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2015/06/24

Pedir contas

"Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda."

Os Maias (1888), Eça de Queirós


A jornada de solidariedade com a Grécia da passada segunda feira foi um fracasso total.
Uma vergonha, diria mesmo, à semelhança do que se tem passado com outras iniciativas destinadas a protestar contra a loucura neo-liberal que têm sido (mal) organizadas neste país, tenham elas maior ou menor expressão, maior ou menor adesão. Uma vergonha que não conseguiu sequer mobilizar os transeuntes que passavam do outro lado da praça ou os artistas de rua que se exibiam mesmo ali ao lado. Uma vergonha que defrauda as expectativas mais profundas de uma larga maioria de Portugueses que sofre na pele as consequências das políticas desta Europa fascizóide.
São actos que revelam uma total irresponsabilidade e têm consequências desastrosas para a luta política.
É que, este tipo de inciativas, para além de projectar uma imagem deturpada do que significa a solidariedade com o Povo Grego e uma falsa perspectiva sobre as reais consequências que a sua luta tem para a nossa luta, dá argumentos ao governo para insistir nas suas teses políticas sobre a Grécia e, no pólo oposto, dá razão aos fanáticos da organização, que criticam com razão a sua inconsequência, mas se esquecem que a sua "organização" há muito que se transformou em móbil único e é, ela própria, no fundo, inconsequente.
Esta é uma causa que nos diz respeito a todos. Não há fracturas possíveis. A todos, na proporção das suas responsabilidades, é necessário pedir contas sobre o seu papel nesta luta. O que andam, particularmente, a fazer as direcções políticas da oposição em Portugal?

2014/03/18

"Não ao colaboracionismo"

"Houve certamente compromissos e negociações, insistências e cedências. Mas foi possível chegar a um texto comum, onde todos cederam um pouco no menos importante para defender o essencial," escreve José Vítor Malheiros nesta sua crónica intitulada "Não ao colaboracionismo", a propósito do chamado Manifesto dos 40. Recomendo a sua leitura integral.

2014/03/12

Sustentabilidade

Não deixa de ser curioso e não pode deixar de merecer um olhar especial o facto de o Manifesto dos 70, hoje dado a conhecer, ter merecido tão amplo, violento e sincronizado coro de críticas. No noticiário, via Twiter, aqui mesmo do seu lado direito, encontrará artigos vários sobre o assunto.
O primeiro ministro já vai na segunda reacção pública num espaço de poucas horas. Ontem ainda, apressou-se a reagir, antes mesmo de o documento e os seus subscritores serem cabalmente conhecidos. Hoje voltou à carga fazendo voz com a ministra das finanças. Já ontem também, o ministro Maduro tinha vindo ajudar à missa. E hoje veio-se a saber que dois conselheiros do presidente da república tinham subscrito o manifesto, tendo sido imediatamente exonerados com enorme estrondo. Finalmente, a própria Comissão Europeia apressou-se, já hoje também, a dizer que a dívida portuguesa é afinal sustentável. Assim seria se a classe média não estivesse a chegar ao osso. É que o famoso diálogo de Colbert e Mazarin, na peça Le Diable Rouge não passa de ficção.
Registam-se as críticas, surpreendem os silêncios.
Duas conclusões parecem poder, entretanto, tirar-se de tudo isto. Primeiro, na razoabilidade das suas conclusões e simplicidade e clareza das propostas o manifesto fez mossa da grossa. Segundo, há afinal fissuras sérias no poder que agora ficaram expostas e a sangrar.
O manifesto dos 70 constitui um instrumento inegavelmente poderoso e sério e um instrumento real para ajudar a dar um rumo novo à contestação aos ditames de Bruxelas e a este desgraçado e desacreditado governo. Um instrumento que pode permitir ultrapassar os interesses e conluios de uns, as tergiversações, o voluntarismo ultrapassado e inconsequente de outros e a retórica cheia de acne de outros ainda.
Todos eles vão ser agora obrigados a sair da chamada zona de conforto. As propostas do manifesto são claras, simples e podem ter efeitos políticos amplos e devastadores. Nem uma vitória do voto em branco, se fosse viável, conseguiria ir tão longe!
O combate parece já aberto, inevitável e a sua sustentabilidade política parece demonstrada. Vamos é ver quem é que, afinal, estava à altura do confronto.

2013/07/24

O Monge

O novo ministro dos negócios estranhogeiros diz que as críticas que lhe foram dirigidas reflectem "a podridão dos hábitos políticos".
O hábito faz o monge, diz-se. E quem não quer ser monge não lhe veste o hábito.

2013/05/02

De morrer a rir


Há dias, alguém (certamente com sensibilidade delicada e digestões difíceis) me chamava a atenção para o tom "sério" deste blog. É tudo muito reactivo, muito "militante", muito grave, muito solene. A solução, segundo este sujeito, seria o humor. Temos de rir, rematava assertivo.
Pois bem, queres (querem) rir? Aqui vão então umas piadolas e outros tantos motivos para umas gargalhadas fartas.
O actual primeiro ministro submeteu-se ao veredicto popular com um programa que preconizava o contrário do que depois veio a ser executado? Ahahahahahah, é de partir o coco! O primeiro ministro comprometeu-se a nunca invocar as escorregadelas do governo anterior para justificar as suas incapacidades e não fez outra coisa desde que tomou posse? Ahahahahahah, estás a gozar! As metas que o primeiro ministro traçou —mesmo indo contra o seu próprio programa eleitoral— não foram cumpridas? Ahahahahahah, é demais, pára, pára! Passaram mesmo a metas volantes?! Ahahahahahah, assim não! Todos os índices que permitem avaliar a acção governativa demonstram o agravamento da situação que o próprio primeiro ministro considerava grave quando tomou posse? Ahahahahahah, eh pá estou quase a mijar-me a rir! Aqui há anos, uma taxa de desemprego de cerca de um terço da actual provocava a ira dos partidos, o cataclismo social e era motivo para queda imediata do governo? Ahahahahahah, por favor, mais não! E o governo prevê que essa taxa aumente para o ano, com mais 200 000 desempregados a invadir os centros de desemprego? Ahahahahahah, caraças, pára!! E a forma de combater este flagelo, mais os problemas "estruturais" da economia portuguesa, é aquilo que o Álvaro apresentou?! Ahahahahahah, nem me consigo conter! Ou "reestruturar a economia" é diminuir os encargos com a segurança social, despedir à vontade e diminuir o tempo de atribuição do subsídio de desemprego, ou mesmo acabar com ele? Ahahahahahah, ai que não aguento!! E, já agora, deixa-se morrer os velhos, termina-se mais cedo o fim dos doentes terminais, tira-se os remédios aos doentes sem remédio, não vão eles viver demais e locupletar-se com o xanax uma eternidade, e deixa-se os miúdos a cair de fome nas escolas, ou, melhor ainda, fecham-se as escolas, porque assim eles têm fome em casa e fica-lhes (e fica-nos!) mais barato?! Ahahahahahah, essa não!, é de partir o caroço!
Entretanto, a criatura de Belém limpa os cantos da boca, cospe um resto de bolo rei ainda escondido na dentadura, faz um ar de mestre escola e apela ao consenso para que se concebam mais medidas que prolonguem a enrabadela geral e funda de que os portugueses estão a ser vítimas? Ahahahahahah, não, não, não, pronto, já rebentei uma veia a rir!!
É oficial: doravante, aqui, por mim, é só rir!

2013/02/01

Governo B

O que quererá dizer exactamente esta afirmação do PM de que as substituições no governo "não têm dignidade de primeiro plano político?" Significará que estes cargos são menores? Que os novos responsáveis são chumaços que substituem chumaços? Que ser secretário de estado é trivial?
Se não têm dignidade de primeiro plano político para que serve o cargo? Porquê aumentar até o  número destes, confessadamente, quase inúteis? O que pensarão os outros "secretários de estado" de tudo isto?
Qual é então a justificação para que seja o PR a dar-les lhes posse e não o seu chefe de gabinete? E que dizer de um PM que escolhe e chefia um governo de inúteis segundos planos políticos, sem dignidade?

2013/01/11

Portugal em 3D

Conta-se que, quando tiveram lugar as primeiras projecções públicas de cinema, os espectadores fugiam quando viam a imagem de um comboio aproximar-se no ecrã, em "direcção" à plateia. A pouco e pouco a habituação apagou o efeito de surpresa. Com o 3D dos anos 50 procurou-se de novo chocar o espectador. Hoje esta tecnologia, muito mais apurada, permite um efeito ainda mais realista.
Apesar das reacções, as imagens produzidas com a velha tecnologia não passavam de ilusão, mas também o era o 3D dos anos 50 e o poderoso 3D de hoje também não é a realidade. Em qualquer dos casos ilusão é o efeito que se pretende criar. Os Na'vi, de facto, não existem...
Com uma simples câmara movida a corda ou com um sofisticado sistema de objectivas duplas, digital, a filmar em alta resolução, o objectivo é sempre o mesmo: produzir um universo virtual que leve o espectador a criar a ilusão de que está mesmo lá dentro e lhe permite povoá-lo com as ficções que o autor induz.
Em Portugal vivemos neste momento em plena era 3D. O governo e os restantes agentes do poder (todos os agentes das diversas formas de poder!) não precisaram sequer de distribuir óculos especiais à população. Tenta-se fazer os Portugueses comer por bom um universo totalmente artificial, criado com perícia e eficácia é certo, mas que não deixa por isso de ser o que é: uma enorme, uma monumental pantominice.
Repare-se, por exemplo, nisto. Aqui há dias foi dito (e não foi desmentido por ninguém!) que o "negócio do resgate" a Portugal permitiu um rendimento de 57% aos investidores. Uma personalidade qualquer alemã (já não me lembro se do governo ou do BCE) chegou mesmo a confessar que a própria Alemanha tinha lucrado bastante com o tal "resgate". As notícias correram os blogs, as páginas do Facebook e foram "tweetadas" até à exaustão. Quando digo "negócio do resgate" refiro-me àquilo que Passos Coelho e o ministro Gaspar classificaram como uma inevitabilidade, o tal "custe o que custar" que obrigou Portugal inteiro a vergar-se à sua lógica e à sua tirania, provocando uma das maiores catástrofes sociais de que há memória em Portugal.
O negócio foi correndo de vento em popa, mas agora, a malta agita-se... As mentiras destes vigaristas, comissionistas locais da finança agiota que tenta tomar conta dos nossos destinos, são cada vez mais evidentes para o comum dos cidadãos, mesmo daqueles para quem a "política" é tabu. A leviandade e a má fé são cada vez mais evidentes e o cataclismo social está cada vez mais iminente. Passos Coelho perde manifestamente o pé. As comadres zangam-se, as fissuras começam a ver-se. O esquema liberal, neoliberal ou como lhe queiram chamar estala por todo o lado, apesaar dos retoques. O arranjinho está em perigo.
Os "mercados" decidem então desapertar a tarraxa e baixar a taxa de juro das "maturidades" (este jargão é impagável!) a 5 e 10 anos para valores semelhantes aos que tínhamos "no final de 2010". São as novidades de hoje.
Em breve (querem uma aposta?), Coelho virá à televisão ou aproveitará um momento em que lhe estendam pressurosamente os microfones e as câmaras para anunciar, sem contradita, que está mau mas estamos no caminho certo e que os "mercados" reconhecem o esforço de Portugal. E irá dizer que vamos finalmente poder reentrar nos "mercados", graças ao esforço feito. Serão estes "mercados" —onde não estamos, mas onde vamos poder reentrar— os mesmos que acham que estamos no bom caminho e que provocam a baixa do juro do mercado secundário? Ou serão os que lucraram 57% com o resgate português? Mistérios...
Este tipo de contradições multiplica-se ad nauseum. Não parece contraditório, por exemplo, o destino que está a ser dado a este resgate se tivermos em conta as razões que motivaram o seu pedido? Não parecem contraditórias as opções estratégicas tomadas face aos problemas estruturais de que o país padece, tão repetidamente apontados? Não parece contraditório apontar esses problemas, não tomar uma única medida para os solucionar e usar o "resgate" para continuar a promover as causas que levaram ao seu aparecimento?
Os deuses não sorriem a Passos Coelho e parece claro que são cada vez mais os que topam a mentira. O negócio parece pois estar em perigo. Há que, pensarão os mercados, dar alguma folga para não o perder. O governo esclarece-nos que é tudo consequência do nosso bom comportamento. Mas, a verdade é que tudo isto não passa de um escandaloso acto de prestidigitação, ao lado do qual aquele truque do desaparecimento do Boeing parece brincadeira de amadores.
Os portugueses olham atónitos e horrorizados para tudo isto. E muitos vêem um ministro exibir o bronze de Copacabana enquanto procuram a marmita há muito esquecida no fundo da despensa e recolhem cartão para fazer a cama.
Portugal. Em 3D. Sem óculos e sem vaselina.

2012/12/19

Ignomínia!

Vale a pena ver este video publicado no 5 Dias por Raquel Varela. Vejam, vejam e digam lá se ainda é preciso promover debates sobre o que cabe ou não ao Estado fazer, quem paga o quê, e onde se vão buscar os fundos. Vejam, vejam e digam se haverá dúvidas sobre o futuro que esta quadrilha, que nos levou até aqui, nos preparou. Vamos deixar continuar o massacre, em nome desta "estabilidade política" e desta "imagem para o exterior" para "apaziguar mercados" com que o tentam mascarar...?
Aviso prévio: antes de ver tome uma daquelas pílulas para revestir o estômago...


2012/12/14

Bullying: você defendê-lo-ia?


É uma prática que parece merecer reprovação generalizada. Até os meninos da JSD colocaram um cartaz, aqui à porta da escola da minha terra, a condenar o bullying.
Reproduzo da Wikipédia: "bullying: termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (do inglês bully, tiranete ou valentão) ou grupo de indivíduos causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder."
O bullying é uma prática abjecta que saiu dos seus locais habituais, das escolas e dos locais de trabalho. Agora é prática política. Nem mais nem menos: o governo pratica bullying contra o povo português.
Se o leitor procurar entender o que é o fenómeno do bullying, se estudar as suas características, tal como são definidas pelos peritos que estudam este assunto, se analisar as justificações para a sua punição exemplar vai perceber a razão pela qual digo isto, está lá tudo.
O governo instituiu o povo português como vítima para os seus insultos; acusa a vítima de ter pouco préstimo; ataca-a fisicamente; ataca e interfere com a sua propriedade; espalha rumores negativos a seu respeito; deprecia a vítima sem motivo; obriga a que esta faça o que ela não quer, ameaçando-a para que siga as suas ordens; coloca a vítima em situação problemática com alguém (normalmente uma autoridade), forçando uma acção disciplinar contra a vítima por algo que não cometeu ou foi por si exagerado; faz comentários depreciativos sobre a vítima, sobre as suas características e carácter; isola a vítima socialmente; exerce chantagem; profere sobre ela afirmações depreciativas; faz com que a vítima passe vergonhas em frente dos outros, etc..
Em suma, institui um clima agressivo e de medo permanente, forçando a vítima (nós todos!) a seguir os seus pérfidos desígnios, numa relação desigual de poder.
Não se fique apenas pela leitura das minhas palavras, procure informar-se a fundo sobre o assunto. Se está a ler este texto, tem acesso aos meios para saber mais sobre o tema.
Tendo o comportamento deste governo como pano de fundo, faça a comparação. Recorde-se do discurso do governo, passe em revista os meios e expedientes usados para instituir este discurso e tire as suas conclusões.
Lembre-se de que o bullying é objecto de legislação que criminaliza o acto. Diga lá então se haverá ou não motivo para julgar este governo por esse crime?
O governo Passos Coelho não passa de um bando de bullies a exigir correctivo urgente.

2012/10/10

Rigor científico

Todos os ex-presidentes da república se têm pronunciado contra o estado actual da governação, condenando-a de forma explícita. Ao fazê-lo, está também implícita uma crítica unânime à actuação do actual PR. Se tomarmos estas críticas pelo seu valor facial, a análise destes três personagens, digna da maior atenção, é certeira e demolidora.
Eanes diz que "um país que se preza não deixa cidadãos em dificuldades," acrescentando em jeito de alerta que "quando não há unidade num país, os homens passam muito rapidamente da resignação à indignação."
Sampaio faz notar que "se não se conseguir ver a luz ao fundo do túnel, a esperança desaparece, há pessoas dispostas a acreditar em tudo, e é por isso que os extremismos estão a florescer," advertindo ainda, cauteloso, que a "austeridade excessiva pode prejudicar terrivelmente a democracia."
Mário Soares, por seu lado, afirma que "o Governo está moribundo e ninguém o toma a sério. Nem os empresários nem os trabalhadores. Nem gente do Povo nem intelectuais, professores ou cientistas." 
Pelos vistos, nem todos os cientistas pensam assim. Manuel Villaverde Cabral, por exemplo, acha que não. Na sua opinião, as críticas dos presidentes são "populistas" e servem apenas para "afagar o ego daqueles que viram os seus rendimentos diminuir." Porque é que não tentamos ajudar o governo," pergunta, espantado, o sociólogo, já que tudo por que passamos neste momento é fatal e a solução está fora do nosso alcance? Por que é que não ajudamos o governo, se ultimamente ele até conseguiu uma extensão do período de pagamento, sem aumento do juro?
De facto, "por que é que não ajudamos o governo?" Ora aí está uma boa pergunta para o sociólogo responder em vez de fazer perguntas que, longe de credibilizarem o rigor do cientista, mais indiciam um raciocínio fatalmente esclerosado?

2012/10/04

Querer e poder

Os analistas fizeram as contas e a conclusão parece ser unânime: o novo pacote, ontem anunciado pelo ministro Gaspar, mantém e agrava mesmo a desigualdade na divisão do esforço de recuperação da bagunça financeira do país.
O povo rejeitou a "solução" da TSU. Em resposta o governo apresenta um conjunto de medidas mais abrangente e ainda mais gravoso para a vida dos portugueses. A incoerência é manifesta, o embuste é total, a provocação é clara.
O povo tomou, entretanto, plena consciência de todas estas realidades. Colectivamente, algo fez "clique!" Não há retrocesso possível. O governo, porém, continua a agir como se o calendário marcasse ainda 14 de Setembro.
O povo não quer esta austeridade, o governo não quer outra austeridade. O conflito de interesses não oferece dúvida. O embate é inevitável.
Querer é poder, mas o poder reside e vai sempre residir no povo. Adivinhem quem é que vai então sair mal deste confronto...

2012/09/16

Point of no return?

Foi bonita a festa (pá), ouvia-se dizer ontem na praça de Espanha.
Foi, mas não chega.
Da mesma forma que a democracia não se esgota na representatividade parlamentar, também a democracia participativa não se esgota em manifestações, por muita gente e palavras de ordem que estas tenham.
Sim, é preciso correr com estes vendilhões do templo, que não olham a meios para atingir os seus fins, ainda que no fim só venham a restar zombies incapazes de resistir seja ao que for.  Para correr com eles (porque são muitos e usam diversas máscaras) todos os meios legais  são lícitos, pois os últimos 38 anos mostraram que não aprendemos nada. A prova é que continuamos a votar nos partidos que, alternadamente, vão espoliando o pais e empobrecendo a população, enquanto defendem os interesses (nacionais e estrangeiros) daqueles que sempre viveram à custa do estado e da exploração sistemática de quem trabalha e quem desconta para os sustentar.
A manifestação de ontem, como aquela que reuniu centenas de milhares de manifestantes no dia 12 de Março de 2011, foi boa (muito boa), na medida em que as pessoas ousaram descer á rua e dizer “basta!”. Podem não saber o que querem, mas começam a saber o que não querem. É um princípio. Por algum lado temos de começar.
Mas, não devemos ter ilusões. Não é por gritar “que se lixe a troika!” que esta se vai embora. Veja-se a Grécia, onde a população desce às ruas todas as semanas sem que as medidas de austeridade diminuam. Qual é o limite? Das medidas e da resistência. Estas são as questões.
Cavaco Silva já percebeu a mensagem e, impedido como está de se pronunciar devido à imagem negativa que o persegue, mandou Manuela Ferreira Leite avisar o governo. Esta, que nunca escondeu o desprezo pelo jovem Passos, encarregou-se na perfeição da mensagem, Fê-lo tão bem que conseguiu unir toda a gente (da esquerda à direita) contra o jovem turco. E o resultado está à vista: 40 cidades portuguesas vieram à rua manifestar-se contra este governo. É obra!
Segue-se o segundo acto. Perante o descrédito do regime, Cavaco convocou o “Conselho de Estado”. Basta olhar para a sua constituição (ex-presidentes na reforma, comentadores de televisão, economistas da moda e neurocirurgiões da ribalta) para não ter ilusões. Para dar um ar de democracia (e fazer o contraditório) convidou o Gaspar.
A estratégia é clara: é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.
Até é possível que perante a derrocada da receita da Troika, o governo tenda a inflectir de estratégia. Talvez até saia o Relvas, ou mesmo o Gaspar...
Mas, será que mudará alguma coisa na forma como os peões internos da Troika vão abordar a crise portuguesa, eles que apenas estão interessados em que paguemos aos credores e em desregular o mercado de trabalho interno para dessa forma nos tornar mais submissos? Não. Não vai mudar nada de essencial. É por isso que a manifestação de ontem não nos deve iludir.
A manifestação foi um acto de cidadania e, nesse sentido, um ponto de não-retorno. Nada será como dantes, a partir de agora. Mas, os representantes do “centrão” continuarão lá e a defender os seus interesses. Ora os seus interesses, não são necessariamente os nossos. E é nesta dialéctica de contradições que nos devemos fixar, com o risco de nos fixarmos demasiado na árvore e perdermos a floresta de vista.

2012/09/13

Do triunfo dos velhos ao fracasso da oposição

Há muitas conclusões a tirar dos acontecimentos dos últimos dias. Deixem-me referir um acontecimento em particular -a entrevista de Manuela Ferreira Leite- e duas ou três conclusões que dela se podem tirar. Haveria muito mais, seguramente, a referir, mas as minhas limitações de acesso à net neste momento obrigam-me a ser económico.
Desde há tempos que se ouve muita gente sugerir que apenas um acontecimento excepcional poderia tirar os portugueses deste estado letárgico em que se encontram, com Coelho, Portas, Gaspar & Troika Lda. a desferir golpe atrás de golpe, sem que se perceba uma reacção, sem um sinal vital a manifestar-se.
Pois bem, o acontecimento excepcional aí está: Manuela Ferreira Leite abriu o livro e Coelho ficou de repente a ver os dias contados.
Não disse nada de novo nem apontou saídas, é certo. Usou argumentos que há anos os mais atentos vêm repetindo sem cessar. Foi a voz do senso comum. Usou argumentos a que as oposições poderiam ter já há muito dado conveniente expressão política. Argumentos que as oposições têm usado, quando as usam, sem um milionésimo da eficiência. Leu tão bem o momento que até quase se situou na cabeça da manif de 15/9.
O certo é que depois do que disse Ferreira Leite, Coelho e o seu gang podem começar a fazer as malas. A porta da rua desencravou-se. É uma questão de tempo.
A intervenção de M. F. Leite mostra ainda outra coisa: a janela de consenso político em Portugal é afinal mais ampla do que se supõe. Haja democratas! Se calhar é mesmo esse o problema...
O que impede esse consenso é matéria de reflexão para todos nós. Temos todos culpas no cartório, mas o preço que estamos a ter de pagar para perceber tudo isto era escusado.
A solução dos problemas que afligem o País não vem nem virá das palavras de M. F. Leite. Mas não deixa de me parecer irónico que tenha sido a criatura que queria enterrar os velhos mais cedo e admitia a suspensão da democracia que talvez tenha tido um inesperado papel na sua salvação.
Passos Coelho, entretanto, se precisares de alguém para te ajudar a fechar a mala, escreve aqui para o Face.

2012/09/08

V de verme

foto Valter Abrucez
Não vou perder tempo com o conteúdo do anúncio feito ontem pelo PM. Não vou manifestar a minha incredulidade face à cronologia e ao horário e a esta tentativa patética de fazer de todos nós parvos. Não vou referir os comentários prévios do PR, nem especular sobre a sua reacção, que perante eles se espera, quando se tratar de aprovar o OE2013. Não vou falar das contradições recorrentes, dos atropelos, da incompetência, da mentira, do carácter rasteiro, nojento e classista de toda esta governação. Não vou alongar-me sobre o exemplo de experiências passadas que remeteram outros personagens, bem mais ingénuas afinal, para a mais pura marginalidade política. Não vou sequer lembrar a questão central: esta imperdoável desonestidade que consiste em propor ao eleitorado um determinado programa, ganhar com ele as eleições e depois executar um programa totalmente do avesso, como ontem ficou mais uma vez demonstrado.
Não, o que me intrigou foi ouvir aquele "meus caros portugueses" (ora leia aqui), com que pontuou a sua homilia de ontem. Quando o ouvi dizer aquilo pensei: "meu?" Eu sou "dele"? "Caro?" Como poderei ser "dele," como poderei eu ser-lhe "caro" e, ao mesmo tempo, como pode ele fazer-me, fazer-nos, uma desfeita destas? Aquilo soava-me estranho.
Depois percebi. Momentos antes, em tom de "tem que ser, sou eu que mando" o doutor Coelho tinha feito uma dessas pontuações com um formal, autoritário e assertivo "Portugueses." Momentos mais tarde, muda o registo, hesita e parece tentar amenizar o discurso, introduzindo nele um tom mais tu-cá-tu-lá. Caros, meus!?
Uma interpretação possível é a do português Coelho se comportar como um qualquer dignitário estrangeiro, de visita, a tentar defender os seus interesses. O premier chinês ou o presidente angolano, de visita a Portugal para inspeccionar a colónia, usariam porventura a fórmula "meus caros portugueses"... Do PM português  perceberia "meus caros concidadãos," admito o institucional "Portugueses," mas, "meus caros portugueses"? Por que se permite este safardana tais familiaridades?
Seja como for, nem quando pretende soar assertivo e institucional nem quando pretende fazer o número do buddy-buddy, Coelho convence. O que me intriga em tudo isto é ouvir, como ouvimos ontem, no meio de muita gente irada, é certo, gente que ainda defende esta política e culpa o anterior governo pela situação actual.
Esta gente esquece que o primeiro ministro disse, ele próprio, que não se iria escudar nesses argumentos. Esquece que o problema a resolver é a situação do país, não as culpas do actual anterior governo. Esquece que a situação do país está pior do que estava antes.
São eles o sustentáculo destes miseráveis, é a esses vermes, que cada vez mais me incomodam, que devemos, nesta altura, pedir contas.

2012/08/31

É uma crença...

O desemprego continua a aumentar e as contas públicas continuam a derrapar. Apesar deste duplo  massacre a que os portugueses têm estado a ser sujeitos (verem a precariedade do emprego a aumentar em nome da resolução de um problema de défice que, contudo, se agrava) não se perspectiva qualquer solução para o País no horizonte.
Esta política está errada, baseia-se em contradições insanáveis e nunca poderia resultar. Só os estúpidos acreditam ainda nela.
Este é, seguramente, o governo mais incompetente desde o 25A. Incompetente na escolha das políticas e incompetente na sua execução. E dizer que este governo é o mais incompetente de todos é obra, porque já tivemos ao longo dos anos a nossa farta dose de governos incompetentes.
Este é também o governo que procura transformar a incompetência em fé. A ministra do vodoo, certamente depois da executar a dança apropriada, aceditava que a chuva acabaria por cair. Agora o secretário de estado do emprego acredita que o desemprego vai estabilizar. O primeiro ministro, recorde-se, acredita que a retoma está para breve.
O problema é que também há portugueses que acreditam. A fé, sabêmo-lo todos, move montanhas, mesmo contra a evidência dos resultados, mesmo que a montanha permaneça de facto imóvel há quem acredite que está a mover-se. Muitos portugueses acreditam que esta é a via certa. Passando ao lado de toda a experiência passada, apoiam este tipo de  políticas. Contrariando as mais elementares normas de prudência e bom senso, que exigem no entanto dos outros, continuam a dar o seu precioso aval a este governo.
Está na hora de pedir contas a estes portugueses.