Há um caso nesta representação olímpica portuguesa que merece um comentário especial. Trata-se da jovem Vanessa Fernandes. Cativou-nos a todos pela sua tenacidade e pelas suas qualidades desportivas. Cativou-nos a simplicidade, a humildade e até uma certa descontracção. Os peritos viram nela as "caracterísicas genéticas" para o desporto que pratica. O comum dos mortais terá visto tão somente a raça do campeão, a capacidade de concentração, o empenho e a tenacidade para se bater até ao fim, mesmo em circunstâncias totalmente adversas, qualidades que só uma escassa elite parece ser capaz juntar. É desta massa que se fazem os heróis do desporto. É desta massa que se podem extrair os exemplos motivadores e orientadores das gerações futuras.
Pensavámos nós, pensava eu.
Até a ouvir falar ontem dos seus companheiros, parceiros da delegação portuguesa olímpica, atletas como ela, e como ela membros da selecção olímpica. A raça caiu e ficou a desgraça de ter de ouvir a opinião intempestiva, oportunista, totalmente despropositada, ilegítima (a atleta não é "autoridade" olímpica e não tem que mandar palpites sobre assuntos que não são da sua competência). Permanecerá, para todos os efeitos, o eco de uma opinião --seguramente injusta por se tratar de uma generalização abusiva-- que soa a intriguisse feita com linguinha de prata...
Num breve momento o brilho da atleta empalideceu. A Vanessa perdeu uma soberana ocasião para estar calada e mostrou, quiçá, de que massa será afinal, de facto, feita.
2008/08/19
Pequim que te quiero tanto...!
Estes Jogos Olímpicos ameaçam tornar-se nos Jogos da Discórdia para os nossos agentes desportivos e autoridades responsáveis envolvidos nesta operação. A fasquia (embora não tivéssmos saltadores em altura ou com vara...) era elevada, mas creio que já se pode dizer com segurança que a maior delegação de sempre aos JO foi protagonista do maior fiasco de sempre na história das participações portuguesas nesta prova.
Aos sorrisos postiços e às cerimónias engalanadas que precederam a partida da "delegação" ameaça agora suceder-se a fase do lavar de roupa suja.
Os atletas terão algumas (algumas!) culpas no cartório. Pela forma como alguns, em certos casos, terão aparentemente encarado esta sua participação, por algumas declarações feitas e pela sua prestação objectiva. Mas, os atletas não têm valor nesta equação e o seu verdadeiro pecado é apenas um: são ingénuos em terra de espertalhões. Quando aqui há tempos denunciaram as condições miseráveis em que trabalham foram imediatamente tratados como se estivéssemos em regime de escravatura e aceitaram. Agora não se podem queixar.
Só o fascínio de poder ir assistir aos Jogos à borlex, num país distante e "exótico", poderá explicar a docilidade de uns quantos... Mas, as reacções veementes de uns quantos não iludem a realidade.
A verdade está noutra ponta deste novelo. Em Portugal os dirigentes desportivos portugueses são o que são, os "comités", as "ligas", as "federações", as "associações desportivas" e os "clubes" que "dirigem" são o que são e os responsáveis governamentais pela área desportiva têm tanta ideia sobre o papel que o desporto deve desempenhar na sociedade portuguesa como eu falo swahili...É pela voz dos próprios governantes, na circunstância, o inenarrável Secretário de Estado da Juventude e Desporto, que ficamos a conhecer a verdadeira natureza do poder. Ficamos a saber, pelo despropósito e profunda mesquinhez das suas declarações, em que mãos desgraçadamente nos encontramos. Este Secretário de Estado da Juventude e do Desporto provou, com estas declarações, que o seu corpo também já está há muito a pedir "caminha".
E depois há Portugal. Um país sem rumo, sem estratégia, reino do mais feroz egoísmo, dirigido por incapazes. Um país que é pasto de todos os oportunismos possíveis, que beneficiam da sacrossanta regra da vista grossa. Onde os que não sabem nos ensinam --nas escolas, nos orgãos de comunicação, etc-- e os que sabem, ou se baldam ou vão fazer a vidinha para outro lado. O país dos des-responsáveis!
O desporto não poderia pois, nestas circunstâncias, ser uma ilha. Não é um fenómeno que pudesse evoluir completamente à margem da realidade do país que somos. O que esperar então do desporto nacional quando a matriz de onde provém é esta? Recordes e medalhas? Tenham juízo...!
A "guerra" das declarações e contra-declarações que por aí vai, as ameaças, o azedume, a tristeza, as invejas, os abandonos, o mau perder e o mau ganhar que alguns revelam--de modo surpreendente e incoerente, mostram aliás, no seu conjunto, o carácter negro deste país, e vêm demonstrar as razões pelas quais não poderíamos nunca fazer melhor. Mas, este alarido, que ameaça tornar-se num fenómeno que ajudará a alimentar a "silly season" e que vai provocar certamente alguma azia, não vai, no final, servir de lição para nada, nem para ninguém.
Na primeira oportunidade lá teremos os dignitários empoleirados numa tribuna de um qualquer estádio e os atletas atentos, veneradores e obrigados a aceitarem pagar para que a gente se orgulhe muito deles... Ou nós é que pagamos para podermos zurzir neles quando não fazem aquilo para que a gente pagou, já não sei bem...
Um vaticínio final: antes da partida para Londres este filme já estará rebobinado e passará novamente, sem cortes nem alterações.
Aos sorrisos postiços e às cerimónias engalanadas que precederam a partida da "delegação" ameaça agora suceder-se a fase do lavar de roupa suja.
Os atletas terão algumas (algumas!) culpas no cartório. Pela forma como alguns, em certos casos, terão aparentemente encarado esta sua participação, por algumas declarações feitas e pela sua prestação objectiva. Mas, os atletas não têm valor nesta equação e o seu verdadeiro pecado é apenas um: são ingénuos em terra de espertalhões. Quando aqui há tempos denunciaram as condições miseráveis em que trabalham foram imediatamente tratados como se estivéssemos em regime de escravatura e aceitaram. Agora não se podem queixar.
Só o fascínio de poder ir assistir aos Jogos à borlex, num país distante e "exótico", poderá explicar a docilidade de uns quantos... Mas, as reacções veementes de uns quantos não iludem a realidade.
A verdade está noutra ponta deste novelo. Em Portugal os dirigentes desportivos portugueses são o que são, os "comités", as "ligas", as "federações", as "associações desportivas" e os "clubes" que "dirigem" são o que são e os responsáveis governamentais pela área desportiva têm tanta ideia sobre o papel que o desporto deve desempenhar na sociedade portuguesa como eu falo swahili...É pela voz dos próprios governantes, na circunstância, o inenarrável Secretário de Estado da Juventude e Desporto, que ficamos a conhecer a verdadeira natureza do poder. Ficamos a saber, pelo despropósito e profunda mesquinhez das suas declarações, em que mãos desgraçadamente nos encontramos. Este Secretário de Estado da Juventude e do Desporto provou, com estas declarações, que o seu corpo também já está há muito a pedir "caminha".
E depois há Portugal. Um país sem rumo, sem estratégia, reino do mais feroz egoísmo, dirigido por incapazes. Um país que é pasto de todos os oportunismos possíveis, que beneficiam da sacrossanta regra da vista grossa. Onde os que não sabem nos ensinam --nas escolas, nos orgãos de comunicação, etc-- e os que sabem, ou se baldam ou vão fazer a vidinha para outro lado. O país dos des-responsáveis!
O desporto não poderia pois, nestas circunstâncias, ser uma ilha. Não é um fenómeno que pudesse evoluir completamente à margem da realidade do país que somos. O que esperar então do desporto nacional quando a matriz de onde provém é esta? Recordes e medalhas? Tenham juízo...!
A "guerra" das declarações e contra-declarações que por aí vai, as ameaças, o azedume, a tristeza, as invejas, os abandonos, o mau perder e o mau ganhar que alguns revelam--de modo surpreendente e incoerente, mostram aliás, no seu conjunto, o carácter negro deste país, e vêm demonstrar as razões pelas quais não poderíamos nunca fazer melhor. Mas, este alarido, que ameaça tornar-se num fenómeno que ajudará a alimentar a "silly season" e que vai provocar certamente alguma azia, não vai, no final, servir de lição para nada, nem para ninguém.
Na primeira oportunidade lá teremos os dignitários empoleirados numa tribuna de um qualquer estádio e os atletas atentos, veneradores e obrigados a aceitarem pagar para que a gente se orgulhe muito deles... Ou nós é que pagamos para podermos zurzir neles quando não fazem aquilo para que a gente pagou, já não sei bem...
Um vaticínio final: antes da partida para Londres este filme já estará rebobinado e passará novamente, sem cortes nem alterações.
2008/08/12
A Guerra do Pipeline
Para quem anda distraído a actual guerra do Caucaso veio lembrar que, com o petróleo, não se brinca. Foi essa a causa da invasão do Kuwait, por Sadam Hussein, em 1991; voltou a ser assim, aquando da invasão do Iraque, pelos Estados Unidos, em 2003 e, agora, a invasão da Geórgia, pela Russia. Esta última, a pretexto da independência da Ossétia do Sul...
Por acaso, até lá passam os únicos "pipelines", entre o Mar Cáspio e o Mar Mediterrâneo, que não atravessam território russo. Quando a especulação sobre o preço do "crude" atinge preços inimagináveis e constituem a arma mais poderosa na luta pela hegemonia sobre as reservas energéticas existentes, alguém imaginava Putin a abdicar do seu "direito" territorial? Era o que faltava...
Por acaso, até lá passam os únicos "pipelines", entre o Mar Cáspio e o Mar Mediterrâneo, que não atravessam território russo. Quando a especulação sobre o preço do "crude" atinge preços inimagináveis e constituem a arma mais poderosa na luta pela hegemonia sobre as reservas energéticas existentes, alguém imaginava Putin a abdicar do seu "direito" territorial? Era o que faltava...
2008/08/09
"Não sou actriz"
Lembrei-me desta frase de Manuela Ferreira Leite (que o meu amigo Fernando Mora Ramos comentou esplendidamente no Público) quando assisti ao "filme" do sequestro no BES de Campolide. Sequestro a armar em produção "hollywoodesca" que veio a calhar que nem ginjas nesta "silly season"...
A definição hoje habitualmente aceite de música electracústica (aquela música feita de blips! e ploings! com que os vanguardistas dos anos 50-60 chocavam as audiências, feita de sons que são hoje banais em qualquer discoteca, telemóvel ou caixa registadora) é "qualquer coisa que sai de um altofalante"!
Pois, por analogia, poder-se-á dizer também que qualquer coisa que sai de um ecrã é cinema. Desde a presidente do PSD, aos sequestradores do BES. Estes quiseram tentar a produção própria, depois de terem certamente assistido a muitas produções vindas dos grandes estúdios Hollywood. Para acentuar o carácter de espetáculo, até a polícia ajudou à festa deixando cair uma grande cortina (negra!), certamente para ajudar algum espectador menos atento a sinalizar o final do espetáculo...
Saindo agora do ecrã, o que resta de tudo isto? Uma comunidade brasileira que sofreu um rombo brutal na sua luta por ganhar credibilidade junto dos indígenas, um jovem que terminou a vida antes de tempo, de forma inglória, outro que luta por uma vida que não vai nunca mais ter e um polícia-atirador que vai ficar a ter sonhos maus por muito tempo, por um acto que, ao contrário dos que se vêem nos filmes, terá certamente consequências medonhas para o seu autor. Os xenófobos exultam, aos jornais, às televisões e às rádios saiu-lhes a sorte grande e lá ganharam mais uns minutos à "seasonal sillyness".
O país terá de voltar agora ao debate sobre o Pontal. É tudo, já que a outra, se bem que diga que não é actriz, se está a guardar para a rentrée.
A definição hoje habitualmente aceite de música electracústica (aquela música feita de blips! e ploings! com que os vanguardistas dos anos 50-60 chocavam as audiências, feita de sons que são hoje banais em qualquer discoteca, telemóvel ou caixa registadora) é "qualquer coisa que sai de um altofalante"!
Pois, por analogia, poder-se-á dizer também que qualquer coisa que sai de um ecrã é cinema. Desde a presidente do PSD, aos sequestradores do BES. Estes quiseram tentar a produção própria, depois de terem certamente assistido a muitas produções vindas dos grandes estúdios Hollywood. Para acentuar o carácter de espetáculo, até a polícia ajudou à festa deixando cair uma grande cortina (negra!), certamente para ajudar algum espectador menos atento a sinalizar o final do espetáculo...
Saindo agora do ecrã, o que resta de tudo isto? Uma comunidade brasileira que sofreu um rombo brutal na sua luta por ganhar credibilidade junto dos indígenas, um jovem que terminou a vida antes de tempo, de forma inglória, outro que luta por uma vida que não vai nunca mais ter e um polícia-atirador que vai ficar a ter sonhos maus por muito tempo, por um acto que, ao contrário dos que se vêem nos filmes, terá certamente consequências medonhas para o seu autor. Os xenófobos exultam, aos jornais, às televisões e às rádios saiu-lhes a sorte grande e lá ganharam mais uns minutos à "seasonal sillyness".
O país terá de voltar agora ao debate sobre o Pontal. É tudo, já que a outra, se bem que diga que não é actriz, se está a guardar para a rentrée.
2008/08/07
Eva e a maçã
E "diante de Adão mas despegado dele, estava outro Ser a ele semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto de um pêlo mais sedoso, que o contemplava com olhos lustrosos e líquidos (...) E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável!"
Assim descrevia Eça o primeiro encontro entre os "pais veneráveis" da Humanidade. O que Eça omite neste seu texto é o facto de Eva ser na altura portadora da maçã.
A maçã, todos sabemos, é um fruto do demónio. Nós pobres pecadores (eu confesso-o!), sempre que a comemos experimentamos um leve rubor, um pequeno estremecimento. Um frémito subtil invade-nos...
Se for maçã reineta a sensação geral é de volúpia pura. Se for Golden Delicious, essa deixa-nos mais ou menos indiferentes. Mas, se for maçã Bravo de Esmolfe é o delírio absoluto! Com Bravo de Esmolfe eu, pessoalmente, não consigo mesmo ter mão em mim. Já a Macintosh faz sempre lembrar kilts. Pode, portanto, não fazer o nosso género, é uma questão de escolha.
A tradição católica fartou-se de nos excitar a mente com esta Eva que Eça depois descreveu no seu conto com soma profusa de pormenores. Creio que o livro do Catecismo (a Censura nunca se lembrou que o Catecismo poderia não passar afinal de literatura porn) contribuiu definitivamente para gerar esta ideia: maçã é tentação.
Imaginávamos nós então, jovens e fogosos catequistas, Eva de longos cabelos caídos, sem sequer uma parrazinha leve que lhe tapasse as partes pudibundas, avançando com movimentos coleantes sobre Adão, enleando-o subtilmente e oferecendo-lhe, sabemo-lo hoje de fonte histórica segura, a tal maçã!
E foi assim, neste contexto de associação de ideias, que à maçã se passou então, sem dúvida, a associar à noção de massagem.
Tratada que está então a questão das massagens, era natural que o intrépido Comando Marítimo do Sul se voltasse agora para a maçã, esse fruto do pecado. Era inevitável. Era necessário.
Pelo menos numa coisa devemos elogiar o Comando Marítimo do Sul nesta investida estival sobre os bons constumes: prosseguem uma política coerente.
Assim descrevia Eça o primeiro encontro entre os "pais veneráveis" da Humanidade. O que Eça omite neste seu texto é o facto de Eva ser na altura portadora da maçã.
A maçã, todos sabemos, é um fruto do demónio. Nós pobres pecadores (eu confesso-o!), sempre que a comemos experimentamos um leve rubor, um pequeno estremecimento. Um frémito subtil invade-nos...
Se for maçã reineta a sensação geral é de volúpia pura. Se for Golden Delicious, essa deixa-nos mais ou menos indiferentes. Mas, se for maçã Bravo de Esmolfe é o delírio absoluto! Com Bravo de Esmolfe eu, pessoalmente, não consigo mesmo ter mão em mim. Já a Macintosh faz sempre lembrar kilts. Pode, portanto, não fazer o nosso género, é uma questão de escolha.
A tradição católica fartou-se de nos excitar a mente com esta Eva que Eça depois descreveu no seu conto com soma profusa de pormenores. Creio que o livro do Catecismo (a Censura nunca se lembrou que o Catecismo poderia não passar afinal de literatura porn) contribuiu definitivamente para gerar esta ideia: maçã é tentação.
Imaginávamos nós então, jovens e fogosos catequistas, Eva de longos cabelos caídos, sem sequer uma parrazinha leve que lhe tapasse as partes pudibundas, avançando com movimentos coleantes sobre Adão, enleando-o subtilmente e oferecendo-lhe, sabemo-lo hoje de fonte histórica segura, a tal maçã!
E foi assim, neste contexto de associação de ideias, que à maçã se passou então, sem dúvida, a associar à noção de massagem.
Tratada que está então a questão das massagens, era natural que o intrépido Comando Marítimo do Sul se voltasse agora para a maçã, esse fruto do pecado. Era inevitável. Era necessário.
Pelo menos numa coisa devemos elogiar o Comando Marítimo do Sul nesta investida estival sobre os bons constumes: prosseguem uma política coerente.
2008/08/06
Débil era o melro!
Segundo reza o Público, o Secretário de Estado da Juventude e Desportos terá afirmado, a propósito da representação olímpica nacional que "Para um país como Portugal, os Jogos Olímpicos são uma tremenda aventura. Porquê? Porque nós somos o país que somos: 10 milhões de habitantes, uma economia débil, uma formação técnica débil, poucos técnicos qualificados, poucos jovens na prática desportiva e somos um país pequeno na Europa, a que pertencemos. E no mundo, então, somos um país muito pequeno." Então não?!
Somos débeis mas conseguimos ter secretários de estado que revelam não estar sequer à altura do retrato traçado... Isso é que é a tremenda aventura deste país!
Somos débeis mas conseguimos ter secretários de estado que revelam não estar sequer à altura do retrato traçado... Isso é que é a tremenda aventura deste país!
2008/08/05
Elites Portuguesas
O recente discurso do presidente da república, para o qual os portugueses foram convocados em "prime-time", revelou-se uma desilusão para a maioria, mas algo de substancial para a oposição. Engraçadas mesmo, são as opiniões de algumas figuras do "establishment" político que, da esquerda à direita, foram unânimes em realçar o cunho jurídico-constitucional da intervenção de Cavaco. Enquanto para uns (Lobo-Xavier na "Quadratura do Círculo") o presidente fez bem, pois esta é uma matéria que os portugueses não entendem(?!); para outros (Mário Soares no "Diário de Notícias") o presidente fez mal, porque os portugueses não perceberam e estão mais preocupados com coisas comezinhas como o desemprego, o custo de vida e a corrupção...
Já anteriormente, o "engenheiro" Sócrates tinha faltado à sua promessa eleitoral e resolvido desistir do referendo sobre o tratado de Lisboa. O argumento, na altura usado, foi o texto ser demasiado complexo para a compreensão do português comum. Porque só os especialistas o podiam compreender, bastava o Parlamento aprová-lo.
Independentemente da importância da intervenção de Cavaco, que está no seu direito constitucional de intervir sobre matérias que considere relevantes, uma coisa parece comum a esta classe política portuguesa: um profundo desprezo pelos cidadãos portugueses, meros figurantes de um sistema que perpetua as "castas" políticas no poder. Com elites destas, será que alguém ainda acredita nos políticos que nos governam?
Já anteriormente, o "engenheiro" Sócrates tinha faltado à sua promessa eleitoral e resolvido desistir do referendo sobre o tratado de Lisboa. O argumento, na altura usado, foi o texto ser demasiado complexo para a compreensão do português comum. Porque só os especialistas o podiam compreender, bastava o Parlamento aprová-lo.
Independentemente da importância da intervenção de Cavaco, que está no seu direito constitucional de intervir sobre matérias que considere relevantes, uma coisa parece comum a esta classe política portuguesa: um profundo desprezo pelos cidadãos portugueses, meros figurantes de um sistema que perpetua as "castas" políticas no poder. Com elites destas, será que alguém ainda acredita nos políticos que nos governam?
2008/07/29
Um diácono dos mares
Enquanto os portugueses se debatem com os problemas que todos conhecemos, ficámos a saber que o Comando Marítimo do Sul decidiu acabar com as massagens nas praias algarvias. É de facto um assunto sensível, em relação ao qual não é de todo aceitável dar sinais de tibieza...
No melhor estilo do Diácono Remédios (embora me pareça que nem o Diácono tenha conseguido ir tão longe!), o Comandante Marítimo do Sul declara, solene, para justificar a interdição, que "toda a gente sabe como é que começa uma massagem, mas ninguém sabe como é que ela acaba."
Eu que hesitava se devia ou não ir passar uns dias ao Algarve, já decidi: não vou! É que me estava a fazer a umas massagenzinhas para cuidar destes pobres ossos e músculos tão maltratados ao longo deste ano duro que passou, assim à beira mar, e, claro, desta forma já não me safo. Eu gosto de saber como acaba uma massagem, e um alerta destes, emitido com esta veemência, ainda por cima por uma autoridade que até é marítima, não pode deixar de ser tido em conta. Não vou, pronto!
Ao Comandante Marítimo do Sul os meus agradecimentos pelo verdadeiro serviço público que nos presta e um desejo: meta-se pelos mares a dentro, em força, contra os marroquinos e à reconquista de África! Para a frente, sem temores! Não nos deixemos ficar pelos preliminares...
No melhor estilo do Diácono Remédios (embora me pareça que nem o Diácono tenha conseguido ir tão longe!), o Comandante Marítimo do Sul declara, solene, para justificar a interdição, que "toda a gente sabe como é que começa uma massagem, mas ninguém sabe como é que ela acaba."
Eu que hesitava se devia ou não ir passar uns dias ao Algarve, já decidi: não vou! É que me estava a fazer a umas massagenzinhas para cuidar destes pobres ossos e músculos tão maltratados ao longo deste ano duro que passou, assim à beira mar, e, claro, desta forma já não me safo. Eu gosto de saber como acaba uma massagem, e um alerta destes, emitido com esta veemência, ainda por cima por uma autoridade que até é marítima, não pode deixar de ser tido em conta. Não vou, pronto!
Ao Comandante Marítimo do Sul os meus agradecimentos pelo verdadeiro serviço público que nos presta e um desejo: meta-se pelos mares a dentro, em força, contra os marroquinos e à reconquista de África! Para a frente, sem temores! Não nos deixemos ficar pelos preliminares...
Uma no Cravinho, outra na Ferradura
No mesmo dia em que João Cravinho dava uma entrevista onde denunciava o aumento de corrupção, o actual presidente das Estradas de Portugal mandava reabrir o processo da construção da Ponte Europa, em Coimbra, onde se verificou uma derrapagem de custos calculada em 288%.
Lembremos que, Cravinho, ministro de Obras Públicas do primeiro governo Guterres, tinha abandonado o cargo depois de denunciar a promiscuidade existente no sector da construção civil em Portugal. Posteriormente, viria a ser o autor de um projecto-lei de combate à corrupção que acabaria chumbado pelo seu próprio partido, o PS de Sócrates. No seguimento desta decisão, "et pour cause", o ex-ministro e deputado seria enviado para um "exílio dourado" em Londres, onde é actualmente funcionário no Banco de Investimento Europeu. Espera-se, destes altos representantes da nação, um silêncio à altura da função.
Acontece que Cravinho, certamente por deformação profissional, não se tem calado. Um dos seus temas favoritos é mesmo a corrupção. Ora isto é muito grave, como veio lembrar o inefável Alberto Martins de Coimbra, pois a "ética é republicana" e o João - para mais vivendo em Inglaterra - não tem moral para dar lições ao PS...Como nos veio lembrar o patulante Martins, para averiguar das pretensas ilegalidades, já existe um orgão - o Conselho de Prevenção da Corrupção - que (apesar de constituido maioritariamente por elementos dependentes da tutela) não hesitará em "prevenir" quando isso fôr preciso.... Como se nós fossemos burros. Isso não se faz, oh Cravinho!...
Lembremos que, Cravinho, ministro de Obras Públicas do primeiro governo Guterres, tinha abandonado o cargo depois de denunciar a promiscuidade existente no sector da construção civil em Portugal. Posteriormente, viria a ser o autor de um projecto-lei de combate à corrupção que acabaria chumbado pelo seu próprio partido, o PS de Sócrates. No seguimento desta decisão, "et pour cause", o ex-ministro e deputado seria enviado para um "exílio dourado" em Londres, onde é actualmente funcionário no Banco de Investimento Europeu. Espera-se, destes altos representantes da nação, um silêncio à altura da função.
Acontece que Cravinho, certamente por deformação profissional, não se tem calado. Um dos seus temas favoritos é mesmo a corrupção. Ora isto é muito grave, como veio lembrar o inefável Alberto Martins de Coimbra, pois a "ética é republicana" e o João - para mais vivendo em Inglaterra - não tem moral para dar lições ao PS...Como nos veio lembrar o patulante Martins, para averiguar das pretensas ilegalidades, já existe um orgão - o Conselho de Prevenção da Corrupção - que (apesar de constituido maioritariamente por elementos dependentes da tutela) não hesitará em "prevenir" quando isso fôr preciso.... Como se nós fossemos burros. Isso não se faz, oh Cravinho!...
2008/07/28
Feios, porcos e maus
Desde que, na passada semana, o país inteiro pôde presenciar - ao vivo e em directo - um tiroteio sem precedentes entre habitantes de um bairro da periferia de Lisboa, que Portugal não fala noutra coisa.
As opiniões podem, globalmente, ser divididas em dois grandes grupos: aqueles que, como o SOS Racismo e o Bloco de Esquerda, fazem das "minorias étnicas" as suas bandeiras de estimação e procuram justificar todos os desmandos com os argumentos do racismo e da discriminação existentes; e aqueles que, como Fernando Madrinha e Mário Crespo (de quem corre um artigo na NET) parecem mais preocupados com os beneficiários do "rendimento mínimo" que - pasme-se! - até possuem plasmas e leitores de DVD em casa (!?).
Há algo de sórdido e mesquinho nesta história de criminalidade urbana que, não por acaso, teve lugar num bairro de realojamento onde, não por acaso, viviam antigos moradores do Parque Expo que, não por acaso, eram na sua maioria desempregados de origem negra e cigana. Não por acaso.
E é aqui que a "porca torce o rabo". Com raras excepções (Vasco Pulido Valente) ninguém pareceu preocupado com a política social de alojamento e o modelo urbanístico que lhe está subjacente. Desde há muito que na Europa civilizada (onde existem políticas de imigração) foram abandonados os bairros sociais para pobres, por razões que a Sociologia explica. O modelo seguido em cidades cosmopolitas como Paris, Londres, Amsterdão ou Berlim é, de há décadas a esta parte, o da integração progressiva dos estrangeiros em bairros populares onde convivem com políticos nacionais, médicos, professores universitários, estudantes, operários fabris, desempregados e prostitutas legais. E o sistema funciona.
Também na mesma Europa, já foi tentado o modelo periférico de exclusão social. Os guetos aí formados, levaram à implosão da maioria destes bairros sociais na década de oitenta. Vinte anos depois, Portugal parece não ter apreendido nada com a experiência alheia. Continuamos a deixar crescer os bairros ilegais nas periferias das cidades e, quando é necessário realojar os seus habitantes, despejamo-los em "torres" a que chamamos bairros, sem jardins, centros de dia, escolas, supermercados ou esquadras e polícia de proximidade. A polícia, de resto, tem medo de lá entrar.
O que se passou na Quinta da Fonte é, de há muito, conhecido dos responsáveis por este monstro urbanístico. Só que, deste vez, foi filmado e pudemos ver em directo o que lá se passa.
A menos de um kilómetro da minha casa, existe um dos bairros mais problemáticos da grande Lisboa, a Cova da Moura. Um aglomerado de construções clandestinas erguidas nas décadas de setenta e oitenta onde, calcula-se, vivem mais de 5000 pessoas. Quem as deixou construir estas habitações (que já foram barracas e hoje são casas de alvenaria e tijolo)? Certamente, a autarquia da Amadora, onde existem dezenas de bairros clandestinos cujos moradores são, na sua maioria, negros, ciganos e desempregados. Alguém imagina um emigrante português a construir uma casa clandestina em Berlim ou em Amsterdão? Obviamente que não. Como pode um governo exigir respeito se não cria regras de convivência socialmente aceitáveis?
As opiniões podem, globalmente, ser divididas em dois grandes grupos: aqueles que, como o SOS Racismo e o Bloco de Esquerda, fazem das "minorias étnicas" as suas bandeiras de estimação e procuram justificar todos os desmandos com os argumentos do racismo e da discriminação existentes; e aqueles que, como Fernando Madrinha e Mário Crespo (de quem corre um artigo na NET) parecem mais preocupados com os beneficiários do "rendimento mínimo" que - pasme-se! - até possuem plasmas e leitores de DVD em casa (!?).
Há algo de sórdido e mesquinho nesta história de criminalidade urbana que, não por acaso, teve lugar num bairro de realojamento onde, não por acaso, viviam antigos moradores do Parque Expo que, não por acaso, eram na sua maioria desempregados de origem negra e cigana. Não por acaso.
E é aqui que a "porca torce o rabo". Com raras excepções (Vasco Pulido Valente) ninguém pareceu preocupado com a política social de alojamento e o modelo urbanístico que lhe está subjacente. Desde há muito que na Europa civilizada (onde existem políticas de imigração) foram abandonados os bairros sociais para pobres, por razões que a Sociologia explica. O modelo seguido em cidades cosmopolitas como Paris, Londres, Amsterdão ou Berlim é, de há décadas a esta parte, o da integração progressiva dos estrangeiros em bairros populares onde convivem com políticos nacionais, médicos, professores universitários, estudantes, operários fabris, desempregados e prostitutas legais. E o sistema funciona.
Também na mesma Europa, já foi tentado o modelo periférico de exclusão social. Os guetos aí formados, levaram à implosão da maioria destes bairros sociais na década de oitenta. Vinte anos depois, Portugal parece não ter apreendido nada com a experiência alheia. Continuamos a deixar crescer os bairros ilegais nas periferias das cidades e, quando é necessário realojar os seus habitantes, despejamo-los em "torres" a que chamamos bairros, sem jardins, centros de dia, escolas, supermercados ou esquadras e polícia de proximidade. A polícia, de resto, tem medo de lá entrar.
O que se passou na Quinta da Fonte é, de há muito, conhecido dos responsáveis por este monstro urbanístico. Só que, deste vez, foi filmado e pudemos ver em directo o que lá se passa.
A menos de um kilómetro da minha casa, existe um dos bairros mais problemáticos da grande Lisboa, a Cova da Moura. Um aglomerado de construções clandestinas erguidas nas décadas de setenta e oitenta onde, calcula-se, vivem mais de 5000 pessoas. Quem as deixou construir estas habitações (que já foram barracas e hoje são casas de alvenaria e tijolo)? Certamente, a autarquia da Amadora, onde existem dezenas de bairros clandestinos cujos moradores são, na sua maioria, negros, ciganos e desempregados. Alguém imagina um emigrante português a construir uma casa clandestina em Berlim ou em Amsterdão? Obviamente que não. Como pode um governo exigir respeito se não cria regras de convivência socialmente aceitáveis?
2008/07/25
A Língua da Cimeira
Durante o discurso inaugural na cimeira da CPLP (com as ausências de Angola e Moçambique e a presença do ditador da Guiné Equatorial) o primeiro-ministro português enfatizou as quatro bases de cooperação futura: a língua (na Guiné Equatorial fala-se espanhol e francês!), a cidadania, a concertação política e as energias (Brasil, Angola e Guiné-Equatorial têm petróleo). Para "abrilhantar" a sessão foi ainda assinado o "Acordo Brasileiro da Língua Portuguesa". Pouco a pouco começa a perceber-se a estratégia linguística de Sócrates. Desde que haja petróleo, qualquer "língua" serve!
2008/07/23
Allculture
Não estive presente na sessão de divulgação do estudo "Desenvolvimento de um clister de Indústrias Criativas na Região Norte", mas, pelos relatos, já deu para ir percebendo o que são as novas orientações do governo, no que respeita aos caminhos da cultura portuguesa: it's Allculture!!
And the beat goes on, dada-radada-da-da... the beat goes on!!!
And the beat goes on, dada-radada-da-da... the beat goes on!!!
2008/07/22
Karadzik
A prisão de Radovan Karadzik, um dos criminosos de guerra mais procurados da actualidade, veio pôr fim a um período de onze longos anos, em que as mais inverosímeis histórias sobre a sua fuga fizeram manchete na imprensa internacional. Desde a permanência na sua casa de Pale, donde nunca teria saído, até à protecção de monges ortodoxos em mosteiros da Bósnia profunda, passando por inúmeros disfarçes, dos quais o de padre teria sido o mais usado, Karadzik soube sempre escapar a uma perseguição que muitos julgavam poder não terminar nunca. Ainda ontem, aquando do anúncio da sua detenção, corriam duas versões sobre a forma como esta teria ocorrido: enquanto a versão oficial relatava um "raid" da polícia nos subúrbios de Belgrado, onde Karadzik, supostamente, vivia; a versão do seu advogado referia a passada sexta-feira, como o verdadeiro dia da detenção, após o ex-líder sérvio ter sido reconhecido num transporte público da capital...Também de mitos é feita a vida dos criminosos.
Bem mais importante que a lenda é, no entanto, a realidade sofrida pela população muçulmana da Bósnia, sujeita a uma das maiores operações de limpeza étnica de que há memória na Europa do pós-guerra e da qual os mais dramáticos exemplos foram o cerco de Sarajevo (1992-95) e o genocídio de 8000 homens muçulmanos friamente executados em Srebrenica (1995). Por detrás destas operações esteve o demente psiquiatra e poeta nacionalista que ontem foi, finalmente, preso. Será agora, como tudo indica, entregue ao tribunal Internacional de Haia para ser julgado. Não é ainda o fim da história e muitas lágrimas terão de correr nas faces das mães e viúvas de Srebrenica, até a sentença final ser declarada. Como referia o poeta uruguayo Mario Benedetti, a propósito da prisão de Pinochet na cidade de Londres: (ainda estamos longe da justiça) "pero, algo és algo"...
Bem mais importante que a lenda é, no entanto, a realidade sofrida pela população muçulmana da Bósnia, sujeita a uma das maiores operações de limpeza étnica de que há memória na Europa do pós-guerra e da qual os mais dramáticos exemplos foram o cerco de Sarajevo (1992-95) e o genocídio de 8000 homens muçulmanos friamente executados em Srebrenica (1995). Por detrás destas operações esteve o demente psiquiatra e poeta nacionalista que ontem foi, finalmente, preso. Será agora, como tudo indica, entregue ao tribunal Internacional de Haia para ser julgado. Não é ainda o fim da história e muitas lágrimas terão de correr nas faces das mães e viúvas de Srebrenica, até a sentença final ser declarada. Como referia o poeta uruguayo Mario Benedetti, a propósito da prisão de Pinochet na cidade de Londres: (ainda estamos longe da justiça) "pero, algo és algo"...
2008/07/19
"Tugaland"
No seu périplo pelo continente africano, o "engenheiro" continua a apertar a mão a ditadores sem escrúpulos.
Depois da badalada visita a Angola, onde num momento de exaltado optimismo chegou a afirmar que o "trabalho do executivo angolano é a todos os títulos notável" (!?), estará hoje na Líbia de Kadhafi, para fechar mais uns negócios. Ignoramos o elogio que fará desta vez, já que a reunião terá lugar na tenda onde, por norma, não são dadas conferências de imprensa. Talvez sejam discutidas as propriedades medicinais do chá de menta, agora que o calor aperta e as miragens no deserto sejam, por vezes, fatais. Para a semana, será a vez do Chavez, mais um ditador em queda de popularidade depois do fiasco das FARC. Tudo serve a estes "socialistas" de salão, desde que a negociata possa ser efectivada. Há quem lhe chame "realpolitik". Eu prefiro chamar-lhe hipocrisia.
Depois da badalada visita a Angola, onde num momento de exaltado optimismo chegou a afirmar que o "trabalho do executivo angolano é a todos os títulos notável" (!?), estará hoje na Líbia de Kadhafi, para fechar mais uns negócios. Ignoramos o elogio que fará desta vez, já que a reunião terá lugar na tenda onde, por norma, não são dadas conferências de imprensa. Talvez sejam discutidas as propriedades medicinais do chá de menta, agora que o calor aperta e as miragens no deserto sejam, por vezes, fatais. Para a semana, será a vez do Chavez, mais um ditador em queda de popularidade depois do fiasco das FARC. Tudo serve a estes "socialistas" de salão, desde que a negociata possa ser efectivada. Há quem lhe chame "realpolitik". Eu prefiro chamar-lhe hipocrisia.
2008/07/13
Casamentos e Funerais
Quem, por estes dias, ligue a televisão e assista ao que se passa nos bairros sociais da Grande Lisboa, não pode deixar de traçar paralelos com um filme de Kusturica.
Na quinta-feira, teria sido a desavença de um casal de etnia cigana que provocou os primeiros tiros entre dois grupos rivais do bairro da Quinta da Fonte. No seguimento deste primeiro confronto, um segundo tiroteio teve lugar, este mais violento, entre etnias africanas e ciganas. As imagens, de um vídeo amador, não mentem: dezenas de cidadãos armados disparavam contra outros moradores do bairro, em plena luz do dia. Os confrontos prosseguiram ao longo da tarde, agora já em directo e perante a aparente passividade da polícia e do ar paternal do ministro que avisava solenemente que "não eram permitidas armas ilegais em Portugal". Posteriormente, veio a saber-se que as armas apreendidas eram caçadeiras legais e que, das dezenas de atiradores, apenas dois tinham recebido uma notificação...
No sábado, enquanto decorria um casamento cigano num dos extremos do bairro, membros do grupo rival fugiam do local e, seguidos pela polícia, arrombavam casas na Quinta das Mós, outro bairro de realojamento. Interrogado em directo, o presidente do Concelho de Loures, um verdadeiro personagem saído de "Time of the Gypsies", declarava ufano que "recebia as chaves de quem desejasse ir-se embora" (?).
Ao mesmo tempo que ocorriam estes factos, no outro lado da cidade, um morador cigano do bairro do Zambujal era interceptado pela polícia quando transportava a mulher doente ao hospital. A paragem, de quase uma hora para revistar a carrinha, provocou a morte da paciente devido a um ataque cardíaco. Perante as acusações, a polícia remeteu-se a um silêncio comprometedor.
Não fora a gravidade da situação (a que se junta a completa desorientação de que dão mostras os responsáveis da Administração Interna) e estávamos tentados a convidar o realizador sérvio para filmar em Portugal a próxima saga do povo Roma. A realidade, em Lisboa, há muito tempo que ultrapassou a ficção. Só falta escrever o guião.
Na quinta-feira, teria sido a desavença de um casal de etnia cigana que provocou os primeiros tiros entre dois grupos rivais do bairro da Quinta da Fonte. No seguimento deste primeiro confronto, um segundo tiroteio teve lugar, este mais violento, entre etnias africanas e ciganas. As imagens, de um vídeo amador, não mentem: dezenas de cidadãos armados disparavam contra outros moradores do bairro, em plena luz do dia. Os confrontos prosseguiram ao longo da tarde, agora já em directo e perante a aparente passividade da polícia e do ar paternal do ministro que avisava solenemente que "não eram permitidas armas ilegais em Portugal". Posteriormente, veio a saber-se que as armas apreendidas eram caçadeiras legais e que, das dezenas de atiradores, apenas dois tinham recebido uma notificação...
No sábado, enquanto decorria um casamento cigano num dos extremos do bairro, membros do grupo rival fugiam do local e, seguidos pela polícia, arrombavam casas na Quinta das Mós, outro bairro de realojamento. Interrogado em directo, o presidente do Concelho de Loures, um verdadeiro personagem saído de "Time of the Gypsies", declarava ufano que "recebia as chaves de quem desejasse ir-se embora" (?).
Ao mesmo tempo que ocorriam estes factos, no outro lado da cidade, um morador cigano do bairro do Zambujal era interceptado pela polícia quando transportava a mulher doente ao hospital. A paragem, de quase uma hora para revistar a carrinha, provocou a morte da paciente devido a um ataque cardíaco. Perante as acusações, a polícia remeteu-se a um silêncio comprometedor.
Não fora a gravidade da situação (a que se junta a completa desorientação de que dão mostras os responsáveis da Administração Interna) e estávamos tentados a convidar o realizador sérvio para filmar em Portugal a próxima saga do povo Roma. A realidade, em Lisboa, há muito tempo que ultrapassou a ficção. Só falta escrever o guião.
2008/07/11
Vigilância electrónica
O Senado dos EUA acaba de aprovar uma nova lei de vigilância electrónica, muito controversa e restritiva, que suscitou um debate acalorado naquele país sobre as liberdades individuais. O mais interessante é que Bush consegue, finalmente depois de grandes esforços, fazer passar uma lei deste tipo, já na fase do seu perigeu político (quando terá sido o apogeu...?), e num momento em que o Senado é dominado por Democratas. Que esperar de uma presidência democrata que aí possa vir?
Os apertos e as constrições de todo o tipo parecem ser a única resposta que os políticos encontram para os problemas deste mundo, que caminha em imparável trânsito para um paradigma diferente. Já há muito tempo que não se via um ataque tão forte aos direitos civis duramente conquistados ao longo dos anos. As tentativas são várias e ocorrem em todas as latitudes. Neste aspecto, parece que voltamos, por vezes, aos tempos da barbárie. Os pregoeiros da "civilização ocidental" parecem esquecer os valores mais importantes em assentou a sua construção.
Por cá, apesar das tentativas várias em reeditar tempos de antigamente, claro que Pinto da Costa e Valentim Loureiro, esses grandes defensores das liberdades individuais, ainda podem sonhar em reclamar a ilegalidade das escutas telefónicas, com base nas quais os respectivos processos foram construídos...
Os apertos e as constrições de todo o tipo parecem ser a única resposta que os políticos encontram para os problemas deste mundo, que caminha em imparável trânsito para um paradigma diferente. Já há muito tempo que não se via um ataque tão forte aos direitos civis duramente conquistados ao longo dos anos. As tentativas são várias e ocorrem em todas as latitudes. Neste aspecto, parece que voltamos, por vezes, aos tempos da barbárie. Os pregoeiros da "civilização ocidental" parecem esquecer os valores mais importantes em assentou a sua construção.
Por cá, apesar das tentativas várias em reeditar tempos de antigamente, claro que Pinto da Costa e Valentim Loureiro, esses grandes defensores das liberdades individuais, ainda podem sonhar em reclamar a ilegalidade das escutas telefónicas, com base nas quais os respectivos processos foram construídos...
2008/07/06
Percepções; sobrevivência e sonho
Anotei esta citação que acho fazer sentido partilhar agora:
«Aldous Huxley believed that our brains have been trained during the evolutionary millennia to screen out all those perceptions that do not directly aid us in our day to day struggle for existence. We have gained security and survival, but in the process have sacrified our sense of wonder.» (*)
J. G. Ballard, no Prefácio de "The Doors of Perception" (As portas da percepção) por Aldous Huxley.
(*) «Aldous Huxley acreditava que o nosso cérebro foi treinado durante a sua milenar evolução para desprezar todas as percepções que não servem para nos ajudar directamente na nossa luta do dia a dia pela existência. Ganhámos em segurança e sobrevivência, mas, nesse processo, sacrificámos o nosso sentido do sonho.»
Será isto verdade? A avaliar pela actual incapacidade (quase) generalizada de solidariedade, pelo actual desprezo pelas ideologias e pela imparável ganância que por aí grassa, é.
«Aldous Huxley believed that our brains have been trained during the evolutionary millennia to screen out all those perceptions that do not directly aid us in our day to day struggle for existence. We have gained security and survival, but in the process have sacrified our sense of wonder.» (*)
J. G. Ballard, no Prefácio de "The Doors of Perception" (As portas da percepção) por Aldous Huxley.
(*) «Aldous Huxley acreditava que o nosso cérebro foi treinado durante a sua milenar evolução para desprezar todas as percepções que não servem para nos ajudar directamente na nossa luta do dia a dia pela existência. Ganhámos em segurança e sobrevivência, mas, nesse processo, sacrificámos o nosso sentido do sonho.»
Será isto verdade? A avaliar pela actual incapacidade (quase) generalizada de solidariedade, pelo actual desprezo pelas ideologias e pela imparável ganância que por aí grassa, é.
2008/07/04
A realidade já não é o que era dantes
Já não é importante a "mensagem", quando se escreve. Pode contar-se uma simples história que aconteceu, ou que se imaginou que aconteceu. A história pode até nem ser "completa". Pode contar-se apenas uma fracção do acontecimento, como se só se tivesse assistido a essa parte e não se soubesse como a coisa se desenvolveu depois. Deixa-se isso à avaliação -- à imaginação -- do leitor. Como certas fotografias que, ao registarem apenas fracções de uma realidade, podem ser "vistas" de várias maneiras.
A fotografia é sempre uma ilusão. Nesse caso a ilusão é, pois, dupla. Ou múltipla; porque hoje em dia há a possibilidade de colher uma fotografia digital. Esta não passa de um enorme conjunto de informação (tanto maior quanto a capacidade de armazenamento de dados da máquina, isto é, a sua sofisticação) que pode ser trabalhada à medida do querer do fotógrafo. Eu pego em todos os píxeis que têm a informação de um determinado tipo de vermelho e mudo-lhe as características para, por exemplo, o avivar, ou mudar a sua cor.
A reprodução da realidade já não é o que era; a tecnologia tem um papel cada vez mais importante. E, como a realidade é também informada (portanto modificada) pela realidade reproduzida, hoje já não se sabe bem o que é a realidade.
Isto prende-se com a velha questão de que quanto mais uma pessoa sabe, mais tem consciência do que lhe falta saber. Porque lhe vão aparecendo novos temas, novas dúvidas, novos caminhos possíveis do saber. Mandaram-me há pouco tempo um power point que dizia que as profissões que irão ter mais procura dentro de poucos anos ainda nem sequer foram criadas.
Lembro-me de um texto de André Bazin que contava a seguinte história: Uns missionários foram, certa vez, projectar um filme numa aldeia muito primitiva de África. Os locais viram o filme atentamente e, quando depois lhes perguntaram do que tinham gostado, eles disseram que foi da galinha branca. Os missionários não tinham qualquer memória de no filme existir uma galinha branca e não deram por ela, mesmo depois de reverem o filme. Tiveram de o passar plano a plano na moviola para se aperceberem de que, sem que tal tivesse minimamente a ver com a acção, em determinada cena havia uma galinha branca que cruzava um canto da imagem. Fora esse acontecimento circunstancial e não a história que o filme contava, o que os sensibilizara. Acontecimento esse completamente casual e involuntário do ponto de vista de quem realizou o filme, já para não falar dos objectivos de quem o projectava.
É a isto que dantes se chamava "diferentes níveis de leitura".
Vem isto a propósito da minha ambição de contar histórias simples, daquelas que acontecem no dia a dia das pessoas. Histórias para toda a gente poder reconhecer; na medida da respectiva experiência e do seu saber anterior, claro. Não é nada fácil, garanto.
A fotografia é sempre uma ilusão. Nesse caso a ilusão é, pois, dupla. Ou múltipla; porque hoje em dia há a possibilidade de colher uma fotografia digital. Esta não passa de um enorme conjunto de informação (tanto maior quanto a capacidade de armazenamento de dados da máquina, isto é, a sua sofisticação) que pode ser trabalhada à medida do querer do fotógrafo. Eu pego em todos os píxeis que têm a informação de um determinado tipo de vermelho e mudo-lhe as características para, por exemplo, o avivar, ou mudar a sua cor.
A reprodução da realidade já não é o que era; a tecnologia tem um papel cada vez mais importante. E, como a realidade é também informada (portanto modificada) pela realidade reproduzida, hoje já não se sabe bem o que é a realidade.
Isto prende-se com a velha questão de que quanto mais uma pessoa sabe, mais tem consciência do que lhe falta saber. Porque lhe vão aparecendo novos temas, novas dúvidas, novos caminhos possíveis do saber. Mandaram-me há pouco tempo um power point que dizia que as profissões que irão ter mais procura dentro de poucos anos ainda nem sequer foram criadas.
Lembro-me de um texto de André Bazin que contava a seguinte história: Uns missionários foram, certa vez, projectar um filme numa aldeia muito primitiva de África. Os locais viram o filme atentamente e, quando depois lhes perguntaram do que tinham gostado, eles disseram que foi da galinha branca. Os missionários não tinham qualquer memória de no filme existir uma galinha branca e não deram por ela, mesmo depois de reverem o filme. Tiveram de o passar plano a plano na moviola para se aperceberem de que, sem que tal tivesse minimamente a ver com a acção, em determinada cena havia uma galinha branca que cruzava um canto da imagem. Fora esse acontecimento circunstancial e não a história que o filme contava, o que os sensibilizara. Acontecimento esse completamente casual e involuntário do ponto de vista de quem realizou o filme, já para não falar dos objectivos de quem o projectava.
É a isto que dantes se chamava "diferentes níveis de leitura".
Vem isto a propósito da minha ambição de contar histórias simples, daquelas que acontecem no dia a dia das pessoas. Histórias para toda a gente poder reconhecer; na medida da respectiva experiência e do seu saber anterior, claro. Não é nada fácil, garanto.
2008/07/01
O Modelo Europeu
No dia em que a França inicia a presidência da Europa a 27, o primeiro-ministro polaco veio anunciar que não assinará o Tratado de Lisboa, por este ter perdido qualquer sentido após o "não" irlandês. Esta era a notícia que Sarkozy dispensava. Logo agora, quando o presidente francês está em queda de popularidade acelerada e necessitava do Tratado para salvar a imagem de um país que, recorde-se, há três anos tinha dito "não" a Nice. Porque uma má notícia nunca vem só (Lei de Murphy) é bem possível que a República Checa siga o exemplo da Polónia. E vão três...
Bom, perante isto, que fazer (perguntar-se-ão a esta hora os eurocratas de Bruxelas)?
Aparentemente, sem saber ainda a resposta polaca, o inefável Sarkozy avançava ontem na TV5 com uma (im)provável solução para a crise europeia: "se há 1 "não" e 19 "sim", então o projecto Europa deve continuar com os 27 de Nice".
Ou seja, uma Europa a duas velocidades. Como a França e a Alemanha sempre quiseram, de resto.
Ou seja, quando o modelo não se adapta à realidade, adapta-se a realidade ao modelo. Estão a perceber?
Bom, perante isto, que fazer (perguntar-se-ão a esta hora os eurocratas de Bruxelas)?
Aparentemente, sem saber ainda a resposta polaca, o inefável Sarkozy avançava ontem na TV5 com uma (im)provável solução para a crise europeia: "se há 1 "não" e 19 "sim", então o projecto Europa deve continuar com os 27 de Nice".
Ou seja, uma Europa a duas velocidades. Como a França e a Alemanha sempre quiseram, de resto.
Ou seja, quando o modelo não se adapta à realidade, adapta-se a realidade ao modelo. Estão a perceber?
2008/06/27
Frankenstein em Harare
Morgan Gabriel Mugabe (1924) governa o Zimbabwe desde 1980. Tornou-se famoso na década de '60, depois da nomeação como secretário-geral do Zimbabwe African National Union (ZANU). Nos anos sessenta e setenta, Mugabe esteve preso na (então) Rodésia, governada por Ian Smith. Deixou o país em 1976, para juntar-se à luta de libertação do Zimbabwe que operava a partir de Moçambique. Com o fim da guerra, em 1979, Mugabe regressou ao Zimbabwe, onde foi considerado herói africano. Ganhou as primeiras eleições livres de 1980, no meio de inúmeras intimidações feitas pelas tropas que o apoiavam. Apesar dos seus apelos iniciais, para respeitarem a minoria branca, as relações com o Reino Unido nunca foram pacíficas.
Os primeiros anos de mandato foram marcados por violentos combates contra a tribo Ndebele, a segunda maior etnia zimbabuana, liderada por Joshua Nkomo, seu aliado na luta contra o colonialismo britânico. Afastado Nkomo (entretanto falecido) passou a governar o país sem oposição.
Desde 1988 que as políticas de Mugabe vêm sendo denunciadas, no Ocidente e no seu país, como sendo racistas.
Mugabe expropriou e expulsou milhares de agricultores brancos das suas terras, que foram entregues a antigos combatentes da ZANU. A produção de cereais, algodão e tabaco, que fizeram do Zimbabwe o "Celeiro de África", caíu abruptamente, provocando um exôdo rural sem precedentes e obrigando o país a importar a sua alimentação. Para fazer face à diminuição de divisas, Mugabe mandou cunhar trilliões de dólares zimbabuanos, provocando uma inflação sem procedentes que, praticamente destruiu todo o tecido económico. Milhares de zimbabuanos viram-se obrigados a emigrar para a África do Sul e Moçambique. Foi ainda acusado de perseguir, torturar e matar os seus oponentes políticos, nomeadamente do MDC que, contra ele, se apresentaram a eleições.
A todas as críticas, Mugabe responde que "se trata de um complot branco neo-colonialista" e que "os problemas do Zimbabwe, são uma herança do imperialismo".
No passado 3 de Abril, a Comissão Eleitoral do Zimbabwe anunciou a vitória do MDC para as eleições da Assembleia Nacional, por 47,9% contra 43% do ZANU. Porque nenhum dos partidos obteve a maioria simples, é necessário haver uma segunda volta. Mugabe atrasou a divulgação dos resultados e recomeçou a repressão contra os seus opositores. A segunda volta foi anunciada para hoje, mas perante o clima de terror instaurado, o principal líder da oposição, Morgan Tsvangirai, recusou participar naquilo que considera uma "farsa eleitoral" e refugiou-se na embaixada da Holanda.
As imagens, divulgadas pelas televisões internacionais, mostram um povo aterrorizado por um déspota tresloucado que há décadas governa o país com mão de ferro. À falta de melhor epíteto, Desmond Tutu (Nobel da Paz) chamou-lhe, esta semana, o "Frankenstein africano". O monstro de Mary Shelley tem um seguidor à altura.
Os primeiros anos de mandato foram marcados por violentos combates contra a tribo Ndebele, a segunda maior etnia zimbabuana, liderada por Joshua Nkomo, seu aliado na luta contra o colonialismo britânico. Afastado Nkomo (entretanto falecido) passou a governar o país sem oposição.
Desde 1988 que as políticas de Mugabe vêm sendo denunciadas, no Ocidente e no seu país, como sendo racistas.
Mugabe expropriou e expulsou milhares de agricultores brancos das suas terras, que foram entregues a antigos combatentes da ZANU. A produção de cereais, algodão e tabaco, que fizeram do Zimbabwe o "Celeiro de África", caíu abruptamente, provocando um exôdo rural sem precedentes e obrigando o país a importar a sua alimentação. Para fazer face à diminuição de divisas, Mugabe mandou cunhar trilliões de dólares zimbabuanos, provocando uma inflação sem procedentes que, praticamente destruiu todo o tecido económico. Milhares de zimbabuanos viram-se obrigados a emigrar para a África do Sul e Moçambique. Foi ainda acusado de perseguir, torturar e matar os seus oponentes políticos, nomeadamente do MDC que, contra ele, se apresentaram a eleições.
A todas as críticas, Mugabe responde que "se trata de um complot branco neo-colonialista" e que "os problemas do Zimbabwe, são uma herança do imperialismo".
No passado 3 de Abril, a Comissão Eleitoral do Zimbabwe anunciou a vitória do MDC para as eleições da Assembleia Nacional, por 47,9% contra 43% do ZANU. Porque nenhum dos partidos obteve a maioria simples, é necessário haver uma segunda volta. Mugabe atrasou a divulgação dos resultados e recomeçou a repressão contra os seus opositores. A segunda volta foi anunciada para hoje, mas perante o clima de terror instaurado, o principal líder da oposição, Morgan Tsvangirai, recusou participar naquilo que considera uma "farsa eleitoral" e refugiou-se na embaixada da Holanda.
As imagens, divulgadas pelas televisões internacionais, mostram um povo aterrorizado por um déspota tresloucado que há décadas governa o país com mão de ferro. À falta de melhor epíteto, Desmond Tutu (Nobel da Paz) chamou-lhe, esta semana, o "Frankenstein africano". O monstro de Mary Shelley tem um seguidor à altura.
2008/06/20
Memo
Definição: "O futebol é um desporto inventado por ingleses, que se joga com vinte e dois jogadores, onze de cada lado, um árbitro e uma bola e, no fim, ganha quase sempre a Alemanha".
2008/06/19
Questão de classe
Um dos comentários críticos mais chocantes que se ouve por aí ao "não" Irlandês é o daqueles que dizem que a Irlanda não pode sozinha parar a Europa. Não pode?!Claro que pode, por dois motivos.
Em primeiro lugar, pode porque é um país soberano que está a usar os seus mecanismos constitucionais, totalmente legítimos. E depois, pôde porque os génios que conduziram esta questão do Tratado deixaram esta matéria entregue ao sólido e sempre traquilizador princípio do "logo-se-vê", como anteriormente escrevi.
Estranho conceito de democracia e ainda mais estranha forma de conduzir um processo sobre matéria que eles próprios consideram da maior importância.
E assim se vê de que massa são feitos estes políticos que conduzem a Europa. A justificar plenamente os reparos daqueles que, dizendo-se partidários da causa europeia, afirmam que falta classe à classe política que hoje domina na Europa.
Ceci n'est pas un "non"...
2008/06/18
A Europa vista de fora
A simples ideia de uma directiva para o repatriamento é uma verdadeira obscenidade, que deveria fazer corar de vergonha os seus autores, promotores e apoiantes. Vergonha é, pelos vistos, coisa que não abunda no Parlamento Europeu porque a dita directiva foi aprovada por larga maioria de eurodeputados. Milhares de anos de história do pensamento ocidental humanista deitados, assim, num ápice, por um bando de desavergonhados, para o lixo!Razão tinha Mahatma Gandhi quando lhe perguntaram o que pensava da "civilização ocidental". "Era um boa ideia," terá ele respondido...
2008/06/15
O Plano B
Ainda os ecos do referendo irlandês não tinham desaparecido e já os mandarins de Bruxelas vinham a terreiro "ameaçar" a Irlanda da necessidade de rever a sua posição, pois este não era o resultado desejado... Se for necessário, devem convocar outro referendo até à obtenção do almejado "sim" e, com este, o consenso europeu. O raciocínio destes "iluminados" eurocratas é simples: 800.000 votantes, não podem estragar a "festa" de 490 milhões de cidadãos!
De facto, analisado à luz destes números, o "não" irlandês representa uma percentagem ínfima dos potenciais votantes da Europa a 27. Só que, nestas contas, os eurocratas esqueceram-se de um detalhe importante: em nenhum país da União Europeia os cidadãos puderam votar o Tratado, ao contrário da Irlanda, único membro da UE onde os tratados internacionais são sujeitos a referendo. E não é que a maioria dos irlandeses votou "não"? Como conciliar esta participação democrática com os desejos autocráticos do "directório" europeu? Esta a questão e a grande lição deste resultado. Que a própria constituição europeia, de resto, aceita no seu texto oficial.
Uma insolúvel contradição, que as grandes potências europeias (França e Alemanha á cabeça) não querem reconhecer. Por um lado desejam uma Europa unida; por outro, querem construí-la à revelia dos seus cidadãos. É por estas pequenas-grandes coisas que a Noruega votou "não" à adesão, a Dinamarca votou "não" a Maastricht e a França e a Holanda, votaram "não" a Nice. Agora, foi a vez da Irlanda dizer "não" a Lisboa. Sócrates considerou o resultado uma "derrota pessoal"; o inefável Cavaco sugeriu que a Irlanda é a causadora do problema (?!) e como tal deve resolvê-lo; enquanto Durão Barroso, que tinha dito não haver Plano B, veio declarar que o Tratado está "vivo". Como não há plano B, há que "obrigar" a Irlanda a arranjar uma solução. Mesmo que esta seja contra a vontade dos seus cidadãos. Não ocorre ao "directório europeu" que o Tratado de Lisboa está hoje morto e enterrado, graças à participação democrática dos únicos europeus que puderam votar em consciência. Também por isso, obrigado Irlanda!
De facto, analisado à luz destes números, o "não" irlandês representa uma percentagem ínfima dos potenciais votantes da Europa a 27. Só que, nestas contas, os eurocratas esqueceram-se de um detalhe importante: em nenhum país da União Europeia os cidadãos puderam votar o Tratado, ao contrário da Irlanda, único membro da UE onde os tratados internacionais são sujeitos a referendo. E não é que a maioria dos irlandeses votou "não"? Como conciliar esta participação democrática com os desejos autocráticos do "directório" europeu? Esta a questão e a grande lição deste resultado. Que a própria constituição europeia, de resto, aceita no seu texto oficial.
Uma insolúvel contradição, que as grandes potências europeias (França e Alemanha á cabeça) não querem reconhecer. Por um lado desejam uma Europa unida; por outro, querem construí-la à revelia dos seus cidadãos. É por estas pequenas-grandes coisas que a Noruega votou "não" à adesão, a Dinamarca votou "não" a Maastricht e a França e a Holanda, votaram "não" a Nice. Agora, foi a vez da Irlanda dizer "não" a Lisboa. Sócrates considerou o resultado uma "derrota pessoal"; o inefável Cavaco sugeriu que a Irlanda é a causadora do problema (?!) e como tal deve resolvê-lo; enquanto Durão Barroso, que tinha dito não haver Plano B, veio declarar que o Tratado está "vivo". Como não há plano B, há que "obrigar" a Irlanda a arranjar uma solução. Mesmo que esta seja contra a vontade dos seus cidadãos. Não ocorre ao "directório europeu" que o Tratado de Lisboa está hoje morto e enterrado, graças à participação democrática dos únicos europeus que puderam votar em consciência. Também por isso, obrigado Irlanda!
2008/06/14
A "Laranja" está de volta!
Nos supermercados e em instituições oficiais, nos correios e nas câmaras municipais, o clima é de festa permanente e a entusiasmo é contagiante: os empregados ostentam grandes chapéus em forma de taça e as mulheres cachecóis de penas laranjas. Um verdadeiro carnaval. Só em Berna, onde a selecção holandesa tem jogado, estão cinquenta mil holandeses em permanência (a maior parte deles sem bilhete). Ontem, no regresso a casa, em companhia do ex-presidente Jorge Sampaio, os passageiros da KLM eram informados ao minuto do resultado contra a França. A cada golo, anunciado pelo comandante de bordo, sucediam-se os aplausos dos passageiros em delírio. Quem disse que o referendo irlandês era a coisa mais importante para os europeus?
P.S. foto de Hennie Bos, adepta "laranja"
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