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2021/03/18

Eleições na Holanda: Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes

Como previsto, os holandeses votaram na estabilidade. Esta é a principal conclusão a extrair do resultado das eleições de ontem, que deram (mais uma vez) a vitória ao maior partido governamental VVD (Liberais de Direita) e aos seus parceiros governamentais da última legislatura, D'66 (Liberais Progressistas), CDA (Democratas-Cristãos) e CU (Cristãos Reformadores). Ou seja, cerca de 50% da votação total, correspondentes a 78 lugares no parlamento (150 lugares). 

Em linhas gerais, podemos concluir que a Direita Democrática e Conservadora, ganhou, aumentando globalmente a sua votação; que a Esquerda, na sua totalidade, perdeu; e que a Extrema-Direita, racista, xenófoba, e negacionista, apesar de uma ligeira subida, ficará afastada do poder.   

Estes resultados estão em linha com as sondagens dos últimos dias, ainda que o governo cessante se tenha demitido há dois meses, devido a um escândalo de subsídios sociais, indevidamente retirados a milhares de famílias, a maioria das quais com apelidos estrangeiros. Quando foi revelado o relatório sobre este escândalo, o governo Rutte (VVD) assumiu a responsabilidade na gestão do episódio, salvando desta forma a "honra do convento" e,  provavelmente, um resultado menos positivo nestas eleições. 

Esta foi, de resto, uma campanha morna, com debates medíocres, como aquele entre o primeiro-ministro cessante Rutte (VVD) e o líder do principal partido da oposição Geert Wilders (PVV), um xenófobo racista, cujo programa se resume à proibição do Islão e à expulsão de imigrantes muçulmanos. Num período, em que os cidadãos do país estão mais preocupados com a actual pandemia e com o programa de vacinação, trazer para o debate eleitoral questões etnico-culturais, só por mera chicana política. Isso mesmo, parece ter percebido o eleitorado, que apostou na continuidade e numa certa segurança que lhe oferecem os políticos do "mainstream". 

Um dos temas que esteve ausente dos debates, foi a Europa, assim como a estratégia europeia para controlar a pandemia (vacinação) e a saída da crise económica e social que se seguirá. A Holanda que, juntamente com os chamados "países frugais" (Finlândia, Austria e Suécia), é um dos países que mais ferozmente se opôs à mutualização da dívida pública dos estados-membros - forma de entreajuda encontrada para ajudar os países mais atingidos pela crise sanitária (Itália, Espanha, etc.) - acabaria por concordar com o "fundo de ajuda" proposto por Von der Leyen (750.000 milhões de euros) ainda que este montante esteja sujeito à aprovação dos respectivos parlamentos e ao escrutínio posterior da sua aplicação em cada país. A proposta, já aprovada na generalidade, está também sujeita à aprovação final do parlamento europeu.   

Outra das questões que continuam a dominar a opinião pública holandesa, são as medidas de confinamento impostas ("recolher obrigatório" a partir das 22h, por exemplo) um "unicum", num país que não conhecia tal medida, desde a ocupação nazi durante a última guerra. Esse foi, de resto, um dos tópicos centrais da campanha eleitoral do FvD, um jovem partido, de extrema-direita populista, criado à imagem do seu líder (Baudet) e dos seus seguidores "anti-sistema" (!?), na linha do negacionismo Trumpista e Bolsonarista de outras latitudes. 

A esquerda na sua totalidade (PvdA, SP e Groenlinks) não conseguiu mais do que 16% dos votos, correspondendo a 26 deputados, provavelmente a maior surpresa destas eleições, após os bons resultados obtidos recentemente pelo Groenlinks (Verdes). Já o PvdA, um dos partidos históricos da democracia holandesa (fundador do estado social) continua longe dos resultados obtidos nas décadas de setenta, oitenta e noventa, quando os trabalhistas governaram no país. 

Confrontado com as perguntas dos jornalistas e os números da sua vitória (abaixo do previsto), o primeiro-ministro cessante (Rutte) concordou com algumas críticas sobre as políticas seguidas (aumento de impostos, cortes no sector social e na saúde) e prometeu maior empenho num futuro gabinete, que liderará pela 4ª vez consecutiva, a mais longa presidência da história holandesa do pós-guerra.

Hoje mesmo, começaram as conversações entre os dois partidos da coligação mais votados (VVD e D'66) com vista à formação de um novo governo. Como é tradição, um processo que pode durar meses.

Resultados Eleitorais (principais partidos com assento parlamentar): 

VVD (Liberais de Direita)          22,1% (35 deputados)

D'66 (Liberais Progressistas)      14,8% (23 deputados)

PVV (Extrema-Direita)               10,9% (17 deputados)

CDA (Democratas-Cristãos)         9,8%  (15 deputados)

PvdA (Sociais-Democratas)          6,%    (9 deputados)

SP (Extrema-Esquerda)                 6%     (9 deputados

FvD (Populistas de Direita)           3,8%  (8 deputados)

GroenLinks (Verdes)                      3,5% (8 deputados) 

PvdD (Partido para os Animais)    3,2% (6 deputados)

CU (Cristãos Reformadores)          3%    (5 deputados)                               

Nota: Estes são os partidos com maior representação parlamentar. O futuro parlamento holandês, saído destas eleições, passará a incorporar 17 partidos no total. A totalidade dos deputados é de 150. Para obter uma maioria qualificada, são necessários 76 deputados.

2017/11/11

Postais da Holanda (2)


Na curta estadia que nos levou à Holanda, e aproveitando uma ida à cidade de Haia, revisitámos um dos nossos museus favoritos naquele país, a Mauritshuis, situada na Plein 29, uma fervilhante praça pejada de esplanadas, mesmo junto ao Parlamento holandês.  
A Mauritshuis é, de há muito, um dos mais famosos museus de arte na Holanda. O Museu alberga o Gabinete Real de Pintura, constituido por 841 objectos, sendo a maior parte pinturas da Idade de Ouro da pintura holandesa.
As colecções contêm trabalhos de Johannes Vermeer, Rembrandt van Rijn, Jan Steen, Paulus Potter, Frans Halls, Jacob van Ruysdael, Hans Holbein, para além de muitos outros.
Originalmente, o edifício foi a residência do Conde John Maurice de Nassau. Actualmente é propriedade do governo da Holanda e está incluído nos 100 lugares de Herança Histórica Holandesa. Em 1822, a Mauritshuis abriu ao público para alojar o Gabinete Real de Pintura e o Gabinete Real de Raridades. Em 1875, o Museu tornar-se-ia disponível para pintura, tendo sido privatizado em 1995. Em 2007, o Museu anunciou o seu desejo de expandir e, em 2010, foi apresentado o "design" definitivo para as futuras instalações. A renovação iniciou-se em 2012, o que obrigou a um encerramento temporário do Museu, tendo ficado concluida em 2014. Durante a renovação, mais de 100 pinturas foram temporariamente transportadas para o GemeenteMuseum da cidade. Cerca de 50 outras pinturas, incluindo a famosa "Rapariga com o Brinco de Pérola" de Vermeer (provavelmente, a mais famosa peça do Museu), foram emprestadas para os Estados Unidos e Japão, onde estiveram expostas.
O Museu seria reaberto em 27 de Junho de 2014, ocupando agora uma área que quase duplica a original e que liga dois edifícios, através de uma galeria subterrânea, onde estão instaladas as bilheteira, vestiário, loja do Museu e outros apoios. Um elevador transparente liga os diversos andares, que podem ser visitados aleatoriamente, dado que estão ligados por uma escadaria central que atravessa todo o edifício. Graças ao mecenato, o Museu adquiriu recentemente 10 novas peças representativas do período clássico e contemporâneo, entre os quais devem ser destacados quadros de Rembrandt, Karel Appel e uma escultura de Picasso. Muitos destes quadros pertenciam a particulares e organismos vários que o estado holandês, numa meritória iniciativa,  adquiriu para enriquecer a colecção do Museu.
É difícil destacar as obras que mais admiramos e que sempre nos surpreendem a cada visita. Que mais pode ser dito sobre obras como "A lição de anatomia do Dr. Nicolaas Tulp" (Rembrandt), "Vista de Delft" (J. Vermeer), "The Young Bull" (Paulus Potter) "Laughing Boy" (Frans Halls) "Self-Portrait" (Rembrandt), "Night Scene" (Rubens) ou a "Rapariga do Brinco de Pérola" (Vermeer), para citar alguns dos mais famosos?
Uma revelação permanente, a Mauritshuis, na melhor tradição holandesa de museus e de pintura, ao qual regressamos sempre, com redobrado prazer.       

2017/03/25

Dijsselbloem (et pour cause...)


Comemoram-se, hoje, 60 anos do Tratado de Roma, que daria origem ao Mercado Comum Europeu, posteriormente apelidado de União Europeia.
Um projecto idealizado pelos franceses Jean Monnet (Economista) e Robert Schuman (Ministro), apoiado pelo chanceler alemão Adenauer, considerados os "pais fundadores" da actual Europa.
Com todos os seus avanços e recuos, o projecto europeu - criado no pós-guerra, para evitar futuros conflitos no continente - teve desde logo um mérito: o de conseguir manter a paz durante sessenta anos. Outros avanços significativos foram, entretanto, conquistados, bastando lembrar a abolição de fronteiras entre os estados, a livre circulação dos cidadãos, a criação de uma moeda única (o Euro), para além do "estado social" mais desenvolvido e protector de todo o Mundo Ocidental.
É este modelo que, nos últimos anos, vem sendo posto em causa, não só por muitas das forças partidárias que representam os estados-membros da União, como por uma grande parte das populações, as quais não se revêem em muitas das políticas e burocracia das diversas instituições (Comissão, Conselho, Parlamento) que constituem a União Europeia.
As críticas têm, muitas delas, fundamento e sessenta anos passados sobre o "sonho" de uma Europa unida, são visíveis as "fendas" verificadas no edifício da UE, com o aparecimento de movimentos e partidos que, mais do que a união e a solidariedade, procuram a divisão e o regresso ao estado-nação que esteve na origem dos dois maiores conflitos do século passado na Europa.
O caso mais recente e paradigmático, deste sentimento anti-europeu, foi o "Brexit" (do qual as "ondas de choque" estão longe de ter terminado), ainda que outros países do Reino  (Escócia e Irlanda do Norte) possam seguir o caminho inverso. Já a França (de Le Pen), advoga a saída da Europa, enquanto a Hungria e Polónia, defendem modelos autoritários de sociedade em tudo contrárias ao espírito da Europa democrática. No meio, um bloco nórdico, que perfilha o modelo alemão e um bloco mediterrânico, onde se ensaiam novos modelos fora do jugo monetarista germânico.
Paralelamente (et pour cause) novos problemas internacionais, trouxeram para a Europa outros desafios (crise da banca internacional, guerras no Médio-Oriente, refugiados e terrorismo) que agravaram as condições e a percepção das populações, sobre a necessidade de mudar o paradigma actual, única forma de ultrapassar o impasse existente reconhecido pela maior parte dos seus intervenientes. Basicamente, parecem existir dois modelos: o de continuar como se nada se passasse (esperar para ver) com a esperança que tudo se resolva; e o de "não há alternativa", segundo o qual os países devem seguir mecanicamente os Tratados, mesmo quando a realidade desmente os modelos aplicados.
Estão, neste segundo grupo, os países do chamado núcleo alemão (Alemanha, Austria, Finlândia e Holanda) que estiveram na origem da criação da "moeda única", cuja paridade, sendo igual no valor facial, é desigual nas economias reais. Ou seja, o valor facial do Euro, não corresponde ao valor real das economias que adoptaram a moeda única.
Esta desigualdade foi-se acentuando ao longo dos anos, entre economias que exportam os seus produtos de valor acrescentado (os países nórdicos) por preços valorizados; e as economias que produzem "commodities" de baixo-valor (países do Sul) com os consequentes desequilibrios das respectivas balanças comerciais. Esta desigualdade, que poderia ser resolvida através de um Banco Europeu, caso este pudesse "emprestar" directamente dinheiro a estados em vez de bancos, não acontece na União Europeia actual (pois esta não é uma Federação de Estados, como os EUA ou a Russia). Da mesma forma, teria de existir um sistema fiscal comum, que não permitisse a existência de "offshores" legais, como na Irlanda, na Holanda ou no Luxemburgo, onde são praticadas taxas de juros abaixo da média europeia e para onde são deslocados os lucros das multinacionais que, dessa forma, fogem aos impostos, penalizando as economias nacionais. É o caso da Holanda, onde 19 das maiores 20 empresas portuguesas cotadas em bolsa, têm as suas sedes fiscais.
Tudo isto é sabido pela Alemanha (o principal beneficiário desta desigualdade), assim como pelos países credores (França, Holanda, Finlândia, etc.) que possuem excesso de liquidez e preferem emprestar a juros acima da média, mesmo sabendo que nunca receberão as totalidades das dívidas soberanas (que vão sendo renegociadas) e continuam a acumular lucros chorudos, através dos juros pornográficos exigidos.
Ora o senhor Dijsselbloem, que sendo parvo não é burro (coisas diferentes), veio esta semana lembrar os "países dos Sul" (curioso epíteto) que devem pagar as dívidas, em vez de "beber copos e andar com mulheres" (!?). Um "lapso freudiano", certamente, que nem sequer é original, pois o primeiro-ministro holandês (Rutte) tinha dito precisamente o mesmo numa cimeira europeia o ano passado, como bem nos lembrou hoje um conhecido canal televisivo. Ou seja, determinados políticos europeus, já nem sequer disfarçam, mas dizem as maiores alarvidades, esquecendo-se que a Europa idealizada faz hoje sessenta anos (quando a maior parte deles não tinha sequer nascido) teve, nos seus primórdios, estadistas com a grandeza suficiente para idealizarem um projecto onde os países e as pessoas eram o mais importante. Um projecto comum, numa casa comum, onde a solidariedade fosse o factor determinante. Aparentemente, nesta Era de monetarismo neoliberal, a economia passou a ser mais importante que as pessoas. Daí, a situação actual, onde a austeridade tem sido comum à maior parte dos países da União, confrontados com uma crise que é, ela própria, resultado do modelo da globalização desregulada. Acontece que a História não terminou e as pessoas têm memória, como se viu nas recentes eleições holandesas, onde os partidos da coligação governamental, da qual fazem parte os liberais de Rutte e os sociais-democratas de Dijsselbloem, foram penalizados com uma derrota sem precedentes (37 lugares perdidos no total!). Razão: cortes no valor de 135 mil milhões de euros nos últimos seis anos de governação, que afectaram principalmente os sectores da saúde, o apoio a idosos, a educação e o emprego jovem (50% dos holandeses entre os 20 e 30 anos não conseguem arranjar emprego, ou têm empregos temporários), para além da cultura (mil milhões de cortes em 5 anos). É verdade, que a economia holandesa apresenta resultados satisfatórios, quando comparada com a de outros países da União: 2,3% de crescimento económico, pouco desemprego (5%) e mais casas vendidas. Mas, estes, são números macro, que não reflectem as expectativas da população, que viu o seu poder de compra diminuir de 87% para 72% nos últimos trinta anos, contrariamente ao lucro das empresas e multinacionais, cujos lucros duplicaram e passaram a ser investidos em países de mão-de-obra barata ou depositados em "offshores" um pouco por todo o Mundo. Ou seja, as desigualdades, dentro da sociedade holandesa, aumentaram, como de resto na maior parte dos países e dentro da União, hoje cada vez mais uma Europa a "duas velocidades".
No entanto, os comentários xenófobos e racistas de Dijssebloem, não têm apenas a ver com "vinho e mulheres do Sul". Devem também ser vistos à luz da sua perda de influência no governo holandês, donde está de saída e da necessidade da aprovação do seu verdadeiro patrão (o ministro alemão Schauble) de cuja opinião necessita para continuar presidente do Eurogrupo. Por alguma razão, as suas polémicas opiniões foram dadas a um jornal alemão. Representam a mesma arrogância ariana, que, no passado, quis dividir os povos em "superiores" e "inferiores" e uma ideologia (neoliberal) que não suporta a ideia da existência de governos, que ousem ensaiar um modelo diferente da cartilha imposta pelo "diktat" de Berlim. Um triste, o Jeroen.

 

2017/03/16

Holanda: da vitória dos liberais à derrota dos populistas


Na Holanda, o partido VVD (direita liberal) venceu as eleições, perdendo deputados (tem agora 31); enquanto o partido PVV (extrema-direita populista) perdeu, ganhando deputados (tem agora 19).
À esquerda, o grande perdedor foi o PvDA (trabalhista), com apenas 9 deputados eleitos; enquanto o partido Groenlinks (Verdes) viu quatriplicar os seus representantes (de 4 para 16) podendo ser considerado o grande vencedor da noite.
Bons resultados, foram igualmente obtidos pelo CDA (democrata-cristão) que tem agora 19 deputados e pelo D'66 (centristas liberais) que obteve 19 lugares. Ambos poderão fazer parte do próximo governo, que necessita de um apoio mínimo de 76 deputados no Parlamento.
Tudo aponta para um longo período de formação governamental, uma vez que, tradicionalmente, não há maiorias absolutas na Holanda e o partido vencedor necessitar agora de 4 ou mais partidos para obter a maioria necessária.
Resumindo: a Holanda irá provavelmente conhecer um governo mais à direita, já que coligação entre os liberais (VVD) e os sociais-democratas (PvDA) deixará de funcionar, devido à estrondosa derrota dos sociais-democratas (perderam 29 lugares). Quanto às hipóteses de Wilders vir a governar, nunca se pôs, uma vez que o "cordão sanitário" criado contra o seu partido, impedia à partida qualquer acordo.
Resta acrescentar que a vitória dos liberais (e da direita em geral) é também uma consequência da recuperação de alguns temas da direita xenófoba e islamofóbica do PVV, como a luta contra a criminalidade atribuida à comunidade muçulmana e aos últimos acontecimentos de Roterdão, quando o primeiro-ministro foi lesto a proibir um comício turco, o que lhe valeu ganhar uma popularidade que estava a perder nas sondagens. A derrocada do PvDA era esperada e deve ser lida como uma penalização dos seus eleitores pelas políticas de austeridade levadas a cabo pelo governo cessante (do qual fazia parte), nomeadamente nos sectores da saúde, no apoio aos idosos, na educação e no emprego jovem. Também aqui, a colagem dos sociais-democratas às políticas neoliberais da direita, não deu frutos e por isso quase desapareceram (efeito Pasok).
Para alguns imigrantes na Holanda (entre os quais um conhecido escritor) que votaram em Wilders por acreditarem estar a votar contra o sistema, uma má notícia: ainda não foi desta que o fascismo passou.        

2017/03/12

Eleições holandesas: teste ao populismo



No ano de todas as eleições, a Europa terá o seu primeiro grande teste de 2017 na Holanda, onde, no dia 15 de Março, haverá eleições legislativas.  
Depois dos resultados, algo surpreendentes, do "Brexit" e da vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas, as atenções viram-se agora para a Europa que conhecerá, este ano, três actos eleitorais considerados determinantes para o futuro europeu: na Holanda, em França e na Alemanha, todos países fundadores da União.   
No fundo, trata-se de saber se os resultados do Reino Unido e dos EUA, ainda que por razões diferentes, confirmam (ou não) uma tendência internacional que muitos apelidam de populismo, neste caso de direita.
Pesem as especificidades de cada país e os temas dominantes das respectivas campanhas eleitorais, existem traços comuns possíveis de identificar: desde logo, o apelo ao proteccionismo económico em resposta à liberalização dos mercados (que conduziu ao aumento das desigualdades, fruto de desinvestimento nas sociedades ocidentais e da deslocação do capital para países de mão-de-obra barata) com o consequente aumento do desemprego interno (é o caso dos EUA); depois, o apelo ao nacionalismo, como resposta ao crescente centralismo e burocracia do "diktat" de Bruxelas, em cujos métodos grande parte dos países membros não se revêem (são os casos do UK, França e da Holanda); finalmente, o medo do terrorismo islâmico, potenciado pelas recentes vagas de refugiados de países muçulmanos em guerra (como é o caso na UK, França, Holanda e Alemanha).
Não é, pois, de admirar, que em todos estes países, tenham surgido políticos de verbo fácil e discurso demagógico que "cavalgam a onda" da insatisfação (e ignorância) de uma parte significativa das populações, desiludidas por anos de promessas e há muito desconfiadas das "elites" que os governam, a quem acusam de as terem descartado.
Em tempos de incerteza social e competividade no mercado de trabalho (ao qual, muitos destes deserdados da riqueza nacional já não voltam, por serem preteridos por estrangeiros e pela globalização actual) fácil é arranjar "bodes expiatórios", agora que os refugiados chegados à Europa recebem auxílio e são mais um factor da pressão social existente. Juntem-se os atentados dos últimos anos em França, na Bélgica e na Alemanha, todos eles perpretados por residentes nesses países (ainda que com nacionalidade europeia) e temos assim reunidos os elementos para uma "tempestade perfeita". Líderes como Farage no Reino Unido, Le Pen em França ou Wilders na Holanda, são apenas três exemplos desta corrente nacionalista e proteccionista, anti-União e islamofóbica, que ganhou espaço na arena política. Todos eles usam os estrangeiros como moeda de troca, acusando os seus governos de os acolher e proteger, em detrimento dos nacionais, assim como todos eles agitam o espantalho do terrorismo islâmico, como prova última dos perigos inerentes à entrada de mais muçulmanos no espaço europeu.
O discurso xenófobo não se limita, de resto, aos países citados, mas a outros países membros da União Europeia, como a Hungria e a Polónia, onde governos de direita já alteraram as constituições e construiram muros para evitar a entrada de refugiados, numa clara subversão dos valores democráticos e humanistas que deviam prevalecer na Europa. Resta acrescentar, que o actual fenómeno nacionalista e populista na Europa, também foi sendo alimentado por politicas erráticas e pressupostos falsos, dos quais não podem ser excluídos os partidos e governos sociais-democratas que, nas últimas duas décadas, vêem pactuando com as políticas de compromisso que contribuiram para a despolitização e exclusão crescente de grande parte das populações nestes países.
A três dias das eleições holandesas, as possibilidades do partido PVV (extrema-direita, islamofóbica) ser o partido mais votado, são praticamente as mesmas do VVD (liberais de direita, actualmente no governo) que, até este fim-de-semana, tinha uma ligeira vantagem nas intenções de voto. Os grandes penalizados, serão os partidos da esquerda, o PvDA (Partido Trabalhista) e o SP (Socialistas), assim como o D'66 (centristas). O CDA (Democrata-Cristão), ainda que bem posicionado, deve ficar fora do pódio vencedor. Resta acrescentar, que o PvDA e o CDA, partidos que historicamente têm feito parte da governação, foram os "construtores" do Estado Social na Holanda, hoje parcialmente desmantelado pela austeridade e pelos cortes orçamentais dos últimos anos, o que pode explicar muito da insatisfação na sociedade holandesa. Neste contexto, o partido GROENLINKS (Esquerda Verde) uma coligação formada nos anos '90 pelo Partido Comunista, pelo Partido Pacifista e pelo Partido Reformador, a subir exponencialmente nas sondagens, pode tornar-se um dos partidos mais votados nestas eleições, com grande probabilidade de entrar no próximo governo. Uma coisa, parece certa: independentemente de ser (ou não) o mais votado, o partido de Wilders - que este fim-de-semana pode ter ganho novo alento devido aos incidentes entre a comunidade turca e a polícia holandesa de Roterdão - não deverá entrar para o governo. Os restantes partidos já declararam não querer governar com este partido xenófobo e islamofóbico. Dada a composição do actual parlamento (150 lugares) que pode vir a eleger 14 bancadas partidárias, é de esperar um longo período de formação governamental, cujo gabinete poderá ser composto por 4 ou mais partidos.
Na próxima quarta-feira, saberemos mais.

2016/03/24

O Holandês Voador


Vi-o tantas vezes jogar, que esqueci o número de partidas.
Lembro-me, isso sim, da primeira vez que o vi ao "vivo".
Eu tinha chegado a Amsterdão há pouco mais de dois anos e trabalhava numa companhia holandesa de seguros. Era Inverno e, além do frio, nevava copiosamente. Na semana anterior ao jogo, um dos colegas do escritório perguntou-me se eu não ia ver o Benfica, que tinha calhado em sorteio ao Ajax. Disse-lhe não ser essa a minha intenção, mas ele insistiu e comprou os bilhetes. Lá fomos, no dia 12 de Fevereiro de 1969, ao Estádio Olímpico de Amsterdão, lugar mítico para os portugueses, onde o Benfica tinha ganho a sua segunda taça de campeões europeus, em 1962. 
O Estádio Olímpico era, à época, descoberto e, nessa noite, a intempérie afastou muita gente do estádio. Recordo-me de estar duas horas de pé, ao frio e à neve, e de ficar completamente enregelado. Não me lembro dos pormenores do jogo, mas da exibição de dois jogadores naquela noite gelada: do Eusébio, já longe do seu período áureo, mas suficientemente perigoso para suscitar "ohs" de espanto de cada vez que pegava na bola; e do jovem Cruijff, em início de carreira, o grande ídolo do futebol holandês. Os portugueses ganharam (3-1), o que me valeu elogios de todos os colegas na manhã seguinte. Eu era o único estrangeiro da empresa, onde trabalhavam mais de cinquenta pessoas e, nesse dia, penso ter incarnado o "espírito" da pátria...
O deslumbramento duraria pouco. O Ajax ganharia em Lisboa a segunda-mão da eliminatória, pelo mesmo resultado, o que obrigou a um terceiro jogo em Paris. Com Cruijff em grande forma, a equipa holandesa derrotaria os "encarnados" por 3-0.
Nunca mais deixei de "seguir" o Johan que, a partir daí, passou a ser o meu ídolo local.
Os anos que seguiram, confirmaram o seu talento e o currículo está aí para prová-lo. Como jogador, como treinador e como pensador do futebol. No Ajax primeiro e no Barcelona mais tarde, não esquecendo a "laranja mecânica", a selecção holandesa que melhor praticou o "futebol total". Um génio do futebol, incomparável na sua forma de jogar e de influenciar o desporto que o tornaria famoso.
Partiu hoje, este holandês que "voou" acima dos seus pares, quem sabe na procura de voos mais largos.

2015/09/30

Dez dias noutra cidade (2)

A par das inúmeras actividades e eventos que a cidade de Amsterdão oferece ao visitante, o "Open Monumentendag" (Dia do Monumento Aberto), constitui uma oportunidade única para visitar, gratuitamente, edifícios classificados que não fazem parte do circuito turístico da cidade. São edifícios ou complexos privados e públicos que, durante o segundo fim-de-semana de Setembro, são abertos à população e, onde, amáveis voluntários, devidamente identificados com uma t-shirt preta, fazem permanências diárias, prestam informações, vendem livros e postais e servem cafés e bolachas a quem o desejar...
Este ano, a municipalidade "abriu" 22 desses monumentos, que podiam ser visitados durante os dois dias do evento, sendo que nalguns casos era necessário marcação prévia, devido a afluência esperada do público.
Na impossibilidade de visitar todos, devido à distância a percorrer, optámos pelos mais próximos de casa, situados na zona Centro-Este da cidade.
Iniciámos a nossa visita pelas instalações da Marineterrein (Terreno da Marinha) um complexo construído em 1656 pelo Almirantado de Amsterdão. Da construção inicial, apenas restam o muro exterior, o edifício do porto e o portão original. Durante 250 anos, foram ali construídos os barcos da marinha de guerra holandesa. Em 1915, devido à falta de espaço, os navios passaram a ser construídos em Den Helder, no norte do país. Hoje, a maior parte das casernas que povoam o espaço, são utilizadas por serviços administrativos da marinha e, no jardim, ainda podem ser vistas diversas peças navais a lembrar os gloriosos tempos da armada neerlandesa.
Seguiu-se o Arcam, um edifício futurista, construído em 1986, onde funciona um centro de informação sobre a cidade e a sua arquitectura. Quatro andares, repletos de maquetas, desenhos e projectos sobre o aproveitamento lacustre de uma cidade construída sobre a água. De realçar a excelente biblioteca e loja, para além da zona creativa, onde as crianças podiam dar largas à sua imaginação através de construções na areia...
As "Foeliepanden" (os prédios Foelie) são uma série de prédios antigos, situados no antigo bairro judeu da cidade, onde existia uma grande e animada comunidade de comerciantes. Com a deportação e morte da maioria dos seus habitantes durante a 2ª guerra, o bairro perdeu os seus habitantes originais e os prédios foram abandonados. Dos que restam, a "Stadsherstel" (Recuperação Citadina) iniciou a restauração de alguns prédios, que podem ser agora visitados na sua traça original.
Seguiu-se o edifício "Burcht van Berlage" (Castelo de Berlage), definitivamente o ponto alto destas visitas. Um imponente e sólido edifício, da autoria do famoso arquitecto H. P. Berlage, onde desde 1900 funciona o mais antigo sindicato holandês (lapidadores de diamantes). Uma obra magnífica, de paredes forradas a tijolo branco e amarelo e decoradas ao estilo Arte Nouveau. O páteo interior, iluminado por candeeiros de ferro forjado, é rodeado por íngremes escadarias que conduzem a salas revestidas a madeira negra, onde se destacam pinturas e cartazes alusivos ao movimento sindical no século XX. Através do telhado envidraçado e dos inúmeros vitrais que decoram o edifício, podem ainda ser apreciados os pormenores da construção onde tudo, desde o mobiliário aos puxadores de portas, tem a mão de Berlage. Um verdadeiro "castelo", a que não falta uma torre, construída num dos ângulos do edifício, ainda que não acessível ao público.
Porque estávamos perto, não perdemos a oportunidade de visitar a esplanada do Zoo, aberta ao público, onde celebrámos a "pausa cultural" com uma não menos apetecível tarte de maçã adequada ao ambiente.
O dia não terminaria sem uma visita ao Hall da antiga Remise de Eléctricos de Amsterdão, situada na zona Oeste da cidade. Um espaço, anteriormente utilizado como terminal e oficina de carros eléctricos, que há dois anos foi totalmente recuperado e onde hoje funcionam lojas, restaurantes, bares, salas de cinema de arte e um hotel.  Um projecto arrojado e bem integrado numa zona depauperada da cidade, ainda que sujeito a pressões imobiliárias inerentes a este tipo de construções.
Depois de um dia preenchido por emoções, só podíamos ambicionar o descanso. Esperava-nos uma cerveja branca de malte, acompanhada por uma magnífica sandes de salmão do Alasca, única forma de recuperar do cansaço...      

2015/09/22

Taxi Driver (2)



Boa dia. Necessito de um táxi para as 4h. da manhã.
- Não tem problema. Qual o destino?
Aeroporto de Schipol.
-  Qual a morada?
...............................
O preço, é o indicado no anúncio?
- Sim, são €37,50.
Então, até amanhã.
- Até amanhã. Telefono 10 minutos antes das 4h. para poder descer a mala. 
................................
- Bom dia. São 3h e 50 minutos. Daqui a 1 minuto estou à sua porta. 
Ok. Vou já descer.
- É só um passageiro?
Sim, sou só eu...
- Em que companhia viaja?
TAP-Air Portugal
- OK. Porta 2. Vai para Portugal?
Sim.
- É português?
Sim
- Viagem de negócios?
Não, turismo...
- Mas, fala bem holandês...
Sim, vivi na Holanda muito tempo.
- Ah, percebo. Como está Portugal?
Quando de lá saí não estava muito bem...
- Então, é a crise, não é?
A crise e outras coisas...
- Percebo. Gosto muito de Portugal.
Conhece?
- Sim, sim. Vou sempre para o mesmo sítio, Albufeira.
Ah, o Algarve...e do que é que gosta mais?
- Gosto de tudo. Muito calmo. A praia, o sol, a comida, as pessoas. Para as crianças, é muito bom.
Vai sempre para o Algarve? Devia ir até mais ao Norte.
- Não, também vou para as Canárias. Muito bom...
É taxista a tempo inteiro?
- Não, só faço Schipol, às noites. Entro à meia-noite e saio às 8h. da manhã. Depois vou para casa, levo os meus filhos à escola e vou dormir. Levanto-me à hora de almoço e tenho a tarde toda livre para mim e para estar com a família.
E chega?
- Chega e sobra. A minha mulher trabalha de dia e eu de noite. Não há "stress"...
Em Portugal, os taxistas andam a protestar contra a Uber...
- Sim, eu sei, mas aqui estão legalizados.
Sim, é melhor. Não há confusão.
- Pronto, já cá estamos. Vou deixá-lo na porta 1, porque a outra ainda está fechada, não se importa?
O táximetro indica €51.50...está certo?
- Está, mas o senhor só paga €37,50. Foi o combinado ao telefone, não foi?
Foi, foi...
- Aqui está a sua mala. Desejo-lhe uma boa viagem até ao seu país (aperto de mão).
  

2014/04/24

25A40 - O dia mais longo

No dia 25 de Abril de 1974 estava em Amsterdão, onde me tinha exilado cerca de oito anos antes. Na véspera, tinha combinado com o Miguel Castro, também ele um exilado político, passar por uma tipografia anarquista holandesa, onde tinhamos encomendado uma "rede" de imprimir serigrafias para o Comité de Refugiados Portugueses na Holanda. Lá fomos, ainda não eram 9 horas da manhã, montados numa só bicicleta, buscar a "encomenda". Custou-nos 100 florins e, no acto da entrega, lembro-me do tipógrafo nos ter dito que seria bom que não tivéssemos de a utilizar muito tempo, pois seria sinal que o exílio não iria ser longo...
Dali, seguiria para a Faculdade de Antropologia, onde uma hora mais tarde participava num grupo de trabalho com colegas holandeses. A maior parte dos estudantes já se encontrava na cantina e,  ao verem-me, dispararam: "O que estás aqui a fazer? Não vais para Portugal?". Perante a minha surpresa, continuaram: "houve um golpe de estado no teu país e pensávamos que já soubesses...". Imaginei que se referiam ao golpe abortado de 16 de Março, ainda fresco na memória, e pensei que estavam a gozar comigo. Mas não, asseguravam-me, tinha sido naquela mesma noite. Esperei pelo fim da aula, onde o professor me disse mais ou menos a mesma coisa: "pensava que não vinhas hoje...". 
Saído da faculdade, corri a comprar o "Het Parool", o primeiro jornal da tarde, onde confirmei a notícia. Lá estava, na primeira página, a fotografia do Spínola, de monóculo, sob o título "Coup d'Etat in Portugal". Porque as notícias eram parcas e resumiam-se a uma descrição de uma acção armada dirigida por algo que dava pelo nome de MFA, à cabeça do qual estaria o famoso general, temi o pior: outro golpe de direita.
Seguiram-se telefonemas para a comunidade portuguesa em Amsterdão e para exilados noutros países europeus, parte dos quais sabia tanto como eu. Telefonar para Portugal era uma impossibilidade, dado o "estado de sítio" existente, pelo que ficámos dependentes das notícias das agências e meios de comunicação holandeses. À medida que a tarde avançava, os noticiários iam sendo mais específicos, ainda que a incerteza fosse total. Já em casa, telefonam-me de duas estações de televisão: a VPRO, uma estação privada de tendência socialista-libertária, que desejava saber se eu ia voltar a Portugal, para me acompanharem no avião e poderem filmar o regresso de um exilado; e da NOS, a televisão pública holandesa, para uma entrevista em directo no noticiário dessa noite, onde seria questionado sobre os acontecimentos em Portugal.
Acertei os pormenores da entrevista e sugeri as instalações do Comité de Desertores, situado num edifício no centro da cidade. Reunimos algumas dezenas de refugiados portugueses e fomos para as instalações do Comité, vazias àquela hora. Lá estava o carro de exteriores da NOS e, depois de ensaiadas as perguntas, assistimos ao telejornal, que abriu com a notícia do dia: o golpe de estado em Portugal. As primeiras imagens (a preto e branco) eram de militares e da população em Lisboa, seguidas da proclamação da Junta de Salvação Nacional, dirigida por Spínola. Ao ver aqueles rostos fechados, a maior parte deles fardados e de óculos escuros, não pude deixar de pensar na "junta" chilena de Pinochet. Quando o entrevistador me perguntou sobre o que pensava do golpe, lembro-me de ter respondido que, a avaliar pelos personagens, me parecia um golpe de direita, tanto mais que tinha havido uma tentativa de golpe em Março, ligada a "spinolistas". Teriamos de esperar para confirmar, pelo que não aconselhava ninguém a voltar a Portugal naqueles primeiros dias, até se confirmarem as notícias, adiantei. Fim da entrevista, que seria repetida de hora a hora, até ao fecho da emissão. O resto da noite foi passado em animada discussão, com centenas de exilados que iam chegando ao Comité de Desertores. Um ambiente de tensão, dominado por sentimentos de alegria e de incerteza, em relação a uma realidade que não podíamos avaliar directamente.
A manhã do dia seguinte trouxe mais notícias e entrevistas, agora para a rádio e, à medida que iam sendo conhecida a adesão da população, a certeza que as coisas estavam a ir no bom caminho. Faltava ainda a libertação dos presos políticos (o que só viria a acontecer na madrugada do dia 27) e, entretanto, tinha havido disparos da sede da PIDE, o que indiciava haver resistência da parte dos fascistas.
Quando, nesse fim-de-semana, passei pelo Albertkuip, o maior mercado ao ar livre da cidade, onde vendíamos o jornal "O Alarme!" (uma publicação de portugueses exilados em Grenoble), fui insultado por diversos emigrantes portugueses, que me tinham visto na televisão: "Então, você não tem vergonha de dizer mal do Spínola e de Portugal?". Respondi que não podia fazer outra coisa, dada a reputação do famigerado general. Mas, sim, tudo indicava que o "golpe" tinha sido de tendência democrática e ainda bem. Não ficaram lá muito convencidos...
Hoje, passados 40 anos - sobre um dia que parecia nunca mais acabar - continuo a pensar que foi bom ter errado nos meus vaticínios. O 25 de Abril está aí para o provar. Festejemo-lo, pois.

2013/09/30

Mesmo em crise, Amsterdão é uma festa (conclusão)

Como é da tradição, na terceira terça-feira de Setembro, o rei profere o “Troonrede” (Discurso do Trono) que, formalmente inaugura o ano parlamentar. Nesse dia, igualmente conhecido por “Prinsjesdag” (O Dia do Princípe), o monarca dirige-se aos cidadãos para comunicar-lhes a agenda do governo para o próximo ano. Numa monarquia constitucional, como a holandesa, o discurso é previamente preparado pelo gabinete de ministros, limitando-se o rei a enunciar as grandes linhas da politica a seguir.
Como sempre, a Holanda parou para escutar o monarca, Willem-Alexander, que sucedeu à rainha Beatriz no passado mês de Abril. Um discurso há muito aguardado, dada a estreia do rei nestas andanças e às medidas de austeridade previsíveis no orçamento deste ano. E que disse o rei de novo?
Que a Holanda era um pais bem organizado, rico em talento e habituado a desafios, mas que, de há cinco anos a esta parte, enfrentava uma crise económica. Que as consequências desta crise são cada vez mais sentidas: o desemprego a crescer, o número de falências a aumentar, as casas a valer cada vez menos, as reformas congeladas e o poder de compra estagnado. Ainda que comecem a surgir tímidos sinais de recuperação,
a economia vê-se confrontada com problemas estruturais, nomeadamente as dívidas do estado, das famílias e a saúde orçamental dos bancos. Devido a causas sociais, como o envelhecimento da população e a internacionalização dos mercados, o mercado de trabalho holandês e a rede de apoios sociais deixaram de responder às exigências deste tempo. Se querem defender a tradicional sociedade de solidariedade em que vivem, os holandeses têm de adaptar-se à nova situação. Até aqui, o diagnóstico do rei.
Depois, o monarca continuou: O actual “verzorgingsstaat” (estado de protecção) deve mudar gradualmente para uma “participerende samenleving” (comunidade participativa). Ou seja, os cidadãos devem tomar o destino nas próprias mãos, mostrando mais iniciativa. Os próximos anos serão de grandes reformas e muitas leis parlamentares, foi avisando o monarca. E porquê?
Desde logo, porque o nível da dívida pública deve ser controlado (os holandeses pagam actualmente, 11 mil milhões de euros de juros/ano, pela sua dívida) e o estado tem de intervir. Sem intervenção, este “déficit” aumentará exponencialmente, o que exige medidas drásticas: para começar, já este ano, um corte de 6 mil milhões de euros. Onde?
Ora bem: a partir de 2014, o governo deixará de compensar a perda salarial sofrida com a inflação. Na assistência à saúde, uma parte passará a ser ministrada pelos médicos de família, assim como aumentará a exigência e controlo sobre os seguros de cuidados paliativos. Será criado um apoio social único, em vez dos existentes (desemprego, invalidez, viuvez, etc.), que diminuirá à medida que o rendimento familiar aumente. As pessoas que o desejem, podem investir o dinheiro que recebem desse fundo numa empresa pessoal, a troco de uma taxa de impostos mais baixa. Os apoios à juventude passam a ser da responsabilidade dos municípios. Os apoios de longa duração têm de ser mudados, pois as despesas dispararam nos últimos anos e já custam €2200/ano a cada holandês. Serão as Câmaras a determinar qual o tipo e por quanto tempo essa ajuda será dada. O apoio médico ficará sob a alçada da Segurança Social regular. As Câmaras passarão a ajudar os agentes sociais a conseguir trabalho para os desempregados de longa duração. O subsídio de desemprego, assim como a lei do despedimento, vão ser “modernizados”, diminuindo o tempo máximo de subsídio para 24 meses.
Deixará de haver apoios para minorias específicas, nomeadamente no sector do ensino extra-curricular, como é o caso das escolas do Islão.
A nível internacional, a Holanda apoiará a criação de uma União Bancária Europeia (UBE) e será anfitriã da próxima cimeira da Segurança Nuclear contra o Terrorismo, marcada para 2014 em Haia.
Para concluir e ainda nas palavras do rei: A transição para uma “comunidade participativa” será mais visível na segurança social e no apoio a longo prazo. O modelo clássico do “verzorgingsstaat” (estado de protecção) da segunda metade do XX, criou regras que estão desadequadas aos tempos actuais. Nos tempos que correm, as pessoas querem ser mais participativas e ter mais iniciativa na resolução dos seus próprios problemas.
Perante tal semântica, que mais acrescentar? O Estado Social holandês pode ainda não ter terminado, como se apressaram a escrever alguns dos comentadores da nossa praça, mas caminha para lá a passos largos. Curiosamente, ou talvez não, no dia seguinte a este discurso, foram reveladas as intenções de voto dos holandeses. Sem surpresa, os partidos da actual coligação governamental, o VVD (liberais de direita) e o PVDA (trabalhistas), caiam a pique nas sondagens. O partido mais votado seria, agora, o PVV (extrema-direita populista) que é pela proibição do Islão e pela defesa das pensões dos reformados.

2013/09/04

Cinema Bioscoop: 5 a 8 de Setembro em Lisboa




Decorre esta semana, em Lisboa, a 2ª edição do Festival Cinema Bioscoop, uma pequena Mostra do que melhor e mais actual se produz em matéria cinematográfica em países de língua neerlandesa.
Depois do sucesso da primeira edição, onde foram exibidos filmes da Holanda, Bélgica e Suriname, o Festival volta a animar as tardes e noites lisboetas, com sessões diárias no cinema S. Jorge e na Cinemateca de Lisboa.
Destaque para o ciclo da “água”, tema central do festival deste ano, com obras dos conceituados documentaristas Joris Ivens e Bert Haanstra, dos quais veremos alguns dos seus mais celebrados filmes.
Na secção de longas-metragens, serão exibidos entre outros, “De Hel van ‘63” de Steven de Jong, “Taartman” de Annemarie van de Mond  e “Confituur” de Lieven DeBrauwer  (presente em 2012 com “Pauline en Paulette”).
Confirmado, está igualmente o filme “ De tweeling” (As gémeas), de Ben Sonbogaert, baseado no romance do mesmo título, da autoria da escritora holandesa Tessa de Loo, que estará presente no debate após o filme.
O Festival terá início esta quinta-feira, dia 5, no cinema S. Jorge, com a exibição do filme “Iedereen Beroemd!” (Todos famosos!) do belga Dominique Deruddere.
Para mais informações sobre locais, horários e bilhetes das sessões, deve ser consultado o “site” do festival em: www.cinemabioscoop.com. 

2012/12/07

NOTAS DE VIAGEM: no meio da “crise” holandesa (2)

Ons aller ziel
PS Theater
Pesem as restrições económicas, anunciadas na passada semana pelo governo holandês, é difícil descortinar sinais visíveis de austeridade, neste país que passa por ser um dos mais ricos da Europa.
Os cafés e restaurantes continuam cheios, assim como as esplanadas, aquecidas nesta época do ano, enquanto as lojas fervilham de consumidores nacionais e estrangeiros, carregados de sacos das mais famosas marcas. O mesmo podemos dizer dos eventos (exposições e museus) que pudemos visitar. Nem mesmo os preços médios praticados (muito acima do que estamos habituados) parecem assustar os frequentadores da cultura citadina. Um pequeno resumo do que conseguimos ver:
Na galeria FOAM,  especializada em fotografia contemporânea, uma excelente retrospectiva de norte-americana Diane Arbus (1923-1971), constituída por  200 fotos, a preto e branco, dos temas que marcaram a sua obra: pares de namorados de todas as idades, gémeos, idosos em lares de acolhimento, jovens com o síndrome de Down, ruas e parques de Nova-Iorque. A solidão, a tristeza e a alegria, numa fotografia antropológica com a “patine” das décadas de cinquenta e sessenta. Entrada: €10.
No Museu Histórico Judeu, renovado em 2005,  para além da colecção permanente que relata a diáspora, as zonas habitacionais, a ocupação alemã e o holocausto, uma excelente exposição do artista plástico William Kentridge e as pinturas naíves de Sal Meijer, um cidadão que amava a sua cidade. Tempo ainda para ver um excelente documentário holandês, sobre as origens da música Klezmer (da Roménia ao Canadá). Porque o bilhete incluía a Sinagoga Portuguesa, vizinha ao Museu, lá voltámos, agora com a curiosidade de visitar a cave, recentemente aberta, onde podem ser admirados os tesouros deste templo sefardita, construído em 1675 e que alberga a mais antiga biblioteca judaica do Mundo. Entrada: €12.
Igualmente renovado, após um polémico concurso ao qual concorreu Siza Vieira, está o Stedelijk Museum, um dos mais populares da cidade, famoso pela sua colecção de arte moderna e contemporânea dos séculos XIX e XX.  O “Stedelijk”  modernizado, alargado e desfigurado, numa intervenção a todos os títulos criticável pelo mau gosto e desproporção de formas, estava apinhado no dia em que o visitámos. Se já era popular, agora toda a gente quer ver o novo anexo (conhecida pela “banheira”) que alberga uma colecção de “design”, a todos os títulos notável. Entrada: €15.
Já desesperávamos de  ver algo gratuito, quando fomos alertados para a nova “coqueluche” da cidade, o edifício futurista  (a lembrar o avião “Concorde”), que alberga a nova  cinemateca da cidade. Verdadeiramente espantoso, como espantosa é a sua localização, na margem norte do IJ, atrás da estação principal de comboios. 
Chama-se “Eye” (um trocadilho entre o nome do  canal que liga a cidade ao mar do Norte e o “olho” cinematográfico) e reconciliou-nos com a arquitectura. Com uma colecção com mais de 40.000 títulos,  a cinemateca tem 4 salas de projecção, 1 sala de exposições temporárias,  uma sala infantil (onde se podem aprender todos os passos necessários para fazer um filme), uma sala escura, onde é possível visionar excertos de filmes clássicos, bastando, para isso, premir uma das quatro “slot-machines” existentes, para além de uma loja e 2 cafés e restaurantes, com vista para a cidade. Um espanto. À excepção das exposições e dos filmes, tudo o mais é gratuito. Os “amigos da cinemateca” pagam 30 euros por ano e têm redução nos bilhetes que custam entre 8 e 10 euros. Por comparação, na Cinemateca de Lisboa, os “amigos” pagam os mesmos 30 euros anuais, mas apenas €1,35 por sessão...
Num pais onde a Cultura vai sofrer um corte de 50% no próximo orçamento, o teatro não é excepção. O grupo PS-Theater, de Leiden, encenou a peça “Ons aller Ziel” (A Alma de todos nós), uma metáfora sobre a miséria, onde a personagem principal (uma jovem rica e fútil da alta sociedade) convida os amigos para uma festa de caridade, onde estes devem apresentar-se vestidos de mendigos, sem-abrigo e vestimentas árabes. Durante a festa, a bebida servida é o “champagne”. Durante a peça, é confeccionada uma sopa de beterraba e lentilhas, que no fim é oferecida aos espectadores. No átrio de entrada do teatro, estava colocado um carro, onde também podiam ser depositados contributos para o Banco Alimentar. Sim, na Holanda,  um dos países mais ricos da Europa, o Banco Alimentar é cada vez mais popular...
Uma última nota para a digressão “Daisy Correia canta José Afonso”, a decorrer até Maio do próximo ano, com mais de 20 concertos agendados para toda a Holanda. Criado e interpretado por uma jovem cantora holandesa de ascendência portuguesa (Daisy Correia), este é o tributo ao Zeca que faltava. O ciclo está encerrado.

2012/12/04

NOTAS DE VIAGEM: no meio da “crise” holandesa

Nada como sairmos da pátria para ver as coisas em perspectiva. Os dias passados entre Paris e Amsterdão, deram-nos uma imagem, necessariamente impressionista, que ajuda a relativizar lugares-comuns. Parece ser oficial: a crise chegou aos Países-Baixos, bastião de austeridade e rigor orçamental, onde a frugalidade e a poupança, mais do que conceitos, são um “modo de vida”. O que, até há pouco era um problema exclusivo de países periféricos, como Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (vulgo PIIGS), parece ter-se alastrado ao núcleo duro do “marco” de que fazem parte a Alemanha, a Holanda, a Áustria ou a Finlândia.
Depois de longos meses de formação, o novo governo holandês – uma coligação de liberais de direita e sociais-democratas – tomou posse no passado mês de Outubro. Confrontada com a crise da “zona euro” e a relativa estagnação do crescimento económico (causa do aumento do desemprego e dos subsídios sociais daí inerentes), a coligação governamental anunciou na passada semana um novo pacote de medidas de austeridade: corte de 16 mil milhões de euros no orçamento para 2013, com especial incidência nos rendimentos mais baixos, nas prestações sociais (com excepção das reformas), na educação, na saúde e na cultura. Simultaneamente, foi anunciada uma nova grelha fiscal (5 escalões) e aumentada a percentagem do IRS e do seguro de saúde obrigatório.  Onde é que já vimos este filme?
De acordo com  o “De Volkskrant” do passado dia 29,  a desigualdade de rendimentos será maior em 2013. Os grupos de rendimentos mais baixos (entre €500 e €1200 brutos) verão os seus rendimentos descer cerca de 2%, enquanto um trabalhador que ganhe uma vez e meia o ordenado médio nacional (€3.819,45 brutos) verá o seu vencimento aumentar em 2%.  Simultaneamente, o ordenado mínimo nacional (€1.456,20 brutos) será aumentado em 0,13% (€1,62 mensais em termos líquidos).
Ao contrário da classe média portuguesa, a classe média holandesa é a mais beneficiada deste novo escalonamento fiscal, o que não deixa de ser surpreendente. A razão desta medida, é explicada pela violenta reacção deste grupo, após o anúncio do acordo governamental de Outubro, que previa um aumento substancial do imposto do seguro de saúde (obrigatório na Holanda) para os maiores rendimentos. Essa receita extra reverteria para os mais desfavorecidos que, dessa forma, não veriam os seus seguros de saúde aumentados. Com a nova grelha fiscal, os mais desfavorecidos, não só verão o seu seguro de saúde (€150 mensais em média) aumentado, como verão os seus vencimentos diminuídos.
Outro dos ministérios mais afectados será o da Ajuda ao Desenvolvimento, onde estão previstos cortes no valor de mil milhões de euros até 2017. Será uma diminuição progressiva (cerca de 200 milhões anuais), mas representativa da tendência actual na sociedade holandesa, agora mais sensível aos discursos da direita que defende cortes nos apoios a estrangeiros dentro e fora do pais.
Aparentemente isentos neste pacote de austeridade, parecem estar os reformados mais pobres que, até ver, mantêm as suas pensões congeladas. Isto, até ao dia 1 de Março. Nessa data, será feita uma avaliação das provisões do Fundo Nacional de Pensões e, caso estas estejam abaixo do previsto, poderão haver cortes até 3% do rendimento.

2012/04/24

Sinais de mudança (2)

Demitiu-se esta segunda-feira a coligação governamental holandesa, constituida pelos partidos VVD (liberal) e CDA (democrata-cristão), que era apoiada pelo partido PVV (populista de direita). A demissão surge após sete semanas de duras negociações entre os três partidos, com vista a chegar a um acordo para implementar medidas de austeridade estimadas em 14 mil milhões de euros no próximo Orçamento de Estado. Ainda que a notícia já fosse conhecida desde o passado sábado, só ontem foi formalmente aceite pela rainha, que agora terá de marcar a data das próximas eleições. Em princípio, estas não devem acontecer antes de Setembro. Não causa grande surpresa esta demissão. Desde a sua instalação, em Outubro de 2010, que o governo dependia do apoio do PVV, partido liderado por Geert Wilders, um populista xenófobo que defende a proibição do Islão, a abolição da burka e a expulsão de muçulmanos não holandeses. Um programa que lhe valeu 15% de votos e 34 deputados nas últimas eleições. Dado os anti-corpos provocados na classe política holandesa, Wilders acabaria por não aceitar fazer parte do governo, mas garantia a maioria dos votos governamentais no parlamento. Uma construção, que os holandeses apelidavam de "governo tolerado", uma vez que a qualquer momento o PVV poderia retirar o seu apoio. Foi o que aconteceu agora, quando o governo propôs cortes significativos em áreas sociais sensíveis, como a idade e o valor das reformas, às quais o partido de Wilders se opõs. As reformas, aliás, eram um ponto de honra para Wilders que, a par da sua declarada Islamofobia, sempre defendeu os reformados de baixos recursos. Em queda de popularidade após os atentados de Oslo (quando as suas ideias foram elogiadas por Breivick) Wilders há que muito procurava uma saida airosa para a sua política de ódio e terra queimada. Aparentemente, a crise actual, ofereceu-lhe essa oportunidade. Ao distanciar-se das medidas do governo, espera ganhar a admiração dos holandeses mais pobres e, dessa forma, recuperar a popularidade perdida. Uma coisa parece certa: Wilders dificilmente voltará a ter a influência do passado e tudo aponta para que a próxima coligação governamental seja de centro-esquerda.

2011/03/01

A vida num "flash"

Dizem que, na hora da morte, o filme da vida regressa em "flash-back". Por desconhecer a experiência, não posso falar dela. Mas, posso falar da experiência que me levou à Holanda, país onde vivi quarenta e quatro anos, para "desfazer" a casa onde vivi vinte e dois. Da primeira caderneta de poupança, presente da polícia de Amsterdão para o caso de ser deportado e ter de pagar a minha própria viagem de regresso; ao passaporte côr-de-rosa de "alien", que exigia "visas" sempre que saía do país; ou a fotografia do primeiro emprego numa empresa seguradora e os certificados das diferentes instituições por onde passei, tudo lá estava. Como lá estavam as colecções de jornais da oposição emigrada, as revistas literárias e os livros da minha formação. Também lá encontraria os discos "vinyl" e os vídeos que o gravador muitas vezes registava enquanto dormia, as diferentes máquinas de escrever, ou primeiro computador. Sim, estava lá tudo, como se a vida tivesse parado na Borgerstraat.
Depois, estavam os amigos. As fotos dos que já "partiram" e os vivos que me ajudaram na penosa tarefa de seleccionar os pertencentes para o futuro. Serão eles que, daqui para a frente, manterão viva a memória dos anos passados fora de Portugal. Para que um dia, quando a minha vida passar em "flashback", todos eles possam ser recordados como merecem. Até lá, a vida continua.

2010/11/01

Notícias de outra cidade

O "Podium Mozaiek" é um centro intercultural situado em pleno coração do distrito de Bos en Lommer, um dos bairros mais problemáticos de Amsterdão. Nesta zona vive a maior comunidade muçulmana da cidade, com predominância de turcos e marroquinos, as nacionalidades mais numerosas. Construido originalmente para funcionar como mesquita, o centro cultural manteve a arquitectura árabe exterior (um grande cubo encimado por um minarete) e foi totalmente remodelado por dentro. Nele coexistem serviços sociais, galeria de exposições, biblioteca, cybercafé, um bar e um restaurante, abertos ao público em geral. Dispõe ainda de um auditório com capacidade para 300 pessoas, que mantém uma programação regular de música, teatro, dança e cinema, onde actuam periodicamente nomes conhecidos da cena nacional e internacional. Foi o caso do grupo português "Deolinda", que aqui actuou no passado sábado no âmbito de uma digressão holandesa. Sala cheia, de um público curioso, maioritariamente constituido por holandeses e portugueses, para além de alguns curiosos de outras nacionalidades e estudantes portugueses do programa "Erasmus".
Um excelente concerto, onde o grupo passou em revista o seu último album "Dois selos e um carimbo" e ainda teve tempo para três "encores", a pedido de uma sala rendida à arte de Ana Bacalhau, uma fonte inesgotável de energia. Música simples e cativante, com textos irónicos traduzidos em doses reduzidas, a mostrar que os dois anos de "estrada" deram consistência e profissionalismo a um projecto que é já um caso sério de popularidade internacional. No final, a festa e a celebração da interculturalidade, sempre possível quando a música é o elo de ligação. Num bairro conhecido como um dos mais conflituosos da cidade, devido à exclusão social dos seus habitantes e aos conflitos religiosos empolados pelo discurso populista da direita xenófoba, o concerto dos "Deolinda" teve o condão de amenizar as tensões existentes numa sociedade que continua a procurar pontes de entendimento entre culturas diferentes. Se a música puder ajudar, tanto melhor...