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2023/03/28

Sevilha: santos, carrascos e vítimas

A exemplo de anos anteriores, Sevilha prepara a Semana Santa, um dos seus mais famosos "ex-libris" e, certamente, a mais importante festividade religiosa de toda a Espanha. 

Na cidade, engalanada para o efeito, constroem-se apressadamente as últimas tribunas, por onde passarão os cortejos de mais de cinquenta irmandades, enquanto nos bairros decorrem os ensaios gerais das bandas de música e dos voluntários que transportarão os respectivos andores. Um trabalho hercúleo, se pensarmos que cada andor, entre imagens descomunais e parafernálias conjuntas, pode pesar mais de uma tonelada. São grupos de 10 a 20 jovens, que alternam no transporte dos santos, enquanto duram as procissões, ao longo de vários quilómetros. Uma verdadeira penitência, na acepção da palavra, a que não se recusam devotos de todas as idades e estratos sociais, em perfeita comunhão de festa e religiosidade pagãs. 

Paralelamente, a população, vê-se confrontada com outros problemas bem mais térreos e urgentes, que não têm parado de aumentar nos últimos anos. É o caso da saúde, cujos serviços têm vindo a deteriorar-se de ano para ano, consequência dos custos e da privatização do sector (lá como cá!) agravados pela recente epidemia, cujas sequelas continuam a fazer sentir-se entre as camadas mais desfavorecidas, confrontadas com a falta crónica de pessoal médico e as longas esperas nos estabelecimentos hospitalares.

A insatisfação dos utentes, mas também dos corpos clínicos, com o actual estado da saúde, gerou uma onda de contestação em toda a Andaluzia que, no passado sábado, encheu as ruas em 11 cidades da região. Só em Sevilha, a capital, desfilaram mais de 60 000 pessoas, convocadas pela plataforma "Marea Blanca" (Maré Branca), constituída por diversos sindicatos, partidos políticos e organismos particulares de apoio às reivindicações dos manifestantes. Um longo desfile, de mais de duas horas, que percorreu as principais artérias da cidade e terminou junto ao palácio de São Telmo (Presidência do Governo Andaluz) onde foram escutadas as principais reivindicações da plataforma, sob o lema "Saúde Pública de Qualidade!". Um exemplo significativo da mobilização popular existente que, de resto, é visível em todo o país, onde continuam os protestos. 

De índole diferente, mas não menos significativos, seriam os eventos em memória das vítimas do fascismo que, na mesma semana, decorreram em Sevilha. O primeiro, nas instalações da Fundação Blas Infante, no âmbito do lançamento do livro "La Niña de la Chaqueta Roja" da autoria de Susana Falcón (argentina, exilada em Espanha, durante a ditadura de Videla); e o segundo, no cemitério de San Fernando, por ocasião do enterro dos restos das vitimas de Pico Reja, no ossário criado para o efeito. Momentos de grande significado pela emoção, participação e denúncia de crimes, que apesar de perpetrados no século passado, não expiram nunca, pois a memória é impossível de apagar.

De Blas Infante (1885-1936), o "pai da pátria andaluza", sabemos quase tudo: um ensaísta notável (dele, a primeira versão da Constituição Andaluza), notário, advogado e político, filiado no partido republicano democrático. As suas convicções e militância política, rapidamente ganharam apoiantes entre aqueles que almejavam uma região mais autónoma e os seus adversários, maioritariamente apoiantes da causa falangista. Após a instauração da república espanhola, Infante ocupou diversos cargos como deputado pela sua região, até ao golpe de 1936, quando foi preso e, posteriormente, executado pelas tropas de Franco. Até hoje, o seu corpo nunca foi encontrado, pensando-se que poderá estar enterrado na vala de Pico Reja, a maior vala de toda a Espanha. A Fundação, criada em 1983, dedica-se à divulgação da sua obra e organiza regularmente actividades de índole cultural, com especial enfoque em obras políticas e literárias, como foi a apresentação do livro de Susana Falcón, que contou e.o. com a presença de diversos "diseurs",  da cantora Emma Alonso e do pianista José Manuel Vaquero.


Ontem, dia 27, a manhã seria dedicada à cerimónia do enterro dos restos mortais das vítimas (não-identificadas) da repressão franquista. Um acto, previamente anunciado, uma vez que os trabalhos de exumação, da vala Pico Reja, terminaram oficialmente em Dezembro último. Durante os três anos, que duraram as escavações, foram exumados os restos de 1786 vítimas, que aguardam posterior identificação no laboratório forense de Granada. 

À cerimónia, que contou com a presença do vice-presidente da Câmara de Sevilha, do anterior presidente do município e do Conselho Municipal da Memória, acorreram centenas de familiares de vítimas da ditadura franquista, transportando ramos de flores e cartazes alusivos ao acto. A maior parte, de idade avançada, mas todos eles imbuídos de uma determinação e coragem digna de registo. A cerimónia, após os discursos de representantes de diversas organizações, terminaria com uma singela homenagem à equipa forense Aranzadi, responsável pelas exumações, a cargo de Anartz Ormaza, que bailou um Aurrescu e de Manuel Gerena, que terminaria a sessão com um arrepiante "martinete", cantado em funerais.               

2023/02/22

Sevilha recorda Saura

Sevilha foi, na passada semana, a cidade escolhida para a entrega dos prémios "Goya", os mais cobiçados galardões do cinema espanhol, outorgados pela Academia de Cinema do país vizinho. 

Para esta 37ª edição, transmitida em directo para toda a Espanha, engalanou-se o auditório do palácio de Congressos "Fibes" (capacidade 2000 lugares) por cujas passadeiras desfilaram os nomeados, com a pompa e a circunstância que a cerimónia sempre exige. Um pouco a exemplo dos "óscares" de Hollywood ou dos "Bafta" britânicos, ainda que mais formais e sem o "glitter" que caracteriza os prémios americanos. 

Este ano, para além dos prémios habituais nas diversas categorias a concurso, seria atribuído um "Goya de Honra" a Carlos Saura, pela sua obra. O prémio (um busto de Goya em bronze) foi-lhe entregue em casa, previamente, dado o seu estado de saúde, já bastante debilitado.

Acontece que, na véspera da cerimónia pública, Saura viria a falecer. O que teria sido a consagração de uma carreira de 70 anos, acabaria por tornar-se uma homenagem póstuma, como póstumo foi o "Goya" que a viúva, e dois dos seus filhos, receberam das mãos do presidente da Academia. 

Com a morte de Carlos Saura (1932-2023) desaparece um dos maiores cineastas europeus. Gregorio Belichón, jornalista cultural, especializado em cinema, do "El País", não hesita em classificá-lo como um dos quatro grandes nomes do cinema espanhol, a par de Buñuel, Berlanga e Almodóvar, cujas obras refletem a história de Espanha do último século.

Ainda que grande parte dos seus filmes, não seja conhecida em Portugal (vá lá saber-se porquê...) destacamos alguns dos títulos mais emblemáticos da sua extensa obra (mais de 50 títulos): 

Os filmes realizados durante o período franquista: "Cuenca" (1958), "Los Golfos" (1960), "La Caza" (1966), "Pippermint Frappé" (1967), "El Jardin de las Delicias" (1970), "Ana y los lobos" (1973), "La Prima Angélica" (1974), então sujeitos ao crivo da censura.

Os filmes da transição pós-democrática: "Cria Cuervos" (1976), "Elisa, vida mia" (1977), "Mamá cumple 100 años" (1979), "Deprisa, deprisa" (1981), que lhe granjearam notoriedade internacional.

Os filmes de "baile flamenco", iniciado com "Bodas de Sangre" (1981), "Carmen" (1983) e "El Amor Brujo" (1986), uma das suas grandes paixões;

E, finalmente, a sua época mais eclética, com "El Dorado" (1988), "La Noche Escura" (1989), "Ay Carmela!" (1990), "Sevilhanas" (1992), "Flamenco" (1995), "Taxi" (1996), "Tango" (1998), "El Séptimo dia" (2004), "Fados" (2007), "Flamenco, Flamenco" (2010) e "Jota" (2016), e.o. 

Sobre "Fados" (o filme) não resisto a contar um pequeno episódio. O realizador, convidado pela Câmara Municipal e pelo Turismo de Lisboa, para dirigir um filme sobre a canção portuguesa, veio ao Museu de Fado, falar sobre o projecto. Estávamos em 2005 e ainda não havia argumento. Lembro-me de ter perguntado se pensava fazer um filme baseado numa história original ou seguir o modelo já experimentado em "Sevilhanas" e "Flamenco", documentários onde os intérpretes se limitam a dançar ou a cantar perante a câmara, sem qualquer ligação entre si. Saura, achou a pergunta interessante ("já vi que conhece os meus filmes..."), mas respondeu que ainda não tinha decidido. Para quem não viu o filme, a fórmula é a mesma dos documentários referidos. Do ponto de vista formal, um filme perfeito: as canções, os cantores, os músicos, a fotografia (do grande Vittorio Storaro). Tudo bom. Só não percebemos, o que estão lá a fazer cantores como Miguel Poveda, Chico Buarque, Caetano Veloso, Lila Downs ou Lura (!?). A menos que esta tenha sido uma exigência da produtora (espanhola) que pagou parte substancial do filme. De todos os filmes de Saura que vi, este é o que menos gosto... 

Finalmente, o grande vencedor dos "Goya" deste ano: "As Bestas" do realizador Rodrigo Sorogoyen, que levou para casa 9 estatuetas: melhor filme, melhor realizador, melhor actor principal (Denis Minochet), melhor actor secundário (Luís Zahera), guião original, montagem, fotografia, música e efeitos sonoros. Um filme denso e inquietante, sobre a propriedade rural, conflitos familiares, despeito, inveja, xenofobia e violência, num lugar ermo da Espanha profunda. Filmado na Galiza, em imagens de rara beleza, o filme prende-nos do primeiro ao último minuto, não nos largando muitas horas depois. "Un filmazo". Assim os distribuidores portugueses, o descubram e exibam. 


Foto- Anna Saura Ramón junto com o seu pai Carlos Saura- GTRES/GTRES

2022/10/03

XXII Bienal: em Sevilha, o Flamenco está vivo!

 

Decorreu, durante todo o mês de Setembro, mais uma edição da Bienal de Flamenco, o maior e mais prestigioso evento dedicado à arte "jonda" que, de há dois séculos a esta parte, apaixona os melómanos e estudiosos de todo o Mundo. 

Após a edição de 2020, condicionada pela pandemia reinante, em que a maior parte dos concertos foram  limitados a metade da sua assistência habitual, a Bienal voltou, quiçá mais pujante que nunca, com dezenas de espectáculos de "cante",  "toque" e "baile", o tripé sob o qual assenta o género musical mais popular de Espanha. 

Com nomes sonantes no programa, entre os quais a Cia. Eva y Yerbabuena,  Olga Pericet, Vicente Amigo, Gerardo Núñez, Israel Galván, La Tremendita, Niño de Elche, Marina Heredia, Segundo Falcón, La Macanita, Rafael Carrasco, Pastora Galván y Marina Marín, Manuela Carrasco, Bolita, Mayte Martín, Rocío Molina (com Niño de Elche), era difícil escolher. Dificuldades de datas e bilhetes esgotados com antecedência, impediram uma selecção mais abrangente, ainda que o critério de qualidade estivesse garantido à partida. 

Lá fomos, munidos de entradas para três concertos, que não podiam desiludir: o guitarrista Vicente Amigo, a "cantaora" Mayte Martín e a "bailaora" Rocío Molina, esta com um convidado especial, o iconoclasta Niño de Elche.

Regressado a Sevilha, após um largo período de ausência, Vicente Amigo (Córdoba) voltou ao nível dos seus melhores dias: versátil, intimista e arrojado, nos variados "palos", que executou com a mestria que lhe conhecemos. Reportório renovado e clássicos que todos sabem de cor. Um guitarrista a um tempo clássico e moderno, que sabe agradar aos mais aficionados e ao público em geral. Poucos são os guitarristas que esgotam La Maestranza, a sala de visitas de Sevilha e Vicente Amigo voltou a consegui-lo. Depois de uma introdução clássica, em que interpretou um "medley" de "soleás", "seguiriyas" e "bulerías", Amigo iniciou uma viagem pelos seus temas mais conhecidos, culminando com a homenagem à arte do toureio, dedicada a um famoso lidador de Sevilha. Passou em revista temas do seu último álbum "Memoria de los sentidos", entre os quais "Requiem Coral" (uma homenagem a Paco de Lucía), aqui numa interpretação contida, mas dramática de Rafael de Utrera. Com Amigo, estiveram mais sete acompanhantes, entre músicos, "cantaores" e "bailaores", todos de qualidade ímpar. Destaque para o "cantaor" Rafael Usero Vilches (Rafael de Utrera), excelente nas interpretações mais dramáticas e Antonio Molina Redondo (El Choro), magnífico na sua curta mas rigorosa intervenção de "baile". 

Outra "cantaora", que acompanhamos há mais de 25 anos e que nunca desilude, é Mayte Martín (Barcelona) uma das vozes e presenças mais apreciadas no circuito flamenco. Mayte, não tem apenas uma boa voz, mas uma presença que o público e a crítica especializada sabem reconhecer. Lá estivémos todos, num Lope de Vega cheio até ao tecto, para acompanhá-la nas duas horas que duraram a actuação, pontuada por momentos de pura magia, em que nem uma mosca se ouvia na velhinha sala de Sevilha. Uma actuação a todos os títulos brilhante, em que interpretou, com igual desenvoltura, os "palos" mais clássicos. De destacar, aqueles em que foi acompanhada pelo guitarrista José Gálvez, num dos momentos mais solenes do concerto. Não faltaram outros temas e incursões por géneros não-flamencos e dois "encores", respectivamente, o celebrado  "S.O.S.", do seu álbum de estreia "Muy Frágil" e a "Milonga del Solitario" do argentino Atahualpa Yupanqui, ambos cantados com a mestria que lhe conhecemos. Mayte Martín está no topo da carreira e arriscamos a dizer que, das vezes que a vimos ao "vivo" esta foi, sem dúvida, a sua melhor actuação. Brilhante.     

Finalmente, um dos espectáculos mais aguardados desta Bienal: "Carnación" (estreia nacional), uma criação de Rocío Molina (Málaga), "bailaora" e "dansaora", reconhecida pela sua abordagem à dança flamenca contemporânea e de fusão, que a tornaram famosa no circuito da arte. Desta vez, rodeada de um elenco notável, entre os quais, o conhecido El Niño de Elche (voz), Pepe Benitez (piano, electrónica, programações), Maureen Choi (violinista), Calude Alemán (soprano) e ProyectoeLe (coro). Pese embora a encenação operática, em que as luzes, o som e as cores dominaram, o espectáculo pecou por falta de ritmo, aliado a uma duração que nos pareceu excessiva, dado o desafio - difícil - a que Molina se propôs. Uma performance de quase duas horas, com muito de teatro pós-dramático, "bondage" e provocação, em que todos os intérpretes se expuseram ao limite. Nada que não tivéssemos visto em companhias de dança contemporânea (Pina Bausch, Teresa De Keersmaeker) com a diferença de que, aqui, a "mensagem" não passou. Acresce que, de Flamenco, houve muito pouco (afinal, o tema da Bienal), salvo um "martinete", interpretado a preceito por El Niño de Elche e um bailado soberbo de Molina, num despique furioso com a violinista Choi, certamente dois dos momentos mais conseguidos de "Carnación". Como em todas as experiências, a inovação não agradou a todos. Entre espectadores meio bocejantes, que pediam "mais baile" e fãs incondicionais, que não regatearam aplausos no final, ficou uma sensação de vazio, difícil de interpretar. Nem toda a crítica local gostou do espectáculo e o diário "El Mundo", considerou-o mesmo o "pior da Bienal"...

A Bienal terminou, mas o Flamenco continua. Hoje, mais vivo que nunca, renovando-se com intérpretes de excepção, que prosseguem com a arte "jonda", um género musical universal.                

2021/06/06

Sevilha: notas soltas

Após quatro meses de confinamento severo, as fronteiras terrestres entre Portugal e Espanha, reabriram no passado mês de Maio. Oportunidade para um regresso à capital andaluza, ainda sem os turistas habituais, mas já vibrante na sua "movida" e na oferta cultural, sempre diversificada.

Desta vez, e entre as escolhas possíveis, optámos por música, teatro e artes plásticas. 

Logo a abrir, no dia 13 de Maio, um concerto memorável, a cargo da cantora Emma Alonso e do pianista José Manuel Vaquero (El Pájaro), subordinado ao título "De Buenos Aires a Paris". Uma viagem musical de excelência, servida por dois intérpretes de excepção, tanto nos respectivos instrumentos (voz e piano), como no repertório escolhido e na qualidade das interpretações. O concerto, organizado pela "Fúndación Tres Culturas", teve lugar no mítico Pavilhão de Marrocos, uma reprodução palaciana, digna das "mil e uma noites", construída para a Expo'92 e doada pelo governo marroquino à cidade. A Fundação, tem ali a sua sede e programa regularmente eventos musicais, desta vez subordinados ao tema "Diversidade Cultural". 

Uma hora mágica, o concerto de Emma e de Vaquero, que passaram em revista canções de Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Mikis Theodorakis, Astor Piazzolla, Kurt Weill, Tom Jobim, Edith Piaf e George Brassens, para além de duas "zambas" argentinas e um merengue venezuelano, para deleite da assistência. Um concerto para recordar, onde as vocalizações de Emma e os arranjos contidos, mas inovadores de Vaquero, se conjugaram para nos relembrar que, a boa música, quando bem interpretada, não morre nunca. 

Seguiu-se, dois dias mais tarde, uma visita ao teatro, para apreciar a peça "La Odisea de Magallanes-Elcano", no mítico "Lope de Vega",  a sala de visitas da cidade. "La Odisea", é fruto dos eventos de celebração do 5º Centenário da 1ª volta ao Mundo, que tem vindo a ser celebrado pelas autoridades espanholas de há dois anos a esta parte. Trata-se de uma co-produção da Junta de Andalucía, El Ayuntamiento de Sevilla, El Teatro Lope de Vega, certificado com o sêlo de qualidade da Comissão de Comemorações da 1ª volta ao Mundo  (Ministério da Cultura).

A peça, dirigida e encenada por Alfonso Zurro (director do Teatro Clássico de Sevilha), reproduz diversos episódios da épica viagem e foi escrita por oito dramaturgos e autores diferentes, sem seguir a cronologia dos factos. Muitos bons, alguns dos quadros, servidos por bons actores e meios técnicos (multimédia) a condizer. Os episódios, alternando entre o heróico, o burlesco e a traição, não esconde os ataques desabridos de Magalhães, nas Filipinas, que acabariam por lhe ser fatais. Seria o espanhol Elcano, a completar a viagem. Para a história, a epopeia da Circum-Navegação, que provou ser a Terra redonda.

Já nos derradeiros dias da visita, uma passagem pela Faculdade de Belas Artes, para apreciar a exposição "El Aire Habitado", do escultor francês, residente em Espanha,  Aurélien Lortet. Uma pequena, mas nem por isso menos interessante exposição, onde uma dúzia de objectos valem (e falam) por mil. Excelentes as suas criações (em madeira e metal) sobre temas tão diversos como o sonho, a alienação ou a repressão. A revisitar, este Lortet que, aparentemente, leva uma vida pacata em Carmona, a 30km de Sevilha...

Finalmente, um dos "pratos de resistência" deste périplo cultural sevilhano: um concerto de Luís Pastor, um dos mais conceituados "cantautores" do país vizinho, que já conhecíamos de diversas actuações em Portugal, onde tem sido convidado regular da Associação José Afonso. Desta vez, para apresentar o seu último trabalho discográfico "La Paloma de Picasso", um belíssimo disco, onde se fala da paz, mas também daqueles que a impedem, os tiranos de todas as latitudes e daqueles que os apoiam, uma constante da sua obra. Contemporâneo de Paco Ibañez, Lluis Llach, Joan Manuel Serrat, Carlos Cano e Patxi Andión (estes dois últimos, entretanto, falecidos) Luís Pastor, mantém uma óptima voz e um gosto apurado, como é facilmente detectável em números como "La Paloma de Picasso" (que dá o nome ao CD), "Los Hijos de España", "Verde Cabo de Mis Ojos" (uma homenagem a Cesária Évora), "Náufrago de Las Estrellas" (o meu número preferido), "Mariana Pineda" (com a colaboração da grande Carmen Linares) ou "Cambiar El Mundo" (com voz em "off" do ex-presidente uruguaio José Mujica). 

Um excelente concerto, que o cantor nos confidenciou esperar repetir em Portugal, onde virá no próximo mês de Setembro, a convite do Observatório da Canção de Protesto em Grândola. Lá o esperamos. 

2020/09/24

Bienal de Sevilha: Flamenco em tempos de pandemia

Quando, em finais de Junho, foi anunciada a XXI Bienal de Flamenco, provavelmente a mais representativa Mostra do "estado da arte" no Mundo, muita gente duvidou da sua realização. A Espanha acabava de sair de uma grave crise sanitária e os traumas (provocados por longos meses de confinamento) continuavam presentes na memória de todos que, directa ou indirectamente, foram atingidos pela pandemia. 

Apesar das dúvidas e (justificados) receios, resolvemos arriscar. Consultado o programa, avançámos para a compra dos espectáculos que, à partida, mais garantias davam de uma qualidade testada em anteriores actuações. Acontece que, a pandemia, veio exigir regras mais apertadas, entre as quais a redução dos lugares disponíveis nas salas programadas. Rapidamente, os concertos mais badalados esgotaram e, quando tentámos reservar, era tarde. Perdemos, assim, a oportunidade de tornar a ver a "cantaora" Estrella Morente (filha do grande Enrique), o "bailaor" Israel Gálvan (provavelmente o melhor dançarino da actual geração) e "El Farruquito", neto do mítico Farruco, hoje um um nome maior do "baile". Mas, todos eles vão andar por aí, pelo que não faltarão oportunidades para rever a sua arte. 

Porque a escolha é imensa e a qualidade uma garantia da Bienal, optámos por outros nomes conhecidos de anteriores actuações. Estão, neste caso, a excelente "bailaora" La Choni, cujo percurso acompanhamos desde 2008 e Antonio Canales, um dos maiores ícones do baile flamenco tradicional, que tivemos o privilégio de ver no CCB de Lisboa. Outras escolhas, foram os concertos de Berk Gurman, cantor de origem turca, residente em  Córdoba e do "bailaor" Andrés Marin, outro nome consagrado da dança Flamenca, este programado para o próximo dia 3 de Outubro.

Algumas notas, necessariamente impressionistas, sobre os espectáculos já presenciados:

O concerto "Flamenco, tres culturas: da Anatólia a Andalucía", tinha um título promissor, pese embora o relativo desconhecimento do intérprete, um cantor e guitarrista turco que, há 20 anos, trocou Istambul por Córdoba onde, desde então, prossegue uma carreira artística dividida entre a aprendizagem da guitarra clássica espanhola, actuações ao vivo e gravações regulares do seu repertório, cujo "core", é constituido por textos de poetas turcos e música tradicional da Anatólia. A actuação de Gurman, que se acompanhou à guitarra, decorreu no pátio do pavilhão de Marrocos, oferecido a Sevilha, após a Expo'92.  Ambiente de "mil e uma noites",  onde não faltou a lua mediterrânica a iluminar um palco ao ar livre. Concerto algo estranho, já que a tentativa de fusão entre o tradicional "lamento" oriental e o "duende" flamenco, nem sempre funcionou, pese embora a excelente voz e o dramatismo inerente à tradição turca que, de tão belo, não necessita de tradução para comunicar. Ciente da importância da "mensagem", Gurman - um bom comunicador - teve o cuidado de resumir cada canção e, nesse sentido, não podia ter feito melhor. Já a parte musical, ainda que esforçada, nos pareceu algo repetitiva, quiçás devido à técnica que o cantor/instrumentista utiliza na guitarra flamenca, a lembrar o toque de instrumentos de tradição oriental como "oud"  e o "bouzouki", menos melódicos e de toque mais rasgado que a guitarra espanhola. 

Asunción Pérez, do seu nome artístico "La Choni", é hoje um nome estabelecido no exigente circuito flamenco de Sevilha, onde reside. Acompanhamos o seu percurso, desde 2008, quando a vimos dançar pela primeira vez no clube "Los Gallos", um das mais emblemáticos "tablaos" de Sevilha, onde era "bailaora" residente. Desde então, de Copenhaga (Womex 2009) a Sevilha (Casa da La Memoria, 2011), passando por uma memorável actuação num teatro da provincia andaluza, onde apresentava a "peça" teatral dançada, "Gloria de Mi Madre" (galardoada com inúmeros prémios, entre os quais o "Melhor Espectáculo Dançado" de 2010 e o "Compás de Espera" de 2015), "La Choni" não parou de coleccionar distinções e merecidos elogios. Para a Bienal deste ano, que esteve em risco até ao Verão, criou "Cuero / Cuerpo", uma aposta arriscada, algures entre a dança flamenca clássica, a dança moderna e o teatro, sua imagem de marca. Dividido em quatro "quadros" distintos, a peça procura ser um libelo pela emancipação artística e feminina da intérprete principal (La Choni). Uma peça feminista, no sentido literal do termo, onde a mensagem (por vezes, demasiada explícita) é sublinhada pelos excelentes acompanhantes masculinos da companhia: Manuel Cañadas (Professor da Tradição),Victor Bravo (Mefisto) e Raul Cantizano (Ambientes Musicais). Após um início, algo lento e titubeante, a peça ganha fôlego com a entrada de Cañadas (um príncipe da dança) no papel de professor exigente e castrador, contra o qual a "bailaora-aprendiz" se liberta ao conhecer "Mefisto", que a inicia na dança moderna ("Charleston" e "Swing", no 3ª quadro) e ganhar consciência da sua condição como mulher. O 4ª e último quadro, mostra-nos os três intérpretes em despique e luta, após o que a "bailaora"/mulher se liberta, seguindo o seu caminho, numa (re)interpretação final da tradição, agora inovada. Os ambientes musicais, criados por Raul Cantizano, pareceram-nos aqui e ali algo "deslocados" (uma estridente guitarra electrificada, por exemplo), assim como uma simbologia demasiado explícita (a "mensagem" podia ser mais "distanciada"). Trata-se, no entanto, de um bom espectáculo, onde a soma dos quatro intérpretes (todos magnifícos)  parecem valer mais do que a (história da) peça, a necessitar de alguns afinações, que a rotina de actuações futuras, certamente, trará. 

Finalmente, Antonio Canales, um "monstro" da dança flamenca, que não necessita de apresentações. Vimo-lo num espectáculo memorável, no CCB de Lisboa, vai para dez anos, à época ainda no apogeu da sua arte. Voltámos a revê-lo, numa homenagem prestada em Utrera, em 2019, onde se limitou a dançar uma "seguiriya", acompanhado pela mãe, no fim do espectáculo. Muito pouco para tanta arte. Sabíamos que dificilmente voltaríamos a vê-lo dançar e foi com surpresa que vimos o seu nome anunciado no programa da Bienal deste ano. O espectáculo, intitulado "Canales: Torero & Sevilla a Compás", afinal, eram "dois"...Uma primeira parte, onde um excelente corpo de "baile", acompanhados por "tocadores" e "palmeros", recriou o maior êxito de Canales, "Torero" (1994), num cenário de uma praça de touros; e uma segunda parte, onde o "maestro" foi a figura principal, dançando e citando o poeta Antonio Machado, fio-condutor da história sevilhana que Canales recriou. "Torero", dançada magnificamente por Pol Vaquero (no papel que celebrizou Canales) e por Mónica Fernandez (no papel de "touro"), é uma representação cronológica do ritual da tourada (desde a "extrema-unção" do "matador" nas catacumbas, até à lide na arena, terminando com o apoteótico "corte de orelha" e a saída em ombros do toureiro). O baile seria aclamado pelo público presente na sala do Lope de Vega, com "olés" significativos. Ficámos na dúvida se eram dirigidos ao bailarino ou ao toureiro...Em tempo de "politicamente correcto", um tema claramente datado, ainda que a Andaluzia seja, por definição, a região da "arte" do espeto. Resumindo: grandes dançarinos (solistas e corpo de baile), que honraram o nome de Canales, o "mestre" que, na segunda-parte, tomou conta do palco e, entre passos de dança e poemas de Machado, teve direito aos holofotes que continuam a iluminar uma carreira sem par. 

Sim, o Flamenco está vivo e recomenda-se. Olé!    


 

 

         

 

    

  

2020/04/15

Duas semanas noutra cidade (9): Espanha, Confinamentos e Estratégias


Rainha Máxima da Holanda e o marido Rei Willem-Alexander na Feria 2019 (foto Look)

Depois de uma semana "santa", em que o sol brilhou e a temperatura não baixou dos 22º, voltou a chover em Sevilha. Chuva e trovões, que o "criador" não parece ter gostado da forma como os citadinos voltaram à "festa"...
Mal passou a Quaresma, mudaram as regras sociais. O que antes era penitência e martírio, transformou-se em música pop e "sevilhanas". A explicação é simples: dentro de quinze dias, teria lugar a "Feria", este ano cancelada por motivos óbvios, pelo que os habitantes da cidade não podem reencontrar-se naquela que é considerada a maior festa tradicional andaluza: dez dias de feira popular gigante, visitada anualmente por milhares de pessoas, vindas de todo o país para ver e frequentar as centenas de tendas, agrupadas em colectividades culturais e associações de ganadeiros e agricultores da região, onde a entrada é exclusiva. Depois, existem as tendas públicas, onde se pode provar tudo o que é petisco regional e ouvir música ao vivo. Com sorte, é possível ver bons espectáculos de Flamenco e dançar "sevilhanas", em palcos espalhados pela Feira. Pelas largas alamedas, passeiam grupos de sevilhanas, deslumbrantes nos seus trajes de lunares, enquanto os ganadeiros da região ostentam riqueza, montados em "puros sangue" andaluzes e passeando em charretes descobertas, com cocheiros de libré. Anexo ao recinto principal, existe ainda um "lunapark", onde os mais jovens se divertem sob o olhar condescendente dos pais. A polícia, omnipresente, regula o trânsito e impede os excessos. Uma orgia de côr e música, que nenhum sevilhano que se preze, deixa de visitar uma vez por ano.
Desta vez, devido ao "confinamiento", restam as varandas e as açoteias dos prédios, onde todos os dias, pelas 20h, os habitantes da cidade agradecem aos profissionais da saúde, com uma longa salva de palmas e música: depois de uma semana de marchas e pregões religiosos, a alegria das "sevilhanas", transmitidas através de aparelhagens sonoras que são escutadas em todo o bairro. Uma festa contagiante.
Esta (genuína) alegria, não ignora a triste e dura realidade. Pesem as medidas draconianas, anunciadas e postas em prática pelo governo espanhol, de que somos testemunha diariamente (patrulhas de policias armados de metralhadora, controlo severo nos transportes públicos e unidades paramédicas instaladas em lugares estratégicos, para acudir aos necessitados), a verdade é que o número de infectados e mortes, causado pelo coronavírus, não pára de subir. Hoje, eram 177.633 e 18.579, respectivamente, o que faz de Espanha o segundo país com mais infectados e o terceiro com mais mortes, a nível mundial. A maior crise humanitária, desde a segunda guerra mundial.
Da situação, tentam tirar proveitos politicos os dois maiores partidos da oposição, que não perdem uma ocasião para criticar as medidas do governo. Enquanto, Casado (líder do PP, direita conservadora) acusa o governo de tomar decisões de forma unilaterar e declara não estar disposto a apoiar o governo ou assinar mais "Pactos de Moncloa" (acordo entre partidos parlamentares, em 1977, n.r.); Abascal (líder do Vox, fascista) acusa o governo de practicar uma "eutanásia feroz" e de ter uma "gestão criminosa", na contenção da pandemia do vírus. As declarações, deste homem defensor do "senso comum", têm sido acompanhadas por mentiras nas redes sociais, onde sugere que o governo censura as mensagens telefónicas relacionadas com o vírus, que os imigrantes são beneficiados no tratamento em hospitais, ou que a causa de morte dos infectados é devido à "peste chinesa", entre outros mimos. Nada que nos surpreenda, já que o nihilismo e as "fakenews", a par da negação da ciência e o ódio aos estrangeiros, faz parte do discurso de todos os populistas de direita. Veja-se o caso de Trump (USA) Bolsonaro (Brasil) ou, mais perto de nós, Orbán (Hungria), Le Pen (França), Wilders (Holanda) e Ventura (Portugal).

Acontece que o sucesso da China e de outros países asiáticos, no combate ao Coronavírus, se deve a factores culturais e políticos específicos, que explicam a forma como abordaram a pandemia, para a qual, de resto, a OMS já tinha alertado em 2016.
No excelente ensaio "Coronavirus y estado policial. La revolución viral",  publicado em 22 de Março último no El País, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, traça uma panorâmica da expansão do vírus e aponta as razões pelas quais, segundo ele, a Europa está a fracassar no combate à pandemia.
Um resumo: as cifras dos infectados não param de aumentar em Itália, Espanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suiça ou Alemanha, onde diariamente morrem centenas de pessoas e têm de ser tirados ventiladores aos mais velhos para dá-los aos mais jovens, enquanto se decretam estados de excepção que, em última análise, legitimam o "estado soberano" (que decide sobre o estado de excepção) e fortalecem o nacionalismo. Segundo ele, esta é uma exibição de soberania que de pouco serve, da mesma forma que proibir a entrada de estrangeiros nesta altura, é um acto absurdo, já que a Europa é justamente o continente para onde ninguém quer vir agora. Seria muito mais útil a eficaz cooperação entre estados europeus e proibir a saída de europeus para outros continentes, uma vez que a Europa é o epicentro da epidemia.
Em comparação com a Europa, quais as vantagens que o "sistema asiático" pode oferecer na eficiência do combate ao vírus? Estados asiáticos, como o Japão, a Coreia, a China, Hong-Kong, Taiwan e Singapura, têm uma mentalidade autoritária que vem da sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos negativas e mais obedientes que na Europa. Também confiam mais no estado. Não apenas na China, mas também na Coreia e no Japão, a vida está organizada de uma forma mais estrita que na Europa. Sobretudo, para detectar o vírus, os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Admitem que a "big data" pode encerrar um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderia dizer-se que as pandemias na Ásia não são apenas combatidas por virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo por informáticos e especialistas em macrodata. Uma mudança de paradigma, da qual a Europa não parece ter-se dado conta. Ou seja, a "bigdata" salva vidas humanas.
A consciência crítica, perante a vigilância digital, praticamente não existe na Ásia. Apenas se fala da protecção de dados em democracias liberais como o Japão ou Coreia. Ninguém se opõe à recolha de dados pessoais pelas autoridades. Na China, criaram um sistema de crédito social, inimaginável para europeus, que permite uma valorização e uma avaliação exaustiva dos cidadãos. Na China, não há nenhum momento da vida quotidiana que não esteja submetido a avaliação. Controla-se cada clic, cada cada compra, cada contacto, cada actividade nas redes sociais. A quem atravessar o semáforo vermelho, a quem tiver contactos com críticos do regime, ou a quem coloque comentários críticos nas redes sociais, tiram pontos. Nesse caso, a vida pode tornar-se muito perigosa. Ao contrário, a quem comprar alimentos sãos ou quem ler publicações do regime, dão pontos. Na China isto é possível, porque existe um intercâmbio, sem restrições, entre os provedores da internet, os telemóveis e as autoridades. Praticamente, não existe protecção de dados e não se conhece o conceito "esfera privada".  
Na China, 200 milhões de câmaras de vigilância, muitas delas dispondo de tecnologia de reconhecimento facial detalhado, permitem vigiar e controlar todos os cidadãos em espaços públicos. Ao sair do metro ou do comboio, as câmaras medem a temperatura corporal dos passageiros e avisam-nos, assim como aos restantes passageiros, do perigo de contágio. Este tipo de rastreio, permitiu isolar e testar potenciais infectados e dirigi-los para unidades hospitalares onde são tratados. Esta foi, de resto, uma das razões do sucesso do combate ao vírus, que em menos de três meses, limitou a epidemia, em Wuhan e em 12 cidades circundantes, a números residuais. Sobre isto e muito mais, no próximo "post".

(continua)

2020/04/07

Duas semanas noutra cidade (7): Santos, Vírus e Testes


Em tempos normais, a semana da Páscoa é, por tradição, a mais celebrada e concorrida em toda a Espanha. Em Sevilha, o epicentro das comemorações, a "Semana Santa", congrega o maior número de devotos e forasteiros, ainda que haja celebrações nos principais centros urbanos do país.
A cidade pára literalmente durante a maior parte da semana, com serviços públicos, departamentos e escolas,  encerrados para o grande evento. A população, calculada em mais de 700.000 pessoas, prepara-se o ano inteiro para a celebração. Desde logo, através do "Consejo General de Hermandades e Cofradías de la cidade de Sevilla", orgão máximo, responsável pela organização dos rituais religiosos, que determina quais as confrarias participantes (são mais de cinquenta!), quais os percursos seguidos pelas procissões (todas passam, obrigatoriamente, pela Catedral de Sevilha e pelo "Ayuntamiento", onde são instaladas bancadas para os "vips" da cidade); quem transporta os andores nas procissões (constituídas por santos, virgens, mistérios, penitentes e crucificados); os "costaleros" (equipas de 30 moços que alternam, à vez, o transporte dos altares, que chegam a pesar toneladas); os "hermanos", representantes das dezenas de irmandades existentes na cidade; os "nazarenos", reconhecidos pelos seus capuzes ponteagudos de diversas cores, a lembrar os acólitos do "klu-klux klan"; para além de familiares e amigos, que encorajam e apoiam, com água e alimentos, os mais jovens. Toda a gente participa, dos veteranos aos mais novos, que vestem a rigor durante a semana: as mulheres, deslumbrantes nos seus trajes clássicos de "mantilla sevilhana"; os homens, em traje formal, de fato e gravata a condizer. As varandas, engalanadas para a ocasião, são alugadas com antecedência, não sobrando lugares nas açoteias e terraços nos percursos conhecidos. O turismo local, em colaboração com as diversas confrarias, edita pequenos guias em diversas línguas, sobre os locais e horas previstas da passagem de cada procissão, de modo a possibilitar, aos interessados, a possibilidade de escolher os melhores lugares para apreciar o evento. A maior parte das confrarias, são acompanhadas por bandas filarmónicas, que ensaiam todo o ano nas praças da cidade para o grande momento. As procissões têm lugar durante o dia, ainda que algumas só iniciem o seu percurso ao cair da noite, para terminar já de madrugada. Nessas ocasiões, as luzes apagam-se junto à igreja onde recolhe o andor e os estabelecimentos comerciais encerram. O único som audível, à distância, é o arrastar dos pés dos "costaleros", enquanto os "nazarenos", cobertos pelos seus capuchos e capas, empunham longas tochas de cera a arder e continuam a desfilar durante horas. Não raramente, as procissões nocturnas terminam com "saetas" flamencas, cantadas à capela por aficionados e profissionais das varandas mais próximas. Momentos de êxtase e "cante jondo" (canto profundo) sublimes.
A anormalidade, imposta este ano pelo "confinamiento", impediu a celebração centenária, mas não diminuiu a devoção dos habitantes de Sevilha. À falta de festa, os vizinhos do bairro esmeram-se, decorando as janelas e colocando altifalantes nas varandas, através dos quais transmitem "saetas", bandas filarmónicas e "pregões" (declarações) da Semana Santa. Os mais nacionalistas (estas coisas, andam sempre ligadas) mantém as bandeiras franquistas, que penduraram durante a crise catalã de 2018.
Não faltam episódios hilariantes nesta quarentena: desde o homem que saiu a passear o cão, vestido de nazareno e carregando uma cruz às costas (o vídeo tornou-se viral e a polícia acabaria por detê-lo); à mulher infectada, que fugiu de um hospital onde estava isolada (acabaria por ser presa e voltar à quarentena), passando pelo vizinho do condómino onde me encontro, que ameaçou filmar e denunciar outro morador à polícia (!?) por este ter ousado sair à rua sem máscara (há sempre um "pequeno homem" com medo, como escreveu Reich, num dos seus escritos mais citados). Encontra-se de tudo um pouco. Entretanto, na Galiza, foi roubado um carregamento de um milhão máscaras, no valor de 5 milhões de euros, destinadas a Portugal (!?). Em tempo de crise, "quem tem olho..."
A crise viral continua a dominar os noticiários e as preocupações dos espanhóis. O país é já o segundo com maior número de infectados e mortos a nível mundial, resp. 146.690 e 14.555, não se vislumbrando decréscimo na curva de infecções nos próximos dias. Perante a catástrofe anunciada (20.000 mortes na projecção mais optimista e 40.000 mortes na mais pessimista), a Espanha entrou na terceira semana de "confiniamento", agora prolongado até ao próximo dia 26. As pressões e as críticas ao governo de Sánchez, para que reabra o congresso (actualmente encerrado) e para diminuir progressivamente as medidas de quarentena, têm vindo a aumentar, ainda que não seja fácil tomar esta decisão, enquanto o número de infecções não diminuir. As mais acérrimas críticas vêm, como sempre, do "pequeno homem" Abascal (VOX), que diariamente grava vídeos através do Instagram onde ameaça processar Sanchéz pela prorrogação do período de isolamento. Ontem, em mais uma histérica comunicação ao país, anunciou com ar solene "cortar relações" com o governo, enquanto este não abrisse o Congresso. A estupidez continua a dominar o discurso dos pequenos líderes. 

Conforme nos explicam diariamente os "experts" na matéria, há 3 questões a considerar nesta crise pandémica: a vacina (que não existe), o distanciamento social (como forma de reduzir a disseminação do vírus) e os testes (para avaliar quem está infectado). Sobre a vacina, é consensual entre vírologistas e epidemiologistas, poder demorar entre 12 e 18 meses, até ser comercializada. Sobre o distanciamento social (tomando as devidas precauções, com máscaras, luvas, desinfecções diárias de roupa e calçado) é fundamental, mas não impede a contaminação. Mais, podemos estar infectados e não ter sintomas. Quando a febre surge, a infecção já existe e, entretanto, já infectámos outras pessoas.
Finalmente, os testes. Há dois tipos de teste: o de diagnóstico rápido (aplicado na maioria de países e populações) e o teste serológico (que é caro e não está ao alcance de toda a gente). No primeiro teste, este pode dar negativo, mas podemos contrair a infecção no dia seguinte; no segundo teste, a imunidade é garantida pelos anti-corpos já existentes, o que permite contactos com outras pessoas, sem as infectar. A experiência, levada a cabo nos primeiros países infectados (China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Singapura) permitiu perceber que o isolamento, seguido à risca, pode resultar, ainda que só ao fim de alguns meses. Acontece que, em países de regime autoritário (como os países asiáticos referidos) é sempre mais fácil manter as populações confinadas, dada a obediência e disciplina existentes (confucionismo). Também o sentido colectivo e a confiança no estado é maior do que no Ocidente. Acresce que, em países como a China (portanto, um estado totalitário) a "data" existente, devido à ligação dos telemóveis pessoais às câmaras de vigilância em todo o país (mais de 200 milhões!) permite identificar, rapidamente, quem tem febre, através de um "app" que mede a temperatura do corpo. As pessoas assinaladas, são avisadas através do seu telemóvel e enviadas para quarentena. Essa é uma das razões, porque os países asiáticos conseguiram reduzir substancialmente a epidemia, enquanto na Europa e nas Américas, portanto mais atrasadas no uso da tecnologia existente, o surto viral continua a crescer exponencialmente. Preocupantes são, agora, os surtos em grandes países como os EUA e o Brasil, que não dispõem de sistemas de saúde de qualidade e onde o número de vítimas pode atingir proporções catastróficas. 

(continua)

2020/02/24

Zambras Granaínas, Payos Flamencos

"Zambra" é o flamenco tradicional de Granada.
O seu "coração" situa-se no bairro cigano de Sacromonte, distrito de Albayzin, face ao Alhambra.
"Sacromonte" (a montanha sagrada) deve o seu nome a um cemitério muçulmano existente na área. Uma das suas características, são as habitações, escavadas na rocha, onde continuam a viver pessoas de etnia cigana, as famosas "caves". Vistas de fora, parecem casas normais, mas, uma vez dentro, apercebemo-nos da forma como foram construídas. As fachadas são parte integrante da rocha.
Após a conquista de Granada pelos reis católicos, os muçulmanos viram-se obrigados a abandonar as muralhas da cidade e a refugiar-se na "montanha sagrada". Uma vez aí, misturaram-se com os ciganos, uma tribo nómada que tinha chegado a Sacromonte anos antes, pelas mesmas razões. A partir de então, ambas as culturas coexistiram e misturaram-se em diferentes aspectos. Entre as muitas afinidades, o facto de serem considerados marginais, à luz da conversão iniciada pelo catolicismo. Em 1499, uma lei decretada pelos reis católicos, forçou os ciganos a abandonar a vida nómada. Por esta razão, e a posterior expulsão dos muçulmanos, Sacromonte tornar-se-ia um bairro exclusivamente cigano.
O nome "Zambra", deriva de "zumra", que significa "festa", o ritual tradicional dos casamentos marroquinos, proibido pela Inquisição no século XVI. Continuaram, no entanto, a ser celebrados clandestinamente. Os ciganos, acabariam por integrar esta tradição nas suas celebrações. Estes ciganos são, hoje, os únicos praticantes desta surpreendente dança marroquina.  
Entre os séculos XVII e XIX, quando os escritores e poetas românticos começaram a chegar a Granada, a Zambra e o Flamenco, já eram apreciados na cidade. Foi este reconhecimento, que transformou o Flamenco numa disciplina e num género musical. Tal popularidade, não agradou a toda a gente. Alguns intelectuais da chamada "Geração de 27" (García Lorca, Manuel de Falla), organizaram, inclusive, o "1º Concurso del Cante Jondo" (Granada, 1922) cujo objectivo primeiro era defender o "cante puro" que, argumentavam, se diferenciava do Flamenco popular, demasiado desligado da verdadeira arte. Posteriormente, Lorca, um apaixonado e especialista do género, aprofundaria o seu ponto de vista na famosa conferência "Arquitectura del Cante Jondo", apresentada, pela primeira vez, em 1932 (Salamanca).
Por sugestão do proprietário da loja de discos mais antiga de Espanha, situada junto à Catedral de Granada, visitámos uma Zambra, a histórica "Maria La Canastera". La Canastera, do seu nome, Maria Cortés Herédia, nasceu em Granada em 1913. Foi "bailaora" e "cantaora" e era conhecida por "La Canastera",  porque o seu pai era artesão e fabricava canastros. Desde muita nova dançava nas Zambras de Sacromonte. A primeira saída, que realizou como "bailaora", foi com 16 anos, à exposição Universal de Barcelona, integrando a Zambra de Manolo Amaya, tendo actuado ao lado da lendária Carmen Amaya, por muitos considerada a maior "bailaora" da história do Flamenco. Compartiu o cartaz, com outras figuras míticas do Flamenco, como La Niña de los Peines, Angelillo, Pepe Marchena e Pepe Grillo, entre outros. Gravou 19 albuns no total. Em 1953, tornou-se dona de uma "cueva" (cave) de Sacromonte, para fundar a sua própria Zambra, por onde passariam personalidades de todo o Mundo. Confirmámos a popularidade do local, nas centenas de fotografias que cobrem as paredes. O espectáculo presenciado, pese ambora a boa prestação de uma das "bailaoras" e do guitarrista que acompanhava o "ensemble" residente, deixou francamente a desejar, mas a experiência valeu a pena. De La Canastera, resta a estátua, uma homenagem da autarquia granaína, a meio da Avenida da Constituição, o "boulevard" mais sofisticado da cidade. Uma referência.
Outra referência na arte flamenca, é a "cantaora" catalã Mayte Martín. Vimo-la em Sevilha, no Teatro de La Maestranza, a sala de visitas da cidade. Esta foi a terceira vez que tivemos o privilégio de ouvir esta extraordinária intérprete, uma das melhores do género, que canta igualmente bem boleros, poesia espanhola e os seus próprios temas. Desta vez, num concerto comemorativo do 20º aniversário do seu terceiro disco "Querencia", editado em 2000. Sobre Maite, já quase tudo foi dito. Se dúvidas houvesse sobre a qualidade dos cantores "payos" (brancos), relativamente aos cantores de origem cigana (um debate mantido por muitos puristas do género), estas desvaneciam-se ao primeiro tema do concerto. Ainda que o programa fosse centrado no album que lhe deu o nome, Mayte passou em revista alguns dos seus maiores sucessos, incluidos numa discografia que conta com 9 albuns. Sobre "Querencia", a cantora explicou: "...Además, querencia es una palabra poco conocida. Mucha gente piensa que tiene que ver con el querer y no es asi. Significa esa tendencia a volver al origen, al lugar del que procedes...".
É isto. A evolução na tradição, implica conhecer bem as origens. Coisa que Mayte Martín continua a conhecer bem.


2019/12/20

Sevilha: dos Cantautores ao Flamenco, passando pelo Fado


Que Sevilha pode ser um lugar de boas surpresas, não é novidade para ninguém que conheça minimamente a cidade. De volta à capital andaluza, agora em missão mais "séria", oportunidade de o comprovar, se isso fosse ainda necessário...
Tudo começou há uns meses atrás quando, em conversa informal, fomos confrontados com um convite inusado: o de apresentar, em forma de charla, uma panorâmica sobre a música popular portuguesa actual (vulgo MPP), que vem sendo feita por dezenas de compositores e intérpretes musicais, de há 50 anos a esta parte. A conversa seria integrada numa classe de alunos finalistas da Escola Superior de Artes Dramáticas (ESAD), que estudam artes performativas nas suas mais diversas vertentes (canto, teatro, mímica, dança ou música...).
Aceite o desafio, e porque o tema era vasto e daria para um "trimestre", optámos por incidir o foco da nossa intervenção na geração dos chamados "cantautores" (sing-songwriters), uma vez que a denominação, cobria os "baladeiros" ou "cantores de protesto" (anteriores a 1974) e os "cantores de intervenção" ou "canto livre", surgidos com o "25 de Abril".
Devo confessar, que poucas coisas me dão mais gozo do que seleccionar músicas e autores que fazem parte da banda sonora da minha vida. Se alguma coisa marcou a minha geração, foram as canções (datadas ou intemporais), que continuam a fazer parte da história da (nova) Música Popular Portuguesa. Restava a parte mais difícil: que músicas e autores escolher, para apresentar a uma classe heterógenea, constituida por alunos que nunca, ou raramente, teriam ouvido estas canções, ainda por cima num tempo limitado de duas horas?
Após um fim-de-semana de tentativas várias, conseguimos alinhar 25 títulos que cobrem, "grosso modo", o período compreendido entre 1956 e 1982, respectivamente o ano das primeiras "Canções Heróicas" (gravadas pelo Coro da Academia de Amadores de Música, dirigido pelo maestro e compositor Lopes Graças); e o ano da edição de dois albuns seminais da MPP (os LPs "Ser Solidário/FMI" de José Mário Branco e "Por este Rio Acima", da Fausto Bordalo Dias). O primeiro, "encerrando", de algum modo, a fase da canção mais comprometida politicamente e, o segundo, inaugurando uma fase de grande criatividade, após o período mais politizado destes mesmos cantautores. Pelo meio, nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Tino Flores, GAC, Fausto e Vitorino.
O tempo não deu para mais e muitos nomes ficaram de fora. Nada que tivesse impedido os presentes de manifestarem o seu apreço pela música oferecida, coisa que, de resto, é natural num país que nos deu cantautores como Paco Ibáñez, Luís Pastor, Patxi Andión, Lluís Lach ou Joan Manuel Serrat, para nomear alguns dos mais conhecidos.
Por coincidência, actuava na cidade, Teresinha Landeiro, num ciclo de fado anualmente organizado pelo Lope de Vega, o mítico teatro sevilhano. Não podíamos faltar (noblesse oblige) também porque conhecemos a jovem fadista das noites de fado amador, então organizadas no centro cultural da "Fábrica Braço de Prata", em Lisboa, já lá vão 10 anos. Tinha, Teresinha, 14 anos...
Dez anos mais tarde e dois albuns de originais depois, para além de actuações em salas prestigiadas como o CCB (Lisboa) e a Casa da Música (Porto), Teresinha confirmou todos os atributos que se adivinhavam há uma década atrás: uma fadista "puro sangue" que nada tem a provar, tal a maturidade do seu canto. Para quem estiver interessado, não deve perder as sextas à noite da "Mesa de Frades", em Alfama, onde ela actua regularmente.
Finalmente, e porque Sevilha sem Flamenco é como Roma sem Papa, tanto procurámos que fomos bafejados pela sorte. Em cartaz, nessa mesma semana, um concerto organizado na sala Cero, um pequeno teatro de bolso que, pela primeira vez, em colaboração com Madrid e Granada, organiza um ciclo dedicado a Manuel de Falla (Musica de Cámara y Flamenco).
Desta vez, o programa, ainda que sugestivo, era relativamente desconhecido para nós: Rocío Diaz (cantaora), Manolo Franco (guitarra) e Luisa Palicio (bailaora). Porque os concertos deste ciclo, são temáticos, este era dedicado à "Triana de Azulejo", uma evocação, suportada por magníficos diapositivos, das decorações típicas do famosos bairro sevilhano. Após uma curta, mas pedagógica introdução ao tema, por parte do organizador, pudemos assistir a hora e meia de excepcional qualidade e, fiel ao espírito de Falla, sem amplificação sonora. Aqui, o "cante" clássico, interpretado por Rocío, foi superiormente acompanhado pelo mestre Franco, um guitarrista de finíssimo recorte e técnica apuradíssima, a lembrar os grandes intérpretes da guitarra clássica espanhola. Uma nota final, para a bailaora (Palicio) que, pesem as poucas intervenções no concerto, mostrou uma técnica soberba, na tradição de uma arte, onde são incontáveis os génios da dança. Grande noite, a fechar uma estadia não menos memorável. 

2018/09/30

Sevilha: Bienal de Flamenco (2)

Para a segunda metade da Bienal deste ano, reservámos três entradas, seguindo o mesmo critério dos primeiros espectáculos: um de "toque", um de "baile" e outro de "cante", as expressões da arte flamenca por definição.
Começámos pelo concerto "Viviré" (homenagem a Camarón) por um dos maiores guitarristas flamencos da actualidade, José Fernández Torres (Tomatito), companheiro de estrada e de estúdio do famoso "cantaor", falecido em 1992.
Este era um concerto imperdível, não só pela áurea de Tomatito - uma "fiera" na expressão carinhosa dos seus admiradores - mas, porque dos grandes guitarristas vivos (Manolo Sanlucar, Vicente Amigo, Gerardo Nunez, Chicuelo...) Tomatito era o único que eu não tinha visto ao vivo. Tive o privilégio de assistir à última apresentação de Paco de Lucía em Lisboa (2005), pelo que me posso considerar um homem de sorte...
O concerto, que decorreu no passado 22 de Setembro, teve lugar no teatro La Maestranza (1800 lugares) um imponente edifício, construído de raiz para a Expo'92, inicialmente projectado para ópera e zarzuela e que tem como residente a Real Orquestra Sinfónica de Sevilha. Para além de ópera, a sala programa espectáculos nas mais diversas áreas, desde o pop ao rock, passando pelo cabaret (Utte Lamper), flamenco (Mayte Martín), fado (Dulce Pontes, Mísia, Carminho) e, já no próximo mês de Novembro, o "nosso" Salvador Sobral. Mais eclético do que isto, é impossível.
Tomatito, portanto: fabuloso guitarrista, fantásticos convidados (José del Tomate, Duquende, Arcángel, Rancapino Chico), para além dos respectivos acompanhantes, onde havia "cantaoras", um violinista e um percussionista. Um elenco fabuloso, que passou em revista muitos dos temas celebrizados por Camarón (Leyenda del Tiempo, e.o.), a solicitar os "olés" da praxe, sinónimo de apreciação geral. Um pequeno senão (pelo menos na zona onde nos encontrávamos) que foi o som, verdadeiramente deplorável, dado o volume e a amálgama de instrumentos, que seriam fatais para um concerto que tanto prometia. Ficará para uma próxima oportunidade, estamos certos.
O dia seguinte, seria dedicado ao "baile", com o espectáculo "Improbataciones", uma estreia na "off Bienal", este ano coordenado pela "bailaora" Asunción Pérez "Choni", conhecida de actuações anteriores e que também dirigiu a abertura da Bienal na ponte de Triana. Os mesmos intérpretes de Triana, com Manuel Cañadas, (bailarino contemporâeno), David Bastidas e Alícia Acuña (cantaores), Víctor Bravo e Asunción Pérez (bailaores). Pese o lado de improviso, sublinhado pelos artistas na sua interacção com os espectadores, estamos em presença de excelentes intérpretes em cada um dos géneros (dança e canto), que são, de há muito, uma presença assídua na cena sevilhana. Destaque para Manuel Cañadas, que nunca tínhamos visto, e que se afirma como um bailarino de grande estilo e presença. Bom espectáculo, onde a seriedade e o humor, sempre servidos por uma óptima banda sonora, alternaram com bom gosto.
Finalmente, o concerto flamenco do surpreendente Niño de Elche, de quem já conhecíamos o último trabalho discográfico (Antologia del Cante Flamenco Heterodoxo) e do qual nos foi dado ver um pequeno trecho, no fabuloso espectáculo de abertura da Bienal, a cargo do "bailaor" Israel Galván.     Desta vez, a actuar na mítica sala Lope de Vega, a mais clássica de todas as salas da cidade (inaugurada em 1929 e reconstruída por duas vezes, após um fogo, duas cheias e a guerra civil,  quando funcionou temporariamente como hospital) o iconoclasta Niño não desiludiu.
Ou melhor, disse ao que vinha, desde logo quando se apresentou em palco vestido com um fato de treino, que despiu placidamente em frente à assistência e envergou um traje flamenco tradicional (calças e jaqueta negra, sobre uma camisa branca) para, sob uma aparente forma clássica, desconstruir a simbologia e o discurso flamenco tradicionais. Acompanhado por dois excelentes músicos, Raúl Cantizano (guitarra e percussão) e Susana Hernández (teclado, sintetizadores e electrónica) e pelos convidados, os "palmeros" David Bastidas e Alicia Acuña e "bailaores" Israel Galván e Eduarda de los Reyes, Niño de Elche passaria em revista os "palos" mais clássicos (farrucas, seguirias, saetas, fandangos, tangos e rumbas) numa abordagem "sui-generis", intercalada por poemas (Eugenio Noel, Lorca), cantos da guerra civil e uma improvisação sobre Tim Buckley, não tendo faltado a Rumba y Bomba, que encerraria o espectáculo. No fundo, à imagem do grande Enrique Morente, que chocou tudo e todos quando gravou "Omega", com a banda rock de Lagartija Nick, obra que os fundamentalistas flamencos ainda hoje não consideram digna do "cante". Destaque, mais uma vez, para o grande Israel Galván, no pico da sua arte, provavelmente o mais eclético e inovador "bailaor" flamenco da actualidade, que nos ofereceu dez minutos electrizantes.
Nota final: durante o espectáculo, muitos espectadores saíram da sala e, no dia seguinte, a imprensa local (ABC e Diário de Sevilha) arrasaram o concerto. Não me lembro de ter lido críticas tão demolidoras a um concerto. Niño de Elche conseguiu exasperar os puristas, provavelmente o seu objectivo último. Eu adorei.
                           

2018/09/18

Sevilha: Bienal de Flamenco


Está de volta a Bienal de Flamenco, a mais importante celebração musical do género, com lugar marcado na cidade de Sevilha, em anos pares, desde 1980.
Na sua 20ª edição, a decorrer entre 6 e 30 deste mês, lugar para as diversas formas da "arte" (cante, toque e baile) que inclui o flamenco mais clássico (cante "jondo"), o flamenco menos tradicional (cante "chico") e o flamenco moderno, nas suas diversas formas de fusão.
Não fora a distância e o preço dos espectáculos pagos (pormenor não despiciente) e estaríamos lá todos os dias. Acresce que, para além do programa oficial, a autarquia oferece diariamente pequenas actuações de canto e dança, nos lugares menos previsíveis, como praças, jardins, pátios, clubes e peñas flamencas. Uma oportunidade para assistir à abertura, este ano junto à ponte de Triana, com um "flashmob" ensaiado por dezenas de aficionados, que dançaram ao som de uma "buleria" transmitida pela aparelhagem sonora do evento. Seguiu-se o "pregón" (pregão), um encadeado de pregões tradicionais, um "palo" em si mesmo nas palavras de Tomás de Perrate, cantados à capella por este histórico do "cante", que contribuiu para o primeiro momento de magia da noite. O ponto alto da abertura, viria a seguir, com o desfile "no sin mi bata", uma coreografia da "bailaora" La Choni, que, depois da atravessar a ponte de Triana, terminaria no bairro do mesmo nome, com uma "buleria" contagiante. Um fartote, que envolveu grande parte dos locais e de turistas, que se deslocam expressamente de outros pontos de Espanha e do estrangeiro, para assistirem a este momento único de celebração.

Com tanta coisa boa para ver, a escolha era difícil e nem sempre possível dado que alguns dos espectáculos esgotam com meses de antecedência. Foi o caso de Carmen Linares, a maior voz feminina do flamenco actual, que apresentava, em estreia, o concerto "Romances: entre Oriente y Occidente", um projecto em colaboração com Ghadis Benali Y Ensemble, onde se misturam influências musicais do Al Andalus.
Porque as alternativas eram muitas, o critério seguido foi o de ver nomes conhecidos, que nunca tivéssemos presenciado ao vivo. Neste lote, estava o bailarino e coreógrafo Israel Galván, hoje um dos nomes maiores da dança flamenca, presente na Bienal com dois espectáculos, dos quais o mais importante (Arena) teve lugar na histórica praça de touros "La Maestranza". Trata-se de uma adaptação do espectáculo com o mesmo nome, estreado em 2004, que contava com a participação de Enrique Morente. A nova versão, adaptada ao recinto e encomendada pela Bienal, segue o roteiro original (6 quadros, correspondentes a outras tantas "lides") em que Galván incarna o touro e o toureiro alternadamente, num espectáculo de rara beleza plástica, no qual, o dramatismo expresso na arena, é magnificamente sublinhado pelo canto de Kiki Morente (filho de Enrique) e pelos restantes intérpretes: desde logo, Galván, um génio, que não desdenha inovar  com a ousadia que só os criadores de excepção podem permitir-se, mas também os restantes "bailaores" e a "brassband", sempre presente na arena, para além de El Niño de Elche, um transgressor do flamenco que, para além de cantar, recita poemas clássicos espanhóis, adaptados aos dias de hoje. Brutal, El Niño! Uma última palavra, para o som e luz, de recorte magnífico, em condições verdadeiramente adversas (uma praça de touros descomunal) em que nunca nos sentimos deslocados, pese a nossa aversão a touradas.
O terceiro espectáculo, desta primeira série, teve lugar no Hotel Triana, um "corral de vecinos" em forma de "U", onde decorrem vários espectáculos da Bienal, que podem ser presenciados pelos moradores a partir das suas próprias casas. Ambiente efervescente e praticamente esgotado, com direito a serviço de bar, numa organização impecável. Pormenor curioso: a exemplo da sessão na "Maestranza", a sessão iniciou-se com as habituais recomendações sobre o uso e proibição de gravação e fotografias em espanhol, inglês e...japonês! A razão é simples: o Flamenco é uma "rage" no Japão e anualmente milhares de potenciais "bailaoras", passam meses em Sevilha, para aprenderem os segredos da dança. Lá estavam elas, todas vestidas a rigor, de trajes "lunares" e mantilhas locais.

O programa, intitulado "Lebrija, Luna Nueva", era promissor e não defraudou as expectativas: Inês Bacán (uma histórica do "cante") acompanhada do irmão Juan Bacán e respectivas famílias ciganas, na melhor tradição de Lebrija, lugar-cadinho do Flamenco, a meio caminho entre Utrera e Jerez. Onze pessoas em palco (três "tocadores", quatro "cantaores", dois "bailaores" e dois "palmeros") que incendiaram o recinto, na curta hora e meia que durou a actuação. Entre "soléas", "seguirias", "bulerias" e duetos, cantados por Miguel Hijo Fino (um timbre contagiante) e Javier Heredia (cantaor e bailaor de fino recorte) o concerto teve momentos mágicos, que repassaram para a assistência, em verdadeiro êxtase. O "duende" esteve, mais uma, vez presente em Triana, o bairro onde sempre voltamos com saudades de regressar.
Para a semana há mais. Seguem-se, Tomatito, com dois convidados de luxo (Duquende e Arcángel) e El Niño de Elche, com o concerto "Antología del cante heterodoxo", baseado no álbum com o mesmo nome. Se houver bilhetes, ainda haverá tempo para Rosalía, a nova sensação do cante feminino flamenco. Lá estaremos.     
    
    
      

2018/07/05

Na rota do Flamenco (5)

Entre 1992 e 2014, desapareceram quatro dos maiores nomes da "renovação flamenca", a geração surgida no panorama musical espanhol - após a queda do regime franquista - que rompeu com o denominado "flamenco operático" e outros estereótipos do género, popularizados através dos "tablaos" para consumo turístico. Camarón de La Isla (1950-1992), Enrique Morente (1942-2010) no "cante"; Antonio Gades (1936-2004) no "baile" e Paco de Lucia (1947-2014) no "toque", foram as figuras principais desta transição que contribuiu para a renovação do "cante jondo" e a sua projecção internacional. O género deixou de ser uma arte marginal (interpretada por ciganos) e desprezada durante a ditadura, para se afirmar nos circuitos musicais de renome, sendo hoje reconhecido pela Unesco, como Património Imaterial da Humanidade.
Um longo caminho, com mais de 200 anos, onde pontuam nomes como El Planeta, Silverio, Antonio Chacón, Manuel Torre, El Fosforito, Manolo Caracol, La Niña de Los Peines, Tomas Pavón, Antonio Mairena, Fernanda e Bernarda de Utrera, Carmen Amaya, Antonio Gades, Farruco, Ramón Montoya, Sabicas, Pepe Habichuela e tantos outros...   
A vitalidade do Flamenco pode ser constatada nos inúmeros locais onde continua a praticar-se, sendo a cidade de Sevilha um bom exemplo desta popularidade. Para turistas apressados, "O Museu del Baile Flamenco" (com sessões contínuas diárias e um corpo de baile residente), situado a meio caminho entre o Centro e o Barrio de Santa Cruz, pode ser uma boa alternativa. Para os mais conhecedores, a "Casa de la Memoria" (Centro Cultural Flamenco) situada em pleno Centro (Calle Cuna), oferece sessões de flamenco tradicional, com actuações de "cante", "toque" e "baile" de muito boa qualidade. Foi lá que vimos a excelente "bailaora" La Choni e, mais recentemente, uma sessão dedicada ao "cante jondo", com Ana Real, David Bastidas e Marta "La Niña" (cante), Yolanda Osuna e Óscar de los Reyes (baile) e Raúl Cantizano (toque). Um programa para iniciados, com incursões polifónicas nas "saetas", "martinetes" e "soléas", de nível. Outra boa opção, é "CasaLa Teatro", um teatro de bolso (28 lugares), situada em pleno Mercado de Triana, no bairro do mesmo nome, junto à Ponte de Isabel II. Vimos lá um trio flamenco constituído por Carmen Lara, Celedonio Garrido e Sergio Gòmez, que valeu bem a visita.
Porque, em 22 de Junho, actuava Miguel Poveda na cidade, não resistimos ao apelo de um dos maiores nomes do Flamenco actual, que ali apresentou o seu último concerto "Enlorquecido", dedicado ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca.
O concerto, esgotado com antecedência, teve lugar no auditório "Rocío Jurado" (inaugurado em 1991 para a Exposição Universal de Sevilha) que dispõe de 4000 lugares sentados. Pesem os preços algo exagerados e as deficientes condições de comodidade (cadeiras de plástico), o programa era aliciante e não defraudou as expectativas.
Poveda, velho conhecido do público português, tinha estreado duas destas canções no programa que apresentou aquando da sua última passagem pela Gulbenkian, no passado mês de Novembro. Desta vez, foram doze os poemas de Lorca escolhidos pelo cantor e musicados pelo pianista Joan Albert Amargós, os quais constituem a primeira parte do concerto. Excelentes músicos (13 pessoas em palco), entre os quais Amargós (no piano) e Jesús Guerrero (na guitarra), que também tinham acompanhado Poveda em Lisboa.  
Entre os clássicos "Chapéu de Três Bicos" e "Sevilhanas del Siglo XVIII", tempo para novo reportório, com "No me Encontraron", "Alba", "El Silencio", ou o pictórico "Son de Negros en Cuba". Um concerto, misto de flamenco e rock sinfónico, onde o som (óptimo) era apoiado por imagens projectadas em fundo, que sublinhavam a dramaticidade das canções, numa simbiose perfeita entre as diversas técnicas multimédia utilizadas.
A segunda parte, deu-nos a ver o Poveda, cuja carreira acompanhamos há vinte anos. Flamenco puro e duro, onde as "saetas", as "soléas" e as "seguiriyas", foram interpretadas com a mestria de alguém que domina os "palos" básicos do Flamenco como poucos. Nos "encores", tempo ainda para homenagear Camarón e Morente, com uma interpretação épica do hino "La Leyenda del Tiempo". O concerto, que duraria duas horas, terminaria com as tradicionais "bulerías", cantadas e dançadas, por todos os músicos em palco. Um magistral Poveda, no auge da sua maturidade artística.  
Sim, o Flamenco está vivo e recomenda-se!

2011/11/15

Sevilha é uma festa!

Está-se bem em Sevilha.
Não fora o extravio da bagagem, algures em Barajas, esta tinha sido a visita perfeita. Para tal muito contribuiu a disponibilidade da minha anfitriã sevilhana, Rosario Solano, uma "cantaora" de fados que, de há anos a esta parte, vem divulgando a arte fadista no país vizinho. Foi dela o primeiro concerto, subordinado ao título "Fados à Minha Maneira", apresentado num Centro Cultural da cidade, onde contou com o acompanhamento de dois músicos locais: Manolo Imán e Yorgos Karalis.
O dia seguinte seria preenchido com uma visita a Carmona, verdadeira "ex-libris" andaluz, onde as influências islâmicas, judaicas e cristãs, se cruzam ao longo das ruas e casas de um branco alvíssimo. Foi aqui que Francesco Rosi filmou, em 1984, alguns dos exteriores da "Carmen", com Plácido Domingo, naquela que é provavelmente a melhor adaptação cinematográfica da ópera de Bizet. O "parador" da cidade, construído em estilo árabe sobre as ruinas de uma antiga fortificação e vista para a planície imensa, é de cortar a respiração.
A segunda actuação desta curta, mas preenchida visita, seria dedicada ao Flamenco mais tradicional (cante jondo) num dos "tablaos" do bairro de Santa Cruz. Aqui actua regularmente La Choni (irmã de Rosario) uma das "bailaoras" mais promissoras da nova dança flamenca. Um programa rigoroso onde, ao longo de uma hora, passaram em revista os "palos" mais clássicos: "soleás", "seguiryas" e "bulerias", cantadas, dançadas e tocadas por três intérpretes de excepção.
Voltaríamos a ver Choni e Cia Flamenca, na noite seguinte, agora no Teatro Municipal de Palacios, um "pueblo" a 20 quilómetros de Sevilha, onde apresentou o seu mais recente espectáculo "La Gloria de mi Mare". Trata-se de uma peça multidisciplinar plena de humor e dramatismo, onde os quatro actores em cena, para além de teatro, cantam, tocam e dançam. "La Gloria..." ganhou recentemente o Prémio Escenarios de Sevilla 2011 para o melhor espectáculo de Teatro. Duas horas de prazer, onde a qualidade de todos os intérpretes é notável.
A noite não podia acabar sem uma visita a uma das "peñas" mais antigas de Andaluzia, descrita e filmada em diversas obras de referência flamenca. Por ela passaram nomes como D. António Chacon (primeira metade do século passado) e António Mairena, "cantaor" e teórico do Flamenco, cuja foto domina a sala central do edifício.
A visita à capital andaluza não terminaria sem um concerto seminal, na moderna sala do Teatro Central de Sevilha, construído na Cartuja para a Expo de 1992. Nela actuaram, na noite do último sábado, Dave Holland (contrabaixo) e Pepe Habichuela (guitarra flamenca), apoiados por três membros da família Carmona, entre os quais se destaca o guitarrista Josemi Carmona, filho de Pepe. O quinteto interpretou temas do albúm "Hands" e da obra mais conhecida de Habichuela, "Yerbaguena" de 2001. Flamenco-Jazz ao mais alto nível, numa hora e meia do mais puro gozo musical.
Era já noite alta, quando comemos as últimas "tapas" no bairro de Triana. Como dizia a canção, Sevilha tem mais encanto na hora da despedida. Que viva Sevilha!

(foto EuropaPress/Teatro Central)