugal tenía que hacer un esfuerzo mayor que otras naciones si queria doblegar la curva de contagios". Ames aponta outra importante diferença, em relação a Espanha e Itália: " Al primer ministro, Antonio Costa, no le han disparado franco-tiradores de la oposición, porque los políticos se han dado una tregua muy envidiada em Madrid. Baptista Leite defiende que este es el momento de colaborar, no de confrontar, y de que públicamente se proyecte una imagen de unidad aunque en privado se hagan llegar al Gobierno críticas por algunas decisiones". 
Pois é, a cooperação, contra um inimigo comum.
Em Sevilha, onde me encontro há seis semanas em "confinamiento", as palmas diárias de apoio ao pessoal médico e sanitário, também são intercaladas por "panelaços" de saudosistas, que penduram bandeiras franquistas nas varandas. Já a música, em alto volume, é para todos os gostos. Há prédios que preferem "Sevilhanas" e outros que preferem "La Bella Ciao". É difícil agradar a Gregos e Troianos, neste país.  
                 
   

2020/04/15

Duas semanas noutra cidade (9): Espanha, Confinamentos e Estratégias


Rainha Máxima da Holanda e o marido Rei Willem-Alexander na Feria 2019 (foto Look)

Depois de uma semana "santa", em que o sol brilhou e a temperatura não baixou dos 22º, voltou a chover em Sevilha. Chuva e trovões, que o "criador" não parece ter gostado da forma como os citadinos voltaram à "festa"...
Mal passou a Quaresma, mudaram as regras sociais. O que antes era penitência e martírio, transformou-se em música pop e "sevilhanas". A explicação é simples: dentro de quinze dias, teria lugar a "Feria", este ano cancelada por motivos óbvios, pelo que os habitantes da cidade não podem reencontrar-se naquela que é considerada a maior festa tradicional andaluza: dez dias de feira popular gigante, visitada anualmente por milhares de pessoas, vindas de todo o país para ver e frequentar as centenas de tendas, agrupadas em colectividades culturais e associações de ganadeiros e agricultores da região, onde a entrada é exclusiva. Depois, existem as tendas públicas, onde se pode provar tudo o que é petisco regional e ouvir música ao vivo. Com sorte, é possível ver bons espectáculos de Flamenco e dançar "sevilhanas", em palcos espalhados pela Feira. Pelas largas alamedas, passeiam grupos de sevilhanas, deslumbrantes nos seus trajes de lunares, enquanto os ganadeiros da região ostentam riqueza, montados em "puros sangue" andaluzes e passeando em charretes descobertas, com cocheiros de libré. Anexo ao recinto principal, existe ainda um "lunapark", onde os mais jovens se divertem sob o olhar condescendente dos pais. A polícia, omnipresente, regula o trânsito e impede os excessos. Uma orgia de côr e música, que nenhum sevilhano que se preze, deixa de visitar uma vez por ano.
Desta vez, devido ao "confinamiento", restam as varandas e as açoteias dos prédios, onde todos os dias, pelas 20h, os habitantes da cidade agradecem aos profissionais da saúde, com uma longa salva de palmas e música: depois de uma semana de marchas e pregões religiosos, a alegria das "sevilhanas", transmitidas através de aparelhagens sonoras que são escutadas em todo o bairro. Uma festa contagiante.
Esta (genuína) alegria, não ignora a triste e dura realidade. Pesem as medidas draconianas, anunciadas e postas em prática pelo governo espanhol, de que somos testemunha diariamente (patrulhas de policias armados de metralhadora, controlo severo nos transportes públicos e unidades paramédicas instaladas em lugares estratégicos, para acudir aos necessitados), a verdade é que o número de infectados e mortes, causado pelo coronavírus, não pára de subir. Hoje, eram 177.633 e 18.579, respectivamente, o que faz de Espanha o segundo país com mais infectados e o terceiro com mais mortes, a nível mundial. A maior crise humanitária, desde a segunda guerra mundial.
Da situação, tentam tirar proveitos politicos os dois maiores partidos da oposição, que não perdem uma ocasião para criticar as medidas do governo. Enquanto, Casado (líder do PP, direita conservadora) acusa o governo de tomar decisões de forma unilaterar e declara não estar disposto a apoiar o governo ou assinar mais "Pactos de Moncloa" (acordo entre partidos parlamentares, em 1977, n.r.); Abascal (líder do Vox, fascista) acusa o governo de practicar uma "eutanásia feroz" e de ter uma "gestão criminosa", na contenção da pandemia do vírus. As declarações, deste homem defensor do "senso comum", têm sido acompanhadas por mentiras nas redes sociais, onde sugere que o governo censura as mensagens telefónicas relacionadas com o vírus, que os imigrantes são beneficiados no tratamento em hospitais, ou que a causa de morte dos infectados é devido à "peste chinesa", entre outros mimos. Nada que nos surpreenda, já que o nihilismo e as "fakenews", a par da negação da ciência e o ódio aos estrangeiros, faz parte do discurso de todos os populistas de direita. Veja-se o caso de Trump (USA) Bolsonaro (Brasil) ou, mais perto de nós, Orbán (Hungria), Le Pen (França), Wilders (Holanda) e Ventura (Portugal).

Acontece que o sucesso da China e de outros países asiáticos, no combate ao Coronavírus, se deve a factores culturais e políticos específicos, que explicam a forma como abordaram a pandemia, para a qual, de resto, a OMS já tinha alertado em 2016.
No excelente ensaio "Coronavirus y estado policial. La revolución viral",  publicado em 22 de Março último no El País, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, traça uma panorâmica da expansão do vírus e aponta as razões pelas quais, segundo ele, a Europa está a fracassar no combate à pandemia.
Um resumo: as cifras dos infectados não param de aumentar em Itália, Espanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suiça ou Alemanha, onde diariamente morrem centenas de pessoas e têm de ser tirados ventiladores aos mais velhos para dá-los aos mais jovens, enquanto se decretam estados de excepção que, em última análise, legitimam o "estado soberano" (que decide sobre o estado de excepção) e fortalecem o nacionalismo. Segundo ele, esta é uma exibição de soberania que de pouco serve, da mesma forma que proibir a entrada de estrangeiros nesta altura, é um acto absurdo, já que a Europa é justamente o continente para onde ninguém quer vir agora. Seria muito mais útil a eficaz cooperação entre estados europeus e proibir a saída de europeus para outros continentes, uma vez que a Europa é o epicentro da epidemia.
Em comparação com a Europa, quais as vantagens que o "sistema asiático" pode oferecer na eficiência do combate ao vírus? Estados asiáticos, como o Japão, a Coreia, a China, Hong-Kong, Taiwan e Singapura, têm uma mentalidade autoritária que vem da sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos negativas e mais obedientes que na Europa. Também confiam mais no estado. Não apenas na China, mas também na Coreia e no Japão, a vida está organizada de uma forma mais estrita que na Europa. Sobretudo, para detectar o vírus, os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Admitem que a "big data" pode encerrar um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderia dizer-se que as pandemias na Ásia não são apenas combatidas por virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo por informáticos e especialistas em macrodata. Uma mudança de paradigma, da qual a Europa não parece ter-se dado conta. Ou seja, a "bigdata" salva vidas humanas.
A consciência crítica, perante a vigilância digital, praticamente não existe na Ásia. Apenas se fala da protecção de dados em democracias liberais como o Japão ou Coreia. Ninguém se opõe à recolha de dados pessoais pelas autoridades. Na China, criaram um sistema de crédito social, inimaginável para europeus, que permite uma valorização e uma avaliação exaustiva dos cidadãos. Na China, não há nenhum momento da vida quotidiana que não esteja submetido a avaliação. Controla-se cada clic, cada cada compra, cada contacto, cada actividade nas redes sociais. A quem atravessar o semáforo vermelho, a quem tiver contactos com críticos do regime, ou a quem coloque comentários críticos nas redes sociais, tiram pontos. Nesse caso, a vida pode tornar-se muito perigosa. Ao contrário, a quem comprar alimentos sãos ou quem ler publicações do regime, dão pontos. Na China isto é possível, porque existe um intercâmbio, sem restrições, entre os provedores da internet, os telemóveis e as autoridades. Praticamente, não existe protecção de dados e não se conhece o conceito "esfera privada".  
Na China, 200 milhões de câmaras de vigilância, muitas delas dispondo de tecnologia de reconhecimento facial detalhado, permitem vigiar e controlar todos os cidadãos em espaços públicos. Ao sair do metro ou do comboio, as câmaras medem a temperatura corporal dos passageiros e avisam-nos, assim como aos restantes passageiros, do perigo de contágio. Este tipo de rastreio, permitiu isolar e testar potenciais infectados e dirigi-los para unidades hospitalares onde são tratados. Esta foi, de resto, uma das razões do sucesso do combate ao vírus, que em menos de três meses, limitou a epidemia, em Wuhan e em 12 cidades circundantes, a números residuais. Sobre isto e muito mais, no próximo "post".

(continua)

2020/04/07

Duas semanas noutra cidade (7): Santos, Vírus e Testes


Em tempos normais, a semana da Páscoa é, por tradição, a mais celebrada e concorrida em toda a Espanha. Em Sevilha, o epicentro das comemorações, a "Semana Santa", congrega o maior número de devotos e forasteiros, ainda que haja celebrações nos principais centros urbanos do país.
A cidade pára literalmente durante a maior parte da semana, com serviços públicos, departamentos e escolas,  encerrados para o grande evento. A população, calculada em mais de 700.000 pessoas, prepara-se o ano inteiro para a celebração. Desde logo, através do "Consejo General de Hermandades e Cofradías de la cidade de Sevilla", orgão máximo, responsável pela organização dos rituais religiosos, que determina quais as confrarias participantes (são mais de cinquenta!), quais os percursos seguidos pelas procissões (todas passam, obrigatoriamente, pela Catedral de Sevilha e pelo "Ayuntamiento", onde são instaladas bancadas para os "vips" da cidade); quem transporta os andores nas procissões (constituídas por santos, virgens, mistérios, penitentes e crucificados); os "costaleros" (equipas de 30 moços que alternam, à vez, o transporte dos altares, que chegam a pesar toneladas); os "hermanos", representantes das dezenas de irmandades existentes na cidade; os "nazarenos", reconhecidos pelos seus capuzes ponteagudos de diversas cores, a lembrar os acólitos do "klu-klux klan"; para além de familiares e amigos, que encorajam e apoiam, com água e alimentos, os mais jovens. Toda a gente participa, dos veteranos aos mais novos, que vestem a rigor durante a semana: as mulheres, deslumbrantes nos seus trajes clássicos de "mantilla sevilhana"; os homens, em traje formal, de fato e gravata a condizer. As varandas, engalanadas para a ocasião, são alugadas com antecedência, não sobrando lugares nas açoteias e terraços nos percursos conhecidos. O turismo local, em colaboração com as diversas confrarias, edita pequenos guias em diversas línguas, sobre os locais e horas previstas da passagem de cada procissão, de modo a possibilitar, aos interessados, a possibilidade de escolher os melhores lugares para apreciar o evento. A maior parte das confrarias, são acompanhadas por bandas filarmónicas, que ensaiam todo o ano nas praças da cidade para o grande momento. As procissões têm lugar durante o dia, ainda que algumas só iniciem o seu percurso ao cair da noite, para terminar já de madrugada. Nessas ocasiões, as luzes apagam-se junto à igreja onde recolhe o andor e os estabelecimentos comerciais encerram. O único som audível, à distância, é o arrastar dos pés dos "costaleros", enquanto os "nazarenos", cobertos pelos seus capuchos e capas, empunham longas tochas de cera a arder e continuam a desfilar durante horas. Não raramente, as procissões nocturnas terminam com "saetas" flamencas, cantadas à capela por aficionados e profissionais das varandas mais próximas. Momentos de êxtase e "cante jondo" (canto profundo) sublimes.
A anormalidade, imposta este ano pelo "confinamiento", impediu a celebração centenária, mas não diminuiu a devoção dos habitantes de Sevilha. À falta de festa, os vizinhos do bairro esmeram-se, decorando as janelas e colocando altifalantes nas varandas, através dos quais transmitem "saetas", bandas filarmónicas e "pregões" (declarações) da Semana Santa. Os mais nacionalistas (estas coisas, andam sempre ligadas) mantém as bandeiras franquistas, que penduraram durante a crise catalã de 2018.
Não faltam episódios hilariantes nesta quarentena: desde o homem que saiu a passear o cão, vestido de nazareno e carregando uma cruz às costas (o vídeo tornou-se viral e a polícia acabaria por detê-lo); à mulher infectada, que fugiu de um hospital onde estava isolada (acabaria por ser presa e voltar à quarentena), passando pelo vizinho do condómino onde me encontro, que ameaçou filmar e denunciar outro morador à polícia (!?) por este ter ousado sair à rua sem máscara (há sempre um "pequeno homem" com medo, como escreveu Reich, num dos seus escritos mais citados). Encontra-se de tudo um pouco. Entretanto, na Galiza, foi roubado um carregamento de um milhão máscaras, no valor de 5 milhões de euros, destinadas a Portugal (!?). Em tempo de crise, "quem tem olho..."
A crise viral continua a dominar os noticiários e as preocupações dos espanhóis. O país é já o segundo com maior número de infectados e mortos a nível mundial, resp. 146.690 e 14.555, não se vislumbrando decréscimo na curva de infecções nos próximos dias. Perante a catástrofe anunciada (20.000 mortes na projecção mais optimista e 40.000 mortes na mais pessimista), a Espanha entrou na terceira semana de "confiniamento", agora prolongado até ao próximo dia 26. As pressões e as críticas ao governo de Sánchez, para que reabra o congresso (actualmente encerrado) e para diminuir progressivamente as medidas de quarentena, têm vindo a aumentar, ainda que não seja fácil tomar esta decisão, enquanto o número de infecções não diminuir. As mais acérrimas críticas vêm, como sempre, do "pequeno homem" Abascal (VOX), que diariamente grava vídeos através do Instagram onde ameaça processar Sanchéz pela prorrogação do período de isolamento. Ontem, em mais uma histérica comunicação ao país, anunciou com ar solene "cortar relações" com o governo, enquanto este não abrisse o Congresso. A estupidez continua a dominar o discurso dos pequenos líderes. 

Conforme nos explicam diariamente os "experts" na matéria, há 3 questões a considerar nesta crise pandémica: a vacina (que não existe), o distanciamento social (como forma de reduzir a disseminação do vírus) e os testes (para avaliar quem está infectado). Sobre a vacina, é consensual entre vírologistas e epidemiologistas, poder demorar entre 12 e 18 meses, até ser comercializada. Sobre o distanciamento social (tomando as devidas precauções, com máscaras, luvas, desinfecções diárias de roupa e calçado) é fundamental, mas não impede a contaminação. Mais, podemos estar infectados e não ter sintomas. Quando a febre surge, a infecção já existe e, entretanto, já infectámos outras pessoas.
Finalmente, os testes. Há dois tipos de teste: o de diagnóstico rápido (aplicado na maioria de países e populações) e o teste serológico (que é caro e não está ao alcance de toda a gente). No primeiro teste, este pode dar negativo, mas podemos contrair a infecção no dia seguinte; no segundo teste, a imunidade é garantida pelos anti-corpos já existentes, o que permite contactos com outras pessoas, sem as infectar. A experiência, levada a cabo nos primeiros países infectados (China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Singapura) permitiu perceber que o isolamento, seguido à risca, pode resultar, ainda que só ao fim de alguns meses. Acontece que, em países de regime autoritário (como os países asiáticos referidos) é sempre mais fácil manter as populações confinadas, dada a obediência e disciplina existentes (confucionismo). Também o sentido colectivo e a confiança no estado é maior do que no Ocidente. Acresce que, em países como a China (portanto, um estado totalitário) a "data" existente, devido à ligação dos telemóveis pessoais às câmaras de vigilância em todo o país (mais de 200 milhões!) permite identificar, rapidamente, quem tem febre, através de um "app" que mede a temperatura do corpo. As pessoas assinaladas, são avisadas através do seu telemóvel e enviadas para quarentena. Essa é uma das razões, porque os países asiáticos conseguiram reduzir substancialmente a epidemia, enquanto na Europa e nas Américas, portanto mais atrasadas no uso da tecnologia existente, o surto viral continua a crescer exponencialmente. Preocupantes são, agora, os surtos em grandes países como os EUA e o Brasil, que não dispõem de sistemas de saúde de qualidade e onde o número de vítimas pode atingir proporções catastróficas. 

(continua)

2020/03/30

Duas semanas noutra cidade (5): "Confinamiento", Vírus e outras mortes

foto ABC Sevilla
A Espanha, entrou hoje no segundo período de "confinamiento". Até ao próximo dia 11 de Abril, na melhor das hipóteses, continuaremos "todos" em casa. Todos, é como quem diz. Diariamente, podem ser vistas pessoas na rua, fazendo compras ou, simplesmente, passeando os cães. Há cães que nunca devem ter saído tanto, tal o número de vizinhos a passear a trela...
As ruas de Sevilha, habitualmente fervilhantes de alegria, transformaram-se em tristes "calles", cujos únicos meios de transporte são, agora, os autocarros (vazios), os táxis e as ambulâncias. Nas principais vias de La Macarena, o bairro onde me encontro, há unidades para-médicas e carros de polícia em permanente estado de alerta. No centro (em redor da Plaza de Armas) o exército está de prevenção e colocou diversos blindados em pontos estratégicos, junto ao rio, para dissuadir os mais afoitos que por lá costumam passear.
Celebrações tradicionais, como a "Semana Santa" e a "Feira de Sevilha", atracções turísticas que, anualmente trazem milhares de forasteiros à cidade, foram este ano canceladas, com consequências que se prevêem desastrosas para a economia local.
Ainda que a Andaluzia, em termos relativos, mantenha uma baixa taxa de infectados quando comparada com as regiões de Madrid, País Vasco e Catalunha (as mais afectadas), os números não mentem. A Espanha passou a ser o 3º país com mais infectados a nível mundial (85.195) e o 4º país em número de mortes (7.340). Os dados são da OMS e podem ser consultados através da aplicação "worldometer". Uma catástrofe humanitária sem precedentes, a maior no país desde a 2ª guerra mundial.
Como em todo o lado, o oportunismo aproveita-se da crise. Os partidos mais à direita (PP e VOX) continuam a criticar o governo e a clamar por mais meios sanitários, ignorando deliberadamente a contenção de gastos e a privatização da saúde nos governos de Rajoy que, na eminente falência de La Caja, teve de pedir um resgate de 100.000 milhões de euros para salvar a banca (um dos maiores resgates na UE). Rajoy, acabaria por ser demitido, devido a uma moção de censura do Parlamento, tantos eram os casos de corrupção em que o PP estava envolvido. Na província foram, entretanto, reportados os primeiros casos de assaltos a moradias isoladas, por supostos agentes sanitários que se apresentaram aos moradores para inspeccionar as suas casas. Uma nota positiva: devido à diminuição do tráfico, a poluição ambiental, nas regiões mais industrializadas, caiu drasticamente. Nas ruas de Madrid, foram avistados os primeiros pavões e javalis, a passear à noite...
Nem todas as mortes, no entanto, são uma consequência do vírus. Outras mortes, por causas diferentes, vão chegando ao nosso conhecimento, através de amigos e da imprensa estrangeira. 
É o caso do cantor Pedro Barroso (1950-2020), pioneiro da "nova canção portuguesa" dos anos '60 (programa Zip-Zip) que tive o prazer de conhecer na Holanda. Lembro uma histórica intervenção em Nijmegen, organizada pelo grupo local de apoio à Reforma Agrária em 1976; uma curta digressão, que incluiu as cidades de Wageningen e Amsterdão em 1979; e, finalmente, em Amsterdão, onde voltaria a actuar em 1980, naquela que foi a sua última visita como cantor. Viria a reencontrá-lo em Lisboa, há dois anos atrás, durante um evento dedicado à cidadania, no páteo do Liceu Camões, liceu que ele frequentou em jovem. Estava já doente, afectado pela doença que viria a vitimá-lo este mês. A nossa amizade, apesar da distância física e temporal, manter-se-ia até final.
Da Holanda, chegam-me notícias de personalidades que acompanhei de perto e com quem me cruzei, durante a minha longa estada em Amsterdão. Registo quatro nomes importantes:
O político Harry van der Berg (1942-2020), deputado e ministro do PVDA (social-democrata), célebre por ter apoiado a causa dos refugiados e transportado diversas malas com milhares de escudos para Portugal (supostamente enviadas por Willy Brandt para ajudar Mário Soares na sua "cruzada" contra o comunismo). Mais tarde, veio a saber-se que o dinheiro era enviado pela CIA, que utilizava o deputado holandês, dado que este era detentor de um passaporte diplomático, o que não levantava suspeitas. O episódio, referido em todas as necrologias, já era conhecido há muito e está descrito, em detalhe, no livro "Contos Proíbidos: memórias de um PS desconhecido" de Rui Mateus, publicado pela editora D. Quixote, em 1996. O livro, que esgotou num ápice, nunca mais seria reeditado.  Vá lá saber-se porquê...
Outro personagem marcante, foi o professor Goudsblom (1932-2020) emérito sociólogo e conselheiro do governo holandês para questões sociais, que tive o privilégio de ter como docente na Universidade de Amsterdão, onde leccionava na década de setenta. Dos seus colégios, guardo a imagem do grande auditório da faculdade, repleto de "caloiros", que o escutavam religiosamente, enquanto nos iniciava nas ideias de Marx, Weber, Comte e Durkheim.
Da área da cultura, destaco a cantora Liesbeth List (1941-2020), representante da canção ligeira de qualidade, a solo e em duo, com Ramses Schaffy, o seu "partner" preferido. Cantou Teodorakis em holandês, à època preso pela junta militar grega. Relembro uma histórica actuação, num "meeting" de solidariedade com o povo grego, organizado no Hotel Kranapolsky em Amsterdão, no início dos anos setenta, onde seria a estrela da noite.
Destaque, ainda, para o jornalista Peter van Bueren (1942-2020), figura central da critica cinematográfica holandesa, durante mais de 40 anos, primeiro no diário de "De Tijd" e, mais tarde, no "De Volkskrant", onde terminaria a sua carreira em 2002. No mesmo ano, ser-lhe-ia atribuido o "Lifetime Film Achievement" pela sua contribuição para o cinema, durante o Internacional FilmFestival de Roterdão que eu, à época, acompanhava como colaborador do DN. O Peter morava no mesmo bairro de Amsterdão e encontrávamo-nos, frequentemente, no mercado da Ten Katestraat. Tinha um conhecimento enciclopédico e um humor cáustico, muito holandês, que nem sempre era apreciado por todos os colegas de profissão.  
Em Espanha, registo dois falecimentos de figuras públicas, na última semana:
A artista italiana Lucia Bosè (1931-2020), popularizada durante os anos do neo-realismo e cuja carreira se dividiu entre Itália e Espanha, onde vivia. No dia da sua morte, a televisão espanhola prestou-lhe homenagem, com a projecção do clássico "A Morte de um Ciclista", de Juan António Bardem" (1955), onde desempenha o principal papel.
Finalmente, a morte do activista Chato Galante (1948-2020), preso político durante o regime franquista e membro da "Asociación de Presos y Represaliados por La Ditadura Franquista". Era igualmente activista na ARMH (Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica). Vimo-lo recentemente na película "El Silencio de Otros" (prémio Goya 2019), documentário impressionante sobre o trabalho de exumação dos corpos fuzilados e enterrados em valas comuns, durante a guerra civil e durante a ditadura franquista. São mais de 115.000.   
A semana não terminaria, sem mais uma notícia alarmante, ainda que provável: o director do Centro de Coordenação de Alerta e Emergência, Dr. Fernando Simón, porta-voz do governo espanhol para a epidemia do Covid19, contraíu a infecção e encontra-se confinado em casa.  

(continua)