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2022/12/21

Imagem real

 

A imagem que ilustra este artigo é real. É a de um troço do muro exterior de um conhecido hospital da capital do reino, Lisboa. O resto do muro, melhor, o resto das paredes exteriores e interiores deste hospital, tem "acabamento" semelhante. Lá dentro trabalham centenas de profissionais de saúde, que acolhem e tratam milhares de doentes. Parece que estamos numa qualquer cidade vítima de um daqueles bombardeamentos que a gente vê na televisão, pelos quais todos vertem lágrimas de crocodilo e os levam logo a ir pôr bandeirinhas no facebook. Entramos nestes pardieiros (são vários,) temendo o pior e, contudo, lá dentro somos recebidos com uma infinita doçura e com um grau de profissionalismo que comove.

Vergonhosa!!! Vergonhsa é como se pode classificar a acção dos sucessivos governos, relaxados, criminosos, que deixaram chegar isto a este ponto. Vergonhosa é como se pode classificar a atitude da esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e também de uma data de servidores do Estado, que, pactuando com os governos relaxados e criminosos, andam há muito a montar uma campanha para vender saúde. Querem entregar ou preparam, alegremente, o caminho para entregar esse "negócio" aos "privados". Vergonhosa, é como se pode classificar a atitude de certos profissionais do sector, que fazem vista grossa a estas condições de trabalho, aproveitando para sacar o seu, pactuando assim com os governos relaxados e criminosos e com a esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e de uma data de servidores do Estado. Vergonhosa é como se pode classificar a atitude de uma percentagem da população que embarca nisto, sem perceber o buraco em que se está a meter, pactuando assim objectivamente com os governos relaxados e criminosos e com a esmagadora maioria dos dirigentes políticos, deputados, autarcas e de uma data de servidores do Estadoe e certos profissionais do sector, numa espiral de loucura. Estão todos metidos no mesmo caldinho.

O bem mais precioso é a saúde, diz-se por aí, sem se pensar certamente no verdadeiro alcance destas palavras. Lá dentro a coisa não é assim tão arrepiante e badalhoca, mas este exterior dá-nos uma leitura clara sobre o que significa exactamente a palavra "saúde" e o grau de consideração que merecem os doentes e os seus cuidadores, em Portugal. Olhamos para estes exteriores e percebemos o que vai na alma deste país.

2021/04/25

O 25 de Abril e o SNS

 


Falar do 25 de Abril, nesta altura, leva forçosamente a ter de falar do SNS. Que nesta data fundadora pousa as suas raízes estruturais. 

Nem quero imaginar o que teriam sido os últimos meses se não houvesse SNS. Fundado e assente, ainda hoje, num espírito de resistência e de visão da sociedade, que já tinha dado provas antes da data revolucionária. Lembro-me de ver pessoal da saúde, incluindo muitos estudantes de medicina de então, ajudando, como voluntários e contra as manobras, a inacção e a vergonhosa incompetência do regime de então, durante episódios como as cheias de 1967 (ver aqui). Lembro também a criação do Serviço Médico à Periferia, o seu papel revolucionário, que, penso, de alguma forma prenunciou a criação do SNS (ver aqui.)

Nesta altura da vida do País é bom lembrar a importância do SNS e a sua actuação durante esta crise. Uma actuação exemplar, reconhecida por muitos, mas talvez ainda não tão amplamente valorizada quanto seria justo que fosse. De tão mal tratado, o SNS banalizou-se. Porquê? Talvez a Democracia precise de dar uma resposta a esta pergunta.

É preciso repensar constantemente a Democracia. É fundamental sublinhar que o SNS é uma das mais importantes conquistas de Abril, incompatível, ou melhor, só possível, com a instauração da Democracia. Sem ela não haveria SNS. É bom lembrar isto.

25 de Abril sempre!

2021/04/06

Monólogos da Vacina (2)

Mensagem SMS: 

COVID19: RUI, vacinação 09/04/2021, as 16.18h. em pav. mu. rita borralho. Responda:

SNS.NUMERO UTENTE. SIM/NAO até 06 ABR. Ex: SNS.......SIM

Respondo, de acordo com as indicações. Recebo nova mensagem, a comunicar que o contacto tinha falhado. Tentei, mais duas vezes. Sem êxito. O sistema, não aceita a minha mensagem. 

Telefonei para o número COVID19, do Serviço Nacional de Saúde (SNS), para explicar a situação. Pedem-me autorização para gravar a chamada (premir 1). Primo 1 e pedem-me para escolher 2 (vacinas). Primo 2 e dão-me música...

Ao fim de uns minutos, ouço uma gravação: "Dado estarem todas as linhas ocupadas, não podemos atender a sua chamada. Tente mais tarde".  Tentei mais duas vezes. Sem sucesso. Desisto do SNS.

Experimento o Centro de Saúde (CS) da minha área. Pedem-me autorização para gravar a chamada (premir 1). Após uns segundos, uma gravação: "A sua chamada está em lista de espera. Se não quiser esperar, tente mais tarde". Tento mais tarde. Ao fim de duas tentativas, desisto do CS. 

Decido ir ao Centro de Saúde, que dista 500m de minha casa. À porta, sou recebido por um "segurança". Explico-lhe a situação (tenho de confirmar a data e a hora da minha vacina e os serviços não aceitam a minha mensagem). "Óptimo". Põe-me as mãos nos ombros e sossega-me: "No stress". Não estou "stressado", respondi. Olha-me e diz: "Tem aí o seu telemóvel? Eu mostro-lhe já como se faz...". Lê a mensagem que recebi e a minha resposta e diz: "falhou o contacto, que estranho...". Concordo, mas não estranho. 

Volta a pôr-me as mãos nos ombros e repete: "No stress", vai lá no dia e na hora marcada e mostra o seu telemóvel. É atendido na hora. Vai tudo correr bem. Parabéns!".

Despeço-me e volto para casa. Perdi duas horas. Não resolvi nada. Ganhei o dia. Sem "stress".

2012/07/28

A ironia das ironias...

Os ingleses têm uma notável queda para a ironia. São imbatíveis nesse domínio. A cerimónia de abertura dos JO de Londres 2012 estava cheia de pequenos apontamentos deliciosos.
A cerimónia teve, contudo, outros apontamentos mais sérios, sem o splash que se observa em outros eventos do género, mas não menos significativos. E teve um, quanto a mim, particularmente notável: uma homenagem ao National Health Service britânico. Um serviço manifestamente querido e um óbvio motivo de orgulho para os ingleses, a ponto de encontrarem nele conteúdo suficientemente significativo para figurar numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos.
Sem ironia, diria mesmo, de forma cruel e cínica, por cá o primeiro ministro Passos Coelho, acompanhado pelo ministro Paulo Macedo à guitarra e pela Troika à viola, vão diligentemente dando cabo do nosso.
Irónicos, mas não distraídos estes ingleses...

2011/07/11

O SNS é nosso!

Só quem não tem, não teve ou finge ignorar ter problemas de saúde, só quem não os experimentou directa ou indirectamente, por doença sua ou de alguém chegado, só alguém assim pode tratar o SNS com leviandade e distância. Nem mesmo o facto de ter muito dinheiro e de poder ir ao estrangeiro quando dói a barriga exime as pessoas de encarar um serviço de cuidados de saúde competente e universal como uma necessidade tão básica como o ar e a água, de o exigir e de lutar para que tenha as melhores condições de funcionamento.
Os pobres porque se encontram duplamente desprotegidos na doença devem ter direito, sem restrições, aos melhores cuidados de saúde. Mas, também os ricos. A doença não vai ver, primeiro, o saldo bancário para atacar. Os seus efeitos também atingem a classe A... Na doença qualquer ser humano está totalmente desprotegido e dependente. Na doença qualquer ser humano está, literalmente, de calças na mão.
Só quem não passou por isso, repito, pensará de outro modo. Na hora da verdade todos (todos!) queremos um especialista competente diante de nós, alguém em quem possamos confiar totalmente, que nos cure ou minimize os efeitos do inevitável. Nesses momentos em que nos sentimos, e estamos de facto, tão vulneráveis e desprotegidos, queremos conforto. Na doença, toda a gente, ricos e pobres, teóricos e práticos, corre a arranjar solução para o seu problema. A história da humanidade, arrisco-me a dizer, tem sido um percurso no sentido de proporcionar uma solução universal e justa para este problema que é universal e injusto: a falta de saúde. Na instituição das Misericórdias no século XV, na criação do SNS no século XX, até na "guerra" de Obama pelo plano universal de cuidados de saúde, lemos continuamente apenas um propósito: o da criação de mecanismos de protecção de todos, sem distinção, no momento em que estão mais frágeis e desprotegidos, o da doença.
Depois de criados esses mecanismos qualquer retrocesso é inadmissível. Ficar desprotegido face à doença depois de ter podido beneficiar da máxima protecção possível é tão absurdo como voltar a fazer fogo esfregando dois pauzinhos. Não se trata de algo fugaz, ditado pela conjuntura política. É um objectivo da humanidade, em marcha desde sempre, explícito ou implícito, cumprido com maior ou menor dose de sucesso, mas imparável.
Se há meta a atingir, inequívoca e indiscutível, se há "projecto" que pode unir todos os portugueses, a saúde para todos é um deles. Nem todos sabem disso, nem todos precisam ou precisaram do SNS, mas aos que não sabem é preciso explicar.
Não é pois possível calar o repúdio pelas "sugestões" de Cavaco Silva. Para além de constituirem, como foi já muito justamente apontado, um grosseiro atropelo à Lei Fundamental que jurou respeitar e que diz ser o seu desígnio enquanto Presidente da República, esperar-se-ia de uma pessoa com as suas funções a defesa e a pedagogia do SNS, não a sua deturpação canhestra. Os portugueses precisam do SNS, precisam de perceber o que o SNS significa para eles e o que representa, numa perspectiva civilizacional, dispôr de um sistema destes. Os portugueses precisam de saber que se trata de um sistema básico, elementar. Os portugueses precisam também de saber, claramente, que este sistema básico custa dinheiro e que, para o assegurar, esse dinheiro tem de ser obtido pelas receitas fiscais de todos. Os portugueses precisam de saber que se o sistema custa mais do que o que as receitas fiscais proporcionam, terão de trabalhar mais e descontar mais para o assegurar sem o deturpar. É isto que é preciso explicar, é esta pedagogia que é preciso fazer e não sugerir a oferta do sistema a privados para garantir o seu funcionamento.
Trata-se de responsabilizar os portugueses por garantir um sistema que é seu e, mais do que isso, constitui um marco civilizacional, não uma frivolidade adquirível a crédito numa qualquer campanha de promoção. O SNS não pode andar para trás. Esta ideia que paulatinamente vai aterrando de entregar o SNS a privados, mesmo que de modo supletivo, é uma aberração, um crime! A saúde, como a morte, não podem, em qualquer circunstância, ser negócio. Não podemos deixar que isso aconteça e não podemos deixar que o governo vá por essa via.
O professor Cavaco Silva tem de corrigir a tremenda argolada que cometeu.
Garantir um SNS efectivo e viável, contribuir com empenho e trabalho colectivo para isso, é a ideia mais forte que qualquer líder político poderia encontrar para mobilizar os portugueses para o futuro. Se já este  facto de ter de trabalhar para pagar os buracos financeiros criados pela irresponsabilidade dos sucessivos governos que temos tido parece absurdo, afigura-se totalmente inaceitável que, no caso da saúde, se transforme um buraco financeiro numa oportunidade de negócio para uns quantos espertalhões. Se há alguém que deva lucrar com a saúde são os portugueses. O dinheiro que os portugueses pagariam para garantir a mais-valia dos privados deve servir para melhorar o sistema, não para os privados se encherem. A resposta aos problemas do SNS pertence aos portugueses, exclusivamente.
Espera-nos a todos a doença e a morte. Até Cavaco Silva vai ter de se colocar um dia nas mãos de um qualquer clínico que lhe trate da saúde. Na hora da verdade confortá-lo-á certamente ter alguém competente, em quem confie. A mim e ao leitor também...