Nunca um Orçamento de Estado desencadeou uma discussão tão profícua na sociedade portuguesa.
É extraordinário o afã das forças mais retógradas - da oposição parlamentar à "domesticada" comunicação social - em criticar os números do "draft" (esboço) apresentado pelo governo português a Bruxelas. Trata-se de um procedimento normal, à qual todos os países da UE estão sujeitos e que Portugal (ainda que com algum atraso) está a cumprir de acordo com os compromissos assumidos. A questão do "atraso", inclusive, explica-se pelo facto do anterior governo (PSD/CDS) não ter apresentado um Orçamento em tempo útil, devido à realização das eleições legislativas de Outubro. Dada a inexistência de um Orçamento e de um governo formal (saído das eleições) não era, de todo, possível apresentar o OE antes da constituição de um novo governo, o que só veio a verificar-se em finais de Novembro. Dois meses e alguns dias mais tarde, o actual governo apresentou o seu primeiro "esboço" à UE, que está, neste momento, a ser discutido em Bruxelas. Qual a surpresa?
A surpresa, reside no facto deste orçamento partir de pressupostos diferentes dos orçamentos anteriores, elaborados num período de crise financeira e de austeridade, imposta pela Troika, entre 2011 e 2014. Como é sabido, os resultados desse programa foram, na sua quase totalidade, desastrosos para a economia e para a população portuguesa e, com a excepção do "déficit", nenhum dos objectivos foi alcançados pelas políticas de austeridade levadas a cabo pelo governo anterior: houve perda do poder de compra, empobrecimento geral, desemprego generalizado, aumento da emigração, perda de apoios sociais e subsídios diversos, miséria absoluta para grandes extratos da população e fome declarada para milhares de crianças sem apoios parentais.
Uma vez no governo, é pois, natural, que o PS (no que é apoiado pelas forças de esquerda maioritárias no parlamento) quisesse inverter este ciclo de empobrecimento que, não só não conseguiu obter os resultados anunciados, como compromete o futuro do desenvolvimento do país para os próximos anos.
É com esta estratégia, que se compromete a reverter o ciclo de austeridade, que o orçamento foi elaborado e apresentado em Bruxelas: um orçamento que se propõe cumprir as obrigações de Portugal na Europa (pagamento das prestações da dívida soberana e "déficit" abaixo dos 3% nominais exigidos), ao mesmo tempo que prevê melhorar as condições sociais dos grupos mais atingidos pela austeridade (assalariados, pensionistas, famílias e grupos mais vulneráveis da sociedade), penalizando os salários e grupos (empresas) mais favorecidos.
É difícil, esta equação?
Com certeza. O governo necessita de cerca de 1000 milhões de euros para cobrir as despesas previstas e isso só será possível com um aumento do crescimento económico superior a 2,5% anual, quando a média da UE é inferior a 2% (ainda que, em Espanha, a economia esteja a crescer a 3,5%).
Ou seja, sem crescimento económico relevante, dificilmente o governo poderá satisfazer os seus compromissos, a menos que volte a penalizar (através de impostos) a classe média, tradicionalmente o grupo mais "sacrificado" em todas as projecções. A chamada "quadratura do círculo".
Uma coisa é certa: as críticas ao (esboço de) Orçamento, feitas pela direita portuguesa (no que é secundada pela comunicação social) e pela Comissão Europeia, não são técnicas, mas, fundamentalmente, políticas. Para a UE, Portugal não pode tornar-se um exemplo positivo para outros países (Espanha e Itália, por exemplo), pois isso seria comprometer o modelo económico e o "pensamento único" que, actualmente, domina a Europa, onde o capital financeiro controla o poder politico.
Este é, pois, o maior desafio que o governo de Costa enfrenta e sobre o qual não pode haver duas interpretações: ou, as negociações em Bruxelas, permitem ao governo defender o seu orçamento e aplicá-lo (ainda que com concessões) de acordo com as promessas eleitorais feitas há três meses; ou uma capitulação, nesta fase, poderá comprometer toda a estratégia concebida e tornar Portugal numa nova Grécia, o pesadelo de todos os democratas.
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2016/02/04
2015/02/26
2014/05/06
Limpinhos, limpinhos...
Sem surpresa, o governo anunciou em Bruxelas a saída "limpa" do programa de austeridade, a que Portugal esteve submetido nos últimos três anos. Uma operação mediática, que começara na véspera diante das câmaras de televisão em "prime-time" e que terminou ontem, com alguma "pompa e circunstância", apoiada pelas declarações dos inefáveis Durão Barroso e Jeroen Dijsselbloem, personagens tutelares do programa de "salvação" imposto a Portugal. Já anteriormente, a Troika tinha-se (auto)congratulado pelos resultados obtidos (todos "bons", a avaliar pelos balancetes publicados trimestralmente nos jornais de referência) pelo que não havia surpresas nestas conclusões. Estivéssemos nós em Hollywood e não faltaria o "happy end" dos filmes "cor-de-rosa" a que nos habituaram no passado. "All well that ends well", como diria Shakespeare, para continuar na língua do dramaturgo maior. Do que nos queixamos nós, afinal, perguntava ontem um desiludido deputado da maioria parlamentar? De facto, após tantos sacrifícios, não se compreende que os cidadãos deste país não estejam agradecidos a quem, em seu nome, pediu "ajuda" aos sempre beneméritos organismos bancários que nos "protegem".
Acontece que esta era uma produção "manhosa", arquitectada e produzida por estagiários medíocres de um país há muito desacreditado nas praças financeiras internacionais. Ora, como sabemos, da era dos omnipresentes "mercados" e das agências de notação, contam muito pouco as intenções e conta muito o peso real da economia. Tivéssemos nós a importância de Espanha ou Itália e outro "galo cantaria". Mas, não temos, e agora é tarde.
Para já, os principais indicadores são, salvo raras excepções (fim da recessão e aumento de exportações) todos negativos. O "déficit" continua acima dos 4%; a dívida pública aumentou para 130%; o desemprego é o terceiro maior da zona Euro (15% da população activa e 35% entre os jovens); mais de 350 000 desempregados, sem qualquer espécie de subsídio; mais 200 000 emigrantes nos últimos dois anos; cortes brutais nos ordenados e pensões de reforma; 20% da população a viver abaixo do limiar da pobreza; 25% de crianças sub-alimentadas; mais de 3000 "sem-abrigo" nas principais cidades do país; dezenas de milhares de empresas falidas e a consequente perda do poder de compra de famílias inteiras, que ficaram sem casa e outros bens pessoais confiscados pelo fisco; aumento dos Bancos Alimentares em todo o país; menos e piores serviços públicos, como escolas, hospitais, polícia e lojas do cidadão, e.o.
Enfim, a lista é longa e visível a olho nu. Porque, no meio deste "tsunami" social, poucos são os que ousam ter filhos, a pirâmide demográfica inverteu-se nos últimos anos e, actualmente, são já mais os que morrem do que os que nascem. Ou seja, o país está mais velho e há cada vez menos gente a descontar para manter o actual estado social. Uma tendência que, a não ser invertida, conduzirá inevitavelmente à diminuição da população (prevista, de resto, para a próxima década) e à desertificação acelerada do país. Sem uma população jovem qualificada e sem uma productividade significativa, o crescimento económico ficará sempre aquém do necessário, o que implicará mais ajuda externa, logo maior dependência económica do estrangeiro. Um programa para vinte anos...
É o que se chama uma "limpeza geral". Não é, pois, de admirar, que os nossos governantes andem tão impantes em Bruxelas. Ninguém os poderá acusar de não sermos limpos.
Acontece que esta era uma produção "manhosa", arquitectada e produzida por estagiários medíocres de um país há muito desacreditado nas praças financeiras internacionais. Ora, como sabemos, da era dos omnipresentes "mercados" e das agências de notação, contam muito pouco as intenções e conta muito o peso real da economia. Tivéssemos nós a importância de Espanha ou Itália e outro "galo cantaria". Mas, não temos, e agora é tarde.
Para já, os principais indicadores são, salvo raras excepções (fim da recessão e aumento de exportações) todos negativos. O "déficit" continua acima dos 4%; a dívida pública aumentou para 130%; o desemprego é o terceiro maior da zona Euro (15% da população activa e 35% entre os jovens); mais de 350 000 desempregados, sem qualquer espécie de subsídio; mais 200 000 emigrantes nos últimos dois anos; cortes brutais nos ordenados e pensões de reforma; 20% da população a viver abaixo do limiar da pobreza; 25% de crianças sub-alimentadas; mais de 3000 "sem-abrigo" nas principais cidades do país; dezenas de milhares de empresas falidas e a consequente perda do poder de compra de famílias inteiras, que ficaram sem casa e outros bens pessoais confiscados pelo fisco; aumento dos Bancos Alimentares em todo o país; menos e piores serviços públicos, como escolas, hospitais, polícia e lojas do cidadão, e.o.
Enfim, a lista é longa e visível a olho nu. Porque, no meio deste "tsunami" social, poucos são os que ousam ter filhos, a pirâmide demográfica inverteu-se nos últimos anos e, actualmente, são já mais os que morrem do que os que nascem. Ou seja, o país está mais velho e há cada vez menos gente a descontar para manter o actual estado social. Uma tendência que, a não ser invertida, conduzirá inevitavelmente à diminuição da população (prevista, de resto, para a próxima década) e à desertificação acelerada do país. Sem uma população jovem qualificada e sem uma productividade significativa, o crescimento económico ficará sempre aquém do necessário, o que implicará mais ajuda externa, logo maior dependência económica do estrangeiro. Um programa para vinte anos...
É o que se chama uma "limpeza geral". Não é, pois, de admirar, que os nossos governantes andem tão impantes em Bruxelas. Ninguém os poderá acusar de não sermos limpos.
2013/06/13
200 gramas de selos
A estação de correios do meu bairro, inaugurada com pompa e circunstância há 15 anos, encerrou no passado dia 1 de Junho. Era uma estação de correios pequena, mas moderna e funcional, onde 3 empregadas exerciam diariamente as suas funções, sempre com agrado dos utentes, entre os quais eu. Apesar de tratar de muitos assuntos pela NET, continuo a ser um cliente dos correios tradicionais, onde envio cartas, encomendas, pago contas e levanto correspondência registada em meu nome. Em média, utilizo os serviços de correio uma vez por semana. Como eu, milhares de clientes, novos e velhos, portugueses e estrangeiros, pensionistas, letrados e iletrados que não possuem contas bancárias e ali pagam as suas contas e levantam as suas reformas. A “minha” estação de correios foi modernizada há 15 anos, precisamente porque havia aumento da procura e as antigas instalações, a funcionarem no mesmo espaço da Junta de Freguesia, já não satisfaziam as necessidades da população que, entretanto, tinha crescido exponencialmente.. À época, os moradores do bairro organizaram-se, fizeram uma petição ao presidente da Junta e este conseguiu que uma nova estação fosse aberta, num edifício alugado para o efeito. Abriu inicialmente com dois funcionários e, posteriormente, o número de funcionários foi aumentado para três, também graças a uma petição. Toda a gente satisfeita com a estação que, aparentemente, dava lucro, pois não consta que uma estação que tinha uma procura constante e, para além dos serviços habituais, vendia toda a espécie de artigos, desde “best-sellers” a CD’s, bonés ou porta-chaves, não fosse rentável.
No dia 29 de Maio, estive lá pela última vez a enviar uma carta para o estrangeiro e, como já circulava o boato de que a estação poderia fechar, perguntei a uma das funcionárias se esse rumor se confirmava. Respondeu-me que não sabia, pois não havia ordens internas explícitas sobre o encerramento deste posto em particular. Isto, dois dias antes do seu encerramento!
Era esta informação verdadeira? Se não, porque mentiu a funcionária? Se sim, como é possível os serviços nem sequer informarem os seus próprios funcionários do que iria passar-se?
Na passada segunda-feira confirmaram-se os meus piores receios. As montras da estação estavam cobertas com papel pardo e um edital avisava que, a partir desse dia, os clientes tinham de dirigir-se a um supermercado do bairro para enviar as suas cartas.
Lá fui, esta semana, experimentar os “novos” serviços. Como receava, tudo piorou. Num balcão improvisado, ao lado da empregada da papelaria, no meio de material escolar, jornais, revistas e perfumes, estava um empregado (em pé) a ser instruído por uma das ex-funcionárias da estação que tinha encerrado. Perguntei-lhe se ela, agora, vendia perfumes, ao que me respondeu que só estava a ensinar o empregado do supermercado a pesar e selar a correspondência. De facto, pesar maçãs, ou cartas, qual é a diferença? Pedi-lhe 200 gramas de selos, para não andar sempre a comprar...
No dia 29 de Maio, estive lá pela última vez a enviar uma carta para o estrangeiro e, como já circulava o boato de que a estação poderia fechar, perguntei a uma das funcionárias se esse rumor se confirmava. Respondeu-me que não sabia, pois não havia ordens internas explícitas sobre o encerramento deste posto em particular. Isto, dois dias antes do seu encerramento!
Era esta informação verdadeira? Se não, porque mentiu a funcionária? Se sim, como é possível os serviços nem sequer informarem os seus próprios funcionários do que iria passar-se?
Na passada segunda-feira confirmaram-se os meus piores receios. As montras da estação estavam cobertas com papel pardo e um edital avisava que, a partir desse dia, os clientes tinham de dirigir-se a um supermercado do bairro para enviar as suas cartas.
Lá fui, esta semana, experimentar os “novos” serviços. Como receava, tudo piorou. Num balcão improvisado, ao lado da empregada da papelaria, no meio de material escolar, jornais, revistas e perfumes, estava um empregado (em pé) a ser instruído por uma das ex-funcionárias da estação que tinha encerrado. Perguntei-lhe se ela, agora, vendia perfumes, ao que me respondeu que só estava a ensinar o empregado do supermercado a pesar e selar a correspondência. De facto, pesar maçãs, ou cartas, qual é a diferença? Pedi-lhe 200 gramas de selos, para não andar sempre a comprar...
2013/03/16
Um programa mal concebido
Soubemos hoje, após mais uma avaliação da Troika e da extraordinária comunicação do ministro Gaspar ao pais, que nenhuma das previsões tinha sido atingida e que todos os indicadores determinantes (valor do défice, produto interno bruto, recessão e taxa de desemprego) tinham piorado. Isto, depois da última visita da troika, em finais do ano passado e das recentes previsões (em alta) do ministro colossal, em Janeiro deste ano.
Como o disparate há muito deixou de ser quantificável, o “crânio” especializado em economia e finanças que dá pelo nome de Miguel Frasquilho, veio esta tarde ler um comunicado de imprensa onde dizia que “estas revisões deixam à vista de todos que o programa original apresentado em Maio de 2011 tinha sido mal desenhado, mal concebido, com projecções e efeitos que, sabemos agora, tinham pouca ou nenhuma adesão à realidade”. Como?
Esta gente ensandeceu, é apenas incompetente, ou pensa que as pessoas andam a dormir?
Então não foram os partidos desta coligação que, juntamente com o PS, é bom lembrá-lo, assinaram o Memorando em 2011 e que tudo fizeram nestes últimos dois anos, para “ir além da troika” como, muito ufanos no seu papel de bom aluno da Alemanha, sempre afirmaram?
Não fosse a trágica dimensão desta crise, que nos vai conduzir, no curto prazo, a um ponto de não retorno e a uma situação sem paralelo nas últimas décadas, quase dava vontade de rir tanta idiotice junta. Infelizmente, é verdade.
Pior ainda, porque mais trágica, foi a completa subserviência da comunicação social portuguesa nesta encenação lúgubre, em que não ouvimos uma pergunta critica sobre a “má concepção” deste programa que nos andam a impingir. Perante esta complacência acrítica, é de recear o pior. Toda esta gente mete nojo.
2013/02/15
Esta gente não se aguenta!
É oficial: a politica seguida pelo governo falhou.
Os números não mentem e, contra números, falham todos os argumentos. O número de desempregados atingiu a fasquia “record” de 920.000 cidadãos inscritos nos centros de desemprego, o que corresponde a 16,9% da população produtiva do pais (ou seja, 1 em cada 5 portugueses está, neste momento, desempregado). Destes, 43% já não recebem qualquer tipo de subsídio ou apoio. Entre os desempregados, 40% são jovens, abaixo dos 34 anos. Se contabilizarmos os desempregados não-inscritos, o total rondará 1,4 milhões, uma cifra nunca atingida em Portugal desde que há memória estatística.
A montante (et pour cause) a queda do crescimento económico é agora de 3,2% do produto, em comparação com o período homólogo, enquanto o crescimento, propriamente dito, não sobe acima dos 0,2% do PIB. Porque uma má notícia nunca vem só, as exportações (essa ilusão macro-económica dos economistas que nos governam) perdeu o balanço que sustentava algum optimismo e, como as economias do Euro começaram a abrandar, compram agora menos às periferias e afectam directamente a nossa balança de pagamentos. “Mutatis-mutandis”, dado que a economia não cresce, não são criados empregos e, sem empregos, não há poder de compra para sustentar a economia, nem dinheiro para pagar os subsídios e apoios sociais de todo o tipo, enquanto a dívida soberana continua a aumentar e a ser paga aos credores.
A jusante, as sequelas começam a ser visíveis a olho nu e já não são necessárias estatísticas para nos convencerem do fosso em que caímos:
As prestações das casas deixaram de ser pagas aos milhares (7.800 no último ano) e, com a nova lei de arrendamentos, este número vai certamente aumentar. No seu relatório anual, publicado no “Público” de hoje, a Caritas revela que 28,6% das crianças portuguesas (mais de 1/4 da população infantil!) estava em risco de pobreza ou exclusão social, número que, provavelmente já aumentou desde então.
As filas, nos centros sociais e nos bancos alimentares, aumentam diariamente e as corridas às reformas dispararam em todos os sectores. Os mais aptos e qualificados procuram saída através da emigração e o desespero instala-se nas famílias sem qualquer perspectiva de futuro. Começa a ser preocupante o número de homicídios e suicídios na sociedade portuguesa, que não podem nem devem ser desvalorizados ou desligados da realidade social actual.
Perante esta verdadeira calamidade social, que faz o governo? Defende a sua politica prometendo-nos um dia melhor (quando?) talvez lá para 2014 ou 2015, se as condições se inverterem, com o argumento que temos primeiro de pagar aos credores (a juros que estes determinam) para dessa forma provarmos ser bem comportados e merecermos a sua condescendência.
Obviamente que ninguém acredita neste “promissor futuro” e, mesmo admitindo que daqui a um ano ou dois as perspectivas mudavam, só um desmiolado acredita que depois de três anos de uma politica de terra queimada, alguma coisa vai subsistir na actual economia. A verdade é que nada vai ser como dantes e todas as conquistas (ordenados, meses-extra, apoios sociais, educação, serviço nacional de saúde, etc.) vão acabar.
E porque a economia vai ser destruída, o governo que se seguir (seja ele do PS, ou outro), não terá outra alternativa a não ser manter a situação neste nível de indigência a que os actuais governantes nos conduziram. É este o dilema. Quanto mais tempo aguentarmos Passos Coelho e a Troika, pior será o nosso futuro.
Os números não mentem e, contra números, falham todos os argumentos. O número de desempregados atingiu a fasquia “record” de 920.000 cidadãos inscritos nos centros de desemprego, o que corresponde a 16,9% da população produtiva do pais (ou seja, 1 em cada 5 portugueses está, neste momento, desempregado). Destes, 43% já não recebem qualquer tipo de subsídio ou apoio. Entre os desempregados, 40% são jovens, abaixo dos 34 anos. Se contabilizarmos os desempregados não-inscritos, o total rondará 1,4 milhões, uma cifra nunca atingida em Portugal desde que há memória estatística.
A montante (et pour cause) a queda do crescimento económico é agora de 3,2% do produto, em comparação com o período homólogo, enquanto o crescimento, propriamente dito, não sobe acima dos 0,2% do PIB. Porque uma má notícia nunca vem só, as exportações (essa ilusão macro-económica dos economistas que nos governam) perdeu o balanço que sustentava algum optimismo e, como as economias do Euro começaram a abrandar, compram agora menos às periferias e afectam directamente a nossa balança de pagamentos. “Mutatis-mutandis”, dado que a economia não cresce, não são criados empregos e, sem empregos, não há poder de compra para sustentar a economia, nem dinheiro para pagar os subsídios e apoios sociais de todo o tipo, enquanto a dívida soberana continua a aumentar e a ser paga aos credores.
A jusante, as sequelas começam a ser visíveis a olho nu e já não são necessárias estatísticas para nos convencerem do fosso em que caímos:
As prestações das casas deixaram de ser pagas aos milhares (7.800 no último ano) e, com a nova lei de arrendamentos, este número vai certamente aumentar. No seu relatório anual, publicado no “Público” de hoje, a Caritas revela que 28,6% das crianças portuguesas (mais de 1/4 da população infantil!) estava em risco de pobreza ou exclusão social, número que, provavelmente já aumentou desde então.
As filas, nos centros sociais e nos bancos alimentares, aumentam diariamente e as corridas às reformas dispararam em todos os sectores. Os mais aptos e qualificados procuram saída através da emigração e o desespero instala-se nas famílias sem qualquer perspectiva de futuro. Começa a ser preocupante o número de homicídios e suicídios na sociedade portuguesa, que não podem nem devem ser desvalorizados ou desligados da realidade social actual.
Perante esta verdadeira calamidade social, que faz o governo? Defende a sua politica prometendo-nos um dia melhor (quando?) talvez lá para 2014 ou 2015, se as condições se inverterem, com o argumento que temos primeiro de pagar aos credores (a juros que estes determinam) para dessa forma provarmos ser bem comportados e merecermos a sua condescendência.
Obviamente que ninguém acredita neste “promissor futuro” e, mesmo admitindo que daqui a um ano ou dois as perspectivas mudavam, só um desmiolado acredita que depois de três anos de uma politica de terra queimada, alguma coisa vai subsistir na actual economia. A verdade é que nada vai ser como dantes e todas as conquistas (ordenados, meses-extra, apoios sociais, educação, serviço nacional de saúde, etc.) vão acabar.
E porque a economia vai ser destruída, o governo que se seguir (seja ele do PS, ou outro), não terá outra alternativa a não ser manter a situação neste nível de indigência a que os actuais governantes nos conduziram. É este o dilema. Quanto mais tempo aguentarmos Passos Coelho e a Troika, pior será o nosso futuro.
2012/09/16
Point of no return?
Foi bonita a festa (pá), ouvia-se dizer ontem na praça de Espanha.
Foi, mas não chega.
Da mesma forma que a democracia não se esgota na representatividade parlamentar, também a democracia participativa não se esgota em manifestações, por muita gente e palavras de ordem que estas tenham.
Sim, é preciso correr com estes vendilhões do templo, que não olham a meios para atingir os seus fins, ainda que no fim só venham a restar zombies incapazes de resistir seja ao que for. Para correr com eles (porque são muitos e usam diversas máscaras) todos os meios legais são lícitos, pois os últimos 38 anos mostraram que não aprendemos nada. A prova é que continuamos a votar nos partidos que, alternadamente, vão espoliando o pais e empobrecendo a população, enquanto defendem os interesses (nacionais e estrangeiros) daqueles que sempre viveram à custa do estado e da exploração sistemática de quem trabalha e quem desconta para os sustentar.
A manifestação de ontem, como aquela que reuniu centenas de milhares de manifestantes no dia 12 de Março de 2011, foi boa (muito boa), na medida em que as pessoas ousaram descer á rua e dizer “basta!”. Podem não saber o que querem, mas começam a saber o que não querem. É um princípio. Por algum lado temos de começar.
Mas, não devemos ter ilusões. Não é por gritar “que se lixe a troika!” que esta se vai embora. Veja-se a Grécia, onde a população desce às ruas todas as semanas sem que as medidas de austeridade diminuam. Qual é o limite? Das medidas e da resistência. Estas são as questões.
Cavaco Silva já percebeu a mensagem e, impedido como está de se pronunciar devido à imagem negativa que o persegue, mandou Manuela Ferreira Leite avisar o governo. Esta, que nunca escondeu o desprezo pelo jovem Passos, encarregou-se na perfeição da mensagem, Fê-lo tão bem que conseguiu unir toda a gente (da esquerda à direita) contra o jovem turco. E o resultado está à vista: 40 cidades portuguesas vieram à rua manifestar-se contra este governo. É obra!
Segue-se o segundo acto. Perante o descrédito do regime, Cavaco convocou o “Conselho de Estado”. Basta olhar para a sua constituição (ex-presidentes na reforma, comentadores de televisão, economistas da moda e neurocirurgiões da ribalta) para não ter ilusões. Para dar um ar de democracia (e fazer o contraditório) convidou o Gaspar.
A estratégia é clara: é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.
Até é possível que perante a derrocada da receita da Troika, o governo tenda a inflectir de estratégia. Talvez até saia o Relvas, ou mesmo o Gaspar...
Mas, será que mudará alguma coisa na forma como os peões internos da Troika vão abordar a crise portuguesa, eles que apenas estão interessados em que paguemos aos credores e em desregular o mercado de trabalho interno para dessa forma nos tornar mais submissos? Não. Não vai mudar nada de essencial. É por isso que a manifestação de ontem não nos deve iludir.
A manifestação foi um acto de cidadania e, nesse sentido, um ponto de não-retorno. Nada será como dantes, a partir de agora. Mas, os representantes do “centrão” continuarão lá e a defender os seus interesses. Ora os seus interesses, não são necessariamente os nossos. E é nesta dialéctica de contradições que nos devemos fixar, com o risco de nos fixarmos demasiado na árvore e perdermos a floresta de vista.
Foi, mas não chega.
Da mesma forma que a democracia não se esgota na representatividade parlamentar, também a democracia participativa não se esgota em manifestações, por muita gente e palavras de ordem que estas tenham.
Sim, é preciso correr com estes vendilhões do templo, que não olham a meios para atingir os seus fins, ainda que no fim só venham a restar zombies incapazes de resistir seja ao que for. Para correr com eles (porque são muitos e usam diversas máscaras) todos os meios legais são lícitos, pois os últimos 38 anos mostraram que não aprendemos nada. A prova é que continuamos a votar nos partidos que, alternadamente, vão espoliando o pais e empobrecendo a população, enquanto defendem os interesses (nacionais e estrangeiros) daqueles que sempre viveram à custa do estado e da exploração sistemática de quem trabalha e quem desconta para os sustentar.
A manifestação de ontem, como aquela que reuniu centenas de milhares de manifestantes no dia 12 de Março de 2011, foi boa (muito boa), na medida em que as pessoas ousaram descer á rua e dizer “basta!”. Podem não saber o que querem, mas começam a saber o que não querem. É um princípio. Por algum lado temos de começar.
Mas, não devemos ter ilusões. Não é por gritar “que se lixe a troika!” que esta se vai embora. Veja-se a Grécia, onde a população desce às ruas todas as semanas sem que as medidas de austeridade diminuam. Qual é o limite? Das medidas e da resistência. Estas são as questões.
Cavaco Silva já percebeu a mensagem e, impedido como está de se pronunciar devido à imagem negativa que o persegue, mandou Manuela Ferreira Leite avisar o governo. Esta, que nunca escondeu o desprezo pelo jovem Passos, encarregou-se na perfeição da mensagem, Fê-lo tão bem que conseguiu unir toda a gente (da esquerda à direita) contra o jovem turco. E o resultado está à vista: 40 cidades portuguesas vieram à rua manifestar-se contra este governo. É obra!
Segue-se o segundo acto. Perante o descrédito do regime, Cavaco convocou o “Conselho de Estado”. Basta olhar para a sua constituição (ex-presidentes na reforma, comentadores de televisão, economistas da moda e neurocirurgiões da ribalta) para não ter ilusões. Para dar um ar de democracia (e fazer o contraditório) convidou o Gaspar.
A estratégia é clara: é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.
Até é possível que perante a derrocada da receita da Troika, o governo tenda a inflectir de estratégia. Talvez até saia o Relvas, ou mesmo o Gaspar...
Mas, será que mudará alguma coisa na forma como os peões internos da Troika vão abordar a crise portuguesa, eles que apenas estão interessados em que paguemos aos credores e em desregular o mercado de trabalho interno para dessa forma nos tornar mais submissos? Não. Não vai mudar nada de essencial. É por isso que a manifestação de ontem não nos deve iludir.
A manifestação foi um acto de cidadania e, nesse sentido, um ponto de não-retorno. Nada será como dantes, a partir de agora. Mas, os representantes do “centrão” continuarão lá e a defender os seus interesses. Ora os seus interesses, não são necessariamente os nossos. E é nesta dialéctica de contradições que nos devemos fixar, com o risco de nos fixarmos demasiado na árvore e perdermos a floresta de vista.
2012/07/30
Ah! como é diferente a eugenia em Portugal...
Uma casa modesta, de idosa manifestamente modesta, uns parcos utensílios à vista. A mulher exibe os sinais da agressão de que foi vítima. Conta que "eles entraram por aqui dentro a gritar 'onde está o cordão? onde está o cordão?' Disse-lhes que não tinha nenhum cordão, bateram-me."
Aqui há tempos uma outra idosa, menos modesta, sugeria que os hemofílicos podiam ser descartáveis, estarão lembrados. Recentemente, Pinto Balsemão lamentava o facto de a população portuguesa ter idosos a mais. O problema do défice estaria resolvido, acha ele, se houvesse menos velhos. São formas de agressão encontradas por quem não tem a coragem ou o poder de nos liquidar fisicamente. O Governo, com o beneplácito do Presidente da República, e a troika, mais prosaicos, optam por nos assaltar a casa à procura do cordão. Não o encontrando, agridem-nos a sério.
Exagero, pensará quem lê estas linhas. Mas há, por mais absurdo que possa parecer, uma lógica nisto tudo. Uma lógica que a nossa inércia forjou e encorajou.
Aqui há tempos uma outra idosa, menos modesta, sugeria que os hemofílicos podiam ser descartáveis, estarão lembrados. Recentemente, Pinto Balsemão lamentava o facto de a população portuguesa ter idosos a mais. O problema do défice estaria resolvido, acha ele, se houvesse menos velhos. São formas de agressão encontradas por quem não tem a coragem ou o poder de nos liquidar fisicamente. O Governo, com o beneplácito do Presidente da República, e a troika, mais prosaicos, optam por nos assaltar a casa à procura do cordão. Não o encontrando, agridem-nos a sério.
Exagero, pensará quem lê estas linhas. Mas há, por mais absurdo que possa parecer, uma lógica nisto tudo. Uma lógica que a nossa inércia forjou e encorajou.
2012/07/28
A ironia das ironias...
Os ingleses têm uma notável queda para a ironia. São imbatíveis nesse domínio. A cerimónia de abertura dos JO de Londres 2012 estava cheia de pequenos apontamentos deliciosos.
A cerimónia teve, contudo, outros apontamentos mais sérios, sem o splash que se observa em outros eventos do género, mas não menos significativos. E teve um, quanto a mim, particularmente notável: uma homenagem ao National Health Service britânico. Um serviço manifestamente querido e um óbvio motivo de orgulho para os ingleses, a ponto de encontrarem nele conteúdo suficientemente significativo para figurar numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos.
Sem ironia, diria mesmo, de forma cruel e cínica, por cá o primeiro ministro Passos Coelho, acompanhado pelo ministro Paulo Macedo à guitarra e pela Troika à viola, vão diligentemente dando cabo do nosso.
Irónicos, mas não distraídos estes ingleses...
A cerimónia teve, contudo, outros apontamentos mais sérios, sem o splash que se observa em outros eventos do género, mas não menos significativos. E teve um, quanto a mim, particularmente notável: uma homenagem ao National Health Service britânico. Um serviço manifestamente querido e um óbvio motivo de orgulho para os ingleses, a ponto de encontrarem nele conteúdo suficientemente significativo para figurar numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos.
Sem ironia, diria mesmo, de forma cruel e cínica, por cá o primeiro ministro Passos Coelho, acompanhado pelo ministro Paulo Macedo à guitarra e pela Troika à viola, vão diligentemente dando cabo do nosso.
Irónicos, mas não distraídos estes ingleses...
2012/06/19
Até quando vamos ficar de braços cruzados a ver estas coisas a acontecer?
Os diktats da troika vistos em tempo real...
2012/02/13
Atenas já está a arder?
O acordo, a que chegaram ontem os principais partidos gregos, só aparentemente é um benefício para a Grécia. É verdade que o país vai receber 130 mil milhões de euros e, para já, evitar a bancarrota e permanecer na zona Euro. Mas, o reverso da medalha não é menos verdadeiro: novos aumentos de impostos, novas reduções de vencimentos, novas reduções de reformas e mais despedimentos que, só este ano, deverão atingir 15.000 funcionários públicos. O acordo prevê ainda um despedimento gradual de 150.000 funcionários, até 2015.
Curiosamente, no mesmo dia em que o parlamento grego discutia as medidas draconianas impostas pela Troika, o multimilionário norte-americano Soros (conhecido pela sua actividade especuladora na bolsa) declarava em entrevista que Merkel estava a conduzir a Europa por caminhos errados e, se a Grécia falisse, era o próprio projecto europeu que estaria em causa. Ora aqui está um homem que sabe do que fala...
Para além dos habituais protestos da rua, ontem particularmente violentos, devem ser registados os votos contra de 43 deputados do Pasok e da Nova Democracia, que recusaram apoiar as medidas preconizadas pelo governo. O acto valeu-lhes a expulsão dos respectivos partidos, mas deu mais força e razão aos protestos de um povo que chegou ao limite da resistência. Seguem-se novas eleições em Abril e, a acreditar nas sondagens, nada ficará como dantes. As forças mais à esquerda do parlamento ganham nas intenções de voto, o que pode significar a perda da influência dos partidos do centro (principais responsáveis pela crise actual) e um novo impasse político daqui a dois meses. Nada garante que a Grécia saia reforçada desta crise, o que aumentará o perigo de contaminação às economias mais fracas do Euro, no caso Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. A Europa, ou o que dela resta, está avisada.
Curiosamente, no mesmo dia em que o parlamento grego discutia as medidas draconianas impostas pela Troika, o multimilionário norte-americano Soros (conhecido pela sua actividade especuladora na bolsa) declarava em entrevista que Merkel estava a conduzir a Europa por caminhos errados e, se a Grécia falisse, era o próprio projecto europeu que estaria em causa. Ora aqui está um homem que sabe do que fala...
Para além dos habituais protestos da rua, ontem particularmente violentos, devem ser registados os votos contra de 43 deputados do Pasok e da Nova Democracia, que recusaram apoiar as medidas preconizadas pelo governo. O acto valeu-lhes a expulsão dos respectivos partidos, mas deu mais força e razão aos protestos de um povo que chegou ao limite da resistência. Seguem-se novas eleições em Abril e, a acreditar nas sondagens, nada ficará como dantes. As forças mais à esquerda do parlamento ganham nas intenções de voto, o que pode significar a perda da influência dos partidos do centro (principais responsáveis pela crise actual) e um novo impasse político daqui a dois meses. Nada garante que a Grécia saia reforçada desta crise, o que aumentará o perigo de contaminação às economias mais fracas do Euro, no caso Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. A Europa, ou o que dela resta, está avisada.
2011/11/17
A política dos três pilares em versão tuga
O ministro Gaspar, também conhecido por ministro das finanças, congratulou-se ontem, ufano, com a avaliação da troika sobre o cumprimento dos "três pilares do programa de ajustamento, designadamente, a evolução das finanças públicas, a estabilização do sistema financeiro e a concretização da agenda de transformação estrutural." Há uma metáfora sinistra nisto tudo.
Temos três pilares para uma ponte sem tabuleiro. Uma ponte que deliberadamente não une porque já caiu antes de abrir ao tráfego.
Os dois primeiros "pilares" resultam de problemas de contabilidade criativa, que deveriam levar à cadeia quem os provocou e lavrou os resultados em livro de caixa. O terceiro "pilar" é, recordemo-lo, eufemismo para a venda em saldo das participações do Estado em diversas empresas. A satisfação do ministro e os recados da troika deveriam indignar os portugueses.
No fim de tudo isto, e quando o ministro Gaspar der por concluida a sua missão de mero gestor da massa falida e a troika se for embora, deixando um derradeiro elogio sobre o cumprimento do "programa de ajustamento", ficaremos todos exactamente como estávamos antes, sem que se tenham operado quaisquer modificações de fundo que permitam encarar o futuro com outro optimismo. Pagámos para deixar o ministro Gaspar e a troika que o pariu todos contentes.
Tudo isto a troco de um sacrifício sem precedentes do grosso do povo Português. Financiámos os pilares, mas fica-nos a faltar o tabuleiro da ponte para que a possamos atravessar.
Quase que aposto que quando levarmos a sério o projecto de passar mesmo a ponte, o ministro Gaspar não vai ficar na nossa margem...
Temos três pilares para uma ponte sem tabuleiro. Uma ponte que deliberadamente não une porque já caiu antes de abrir ao tráfego.
Os dois primeiros "pilares" resultam de problemas de contabilidade criativa, que deveriam levar à cadeia quem os provocou e lavrou os resultados em livro de caixa. O terceiro "pilar" é, recordemo-lo, eufemismo para a venda em saldo das participações do Estado em diversas empresas. A satisfação do ministro e os recados da troika deveriam indignar os portugueses.
No fim de tudo isto, e quando o ministro Gaspar der por concluida a sua missão de mero gestor da massa falida e a troika se for embora, deixando um derradeiro elogio sobre o cumprimento do "programa de ajustamento", ficaremos todos exactamente como estávamos antes, sem que se tenham operado quaisquer modificações de fundo que permitam encarar o futuro com outro optimismo. Pagámos para deixar o ministro Gaspar e a troika que o pariu todos contentes.
Tudo isto a troco de um sacrifício sem precedentes do grosso do povo Português. Financiámos os pilares, mas fica-nos a faltar o tabuleiro da ponte para que a possamos atravessar.
Quase que aposto que quando levarmos a sério o projecto de passar mesmo a ponte, o ministro Gaspar não vai ficar na nossa margem...
2011/06/21
A incógnita
No céu surgiu hoje, subitamente, à hora da tomada de posse do governo, o X, a incógnita que a foto documenta.
O X da incógnita Cavaco Silva. Depois do discurso absolutamente desastroso e despropositado de hoje, não sabemos nós, nem Passos, o coelho que Cavaco vai tirar da cartola. Fiquei com a dúvida se Cavaco teria assinado na tomada de posse como presidente ou já como primeiro ministro. Uma lástima.
X representa também a incógnita Passos Coelho. A troika, já se sabe, viciou a equação e a margem de manobra é estreita, para não dizer nula. Não contente com isto, Cavaco decidiu dificultar tudo ainda mais com o seu discurso. Confesso que não espero grande coisa de Passos Coelho. Mas não é que o jovem tenor (ainda lhe falta muito para chegar a barítono...) conseguiu, pelo menos em palavras, dar uma resposta que, a mim, causou alguma surpresa. Surpresa logo ampliada com a escolha para a presidência da AR, um remendo mais que airoso para o desastre Nobre.
Cavaco não terá ficado muito agradado com o catarro do Coelho e a troika ficou certamente mais atenta.
Um X no céu de Lisboa...
2011/04/19
As eleições não deviam ter lugar
Não sei se é ou não técnica ou constitucionalmente possível anular a convocatória para as eleições. Não sei qual o conceito de "governo forte" que os inúmeros utilizadores dessa expressão têm, mas sei —tenho a certeza!— que a brutalidade das medidas que se adivinham e a atitude para com os partidos que representam exclusivamente quem mais vai sofrer com essas medidas é uma receita para o desastre social. O Presidente da República tem essa responsabilidade em cima dos ombros: evitar o desastre. Em vez de armar, ele e os líderes dos auto-proclamados partidos "democráticos", em rapaziada sensata e com juizinho (viu-se no que deu esta "sensatez" e "juízo"...) , por que não tomam a atitude correcta e desistem das eleições? Estão à espera de quê...?
Começaram tortas as "negociações" entre os prestamistas internacionais (chamam-lhe a troika) e as diversas instituições e organizações portuguesas envolvidas no processo do resgate financeiro do país. Segundo foi revelado por Jerónimo de Sousa, o PCP, por exemplo, uma dessas organizações, um partido legítimo português com representação parlamentar, foi convocado telefonicamente, ontem de manhã, para uma reunião a efectuar à tarde com os ditos prestamistas, sem sequer ter tido acesso à informação necessária para poder dar um fundado contributo. Tudo isto acontece sem que se ouça uma única voz a condenar tudo isto. De forma subserviente os partidos "democráticos" não assinalam este atentado à democracia e lá vão ao beija mão.
Uma convocatória nestas circunstâncias é uma provocação inqualificável e totalmente irresponsável. Está visto que a troika não está interessada em conhecer as opiniões dos representantes de um largo sector da população portuguesa.
O PCP, naturalmente, recusou a reunião. O BE e os Verdes fizeram o mesmo. Mário Soares comenta, leviano, dizendo não estar surpreendido porque nem PCP, nem BE quiseram alguma vez a Europa. Como se o objectivo destas "negociações" fosse discutir a "Europa". É um escândalo!
Não foram os partidos de esquerda que se auto-excluíram deste esforço. São os "troikos" que os tratam de forma arrogante e provocatória, como se fosse possível passar sem o povo. E fazem-no com a tranquilidade de que não serão eles que irão sofrer com a contestação que se vai inevitavelmente gerar.
Preparam-se entretanto eleições sabendo-se de antemão que não servem para nada e que absolutamente nada com elas vai mudar. Sabe-se que quem quer que seja que ganhe as eleições vai ser um amanuense dos "troikos". A "crise" no discurso político dos partidos do "arco do cego", por sua vez, não parece passar de arma de jogo político. No discurso e na prática destes partidos o argumento da crise, quando surge, não passa de instrumento que lhes permita marcar-se tacticamente para ver como melhor hão-de tirar o cavalinho da chuva e como melhor hão-de tirar o maior dividendo possível de todo este imbróglio.
Se a "gravidade" da situação fosse uma realidade de facto para os partidos do "arco", se estes quisessem superar a verdadeira crise, as soluções seriam outras, a mobilização, os entendimentos e consensos teriam de ser diferentes.
Os Portugueses, por seu lado, já perceberam que o papel de quem quer que seja que tome conta do poder não vai passar do de administrador da massa falida e não esperam destas eleições nenhuma alteração de rumo, nenhuma correcção de processos, nenhuma compensação pela ausência de medidas tomadas em tempo oportuno. Para o povo português não há nada a esperar do que aí vem, a não ser meter o pescocinho o mais a jeito possível para enfiar a canga, enquanto continuam a observar os jogos florais dos partidos do "arco".
Parece-me bizarro que se façam eleições neste quadro. Devíamos ser poupados a este triste espectáculo porque não vamos ganhar nada com esta solução. As eleições não passam de um processo de branqueamento dos responsáveis pela crise, não trazem soluções para ela e vão reforçar o carácter indigente da governação do país. E parece-me igualmente bizarro que se esteja a hostilizar justamente aquelas organizações que representam a maioria, se não a totalidade, dos sectores da sociedade que mais vão sofrer com as medidas que aí vêm.
Ou seja: no dia 5 de Junho vamos votar um governo inútil, que vai fazer cumprir medidas que os partidos de esquerda foram impedidos sequer de discutir. Partidos que são provocatoriamente levados a não discutir essas medidas, mas que são constituídos na sua quase totalidade, ou mesmo na sua totalidade, pelo sector da população portuguesa que vai ser vítima dessas medidas.
Sentido patriótico e atitude responsável era pois e quanto a mim, procurar nesta altura, a todo o transe, uma solução política digna e alargada de facto a todas as forças partidárias para negociar os termos do acordo com os "troikos", poupando-nos à fantochada das eleições, uma solução que assegurasse um acordo mínimo para uma mudança efectiva e consensual no rumo político do país. Uma solução mobilizadora, activa, sem preconceitos mesquinhos, que garantisse o contributo de todos, segundo as suas responsabilidades e meios, para mais rapidamente sair da crise. Um consenso obtido em sede própria e não forçado à mesa das negociações com entidades alienígenas e por elas condicionado.
De outra forma não penso que venha aí nada de bom para ninguém. E não creio que seja possível deixar sem resposta firme a arrogância e o desrespeito com que estamos a ser tratados.
Começaram tortas as "negociações" entre os prestamistas internacionais (chamam-lhe a troika) e as diversas instituições e organizações portuguesas envolvidas no processo do resgate financeiro do país. Segundo foi revelado por Jerónimo de Sousa, o PCP, por exemplo, uma dessas organizações, um partido legítimo português com representação parlamentar, foi convocado telefonicamente, ontem de manhã, para uma reunião a efectuar à tarde com os ditos prestamistas, sem sequer ter tido acesso à informação necessária para poder dar um fundado contributo. Tudo isto acontece sem que se ouça uma única voz a condenar tudo isto. De forma subserviente os partidos "democráticos" não assinalam este atentado à democracia e lá vão ao beija mão.
Uma convocatória nestas circunstâncias é uma provocação inqualificável e totalmente irresponsável. Está visto que a troika não está interessada em conhecer as opiniões dos representantes de um largo sector da população portuguesa.
O PCP, naturalmente, recusou a reunião. O BE e os Verdes fizeram o mesmo. Mário Soares comenta, leviano, dizendo não estar surpreendido porque nem PCP, nem BE quiseram alguma vez a Europa. Como se o objectivo destas "negociações" fosse discutir a "Europa". É um escândalo!
Não foram os partidos de esquerda que se auto-excluíram deste esforço. São os "troikos" que os tratam de forma arrogante e provocatória, como se fosse possível passar sem o povo. E fazem-no com a tranquilidade de que não serão eles que irão sofrer com a contestação que se vai inevitavelmente gerar.
Preparam-se entretanto eleições sabendo-se de antemão que não servem para nada e que absolutamente nada com elas vai mudar. Sabe-se que quem quer que seja que ganhe as eleições vai ser um amanuense dos "troikos". A "crise" no discurso político dos partidos do "arco do cego", por sua vez, não parece passar de arma de jogo político. No discurso e na prática destes partidos o argumento da crise, quando surge, não passa de instrumento que lhes permita marcar-se tacticamente para ver como melhor hão-de tirar o cavalinho da chuva e como melhor hão-de tirar o maior dividendo possível de todo este imbróglio.
Se a "gravidade" da situação fosse uma realidade de facto para os partidos do "arco", se estes quisessem superar a verdadeira crise, as soluções seriam outras, a mobilização, os entendimentos e consensos teriam de ser diferentes.
Os Portugueses, por seu lado, já perceberam que o papel de quem quer que seja que tome conta do poder não vai passar do de administrador da massa falida e não esperam destas eleições nenhuma alteração de rumo, nenhuma correcção de processos, nenhuma compensação pela ausência de medidas tomadas em tempo oportuno. Para o povo português não há nada a esperar do que aí vem, a não ser meter o pescocinho o mais a jeito possível para enfiar a canga, enquanto continuam a observar os jogos florais dos partidos do "arco".
Parece-me bizarro que se façam eleições neste quadro. Devíamos ser poupados a este triste espectáculo porque não vamos ganhar nada com esta solução. As eleições não passam de um processo de branqueamento dos responsáveis pela crise, não trazem soluções para ela e vão reforçar o carácter indigente da governação do país. E parece-me igualmente bizarro que se esteja a hostilizar justamente aquelas organizações que representam a maioria, se não a totalidade, dos sectores da sociedade que mais vão sofrer com as medidas que aí vêm.
Ou seja: no dia 5 de Junho vamos votar um governo inútil, que vai fazer cumprir medidas que os partidos de esquerda foram impedidos sequer de discutir. Partidos que são provocatoriamente levados a não discutir essas medidas, mas que são constituídos na sua quase totalidade, ou mesmo na sua totalidade, pelo sector da população portuguesa que vai ser vítima dessas medidas.
Sentido patriótico e atitude responsável era pois e quanto a mim, procurar nesta altura, a todo o transe, uma solução política digna e alargada de facto a todas as forças partidárias para negociar os termos do acordo com os "troikos", poupando-nos à fantochada das eleições, uma solução que assegurasse um acordo mínimo para uma mudança efectiva e consensual no rumo político do país. Uma solução mobilizadora, activa, sem preconceitos mesquinhos, que garantisse o contributo de todos, segundo as suas responsabilidades e meios, para mais rapidamente sair da crise. Um consenso obtido em sede própria e não forçado à mesa das negociações com entidades alienígenas e por elas condicionado.
De outra forma não penso que venha aí nada de bom para ninguém. E não creio que seja possível deixar sem resposta firme a arrogância e o desrespeito com que estamos a ser tratados.
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