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2026/08/05

Tanger: uma semana noutra cidade (2)

Para quem tem pouco tempo e deseja visitar locais fora da cidade, as melhores opções são as excursões, marcadas com antecedência, ou o táxi privado, que exige um acordo prévio com o condutor sobre o destino e o preço final. Não há taxímetro. A distância e a duração da viagem, são os únicos critérios. 

Porque a ideia era intercalar Tanger, com visitas a Asilah e Chefchouan/Tetuan, pedimos um táxi e, nos dias e horas aprazadas, lá estava o condutor à porta do hotel. 

Jallah, é um veterano com 40 anos de condução que, para além de conhecer o país como as suas mãos, fala 4 línguas (árabe, espanhol, francês e inglês) e utiliza um sinónimo para cada palavra que não compreendemos. Nascido e criado em Tanger, fala-nos da sua juventude, do clube onde praticou futebol e dos ídolos do jogo que ainda pratica e o apaixona. Um "expert", que conhece bem Ronaldo e a seleção portuguesa, mas prefere Lamine Yamal, de origem magrebina e recente campeão do Mundo. Para além do desporto-rei, é um profundo conhecedor dos locais que visitámos, com sugestões sobre os melhores percursos, os melhores mercados, as melhores lojas e os restaurantes onde melhor se come. Uma enciclopédia, o Jallah.

A primeira cidade, Asilah (Arzila, em português) é uma antiga praça forte portuguesa (1471-1550) na costa atlântica, a cerca de 45 minutos de Tanger. A Medina, dentro de muralhas e o brasão sobre o portão principal da vila (Bab Al Homar) recordam a passagem de Portugal por estas paragens. De um branco alvíssimo, intercalado por garridas cores, com predominância do azul, Asilah lembra a Ericeira, com os seus becos floridos e limpos, onde "pintores de domingo" expõem os seus quadros. Uma agradável surpresa.

A segunda viagem, bem mais longa, permitiu conhecer duas cidades distintas: Chefchouan e Tetuan, visitas obrigatórias em qualquer roteiro turístico. Chef ("olhar") Chouan ("os picos") é, consensualmente, considerada a cidade mais bonita de Marrocos. A duas horas de Tanger, encravada entre as montanhas do Rif, revela-se à medida que deixamos a costa e iniciamos a subida em direcção à cordilheira. Entramos no Marrocos profundo, agreste e duro como as suas gentes, envoltas em longos kaftans e chapéus berberes tradicionais, enfeitados com borlas de variadas cores. Uma festa para os olhos. Percorremos as ruas estreitas do mercado de vegetais e de fruta, onde os agricultores vendem os seus produtos, expostos em tapetes no solo. Enquanto Jallah avalia o preço das sementes e das cebolas, caminhamos ao acaso pelas vielas estreitas, no meio do souk local, maioritariamente pintadas de azul. Sobre o azul das habitações, há duas explicações: arrefece as casas e afasta os mosquitos. Faz sentido. Um espanto, Chefchouan.

Na viagem de regresso, visitamos Tetuan, uma cidade marcada pela longa permanência espanhola, visível na arquitectura andaluza, na igreja católica que domina uma das praças principais e nas ruelas estreitas do centro histórico. O palácio real, situado na praça central, encontrava-se encerrado por barreiras e polícias armados. Jallah, sempre atento, informa-nos que o rei devia estar a chegar, pois pernoitava na cidade, este ano escolhida para as cerimónias comemorativas da coroação. Não sabia quando chegava, mas costumava viajar de noite. Esta informação, seria confirmada mais tarde pelo zelo com que centenas de funcionários, equipados com longas vassouras, varriam (!?) a auto-estrada que liga Rabat a Tetuan. Para além dos agentes da polícia, estrategicamente dispostos ao longo da via, um mar de bandeiras vermelhas nacionais, ondulava em todas as rotundas. Um cenário a lembrar regimes onde o culto da personalidade ainda existe.

À medida que a confiança com Jallah crescia, as suas opiniões tornaram-se mais "soltas". Aponta para as aldeias isoladas do Rif e comenta: "ninguém se preocupa com estas populações. Se adoecem, não têm quem os trate. Não há médicos. Têm de chamar uma ambulância que os leve a Tetuan, pela qual pagam 500 Dirhams (cerca de 50 euros). Uma fortuna. O salário mínimo nacional (SIC) é de 3500 DAM (cerca de 350 euros), mas os polícias e os militares ganham mais (cerca 4500 DAM) e têm vantagens sociais". Ele próprio, ganha menos que o salário médio, mas tem gorjetas. É casado e tem quatro filhos, todos a estudar. A mulher, que teve cancro, perdeu a mobilidade num braço devido a um AVC e não pode trabalhar. "Lá em casa toda a gente tem de trabalhar. Digo sempre aos meus filhos que a mãe já não tem a energia que tinha e devem ajudá-la. Se estudarem e terminarem os cursos, posso arranjar-lhes um bom emprego. Conheço muitos empresários e eles ajudam-me. Tenho um filho que passa o dia a olhar para o telemóvel. A juventude actual não tem nada na cabeça"...

As conversas, tornam-se mais confidenciais: "O rei, só constrói auto-estradas e estádios de futebol. O pai só construia barragens. Nenhum deles pensou no povo. Espero que o príncipe, cuide mais da saúde e da educação. Já era bom. Marrocos, podia ser um país rico, pois temos tudo: clima, praia, turismo, agricultura...". 

Jallah é um taxista informado, fruto da sua experiência e contactos. Confirma alguns dados, que eu conhecia de leituras prévias: Marrocos tem cerca de 40 milhões de habitantes (38,7 segundo o último censo), dos quais 50% são jovens. A taxa de desemprego actual, ronda os 11%, mas é de 37% entre os jovens (15-24 anos de idade). Os licenciados são cerca de 20%. Não há empregos e isso explica as sucessivas vagas de emigração, principalmente de homens jovens. As maiores comunidades vivem em Espanha, França, Bélgica e Holanda. Na Holanda (que conheço bem) a comunidade marroquina, já é a maior com 430.000 residentes (2,4% da população). Dada a situação actual, a diáspora tenderá a aumentar.

Falamos da praia de Tanger, em frente ao Boulevard Mohamed VI, onde aos domingos famílias inteiras passam o dia, naquela que é uma das formas de convívio mais populares. Milhares de homens, mulheres e crianças, em alegre convívio com as suas toalhas, guarda-sóis e farnéis abundantes. Refiro a diferença entre as mulheres que entram "vestidas" para a água e as que usam fato de banho. Como é?

Jallah, ri-se e explica: "Em Marrocos, as mulheres não são obrigadas a andar de Burka ou de Hijab. Tenho duas filhas e elas andam vestidas como querem. As mulheres que tomam banho "vestidas", usam o que nós chamamos "burkini" (palavra formada a partir de burka+bikini). São feitos de um tecido especial, impermeável. Não se molham..."

Marrocos é um mosaico. De cores, odores e sensações. Todos os dias, a cada esquina. Um povo delicado, atencioso e prestável. Toda a gente sabe algumas palavras de espanhol ou francês, mas os mais jovens falam inglês com fluência. Uma sociedade pós-colonial, que não perdeu a sua identidade. 

No último dia, Jallah fez questão de nos levar ao aeroporto. A terceira "corrida" em 4 dias. Desfez-se em agradecimentos. Deixa-nos o seu número de telefone. Para a próxima, vamos comer a sua casa. A mulher faz um  óptimo couscous.

 

  

   


 

 

 

 

2026/08/03

Tanger: uma semana noutra cidade


Nada como sair uns dias da habitual "zona de conforto" e observar o país real à distância, mesmo quando esta não ultrapassa uma hora de voo de Lisboa. Desta vez, a escolha recaiu em Marrocos.

Esta foi a terceira visita ao país magrebino, tão perto e, no entanto, "tão longe", como os dramáticos acontecimentos dos últimos dias vieram comprovar. Porque o calor africano não convidava a grandes incursões pelo Sul do país, a opção escolhida foi a costa norte (sul Mediterrânico), mais precisamente a cidade portuária de Tanger. Os dados meteorológicos consultados indicavam temperaturas máximas de 29º durante o dia, com noites cálidas de 21º em média o que, comparativamente com Lisboa, onde a temperatura ultrapassava os 40º naquela semana, mais parecia um verdadeiro "oásis" no deserto...    

Vista da janela do riad (uma bela mansão privada, convertida em hotel de charme) a costa espanhola observava-se a olho nu, já que a distância entre os dois continentes não ultrapassa os 30km. Ao início do dia, ainda envolta no nevoeiro matinal e, à medida que o Sol sobe, deixando adivinhar os recortes da acidentada costa andaluza. É, porém, ao final da tarde, que a luz reflectida no azul marítimo, tem o seu o apogeu, tingindo o céu de uma cor rosácea que tudo ilumina e tanto impressionou pintores e escritores europeus que aqui procuraram motivos para a sua inspiração. Percebe-se bem porquê.

De todas as cidades marroquinas, Tanger é, sem dúvida, a mais europeia. Por aqui passaram fenícios, romanos, franceses e espanhóis, deixando marcas indeléveis nas construções e hábitos ancestrais que ainda hoje perduram: na urbanização, nos jardins e nos bairros, cuja toponímia não engana: Place de France, Café Paris, Boulevard Pasteur, Alliance Française, Instituto Cervantes, Hospital Espanhol, Igreja Católica Espanhola... A privilegiada situação geográfica permite-lhe, ainda hoje, controlar a entrada e saída do tráfico marítimo entre o Mediterrâneo e o Atlântico, coisa que o governo marroquino explora a contento, agora mais do que nunca, dado o conflito de Ormuz.  

A cidade (cerca de 1,3 milhões) divide-se em duas áreas distintas: o centro histórico, do qual faz parte a Medina (cidade antiga) e, dentro desta, o Kasbah, (citadela, tradicionalmente habitada por famílias poderosas); e a cidade pós-colonial (la ville nouvelle) de construções recentes, hotéis e largas avenidas, onde se encontram as lojas de marca, bancos, museus, etc. De Tanger, parte ainda a primeira linha de TGV, recentemente inaugurada e que, por altura do próximo campeonato mundial de futebol, deve terminar em Casablanca, onde, neste momento está a ser construído o maior estádio do Mundo (115.000 espectadores). 

Porque o lado "moderno", tende a ser parecido em todo o Mundo, a nossa atenção e tempo foram essencialmente dedicados às incursões na cidade antiga, onde as ruas sinuosas e labirinticas não raramente nos confundiam os passos. Sempre me perdi, sempre me achei. Há um princípio, no entanto: as ruas que sobem, conduzem às portas da Medina (antigas torres guardadas, que eram encerradas durante a noite); as ruas que descem, conduzem às praças e ao comércio ao ar livre, os souks. É nestes maravilhosos mercados, onde tudo se vende e tudo se regateia, que o pulsar do quotidiano da cidade mais se sente. Também é na Medina, que encontrámos os melhores restaurantes e patisseries, de comer e chorar por mais... 

Em Tanger, visitámos diversos museus (Ibn Battuta, Museu de Arte Moderna, Villa Harris), com excelentes exposições de pintura e fotografia, anunciadas por toda a cidade. A cinemateca e o cinema Roxy, famoso pelo festival anual, exibem diariamente filmes legendados, oriundos dos mais diversos países. No bairro francês (quartier français), encontrámos duas das mais icónicas livrarias da cidade: Librairie des Colonnes e Les Insolites, visitadas pelos grandes nomes da literatura mundial. Foi na segunda, que deparámos com um livro do "nosso" cineasta João César Monteiro. Uma agradável surpresa. Mesmo em francês, não resistimos em trazê-lo. 

Que mais referir nestas notas, necessariamente impressionistas, de uma visita marcante? A vibração da cidade, a delicadeza das pessoas, a hospitalidade contagiante, as noites amenas, os programas de jazz da Radio Tanger ao entardecer, o chá de menta, os gatos...milhares de gatos de todos os tamanhos e cores, esquálidos e famintos, implorando por comida nos portais das casas. Eles são um dos ex-libris da cidade, verdadeiros resistentes numa sociedade onde a pobreza material não apaga a dignidade de uma população jovem, que ainda acredita em dias melhores, num país com futuro, apesar dos seus corruptos governantes.        

    

2019/07/28

A "Época dos Fogos"


Como é da "tradição", voltaram os fogos de Verão. O fenómeno é de tal ordem, que alguém o baptizou de "época de fogos". Se já tínhamos a "quadra natalícia" e a "época balnear", porque não a "época dos fogos"? Desta forma, podemos sempre criar mais um "ritual de passagem" e anunciar lá fora: "Venha a Portugal no Verão: sol, praia e fogos, garantidos!". 
Os números não mentem. De acordo com o relatório "O Mediterrâneo Arde", apresentado este mês pela World Wildlife Fund" (WWF), as perspectivas para os países do Mediterrâneo Norte (Portugal incluído), são preocupantes. Já em finais de 2018, outro estudo, liderado por Marco Turco (universidade de Barcelona), apresentava projecções catastróficas: no melhor cenário, aquele em que a temperatura média do planeta aumentará 1,5ºC (limite estabelecido pelo Acordo de Paris sobre alterações climáticas) , o Mediterrâneo verá a sua área ardida aumentar em 40% até ao fim do século, sendo a Península Ibérica uma das zonas mais penalizadas. Caso o aquecimento chegue aos 3ºC, a destruição poderá atingir os 100%.
O relatório do WWF,  que incide sobre Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia, alerta ainda para o facto de termos entrado numa época de megaincêndios (de sexta geração), imprevisíveis, violentos, incontroláveis e letais. Fazem parte desta categoria, os grandes fogos de 2017 (Pedrogão e 15 de Outubro) e 2018 (Grécia). Este ano, devido às irregularidades climatéricas e um Verão relativamente fraco, os grandes fogos começaram mais tarde. No entanto, bastaram dois dias de incêndios violentos (Vila de Rei e Mação), para que os números disparassem. Num só fim-de-semana, arderam 8000 ha, metade da área ardida em todo o ano! Se esta é a realidade de Julho, o que podemos esperar dos dois meses que faltam, para terminar a "época dos fogos"?...
É verdade que não houve vítimas, como há dois anos (112 mortos), o que mostra algum avanço na forma de combater o fogo. A estratégia passou a ser "salvar vidas", em detrimento de casas e bens. Mas, conforme todos os especialistas apontam, muito há ainda por fazer nesta área, a começar pela prevenção, que leva tempo a implementar e sem a qual o combate ao fogo será sempre inglório.
O diagnóstico está feito e passa por acções conjuntas, a começar pelo ordenamento do território e respectivo cadastro, sem o qual é impossível gerir a floresta existente nos terrenos privados (90% do território). Estes, encontram-se ao abandono, seja por falta de meios humanos, seja por falta de meios materiais.
Há duas variáveis que Portugal (os respectivos governos) dificilmente poderão controlar: o aquecimento global e a desertificação do interior. Relativamente ao primeiro "item", só através de acções conjuntas a nível internacional (o Acordo de Paris é um bom exemplo) poderão ser tomadas medidas que defendam o planeta do anunciado aquecimento. No segundo caso, os incêndios não poderão ser evitados (haverá sempre fogos, durante todo o ano), mas poderão ser minorados, desde que a prevenção tenha um papel determinante. Uma das formas, será criando incentivos que ajudem os proprietários a limpar os terrenos e a entregar a madeira e mato recolhidos, em troca de benefícios que justifiquem a recolha sistemática da carga "combustível" existente, para que, dessa forma, esta possa ser transformado em biomassa. Se não houver contrapartidas, dificilmente os donos dos terrenos, investirão numa industria, da qual não colhem proveitos. Na melhor das hipóteses, plantam árvores (eucaliptos e pinheiros) de crescimento rápido, para obter algum rendimento, uma das razões que estarão na origem de muitos dos fogos das últimas décadas. Uns por negligência, outros por interesses obscuros, já que sabemos que só uma ínfima parte dos fogos são originados por causas naturais (trovoadas, etc...).
Desde a década de sessenta do século passado, que a migração para o litoral (e para o estrangeiro) é uma constante. Mais de 75% da população portuguesa vive hoje numa faixa litoral, compreendida entre Braga e Setúbal. Reverter este processo, tornou-se utópico, admitindo que algum governo o queira tentar. Resta, pois, uma gestão equilibrada e sustentável do território, que passa por uma estratégia de longo termo, se ainda queremos salvar algo. Olhando para os gestores da coisa pública actuais, tememos o pior. Não se vislumbram grandes metas e as soluções (temporais) encontradas, acabam por ser mais do mesmo...Voltamos sempre ao princípio, ancorados numa velha certeza: o da tradição, imutável, como convém. Assim, não vamos lá...

2018/07/10

Tudo bem, quando acaba bem.


"All well that ends well", diria Shakespeare.
Os jovens tailandeses e o seu treinador, estão a salvo. Os últimos a sair, serão agora os mergulhadores-salvadores, que garantem a operacionalidade nas zonas submersas.
Durante a última semana, o Mundo pôde ver em directo uma das maiores e mais dramáticas operações de salvamento a nível internacional, pese embora a morte, no início das operações, de um mergulhador tailandês. Impossível não pensar nos mineiros chilenos das minas de Atacama que, em 2010, ficaram soterrados no local onde trabalhavam.
Um feito notável, tanto a nível técnico como de entreajuda e solidariedade internacional, sem a qual uma operação desta envergadura muito dificilmente seria possível.
Este acto, verdadeiramente heróico, nunca será demais realçado e passará, a partir de agora, a constituir um "case study" para futuras acções de salvamento.
Pena que os meios e a solidariedade internacional, não estejam sempre presentes em cenários não menos dramáticos e que merecem, igualmente, a nossa atenção. Desde logo, em situações onde crianças e adultos estão - por razões alheias à sua vontade - em perigo: guerras, perseguições ou tragédias climatéricas, hoje um pouco por todo o Mundo. É o caso do drama das vítimas das guerras no Médio-Oriente, dos refugiados do Mediterrâneo ou dos migrantes latino-americanos, que tentam entrar nos EUA, para citar três dos exemplos mais gritantes da última década.
Nesse sentido, a última cimeira europeia, agendada para discutir o Euro (que não chegou a ser discutido) acabou por se transformar numa cimeira sobre migrações, com cedências impensáveis de Merkel às chantagens do seu ministro do interior, apoiado pelos governos xenófobos da Itália, Áustria, Hungria e Polónia. A Europa "fecha-se" assim, mais uma vez, agora à volta de um "eixo", que cobre todo o território da Itália,  o antigo império austro-húngaro e a "grande" Alemanha, a lembrar velhos fantasmas do século passado. Sabemos da história, que o nacionalismo nunca foi boa opção e esteve na origem das duas últimas guerras. Liderados por políticos populistas, que desejam voltar às fronteiras do passado, os países do centro e Norte da Europa dão, desta forma, um exemplo negativo do que deve ser a solidariedade e o cosmopolitismo das sociedades modernas. Resta acrescentar que às (vagas) propostas dos líderes europeus citados - entre as quais a criação de centros de "contenção" e "triagem" dos migrantes que chegam à Europa, nos países a Sul e a Norte do Mediterrâneo - nenhum país ou governo se ofereceu para tê-los nos seus territórios. Sim, existe uma proposta, mas ninguém quer ficar com o ónus desta decisão. Enquanto a Europa não estiver de acordo sobre uma estratégia comum, para tentar solucionar este problema, continuarão a morrer milhares de pessoas, que não terão a atenção do Mundo, como tiveram (e bem) as crianças na Tailândia. O adiar deste problema, certamente um dos maiores da actualidade, contribuirá para acirrar os discursos de ódio e o populismo crescente na Europa. As eleições europeias do próximo ano, só conformarão esta tendência, mas pode já ser tarde.
Uma última palavra sobre as intermináveis reportagens e cobertura das operações de salvamento na Tailândia. Não fora os relatos sucintos e objectivos da Reuters, da SkyNews, da CNN e do The Guardian, estaríamos reduzidos aos comentários em estúdio de dezenas de "experts"que, ao longo da semana, foram passando pelos diversos canais e, na maior parte dos casos, se limitavam a especular sobre as dificuldades sentidas na gruta...Até especialistas, em meditação budista foram ouvidos em estúdio. Já não havia pachorra. 
Ainda bem, que tudo acabou bem.