Caro Sobrinho,
Não ligues ao que dizem. Tudo o que hoje for dito ou escrito sobre esta linda terra e o "outlet" que lhe deu nome, pode ser mentira. Ou seja, vale o que vale. E nada mais do que isso.
Teu tio de Alcochete
2009/04/01
Porque no se callan?
O "líder histórico do PS e antigo Presidente da República" Mário Soares é uma figura que nos habituou ao melhor e ao pior. Hoje veio a terreno "lamentar" a lentidão da justiça, mostrar "descontentamento" pelas fugas de informação e acusar os "patrões" da imprensa de conduzirem uma campanha contra o primeiro ministro.
Confesso que estou a começar a ficar farto de toda esta conversa e de observar a maneira como os líderes políticos manipulam a opinião pública, neste e noutros casos, tentando fazer de nós parvos. E confesso que já me causa nojo assistir a este confronto, apolítico e amoral, entre os figurões do poder (governo, partidos, orgãos de comunicação, instâncias judiciárias), a estes argumentos e contra-argumentos, a estas acusações e contra-acusações públicas, a esta guerra de comunicados, a toda esta carapuça, enfim, que nos tentam enfiar todos os dias.
O sistema de justiça em Portugal foi criado ontem? Foi a propósito do caso Freeport que surgiu o MP, os tribunais, os juízes? Só agora, por causa deste caso preciso, é que o dr. Soares consegue descobrir que a justiça é lenta? Ou será que o sistema de justiça em Portugal só começou a funcionar lentamente no caso Freeport? E isto é um problema para resolver ou, pelo contrário, convém que não tenha remédio? E estas "fugas" de informação não têm responsáveis? O MP, os tribunais e demais instituições que fazem parte do sistema judiciário português funcionam em roda livre? Quem é que tem a responsabilidade em tudo isto? Se houver uma fuga de informação dentro de uma determinada instituição não é o representante máximo dessa instituição que é culpado? Alguém alguma vez viu o resultado de algum inquérito mandado instaurar a propósito de uma fuga de informação? Algum responsável foi alguma vez destituído porque saiu da instituição que dirige informação que não devia? Quem é que esta gente quer enganar?! E por que razão concreta aparece neste momento o dr. Mário Soares a defender o PM? Mais um a ajudar nesta farsa em que tudo isto se tornou...
Não, pode o dr. Soares estar descansado, para mim o caso Freeport é coisa a que já não ligo nenhuma. E é-me totalmente indiferente que os "patrões" da imprensa estejam a fazer a cama ao PM. Para mim --e certamente, para a grande maioria dos portugueses-- o PM não será julgado pelo que fez ou deixou de fazer no Freeport. O PM será julgado pela sua governação.
E sob esse ponto de vista não creio que subsistam grandes dúvidas ou ilusões.
Num momento em que só se fala de tempos difíceis, num momento em que esses tempos difíceis se sentem duramente na pele, em que se batem recordes de falências, encerramentos, despedimentos, quebras de receitas, endividamentos, incumprimentos, e, face à clara gravidade da situação, alguns ministros mostram já publicamente receio pela possibilidade de tudo isto poder vir a dar origem a conflitos sociais sérios, o PM... decreta uma tolerância de ponto para a tarde de quinta feira. Ora aí está um bom exemplo! Uma ponte para premiar certamente o bom desempenho do único sector de actividade deste país que nunca foi objecto de qualquer restruturação séria, cujas gorduras nunca parecem parar de crescer e onde a recessão não vai de certeza ditar medidas brutais. Um sector que não busca parceiros externos para garantir a viabilidade. Um sector a cujos membros nunca vai acontecer o que acontece aos trabalhadores dessas fábricas e empresas que todos os dias encerram por esse país fora: irem para a bicha do Fundo de Desemprego! A "tolerância de ponto" de quinta feira tem, pois, um valor simbólico. E um autor.
Três certezas eu tenho, no meio disto tudo: 1) na quinta feira vão falir mais não sei quantas empresas; 2) eu, por mim, na quinta feira, vou trabalhar, como faço todos os dias e 3) não é certamente por causa do Freeport que eu já sei há muito em quem voto nas próximas eleições...
PS- Uma adenda (09-04-02) apenas para referir mais um exemplo da "campanha negra" que os patrões da informação andam a montar contra o PM. Leia aqui...
Confesso que estou a começar a ficar farto de toda esta conversa e de observar a maneira como os líderes políticos manipulam a opinião pública, neste e noutros casos, tentando fazer de nós parvos. E confesso que já me causa nojo assistir a este confronto, apolítico e amoral, entre os figurões do poder (governo, partidos, orgãos de comunicação, instâncias judiciárias), a estes argumentos e contra-argumentos, a estas acusações e contra-acusações públicas, a esta guerra de comunicados, a toda esta carapuça, enfim, que nos tentam enfiar todos os dias.
O sistema de justiça em Portugal foi criado ontem? Foi a propósito do caso Freeport que surgiu o MP, os tribunais, os juízes? Só agora, por causa deste caso preciso, é que o dr. Soares consegue descobrir que a justiça é lenta? Ou será que o sistema de justiça em Portugal só começou a funcionar lentamente no caso Freeport? E isto é um problema para resolver ou, pelo contrário, convém que não tenha remédio? E estas "fugas" de informação não têm responsáveis? O MP, os tribunais e demais instituições que fazem parte do sistema judiciário português funcionam em roda livre? Quem é que tem a responsabilidade em tudo isto? Se houver uma fuga de informação dentro de uma determinada instituição não é o representante máximo dessa instituição que é culpado? Alguém alguma vez viu o resultado de algum inquérito mandado instaurar a propósito de uma fuga de informação? Algum responsável foi alguma vez destituído porque saiu da instituição que dirige informação que não devia? Quem é que esta gente quer enganar?! E por que razão concreta aparece neste momento o dr. Mário Soares a defender o PM? Mais um a ajudar nesta farsa em que tudo isto se tornou...
Não, pode o dr. Soares estar descansado, para mim o caso Freeport é coisa a que já não ligo nenhuma. E é-me totalmente indiferente que os "patrões" da imprensa estejam a fazer a cama ao PM. Para mim --e certamente, para a grande maioria dos portugueses-- o PM não será julgado pelo que fez ou deixou de fazer no Freeport. O PM será julgado pela sua governação.
E sob esse ponto de vista não creio que subsistam grandes dúvidas ou ilusões.
Num momento em que só se fala de tempos difíceis, num momento em que esses tempos difíceis se sentem duramente na pele, em que se batem recordes de falências, encerramentos, despedimentos, quebras de receitas, endividamentos, incumprimentos, e, face à clara gravidade da situação, alguns ministros mostram já publicamente receio pela possibilidade de tudo isto poder vir a dar origem a conflitos sociais sérios, o PM... decreta uma tolerância de ponto para a tarde de quinta feira. Ora aí está um bom exemplo! Uma ponte para premiar certamente o bom desempenho do único sector de actividade deste país que nunca foi objecto de qualquer restruturação séria, cujas gorduras nunca parecem parar de crescer e onde a recessão não vai de certeza ditar medidas brutais. Um sector que não busca parceiros externos para garantir a viabilidade. Um sector a cujos membros nunca vai acontecer o que acontece aos trabalhadores dessas fábricas e empresas que todos os dias encerram por esse país fora: irem para a bicha do Fundo de Desemprego! A "tolerância de ponto" de quinta feira tem, pois, um valor simbólico. E um autor.
Três certezas eu tenho, no meio disto tudo: 1) na quinta feira vão falir mais não sei quantas empresas; 2) eu, por mim, na quinta feira, vou trabalhar, como faço todos os dias e 3) não é certamente por causa do Freeport que eu já sei há muito em quem voto nas próximas eleições...
PS- Uma adenda (09-04-02) apenas para referir mais um exemplo da "campanha negra" que os patrões da informação andam a montar contra o PM. Leia aqui...
2009/03/31
2009/03/30
O cisma da camisa de vénus
O Papa largou a bomba do preservativo em Angola e logo meio mundo lhe caiu, com toda a razão, em cima. Tratou-se da formulação infeliz de uma ideia que era fruto de algum desígnio legítimo, ou de uma ideia abjecta, formulada num tom particularmente eloquente. Ninguém sabe. Em qualquer caso, a verdade é que ainda não consegui perceber qual é o conceito de "vida" que o Papa defende.
Tivemos, aliás, nesta deslocação a Angola, um caso particularmente eloquente que contribui para aumentar esta confusão. Duas pessoas, salvo erro, morreram durante a missa em Luanda, no Estádio dos Coqueiros. Que reacções se viram, para além do lamento de circunstância? Nenhuma. O facto de duas pessoas terem perdido a vida para ver o Papa não impediu sua eminência de prosseguir com a sua acção. Duas vidas que pareceu terem pouco valor perante o peso do milhão e tal (terão sido esses os números...) que procurava entrar no estádio e dos muitos milhões que observavam de fora a operação de propaganda. Não estamos aqui a falar de vidas em abstracto. Estamos a falar de duas vidas concretas, perdidas quando iam ouvir o Papa defender os valores da vida... Sua eminência perdeu uma excelente ocasião para demonstrar, na prática, o valor que atribui à vida. Preferiu outras vias...
O curioso é que o comentário do Papa suscitou naturais posições críticas de diversos membros do clero mais esclarecidos, atentos ou simplesmente mais inteligentes. Essas posições vão agora ser objecto de uma reacção especial do Vaticano, que não se adivinha branda. A fogueira já não será solução, mas há outros lumes, mais brandos, se bem que igualmente purificadores.
A hierarquia católica agita-se em torno do problema da camisa. Estaremos aqui, quem sabe, perante a iminência de um novo cisma.
Maurice Jarre (1924-2009)
Uma muito singela homenagem a um compositor que admiro bastante. A fronteira entre o erudito e o popular pode, por vezes, ser bastante escorregadia. A qualidade do trabalho de Maurice Jarre em filmes como Dr. Zhivago ou Lawrence of Arabia e a sua enorme aceitação popular ilustram bem este caso de migração de fronteiras.
2009/03/29
Cozido só com enchidos
João Palma, o novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, afirmou-o claramente: "as pressões sobre os magistrados estão a atingir níveis incomportáveis." Por seu turno, o presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, juiz desembargador António Martins assegura que “há sempre uma apetência do poder político em criar tensões para uma menor independência do poder judicial."
Já não estamos no domínio do tu-sabes-que-eu-sei-que-tu-sabes-que-eu-sei. Neste momento a coisa é oficial: o poder político interfere no poder judicial e há agentes directamente envolvidos no processo dispostos a denunciá-lo.
Ficamos pois numa dolorosa expectativa. Agora que oficialmente se sabe que existe esta tentativa, frustrada ou não, de maniatar o poder judicial, o que vai ser feito pelos diversos intervenientes para subverter esta situação? Será que o denunciado vai reagir? E o denunciante vai-se ficar pela denúncia vaga? E o que podemos fazer, nós todos que assistimos, incrédulos e com um crescente sentimento de impotência e de revolta a todo este espetáculo?
Infelizmente, o problema da aplicação da justiça é apenas uma das facetas da nossa crise. O grande problema é mesmo o da injustiça que reina na sociedade portuguesa!
A justiça à portuguesa, ao contrário do cozido, não é com todos. Tem só enchidos. A ideia que se tem é a de que o Estado Português, enquanto zelador e instigador de justiça e de equilíbrio entre os interesses de todos os cidadãos tem uma prática hipócrita, e fomenta e aprofunda, ele próprio, as desiguladades.
Leis injustas e injustamente implementadas, iniquidades gritantes, o mau funcionamento, a inacção e o desleixo da trituradora máquina administrativa, a prepotência, a corrupção, restrições inaceitáveis e parcialidade no acesso aos recursos comuns, e até, sabemo-lo agora oficialmente, as tentativas de instrumentalização do poder judicial e de atropelo das suas prerrogativas, fazem da questão da justiça latu sensu a causa principal do nosso subdesenvolvimento.
O nome da crise em Portugal é este: justiça! Não é um problema ao mesmo nível de qualquer dos outros que geralmente são apontados como causadores do nosso estado de atraso crónico. É mais abrangente. É a própria matriz geradora de todas as outras crises, seja a do ensino, da segurança social ou financeira.
Alguém dizia que as religiões se baseiam sobretudo no princípio da supressão do prazer. Este Estado Português, incapaz de garantir a justiça, embora seja fundado nos princípios do laicismo, transformou-se numa religião cujos bonzos nos conseguiram conduzir a uma inexorável perda de prazer de ser português.
Já não estamos no domínio do tu-sabes-que-eu-sei-que-tu-sabes-que-eu-sei. Neste momento a coisa é oficial: o poder político interfere no poder judicial e há agentes directamente envolvidos no processo dispostos a denunciá-lo.
Ficamos pois numa dolorosa expectativa. Agora que oficialmente se sabe que existe esta tentativa, frustrada ou não, de maniatar o poder judicial, o que vai ser feito pelos diversos intervenientes para subverter esta situação? Será que o denunciado vai reagir? E o denunciante vai-se ficar pela denúncia vaga? E o que podemos fazer, nós todos que assistimos, incrédulos e com um crescente sentimento de impotência e de revolta a todo este espetáculo?
Infelizmente, o problema da aplicação da justiça é apenas uma das facetas da nossa crise. O grande problema é mesmo o da injustiça que reina na sociedade portuguesa!
A justiça à portuguesa, ao contrário do cozido, não é com todos. Tem só enchidos. A ideia que se tem é a de que o Estado Português, enquanto zelador e instigador de justiça e de equilíbrio entre os interesses de todos os cidadãos tem uma prática hipócrita, e fomenta e aprofunda, ele próprio, as desiguladades.
Leis injustas e injustamente implementadas, iniquidades gritantes, o mau funcionamento, a inacção e o desleixo da trituradora máquina administrativa, a prepotência, a corrupção, restrições inaceitáveis e parcialidade no acesso aos recursos comuns, e até, sabemo-lo agora oficialmente, as tentativas de instrumentalização do poder judicial e de atropelo das suas prerrogativas, fazem da questão da justiça latu sensu a causa principal do nosso subdesenvolvimento.
O nome da crise em Portugal é este: justiça! Não é um problema ao mesmo nível de qualquer dos outros que geralmente são apontados como causadores do nosso estado de atraso crónico. É mais abrangente. É a própria matriz geradora de todas as outras crises, seja a do ensino, da segurança social ou financeira.
Alguém dizia que as religiões se baseiam sobretudo no princípio da supressão do prazer. Este Estado Português, incapaz de garantir a justiça, embora seja fundado nos princípios do laicismo, transformou-se numa religião cujos bonzos nos conseguiram conduzir a uma inexorável perda de prazer de ser português.
2009/03/28
Os louros de olhos azuis
Não contentes com o feito de terem levado a economia mundial a uma situação de catástrofe, os louros de olhos azuis vêm agora tornar mais distante e complicado o sonho de uma qualificação da Selecção Nacional para o Mundial de futebol. Portugal está com Lula nesta noite em que os avançados portugueses se apagaram, certamente também pela defesa do planeta.
2009/03/26
2009/03/25
A língua viva
Lucílio

A vida imita o Monty Python, ou era este grupo que imitava a vida? O Público acaba de noticiar que o padre João José Marques Eleutério anunciou na missa de domingo da Igreja do Rato que recusa baptizar meninos que se chamem Lucílio!! Verdade! Não estou a gozar... Ele também não pelos vistos. Está tudo aqui. Um autêntico Flying Circus!
Aguarda-se, com ansiedade e a qualquer momento, uma nota da Presidência da República, do gabinete do Primeiro Ministro, do CEMFA e da Protecção Civil sobre o problema do penálti...
2009/03/24
O espelho da nação
Há três dias que o país não discute outra coisa. Aparentemente teria havido um "assalto" no Algarve que, pelas suas dimensões, ultrapassou tudo o que a nação desportiva alguma vez teria visto. Não há jornal que não o refira, programa televisivo que não o comente (só ontem contei quatro!) e, seja no supermercado ou nos transportes públicos, a opinião é ainda mais acalorada, tal a paixão desencadeada pela ladroagem. Sim, porque o que está aqui em causa, é esta patológica demência que ataca os portugueses quando o crime se passa entre as quatro linhas de um campo de futebol. Há quem lhe chame "paixão" e, até há bem pouco tempo, o amor à causa era tanto que alguns maridos chegavam a manifestar os seus enlevados sentimentos nas pobres consortes que com eles tinham o azar de conviver.
Os tempos mudaram, o desporto tornou-se uma indústria e hoje os resultados da bilheteira é que contam. Ora, quando não há resultados no campo, não há bilheteira que resista e, sem esta, não há receitas que comportem as despesas dos clubes. Porque estes são um reflexo da nação e vivem acima das suas possibilidades, fácil é perceber que ganhar ou perder um título, por muito insignificante que seja, pode ser de importância capital na manutenção de determinadas ambições. Para os dirigentes dos principais clubes portugueses, que não olham a meios para atingir os seus fins, a verdade desportiva há muito que deixou de interessar. O que interessa é a manutenção deste sistema podre que é, ele próprio, um reflexo da corrupção generalizada que grassa na sociedade portuguesa. Gastam-se milhões em plantéis medíocres, contratam-se técnicos com curriculos duvidosos por somas astronómicas, contraem-se dívidas bancárias que acumulam juros incomportáveis para os clubes e prometem-se títulos vários por época, a adeptos crentes e carentes de vitórias.
Obviamente, que nem todos os clubes podem ganhar títulos e, os mais bem preparados têm, à partida, mais possibilidades. Que nem sempre isso acontece é uma evidência, como é uma evidência que algumas arbitragens influenciam directamente os resultados. Que fazer? Uma das possibilidades - que não a solução - seria adoptar tecnologias sofisticadas que permitissem avaliar "in loco" os lances mais duvidosos. Esta proposta tem a oposição das federações internacionais e dos próprios árbitros que argumentam, com alguma razão, que isso seria tirar emoção e dúvida ao jogo. O que, em última análise, afastaria os espectadores dos campos e as receitas necessárias para a sobrevivência dos clubes. Um círculo vicioso.
Mais vicioso, porém, parece ser o ciclo de pobreza endémica que atingiu a sociedade portuguesa nos últimos anos e que veio para ficar. Mais pobreza, mais exclusão social, mais criminalidade e mais corrupção. É neste caldo social, propício a todas as demagogias, que o futebol vai ocupando paulatinamente o lugar da religião como o opiáceo mais importante dos portugueses. E enquanto os portugueses andarem ocupados com o Baptista, não se lembram do Sócrates. Uma benção para o partido do governo.
Os tempos mudaram, o desporto tornou-se uma indústria e hoje os resultados da bilheteira é que contam. Ora, quando não há resultados no campo, não há bilheteira que resista e, sem esta, não há receitas que comportem as despesas dos clubes. Porque estes são um reflexo da nação e vivem acima das suas possibilidades, fácil é perceber que ganhar ou perder um título, por muito insignificante que seja, pode ser de importância capital na manutenção de determinadas ambições. Para os dirigentes dos principais clubes portugueses, que não olham a meios para atingir os seus fins, a verdade desportiva há muito que deixou de interessar. O que interessa é a manutenção deste sistema podre que é, ele próprio, um reflexo da corrupção generalizada que grassa na sociedade portuguesa. Gastam-se milhões em plantéis medíocres, contratam-se técnicos com curriculos duvidosos por somas astronómicas, contraem-se dívidas bancárias que acumulam juros incomportáveis para os clubes e prometem-se títulos vários por época, a adeptos crentes e carentes de vitórias.
Obviamente, que nem todos os clubes podem ganhar títulos e, os mais bem preparados têm, à partida, mais possibilidades. Que nem sempre isso acontece é uma evidência, como é uma evidência que algumas arbitragens influenciam directamente os resultados. Que fazer? Uma das possibilidades - que não a solução - seria adoptar tecnologias sofisticadas que permitissem avaliar "in loco" os lances mais duvidosos. Esta proposta tem a oposição das federações internacionais e dos próprios árbitros que argumentam, com alguma razão, que isso seria tirar emoção e dúvida ao jogo. O que, em última análise, afastaria os espectadores dos campos e as receitas necessárias para a sobrevivência dos clubes. Um círculo vicioso.
Mais vicioso, porém, parece ser o ciclo de pobreza endémica que atingiu a sociedade portuguesa nos últimos anos e que veio para ficar. Mais pobreza, mais exclusão social, mais criminalidade e mais corrupção. É neste caldo social, propício a todas as demagogias, que o futebol vai ocupando paulatinamente o lugar da religião como o opiáceo mais importante dos portugueses. E enquanto os portugueses andarem ocupados com o Baptista, não se lembram do Sócrates. Uma benção para o partido do governo.
2009/03/21
O insustentável peso da censura (2)
Menos de 24 horas após ter sido visionado pelos provedores da RTP e da RDP, o polémico "spot" da Antena 1 (onde subliminarmente se insinuava que as manifestações prejudicavam quem queria trabalhar!) foi retirado.
Andaram bem Paquete de Oliveira e Adelino Gomes ao interpretarem a lei e o sentimento de indignação daqueles que denunciaram e protestaram contra esta grosseira manipulação. Para esta rápida reacção muito contribuiram, nunca será demais realçá-lo, os diversos "blogs" que alertaram para o anúncio e, dessa forma, deram continuidade a uma acção que pode ser considerada exemplar.
Ainda os ecos desta tentativa de manipulação não tinham desaparecido e já uma nova polémica parece estalar. A acreditar no comunicado da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação) têm chegado a este organismo queixas de diversos espectadores sobre os conteúdos do telejornal da TVI, em particular a edição de sexta-feira, da responsabilidade da "pivot" Manuela Moura Guedes.
Devo confessar que não sou adepto da apresentadora em questão e muito menos do seu estilo, que pouco tem de jornalismo e muito menos de objectividade. Moura Guedes poderá ser corajosa e truculenta, mas tais atributos não são necessariamnte sinónimos de bom profissionalismo. Dito isto, devo dizer que vejo regularmente os célebres telejornais de sexta-feira que tanta celeuma parecem causar, quanto mais não seja para ouvir as opiniões do seu convidado residente e para perceber o que incomoda tanta gente. Ora, uma das diferenças, relativamente a outros telejornais, é o tratamento dado às polémicas que envolvem o primeiro-ministro, a última das quais (o caso Freeport) continua em investigação. Independentemente de tudo o que possa pensar-se sobre as implicações de Sócrates neste caso, a verdade é que - tanto quanto podemos perceber - nenhuma notícia avançada foi desmentida e, algumas delas, foram amplamente noticiadas noutros orgãos de comunicação. Não será por aqui que a Entidade Reguladora poderá pegar, pelo que a única razão para tal "aviso à navegação" só pode ser explicada pelo incómodo que determinadas notícias sobre o PM parecem provocar.
Se esta é a razão, Eduardo Moniz tem razão em protestar. Acontece que o director de programas da TVI tem "telhados de vidro" nesta matéria. Basta lembrarmos o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa, por pressão do governo de Santana Lopes, durante o consulado de...Moniz!
Moral desta história muito pouco edificante: num país de tradição censória e pouca cidadania, os governos, sejam eles de um partido ou outro, não diferem nos métodos quando se trata de censurar e manipular a opinião pública. Esta é também a herança da ignorância, fruto de dezenas de anos de censura e desinformação. Resta saber se os eleitores que vão votar este ano querem continuar a acreditar na publicidade. Porque, para a propaganda dos partidos do centro, já não há paciência.
Andaram bem Paquete de Oliveira e Adelino Gomes ao interpretarem a lei e o sentimento de indignação daqueles que denunciaram e protestaram contra esta grosseira manipulação. Para esta rápida reacção muito contribuiram, nunca será demais realçá-lo, os diversos "blogs" que alertaram para o anúncio e, dessa forma, deram continuidade a uma acção que pode ser considerada exemplar.
Ainda os ecos desta tentativa de manipulação não tinham desaparecido e já uma nova polémica parece estalar. A acreditar no comunicado da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação) têm chegado a este organismo queixas de diversos espectadores sobre os conteúdos do telejornal da TVI, em particular a edição de sexta-feira, da responsabilidade da "pivot" Manuela Moura Guedes.
Devo confessar que não sou adepto da apresentadora em questão e muito menos do seu estilo, que pouco tem de jornalismo e muito menos de objectividade. Moura Guedes poderá ser corajosa e truculenta, mas tais atributos não são necessariamnte sinónimos de bom profissionalismo. Dito isto, devo dizer que vejo regularmente os célebres telejornais de sexta-feira que tanta celeuma parecem causar, quanto mais não seja para ouvir as opiniões do seu convidado residente e para perceber o que incomoda tanta gente. Ora, uma das diferenças, relativamente a outros telejornais, é o tratamento dado às polémicas que envolvem o primeiro-ministro, a última das quais (o caso Freeport) continua em investigação. Independentemente de tudo o que possa pensar-se sobre as implicações de Sócrates neste caso, a verdade é que - tanto quanto podemos perceber - nenhuma notícia avançada foi desmentida e, algumas delas, foram amplamente noticiadas noutros orgãos de comunicação. Não será por aqui que a Entidade Reguladora poderá pegar, pelo que a única razão para tal "aviso à navegação" só pode ser explicada pelo incómodo que determinadas notícias sobre o PM parecem provocar.
Se esta é a razão, Eduardo Moniz tem razão em protestar. Acontece que o director de programas da TVI tem "telhados de vidro" nesta matéria. Basta lembrarmos o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa, por pressão do governo de Santana Lopes, durante o consulado de...Moniz!
Moral desta história muito pouco edificante: num país de tradição censória e pouca cidadania, os governos, sejam eles de um partido ou outro, não diferem nos métodos quando se trata de censurar e manipular a opinião pública. Esta é também a herança da ignorância, fruto de dezenas de anos de censura e desinformação. Resta saber se os eleitores que vão votar este ano querem continuar a acreditar na publicidade. Porque, para a propaganda dos partidos do centro, já não há paciência.
2009/03/20
Serão afinal os publicitários os exagerados?
Mais grave do que o próprio spot que incluímos no post anterior, é a justificação dada pela porta voz oficial da direcção da RTP, citada pelo Público de hoje.
Segundo esta, a "culpa" do spot é... da BBDO, a agência responsável pela nova campanha de promoção da Antena 1.
Não resisto a transcrever toda a justificação dada pela referida porta-voz, Marina Ramos, para o caso dela vos ter passado ao lado.
"Como em todas as campanhas," sentencia a senhora, "as ideias criativas são apresentadas pela agência. Foram entregues três que nós aprovámos. São spots que promovem três géneros de programas que passam na Antena 1."
Lê-se, retiram-se as devidas conclusões e, no final, não se consegue acreditar.
Segundo esta, a "culpa" do spot é... da BBDO, a agência responsável pela nova campanha de promoção da Antena 1.
Não resisto a transcrever toda a justificação dada pela referida porta-voz, Marina Ramos, para o caso dela vos ter passado ao lado.
"Como em todas as campanhas," sentencia a senhora, "as ideias criativas são apresentadas pela agência. Foram entregues três que nós aprovámos. São spots que promovem três géneros de programas que passam na Antena 1."
Lê-se, retiram-se as devidas conclusões e, no final, não se consegue acreditar.
2009/03/19
Uma sugestão
Esta polémica em torno do Provedor de Justiça é mais uma "prova de morte" deste regime. Em primeiro lugar, a figura de um "provedor", seja ele de justiça, do leitor, das telecomunicações ou da rtp, aqui em Portugal, é uma ideia totalmente caricata. O modelo de um provedor que emite, com ar grave e sério, uns pareceres totalmente inúteis e dá uma espécie de patine democrática à nossa vida colectiva é um insulto à inteligência. As minhas experiências com "provedores" são todas tristes. Da justiça aos telefones...No caso concreto do "provedor de justiça", a coisa começa por ser uma contradição em termos. Num país onde nem o Estado, nem a justiça funcionam, o que poderíamos esperar de uma instituição, estatal, chamada "provedor de justiça"...?
Finalmente, o modo como um provedor é escolhido é mais outro insulto à nossa inteligência. A atribuição do cargo de Provedor de Justiça --uma espécie de prémio de consolação que é dado a quem perdeu-- é uma ofensa engolida por quem o aceita e revela imediatamente como se encara e o que se espera desta figura.
Ora, se ninguém parece estar interessado em garantir e levar a sério a existência de uma figura que possa "recomendar comportamentos aos poderes públicos com vista à reparação de ilegalidades ou injustiças" e tenha, ao mesmo tempo, o "direito à cooperação dos órgãos e serviços sujeitos à fiscalização do Provedor de Justiça nos actos de investigação que se mostrem necessários" à reparação dessas ilegalidades e injustiças, não seria melhor e mais barato acabar, simplesmente, com o cargo e poupar-nos a todos a mais este triste espetáculo do regime...? Quanto é que esta palhaçada toda nos custa?
2009/03/17
Uma boa anedota
Acontece a toda gente não conseguir reproduzir uma anedota verdadeiramente boa, ouvida apenas há breves instantes. O facto ficar-se-á a dever, segundo um artigo do NYT que cita investigação feita sobre esta matéria, ao modo como funciona o nosso cérebro. Estamos formatados para perceber e recordar com facilidade padrões previsíveis (dois vezes um, dois... dois vezes dois, quatro... dois vezes três, seis...), mas se o padrão for alterado aumenta a dificuldade em ir buscar a recordação à nossa memória de curto prazo. Se a lenga-lenga fosse alterada de número para número, por exemplo, as dificuldades para aprender a tabuada seriam muito maiores.
As boas anedotas são as anedotas imprevisíveis, que fingem seguir um padrão conhecido, mas depois, subtilmente e através de um controlo fino do ritmo, vão numa outra direcção, totalmente inesperada. A gente ri muito na altura, a explosão emocional é grande, mas, num momento, não sobra de tudo isso mais que uma vaga recordação.
Isto tudo porque um bom contador de anedotas, tal como um ilusionista, conduz a nossa atenção através deste mecanismo da previsibilidade subvertida em direcção a um facto qualquer central, enquanto nos distrai de outros acontecimentos periféricos. A boa anedota, a anedota que nos faz rir, mas que a gente esquece logo de seguida, é pois aquela que parte da nossa expectativa e a desvia sem darmos por isso para um final inesperado.
Alguém se lembra da anedota excelente que o primeiro ministro contou no seu discurso de tomada de posse, que nos fez rir tanto na altura?
As boas anedotas são as anedotas imprevisíveis, que fingem seguir um padrão conhecido, mas depois, subtilmente e através de um controlo fino do ritmo, vão numa outra direcção, totalmente inesperada. A gente ri muito na altura, a explosão emocional é grande, mas, num momento, não sobra de tudo isso mais que uma vaga recordação.
Isto tudo porque um bom contador de anedotas, tal como um ilusionista, conduz a nossa atenção através deste mecanismo da previsibilidade subvertida em direcção a um facto qualquer central, enquanto nos distrai de outros acontecimentos periféricos. A boa anedota, a anedota que nos faz rir, mas que a gente esquece logo de seguida, é pois aquela que parte da nossa expectativa e a desvia sem darmos por isso para um final inesperado.
Alguém se lembra da anedota excelente que o primeiro ministro contou no seu discurso de tomada de posse, que nos fez rir tanto na altura?
2009/03/16
Cidadania
Há seis semanas atrás o meu BI expirou e tive necessidade de pedir um novo. Na Loja do Cidadão informaram-me que, dado não haver urgência, o melhor era pedir um Cartão de Cidadão. Prazo de entrega: dez dias em média.
Aceitei, não sem antes ter feito três tentativas para consegui-lo: a primeira para obter a informação propriamente dita; a segunda para obter a "senha" (que estava esgotada nesse dia) e a terceira, que me custou cinco horas de espera: o sistema automático não estava operacional...
Chegada a minha vez e após ter inserido os dados no computador, a funcionária, solícita, informa-me que terei de aguardar entre dez dias e dois meses (!?) pelo cartãozinho. A razão de tal demora não dependia dela: a partir daquele momento o processo deixava de pertencer-lhe...
Volto a casa, rendido à eficácia deste "simplex", anunciado como a solução dos multiplos cartões pelo informático-mór deste reino do absurdo.
Hoje, ao abrir o jornal, deparo com um anúncio de quarto de página, encabeçado pelo título: " Aviso aos cidadãos eleitores". De acordo com a informação, todos os portadores do Cartão de Cidadão ficam automaticamente recenseados na freguesia onde habitam. Fui confirmar. Já lá estou...mas ainda não tenho o cartão!
Por momentos, sinto-me num filme do "Twilight Zone". Procuro uma explicação. Vale-me o inseparável Coetzee, também ele um estrangeirado na Austrália, que escreve no seu último livro (Diário de Um Mau Ano) o seguinte: "Nascemos súbditos. Somos súbditos a partir do momento em que nascemos. Uma marca dessa sujeição é a certidão de nascimento. O Estado aperfeiçoado detém e conserva o monopólio de atestar o nascimento (...) não se trata apenas de não podermos entrar no Estado sem certificação: aos olhos do Estado, não morremos enquanto o nosso óbito não for certificado; e só nos é passada uma certidão de óbito por um funcionário (ou funcionária) que, por sua vez é detentor (ou detentora) de uma certificação estatal (...) Que o cidadão viva ou morra não interessa ao Estado. O que importa ao Estado e aos seus registos é se o cidadão está vivo ou morto".
Enquanto aguardo o cartão, penso na melhor forma de utilizá-lo. Satisfaz-me saber que poderei usá-lo três vezes este ano. O Estado poderá confirmar que estou vivo.
Aceitei, não sem antes ter feito três tentativas para consegui-lo: a primeira para obter a informação propriamente dita; a segunda para obter a "senha" (que estava esgotada nesse dia) e a terceira, que me custou cinco horas de espera: o sistema automático não estava operacional...
Chegada a minha vez e após ter inserido os dados no computador, a funcionária, solícita, informa-me que terei de aguardar entre dez dias e dois meses (!?) pelo cartãozinho. A razão de tal demora não dependia dela: a partir daquele momento o processo deixava de pertencer-lhe...
Volto a casa, rendido à eficácia deste "simplex", anunciado como a solução dos multiplos cartões pelo informático-mór deste reino do absurdo.
Hoje, ao abrir o jornal, deparo com um anúncio de quarto de página, encabeçado pelo título: " Aviso aos cidadãos eleitores". De acordo com a informação, todos os portadores do Cartão de Cidadão ficam automaticamente recenseados na freguesia onde habitam. Fui confirmar. Já lá estou...mas ainda não tenho o cartão!
Por momentos, sinto-me num filme do "Twilight Zone". Procuro uma explicação. Vale-me o inseparável Coetzee, também ele um estrangeirado na Austrália, que escreve no seu último livro (Diário de Um Mau Ano) o seguinte: "Nascemos súbditos. Somos súbditos a partir do momento em que nascemos. Uma marca dessa sujeição é a certidão de nascimento. O Estado aperfeiçoado detém e conserva o monopólio de atestar o nascimento (...) não se trata apenas de não podermos entrar no Estado sem certificação: aos olhos do Estado, não morremos enquanto o nosso óbito não for certificado; e só nos é passada uma certidão de óbito por um funcionário (ou funcionária) que, por sua vez é detentor (ou detentora) de uma certificação estatal (...) Que o cidadão viva ou morra não interessa ao Estado. O que importa ao Estado e aos seus registos é se o cidadão está vivo ou morto".
Enquanto aguardo o cartão, penso na melhor forma de utilizá-lo. Satisfaz-me saber que poderei usá-lo três vezes este ano. O Estado poderá confirmar que estou vivo.
2009/03/11
2009/03/10
Justiça
Bernard Madoff vai, ao que se sabe, dar-se por culpado das acusações que lhe são feitas e o poderão conduzir a uma sentença de prisão perpétua. A concretizar-se, essa sentença, afigura-se, será sempre, simultaneamente, justa e injusta.
Justa porque uma sentença de morte --possível nos E. U. A., embora eu não saiba se o seria neste caso concreto-- poderia parecer um exagero num caso que se desenrolou afinal sempre em salões atapetados, onde predominava o cheira a perfume caro e onde ninguém deu nenhum tiro directamente em ninguém.
Mas, o facto do crime se desenrolar em salões fofamente atapetados, numa atmosfera selecta e finamente perfumada não lhe retira um grama de sordidez. E aí a sentença pode pecar por defeito.
Há certamente por aí muitos mais Madoffs e aspirantes dispostos a arriscar. E são demasiadamente violentas as ondas de choque e temíveis as réplicas do terramoto desencadeadas por este género de gente para que não se lhe deseje um enterro mais radical...
Justa porque uma sentença de morte --possível nos E. U. A., embora eu não saiba se o seria neste caso concreto-- poderia parecer um exagero num caso que se desenrolou afinal sempre em salões atapetados, onde predominava o cheira a perfume caro e onde ninguém deu nenhum tiro directamente em ninguém.
Mas, o facto do crime se desenrolar em salões fofamente atapetados, numa atmosfera selecta e finamente perfumada não lhe retira um grama de sordidez. E aí a sentença pode pecar por defeito.
Há certamente por aí muitos mais Madoffs e aspirantes dispostos a arriscar. E são demasiadamente violentas as ondas de choque e temíveis as réplicas do terramoto desencadeadas por este género de gente para que não se lhe deseje um enterro mais radical...
2009/03/06
A questão energética em Portugal
A discussão sobre as energias renováveis está na ordem do dia em Portugal. A dependência energética é, sabêmo-lo, um dos factores decisivos que concorre para o défice da balança de pagamentos. A dependência portuguesa das importações de combustíveis fósseis e o peso destes no aumento da nossa quota de emissão de gases que contribuem para o efeito de estufa são questões que preocupam os responsáveis e os levam a trazer esta matéria das estratégias de alteração da política energética para o terreno da discussão políticia. Trata-se com efeito de matéria séria, cuja discussão se afigura urgente e necessária.
Assistimos ontem a um debate interessantíssimo sobre este assunto na AR. Baseado em factos solidamente sustentados em argumentação de índole científica inatacável, o deputado Afonso Candal dizia ao deputado José Eduardo Martins (que se reclama filho de boa gente) que não-sei-quê, sabia que ele estava muito preocupado com os contribuintes, ao que este, citando outras fontes científicas e numa tentativa de exprimir a sua própria interpretação sobre a matéria em discussão, ameaçava que lá fora é que era, enquanto mandava o deputado Candal para não-sei-onde.
Embora não tenhamos percebido exactamente o que foi dito nesta importante discussão, uma vez que os microfones estariam desligados, sabemos que algo de muito importante terá sido pronunciado.
O senhor Presidente da AR, numa tentativa de valorizar o contributo dos senhores deputados, que não se pode deixar de saudar, até referiu que num espaço físico muito confinado como é o da AR, se torna difícil perceber exactamente o que se diz, embora tenha percebido que havia qualquer coisa, não sabendo exactamente o quê... Ora, se bem interpretei as palavras do senhor dr. Jaime Gama, o que ele desejaria era que fosse dado o devido relevo ao debate ocorrido ontem na AR. Não posso estar mais de acordo. A matéria em apreço exige-o. Os portugueses em geral reivindicam-no. A comunidade científica, em particular reclama-o. Esperamos pois que os funcionários da AR, encarregados de elaborar as transcrições do Plenário, tenham tido oportunidade de apanhar tudo o que foi dito, para posterior publicação. Estou certo que este irá constituir um importantíssimo contributo da AR para a definição de futuras orientações estratégicas sobre tão delicada matéria. Atrevo-me mesmo a sugerir que a transcrição deste debate seja objecto de edição especial. Com ilustrações!
Esperamos também que daquela efusiva troca de opiniões os senhores deputados passem aos actos. A bem da Nação.
Assistimos ontem a um debate interessantíssimo sobre este assunto na AR. Baseado em factos solidamente sustentados em argumentação de índole científica inatacável, o deputado Afonso Candal dizia ao deputado José Eduardo Martins (que se reclama filho de boa gente) que não-sei-quê, sabia que ele estava muito preocupado com os contribuintes, ao que este, citando outras fontes científicas e numa tentativa de exprimir a sua própria interpretação sobre a matéria em discussão, ameaçava que lá fora é que era, enquanto mandava o deputado Candal para não-sei-onde.
Embora não tenhamos percebido exactamente o que foi dito nesta importante discussão, uma vez que os microfones estariam desligados, sabemos que algo de muito importante terá sido pronunciado.
O senhor Presidente da AR, numa tentativa de valorizar o contributo dos senhores deputados, que não se pode deixar de saudar, até referiu que num espaço físico muito confinado como é o da AR, se torna difícil perceber exactamente o que se diz, embora tenha percebido que havia qualquer coisa, não sabendo exactamente o quê... Ora, se bem interpretei as palavras do senhor dr. Jaime Gama, o que ele desejaria era que fosse dado o devido relevo ao debate ocorrido ontem na AR. Não posso estar mais de acordo. A matéria em apreço exige-o. Os portugueses em geral reivindicam-no. A comunidade científica, em particular reclama-o. Esperamos pois que os funcionários da AR, encarregados de elaborar as transcrições do Plenário, tenham tido oportunidade de apanhar tudo o que foi dito, para posterior publicação. Estou certo que este irá constituir um importantíssimo contributo da AR para a definição de futuras orientações estratégicas sobre tão delicada matéria. Atrevo-me mesmo a sugerir que a transcrição deste debate seja objecto de edição especial. Com ilustrações!
Esperamos também que daquela efusiva troca de opiniões os senhores deputados passem aos actos. A bem da Nação.
A carga do Kepler
Parte dentro de pouco tempo para o espaço sideral profundo o telescópio espacial Kepler. Uma espécie de máquina de fotografar digital gigante voadora, de grande precisão, especialmente concebida para averiguar se haverá por aí mais planetas como o nosso.
Tendo em conta a forma como o projecto foi concebido, a expectativa reside em perceber se o grau de probabilidade de existência desses planetas é elevado, e é portanto possível encontrar provas abundantes de existência de condições de sustentação da vida, tal como a observamos na Terra, ou se, pelo contrário, a probablilidade dessas condições existirem é diminuta, de onde resultará a conclusão que o mais certo é sermos mesmo um planeta único.
O grau de sofisticação, a monumentalidade dos desígnios, os recursos envolvidos e as expectativas geradas em torno de uma missão como esta contrastam dramaticamente com o que se vai observando no planeta de onde o Kepler é lançado. Por aqui vamos observando a sofisticação da catanada, o desígnio rasteiro, a sonegação ou o emprego mesquinho dos recursos existentes e o estorvo ou mesmo a aniquilição das expectativas mais legítimas.
A missão do Kepler vai-nos revelar que se a probabilidade de existência de outros mundos habitáveis fôr alta, talvez chegue da lonjura da galáxia uma solução simpática: se não nos conseguirmos mesmo entender de todo por cá, teremos a possibilidade de zarpar para outras paragens. Se a promessa desses outros mundos habitáveis não se verificar ficamos mesmo condenados a termos de nos entender uns com os outros. Uma vitória certa sobre os obstáculos erguidos "contra as nossas tentativas para nos darmos a conhecer uns aos outros," como escreve Alberto Manguel.
Se calhar não parece, mas o Kepler leva uma carga pesada...
Tendo em conta a forma como o projecto foi concebido, a expectativa reside em perceber se o grau de probabilidade de existência desses planetas é elevado, e é portanto possível encontrar provas abundantes de existência de condições de sustentação da vida, tal como a observamos na Terra, ou se, pelo contrário, a probablilidade dessas condições existirem é diminuta, de onde resultará a conclusão que o mais certo é sermos mesmo um planeta único.
O grau de sofisticação, a monumentalidade dos desígnios, os recursos envolvidos e as expectativas geradas em torno de uma missão como esta contrastam dramaticamente com o que se vai observando no planeta de onde o Kepler é lançado. Por aqui vamos observando a sofisticação da catanada, o desígnio rasteiro, a sonegação ou o emprego mesquinho dos recursos existentes e o estorvo ou mesmo a aniquilição das expectativas mais legítimas.
A missão do Kepler vai-nos revelar que se a probabilidade de existência de outros mundos habitáveis fôr alta, talvez chegue da lonjura da galáxia uma solução simpática: se não nos conseguirmos mesmo entender de todo por cá, teremos a possibilidade de zarpar para outras paragens. Se a promessa desses outros mundos habitáveis não se verificar ficamos mesmo condenados a termos de nos entender uns com os outros. Uma vitória certa sobre os obstáculos erguidos "contra as nossas tentativas para nos darmos a conhecer uns aos outros," como escreve Alberto Manguel.
Se calhar não parece, mas o Kepler leva uma carga pesada...
2009/03/03
O verdadeiro "simplex"
No dia em que o primeiro-ministro anuncia as 200 novas medidas do programa "simplex", uma passou despercebida.
Anunciou-a a OCDE da seguinte maneira: "Portugal terá as reformas mais baixas entre os 30 países mais desenvolvidos do Mundo dentro de 20 anos. Segundo a OCDE, em 2030, um português vai usufruir uma reforma de 54% do último salário recebido". Ora digam lá que o "simplex" não funciona?
Anunciou-a a OCDE da seguinte maneira: "Portugal terá as reformas mais baixas entre os 30 países mais desenvolvidos do Mundo dentro de 20 anos. Segundo a OCDE, em 2030, um português vai usufruir uma reforma de 54% do último salário recebido". Ora digam lá que o "simplex" não funciona?
2009/03/01
Tons
O tom dos discursos do primeiro ministro no congresso do seu partido é inexplicavelmente igual ao tom das declarações do cardeal Saraiva Martins. Será que a semelhança é já o resultado do apelo do cardeal a um entendimento entre a Igreja e o Estado, ou foi Sócrates que falhou a vocação...?
2009/02/27
a última citação que me mandaram
«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»
Thomas Jefferson, 1802
Thomas Jefferson, 1802
2009/02/24
No meio do aparente caos
Nem tudo vai mal. Vale a pena assinalar a sentença sobre o caso denunciado pelo actual vereador da CML José Sá Fernandes, de uma tentativa de corrupção por parte de Domingos Névoa, o administrador da Bragaparques.
Não há nada a acrescentar. O caso ficou provado, o administrador da Bragaparques foi condenado e a sentença foi exemplar, embora o montante da multa aplicada se afigure, de facto, totalmente ridículo.
Todos são presumidos inocentes até trânsito da sentença em julgado, repete-se vezes sem conta neste país onde tudo se alega para que a justiça fique por cumprir. Mas, este caso não contempla alegações adicionais. A corrupção não é afinal uma fantasia de gente mal intencionada. Ela existe mesmo. E por este caso ficamos ainda a saber como é que "determinadas pessoas agem para corromper outras."
Não há nada a acrescentar. O caso ficou provado, o administrador da Bragaparques foi condenado e a sentença foi exemplar, embora o montante da multa aplicada se afigure, de facto, totalmente ridículo.
Todos são presumidos inocentes até trânsito da sentença em julgado, repete-se vezes sem conta neste país onde tudo se alega para que a justiça fique por cumprir. Mas, este caso não contempla alegações adicionais. A corrupção não é afinal uma fantasia de gente mal intencionada. Ela existe mesmo. E por este caso ficamos ainda a saber como é que "determinadas pessoas agem para corromper outras."
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