Mostrar mensagens com a etiqueta Eleições PR. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eleições PR. Mostrar todas as mensagens
2011/01/24
Todos perderam, todos perdemos
"O povo português não se deixou enganar," disse ontem Cavaco Silva no discurso de "vitória". É verdade. Prova-o o facto mais importante desta eleição: para além dos boicotes, foram batidos todos os recordes de abstenção, de votos brancos e nulos numa eleição presidencial. É uma derrota para todos. O regime está neste momento pouco acima da linha de água...
2011/01/18
Usucapião
Tento definir o conceito de usucapião. Sou um leigo em matéria de leis, mas penso que se trata do direito à posse de um bem, material ou imaterial, resultante do seu uso ao longo de um certo tempo. Espero que os juristas que eventualmente leiam este escrito me concedam uma folgazita...
A "imagem pública" que as figuras com algum tipo de influência no nosso colectivo tentam construir não é um fenómeno que tenha surgido de repente. Alimentando mitos, gerindo silêncios, cuidando do penteado, tendo lições de voz, proferindo discursos, dando entrevistas escolhidas, decidindo a inclinação das riscas das gravatas, evitando perguntas incómodas ou "tablóidizando" as suas vidas, as "figuras públicas" tornam-se, assim, maiores do que a realidade, e usam a imagem para criar poder ou segurar e aumentar o poder que têm. Ao usar a imagem essas figuras acabam com o tempo por se apossar dela. Mas, há qualquer coisa de estranhamente artificial neste "título de propriedade".
A imagem é uma criação que raramente "cola" ao personagem. É que há uma diferença entre ter uma imagem de honestidade, de artista, de louco e ser de facto honesto, artista ou louco. Há uma diferença entre inspirar confiança, suscitar um sentimento de rigor ou causar repulsa e ser confiável, rigoroso ou repulsivo de facto. Há quem tenha imagem de honesto e não seja, há quem não tenha uma imagem repulsiva mas seja repulsivo, há quem tenha imagem de iconoclasta mas seja afinal profundamente conservador. A "imagem", como a pós-produção na fotografia e no cinema, trata de corrigir os defeitos, apagar borbulhas ou dar estatura a quem a não tem. Mas muitas figuras públicas beneficiam da imagem que lhes foi criada e acabam mesmo por ser consideradas honestas, confiáveis ou estarolas pela generalidade das pessoas.
Na próxima eleição presidencial os concorrentes têm todos uma imagem que foi criada para ou por eles. O facto de terem essa imagem não quer dizer que ela corresponda à realidade. Temos de avaliar, através da análise dos factos, se a imagem cola com o personagem ou não. Por mim, creio que todos os personagens que estão na arena da luta presidencial têm imagens com defeito, mas há um candidato, em particular, que tem uma imagem que não condiz, por mais que ele se esforce, com a realidade: Cavaco Silva. Depois do espectáculo que deu, ao não esclarecer a embrulhada das acções da SLN, também ele vai ter de nascer uma segunda vez para conseguir, depois disto, parecer mais honesto do que pretende ser.
Cavaco é, claramente, um destes casos de usucapião. Como desconfiamos da imagem também os factos, esta súbita preocupação com os alunos e pais e as suas escolas, com os funcionários públicos e com os desempregados, suscitam desconfiança. É preciso estar atento para que não venha, por usucapião, a beneficiar desta imagem de paladino dos desprotegidos que agora surge, surpreendentemente, nesta etapa final da campanha.
A "imagem pública" que as figuras com algum tipo de influência no nosso colectivo tentam construir não é um fenómeno que tenha surgido de repente. Alimentando mitos, gerindo silêncios, cuidando do penteado, tendo lições de voz, proferindo discursos, dando entrevistas escolhidas, decidindo a inclinação das riscas das gravatas, evitando perguntas incómodas ou "tablóidizando" as suas vidas, as "figuras públicas" tornam-se, assim, maiores do que a realidade, e usam a imagem para criar poder ou segurar e aumentar o poder que têm. Ao usar a imagem essas figuras acabam com o tempo por se apossar dela. Mas, há qualquer coisa de estranhamente artificial neste "título de propriedade".
A imagem é uma criação que raramente "cola" ao personagem. É que há uma diferença entre ter uma imagem de honestidade, de artista, de louco e ser de facto honesto, artista ou louco. Há uma diferença entre inspirar confiança, suscitar um sentimento de rigor ou causar repulsa e ser confiável, rigoroso ou repulsivo de facto. Há quem tenha imagem de honesto e não seja, há quem não tenha uma imagem repulsiva mas seja repulsivo, há quem tenha imagem de iconoclasta mas seja afinal profundamente conservador. A "imagem", como a pós-produção na fotografia e no cinema, trata de corrigir os defeitos, apagar borbulhas ou dar estatura a quem a não tem. Mas muitas figuras públicas beneficiam da imagem que lhes foi criada e acabam mesmo por ser consideradas honestas, confiáveis ou estarolas pela generalidade das pessoas.
Na próxima eleição presidencial os concorrentes têm todos uma imagem que foi criada para ou por eles. O facto de terem essa imagem não quer dizer que ela corresponda à realidade. Temos de avaliar, através da análise dos factos, se a imagem cola com o personagem ou não. Por mim, creio que todos os personagens que estão na arena da luta presidencial têm imagens com defeito, mas há um candidato, em particular, que tem uma imagem que não condiz, por mais que ele se esforce, com a realidade: Cavaco Silva. Depois do espectáculo que deu, ao não esclarecer a embrulhada das acções da SLN, também ele vai ter de nascer uma segunda vez para conseguir, depois disto, parecer mais honesto do que pretende ser.
Cavaco é, claramente, um destes casos de usucapião. Como desconfiamos da imagem também os factos, esta súbita preocupação com os alunos e pais e as suas escolas, com os funcionários públicos e com os desempregados, suscitam desconfiança. É preciso estar atento para que não venha, por usucapião, a beneficiar desta imagem de paladino dos desprotegidos que agora surge, surpreendentemente, nesta etapa final da campanha.
2011/01/12
Embandeirar em arco e em flecha
Não deixa de ser curioso observar as reacções dos candidatos à presidência ao leilão de obrigações de hoje. Alegre declara-se satisfeito, Cavaco diz que não devemos embandeirar em arco. De facto, pensava eu, se a estratégia de combate à "crise" correr bem e o governo levar a melhor nessa sua estratégia o que fica da argumentação do candidato Cavaco que justifique a sua recandidatura?
Não sei se já repararam, mas toda a estratégia deste homem assenta no falhanço do governo, no aprofundamento da crise e no afundanço final de Portugal. A tal "reserva" é isto: enquanto espera que tudo vá ao fundo ele "reserva-se" o direito de aparecer como o salvador da pátria. Onde é que já se ouviu isto?
Se falhar o tal afundanço não resta nada do "pensamento político" do candidato. Cavaco parece um verdadeiro abutre olhando a crise à espera de lhe chupar as carnes.
Aqui há uns anos, nos tempos em que Cavaco era primeiro ministro, alguém (se não me engano, o Miguel Urbano Rodrigues) distinguia nele traços de ditador. Na altura, para alguns, essa leitura foi classificada como apressada e exagerada. Creio que está hoje mais que provada a sua justeza. Cavaco embandeira em flecha.
Não sei se já repararam, mas toda a estratégia deste homem assenta no falhanço do governo, no aprofundamento da crise e no afundanço final de Portugal. A tal "reserva" é isto: enquanto espera que tudo vá ao fundo ele "reserva-se" o direito de aparecer como o salvador da pátria. Onde é que já se ouviu isto?
Se falhar o tal afundanço não resta nada do "pensamento político" do candidato. Cavaco parece um verdadeiro abutre olhando a crise à espera de lhe chupar as carnes.
Aqui há uns anos, nos tempos em que Cavaco era primeiro ministro, alguém (se não me engano, o Miguel Urbano Rodrigues) distinguia nele traços de ditador. Na altura, para alguns, essa leitura foi classificada como apressada e exagerada. Creio que está hoje mais que provada a sua justeza. Cavaco embandeira em flecha.
2011/01/10
Orgulho
Cavaco Silva foi ministro das finanças em 1980, presidente do Conselho Nacional do Plano em 1981, primeiro ministro de 1985 até 1995 e é presidente da república desde 2005. É, segundo se diz, o político actual com mais anos de vida pública no activo.
José Mourinho não precisou de tantos anos para mostrar serviço na sua área. Falando na sua língua, declarou-se hoje singelamente um "orgulhoso português", perante uma plateia internacional que premiou com um significativo galardão os resultados excepcionais que obteve graças às suas capacidades técnicas, de estratégia e de liderança da sua equipa.
Ao dizer-se "orgulhosamente português" Mourinho tem consciência de que nos revemos (eu revejo-me!) nos seus êxitos e neles encontramos um elemento mobilizador.
Cavaco não tem, na sua área e ao seu nível de actuação, resultados de que se possa vangloriar ao fim de tantos anos de exercício dos mais altos cargos públicos, a sua estratégia continua a ser sair de Boliqueime e a sua equipa é o que se sabe. Ao fim de todo este tempo, isolado e acossado, Cavaco consola-se com o seu auto-proclamado título de "reserva da nação" quando, na verdade, pôs a nação na reserva.
Dir-me-ão, treinador de futebol é treinador de futebol e político é político. Mas, por maioria de razão, deixo-vos então a pergunta: depois de tantos anos de actuação, ao mais alto nível, o que fica da acção de Cavaco que nos faça sentir "orgulhosamente portugueses" e que elementos mobilizadores contém? O que diz tudo isto dele? E de nós?
José Mourinho não precisou de tantos anos para mostrar serviço na sua área. Falando na sua língua, declarou-se hoje singelamente um "orgulhoso português", perante uma plateia internacional que premiou com um significativo galardão os resultados excepcionais que obteve graças às suas capacidades técnicas, de estratégia e de liderança da sua equipa.
Ao dizer-se "orgulhosamente português" Mourinho tem consciência de que nos revemos (eu revejo-me!) nos seus êxitos e neles encontramos um elemento mobilizador.
Cavaco não tem, na sua área e ao seu nível de actuação, resultados de que se possa vangloriar ao fim de tantos anos de exercício dos mais altos cargos públicos, a sua estratégia continua a ser sair de Boliqueime e a sua equipa é o que se sabe. Ao fim de todo este tempo, isolado e acossado, Cavaco consola-se com o seu auto-proclamado título de "reserva da nação" quando, na verdade, pôs a nação na reserva.
Dir-me-ão, treinador de futebol é treinador de futebol e político é político. Mas, por maioria de razão, deixo-vos então a pergunta: depois de tantos anos de actuação, ao mais alto nível, o que fica da acção de Cavaco que nos faça sentir "orgulhosamente portugueses" e que elementos mobilizadores contém? O que diz tudo isto dele? E de nós?
2010/11/09
Os "mercados"
Quando ouvir dizer a palavra "mercados" outra vez, lembre-se deste artigo, que reproduzo do NYT com a devida vénia.
Pense nas dificuldades que sente, nos cortes dos pequenos salários e pensões, pense nas notícias que se ouvem sem cessar, pense nos PECs, nos PIIGS, pense na austeridade, na "austera" Merkel, no "apreeensivo" Barroso, pense, sobretudo, na cara do Presidente da República, na cara do Primeiro Ministro, na cara do Ministro das Finanças, na figura do Catroga de telemóvel na mão e do seu staff sorrindo a compasso por trás dele, pense nos deputados do PS e nos da oposição na AR Portuguesa, na cara e no discurso dos dirigentes dos diferentes partidos. Pense nos comentadores e "politólogos" que a toda a hora invadem o nosso espaço com os seus malabarismos verbais e pense na conversa com que nos enchem os ouvidos a toda a hora.
Pare um momento e pense em tudo isto. Clique depois na imagem e leia o artigo...
Garanto-lhe: é um exercício que vai mudar a sua vida!
Pense nas dificuldades que sente, nos cortes dos pequenos salários e pensões, pense nas notícias que se ouvem sem cessar, pense nos PECs, nos PIIGS, pense na austeridade, na "austera" Merkel, no "apreeensivo" Barroso, pense, sobretudo, na cara do Presidente da República, na cara do Primeiro Ministro, na cara do Ministro das Finanças, na figura do Catroga de telemóvel na mão e do seu staff sorrindo a compasso por trás dele, pense nos deputados do PS e nos da oposição na AR Portuguesa, na cara e no discurso dos dirigentes dos diferentes partidos. Pense nos comentadores e "politólogos" que a toda a hora invadem o nosso espaço com os seus malabarismos verbais e pense na conversa com que nos enchem os ouvidos a toda a hora.
Pare um momento e pense em tudo isto. Clique depois na imagem e leia o artigo...
Garanto-lhe: é um exercício que vai mudar a sua vida!
2010/10/30
Leite achocolatado para os olhos
Totalmente patético este acordo, verdadeiramente patéticas as posições e justificações do governo e do PSD, patética a estratégia do PR, verdadeiramente confrangedor o comportamento da restante oposição, enfim, não há ponta por onde se lhe pegue.
É importante reter, porém, do lado do governo, a ânsia de demonstrar que ainda governa e, da parte do PSD, 1) a ânsia de provar que é capaz de governar, 2) o empenho em demonstar que não tem "nada a ver com isto" ("isto" é o estado de descalabro a que a governação do país chegou) e 3) o contributo vergonhoso dado para esta monumental e descarada operação de propaganda a favor da candidatura de Cavaco Silva.
É importante sublinhar e não deixar passar em claro que, face a uma situação classificada como tão, tão calamitosa, nenhum dos protagonistas de toda esta charada se eximiu afinal de prosseguir friamente a sua estratégia própria de curto prazo. O povo português que se lixe! O povo português que pague os dislates destes miseráveis que nos têm governado à vez e que passe o cheque para pagar a estratégia que os seus coveiros manhosamente montaram! Os tachos estão todos salvaguardados, o povo portugês paga. É nisto que consiste o "entendimento" agora atingido.
O que é que mudou verdadeiramente com o "acordo" entre o PS e o PSD, senão terem acordado que fica tudo rigorosamente na mesma?
É importante reter, porém, do lado do governo, a ânsia de demonstrar que ainda governa e, da parte do PSD, 1) a ânsia de provar que é capaz de governar, 2) o empenho em demonstar que não tem "nada a ver com isto" ("isto" é o estado de descalabro a que a governação do país chegou) e 3) o contributo vergonhoso dado para esta monumental e descarada operação de propaganda a favor da candidatura de Cavaco Silva.
É importante sublinhar e não deixar passar em claro que, face a uma situação classificada como tão, tão calamitosa, nenhum dos protagonistas de toda esta charada se eximiu afinal de prosseguir friamente a sua estratégia própria de curto prazo. O povo português que se lixe! O povo português que pague os dislates destes miseráveis que nos têm governado à vez e que passe o cheque para pagar a estratégia que os seus coveiros manhosamente montaram! Os tachos estão todos salvaguardados, o povo portugês paga. É nisto que consiste o "entendimento" agora atingido.
O que é que mudou verdadeiramente com o "acordo" entre o PS e o PSD, senão terem acordado que fica tudo rigorosamente na mesma?
2010/10/26
O semáforo
O semáforo é uma criação extraordinariamente simples e eficaz. Raramente paramos para pensar na sua utilidade. Nem quando estamos ali com a luz vermelha mesmo à frente do nosso nariz nos interrogamos, por um momento, sobre o que seria se o semáforo não estivesse a funcionar. Não paramos para pensar o que seria se não existisse semáforo ou se, em vez daquela sequência estável, precisa e categórica de alternância de luzes, tivessemos uma coisa errática, sem lógica e totalmente imprevisível ou absurda. Para mim, governar é algo que se assemelha à acção do semáforo. Depois de ser instalado, ligado à corrente e colocado a funcionar, o semáforo assegura que todos têm hipótese de exercer o seu direito a circular, em condições de perfeita igualdade e com um mínimo de perturbação. No semáforo, como na governação, quanto menos fantasia melhor...
É tão simples quanto isso. Governar é exercer Justiça e velar por uma clara igualdade de oportunidades para todos. O semáforo é justo (todos passam, de acordo com uma ordem convencionada, mas todos passam!) e proporciona igualdade de oportunidades (passa o Rolls-Royce e passa a "bicla" velha).
Em Portugal a governação é um semáforo que tem vindo a evidenciar falhas crescentes, a reclamar manutenção. Nos dias que correm avariou totalmente. Falo de governação num sentido amplo, no quadro da democracia, com o povo como actor da soberania. Reina o caos total no trânsito!
O trânsito empancou em Portugal, como seria de esperar que acontecesse, mais tarde ou mais cedo.
É possível o tráfego fluir sem semáforos. Era útil que esta comissão que "negoceia" o OE 2011 e o actual PR, putativo recandidato ao cargo, percebessem isso claramente... Ou fazem o que é suposto que façam ou não são precisos. É (mesmo) assim, simples como um semáforo.
É tão simples quanto isso. Governar é exercer Justiça e velar por uma clara igualdade de oportunidades para todos. O semáforo é justo (todos passam, de acordo com uma ordem convencionada, mas todos passam!) e proporciona igualdade de oportunidades (passa o Rolls-Royce e passa a "bicla" velha).
Em Portugal a governação é um semáforo que tem vindo a evidenciar falhas crescentes, a reclamar manutenção. Nos dias que correm avariou totalmente. Falo de governação num sentido amplo, no quadro da democracia, com o povo como actor da soberania. Reina o caos total no trânsito!
O trânsito empancou em Portugal, como seria de esperar que acontecesse, mais tarde ou mais cedo.
É possível o tráfego fluir sem semáforos. Era útil que esta comissão que "negoceia" o OE 2011 e o actual PR, putativo recandidato ao cargo, percebessem isso claramente... Ou fazem o que é suposto que façam ou não são precisos. É (mesmo) assim, simples como um semáforo.
2010/10/14
"O actual PR é fraco"
Em entrevista ao Público, Carvalho da Silva volta hoje a abordar a questão presidencial. Vale a pena lê-la. Já há dias referi aqui o coordenador da CGTP a propósito desta questão, sobre a qual nunca é demais insistir.
Carvalho da Silva tem-se revelado neste aspecto uma das vozes mais persistentes e lúcidas que se ouvem sobre esta matéria. Um discurso a necessitar de alguma ordem mas que, sem dúvida, revela uma enorme sensibilidade para analisar o que está neste momento em jogo.
O debate presidencial não deveria ser uma questão arrumada e eu creio que as forças que lutam por um Portugal mais justo a têm negligenciado.
Antes de entregar um poder tão importante, como é o do PR, de mão beijada a Cavaco Silva, vale a pena ir muito mais fundo na avaliação do que foi este seu mandato e no que pode e deve ser o papel de um presidente no Portugal que queremos ver saído do actual atoleiro em que se encontra.
Carvalho da Silva tem-se revelado neste aspecto uma das vozes mais persistentes e lúcidas que se ouvem sobre esta matéria. Um discurso a necessitar de alguma ordem mas que, sem dúvida, revela uma enorme sensibilidade para analisar o que está neste momento em jogo.
O debate presidencial não deveria ser uma questão arrumada e eu creio que as forças que lutam por um Portugal mais justo a têm negligenciado.
Antes de entregar um poder tão importante, como é o do PR, de mão beijada a Cavaco Silva, vale a pena ir muito mais fundo na avaliação do que foi este seu mandato e no que pode e deve ser o papel de um presidente no Portugal que queremos ver saído do actual atoleiro em que se encontra.
2010/10/05
Atirar a toalha na questão presidencial
O antigo Presidente da República Ramalho Eanes diz que a gravidade da situação do País exige consensos entre os partidos. Ora aqui está uma frase, aparentemente inócua, que tem muito mais que se lhe diga. De repetida de forma ora automática, ora acéfala, esta ideia de que os partidos é que geram consensos acaba por ir fazendo "jurisprudência".
No meu entender, a situação do país —de há muito, não só de hoje— exige discussão e esclarecimento dos portugueses. Exige consenso, mas entre os portugueses. Que os partidos depois reflectirão, claro, mas que tem de emanar dos cidadãos. Uma das, senão mesmo a questão central da nossa democracia é este cheque em branco que os cidadãos concedem aos partidos. Que deu no que deu, como sabemos. A democracia não se esgota, como é sucessiva e inutilmente repetido por alguns, nas eleições, nem o nosso papel enquanto cidadãos acaba no momento em que conseguimos que alguém assuma o papel de nos representar politicamente. Este é um debate que urge fazer na sociedade portuguesa e que, naturalmente, não vai ser nunca promovido pelos partidos.
Há poucos dias o secretário-geral da CGTP defendeu a necessidade de aproveitar a eleição presidencial que se aproxima para um debate profundo sobre a situação do país, que inclui a perspectiva —correcta, no meu entender— da crítica do exercício do poder presidencial. Não posso concordar mais. Habituámo-nos a criticar o Governo, e em particular o Primeiro Ministro, pelos pecados da governação, mas esquecemo-nos frequentemente que o Presidente da República tem grossa percentagem de culpa no cartório e é co-responsável pelo estado a que as coisas chegaram. Não como sócio gerente, mas como silent partner. Negligenciámos avaliar o papel que esta figura tem nos acontecimentos nacionais.
O PR tem, mesmo numa interpretação light dos seus poderes constitucionais, muito mais poder de intervenção do que faz crer a interpretação oportunista que da Constituição fazem alguns parasitas da nossa vida política e, seguramente, muito mais do que aquele que o actual detentor do cargo evidencia. Por outro lado, o exercício deste cargo implica uma margem de assertividade que não tem sido de todo a tónica do mandato deste Presidente. O exercício da Presidência da República feito por Cavaco Silva faz-me lembrar um personagem do Jô Soares de há uns largos anos, conhecido pelo "não me comprometa"! E falo na versão light porque se formos para a versão com todos, o mandato deste Presidente é um fracasso total, na perspectiva do interesse nacional.
Na minha opinião, o desastre da governação do consulado Sócrates ocorre nesta matriz e nela tem também de ser enquadrado.
Ora, o que o comentário de Carvalho da Silva parece vir justamente pôr em destaque é a necessidade de não "arrumar" a questão das eleições presidenciais na secção dos "resolvidos" —aquela em que parece que a generalidade dos doutos comentadores e fazedores de opinião já encafuou a questão— e exigir mais! Partindo do princípio que as expressões "presidente de todos os portugueses" e "equidistânca dos partidos" não são vãs, é fácil concluir que há um terreno imenso onde a acção e a iniciativa do Presidente da República podem ter lugar e que estas não se esgotam no jogo de atirar pinos abaixo no bowling dos partidos. Devíamos ambicionar mais e o PR deveria ser um agente particularmente activo nesse desígnio.
Não vamos eleger o "monarca", figura decorativa, passiva e passada, como alguns desejam. Estamos noutra!
Falando de dificuldades de fazer uma comunicação decente do que está em jogo na presente situação política, teria sido mais últil que, em vez de chamar os partidos, como fez ultimamente, Cavaco Silva tivesse promovido uma discussão muito ampla e aprofundada sobre o que está verdadeiramente em causa. Há mil maneiras de o levar a cabo e não lhe faltariam decerto meios para o fazer. Falta-lhe, manifestamente, é o talento, a criatividade e a visão correcta de um verdadeiro estadista. Deve estar esgotado com as duas mil assinaturas que teve de apor nos diplomas todos que promulgou. Cãibra de escrivão, portanto.
E em resultado de tricas mesquinhas, ódios pessoais e interesses partidários inomináveis preparam-se todos para entregar de mão beijada, de novo, o cargo de Presidente da República a este homem.
No meu entender, a situação do país —de há muito, não só de hoje— exige discussão e esclarecimento dos portugueses. Exige consenso, mas entre os portugueses. Que os partidos depois reflectirão, claro, mas que tem de emanar dos cidadãos. Uma das, senão mesmo a questão central da nossa democracia é este cheque em branco que os cidadãos concedem aos partidos. Que deu no que deu, como sabemos. A democracia não se esgota, como é sucessiva e inutilmente repetido por alguns, nas eleições, nem o nosso papel enquanto cidadãos acaba no momento em que conseguimos que alguém assuma o papel de nos representar politicamente. Este é um debate que urge fazer na sociedade portuguesa e que, naturalmente, não vai ser nunca promovido pelos partidos.
Há poucos dias o secretário-geral da CGTP defendeu a necessidade de aproveitar a eleição presidencial que se aproxima para um debate profundo sobre a situação do país, que inclui a perspectiva —correcta, no meu entender— da crítica do exercício do poder presidencial. Não posso concordar mais. Habituámo-nos a criticar o Governo, e em particular o Primeiro Ministro, pelos pecados da governação, mas esquecemo-nos frequentemente que o Presidente da República tem grossa percentagem de culpa no cartório e é co-responsável pelo estado a que as coisas chegaram. Não como sócio gerente, mas como silent partner. Negligenciámos avaliar o papel que esta figura tem nos acontecimentos nacionais.
O PR tem, mesmo numa interpretação light dos seus poderes constitucionais, muito mais poder de intervenção do que faz crer a interpretação oportunista que da Constituição fazem alguns parasitas da nossa vida política e, seguramente, muito mais do que aquele que o actual detentor do cargo evidencia. Por outro lado, o exercício deste cargo implica uma margem de assertividade que não tem sido de todo a tónica do mandato deste Presidente. O exercício da Presidência da República feito por Cavaco Silva faz-me lembrar um personagem do Jô Soares de há uns largos anos, conhecido pelo "não me comprometa"! E falo na versão light porque se formos para a versão com todos, o mandato deste Presidente é um fracasso total, na perspectiva do interesse nacional.
Na minha opinião, o desastre da governação do consulado Sócrates ocorre nesta matriz e nela tem também de ser enquadrado.
Ora, o que o comentário de Carvalho da Silva parece vir justamente pôr em destaque é a necessidade de não "arrumar" a questão das eleições presidenciais na secção dos "resolvidos" —aquela em que parece que a generalidade dos doutos comentadores e fazedores de opinião já encafuou a questão— e exigir mais! Partindo do princípio que as expressões "presidente de todos os portugueses" e "equidistânca dos partidos" não são vãs, é fácil concluir que há um terreno imenso onde a acção e a iniciativa do Presidente da República podem ter lugar e que estas não se esgotam no jogo de atirar pinos abaixo no bowling dos partidos. Devíamos ambicionar mais e o PR deveria ser um agente particularmente activo nesse desígnio.
Não vamos eleger o "monarca", figura decorativa, passiva e passada, como alguns desejam. Estamos noutra!
Falando de dificuldades de fazer uma comunicação decente do que está em jogo na presente situação política, teria sido mais últil que, em vez de chamar os partidos, como fez ultimamente, Cavaco Silva tivesse promovido uma discussão muito ampla e aprofundada sobre o que está verdadeiramente em causa. Há mil maneiras de o levar a cabo e não lhe faltariam decerto meios para o fazer. Falta-lhe, manifestamente, é o talento, a criatividade e a visão correcta de um verdadeiro estadista. Deve estar esgotado com as duas mil assinaturas que teve de apor nos diplomas todos que promulgou. Cãibra de escrivão, portanto.
E em resultado de tricas mesquinhas, ódios pessoais e interesses partidários inomináveis preparam-se todos para entregar de mão beijada, de novo, o cargo de Presidente da República a este homem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

