Desde que, na passada semana, o país inteiro pôde presenciar - ao vivo e em directo - um tiroteio sem precedentes entre habitantes de um bairro da periferia de Lisboa, que Portugal não fala noutra coisa.
As opiniões podem, globalmente, ser divididas em dois grandes grupos: aqueles que, como o SOS Racismo e o Bloco de Esquerda, fazem das "minorias étnicas" as suas bandeiras de estimação e procuram justificar todos os desmandos com os argumentos do racismo e da discriminação existentes; e aqueles que, como Fernando Madrinha e Mário Crespo (de quem corre um artigo na NET) parecem mais preocupados com os beneficiários do "rendimento mínimo" que - pasme-se! - até possuem plasmas e leitores de DVD em casa (!?).
Há algo de sórdido e mesquinho nesta história de criminalidade urbana que, não por acaso, teve lugar num bairro de realojamento onde, não por acaso, viviam antigos moradores do Parque Expo que, não por acaso, eram na sua maioria desempregados de origem negra e cigana. Não por acaso.
E é aqui que a "porca torce o rabo". Com raras excepções (Vasco Pulido Valente) ninguém pareceu preocupado com a política social de alojamento e o modelo urbanístico que lhe está subjacente. Desde há muito que na Europa civilizada (onde existem políticas de imigração) foram abandonados os bairros sociais para pobres, por razões que a Sociologia explica. O modelo seguido em cidades cosmopolitas como Paris, Londres, Amsterdão ou Berlim é, de há décadas a esta parte, o da integração progressiva dos estrangeiros em bairros populares onde convivem com políticos nacionais, médicos, professores universitários, estudantes, operários fabris, desempregados e prostitutas legais. E o sistema funciona.
Também na mesma Europa, já foi tentado o modelo periférico de exclusão social. Os guetos aí formados, levaram à implosão da maioria destes bairros sociais na década de oitenta. Vinte anos depois, Portugal parece não ter apreendido nada com a experiência alheia. Continuamos a deixar crescer os bairros ilegais nas periferias das cidades e, quando é necessário realojar os seus habitantes, despejamo-los em "torres" a que chamamos bairros, sem jardins, centros de dia, escolas, supermercados ou esquadras e polícia de proximidade. A polícia, de resto, tem medo de lá entrar.
O que se passou na Quinta da Fonte é, de há muito, conhecido dos responsáveis por este monstro urbanístico. Só que, deste vez, foi filmado e pudemos ver em directo o que lá se passa.
A menos de um kilómetro da minha casa, existe um dos bairros mais problemáticos da grande Lisboa, a Cova da Moura. Um aglomerado de construções clandestinas erguidas nas décadas de setenta e oitenta onde, calcula-se, vivem mais de 5000 pessoas. Quem as deixou construir estas habitações (que já foram barracas e hoje são casas de alvenaria e tijolo)? Certamente, a autarquia da Amadora, onde existem dezenas de bairros clandestinos cujos moradores são, na sua maioria, negros, ciganos e desempregados. Alguém imagina um emigrante português a construir uma casa clandestina em Berlim ou em Amsterdão? Obviamente que não. Como pode um governo exigir respeito se não cria regras de convivência socialmente aceitáveis?
2008/07/28
2008/07/25
A Língua da Cimeira
Durante o discurso inaugural na cimeira da CPLP (com as ausências de Angola e Moçambique e a presença do ditador da Guiné Equatorial) o primeiro-ministro português enfatizou as quatro bases de cooperação futura: a língua (na Guiné Equatorial fala-se espanhol e francês!), a cidadania, a concertação política e as energias (Brasil, Angola e Guiné-Equatorial têm petróleo). Para "abrilhantar" a sessão foi ainda assinado o "Acordo Brasileiro da Língua Portuguesa". Pouco a pouco começa a perceber-se a estratégia linguística de Sócrates. Desde que haja petróleo, qualquer "língua" serve!
2008/07/23
Allculture
Não estive presente na sessão de divulgação do estudo "Desenvolvimento de um clister de Indústrias Criativas na Região Norte", mas, pelos relatos, já deu para ir percebendo o que são as novas orientações do governo, no que respeita aos caminhos da cultura portuguesa: it's Allculture!!
And the beat goes on, dada-radada-da-da... the beat goes on!!!
And the beat goes on, dada-radada-da-da... the beat goes on!!!
2008/07/22
Karadzik
A prisão de Radovan Karadzik, um dos criminosos de guerra mais procurados da actualidade, veio pôr fim a um período de onze longos anos, em que as mais inverosímeis histórias sobre a sua fuga fizeram manchete na imprensa internacional. Desde a permanência na sua casa de Pale, donde nunca teria saído, até à protecção de monges ortodoxos em mosteiros da Bósnia profunda, passando por inúmeros disfarçes, dos quais o de padre teria sido o mais usado, Karadzik soube sempre escapar a uma perseguição que muitos julgavam poder não terminar nunca. Ainda ontem, aquando do anúncio da sua detenção, corriam duas versões sobre a forma como esta teria ocorrido: enquanto a versão oficial relatava um "raid" da polícia nos subúrbios de Belgrado, onde Karadzik, supostamente, vivia; a versão do seu advogado referia a passada sexta-feira, como o verdadeiro dia da detenção, após o ex-líder sérvio ter sido reconhecido num transporte público da capital...Também de mitos é feita a vida dos criminosos.
Bem mais importante que a lenda é, no entanto, a realidade sofrida pela população muçulmana da Bósnia, sujeita a uma das maiores operações de limpeza étnica de que há memória na Europa do pós-guerra e da qual os mais dramáticos exemplos foram o cerco de Sarajevo (1992-95) e o genocídio de 8000 homens muçulmanos friamente executados em Srebrenica (1995). Por detrás destas operações esteve o demente psiquiatra e poeta nacionalista que ontem foi, finalmente, preso. Será agora, como tudo indica, entregue ao tribunal Internacional de Haia para ser julgado. Não é ainda o fim da história e muitas lágrimas terão de correr nas faces das mães e viúvas de Srebrenica, até a sentença final ser declarada. Como referia o poeta uruguayo Mario Benedetti, a propósito da prisão de Pinochet na cidade de Londres: (ainda estamos longe da justiça) "pero, algo és algo"...
Bem mais importante que a lenda é, no entanto, a realidade sofrida pela população muçulmana da Bósnia, sujeita a uma das maiores operações de limpeza étnica de que há memória na Europa do pós-guerra e da qual os mais dramáticos exemplos foram o cerco de Sarajevo (1992-95) e o genocídio de 8000 homens muçulmanos friamente executados em Srebrenica (1995). Por detrás destas operações esteve o demente psiquiatra e poeta nacionalista que ontem foi, finalmente, preso. Será agora, como tudo indica, entregue ao tribunal Internacional de Haia para ser julgado. Não é ainda o fim da história e muitas lágrimas terão de correr nas faces das mães e viúvas de Srebrenica, até a sentença final ser declarada. Como referia o poeta uruguayo Mario Benedetti, a propósito da prisão de Pinochet na cidade de Londres: (ainda estamos longe da justiça) "pero, algo és algo"...
2008/07/19
"Tugaland"
No seu périplo pelo continente africano, o "engenheiro" continua a apertar a mão a ditadores sem escrúpulos.
Depois da badalada visita a Angola, onde num momento de exaltado optimismo chegou a afirmar que o "trabalho do executivo angolano é a todos os títulos notável" (!?), estará hoje na Líbia de Kadhafi, para fechar mais uns negócios. Ignoramos o elogio que fará desta vez, já que a reunião terá lugar na tenda onde, por norma, não são dadas conferências de imprensa. Talvez sejam discutidas as propriedades medicinais do chá de menta, agora que o calor aperta e as miragens no deserto sejam, por vezes, fatais. Para a semana, será a vez do Chavez, mais um ditador em queda de popularidade depois do fiasco das FARC. Tudo serve a estes "socialistas" de salão, desde que a negociata possa ser efectivada. Há quem lhe chame "realpolitik". Eu prefiro chamar-lhe hipocrisia.
Depois da badalada visita a Angola, onde num momento de exaltado optimismo chegou a afirmar que o "trabalho do executivo angolano é a todos os títulos notável" (!?), estará hoje na Líbia de Kadhafi, para fechar mais uns negócios. Ignoramos o elogio que fará desta vez, já que a reunião terá lugar na tenda onde, por norma, não são dadas conferências de imprensa. Talvez sejam discutidas as propriedades medicinais do chá de menta, agora que o calor aperta e as miragens no deserto sejam, por vezes, fatais. Para a semana, será a vez do Chavez, mais um ditador em queda de popularidade depois do fiasco das FARC. Tudo serve a estes "socialistas" de salão, desde que a negociata possa ser efectivada. Há quem lhe chame "realpolitik". Eu prefiro chamar-lhe hipocrisia.
2008/07/13
Casamentos e Funerais
Quem, por estes dias, ligue a televisão e assista ao que se passa nos bairros sociais da Grande Lisboa, não pode deixar de traçar paralelos com um filme de Kusturica.
Na quinta-feira, teria sido a desavença de um casal de etnia cigana que provocou os primeiros tiros entre dois grupos rivais do bairro da Quinta da Fonte. No seguimento deste primeiro confronto, um segundo tiroteio teve lugar, este mais violento, entre etnias africanas e ciganas. As imagens, de um vídeo amador, não mentem: dezenas de cidadãos armados disparavam contra outros moradores do bairro, em plena luz do dia. Os confrontos prosseguiram ao longo da tarde, agora já em directo e perante a aparente passividade da polícia e do ar paternal do ministro que avisava solenemente que "não eram permitidas armas ilegais em Portugal". Posteriormente, veio a saber-se que as armas apreendidas eram caçadeiras legais e que, das dezenas de atiradores, apenas dois tinham recebido uma notificação...
No sábado, enquanto decorria um casamento cigano num dos extremos do bairro, membros do grupo rival fugiam do local e, seguidos pela polícia, arrombavam casas na Quinta das Mós, outro bairro de realojamento. Interrogado em directo, o presidente do Concelho de Loures, um verdadeiro personagem saído de "Time of the Gypsies", declarava ufano que "recebia as chaves de quem desejasse ir-se embora" (?).
Ao mesmo tempo que ocorriam estes factos, no outro lado da cidade, um morador cigano do bairro do Zambujal era interceptado pela polícia quando transportava a mulher doente ao hospital. A paragem, de quase uma hora para revistar a carrinha, provocou a morte da paciente devido a um ataque cardíaco. Perante as acusações, a polícia remeteu-se a um silêncio comprometedor.
Não fora a gravidade da situação (a que se junta a completa desorientação de que dão mostras os responsáveis da Administração Interna) e estávamos tentados a convidar o realizador sérvio para filmar em Portugal a próxima saga do povo Roma. A realidade, em Lisboa, há muito tempo que ultrapassou a ficção. Só falta escrever o guião.
Na quinta-feira, teria sido a desavença de um casal de etnia cigana que provocou os primeiros tiros entre dois grupos rivais do bairro da Quinta da Fonte. No seguimento deste primeiro confronto, um segundo tiroteio teve lugar, este mais violento, entre etnias africanas e ciganas. As imagens, de um vídeo amador, não mentem: dezenas de cidadãos armados disparavam contra outros moradores do bairro, em plena luz do dia. Os confrontos prosseguiram ao longo da tarde, agora já em directo e perante a aparente passividade da polícia e do ar paternal do ministro que avisava solenemente que "não eram permitidas armas ilegais em Portugal". Posteriormente, veio a saber-se que as armas apreendidas eram caçadeiras legais e que, das dezenas de atiradores, apenas dois tinham recebido uma notificação...
No sábado, enquanto decorria um casamento cigano num dos extremos do bairro, membros do grupo rival fugiam do local e, seguidos pela polícia, arrombavam casas na Quinta das Mós, outro bairro de realojamento. Interrogado em directo, o presidente do Concelho de Loures, um verdadeiro personagem saído de "Time of the Gypsies", declarava ufano que "recebia as chaves de quem desejasse ir-se embora" (?).
Ao mesmo tempo que ocorriam estes factos, no outro lado da cidade, um morador cigano do bairro do Zambujal era interceptado pela polícia quando transportava a mulher doente ao hospital. A paragem, de quase uma hora para revistar a carrinha, provocou a morte da paciente devido a um ataque cardíaco. Perante as acusações, a polícia remeteu-se a um silêncio comprometedor.
Não fora a gravidade da situação (a que se junta a completa desorientação de que dão mostras os responsáveis da Administração Interna) e estávamos tentados a convidar o realizador sérvio para filmar em Portugal a próxima saga do povo Roma. A realidade, em Lisboa, há muito tempo que ultrapassou a ficção. Só falta escrever o guião.
2008/07/11
Vigilância electrónica
O Senado dos EUA acaba de aprovar uma nova lei de vigilância electrónica, muito controversa e restritiva, que suscitou um debate acalorado naquele país sobre as liberdades individuais. O mais interessante é que Bush consegue, finalmente depois de grandes esforços, fazer passar uma lei deste tipo, já na fase do seu perigeu político (quando terá sido o apogeu...?), e num momento em que o Senado é dominado por Democratas. Que esperar de uma presidência democrata que aí possa vir?
Os apertos e as constrições de todo o tipo parecem ser a única resposta que os políticos encontram para os problemas deste mundo, que caminha em imparável trânsito para um paradigma diferente. Já há muito tempo que não se via um ataque tão forte aos direitos civis duramente conquistados ao longo dos anos. As tentativas são várias e ocorrem em todas as latitudes. Neste aspecto, parece que voltamos, por vezes, aos tempos da barbárie. Os pregoeiros da "civilização ocidental" parecem esquecer os valores mais importantes em assentou a sua construção.
Por cá, apesar das tentativas várias em reeditar tempos de antigamente, claro que Pinto da Costa e Valentim Loureiro, esses grandes defensores das liberdades individuais, ainda podem sonhar em reclamar a ilegalidade das escutas telefónicas, com base nas quais os respectivos processos foram construídos...
Os apertos e as constrições de todo o tipo parecem ser a única resposta que os políticos encontram para os problemas deste mundo, que caminha em imparável trânsito para um paradigma diferente. Já há muito tempo que não se via um ataque tão forte aos direitos civis duramente conquistados ao longo dos anos. As tentativas são várias e ocorrem em todas as latitudes. Neste aspecto, parece que voltamos, por vezes, aos tempos da barbárie. Os pregoeiros da "civilização ocidental" parecem esquecer os valores mais importantes em assentou a sua construção.
Por cá, apesar das tentativas várias em reeditar tempos de antigamente, claro que Pinto da Costa e Valentim Loureiro, esses grandes defensores das liberdades individuais, ainda podem sonhar em reclamar a ilegalidade das escutas telefónicas, com base nas quais os respectivos processos foram construídos...
2008/07/06
Percepções; sobrevivência e sonho
Anotei esta citação que acho fazer sentido partilhar agora:
«Aldous Huxley believed that our brains have been trained during the evolutionary millennia to screen out all those perceptions that do not directly aid us in our day to day struggle for existence. We have gained security and survival, but in the process have sacrified our sense of wonder.» (*)
J. G. Ballard, no Prefácio de "The Doors of Perception" (As portas da percepção) por Aldous Huxley.
(*) «Aldous Huxley acreditava que o nosso cérebro foi treinado durante a sua milenar evolução para desprezar todas as percepções que não servem para nos ajudar directamente na nossa luta do dia a dia pela existência. Ganhámos em segurança e sobrevivência, mas, nesse processo, sacrificámos o nosso sentido do sonho.»
Será isto verdade? A avaliar pela actual incapacidade (quase) generalizada de solidariedade, pelo actual desprezo pelas ideologias e pela imparável ganância que por aí grassa, é.
«Aldous Huxley believed that our brains have been trained during the evolutionary millennia to screen out all those perceptions that do not directly aid us in our day to day struggle for existence. We have gained security and survival, but in the process have sacrified our sense of wonder.» (*)
J. G. Ballard, no Prefácio de "The Doors of Perception" (As portas da percepção) por Aldous Huxley.
(*) «Aldous Huxley acreditava que o nosso cérebro foi treinado durante a sua milenar evolução para desprezar todas as percepções que não servem para nos ajudar directamente na nossa luta do dia a dia pela existência. Ganhámos em segurança e sobrevivência, mas, nesse processo, sacrificámos o nosso sentido do sonho.»
Será isto verdade? A avaliar pela actual incapacidade (quase) generalizada de solidariedade, pelo actual desprezo pelas ideologias e pela imparável ganância que por aí grassa, é.
2008/07/04
A realidade já não é o que era dantes
Já não é importante a "mensagem", quando se escreve. Pode contar-se uma simples história que aconteceu, ou que se imaginou que aconteceu. A história pode até nem ser "completa". Pode contar-se apenas uma fracção do acontecimento, como se só se tivesse assistido a essa parte e não se soubesse como a coisa se desenvolveu depois. Deixa-se isso à avaliação -- à imaginação -- do leitor. Como certas fotografias que, ao registarem apenas fracções de uma realidade, podem ser "vistas" de várias maneiras.
A fotografia é sempre uma ilusão. Nesse caso a ilusão é, pois, dupla. Ou múltipla; porque hoje em dia há a possibilidade de colher uma fotografia digital. Esta não passa de um enorme conjunto de informação (tanto maior quanto a capacidade de armazenamento de dados da máquina, isto é, a sua sofisticação) que pode ser trabalhada à medida do querer do fotógrafo. Eu pego em todos os píxeis que têm a informação de um determinado tipo de vermelho e mudo-lhe as características para, por exemplo, o avivar, ou mudar a sua cor.
A reprodução da realidade já não é o que era; a tecnologia tem um papel cada vez mais importante. E, como a realidade é também informada (portanto modificada) pela realidade reproduzida, hoje já não se sabe bem o que é a realidade.
Isto prende-se com a velha questão de que quanto mais uma pessoa sabe, mais tem consciência do que lhe falta saber. Porque lhe vão aparecendo novos temas, novas dúvidas, novos caminhos possíveis do saber. Mandaram-me há pouco tempo um power point que dizia que as profissões que irão ter mais procura dentro de poucos anos ainda nem sequer foram criadas.
Lembro-me de um texto de André Bazin que contava a seguinte história: Uns missionários foram, certa vez, projectar um filme numa aldeia muito primitiva de África. Os locais viram o filme atentamente e, quando depois lhes perguntaram do que tinham gostado, eles disseram que foi da galinha branca. Os missionários não tinham qualquer memória de no filme existir uma galinha branca e não deram por ela, mesmo depois de reverem o filme. Tiveram de o passar plano a plano na moviola para se aperceberem de que, sem que tal tivesse minimamente a ver com a acção, em determinada cena havia uma galinha branca que cruzava um canto da imagem. Fora esse acontecimento circunstancial e não a história que o filme contava, o que os sensibilizara. Acontecimento esse completamente casual e involuntário do ponto de vista de quem realizou o filme, já para não falar dos objectivos de quem o projectava.
É a isto que dantes se chamava "diferentes níveis de leitura".
Vem isto a propósito da minha ambição de contar histórias simples, daquelas que acontecem no dia a dia das pessoas. Histórias para toda a gente poder reconhecer; na medida da respectiva experiência e do seu saber anterior, claro. Não é nada fácil, garanto.
A fotografia é sempre uma ilusão. Nesse caso a ilusão é, pois, dupla. Ou múltipla; porque hoje em dia há a possibilidade de colher uma fotografia digital. Esta não passa de um enorme conjunto de informação (tanto maior quanto a capacidade de armazenamento de dados da máquina, isto é, a sua sofisticação) que pode ser trabalhada à medida do querer do fotógrafo. Eu pego em todos os píxeis que têm a informação de um determinado tipo de vermelho e mudo-lhe as características para, por exemplo, o avivar, ou mudar a sua cor.
A reprodução da realidade já não é o que era; a tecnologia tem um papel cada vez mais importante. E, como a realidade é também informada (portanto modificada) pela realidade reproduzida, hoje já não se sabe bem o que é a realidade.
Isto prende-se com a velha questão de que quanto mais uma pessoa sabe, mais tem consciência do que lhe falta saber. Porque lhe vão aparecendo novos temas, novas dúvidas, novos caminhos possíveis do saber. Mandaram-me há pouco tempo um power point que dizia que as profissões que irão ter mais procura dentro de poucos anos ainda nem sequer foram criadas.
Lembro-me de um texto de André Bazin que contava a seguinte história: Uns missionários foram, certa vez, projectar um filme numa aldeia muito primitiva de África. Os locais viram o filme atentamente e, quando depois lhes perguntaram do que tinham gostado, eles disseram que foi da galinha branca. Os missionários não tinham qualquer memória de no filme existir uma galinha branca e não deram por ela, mesmo depois de reverem o filme. Tiveram de o passar plano a plano na moviola para se aperceberem de que, sem que tal tivesse minimamente a ver com a acção, em determinada cena havia uma galinha branca que cruzava um canto da imagem. Fora esse acontecimento circunstancial e não a história que o filme contava, o que os sensibilizara. Acontecimento esse completamente casual e involuntário do ponto de vista de quem realizou o filme, já para não falar dos objectivos de quem o projectava.
É a isto que dantes se chamava "diferentes níveis de leitura".
Vem isto a propósito da minha ambição de contar histórias simples, daquelas que acontecem no dia a dia das pessoas. Histórias para toda a gente poder reconhecer; na medida da respectiva experiência e do seu saber anterior, claro. Não é nada fácil, garanto.
2008/07/01
O Modelo Europeu
No dia em que a França inicia a presidência da Europa a 27, o primeiro-ministro polaco veio anunciar que não assinará o Tratado de Lisboa, por este ter perdido qualquer sentido após o "não" irlandês. Esta era a notícia que Sarkozy dispensava. Logo agora, quando o presidente francês está em queda de popularidade acelerada e necessitava do Tratado para salvar a imagem de um país que, recorde-se, há três anos tinha dito "não" a Nice. Porque uma má notícia nunca vem só (Lei de Murphy) é bem possível que a República Checa siga o exemplo da Polónia. E vão três...
Bom, perante isto, que fazer (perguntar-se-ão a esta hora os eurocratas de Bruxelas)?
Aparentemente, sem saber ainda a resposta polaca, o inefável Sarkozy avançava ontem na TV5 com uma (im)provável solução para a crise europeia: "se há 1 "não" e 19 "sim", então o projecto Europa deve continuar com os 27 de Nice".
Ou seja, uma Europa a duas velocidades. Como a França e a Alemanha sempre quiseram, de resto.
Ou seja, quando o modelo não se adapta à realidade, adapta-se a realidade ao modelo. Estão a perceber?
Bom, perante isto, que fazer (perguntar-se-ão a esta hora os eurocratas de Bruxelas)?
Aparentemente, sem saber ainda a resposta polaca, o inefável Sarkozy avançava ontem na TV5 com uma (im)provável solução para a crise europeia: "se há 1 "não" e 19 "sim", então o projecto Europa deve continuar com os 27 de Nice".
Ou seja, uma Europa a duas velocidades. Como a França e a Alemanha sempre quiseram, de resto.
Ou seja, quando o modelo não se adapta à realidade, adapta-se a realidade ao modelo. Estão a perceber?
2008/06/27
Frankenstein em Harare
Morgan Gabriel Mugabe (1924) governa o Zimbabwe desde 1980. Tornou-se famoso na década de '60, depois da nomeação como secretário-geral do Zimbabwe African National Union (ZANU). Nos anos sessenta e setenta, Mugabe esteve preso na (então) Rodésia, governada por Ian Smith. Deixou o país em 1976, para juntar-se à luta de libertação do Zimbabwe que operava a partir de Moçambique. Com o fim da guerra, em 1979, Mugabe regressou ao Zimbabwe, onde foi considerado herói africano. Ganhou as primeiras eleições livres de 1980, no meio de inúmeras intimidações feitas pelas tropas que o apoiavam. Apesar dos seus apelos iniciais, para respeitarem a minoria branca, as relações com o Reino Unido nunca foram pacíficas.
Os primeiros anos de mandato foram marcados por violentos combates contra a tribo Ndebele, a segunda maior etnia zimbabuana, liderada por Joshua Nkomo, seu aliado na luta contra o colonialismo britânico. Afastado Nkomo (entretanto falecido) passou a governar o país sem oposição.
Desde 1988 que as políticas de Mugabe vêm sendo denunciadas, no Ocidente e no seu país, como sendo racistas.
Mugabe expropriou e expulsou milhares de agricultores brancos das suas terras, que foram entregues a antigos combatentes da ZANU. A produção de cereais, algodão e tabaco, que fizeram do Zimbabwe o "Celeiro de África", caíu abruptamente, provocando um exôdo rural sem precedentes e obrigando o país a importar a sua alimentação. Para fazer face à diminuição de divisas, Mugabe mandou cunhar trilliões de dólares zimbabuanos, provocando uma inflação sem procedentes que, praticamente destruiu todo o tecido económico. Milhares de zimbabuanos viram-se obrigados a emigrar para a África do Sul e Moçambique. Foi ainda acusado de perseguir, torturar e matar os seus oponentes políticos, nomeadamente do MDC que, contra ele, se apresentaram a eleições.
A todas as críticas, Mugabe responde que "se trata de um complot branco neo-colonialista" e que "os problemas do Zimbabwe, são uma herança do imperialismo".
No passado 3 de Abril, a Comissão Eleitoral do Zimbabwe anunciou a vitória do MDC para as eleições da Assembleia Nacional, por 47,9% contra 43% do ZANU. Porque nenhum dos partidos obteve a maioria simples, é necessário haver uma segunda volta. Mugabe atrasou a divulgação dos resultados e recomeçou a repressão contra os seus opositores. A segunda volta foi anunciada para hoje, mas perante o clima de terror instaurado, o principal líder da oposição, Morgan Tsvangirai, recusou participar naquilo que considera uma "farsa eleitoral" e refugiou-se na embaixada da Holanda.
As imagens, divulgadas pelas televisões internacionais, mostram um povo aterrorizado por um déspota tresloucado que há décadas governa o país com mão de ferro. À falta de melhor epíteto, Desmond Tutu (Nobel da Paz) chamou-lhe, esta semana, o "Frankenstein africano". O monstro de Mary Shelley tem um seguidor à altura.
Os primeiros anos de mandato foram marcados por violentos combates contra a tribo Ndebele, a segunda maior etnia zimbabuana, liderada por Joshua Nkomo, seu aliado na luta contra o colonialismo britânico. Afastado Nkomo (entretanto falecido) passou a governar o país sem oposição.
Desde 1988 que as políticas de Mugabe vêm sendo denunciadas, no Ocidente e no seu país, como sendo racistas.
Mugabe expropriou e expulsou milhares de agricultores brancos das suas terras, que foram entregues a antigos combatentes da ZANU. A produção de cereais, algodão e tabaco, que fizeram do Zimbabwe o "Celeiro de África", caíu abruptamente, provocando um exôdo rural sem precedentes e obrigando o país a importar a sua alimentação. Para fazer face à diminuição de divisas, Mugabe mandou cunhar trilliões de dólares zimbabuanos, provocando uma inflação sem procedentes que, praticamente destruiu todo o tecido económico. Milhares de zimbabuanos viram-se obrigados a emigrar para a África do Sul e Moçambique. Foi ainda acusado de perseguir, torturar e matar os seus oponentes políticos, nomeadamente do MDC que, contra ele, se apresentaram a eleições.
A todas as críticas, Mugabe responde que "se trata de um complot branco neo-colonialista" e que "os problemas do Zimbabwe, são uma herança do imperialismo".
No passado 3 de Abril, a Comissão Eleitoral do Zimbabwe anunciou a vitória do MDC para as eleições da Assembleia Nacional, por 47,9% contra 43% do ZANU. Porque nenhum dos partidos obteve a maioria simples, é necessário haver uma segunda volta. Mugabe atrasou a divulgação dos resultados e recomeçou a repressão contra os seus opositores. A segunda volta foi anunciada para hoje, mas perante o clima de terror instaurado, o principal líder da oposição, Morgan Tsvangirai, recusou participar naquilo que considera uma "farsa eleitoral" e refugiou-se na embaixada da Holanda.
As imagens, divulgadas pelas televisões internacionais, mostram um povo aterrorizado por um déspota tresloucado que há décadas governa o país com mão de ferro. À falta de melhor epíteto, Desmond Tutu (Nobel da Paz) chamou-lhe, esta semana, o "Frankenstein africano". O monstro de Mary Shelley tem um seguidor à altura.
2008/06/20
Memo
Definição: "O futebol é um desporto inventado por ingleses, que se joga com vinte e dois jogadores, onze de cada lado, um árbitro e uma bola e, no fim, ganha quase sempre a Alemanha".
2008/06/19
Questão de classe
Um dos comentários críticos mais chocantes que se ouve por aí ao "não" Irlandês é o daqueles que dizem que a Irlanda não pode sozinha parar a Europa. Não pode?!Claro que pode, por dois motivos.
Em primeiro lugar, pode porque é um país soberano que está a usar os seus mecanismos constitucionais, totalmente legítimos. E depois, pôde porque os génios que conduziram esta questão do Tratado deixaram esta matéria entregue ao sólido e sempre traquilizador princípio do "logo-se-vê", como anteriormente escrevi.
Estranho conceito de democracia e ainda mais estranha forma de conduzir um processo sobre matéria que eles próprios consideram da maior importância.
E assim se vê de que massa são feitos estes políticos que conduzem a Europa. A justificar plenamente os reparos daqueles que, dizendo-se partidários da causa europeia, afirmam que falta classe à classe política que hoje domina na Europa.
Ceci n'est pas un "non"...
2008/06/18
A Europa vista de fora
A simples ideia de uma directiva para o repatriamento é uma verdadeira obscenidade, que deveria fazer corar de vergonha os seus autores, promotores e apoiantes. Vergonha é, pelos vistos, coisa que não abunda no Parlamento Europeu porque a dita directiva foi aprovada por larga maioria de eurodeputados. Milhares de anos de história do pensamento ocidental humanista deitados, assim, num ápice, por um bando de desavergonhados, para o lixo!Razão tinha Mahatma Gandhi quando lhe perguntaram o que pensava da "civilização ocidental". "Era um boa ideia," terá ele respondido...
2008/06/15
O Plano B
Ainda os ecos do referendo irlandês não tinham desaparecido e já os mandarins de Bruxelas vinham a terreiro "ameaçar" a Irlanda da necessidade de rever a sua posição, pois este não era o resultado desejado... Se for necessário, devem convocar outro referendo até à obtenção do almejado "sim" e, com este, o consenso europeu. O raciocínio destes "iluminados" eurocratas é simples: 800.000 votantes, não podem estragar a "festa" de 490 milhões de cidadãos!
De facto, analisado à luz destes números, o "não" irlandês representa uma percentagem ínfima dos potenciais votantes da Europa a 27. Só que, nestas contas, os eurocratas esqueceram-se de um detalhe importante: em nenhum país da União Europeia os cidadãos puderam votar o Tratado, ao contrário da Irlanda, único membro da UE onde os tratados internacionais são sujeitos a referendo. E não é que a maioria dos irlandeses votou "não"? Como conciliar esta participação democrática com os desejos autocráticos do "directório" europeu? Esta a questão e a grande lição deste resultado. Que a própria constituição europeia, de resto, aceita no seu texto oficial.
Uma insolúvel contradição, que as grandes potências europeias (França e Alemanha á cabeça) não querem reconhecer. Por um lado desejam uma Europa unida; por outro, querem construí-la à revelia dos seus cidadãos. É por estas pequenas-grandes coisas que a Noruega votou "não" à adesão, a Dinamarca votou "não" a Maastricht e a França e a Holanda, votaram "não" a Nice. Agora, foi a vez da Irlanda dizer "não" a Lisboa. Sócrates considerou o resultado uma "derrota pessoal"; o inefável Cavaco sugeriu que a Irlanda é a causadora do problema (?!) e como tal deve resolvê-lo; enquanto Durão Barroso, que tinha dito não haver Plano B, veio declarar que o Tratado está "vivo". Como não há plano B, há que "obrigar" a Irlanda a arranjar uma solução. Mesmo que esta seja contra a vontade dos seus cidadãos. Não ocorre ao "directório europeu" que o Tratado de Lisboa está hoje morto e enterrado, graças à participação democrática dos únicos europeus que puderam votar em consciência. Também por isso, obrigado Irlanda!
De facto, analisado à luz destes números, o "não" irlandês representa uma percentagem ínfima dos potenciais votantes da Europa a 27. Só que, nestas contas, os eurocratas esqueceram-se de um detalhe importante: em nenhum país da União Europeia os cidadãos puderam votar o Tratado, ao contrário da Irlanda, único membro da UE onde os tratados internacionais são sujeitos a referendo. E não é que a maioria dos irlandeses votou "não"? Como conciliar esta participação democrática com os desejos autocráticos do "directório" europeu? Esta a questão e a grande lição deste resultado. Que a própria constituição europeia, de resto, aceita no seu texto oficial.
Uma insolúvel contradição, que as grandes potências europeias (França e Alemanha á cabeça) não querem reconhecer. Por um lado desejam uma Europa unida; por outro, querem construí-la à revelia dos seus cidadãos. É por estas pequenas-grandes coisas que a Noruega votou "não" à adesão, a Dinamarca votou "não" a Maastricht e a França e a Holanda, votaram "não" a Nice. Agora, foi a vez da Irlanda dizer "não" a Lisboa. Sócrates considerou o resultado uma "derrota pessoal"; o inefável Cavaco sugeriu que a Irlanda é a causadora do problema (?!) e como tal deve resolvê-lo; enquanto Durão Barroso, que tinha dito não haver Plano B, veio declarar que o Tratado está "vivo". Como não há plano B, há que "obrigar" a Irlanda a arranjar uma solução. Mesmo que esta seja contra a vontade dos seus cidadãos. Não ocorre ao "directório europeu" que o Tratado de Lisboa está hoje morto e enterrado, graças à participação democrática dos únicos europeus que puderam votar em consciência. Também por isso, obrigado Irlanda!
2008/06/14
A "Laranja" está de volta!
Nos supermercados e em instituições oficiais, nos correios e nas câmaras municipais, o clima é de festa permanente e a entusiasmo é contagiante: os empregados ostentam grandes chapéus em forma de taça e as mulheres cachecóis de penas laranjas. Um verdadeiro carnaval. Só em Berna, onde a selecção holandesa tem jogado, estão cinquenta mil holandeses em permanência (a maior parte deles sem bilhete). Ontem, no regresso a casa, em companhia do ex-presidente Jorge Sampaio, os passageiros da KLM eram informados ao minuto do resultado contra a França. A cada golo, anunciado pelo comandante de bordo, sucediam-se os aplausos dos passageiros em delírio. Quem disse que o referendo irlandês era a coisa mais importante para os europeus?
P.S. foto de Hennie Bos, adepta "laranja"
O défice comanda a vida
Num artigo perturbante intitulado "O declínio inequívoco de Portugal", publicado ontem no Público, Medina Carreira escreve o seguinte:
"Há um notório e crescente mal-estar no nosso país. Apesar do optimismo e das promessas, os salários continuam baixos, as pensões são exíguas, o poder de compra estagna, o desemprego é elevado, a classe média dissolve-se, a pobreza alastra, as desigualdades acentuam-se, as famílias estão pesadamente endividadas, a emigração recomeçou e os temores aumentam. A crise internacional chegou e atingirá alguns com especial violência.
É a mediocridade da economia que temos."
A leitura do resto deste arrasador artigo é obrigatória. O retrato pecará, porventura, por ficar aquém do que verdadeiramente se passa. O artigo é, de resto, um libelo lançado a todos nós, não só aos governos. Até a Medina Carreira...
"O estado da nossa decadência é profundo", diz o fiscalista, mas nem assim se adivinha qualquer reacção séria, mínima que seja, ao que se está a passar. Tudo parece adormecido à medida que o calor se instala.
E ai de nós se Portugal ganha o Euro 2008! E se perde?!
"Há um notório e crescente mal-estar no nosso país. Apesar do optimismo e das promessas, os salários continuam baixos, as pensões são exíguas, o poder de compra estagna, o desemprego é elevado, a classe média dissolve-se, a pobreza alastra, as desigualdades acentuam-se, as famílias estão pesadamente endividadas, a emigração recomeçou e os temores aumentam. A crise internacional chegou e atingirá alguns com especial violência.
É a mediocridade da economia que temos."
A leitura do resto deste arrasador artigo é obrigatória. O retrato pecará, porventura, por ficar aquém do que verdadeiramente se passa. O artigo é, de resto, um libelo lançado a todos nós, não só aos governos. Até a Medina Carreira...
"O estado da nossa decadência é profundo", diz o fiscalista, mas nem assim se adivinha qualquer reacção séria, mínima que seja, ao que se está a passar. Tudo parece adormecido à medida que o calor se instala.
E ai de nós se Portugal ganha o Euro 2008! E se perde?!
"No To Lisbon"
Tinham razão os eurocratas de Bruxelas em não quererem referendar o Tratado de Lisboa. O texto era demasiado difícil para a compreensão do homem da rua. Deve ter sido por isso que os irlandeses o chumbaram. Como foram os únicos autorizados a votar, agiram de acordo com a sua consciência: mandaram o tratado para o caixote do lixo da história. E agora, José?
2008/06/12
Deixa ver se passa...
A situação de expectativa em torno do resultado do referendo na Irlanda não pode deixar de causar uma enorme perplexidade. A Europa política está neste momento com a respiração suspensa. Muita coisa está em jogo com a aprovação deste "Tratado de Lisboa" e ouvimos mesmo hoje o primeiro ministro José Sócrates afirmar que está em jogo a sua carreira política. São oito anos de trabalho que dependem agora do sim ou do não do povo irlandês. A Irlanda foi o único país a submeter a referendo esta aprovação.
Numa Europa em crise, estando em causa o futuro de uma zona decisiva do globo, não deixa de suscitar uma profunda estranheza que tudo isto dependa desta singela mas significativa decisão. Ouvimos as reacções dos políticos quando questionados sobre a eventualidade do não triunfar, procuramos saber o que terá sido feito para o caso da votação não ser favorável na Irlanda e ficamos com a sensação que a Europa navega, fragilmente, nesta como noutras matérias, completamente à bolina.
A improvisação e o desnorte europeus não deixam de espantar, tanto mais que noutras matérias o grau de picuinhice das diversas instâncias políticas da Eurolândia raia frequentemente o ridículo pelo exagero. Então o Tratado é ou não uma questão importante? Que pensar destes políticos que um dia nos aparecem com ar dramático a dizer que ou o Tratado vinga ou vem aí o dilúvio, e que, posteriormente, perante a possibilidade de um único país colocar em causa todo este processo, mostram uma total falta de bom senso, de previsão e uma gritante incapacidade para gerar alternativas...?
Quando olho para o que está em causa e quando penso nos grandes desígnios em que hoje a Humanidade se encontra envolvida, para a consecução dos quais a Europa pode e deve desempenhar um papel crucial, não posso deixar de ficar boquiaberto com esta estratégia do deixa-ver-o-que-vai-acontecer.
Nesta altura já é tarde para o primeiro ministro se preocupar com o futuro político. Mesmo que ganhe o sim a imagem de improvisação e de leveza na condução deste processo já não descola...
Numa Europa em crise, estando em causa o futuro de uma zona decisiva do globo, não deixa de suscitar uma profunda estranheza que tudo isto dependa desta singela mas significativa decisão. Ouvimos as reacções dos políticos quando questionados sobre a eventualidade do não triunfar, procuramos saber o que terá sido feito para o caso da votação não ser favorável na Irlanda e ficamos com a sensação que a Europa navega, fragilmente, nesta como noutras matérias, completamente à bolina.
A improvisação e o desnorte europeus não deixam de espantar, tanto mais que noutras matérias o grau de picuinhice das diversas instâncias políticas da Eurolândia raia frequentemente o ridículo pelo exagero. Então o Tratado é ou não uma questão importante? Que pensar destes políticos que um dia nos aparecem com ar dramático a dizer que ou o Tratado vinga ou vem aí o dilúvio, e que, posteriormente, perante a possibilidade de um único país colocar em causa todo este processo, mostram uma total falta de bom senso, de previsão e uma gritante incapacidade para gerar alternativas...?
Quando olho para o que está em causa e quando penso nos grandes desígnios em que hoje a Humanidade se encontra envolvida, para a consecução dos quais a Europa pode e deve desempenhar um papel crucial, não posso deixar de ficar boquiaberto com esta estratégia do deixa-ver-o-que-vai-acontecer.
Nesta altura já é tarde para o primeiro ministro se preocupar com o futuro político. Mesmo que ganhe o sim a imagem de improvisação e de leveza na condução deste processo já não descola...
2008/06/09
"Blagues" em papel
Leio hoje no Público, no espaço do P2 dedicado aos blogues chamado "Blogues em papel", uma citação do blogue dazuis08.blogspot.com que inclui a seguinte frase: "O meu interesse pela selecção não se compara há minha paixão pelo FCPorto." Fui verificar e a asneira é mesmo do blogue. Será...?
Não me custa nada acreditar na sinceridade deste "bloguista" ("blogueiroso"? "bloguicida"?) e na sua profunda convicção clubística... Já me custa contudo ter de ler isto no Público. Que diabo, pela moeda antiga o jornal já custa cerca de 180 escudos! E é de referência! Ao menos que tivessem aproveitado para fazer um pouco de pedagogia.
Não me custa nada acreditar na sinceridade deste "bloguista" ("blogueiroso"? "bloguicida"?) e na sua profunda convicção clubística... Já me custa contudo ter de ler isto no Público. Que diabo, pela moeda antiga o jornal já custa cerca de 180 escudos! E é de referência! Ao menos que tivessem aproveitado para fazer um pouco de pedagogia.
2008/06/07
Mais impressões
Ainda no capítulo das impressões, não deixa de ser profundamente caricata a impressão que fica da colagem que a direita (ou pelo menos a direita que não está no poder neste momento...) faz a estas manifestações de descontentamento que atravessam a sociedade portuguesa. Já foi assim, por exemplo, com os professores, e agora continua com os 200.000...
Achará esta direita mentecapta e inútil que temos que os portugueses não sabem avaliar que para o estado actual do país, o seu contributo, o contributo de uma política de direita, foi determinante? Pensará esta direita canhestra que temos que basta colar-se ao descontentamento para ganhar uma credibilidade que perdeu inexoravelmente? Pensarão os novos panditas do PSD que a descoberta súbita de "preocupações sociais" da dra. Manuela Ferreira Leite faz esquecer os tempos em que ocupou a pasta das Finanças? Se pensam assim só posso dizer uma coisa: fico, eu próprio, impressionado!
Cautela porém: a ausência de um projecto, a caducidade completa de determinadas propostas, a pulverização organizativa da esquerda, e a sua teimosia em manter certos feudos (chamemos-lhe eufemisticamente assim...) podem muito bem ditar que a colagem, na prática, cole...
Achará esta direita mentecapta e inútil que temos que os portugueses não sabem avaliar que para o estado actual do país, o seu contributo, o contributo de uma política de direita, foi determinante? Pensará esta direita canhestra que temos que basta colar-se ao descontentamento para ganhar uma credibilidade que perdeu inexoravelmente? Pensarão os novos panditas do PSD que a descoberta súbita de "preocupações sociais" da dra. Manuela Ferreira Leite faz esquecer os tempos em que ocupou a pasta das Finanças? Se pensam assim só posso dizer uma coisa: fico, eu próprio, impressionado!
Cautela porém: a ausência de um projecto, a caducidade completa de determinadas propostas, a pulverização organizativa da esquerda, e a sua teimosia em manter certos feudos (chamemos-lhe eufemisticamente assim...) podem muito bem ditar que a colagem, na prática, cole...
Outras impressões, outras perguntas
Independentemente da impressão que poderá ter causado a manifestação da passada quinta feira ao Primeiro Ministro, uma pergunta a fazer é: qual a impressão que a manifestação causou à esquerda, ou às esquerdas, nomeadamente, aquela que se reuniu no Teatro da Trindade e que tanto incómodo causou ao partido do governo.
Outra pergunta que nós todos devemos fazer a estas esquerdas, as que foram ao teatro e à outra que não foi, será: se, ao contrário do Primeiro Ministro, ficaram impressionados com os números, qual é o plano que têm para dar um conteúdo a toda esta efervescência? Parece uma ocasião de ouro para avançar com um plano, se é que ele existe.
O pior que poderia acontecer seria ter de gramar os comentários dos que apontam a todas estas manifestações o defeito de não conterem propostas. E ficarmo-nos, sem perguntas, todos apenas pelas impressões...
Outra pergunta que nós todos devemos fazer a estas esquerdas, as que foram ao teatro e à outra que não foi, será: se, ao contrário do Primeiro Ministro, ficaram impressionados com os números, qual é o plano que têm para dar um conteúdo a toda esta efervescência? Parece uma ocasião de ouro para avançar com um plano, se é que ele existe.
O pior que poderia acontecer seria ter de gramar os comentários dos que apontam a todas estas manifestações o defeito de não conterem propostas. E ficarmo-nos, sem perguntas, todos apenas pelas impressões...
2008/06/06
Avisos, conselhos e impressões
Entre "avisos de amigo" de Mário Soares e conselhos para "terem juízo" de Manuel Alegre, dirigidos em ambos os casos ao Governo, 200.000 mil trabalhadores desfilaram ontem em Lisboa. Os números são, creio eu, oficiais, e não mereceram, que se saiba, qualquer contestação. Tudo decorreu com enorme naturalidade, numa quinta feira à tarde. O Primeiro Ministro reagiu, dizendo também com uma ar de grande naturalidade que não estava impressionado com os números.
Eu é que confesso que começo a ficar impressionado com o Primeiro Ministro...
Eu é que confesso que começo a ficar impressionado com o Primeiro Ministro...
2008/06/03
Aldina Mourinho
Aldina Duarte, fadista, convidada da SICN a apresentar o seu novo disco, está há mais de trinta minutos em estúdio aguardando que José Mourinho termine a sua apresentação como treinador do Inter.
Não é a primeira vez que a SICN interrompe emissões com convidados especiais e não é a primeira vez que o faz por causa de Mourinho. É uma opção jornalística da estação de televisão.
Quando lemos que as actividades do porto de Lisboa vão estar paradas durante os jogos da selecção para que os estivadores e demais trabalhadores portuários possam seguir o campeonato europeu de futebol, está tudo explicado.
Os portugueses podem estar muito preocupados com a crise petrolífera, a falta de peixe ou a crise governamental. Mas, mais do que tudo, estão preocupados com futebol. O jornalismo português não foge à regra. A SIC é o espelho da nação.
Ignoramos se Aldina ficou no estúdio. Provavelmente, não. Seria bom que os convidados da televisão dessem prioridade a outras coisas (neste caso a arte do fado) em detrimento da arte futebolística e tivessem a coragem de recusar tal subserviência ao desporto, mesmo que esse desporto seja o futebol e o entrevistado seja Mourinho. Com jornalismo deste jaez não há opinião crítica que resista.
Não é a primeira vez que a SICN interrompe emissões com convidados especiais e não é a primeira vez que o faz por causa de Mourinho. É uma opção jornalística da estação de televisão.
Quando lemos que as actividades do porto de Lisboa vão estar paradas durante os jogos da selecção para que os estivadores e demais trabalhadores portuários possam seguir o campeonato europeu de futebol, está tudo explicado.
Os portugueses podem estar muito preocupados com a crise petrolífera, a falta de peixe ou a crise governamental. Mas, mais do que tudo, estão preocupados com futebol. O jornalismo português não foge à regra. A SIC é o espelho da nação.
Ignoramos se Aldina ficou no estúdio. Provavelmente, não. Seria bom que os convidados da televisão dessem prioridade a outras coisas (neste caso a arte do fado) em detrimento da arte futebolística e tivessem a coragem de recusar tal subserviência ao desporto, mesmo que esse desporto seja o futebol e o entrevistado seja Mourinho. Com jornalismo deste jaez não há opinião crítica que resista.
2008/06/02
Exageros
A selecção e o Euro 2008 não são substituto para colocar Portugal no trilho certo e para transformar a vida dos Portugueses num processo menos doloroso que aquele que se vive, mas até parece. Correspondesse esta selecção a uma ideia verdadeiramente aglutinadora e fosse ela o espelho de uma situação global do país tão empolgante quanto o empolgamento que vamos vendo em relação ao jogo da bola e talvez tudo isto valesse a pena. Desse o Estado metade da atenção e dos meios às questões nucleares que interessam verdadeiramente aos portugueses, que dá continuadamente a este projecto e a história actual deste país seria outra.
Assim, cá vamos nós para mais uma prova relativamente inútil, ligeiramente fútil e seguramente inconsequente das nossas capacidades. Cá vamos nós para mais esta prova de "fé" em que permanentemente andamos metidos. Esta só não tem velas...
Mais exagerado do que tudo isto só talvez mesmo o comportamento dos suiços. Se não queriam os exageros do futebol no seu território porque raio concorreram à realização deste europeu? Prevejo o pior...
Uma coisa me dá algum gozo em tudo isto: em matéria de exageros, como em matéria de ridículo, os extremos tocam-se!
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