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2020/10/25

Cultura, pandemia, gangrena e drinks de fim da tarde



Haverá dúvidas de que a “cultura” é mansa? 

Mesmo depois de tantas “flight cases” plantadas no Terreiro do Paço e na CM do Porto, projecções coloridas em edifícios, e outros protestos murchos, a "cultura" continua em processo de gangrena. As restrições às actividades culturais trazem consequências dramáticas, mas em Portimão parece que estamos noutro planeta. Que diferença para as salas fechadas ou a meia haste que por aí vamos vendo.



Não pretendo aqui fazer uma análise do sector da cultura em Portugal nem estou habilitado para o fazer. Pretendo apenas chamar a atenção para umas tantas incoerências e, sobretudo, para a passividade inacreditável com que o sector da cultura, certamente inebriado pelos drinks de fim de tarde, assiste à crise que se instalou. Com olhar bovino, como o de quem aguarda a vez para entrar no matadouro. 

O sector cultural, face ao valor previsto para a cultura, limita-se a largar, com ar enfadado, uns bitaites e umas queixinhas avulsas nas redes sociais e em entrevistas mais ou menos folclóricas. Não há qualquer organização, não se ouviu uma palavra  dos agentes culturais quanto a um projecto de recuperação deste sector, nem uma ideia para aplicações dos fundos estruturais que aí vêm. Nada. Os portugueses, por seu lado — povo que saca também, sem perceber o que está a fazer, o revólver quando ouve falar em cultura —  aceitam, sem problema de maior, que fechem salas de espectáculo, acabem festivais, produtoras, editoras, que continuem a sair dezenas e dezenas de jovens das escolas de artes, músicos, actores, técnicos, sem que exista perspectiva de trabalho no imediato e sem que existam possibilidades de exercerem as profissões que escolheram no futuro. Não há maneira de os acolher e, no futuro, vai ser pior. Mas eles continuam a sair das escolas. Imagino que, por este andar, os únicos locais onde poderão encontrar trabalho daqui a uns tempos seja nas igrejas... 

É que, aposto, os portugueses serão sensíveis a um outro tipo de reivindicações e o nível da gestão pública que temos não dá para mais. Há dias, a propósito da "crise" em Fátima, o líder parlamentar do PSD, um deputado chamado Adão Silva, e os deputados "sociais-democratas" eleitos por Santarém, vieram reivindicar "apoios sociais e fiscais," chamando a atenção para o facto de a região ter sido atingida pelas consequências económicas da pandemia e exigindo medidas “no âmbito dos impostos, nos apoios vários às empresas e do ponto de vista social”. Em causa está o OE 2021 e mesmo os fundos estruturais. O que os deputados em questão estão a reivindicar é um subsídio a uma crença religiosa, pago, directa ou indirectamente, por todos os contribuintes, acreditem ou não nessa crença. E estamos com sorte por não terem sugerido a obrigação de cada português ir passar o fim de semana a um hotel em Fátima. O que está em causa aqui não é a reivindicação em si. Fazem pela vida. O que aqui parece bizarro é que os deputados se sintam legitimados a fazê-la, enquanto outros sectores, de importância vital e muito mais abrangente para o país o não façam. Como o sector da cultura, por exemplo.

O que se vai vendo no que respeita a este sector é um escândalo. Sem resposta. Os milhões chovem só para um lado, sem que ninguém se indigne com o assunto. As televisões, por exemplo, receberam balúrdios à pala da pandemia. Deveriam ter sido obrigadas a reprogramar as suas grelhas com música, teatro, dança, circo, etc., português. Mas que raio de ideia de cultura tem o Governo? O que é que o PM e o PR vêem para além do namoro aos "artistas" que lhe trazem votos? Conseguirão ter uma ideia de cultura para além do barulho das luzes e dos vapores dos drinks? Se têm, não se vê.

No que diz respeito à cultura, estamos em plena era da pedra lascada. Agora disfarçada com eventos e entretenimento. Anda tudo a dormir. Estou em crer que é a própria “cultura“ que não se leva a sério e não acredita em si. Venham mais umas corridinhas de carrinhos e motinhas!!

2014/01/28

Pete Seeger (1919-2014)


Vio-o, pela última vez, na televisão, junto ao Memorial de Lincoln, na tomada de posse de Barack Obama em 2009, onde cantou com Bruce Springsteen a canção-hino "This land is your land", popularizada por Woody Guthrie.
Para trás, tinham ficado décadas de activismo político e dezenas de canções escritas ao serviço das causas que sempre abraçou, fossem estas no campo dos direitos sindicais, dos direitos civis da população negra, ou contra a guerra do Vietnam, à qual sempre se opôs, como pacifista assumido que era.  Dele, ficaram ainda canções como "We shall overcome", "Where have all the flowers gone", "If I had a Hammer" ou "Turn, Turn, Turn", reproduzidas vezes sem conta por intérpretes em todo o Mundo.
A carreira de cantores como Bob Dylan, Joan Baez, "Peter, Paul and Mary" ou "The Kingston Trio", não teria, provavelmente, sido a mesma sem a influência de Seeger. Foi a própria Joan Baez que o declarou, esta madrugada, após ter sido informada do falecimento do cantor.
Memorável, seria a sua primeira passagem por Portugal, onde actuou no antigo Pavilhão dos Desportos, em 2 de Dezembro de 1983. Desse histórico evento, foi gravado um LP numa edição limitada de 3000 exemplares. Tenho um, que guardo religiosamente.
Um ícone americano, ou como o descreveu Springsteen: "O arquivo musical e de consciência da América, um verdadeiro testamento do poder da canção e da cultura do último meio século nos EUA e no Mundo". Nem mais. A sua obra e o seu exemplo, são já imortais.      

2013/09/28

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (3)


Um dos percursos culturais mais interessantes na cidade é proporcionado anualmente no “Open Monumentendag” (Dia do Monumento Aberto), data em que dezenas de instituições, públicas e privadas, abrem gratuitamente as portas à população. Este ano, porque o dia dos monumentos (15 de Setembro), coincidiu com um domingo, a municipalidade alargou as visitas a todo o fim-de-semana. A melhor altura para fazer o percurso é de manhã, quando as filas são ainda pequenas, mas, quando chegámos ao prédio “De Granada”, uma mansão senhorial situada na Nieuwe Herengracht, o canal tradicionalmente habitado por judeus abastados, já a fila era já tão grande que optámos por outra alternativa, esta situada uns números mais à frente, a “Huize Avondrood”, igualmente propriedade de uma rica família judia. Infelizmente, o tempo de espera afigurou-se tão longo que decidimos passar a outra instituição na vizinhança, a “Uilenburgersjoel”, uma das três sinagogas da cidade, recuperada depois da pilhagem na segunda guerra e que hoje, para além de lugar de oração, é utilizada como escola e local de ensaios. Lá estivemos, a ouvir música de reportório “klezmer”, magnificamente tocada por um “ensemble” de jovens músicos de origem.
Tempo para passar ao monumento seguinte, “De Oude Kerk” (A Igreja Velha), considerado o edifício mais antigo da cidade. Pese a sua antiguidade, a igreja, de culto protestante, apresenta sinais de grande vitalidade depois da restauração a que foi sujeita em 2008 e que ainda não terminou. Para além das cerimónias litúrgicas tradicionais, é intenção da municipalidade criar no seu espaço (gigantesco) uma galeria de arte moderna. Foi lá que vimos uma exposição de fotografia, cujo tema central era a “mulher” em diversas sociedades e profissões. Fotos de grande nível, com destaque para uma série sobre “travestis” mexicanos, premiada com o 1º lugar em fotografia documental. Situada em pleno coração do “bairro vermelho” de Amsterdão, a “Oude Kerk” é um “must” do roteiro turístico da cidade.
Seguiu-se uma visita à “Gulden Trip” no mesmo bairro, uma pequena moradia com quintal, datada de 1565, construída sobre os alicerces de uma das mais antigas casas da cidade, cujas origens remontam a 1380. Durante a sua reconstrução, em finais do século XX, foram descobertos e restaurados os pavimentos e tectos originais, que podem ser admirados em todo o seu esplendor. A “Gulden Tulp” alberga, actualmente, a sede do “Fundo National de Instrumentos”, uma fundação que apoia a divulgação de instrumentos antigos e de um “ensemble” musical de cordas. Vale a visita.
Depois de um breve interregno, seguimos para a “Ambtswoning” (residência oficial do presidente da câmara) famosa pela sua decoração de inspiração francesa e pelas suas tapeçarias e lustres em Arte Deco. Também aí, as centenas de pessoas na fila fizeram-nos optar pelo “Stadsarchief Amsterdam” (O Arquivo Municipal), um edifício imponente que domina toda a Vijzelstraat, uma das principais artérias da cidade. Inaugurado em 1926, o edifício, também conhecido por “De Bazel”, nome do arquitecto responsável pela obra (J.J. Bazel, 1869-1923), foi originalmente construído para sede do Banco HandelsMaatschappij Nederland, que mudaria de local em finais do século passado. Depois de um período em que esteve encerrado, o edifício reabriu ao público em 2007, já nas funções actuais: as de arquivo da cidade desde a sua fundação, que inclui um departamento arqueológico, onde são registradas e catalogadas todas as descobertas posteriores. Trata-se de um edifício de 10 andares (dos quais 3 são subterrâneos), com mais de 40 kilómetros de documentação (muita dela totalmente digitalizada) com a história da cidade e a dos seus habitantes. Influenciado pelo estilo “De Stijl”, as linhas sóbrias e funcionais do edifício espantam pela sua solidez e bom gosto, onde todos os pormenores foram calculados. Dispõe ainda de um centro de documentação, sala de cinema e loja, para além de exposições permanentes e temporárias e a possibilidade de visitas guiadas ao arquivo, localizado na cave imensa com três pisos.
Dada a falta de tempo, deixámos para outra oportunidade a visita aos andares superiores (sala da direcção e de reuniões), tendo assistido à projecção do filme “Fotostudio Merkelbach”, uma selecção de “portraits” do realizador Kees Hin (que passou em 2012 por Lisboa, no Festival Cinema Bioscoop), dedicado à colecção Merkelbach, famoso fotógrafo de Amsterdão do século passado. Pelo seu estúdio, passaram nomes famosos da sociedade holandesa, como Mata Hari, Toon Hermans, Van Halst van Overtoom. entre outros. Todas fotos recuperadas, entre mais de 40 000 negativos salvos de uma cheia recente. Um espanto, o “De Bazel”, finalmente à disposição do grande público.
Chegados ao fim deste excitante dia, tempo para uma sandwiche de espadarte fumado com carpazzio e uma cerveja biológica “De blauwe Bijl”, fabricada artesanalmente numa “brouwerij” da zona Este de Amsterdão. A prova final que Deus existe...

2013/09/26

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (2)

Overhoeks, 't IJ, Amsterdam-Noord, Amsterdam - Netherlands

De todas as obras recentemente levadas a cabo na cidade, duas sobressaem pelo seu arrojo arquitectónico e fins a que se destinam, respectivamente à música e ao cinema. Estamos a falar do “Muziekgebouw” (que inclui a mítica “Bimhuis”, verdadeira meca do jazz internacional) e do edifício futurista “Eye” (a cinemateca local, situada na margem norte da capital holandesa). Ambos têm uma programação de excelência, sendo visitados por milhares de melómanos e cinéfilos diariamente, o que atesta da sua programação e do poder de compra médio dos locais. Lá fomos, numa noite ventosa e com alguma chuva à mistura, assistir a uma sessão de free-jazz , uma das tradições da “Bimhuis” de velhas recordações. A alma de Chet Baker ainda deve andar por lá (o trompetista viveu e morreu em Amsterdão), pois o concerto a que assistimos tinha uma secção de sopros de primeira água. O programa tinha como título “Carte Blanche Oene van Geel”. Van Geel é um virtuoso violinista local que tinha como convidados The Nordians Extended (ensemble ad-hoc de Amsterdão-Norte), Theo Loevendie (uma velha lenda do clarinete e do sax) e a magnífica cantora Nora Fischer. De realçar, ainda, um convidado indiano nas “tablas” e um convidado escocês na flauta e na gaita de foles, que ofereceram duas horas de verdadeiro prazer, num mix de jazz e músicas do mundo, de grande qualidade musical. No final, tempo para percorrer a excelente loja da “Bim”, onde se podem encontrar exemplares únicos de “standards” do Jazz e da World Music, muitos deles em Vinyl. Até a Amália Rodrigues se podia lá comprar. A noite não terminaria sem provarmos algumas “Palm”, cerveja castanha, de beber e chorar por mais... Outra visita, que se tornou um “must”, desde a sua inauguração em 2012, foi à Cinemateca, situada na margem norte do IJ, o lago que divide a cidade em duas margens distintas. O nome “Eye”, assim se chama o novo edifício, é um trocadilho entre a palavra “olho”, em inglês, e a palavra IJ, que se pronuncia de igual modo. Para além das 4 salas de projecções em simultâneo (duas das quais dedicadas a estreias de filme de autor). a nova cinemateca dispõe de salas de exposições permanentes e de uma loja de “gadgets” cinematográficos, que são uma verdadeira tentação para qualquer cinéfilo. A exposição temporária era dedicada a Federico Fellini e estava anunciada por toda a cidade. Trata-se de um projecto original do “Eye”, aqui apresentado em premiére mundial, que ocupa toda a parte superior do edifício. Durante duas horas, passámos em revista a vida e os filmes do genial realizador italiano, apresentadas em painéis bi-lingues, estrategicamente colocados. Para além dos dados biográficos e das notas sobre os filmes, a colecção tinha a particularidade de mostrar os “storyboards” desenhados por Fellini, um ilustrador de reconhecidos méritos. Completavam a mostra, excertos de alguns dos seus principais filmes: “I Vitelloni”, “O Sheik Branco”, “La Dolce Vita”, “8 ½”, “Julieta dos Espíritos”, “I Clowns”, “Roma”, “Amarcord” e “Casanova”, projectados em écrans de grandes dimensões, como estivéssemos numa sala de cinema normal. Um verdadeiro “happening” cultural, que tivemos o privilégio de ver, num espaço que recomendamos a todos os futuros visitantes desta cidade cinematográfica.

2013/09/23

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa


Forçado, pelas circunstâncias, a deslocar-me a Amsterdão, aproveitei para tirar alguns dias de férias e fugir do calor abrasador que se fazia sentir em Portugal.
Acontece que o Outono já começou na Holanda e as temperaturas médias nesta época do ano (15º), acompanhadas de alguma chuva e vento, não foram as mais propícias para quem queria andar a pé pela cidade. Valeu a pena pela oferta cultural, agora que a nova temporada artística teve início e a cidade está mais vibrante do que nunca.
Das visitas incontornáveis, aconselho o renovado Rijksmuseum, a sala de visitas da cidade, reaberto após mais de 10 anos de obras, devido à ampliação do espaço e renovação da sua colecção permanente. Um espanto, o novo “Rijks”, agora com um “hall” de recepção envidraçado, no lugar das antigas caves do edifício, onde se entra através de uma escadaria ladeada por amplos balcões de atendimento e informações de toda a ordem. É neste espaço aberto que estão situadas as duas lojas do museu e a cafetaria, onde os clientes têm de esperar em fila por uma mesa vaga, tal a afluência de visitantes nestes primeiros meses.
Depois, é escolher por onde começar. O Museu tem três pisos acima do nível da rua e um abaixo, também designado por piso 0. Foi aqui que começámos, para ver as colecções especiais, dedicadas às louças, moda, armas e modelos de barcos, agora numa nova disposição dentro do museu. Também neste piso, uma assinalável colecção de pinturas e arte sacra (1100 e 1600), designada como “arte primitiva” pelos locais. Depois de uma boa hora de deslumbramento, tempo para subir ao 2º piso, dedicado ao período 1600-1700. É aqui que estão as obras que fizeram a reputação do Museu: “A Ronda da Noite”, e a “A Noiva Judia” de Rembrandt, ou “A Pequena Rua” e a “Rapariga do Leite” de Vermeer, mas também pinturas de contemporâneos como Steen e Hals. Um deslumbramento absoluto, que só a afluência desmesurada de turistas e respectivos guias, perturbou. Razão para parar e descer à livraria, onde a informação é abundante e multi-lingue. À saída, e porque chovia, tempo para parar numa feira russa de gastronomia, instalada em plena praça dos museus, e provar um pão casqueiro de peru fumado e uma “pancake” coberta de mel, acompanhada de chá original, servidos por uma simpática siberiana vestida com trajos da região. Que mais desejar?
Voltaríamos ao Museu, alguns dias mais tarde, agora para visitar os  pisos restantes que abrangem outros tantos períodos. O primeiro piso (1700-1800) dedicado ao romantismo, e ao impressionismo onde, entre outros, podem ser admirados trabalhos de Gabriel, Breitner, Van Gogh e Goya, para além de colecções representativas da escola de Amsterdão e de Haarlem e à época do iluminismo (William IV e V).
Finalmente, o último piso, dedicado ao século XX. Esta é uma colecção renovada, que está dividida por duas alas distintas: a ala Este (1900 a 1950) onde podem ser admirados magníficos exemplares das correntes “Art Nouveau” e “Stijl”, para além de obras de Rietveld, Mondriaan e um exemplar do primeiro avião fabricado pela Fokker. É nesta sala que é projectado o documentário “Philips Rádio” (1931) da autoria de Joris Ivens. E a ala Oeste (1950-2000) onde o sobressaem os trabalhos de Yves Saint-Laurent, Appel e Constandt, para além de obras dos mais famosos arquitectos e urbanistas holandeses. Também nesta sala, é projectado o documentário, “Deltaplan Phase 1”  de Bert Haanstra, que Lisboa viu recentemente integrado no Festival Cinema Bioscoop.
Era já tarde, quando saímos do Museu, não sem antes termos dado uma volta pelo jardim circundante, onde estão expostas esculturas de Henry Moore.
Uma festa para os olhos e para os sentidos, a provar que a grande arte ajuda a lavar a alma.  

2013/08/23

A Cinemateca não pode fechar!



Nem no tempo da ditadura, a Cinemateca fechou. É verdade que o seu director à época (Luís de Pina), assim como parte significativa dos seus colaboradores (António Lopes Ribeiro, por exemplo) eram declarados apoiantes do Estado Novo, para não dizer fascistas assumidos, o que facilitava a colaboração.
No entanto, isso não impediu que a Cinemateca Portuguesa fosse uma instituição considerada e respeitada no estrangeiro, com um espólio onde já havia clássicos como “Potemkin”, “A Mãe”, “Outubro” (e tantos outros filmes vedados ao espectador comum), que podíamos ver nas suas salas. Após o 25 de Abril, a “casa” passou por várias remodelações e direcções, das quais, a mais longa e significativa, seria a de Bénard da Costa. Com todas as suas vicissitudes e constrangimentos (nomeadamente orçamentais) a Cinemateca sempre cumpriu os pressupostos de qualquer cinemateca: guardar e mostrar o espólio dos filmes à sua guarda.
Com a passagem da Cinemateca a Museu de Cinema, e implícita inclusão da instituição na rede dos museus nacionais tutelados pelo estado, maior se tornou a responsabilidade deste em relação à missão principal de um Museu.
Não se percebe, por exemplo, que as receitas da Cinemateca dependam de uma percentagem de 4% de publicidade nos cinemas (ver entrevista da directora no “Público” de quarta-feira), quando se sabe à partida que os cinemas tendem a fechar e as receitas a diminuir. Logo, o Estado, através do respectivo orçamento, deve providenciar no sentido de criar um subsídio estrutural que garanta o seu funcionamento. É assim em todos os países desenvolvidos e deve ser assim em Portugal.
Um pais que não cuida da sua memória (seja ela cinematográfica ou outra) não tem futuro.

2012/12/07

NOTAS DE VIAGEM: no meio da “crise” holandesa (2)

Ons aller ziel
PS Theater
Pesem as restrições económicas, anunciadas na passada semana pelo governo holandês, é difícil descortinar sinais visíveis de austeridade, neste país que passa por ser um dos mais ricos da Europa.
Os cafés e restaurantes continuam cheios, assim como as esplanadas, aquecidas nesta época do ano, enquanto as lojas fervilham de consumidores nacionais e estrangeiros, carregados de sacos das mais famosas marcas. O mesmo podemos dizer dos eventos (exposições e museus) que pudemos visitar. Nem mesmo os preços médios praticados (muito acima do que estamos habituados) parecem assustar os frequentadores da cultura citadina. Um pequeno resumo do que conseguimos ver:
Na galeria FOAM,  especializada em fotografia contemporânea, uma excelente retrospectiva de norte-americana Diane Arbus (1923-1971), constituída por  200 fotos, a preto e branco, dos temas que marcaram a sua obra: pares de namorados de todas as idades, gémeos, idosos em lares de acolhimento, jovens com o síndrome de Down, ruas e parques de Nova-Iorque. A solidão, a tristeza e a alegria, numa fotografia antropológica com a “patine” das décadas de cinquenta e sessenta. Entrada: €10.
No Museu Histórico Judeu, renovado em 2005,  para além da colecção permanente que relata a diáspora, as zonas habitacionais, a ocupação alemã e o holocausto, uma excelente exposição do artista plástico William Kentridge e as pinturas naíves de Sal Meijer, um cidadão que amava a sua cidade. Tempo ainda para ver um excelente documentário holandês, sobre as origens da música Klezmer (da Roménia ao Canadá). Porque o bilhete incluía a Sinagoga Portuguesa, vizinha ao Museu, lá voltámos, agora com a curiosidade de visitar a cave, recentemente aberta, onde podem ser admirados os tesouros deste templo sefardita, construído em 1675 e que alberga a mais antiga biblioteca judaica do Mundo. Entrada: €12.
Igualmente renovado, após um polémico concurso ao qual concorreu Siza Vieira, está o Stedelijk Museum, um dos mais populares da cidade, famoso pela sua colecção de arte moderna e contemporânea dos séculos XIX e XX.  O “Stedelijk”  modernizado, alargado e desfigurado, numa intervenção a todos os títulos criticável pelo mau gosto e desproporção de formas, estava apinhado no dia em que o visitámos. Se já era popular, agora toda a gente quer ver o novo anexo (conhecida pela “banheira”) que alberga uma colecção de “design”, a todos os títulos notável. Entrada: €15.
Já desesperávamos de  ver algo gratuito, quando fomos alertados para a nova “coqueluche” da cidade, o edifício futurista  (a lembrar o avião “Concorde”), que alberga a nova  cinemateca da cidade. Verdadeiramente espantoso, como espantosa é a sua localização, na margem norte do IJ, atrás da estação principal de comboios. 
Chama-se “Eye” (um trocadilho entre o nome do  canal que liga a cidade ao mar do Norte e o “olho” cinematográfico) e reconciliou-nos com a arquitectura. Com uma colecção com mais de 40.000 títulos,  a cinemateca tem 4 salas de projecção, 1 sala de exposições temporárias,  uma sala infantil (onde se podem aprender todos os passos necessários para fazer um filme), uma sala escura, onde é possível visionar excertos de filmes clássicos, bastando, para isso, premir uma das quatro “slot-machines” existentes, para além de uma loja e 2 cafés e restaurantes, com vista para a cidade. Um espanto. À excepção das exposições e dos filmes, tudo o mais é gratuito. Os “amigos da cinemateca” pagam 30 euros por ano e têm redução nos bilhetes que custam entre 8 e 10 euros. Por comparação, na Cinemateca de Lisboa, os “amigos” pagam os mesmos 30 euros anuais, mas apenas €1,35 por sessão...
Num pais onde a Cultura vai sofrer um corte de 50% no próximo orçamento, o teatro não é excepção. O grupo PS-Theater, de Leiden, encenou a peça “Ons aller Ziel” (A Alma de todos nós), uma metáfora sobre a miséria, onde a personagem principal (uma jovem rica e fútil da alta sociedade) convida os amigos para uma festa de caridade, onde estes devem apresentar-se vestidos de mendigos, sem-abrigo e vestimentas árabes. Durante a festa, a bebida servida é o “champagne”. Durante a peça, é confeccionada uma sopa de beterraba e lentilhas, que no fim é oferecida aos espectadores. No átrio de entrada do teatro, estava colocado um carro, onde também podiam ser depositados contributos para o Banco Alimentar. Sim, na Holanda,  um dos países mais ricos da Europa, o Banco Alimentar é cada vez mais popular...
Uma última nota para a digressão “Daisy Correia canta José Afonso”, a decorrer até Maio do próximo ano, com mais de 20 concertos agendados para toda a Holanda. Criado e interpretado por uma jovem cantora holandesa de ascendência portuguesa (Daisy Correia), este é o tributo ao Zeca que faltava. O ciclo está encerrado.

2012/07/28

Os verdadeiros criminosos

Se dúvidas houvesse sobre o poder da música, este exemplo dissipava-as. Já aqui há algum tempo referi um outro exemplo maravilhoso que ilustra bem o poder da música e a capacidade que esta arte tem para forjar um sociedade melhor. Este outro exemplo, vindo agora dos E.U.A., mostra mais uma vez esse poder.
Pergunto-me o que teria acontecido se os fundos gastos actualmente em programas como este tivessem sido usados em programas escolares de formação musical, na altura certa, de todos estes detidos.
Não é um problema americano. A forma como, em geral, as artes são encaradas nas sociedades avançadas é patética. Os exemplos de cortes ou supressão de programas multiplicam-se um pouco por todo o lado.
Pergunto-me que noção terão os actuais responsáveis pelos sectores da Cultura e Educação do nosso país do significado que têm os cortes que se estão a efectuar nestas áreas para o nosso futuro? Pergunto-me o que pensa o país destes cortes...? Pergunto-me se o país tem noção do que vai ser o seu futuro com mais marginais e mais crianças abandonadas ao seu infortúnio, com a sensibilidade ferida de morte em lutas de gangs. Pergunto-me se o país tem a noção de quantos futuros detidos está a formar ao deixar que estes cortes se multipliquem, sem que ninguém pareça ligar grande coisa, tratando a cultura e a educação como uma coisa longínqua, um luxo a que uma sociedade, entroikada como esta está, se não pode dar?
O que se gasta na formação musical de uma criança hoje será certamente mais proveitoso do que o que se gasta na manutenção da prisão onde ela pode vir a ter de mourejar no futuro.
Quam são, pois, os verdadeiros criminosos: os que cortam os programas de educação e cultura ou aqueles que estão presos em Sing Sing e noutras prisões de alta segurança?

2012/03/13

Da Grécia, com cultura

Pesem as notícias devastadoras que, por estes dias, nos chegam sobre a Grécia, o contrário também é verdade. E as boas notícias, ainda que menos espectaculares, surgem através da cultura. Assim e em voo de pássaro, registamos três momentos - dois musicais e um filmico - dignos da melhor tradição popular e clássica deste país-berço da civilização ocidental, a decorrerem entre nós.
Teve início em Guimarães, com a estreia mundial do concerto "Periplus" (deambulações luso-gregas), um projecto de Amélia Muge e Michales Loukovikas, posteriormente apresentado em Lisboa e, recentemente, editado num album que continua a ser divulgado por todo o país. Uma parceria inusitada, onde se revela o melhor de ambas culturas, cantado por dois intérpretes de excepção.
Igualmente a decorrer, está a retrospectiva "Elegia da Viagem" (A Grécia de Theo Angelopoulos), um tributo da Cinemateca Portuguesa a este realizador maior do cinema contemporâneo, recentemente falecido. O ciclo concentra-se nas duas primeiras décadas da obra de Angeloupolos e nele serão apresentados dez filmes, oito dos quais nunca estreados em Portugal. Destaque para "Dias de '36" (ontem estreado com a presença da viúva do realizador e da directora da Cinemateca de Atenas), "Reconstrução", "A Viagem dos Comediantes", "Os Caçadores", "Alexandre O Grande", "Viagem a Cítera", "O Apicultor" e "Paisagem na Neblina". O ciclo prolonga-se pelo mês de Abril.
Finalmente, programado para 24 de Março na Gulbenkian, o concerto "Eros Y Muerte" de Angelique Ionatos, conhecida de anteriores visitas ao nosso país. Uma excelente intérprete, esta grega residente em Paris, na melhor tradição de música "Éntekhno" (música de arte) que vem apresentar o seu último trabalho em disco.
Tudo boas razões para ver e crer que, da Grécia, podem também vir boas notícias.

2009/01/14

O estado da arte e a "arte" do Estado

Neste país já nada nos consegue surpreender. Vivemos na corda bamba do território previsível, seguros de que ao caír seremos amparados pela rede da meta-crise. Esta condição retira, é certo, margem de manobra ao inesperado, cava a depressão, mas não deve diminuir a nossa capacidade de repulsa.
Vem isto a propósito da declaração do Ministro da Cultura sobre o apoio aos artistas, como resposta a uma interpelação feita no Palácio Foz por Paula Castro Guimarães ao Primeiro Ministro, durante a apresentação dos programas Inov-Art e Inov-Mundus.
A interpelação correu os orgãos de comunicação social, que a mostraram, bem como a reacção do PM, e motivou um comunicado da Miso Music Portugal que pode ser lido aqui.
Factos são factos: Portugal está no fim da escala dos parceiros europeus no que diz respeito aos indicadores que medem o desenvolvimento. Mas, no plano específico da cultura (a distinção que faço aqui entre cultura e desenvolvimento é artificial, eu sei, e só imposições de natureza retórica a justificam), esta escala não serve. Portugal é hoje um país que só encontrará adversários à altura naquelas ditaduras retrógradas, palco de constantes lutas tribais, cujo território é totalmente sulcado por esgotos humanos a céu aberto.
A cultura tóxica não é de hoje certamente, mas o actual executivo fez questão de lhe aumentar a toxicidade. Não só em razão da linha política geral seguida, sem perspectiva, sem espessura, inculta, que hoje, todos o compreendemos, não passa de um enorme logro. Mas também porque no sector específico da cultura --liderado sucessivamente por dois personagens cuja actuação sugere frequentemente estarmos em pleno reino do poltergeist-- se alcançou o nível zero. É o pior do mau! É o retorno ao período mais negro, dos dias mais negros que jamais vivemos nesta matéria!
Os tiques autoritários evidenciados nas respostas destes governantes, perante uma interpelação, totalmente pertinente, feita com toda a legitimidade e com enorme coragem (um facto digno de realce neste país de cágados...), são fáceis de explicar. Ainda estão no tempo em que quando se ouvia falar de cultura se sacava do revólver. Falta classe à classe política. Bem poderiam aproveitar o tal projecto das "Novas Oportunidades" para se reciclarem a eles próprios e subirem um pouco a altura do seu voo. Neste momento não passam de aves de voo raso.
Estas figurinhas são, contudo, as mesmas que quando partem em viagem de Estado, ou quando precisam de imagens fortes para promover o país se encavalitam nas artes e nos artistas para mostrarem ao mundo as nossas e as suas virtudes... Mas, não se pode tomar banho com perfume. Antes de o perfumar, o corpo precisa de passar por uma boa barrela, com um bom sabão e água. De outro modo o mau cheiro sente-se sempre lá ao fundo.
Os artistas, esses, continuam a sua cruzada solitária, fazendo todos os dias das tripas coração e buscando fora os apoios que a sua terra lhes sonega. A democracia ainda não mora aqui.