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2015/11/08

Tautau

"Caíram as máscaras" é uma das frases mais fortes que li nestes últimos tempos, passo interessante neste processo de extinção do regime instituído pelo golpe de 25 de novembro. Passos Coelho, o epítome do mascarado, vai ficar, em curta nota de rodapé da História, como o homem que colocou o ponto final neste período.
Aparentemente surpreendidos, mas claramente embaraçados, num primeiro tempo até nos mais experimentados dos mascarados se notou um indisfarçável esgar de pânico. 
Momentaneamente recompostos, os mascarados tentam agora apanhar e recolocar as máscaras caídas. Mas é aqui que surge a surpresa.
Comentadores, actuais e ex-governantes, moços de recado e jornalistas de turno tentam, em desespero e enquanto mostram finalmente o rosto, recolocar a máscara tombada.
Ouvimos coisas espantosas, ditas com enorme convicção, como esta, por exemplo, de que a coligação de esquerda, vá-se lá saber por que desígnio perverso, se fez para se apoderar do poder ou esta outra supreendente premonição, lançada em registo grave a lembrar um shaman em estado de transe, de que o governo que vai emanar do acordo de esquerda vai governar para as eleições. 
Ou seja, os mascarados tentam agora colocar as máscaras... nos seus adversários. São eles, eram eles, sempre foram eles, afinal, os mascarados! 
Obrigado por estes momentos de stand up comedy, obrigado por esta tentativa de amenizar e de dar um ar "normal" a tudo isto. 
Mas não se livram do tautau...

2014/10/31

De que é que está tudo à espera?

Estou 100% de acordo com este texto do Sérgio Lavos. Ocorrem-me várias perguntas, contudo. Em primeiro lugar, o que raio aconteceu para este Passos Coelho ter ganho o poder que ganhou? Qual foi, de facto, a causa do aparecimento e do protagonismo que ganharam estes "Passos Coelhos" todos? O que segura a tribo dos "Passos Coelhos"? Quem foi, ou melhor, quem foram os dr. Jekills que criaram estes mr. Hydes? Como exterminá-los a todos? Quem está, de facto, de acordo em exterminá-los e quem é que afinal gosta e a quem é que dá jeito a indigência mental de Passos Coelho? Será assim tão difícil remeter este bandalho e os seus apaniguados para a sua verdadeira dimensão? De que é que está tudo verdadeiramente à espera?

2013/09/14

Quantos funcionários públicos, exactamente, temos a mais?

Quantos funcionários públicos há a mais em Portugal? 12, 129, 4327, 100 539? Digo-vos um segredo aqui ao ouvido: ninguém sabe. Em que estudos se baseiam aqueles que proclamam com ar, muitas vezes, convicto que "temos funcionários públicos a mais"? Adianto-vos, em primeira mão, um outro segredo: não há um único estudo fidedigno, sério, isento.
Por que razão volta então agora o assunto à baila?
Que a administração pública foi durante anos e anos uma forma que o país encontrou para "controlar" o problema do emprego e disfarçar a crónica ausência de programas sólidos de desenvolvimento da economia; que este expediente foi usado por todos os administradores públicos, de Salazar até Passos Coelho; que o Estado inventou funções sem qualquer espécie de justificação ou sustentabilidade para engrossar os quadros de funcionários públicos, disso não tenho a mínima dúvida. Que nenhum, nem um!, funcionário público entrou por uma repartição dentro, se sentou a uma secretária, começou a exercer funções por sua alta recreação e ingressou finalmente nos quadros, disso também não me resta qualquer dúvida. 
Por outro lado, sei que cabe ao Estado exercer a Justiça em sentido lato. Cabe ao conjunto da sociedade e, portanto, ao Estado como seu delegado executivo, produzir um conjunto de tarefas que, só assim executadas, poderão garantir Justiça e assegurar equilíbrio social. Se temos funcionários a mais a executá-las ou não, não sei. Mas, sei que é ao Estado que cabe executar certas tarefas porque elas não poderão nunca ser transformadas em negócio, porque não podemos ficar cativos da "iniciativa privada" se as queremos ver executadas e porque, se for a tal iniciaitiva privada a executá-las, o desígnio do lucro vai transformar a sua natureza e cavar desequilíbrios sociais. A sociedade humana caminha no sentido de um cada vez maior equilíbrio social. Contrariar isto é voltar à barbárie.
Agora que, a propósito do ataque em marcha contra os funcionários públicos, volta a conversa do "temos funcionários a mais," vou cismando se esta direita revanchista -que actua, de facto, como um banal bando de ladrões de estrada sempre que toma conta do poder em Portugal- pretende, como diz, tornar mais ágil e eficiente a função pública ou voltar à barbárie, cavando (mais) uma divisão artificial entre portugueses, pondo trabalhadores do sector público e privado em confronto e camuflando, assim, um ataque final às conquistas dos trabalhadores portugueses e a uma aproximação cada vez maior desta Justiça de que falo.
Quando ouço alguém que vive da remuneração do seu trabalho repetir a "verdade" nunca provada de que temos funcionários públicos a mais (versão do dia do "gastámos acima das nossas possibilidades") lembro-me de Maiakovski e daquele seu poema "E Não Sobrou Ninguém," rescrito por Brecht, Niemöller e outros. E apetece-me fazer a minha própria versão. 
Primeiro atacaram os pensionistas e aposentados, mas eu não liguei porque não sou nem uma coisa nem outra. Depois "requalificaram" os trabalhadores da função pública, mas eu não liguei porque trabalho na privada. Depois começaram a "requalificar" também trabalhadores do sector privado, mas como eu mantive o meu emprego não me coloquei, como devia, ao seu lado. Agora despediram-me a mim, mas já não sobra mais ninguém para me defender...

2013/08/09

Pergunta de fim de semana...

Deixo a pergunta no ar: qual é a linha que une os swaps, o Rossio, a Rua da Betesga, o OE 2014, o BPN, Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas, Gaspares, Albuquercas, Jorges e as minhocas?


2013/08/03

A crise é uma oportunidade...

Quem o disse foi o PM. E da reciclagem do indigente Relvas resultou um "Alto Comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa," como revelou nesta quinta-feira o jornal i.
Pela boca morre o peixe, mas pela língua ressuscita o Relvas.
Qual será exactamente a função do ex-ministro? Agente do Linguado? Embaixador Linguareiro? Facilitador de Línguas? Director do Linguajar? Língua estufada? Capo Linguista, Emérito & Jubilado? Destorcedor de línguas bífidas? 
E o novo organismo, em construção? Irá chamar-se Relvas, Promoção da Língua Portuguesa, Unipessoal? Relvas Rent-a-Línguas? Relvas, Indústrias Criativas?
A palavra ao senhor Primeiro Ministro.

2013/07/03

(Muitas) dúvidas

Os acontecimentos das últimas horas trouxeram-nos um coro de pequenos cantores –moralistas de ocasião, uns, apoiantes e promotores até das políticas do láparo, outros, amnésicos, outros ainda– a gritar contra o "mal" que a coligação está agora a fazer ao país. É um coro já com os naipes todos de vozes preenchidos. Exibem um ar compungido como se não tivessem nada a ver com isto.
A pergunta que tenho inevitavelmente de fazer é a seguinte: que credibilidade tinha afinal a política que estes animais, que não hesitam em provocar nesta altura este triste espectáculo, decidiram seguir, da forma obstinada, traiçoeira, fria, incompetente, canhestra, criminosa até, que todos pudemos e podemos sentir? Será que quem é capaz de lançar o caos que agora presenciamos, será que quem é capaz de suscitar a angústia que muitos hoje sentem ao verem as "inevitabilidades" do Coelho transformarem-se nisto, poderia jamais ter um programa credível para o País? Em suma: é possível aceitar que quem tem este comportamento pudesse alguma vez ter ideias virtuosas para o País?
Será que, por outro lado, quem faz isto agora poderia, logo à partida, estar à altura das responsabilidades que se propôs assumir?
E, já agora, permitam-me deixá-los com mais duas perguntas e outras tantas dúvidas. O que vai acontecer às reformas necessárias a partir deste momento? E quem estará disposto a fazê-las? Quem terá o talento para as fazer e limpar, ao mesmo tempo, os estragos entretanto provocados, depois dos resultados vergonhosos que o governo de Passos Coelho, com o beneplácito do presidente Cavaco Silva, obteve?
Não terá a prestação vergonhosa de Passos Coelho, com o beneplácito de Cavaco Silva, comprometido definitivamente quaisquer alterações necessárias no futuro? Como pedir-lhes contas?

2013/06/26

Trabalho, sim...

Um primeiro ministro que opta por dizer "que o país precisa menos de greves e mais de trabalho" já perdeu definitivamente o tino. É uma observação reles, cruel mesmo, de uma criatura sem dimensão.
Mas, sim, é um facto: o País precisa de mais trabalho. Nisso, está V. Exa. completamente certo.
Por agora contentamo-nos com o muito trabalho que nos está a dar mandá-lo para o lugar que merece. Mas há-de ir!

2013/05/22

Olho por olho

Já não serão assim tão poucos os Portugueses que morreram em consequência directa ou indirecta das políticas do actual governo, chefiado por Passos Coelho. São mortes autoinfligidas ou potenciadas pela leviandade, pelas carências, pelos maus tratos, pela angústia e pelo stress que resultam da política de  "inevitabilidades" deste governo. Outros estão condenados a uma agonia mais lenta, e irão, do mesmo modo, acabar por sofrer, em slow motion, as consequências desta política. Querem sobreviver, mas vão asfixiar, devagarinho, impotentes.

Os Portugueses não votaram neste grupo de coveiros sádicos. Votaram para que do seu voto saísse um governo que está obrigado constitucionalmente a "promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais."

Não tenho razoes científicas para justificar estas minhas previsões. É a intuição e a experiência própria que me levam a tirar estas conclusões. Conhecer a verdade sobre tudo isto será tarefa para os futuros investigadores da demografia histórica. Para nós, por enquanto, nós que estamos a viver a hecatombe, resta-nos lutar para que o pesadelo acabe o mais depressa possível e o curso da história seja mudado.

Segundo o jornal i de hoje, o pai de Passos Coelho assegura que o filho “está morto por se ver livre disto.” Se houvesse mesmo justiça, tendo em conta o que ficou dito acima, Passos Coelho deveria antes estar morto por nos ter metido "nisto..."

2013/04/07

Um fim triste

Ficou hoje definitivamente claro que os portugueses são uma chatice para o Primeiro Ministro de Portugal. Ao dizer o que disse e ao usar o tom que todos pudemos testemunhar, Passos Coelho declarou-nos guerra e esta só pode ter um desfecho. É que nós somos mais do que ele.
Esta intervenção de hoje é, para além do mais, feita no registo da oração fúnebre de Relvas. O tom auto laudatório e, sobretudo, o alijar responsabilidades (a culpa para o Primeiro Ministro é sempre dos outros) têm a marca do amigo e sócio. E vejam o que acabou por lhe acontecer...

2012/10/29

Essa coisa da Refundação

Desde que ontem, no decorrer das jornadas parlamentares do PSD, o primeiro-ministro lançou o repto ao PS para Refundar o programa do Memorando em curso, que os analistas de todos os quadrantes se desdobram em interpretações sobre o significado da coisa.
Mas, afinal, o que quer “refundar” Passos?
Admitindo que, como aprendemos, “refundir” significa “tornar a fundir; transvasar; transformar profundamente; mudar a forma a; refazer, reunir-se, derreter-se; sumir-se; transformar-se, derramar de novo (Diccionário Porto Editora, 6º edição), temos de concordar que as interpretações abundam.
Avanço três:
1) Passos Coelho  já percebeu que se estampou e que não há saída para o buraco onde estamos metidos. A continuação deste programa de ajustamento vai conduzir o pais para um abismo sem fundo e, neste quadro, o primeiro-ministro lança mão da  última possibilidade de ter aliados nesta estratégia. Com o PS, pode dividir as culpas e manter uma parte da população mais calma.
2) Passos Coelho, aconselhado por outrem (Ângelo Correia, o PR, Gaspar?) lança mão de um aliado que lhe pode dar a almejada maioria parlamentar, única forma  de mudar a Constituição, o último obstáculo à implementação da receita do FMI.
3) Passos Coelho, prevendo a queda do governo - seja por demissão, seja por iniciativa presidencial - tenta uma saída airosa para o programa de ajustamento, ainda que ele já não seja parte da solução.
Seja qual for o cenário, e outros haverá que não passam necessariamente pela patética figura do primeiro-ministro, uma coisa parece certa: ninguém acredita que este programa de ajustamento vai resultar pelo que continuar a aplicá-lo só por insanidade ou má-fé. Já vimos que a insanidade é uma característica de alguns membros deste governo. Mas, para mim, há um perigo maior: as pessoas que estão a aplicar este programa não são todas necessariamente doentes ou incompetentes. Não, eles (Gaspar, Borges, Macedo) são altos quadros qualificados em instituições internacionais, onde se ensina esta cartilha. Uma cartilha que exige a “refundação” da sociedade, única forma de começar de novo, segundo um novo modelo: um modelo onde não exista um estado social e onde os trabalhadores sejam de tal forma subservientes que qualquer ajustamento possa ser aplicado sem resistência da maior parte da população. As minorias contestatárias serão isoladas e castigadas de acordo com a nova democracia musculada.
É esta a “refundação” que nos é proposta. Também lhe podemos chamar outra coisa: “refodação”, de  refodido, um termo que se aplica a quem já foi fodido uma vez.

2012/10/12

O que está em causa


Uns chamam-lhe marretada, bomba, bomba relógio, bomba atómica, massacre, saque, roubo, assalto, à mão armada ou não, conforme as versões, tsunami, terramoto, carga policial, terrorismo de impostos! Outros (alguns até saídos dos meandros do governo e dos partidos que o compõem), concordando, dizem que é tudo isto, sim senhor, mas por culpa dos socialistas. É por culpa dos socialistas que a coligação PSD/CDS (que disse que nunca culparia governos anteriores) nos vem agora cortar nos serviços para os quais descontámos já com os nossos impostos e deduções —apoios sociais, saúde, educação, justiça, cultura, etc— e é por culpa deles que, se queremos usufruir do que pagámos, teremos de pagar agora mais.
Dizem que é pelo facto de os socialistas terem gastado à tripa forra que agora "temos" de pagar mais e mais e ter menos e menos.
Será, mas outros explicam entretanto que, ao fazer tudo isto, a situação vai piorar, ou seja, vamos ficar sem o pouco que temos, nos custou já tão caro, pagar mais, e, simultanenamente, vamos perder mais empregos, vamos ficar a ver a recessão aumentar, vamos ficar a ver o que na origem era um problema com uma qualquer solução, transformar-se num problema irremediavelmente insolucionável. Vamos também ficar a ver  que, depois disto, depois de ficarem sem direito ao Estado para o qual contribuiram, os poucos que restarem deste processo vão ter de pagar ainda mais, não para resolver os problemas, mas para não terem solução.
Ouvimos falar do OE2013 (é disso que tenho estado a tratar) e, dizem outros, finalmente, que não há onde ir buscar mais dinheiro. Não há forma de pagar a dívida indo buscar apenas dinheiro à despesa. As instituições estrangeiras avisam que assim é: por aí a coisa não vai lá. Segundo podemos ler, de facto, no OE prevê-se que na renegociação das PPP, por exemplo, se irá recolher 200 milhões de euros... Pouco mais do que um simples jackpot do Euromilhões em dia mais gordo. Assim, de facto, a coisa não vai lá.
O primeiro ministro fica enxofrado quando lhe chamam ladrão. Terá razão, coitado. Acho, contudo, que, para evitar mal entendidos, estava na hora de ele explicar —muito devagar e sem perder a compostura que o cargo lhe exige— todo este absurdo, antes que o povo o conduza ao cadafalso.
Porque é isso que está mesmo em causa. Não vá ele ter dúvidas...

2012/09/24

Confiança

Muita gente, muita gente sem partido, politicamente adormecida e aparentemente indiferente, se dá conta agora que tudo isto resvalou para um problema cuja resolução implica mais do que remendos legislativos e "toques" nos diplomas. O problema está no próprio regime. A crise é mais funda. O problema não é a TSU, o problema não é de mais ou menos impostos. O problema não é, sequer, o da total ausência de medidas "estruturais," de horizontes, de perspectivas de desenvolvimento. O problema é o próprio regime e a confiança que as instituições e qualquer dos políticos actuais merecem ao comum dos cidadãos.
A pergunta que toda a gente faz, independentemente da tendência política ou da falta de inclinação para a política, independentemente de andarem a gritar contra este regime desde há muito ou apenas desde o passado dia 15, independentemente de fazerem ou não parte do grupo dos "idiotas" do poema de Brecht que se gabaram durante tanto tempo de não se interessarem por política e, mesmo, de não terem contribuído, por falta de comparência, para a situação actual (afinal tudo é, como dizia o Brecht nesse poema, político e afinal o lixo lançado para o baldio acaba à nossa porta), a pergunta que toda a gente faz é esta: mesmo que fosse legítimo, mesmo que fosse inevitável, de facto, o massacre de que são vítimas os portugueses neste momento, o que vem a seguir? Isto porque as causas de tudo o que se passa e as justificações para o massacre continuam obscuras e, certamente, ipso facto, a sua eventual "correcção", parece hoje claramente, servir apenas para manter tudo na mesma, logo teríamos, na melhor das hipóteses, soluções com maturidade reduzida (para usar terminologia do inimigo...). E depois?
O problema é, pois, outro. Trata-se de um problema de confiança. Por mais saltos mortais que qualquer dos actuais e passados responsáveis políticos dêem, por mais malabarismos que façam, por mais coelhos que saiam da cartola (no sentido literal e metafórico da expressão...), por mais discursos que produzam, mais ou menos dourados, mais ou menos realistas, mais ou menos patetas, mais ou menos insultuosos para a generalidade do povo português, por mais que tentem, os bonzos do regime, o poder  e os serventuários do poder estão totalmente desacreditados. Ninguém acredita em nada e ninguém acredita em ninguém —perdoem-me as duplas negativas— ligado a este poder. Quando digo ninguém, quero dizer isso mesmo: a desconfiança é total nas pessoas, nas instituições e nos valores que dizem defender e servir. Tudo parece uma ilusão. Parece que vivemos numa fantasia de Walt Disney.
Ninguém acredita em Passos Coelho, este aldrabão que começou por dizer uma coisa e acabou a fazer outra. Ninguém acredita em Gaspar. Que mente tortuosa se esconde por detrás daquela conversa flácida? Ninguém acredita no Portas, o rei da baderna! Quem acredita na Assunção da Fé? Quem acredita na Conjectura de Crato? E, claro, ninguém acredita no Relvas das equivalências, no Macedo das fábulas ou no Álvaro (quem?). Os outros nem sequer para anedota, infelizmente servem. Ninguém acredita na AR, que se sabe, por factos, ser hoje uma agência de gestão de activos. Ninguém acredita no Conselho de Estado (onde, como alguém dizia, apenas o Lobo Antunes se safa de ter as mãos sujas de sangue por ser cirurgião...). E ninguém acredita, desgraçadamente, neste Presidente da República! Como acreditar em Cavaco Silva?! E como era importante acreditar no Presidente da República.
O problema não é de fé, mas é de acreditar.
Muita gente, dizia eu, depois de um click qualquer que se produziu, sem grandes explicações, na nossa sociedade, poderá perceber agora o verdadeiro e profundo significado da expressão "há mais vida para além do défice." É preciso redefinir o regime e reconquistar a confiaça. Sem isso os problemas, nenhum problema, estes que temos entre mãos ou outros que apareçam no futuro, se resolvem.
Mas, muita gente está também assustada porque percebe, finalmente, que desenvolvimento e democracia caminham sempre de mãos dadas e não podem largá-las nem por um momento. A tarefa afinal é bem mais complicada e trabalhosa, e exige mais dos treinadores de bancada .
Também eu estou assustado porque não percebo se toda a gente percebeu que está na altura de agir, está na altura de colocar no contentor velhos dogmas, está na altura de procurar entendimentos e consensos, de assumir claramente as diferenças, tirando partido das semelhanças. Do respeito pelas diferenças entre os semelhantes e pelas semelhanças entre os diferentes nasce a confiança e a possibilidade de entendimentos.
Será que todos os indignados percebem que, depois de perceberem isto, será então altura de dar expressão política e institucional a toda essa acção? Será que estão à altura do momento? Será que os indignados percebem isto?
Está na hora de confiar, usando critérios muito mais apertados para estabelecer os padrões de confiança.

2012/09/17

Desenrascanços

Os portugueses são os reis do improviso. Uma qualidade muito apreciada nos principais países de acolhimento da emigração portuguesa, onde o aperto das regras faz por vezes passar ao lado da solução simples e óbvia dos problemas. O desenrascanço português surge assim como uma mais valia que por vezes dá jeito e proporciona admiração pela espécie lusa.
McGyver, por exemplo era afinal (sabemo-lo agora) português, mas os produtores da série omitiram durante anos esse facto...
O desenrascanço é, como disse, útil... quando as coisas estão organizadas. Quando essa organização falta, o desenrascanço não é solução para o problema, é um problema para a solução.
Percebe-se que a este governo falta essa organização base, sobre a qual a arte do desenrascanço pode ser praticada com vantagem. Eles bem tentam dar imagem de organização e seriedade, mas há muito que se percebeu que este governo é um enorme bluff.
Ficámos há pouco a saber que a Comissão Europeia condiciona o desbloqueamento da próxima tranche do empréstimo ao cumprimento do acordo, nomeadamente, no que respeita a questão da baixa da TSU.
Ou seja:
1- Mantendo a tradição lusa, o governo desenrasca medidas para combater o défice que se suspeitou desde o início serem inconstitucionais. Se alguma vez as decisões do governo se pareceram com algo fruto de madura reflexão, cuidada preparação e claro domínio dos dossiês, isso foi fruto de uma ilusão habilmente encenada. Ninguém pesca um boi do que está a tratar.
O ministro Gaspar foi disso o exemplo mais eloquente. Com aquela imagem solene e douta que todos lhe reconhecemos, adormecia o pagode, deliberadamente, tentando dar ar que havia mais qualquer coisa por detrás da forma geométrica e do verbo entediante, quando afinal, é agora claro, toda aquela encenação tecnocrática servia para esconder  que o Ministro das Finanças não passa afinal de um desenrascado a agir no quadro do caos total. Como explicar  de outra forma os erros de palmatória que este ministro cometeu? 
2- O TC acabou, sem surpresas, por declarar as medidas principais da política de consolidação orçamental, de facto, inconstitucionais.
3- Perante o novo problema, Passos Coelho e a sua pandilha resolvem desenrascar a baixa da TSU, que, pelos vistos, deixou os parceiros da coligação à rasca.
4- Coelho deverá, sabemo-lo também agora, ter desenrascado argumentos que "convenceram" Portas de que se a medida não fosse para frente, as futuras negociações com a troika ficavam comprometidas.
5- A medida é mesmo aprovada e anunciada, e... Surpresa! o país fica em pé de guerra!
6- Ai, ai, ai, ai, ai! meu Deus! Como é que a gente vai desenrascar isto agora?
7- Mais: ficou-se agora a saber que "esta medida foi proposta pelo Governo," como foi referido há pouco pelo porta voz da Comissão.
8- Ficou-se também a saber que é verdade: se esta proposta do governo português não for para a frente, as negociações com a troika estão mesmo comprometidas.
9- Estranhou-se durante algum tempo que Portas não rangesse, mas sabemos agora que ele não rangia porque sabia, e que sabia que se rangesse ficávamos a perceber que era um tanso e iria ficar colado ao desenrascanço. Ficou, coitado, com a alternativa no bolso, sem nada poder fazer que evitasse deitar tudo a perder, como veio a acontecer...
10- Sem o cumprimento desta medida, que foi proposta pelo governo, a próxima tranche não pinga.  Aquilo foi o que foi acordado, aquilo é o que tem de ser cumprido. Mas, o acordo poderia ter sido outro, pelo que se percebe.
11- O Coelho desenrascou uma solução para desenrascar um problema, que enrascou a coligação, que enrascou a relação do governo com os outros orgãos e parceiros institucionais, que enrascou o governo perante a Comissão, e, pior ainda, que enrascou em defintivo a relação dos governantes com os governados. Not bad for a day's work...
12- Percebe-se agora o "custe o que custar" e percebe-se agora também o "fiquei convencido" do Portas.
Uma monumental bota que o Coelho tem agora que descalçar. Aconselho a elegante descalçadeira da imagem, à venda on line por uma quantia que estará certamente ao alcance da leporídia criatura...


PS- É claro que há em tudo isto, ao mesmo tempo, algo de muito positivo e extremamente saudável. O porta voz da sisuda Comissão disse, enquanto lembrava que o acordo era para cumprir, que a medida anunciada pelo governo "visa aumentar a competitividade das empresas portuguesas, para melhorar a sua capacidade em termos de exportações, mas também de criação de emprego (...) e tem de ser vista - e isto é muito importante na perspectiva da Comissão Europeia - no contexto de um conjunto global de medidas que visam aumentar a competitividade na economia portuguesa."
Quem pensou que a troika era uma coisa séria, organizada, metódica, capaz de pôr ordem no caos da actual governação portuguesa e avaliar com critério imparcial a acção de Passos e dos seus muchachos, quem alguma vez pensou que haveria males que vêm por bem, depois de ler estas palavras, fica com a sensação que os troikos já foram tomados pelo clima e estão rendidos ao grande desígnio nacional, ou então alguém lhes coloca umas coisinhas giras no café matinal.

2012/09/10

Uma carta de Eugénio Lisboa ao PM de Portugal

Exmo. Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa

2012/07/28

A ironia das ironias...

Os ingleses têm uma notável queda para a ironia. São imbatíveis nesse domínio. A cerimónia de abertura dos JO de Londres 2012 estava cheia de pequenos apontamentos deliciosos.
A cerimónia teve, contudo, outros apontamentos mais sérios, sem o splash que se observa em outros eventos do género, mas não menos significativos. E teve um, quanto a mim, particularmente notável: uma homenagem ao National Health Service britânico. Um serviço manifestamente querido e um óbvio motivo de orgulho para os ingleses, a ponto de encontrarem nele conteúdo suficientemente significativo para figurar numa cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos.
Sem ironia, diria mesmo, de forma cruel e cínica, por cá o primeiro ministro Passos Coelho, acompanhado pelo ministro Paulo Macedo à guitarra e pela Troika à viola, vão diligentemente dando cabo do nosso.
Irónicos, mas não distraídos estes ingleses...

2012/07/15

Revalidar a carta

Enquanto Portas, lá longe, diz a Passos Coelho, publicamente, que os dirigentes do Estado não se devem envolver em polémicas públicas e Passos reitera apoio a Relvas, o líder da JSD revela que Relvas aconselhou os jovens social-democratas a não cometerem o erro por ele cometido em relação à licenciatura. Estudem primeiro e metam-se na política depois, terá sugerido o homem forte de Coelho. Mais diz Duarte Marques (assim se chama o jovem líder dos jovens social-demcratas): se houvesse ilegalidade seria ele o primeiro a pedir a demissão de Relvas.
Há público e público, há apoio e apoio, há erro mas não há ilegalidade.
Errar é humano, está visto; apoiar é preciso; não há ilegalidades, está provado; continuamos perante um não assunto, ponto final.
Mas, terá pensado o jovem líder dos jovens social-democratas, num momento de vago cruzamento com a realidade, se ainda assim subsitstem dúvidas sobre a origem do erro de Relvas e se a legitimidade de um curso feito pelo método da liofilização ainda suscitar alguma perplexidade a alguém, interrogue-se...  Mariano Gago. Só ele poderá, parece querer dizer o jovem Duarte, clarificar os objectivos da lei que conduziu a tão "insólito" e tardio desfecho para a vida académica de Relvas. É ele que detém a chave da explicação do erro de Relvas.
É este o óleo "político-ético-ideológico" que foi derramado na curva apertada em que o País circula neste momento. E é este o tipo de condutores que vai a conduzir o veículo.

2012/06/16

Tranquilidade

O PCP anunciou a apresentação de uma moção de censura ao governo. O BE mete o ponto morto e diz que tem de ver o texto primeiro. O Seguro do PS proclama, em estranho dueto com o PR, deus nos livre!, uma crise política agora, esquecendo-se que é, ele próprio, a crise política! O mesmo PC que apresenta esta moção —que estaria sempre derrotada à partida—, invocando a favor dela, com toda a justiça, o seu carácter simbólico e a necessidade de marcar uma posição face ao bombardeamento em curso contra o povo português, não se coibiu, ele próprio, no passado de criticar iniciativas de índole semelhante com o argumento que... estavam  derrotadas à partida.
Fragilizada, atomizada, incoerente, oportunista, preconceituosa e pífia, assim vai a esquerda portuguesa, certamente para grande gáudio da direita, desta direita reles e nauseabunda que governa e atrofia o grande País que é Portugal.
A direita não resolve os problemas do país com as suas soluções. Vê-se, sente-se. É fácil provar. Mas também a esquerda, que tem nela própria as armas para o fazer, reage desta forma patética e rasteira perante a necessidade de se mobilizar e de constituir uma frente unida. Num País a necessitar de uma solução de esquerda e de pão para a boca!
Não admira pois que o primeiro primeiro ministro estagiário que tivemos desde o 25 de Abril declare que está tranquilo...

2012/05/05

De facto, sem gravata!


Cavaco não viu as imagens da tumultuosa "promoção" do Pingo Doce. Os seus conselheiros não o alertaram, ou ele não ouviu os alertas. Soares dos Santos disse que não sabia da campanha. Como seria estranho que uma pessoa que ocupa o seu lugar não soubesse o que se passa numa sua empresa, terá vindo depois dizer que a imprensa deturpou o que disse. Afinal saberia. A campanha terá então tido o aval do patrão. Ou não, ainda não se percebeu bem. A ministra da fé acredita que agora é preciso legislar. O deputado Luís Menezes, à falta de melhor argumento, perguntava, dirigindo-se às bancadas da oposição: "Os senhores querem meter-se na decisão livre de cada português escolher a quem compra e quando compra?" E o Álvaro, certeiro e lapidar, vai mesmo mais longe, "arrasando" irrefutavelmente, qualquer argumento que se possa invocar para criticar este espectáculo miserável que o Pingo Doce nos proporcionou: noutros países é normal haver promoções deste tipo.
Contudo, a ASAE, um organismo tutelado pelo próprio Álvaro, tinha iniciado investigações no próprio dia 1, encontrando motivos para duvidar desta "liberdade da decisão" e da "normalidade" de promoções como esta. A ASAE disse mesmo "ter encontrado indícios do incumprimento de algumas disposições do decreto-lei que rege a aplicação de preços e as condições de venda dos produtos a retalho" e enviou o processo do Pingo Doce para a Autoridade da Concorrência. Mas, esta é a mesma "Autoridade" na qual os portugueses depositarão uma confiança cega, que reiteradamente determina que o que se passa com os combustíveis, por exemplo, não indicia qualquer prática de cartelização...
Enquanto isto, Cavaco Silva, sempre igual a si próprio, volta a atacar. Em Cascais, numa reunião de um autodenominado "Conselho para a Globalização" (olhando globalmente para este painel percebe-se o alcance global do conselho que deste Conselho sairá,) apela à mobilização dos "portugueses" para que se projecte uma imagem diferente do país lá fora. De pronto, ele e os seus companheiros de jornada dão o exemplo. Tiram a gravata, et voilá!: num ápice, temos a imagem, que os factos citados acima documentam, de um país dirigido por um bando de fantoches e incompetentes de gravata, transformada numa outra, que a foto documenta, de um país governado por um bando de fantoches e incompetentes... sem gravata.