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2023/05/06

Os Salvadores do Regime

Marcelo tem, desde há muito, uma estratégia que nunca escondeu: ajudar o seu partido (PSD) a chegar ao poder ou, no limite, ajudar à construção de um "bloco central de interesses" com outro nome (uma espécie de "união nacional" refundada). 

Percebe-se bem, porquê: é preciso que o poder "não caia na rua" e nada melhor para manter o regime (leia-se, o "sistema") do que fazer alianças ao centro. No fundo, "é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma" (Lampedusa). 

Esta tem sido, de resto, a lógica da partidocracia que nos governa desde 1976 (PS e PSD em alternância). 

O PS que, nos últimos 23 anos governou 16, está há demasiado tempo no poder. Ao contrário, o PSD, que "só" governou 7, está há demasiado tempo fora dele (leia-se, sem poder ir ao "pote"). 

Quem governa, para mais em maioria absoluta (como é o caso) tem maior acesso ao Orçamento de Estado. Logo, mais poder financeiro o que, entre outras coisas, permite alimentar as clientelas partidárias (eu dou-te algo, se me deres algo em troca). Chama-se patrocinato. Não perceber isto, pode ser fatal, pois pensamos sempre que uns são "melhores" que outros. 

São "melhores" para quem? Para os seus acólitos. Esta é a questão central. 

Que o PS (Costa e não só) não soubesse isto e tivesse apoiado explicitamente a candidatura de Marcelo à presidência, quando tinha uma candidata do partido (Ana Gomes) na corrida presidencial, parece ainda mais "estranho". Ou talvez não...

Não sabiam que Marcelo, o comentador, ia intrometer-se na governação, sempre que pudesse? Do que é que estavam à espera?   

O governo está a provar do seu próprio veneno e não pode queixar-se. 

2020/07/19

Um Rio poluído


O dr. Rui Rio parecia ser um tipo um pouco menos bronco do que os seus predecessores. Sobretudo pela reacção que teve no início do problema da pandemia. De repente, certamente por causa do calor, perdeu o sentido de Estado, esqueceu as exigências da Democracia e aparece a dizer isto que se pode ouvir aqui
A questão principal nestas declarações é esta: sem uma ideia sequer para o seu País, sem uma única sugestão sobre o modo como aplicar convenientemente os fundos, que ele exige justamente que seja vigiado, é preciso que eles não faltem, nem que se tenha para isso de dobrar a espinha a esses senhoritos do norte, que tresandam a mediocridade, mas tentam disfarçá-la armando-se em grandes senhores. Mas vigiar o quê ó dr. Rio? O que é o que o senhor propõe?
Ah, how I long for yesterday... And I love the smell of troika in the morning!
Mas a verdade é que Rui Rio reconhece, ipso facto, enquanto membro de um importante partido político PORTUGUÊS, candidato à governação do país, não ter uma ideia na cabeça, ao mesmo tempo que demonstra não ter capacidade para corrigir os problemas que aponta. Nestas circunstâncias, prefere abdicar das suas prerrogativas enquanto membro de um partido candidato ao poder a favor de um bárbaro qualquer do norte.
Rio prefere esperar, subserviente, pelo subsídio da Europa. Mas para dar ar sério à opção, que seja com a supervisão dos outros países, não vá a coisa descambar e a malta perder a massa, que tanta falta faz para podermos continuar neste caldo de indigência nacional em que os políticos como Rio e partidos como o PSD gostam de se ir mantendo confinados.
Como iria, é justo perguntar, o País gastar esses fundos, se fosse o PSD a geri-los?
Faz lembrar aqueles que, no futebol, para não perderem as receitas da televisão, mas sem ideia sobre o jogo, sem chispa nem talento e jogando mal, culpam o árbitro pelas derrotas das suas equipas e vêm gritar depois, indignados, a pedir que se usem árbitros estrangeiros.
Um verdadeiro patriota, este Rio. Isto também diz bem do que é o PSD hoje. E abrindo o zoom, ficamos a perceber o que é, à direita, a oposição ao governo com que hoje podemos contar: vendilhões, boçais, amadores, criancinhas insolentes e fascistas. Um rico ramalhete.
Eu cá também acho que o PSD devia ser substituído por um partido da oposição de um país qualquer do norte...

2012/10/18

Xadrez, tiros e hara kiri ao vivo

A política, diz-se, é xadrez. No caso da coligação do governo, descobriu-se um novo tipo de desfecho: não há xeque-mate, nem sequer empate —que implicaria uma situação neutra, sem consequências—, há xeque-mate duplo. As brancas ganham às pretas e vice versa.
PSD e CDS sairão, ambos, desta partida a perder e feridos de morte.
Dizem alguns que à decisão do CDS de votar a favor do orçamento se seguirá uma saída dos ministros daquele partido, a consequente remodelação, talvez mesmo com Gaspar, essa figura cheia de carisma, a timoneiro, e o PSD deixado assim a afogar-se sozinho no oceano. É bem possível. É bem possível que seja este o testamento deixado por esse mago da estratégia chamado Paulo Portas, esse enfant terrible da política portuguesa, vencedor do circuito das feiras e campeão do beijo-na-velha. Depois de dias de silêncio em que o País andou totalmente suspenso e angustiado, sem saber o que iria fazer o CDS, o partido promete um espetáculo de hara kiri político, live, perante os portugueses...
Porque o que é mais provável, no caso de tudo isto vir a acontecer, é que o CDS se eclipse neste movimento de génio (nos Açores já tiveram o aperitivo...) que tanto custou a parir. O CDS quebrou o longo silêncio para entrar na inexorável via da extinção que conduz ao silêncio da morte.
Serão excelentes notícias se isso acontecer. É possível, vamos ter esperança...
No meio disto, e se de facto o CDS deixar a coligação, iremos certamente assistir ao naufrágio solitário do navio almirante, PSD. Cumprir-se-á o desígnio de Portas e o big brother da coligação vai ao fundo com um tiro fatal. É inevitável que, perdendo o táxi, e abominando, como abomina, os transportes públicos, o PSD vá ter de fazer a longa e cansativa jornada que tem pela frente a pé. Pode ser também que, nesse esforço, gaste definitivamente as solas e se perca de vez por essas encruzilhadas.
Já agora que falo de tiros (não me refiro ao desconforto dos militares, tão eloquentemente expresso ontem...), aguardemos —sem nenhuma expectativa especial, devo confessar— o que vão fazer os partidos do arco da não-governação. Vamos ver se vão continuar a dar tiros no pé. E aguardo também —com uma expectativa ainda menor— o que vai fazer o outro partido do arco da desgovernação, o PS. Também dentro dele há quem se coloque na posição de mera testemunha acidental. Esses têm hoje uma oportunidade de ouro para dar o tiro decisivo no porta-aviões, mas a tarefa parece impossível de realizar apenas com pólvora seca, como tem sido norma até agora.
A crise, como a luta, continua.

2012/08/12

Vómito

Na classificação das fobias há uma chamada coulrofobia, ou seja, o medo de palhaços. Nesta história de fobias com conotações circenses, contudo, há uma outra —que não sei se tem ou não designação técnica— que me afecta especialmente: tenho fobia a contorcionistas. Especialmente se se trata de gente sem espinha, uma condição que a torna particularmente vulnerável, em risco iminente de se partir.
O caso das declarações de Zita Seabra não deveria suscitar uma linha sequer, se vivessemos num país a sério, com gente a sério. Infelizmente, tudo isto originou reacções tão inacreditáveis que me levam a ter de dizer também qualquer coisa sobre o assunto.
O que estranho fundamentalmente em tudo isto é que, em primeiro lugar, a criatura em questão, amante da democracia, da verdade e da transparência política, esqueça que não estamos no período do PREC. Estamos em 2012. O PCP já nessa altura fazia papel político de embrulho. Hoje nem papel de embrulho faz. Quem tem uma participação activa e decisiva na destruição da vida dos portugueses, quem contribuiu e continua a contribuir para lhes agravar o seu dia a dia, para fazer do seu quotidiano um martírio sem precedentes e um sofrimento atroz, quem decide medidas que fazem aumentar o desemprego para níveis que apontam para o domínio do crime público, quem produz a contradição insanável de pretender lutar contra o défice aumentando permanentemente o défice, quem desprotege ainda mais os desprotegidos, quem destrói a justiça e o equilíbrio sociais, quem fez recuar o nosso nível de crescimento para valores medievais, quem beneficia os corruptos, quem lambe o rabo dos poderosos, quem assina as leis é o governo do partido de Zita Seabra. O PSD, não o PCP.
Há ainda um outro pormenor, não despiciendo: é da mais alta hierarquia do PSD que provêm todos estes personagens que estão presos, usam pulseiras electrónicas, andam meio a monte ou estão envolvidos em negócios de legalidade duvidosa, nunca totalmente esclarecidos. Não é da hierarquia do PCP.
Zita Seabra parece conviver bem com tudo isso. Nada disto lhe parece fazer comichão.
Colheu Zita Seabra, sabe-se lá com o beneplácito de quem, o favor dos deuses do éter para dizer o que disse, com aqueles ridículos tiques de funcionária clandestina de que não parece nunca conseguir livrar-se. E disse-o sem que ninguém expusesse nenhuma destas contradições, sem que ninguém questionasse a oportunidade destas declarações, sem que ninguém, uma vez obtido todo este efeito, lhe perguntasse se acha então que é o PSD que garante os ideais pelos quais entendeu trair o seu partido de origem.
O que me remete para um apontamento final sobre o PCP, a propósito da nota que, sobre este assunto, tornou pública. O PCP devia ter chamado a atenção dos portugueses justamente para tudo isto. O assunto tornou-se sério e politicamente importante a partir do momento em que a contorcionista Zita foi deixada sem resposta. O espetáculo deprimente desta figura profundamente emética devia mesmo merecer uma análise mais séria, política e solidamente fundamentada, que o PCP não fez e devia ter feito.

2012/07/18

O recipiente adequado para esta gente


Corre hoje uma notícia sobre uma Ana Moura, rapariga de outros fados, secretária e ex-vogal da comissão política do PSD de Setúbal, acusada de desvio de fundos. Que me perdoe a verdadeira Ana Moura. "Mas porque é que a gente não se encontra?"
Não vejo nada de terrivelmente surpreendente no comportamento da Ana do Sado, confesso. O que espanta e choca é o facto de ela já ter novo cargo nas Finanças. É o Fado da Ana, também conhecido pelo Fado do Cocei-te as Costas. O Relvas, entretanto, canta o Fado da Licenciatura Liofilizada, também conhecido pelo Fado do Finalista. Firmino ataca o Fado Menezes, com letra de protesto dirigida ao primeiro-ministro, e o Jardim (do buraco) da Madeira permite-se cantar ao despique o Fado Relvas, dedicado aos doutores instantâneos. Enquanto isso Menezes ensaia o Fado Firmino, com a sua própria letra e música, cujo refrão diz "Relvas é um homem sério", e o jovem Duarte acompanha à viola em tom menor, o Fado Gago, com culpas para o Mariano. O professor Marcelo Rebelo Karamba, picadinho, ataca o Fado Manife, um fado ridículo e já gasto, de opinião morta. A letra é um exercício pouco subtil em que se consegue afirmar que a manifestação de segunda-feira foi ridícula, sem perceber o ridículo da afirmação. As manifes medem-se aos palmos, pensa o iminente cantador; logo, Relvas, o primeiro-ministro que o escolheu e o presidente da república que o empossou, são o epítome da seriedade.
D. Januário Torgal vem, entretanto, dizer o que todos sabemos: que o guitarra e o viola são corruptos e dão notas ao lado. Mas o PSD precisa de mais provas.
Perante a confusão que vai na tasca, o primeiro ministro reage a tudo isto mudando de penteado. Um não primeiro ministro, portanto, que nem serve para atirar à ventoinha.
Toda esta gente faz parte do partido principal da coligação governamental, da qual o PP também não sabe, não pode ou não quer descolar, malgrado os RPP, recados público-privados...
Reparem bem: toda esta gente tem a responsabilidade da governação do nosso País, influencia directamente a nossa vida, molda o nosso actual e desgastante, penoso, injusto e revoltante dia a dia.
Este também não é um fado normal. Está na hora de atirar a porcaria, não para a ventoinha, mas para um recipiente apropriado.
Escolham.

2012/06/11

Não chega!

Aqui há tempos Manuela Ferreira Leite sugeriu, como é sabido, a "suspensão da democracia" como forma de resolver os problemas do país. Agora Rui Rio vem sugerir, por sua vez, que nos municípios com dívidas a democracia também seja suspensa e sejam nomeadas "comissões administrativas" para substituir o processo democrático.
Se formos rigorosos na nossa análise, nada disto surpreende. Não vou, pois, lembrar o passado destas criaturas, nem usar o argumento de que os problemas (reais e causados em grande parte por eles, gente como esta ou gente que eles poderiam ter controlado em tempo oportuno,) que levam estes grandes pensadores políticos a sugerir a "suspensão" da democracia, são ditados justamente pela falta de democracia ou por um exercício deficiente de democracia, que devia ter sido há muito corrigido. Nem tão pouco direi que, para resolver os problemas do país, é minha forte convicção que se deveria ter mais democracia, não menos. Nem sequer usarei o argumento que os democratas, sobretudo os que exercem funções de serviço público e são para isso pagos, têm a obrigação de contribuir para melhorar o regime, não sugerir a sua subversão. Não vale a pena lembrar nada disto.
O que me parece porém verdadeiramente surpreendente é olhar para a acção deste governo em que o PSD manda, ver o caos em que fez cair o país, ver os métodos e os ataques constantes à democracia que são praticados, as malfeitorias que diariamente nos são feitas, ver o perigo iminente em que, na prática, a democracia está e verificar que os referidos personagens, advogados da subversão do regime, se encontram no grupo dos críticos desta acção!
Pelos vistos este atropelo diário à democracia ainda não chega...

2011/06/20

Passos perdido...

Quem tinha medo de ficar sem motivo de conversa, agora que Sócrates se prepara para experimentar a cicuta, pode ficar descansado. Passos Coelho sofreu uma clara derrota com este processo da candidatura Nobre a presidente da AR. Derrotada foi a sua ideia e toda a sua estratégia. Derrotada foi a sua argumentação centrada na coerência e na obediência a princípios. Derrotado foi o seu PSD no desenlace deste episódio triste. Uma derrota interna e uma clara derrota também no plano externo, num momento que devia ser de celebração de vitória.
Nada mau para a estreia. Se a condução do país for semelhante à condução deste processo, podemos estar descansados. Estamos bem entregues...
À velocidade a que as coisas correm no momento, em que a vida política vai frenética, mas não segura, e com esta malta em derrapagem ainda antes da posse, há uma coisa certa: não nos vão faltar momentos de excelente entretenimento.

2011/06/17

A grande pepineira

A Avenida da Liberdade foi ocupada por uma cadeia de hipermercados com o apoio da municipalidade lisboeta, numa mega manifestação onde também haverá canções pelo ídolo das donas de casa, o incontornável Tony. O fim último deste mega evento, anunciado em "outdoors" espalhados por toda a cidade, é a promoção dos produtos agrícolas nacionais, sendo o remanescente doado a instituições de ajuda social. Os promotores - cadeia de hipermercados e município de Lisboa - anunciam este mega "pic-nic" como um evento de apoio à produção nacional que, em tempo de crise, deve merecer a nossa solidariedade.
Vamos lá ver se eu entendi: Belmiro de Azevedo, dono do "Continente" e apoiante do PSD, promove uma acção de publicidade conjuntamente com o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa do PS, para apoiar os agricultores. Mas, então, não foram estes partidos os responsáveis pelos acordos do PAC de 1992, que estão na origem na destruição da nossa agricultura, obrigando-nos a importar 60% daquilo que consumimos? Devem estar a brincar connosco...

2011/06/02

Um coelho com chinelo, mas sem cartola

Estas eleições trouxeram uma novidade: assistimos ao lançamento do jovem tenor Coelho na ribalta política. Com aquela fogosidade e ingenuidade que têm os jovens tenores, Coelho vai repetindo que não irá mandar no Estado, não irá controlar a política, os políticos, os partidos, servir clientelas. Decerto... Barões e baronesas olham para ele, embevecidos, enquanto o ouvem. "Nem sabes quão verdade é tudo isso que dizes", pensarão, enquanto mostram o sorriso de circunstância e anuem suavemente com a cabeça.
O que vai então fazer Coelho? Se, com o PS, o país está debaixo da lógica da mãozinha, ao serviço das suas clientelas e dos seus (muitos) bonzos, com o PSD estará debaixo da lógica da setinha, das suas clientelas, dos seus (muitos) bonzos, mas também das suas contínuas cólicas. Concessa venia troikis, que eles não podem sair daqui sem o seu.
Passos Coelho trouxe para o PSD a mais valia de se prestar a fazer o papel de bostik, juntando,  temporariamente, os cacos de um partido que estava em risco real de total extinção. E lá vai ele colando, colando até que a voz lhe doa. Passos Coelho parece-me não passar de um testa de ferro de umas quantas figuras que devem ter feito um derradeiro e monumental esforço para que o PSD não fosse empurrado para o Parque Jurássico da política portuguesa, deixando com isso uma data de gente aflita e de malas aviadas para se mudar para o PS ou para o CDS.
A Passos Coelho não se lhe conhece uma ideia, um pensamento doutrinário, uma visão estratégica. Não se lhe adivinha dimensão escondida, sentido de orientação, arcaboiço intercostal. Apenas aquela disponibilidade naive e aquela atitude voluntariosa, tipo escuteiro, para levar, cantando e rindo, a tarefa de que os seus maiores o incumbiram adiante. Tintin em Massamá.

Uma dúvida que me tem assaltado nestes últimos tempos é esta: o que ganham os partidos do "arco" ao quererem ocupar o poder neste momento? Como se poderão rever no papel de comissão liquidatária, de amanuenses da troika? Bom, para além do facto, não despiciendo, de terem, como comissão liquidatária, um ordenado simpático neste país de desemprego, restam razões de natureza privada.
O PS, parece-me lógico, quer tapar o descalabro em que lançou o país e evitar com isso ser castigado e sofrer uma maldição semelhante à que Bella Gutman lançou sobre o clube da rodinha de bicicleta! Num país a sério o PS ia a tribunal de guerra.
O CDS, na sua lógica de partido de aluguer, quer ter sempre, pelo menos, uma nádega nas cadeiras do poder para não obrigar a clientela a ter de abrir mais casas de comida a peso na Avenida de Roma e imediações. Num país a sério o CDS teria um parlor no Intendente, não uma sede no Caldas.
E o PSD? O que raio quer o PSD? O que raio poderá querer o PSD? Quando está no poder desata sempre naquele exercício de auto-mutilação, tão patético e confrangedor que inevitavelmente reconduz o PS. Porquê então esta corrida, agora neste momento, politicamente tão desfavorável?
Só é possível perceber o PSD numa lógica de simples preservação da espécie, em real via de extinção. O comité de barões terá reunido e determinado que era agora ou nunca. Era preservar as tartarugas nas Galápagos ou os laranjas em S. Caetano. Optaram pelos laranjas, está feito. Na falta de um desígnio para o país, na falta de uma ideologia, de um simples projecto, este part-time de entrega das encomendas da troika serve para dar sentido ao PSD, para apontar o rumo que lhe faltava, para reunir as hostes desavindas. Há para aí muita encomenda para entregar, muito selo para colar, muito registo para fazer. E ainda nem chegámos ao Natal!
Metido num chinelo, Coelho, precário a recibo laranja, vai preparando a fardeta de paquete e dando na bostik. É isto que o PSD espera dele e quem somos nós para esperar mais?
A menos que Coelho se tire a si próprio da cartola, o que me parece uma contradição aparentemente insanável, logo, um truque altamente improvável.

2011/05/25

O comboio fantasma

Com a campanha eleitoral na estrada começaram os "soundbites" do costume. De todos, os mais originais têm sido os do PSD.
Depois de Catroga ter comparado Sócrates a Hitler, tivemos Morais Sarmento, que o comparou a Sadam Hussein. Não contente com os exemplos, Arnaut comparou Sócrates a Drácula. Não é de admirar que Passos Coelho, na sua intervenção final, acabasse por alertar o eleitorado para o pesadelo que estavámos a viver...
A avaliar pelos epítetos escolhidos, a caravana "laranja" tornou-se um verdadeiro comboio-fantasma. Esta gente mete medo!

2011/05/15

Pentelhos e Coelhos

Enquanto os Leites, Ferreiras e Nogueiras, peroram, o Jardim poncha, o Marcello recadeia, o Durão amolece lá ao longe, o Cavaco se prepara para gozar dos rendimentos, o Santana continua por aí, o Menezes manda recados lá do norte, o Relvas apara os golpes, o Rangel homilia, Macedos e Frasquilhos têm dias, a Teixeira da Cruz se mostra consoante muda e o Arnaut se revela vogal surda, sim, enquanto isso, o PS sobe nas sondagens e o Catroga acha, com toda a legitimidade, que andam todos a discutir pentelhos.  Na realidade deviam andar a discutir Coelhos, essa variedade capilar nunca devidamente glosada...

2011/04/19

Origens da palavra "entendimento"

"Com a verdade me enganas", diz o adágio popular. Rui Rio, por exemplo, diz que se os partidos não se entenderem (leia-se, os partidos do tal "arco"), o país fará "uma caminhada irresponsável até ao colapso" (leia-se, estes mesmos partidos, a cujo entendimento Rio apela, podem ser apeados e perder o tacho que têm partilhado durante todos estes anos de alternância do poder).
Venha o colapso!

2011/04/11

O arco e as flechas

Não percebo, com toda a franqueza, esta admiração em torno da inclusão de Fernando Nobre nas listas do PSD. Creio que só mesmo quem se quis deixar enganar terá votado nele para a presidência da república. A Presidência da República Portuguesa não é uma ONG e Fernando Nobre não demonstra, não tem!, as capacidades para ocupar um lugar destes (*). Se tivesse estofo de político, teria percebido que, no quadro de uma democracia, o que propõe é atributo de actuação de um partido. Para levar o seu desígnio em frente teria de criar um programa e um partido para o levar a sufrágio. Em alternativa, inventou esta coisa bizarra que é propôr um partido... apartidário. Uma espécie de SGPS unipessoal (**). Um disparate, destinado à derrota. Não fosse a mãozinha do clã Soares e Fernando Nobre nem ganhava a Câmara de Vila do Conde. Nobre nunca quis fazer política. Como escrevia ainda hoje o meu amigo Pedro Barroso, tudo não passa de uma "insuperável sede de protagonismo pessoal." Pelo lado de Fernando Nobre a cambalhota não deve, pois, admirar.
Já pelo lado do PSD a coisa não é tão clara. Parece estranho que o PSD, enquanto partido do "arco" se tenha disposto a acolher esta ideia de ter um presidente-partido, como candidato apartidário a presidente do orgão onde os partidos digladiam as suas teses. Confusos? Também eu!
Há nisto tudo uma estratégia suicidária que ainda não consegui perceber e, ou muito me engano, ou as asneiras não vão ficar por aqui. Passo a passo, Coelho dá tiros atrás de tiros nos pés. Em breve se revelará que a perna é mais curta que o Passos. Se alguém tinha esperança de que o PSD pudesse ser alternativa ao regabofe PS e pudesse fazer frente ao seu perturbante e ameaçador cerrar de fileiras demonstrado este fim de semana, o melhor é rever o seu raciocínio.
Com o País entalado como está, com o PCP e o BE a desperdiçarem ingenuamente uma oportunidade de ouro de pressionar o PS e estabelecer uma dinâmica de verdadeira alternativa de poder, estamos de novo entregues ao "arco". Faltam as flechas.

(*) Se o actual inquilino do Palácio de Belém tem capacidade para ocupar o lugar que ocupa é outra conversa...
(**) Verdade seja dita que o vencedor dessa eleição também inventou uma outra coisa bizarra que é a categoria de político... apolítico. E ganhou! Tudo é possível, pois, dentro do rectangulozinho lusitano.

Do surrealismo nacional

Num fim-de-semana marcado pelo congresso que mais não pretendia do que apoiar acefalamente um líder eleito por maioria albanesa, a proposta mais desconcertante acabaria por não surgir em Matosinhos, mas no Funchal, onde o líder da oposição anunciou o "trunfo maior" para as eleições em Lisboa: Fernando Nobre como primeiro nome da lista do PSD.
Pensávamos ter visto tudo e, de facto, de pouco nos admiramos já; mas esta de Nobre ser candidato pelo PSD, com a promessa de vir a ser o presidente da Assembleia Nacional caso aquele partido ganhe as eleições, não lembrava ao careca! Estamos sempre a aprender...

2011/03/11

Testemunhas circunstanciais

Independentemente das motivações (há sempre motivações...), a moção de censura apresentada pelo BE pareceu-me um acto coerente. Tal como escrevi quando o PCP apresentou a sua moção em Maio do ano passado, e tal como aconteceu na altura, parece totalmente legítimo e consequente que os partidos da oposição obriguem, em bloco, este governo a cair face às críticas que lhe são, no geral, dirigidas. BE e PC votaram a moção, PSD e CDS abstiveram-se, uma atitude oportunista e irresponsável.
A moção não passou. O PSD terá feito as suas contas e concluído que não é a altura de transformar as palavras de crítica ao governo em acções coerentes. O PS deve estar mortinho por passar a pasta. Adivinha-se no discurso socialista já uma estratégia pós-eleições e o semblante dos ministros trai-lhes os verdadeiros desígnios. Mas não seria naturalmente expectável que fosse o próprio PS a pedir a demissão do governo que apoia. Falta pois o pretexto e o PSD, inseguro de si e sem uma liderança categórica, não faz esse "favor" ao PS.
O PR, esse, lembrou-se agora de reagir com firmeza, com um discurso muito admirado, mas que, tal como no caso do PSD, não passa de conversa.
Entretanto, prosseguem as negociações por causa do preço do gasóleo industrial. Incompreensivelmente, o braço de ferro parece estar a levar a um extremar de posições e ameaça transformar um problema menor numa enorme convulsão. Aqui poderá estar o pretexto que o PS tanto esperava para sair e obrigar o PSD a pegar na pasta.
E nós no meio de tudo isto, PEC-a-PEC, sabe-se lá à espera de quê.

2011/02/22

Rio sem rir

Num seminário sobre regionalização e revisão constitucional, Rui Rio usou palavras fortíssimas para classificar a situação actual. Observou que a "economia está de gatas", acrescentou que temos gente que "está a sofrer por causa disso e vamos ainda ter mais gente a sofrer por causa disso". Descobriu que o sistema é "injusto para com essas pessoas". Classificou a dívida pública de "monstruosa". A dívida externa, rematou, é "ainda pior". Recordou os princípios do 25 de Abril, e sentenciou, grave, que o clima geral é de "impunidade". Atentos e veneradores os orgãos de comunicação reproduzem-lhe fielmente as palavras.
São necessárias "rupturas", descobriu com brilho nos olhos. E quem as promove? Ora, é muito simples: o PS, o PSD e o CDS, os partidos pleonasticamente considerados "democráticos", "os três que mais se identificam com o regime e a democracia", pois claro, os três pilares do sistema político português.
Os partidos a quem alguma divindade entregou a dura tarefa de governar, estes partidos do arco do poder, são os mesmos... que deixaram a economia de gatas e que com isso fazem  sofrer os portugueses. São os mesmos que elevaram a dívida pública à categoria de monstruosa. Os mesmos que fizeram da dívida externa algo ainda pior que uma monstruosidade! Os mesmos que construíram, pedra a pedra, a injustiça do sistema. Os mesmos que são agora convocados por Rui Rio para destruir o sistema...
E Rui Rio diz tudo isto sem rir.
E nós ouvimo-lo também, sem qualquer vontade de rir.
A sério!

2010/11/09

Os "mercados"

Quando ouvir dizer a palavra "mercados" outra vez, lembre-se deste artigo, que reproduzo do NYT com a devida vénia.
Pense nas dificuldades que sente, nos cortes dos pequenos salários e pensões, pense nas notícias que se ouvem sem cessar, pense nos PECs, nos PIIGS, pense na austeridade, na "austera" Merkel, no "apreeensivo" Barroso, pense, sobretudo, na cara do Presidente da República, na cara do Primeiro Ministro, na cara do Ministro das Finanças, na figura do Catroga de telemóvel na mão e do seu staff sorrindo a compasso por trás dele, pense nos deputados do PS e nos da oposição na AR Portuguesa, na cara e no discurso dos dirigentes  dos diferentes partidos. Pense nos comentadores e "politólogos" que a toda a hora invadem o nosso espaço com os seus malabarismos verbais e pense na conversa com que nos enchem os ouvidos a toda a hora.
Pare um momento e pense em tudo isto. Clique depois na imagem e leia o artigo...
Garanto-lhe: é um exercício que vai mudar a sua vida!

2010/10/30

Leite achocolatado para os olhos

Totalmente patético este acordo, verdadeiramente patéticas as posições e justificações do governo e do PSD, patética a estratégia do PR, verdadeiramente confrangedor o comportamento da restante  oposição, enfim, não há ponta por onde se lhe pegue.
É importante reter, porém, do lado do governo, a ânsia de demonstrar que ainda governa e, da parte do PSD, 1) a ânsia de provar que é capaz de governar, 2) o empenho em demonstar que não tem "nada a ver com isto" ("isto" é o estado de descalabro a que a governação do país chegou) e 3) o contributo vergonhoso dado para esta monumental e descarada operação de propaganda a favor da candidatura de Cavaco Silva.
É importante sublinhar e não deixar passar em claro que, face a uma situação classificada como tão, tão calamitosa, nenhum dos protagonistas de toda esta charada se eximiu afinal de prosseguir friamente a sua estratégia própria de curto prazo. O povo português que se lixe! O povo português que pague os dislates destes miseráveis que nos têm governado à vez e que passe o cheque para pagar a estratégia que os seus coveiros manhosamente montaram! Os tachos estão todos salvaguardados, o povo portugês paga. É nisto que consiste o "entendimento" agora atingido.
O que é que mudou verdadeiramente com o "acordo" entre o PS e o PSD, senão terem acordado que fica tudo rigorosamente na mesma?