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2021/05/30

Da subserviência portuguesa

Episódio 1

TAP: Take Another Plane 

No passado dia 27 de Maio, fui impedido de embarcar num avião da TAP, que fazia o voo Sevilha-Lisboa.  Motivo: de acordo com a opinião das funcionárias (espanholas) que faziam o "check-in" no balcão da TAP, faltava-me um teste PCR, exigido na maior parte dos aeroportos internacionais. Formalmente, devia ser assim. Expliquei-lhes que, desde 1 de Maio último, as fronteiras entre Portugal e Espanha estavam abertas, por acordo entre os dois estados. Também expliquei que era cidadão português, que regressava ao meu país e que voava num avião da TAP, uma companhia portuguesa nacionalizada, paga pelos contribuintes portugueses, entre os quais me incluo. Em rigor, elas eram pagas com dinheiro público português. Disse isto tudo sem me rir e ficaram a olhar para mim, sem perceberem patavina. "O teste PCR, por favor", repetiam mecanicamente. Mostrei-lhes o teste PCR, feito em Lisboa há quinze dias atrás, necessário para entrar em Espanha e que a TAP não me pediu à partida de Lisboa. Também lhe mostrei o meu certificado da vacina completo (duas tomas de Pfizer) e o documento, fornecido pela DGS, sem o qual a companhia de aviação não me vendia o bilhete. Ou seja, ao preencher o formulário "online", a TAP (antes de vender o bilhete), alerta para o formulário de sanidade da DGS, que é necessário preencher para entrar no país. Imprimi tudo, enviei e paguei. As "señoritas" não estavam convencidas. Pedi-lhes para chamarem uma funcionária superior ou, na falta desta, entrar em contacto com o piloto a bordo (estávamos a meia hora do embarque) e ele que decidisse. Recusaram. Ali, em Espanha, mandavam elas...Respondi, que podiam mandar em Espanha, mas não mandavam em Portugal e muito menos em mim. Acrescentei (confesso que num tom de voz mais exaltado) que competia às autoridades portuguesas em Portugal, avaliar da minha sanidade e que eu faria um teste à entrada do meu país, caso este fosse exigido. Expliquei-lhes que elas estavam a violar um direito internacional e a impedir o regresso de um cidadão português ao seu país. "Que no, que no", elas sabiam e decidiam... 

Juntou-se uma terceira funcionária, enquanto se consultavam entre elas e os respectivos telemóveis, para avaliar das minhas objecções. Disse-lhes que queria fazer uma reclamação à TAP. Não podia ser, pois a TAP tinha encerrado o seu balcão no aeroporto de Sevilha e só o podia fazer pela NET (!?). "E quem me paga o prejuízo", perguntei? Só a TAP podia responder...Ao fim de mais de meia-hora de discussão, surge uma quarta personagem que, peremptória, afirma "no vas a embarcar, no vas a embarcar!".    

Nessa mesma tarde, graças à minha namorada espanhola, que me conduziu de automóvel até ao Algarve (150 km) pude ainda apanhar o comboio regional para Faro, onde cheguei a tempo de apanhar o último Intercidades para Lisboa. 

No dia seguinte, telefonei para a TAP e contei o sucedido a um assistente. Desfez-se em desculpas (sabe nestes tempos de pandemia, etc e tal...) e aconselhou-me a preencher o formulário de reclamação, onde podia escrever até 4000 caracteres. Já seguiu e estou à espera da resposta. Aproveitei para desancar a TAP e dizer-lhe que desta forma não há salvação para uma companhia que não protege os clientes e, ainda por cima, entrega a sua delegação a uma congénere espanhola, que se está positivamente a borrifar para Portugal. Como de resto, os espanhóis sempre fizeram em relação ao nosso país. 

Episódio 2

Futebol: A Final Europeia do Porto

Portugal, assistiu ontem, a mais um triste episódio de subserviência do nosso governo em relação ao turismo e à industria do futebol. O que se passou no Porto, é uma vergonha para todos: para o Governo, para o Presidente da República, para a Câmara Municipal do Porto e para a Federação Portuguesa de Futebol. 

Portugal não era obrigado a organizar a final da "Champions". Foi a FPF que se ofereceu à UEFA para organizar o jogo. Foi uma iniciativa do presidente da federação, com o aval do governo, claro. Acontece que, Portugal, não só organizou o jogo, como permitiu a entrada directa de 16500 "hooligans" ingleses no "Dragão", para além dos milhares que, sem bilhete, voaram para o Algarve e de lá assistiram ao jogo. Chegaram em mais de 50 voos "charter", a maior parte deles sem testes ou máscaras e passaram o dia todo a embebedar-se, como é habitual. No fim, bêbados que nem cascos, houve pancada da grossa entre as claques e ferimentos entre os polícias, que só hoje, de madrugada, puderam descansar. 

Perante a indignação geral e a polémica suscitada, Marcelo já veio comentar, naquele tom beatífico e hipócrita que o caracteriza, lamentando o sucedido e dizendo que temos de aprender com os erros (!?). Costa, o "habilidoso", não quis comentar e tentou passar entre os "pingos da chuva". A sonsa da Marianita (secretária de estado), veio hoje dizer que não podiam manter todos os adeptos dentro de uma "bolha" (do aeroporto para o estádio e regresso ao aeroporto) pois a maioria já estava espalhada pela cidade. O Cabrita, desta vez, não foi acusado de nada (estará perdido em combate?), enquanto Moreira, o presidente da CMP, veio dizer, que quem criticava o evento, não era amigo do Porto (!?). Sensivelmente, ao mesmo tempo, a policia de costumes, andava no parque do Casino Estoril, a controlar grupos de jovens que ali se juntam, para que estes não formassem grupos de mais de 6 pessoas e usassem máscaras sanitárias (!?). Extraordinário!

Perguntas óbvias: porque é que o jogo não se disputou no Reino Unido, já que a partida era entre dois clubes ingleses? Porque é que os jogos em Portugal não podem ter público e um jogo da UEFA, pode? Porque é que os portugueses são obrigados a manter o distanciamento social, a usar máscara e gel e os ingleses, não? Porquê? 

Bom, a única explicação, que nos ocorre, é que o turismo e a industria de futebol, são mais importantes que a pandemia. Venham os turistas, espanhóis ou ingleses, pouco importa, desde que gastem e deixem cá o dinheiro, naquilo que sabemos fazer melhor: servir à mesa. 

Que os espanhóis, ou os ingleses, não nos deixem entrar no nosso país e no deles (e continuem a "cagar" em nós), não importa nada, desde que a restauração e a hotelaria, possam pagar as contas e as moratórias que aí vêm...

Uns tristes, estes gestores da coisa pública portuguesa, sem quaisquer princípios ou dignidade, sempre de mão estendida. Fracos perante os fortes (estrangeiros com dinheiro) e fortes perante os fracos (imigrantes ilegais a viverem em condições sub-humanas, por exemplo). 

Um nojo, tudo isto. Vão-se todos foder!     

      

2020/02/17

Somos todos Marega


Graças a Marega, jogador de futebol do FC Porto, o país parece ter despertado para um fenómeno que, não sendo novo, é olimpicamente ignorado por quem é responsável (no desporto e não só), ainda que o racismo (é disso que se trata) continue presente na sociedade portuguesa.
Não é todos os dias que um atleta abandona uma partida em protesto contra o racismo explícito nas bancadas, ainda que haja diversos exemplos, na história do desporto, de inconformismo e revolta de atletas em relação a esta questão.
Países há, onde, inclusive, as sanções contra as manifestações de racismo nos estádios, foram de tal modo pesadas, que os clubes penalizados pelas respectivas federações e governos não esquecerão, tão cedo, o que os espera em caso de reincidência. É o caso de Inglaterra e de Itália, onde as medidas tomadas (desde a interdição de estádios à identificação e proibição de claques) provocou uma verdadeira revolução no comportamento dos adeptos e dos clubes directamente afectados por esta onda de primitivismo, que continua a assolar os recintos desportivos.
Acontece que o aumento das manifestações de racismo, no futebol e não só, tem na sua génese causas mais profundas que, não por acaso, explodem no campos desportivos, arenas da rivalidade tribal por excelência.
Em tempo de populismos de extrema-direita, os bodes expiatórios da frustração dos "lumpen" de todas as nacionalidades são sempre o "outro": as minorias, os ciganos, os imigrantes, os refugiados, os muçulmanos ou os negros. Neste caso, era um negro jogador de futebol. Mas podia ter sido um negro trabalhador na construção civil, morador num bairro de lata, ou, simplesmente, um estrangeiro na fila do SEF. Todos eles, os Maregas anónimos deste país, que não têm direito aos (tristes) cinco minutos de fama do jogador negro do Mali.
É por isto que o gesto de Marega é tão importante. A dignidade não se vende, por muitos milhões que possa render. Resta esperar que os principais responsáveis (clubes, dirigentes, claques e governantes) saibam extrair deste episódio uma lição para o futuro: um desporto (e uma sociedade) onde as manifestações racistas não sejam toleradas e sejam condenadas sem contemplação.
Se isso acontecer, devemo-lo ao jogador. Por isso, hoje, todos somos Marega.

2018/07/12

Taxi Driver (14)

Boa noite, então para onde vamos?
- Para a Buraca, se faz favor...
Pelo Monsanto, não é verdade?
- Sim, a esta hora, parece-me melhor. Há pouco trânsito...
Pouco trânsito? Isto até parece de dia!
- Sim, é Verão. Há muitos turistas na cidade...
Isto está cheio, amigo. Ainda por cima havia futebol no Terreiro de Paço...
- Também, também...agora, com o Mundial, é todos os dias.
Grande "jogatana", hoje. Viu o jogo?
-  Vi, mas gostei mais do jogo de ontem...
O França-Bélgica? Claro. Também eu. Mas, olhe que a Croácia também dá uns "toques"...
- Sim, sim, muito boa equipa, mas penso que não terá grandes hipóteses, contra a França, na final.
Pois não. Devem estar cansados. Tiveram dois prolongamentos, "penalties", um dia a menos de descanso...
- Nunca se sabe, mas tanto faz, agora que Portugal foi eliminado...
E bem eliminado. Não mereciam ter passado da fase de grupos.
- Se calhar, não. Fizeram os mínimos, mas esperava mais.
Olhe, amigo eu gosto muito de futebol, mas a selecção portuguesa já não me entusiasma...
- Pois. Já teve melhores dias, apesar de ser o actual campeão da Europa.
Pois é, mas deviam ter levado outros jogadores. Eu, se fosse treinador, tinha levado o Éder.
- O Éder?...
Sim, o Éder. Não o queria na minha equipa, mas na selecção...nem que fosse para jogar só 10 minutos, eu tinha-o convocado...
- Para ser franco, não me entusiasma nada...
Pois não. Já lhe disse, o Éder nunca faria parte de uma equipa que eu treinasse, mas devia ter ido à Rússia. Como talismã. Entrava, quando os outros estivessem cansados, atrapalhava os defesas e, no meio da confusão, ainda marcava um golito!..
- Quem sabe?...
Era cá uma fé. Não viu no Spartak de Moscovo? Foi ele que marcou o golo que deu o campeonato russo ao Spartak. Os russos nunca mais se vão esquecer dele..levava só o Ronaldo e punha o Éder ao lado, para marcar golos...
- E os outros?
Quais? O André Silva e o Guedes? Mas, jogaram alguma coisa? Só atrapalharam, homem...
- De facto, desiludiram um bocado. Também esperava mais...
Até o Bernardo, que fez uma grande época no Manchester, não jogou metade do que sabe...
-  Pois não...talvez estivesse cansado...
Cansado? Nada disso. Os gajos são todos uns "mimados" e passam sempre a bola ao Ronaldo, para não terem responsabilidades se falharem...
- É verdade, esta selecção está muito dependente do Ronaldo...
Essa é que é a questão. O amigo já percebeu que eu adoro futebol...podia estar aqui a falar a noite inteira. Eu também gostava da selecção, mas, de há uns anos a esta parte, não me convence. Olhe que eu cheguei a ir a Inglaterra ver a selecção em 1996. Vi 3 jogos. Nessa altura tínhamos uma selecção de luxo...
- A chamada "geração de ouro"...
Isso, a "geração de ouro": o Figo, o Rui Costa, o João Pinto, o Paulo Sousa, o Fernando Couto...
- Estou de acordo. Todos bons jogadores, mas fomos eliminados...
Sim, com o "chapéu" do Poborsky ao Victor Baía...isso, sim era uma selecção...
- Está a ver: quando jogávamos bem, éramos eliminados, quando jogamos menos, somos campeões da Europa...
Exactamente. Não merecíamos ter ganho o campeonato. Aquela fase de grupos, foi uma lástima...
- Mas, em 2000, também tínhamos uma boa selecção. Eu cheguei a ver um jogo na Holanda, contra a Turquia. A selecção, nesse ano, era treinada pelo Humberto Coelho.
Sim, sim, essa também era boa. Durou até 2002, quando fomos eliminados na Coreia. Aí começou a decadência, com aquele murro do João Pinto...
- Mas olhe que em 2004, com o Scolari, quase que éramos campeões europeus...
Pois, mas convenceram-se que iam ganhar e estragaram tudo. E a "geração de ouro", já estava no fim...o Figo estava a jogar os seus últimos anos e o Ronaldo ainda estava "verde"...
- Sim, houve ali um período de transição menos bom, mas de há uns anos a esta parte, temos uma nova geração de talentos...
Qual talento? Eles são todos muito bons, mas é nos clubes que lhes pagam! Agora, é o Ronaldo, que está muito acima dos outros e mais dois ou três: o Patrício, o Pepe, o Quaresma, vá lá...
- Os veteranos...
Claro. Ainda são os melhores. Não temos grandes talentos, convença-se disso. Daqui a dois ou três anos, já nem esses jogam e, com este treinador, não vamos longe...
- Sim, é verdade, às vezes irrita um bocado, aquele jogo mastigado...
Se irrita! É só passes para o lado, passes para trás...além disso, este ano os adversários já conheciam a forma de nós jogarmos e não conseguimos marcar golos. Marcámos aqueles 3 à Espanha, sem saber como. Se não fosse o Ronaldo, não sei, não sei...claro que contra o Uruguai, já não tivémos hipótese. Têm uma grande defesa e depois, aqueles dois "cavalões" no ataque, o Suaréz e o Cavani...Nós só temos um "cavalão", o Ronaldo... 
- É verdade.
Bom, estamos a chegar. Desculpe lá a conversa, mas já deve ter percebido que eu gosto muito de futebol...
- Não faz mal. É sempre bom desabafar. Ficamos por aqui, então. Até uma próxima vez...
Até a uma próxima. E, no domingo, que ganhe o melhor!
- Isso mesmo.

2017/05/16

"Estrelinha" de campeão


Depois de um fim-de-semana verdadeiramente alucinante, Costa bem pode ir a Fátima de novo, agora para pôr uma velinha pelos sucessos alcançados. Juntar no mesmo dia (reparem na data!), o Papa e a canonização dos pastorinhos em Fátima, a conquista do "tetra" pelo clube de que é adepto e a vitória de Portugal no festival da Eurovisão, não acontece todos os dias. Logo no ano do centenário das "aparições". Se isto não é "milagre", não sei o que seja...
Como se todas estas coisas não bastassem, veio agora, o Relatório das Finanças Públicas, demonstrar que a economia portuguesa cresceu 2.8% no primeiro trimestre deste ano, por comparação com o período homólogo do ano passado. Um dos maiores crescimento da zona Euro.
Como todos sabemos, estas coisas não acontecem por acaso. Há muito trabalhinho por detrás (especialmente em Fátima...), mas que o homem tem "sorte", isso parece inegável. Ainda por cima, este crescimento económico, surge após a revelação (cá está...), de outros dados positivos relativos ao bom desempenho da economia: "deficit" abaixo dos mínimos exigidos pela União Europeia (2%), saldo primário positivo (1,8%), aumento de exportações (17%), desemprego a baixar (10%) e o melhor ano de turismo de sempre. É obra.
Claro que todas estas coisas, se não forem estruturais (o chamado crescimento sustentável) não resolvem a difícil situação em que Portugal se encontra. Podemos estar em face de números conjunturais, sabendo que o investimento ainda é débil e que, sem este, não haverá crescimento económico e criação de emprego. Daí as reticências das famigeradas agências de "rating" que parecem não acreditar em milagres. Acresce que o recente "boom" turístico  é, em grande parte, provocado pela instabilidade existente em países como a Síria, a Turquia ou o Egipto, o que traz a Portugal muitos turistas que fogem das zonas de guerra, à procura de paz e estabilidade. Como o clima é bom, os preços são acessíveis e a hospitalidade é algo inato aos portugueses, estão reunidas as condições para as coisas correrem bem.
Falta a dívida (130% do PIB), que não pára de crescer, ainda que haja países na zona Euro, bem mais ricos do que Portugal (França e Itália, por exemplo) em que os números são preocupantes. De resto, e para quem não saiba, a França, há dez anos consecutivos que não cumpre as metas do "deficit" que tem ficado sempre acima dos 3%! Porquê? Ora bem, como diria Juncker, "parce que, la France, ces't la France!". Perceberam? Exactamente: critérios diferentes para situações semelhantes. Um querido, o Juncker...
Já o Costa, não sendo um "querido", conseguiu o chamado "milagre dos peixes": Reposição de salários e pensões, crescimento da economia e diminuição do "deficit". É o que se chama "três em um". Os deuses, só podem estar loucos! Perante tais evidências, apenas nos resta concluir com aquela máxima futebolística que nunca falha: não há campeões sem estrelinha...

2016/03/24

O Holandês Voador


Vi-o tantas vezes jogar, que esqueci o número de partidas.
Lembro-me, isso sim, da primeira vez que o vi ao "vivo".
Eu tinha chegado a Amsterdão há pouco mais de dois anos e trabalhava numa companhia holandesa de seguros. Era Inverno e, além do frio, nevava copiosamente. Na semana anterior ao jogo, um dos colegas do escritório perguntou-me se eu não ia ver o Benfica, que tinha calhado em sorteio ao Ajax. Disse-lhe não ser essa a minha intenção, mas ele insistiu e comprou os bilhetes. Lá fomos, no dia 12 de Fevereiro de 1969, ao Estádio Olímpico de Amsterdão, lugar mítico para os portugueses, onde o Benfica tinha ganho a sua segunda taça de campeões europeus, em 1962. 
O Estádio Olímpico era, à época, descoberto e, nessa noite, a intempérie afastou muita gente do estádio. Recordo-me de estar duas horas de pé, ao frio e à neve, e de ficar completamente enregelado. Não me lembro dos pormenores do jogo, mas da exibição de dois jogadores naquela noite gelada: do Eusébio, já longe do seu período áureo, mas suficientemente perigoso para suscitar "ohs" de espanto de cada vez que pegava na bola; e do jovem Cruijff, em início de carreira, o grande ídolo do futebol holandês. Os portugueses ganharam (3-1), o que me valeu elogios de todos os colegas na manhã seguinte. Eu era o único estrangeiro da empresa, onde trabalhavam mais de cinquenta pessoas e, nesse dia, penso ter incarnado o "espírito" da pátria...
O deslumbramento duraria pouco. O Ajax ganharia em Lisboa a segunda-mão da eliminatória, pelo mesmo resultado, o que obrigou a um terceiro jogo em Paris. Com Cruijff em grande forma, a equipa holandesa derrotaria os "encarnados" por 3-0.
Nunca mais deixei de "seguir" o Johan que, a partir daí, passou a ser o meu ídolo local.
Os anos que seguiram, confirmaram o seu talento e o currículo está aí para prová-lo. Como jogador, como treinador e como pensador do futebol. No Ajax primeiro e no Barcelona mais tarde, não esquecendo a "laranja mecânica", a selecção holandesa que melhor praticou o "futebol total". Um génio do futebol, incomparável na sua forma de jogar e de influenciar o desporto que o tornaria famoso.
Partiu hoje, este holandês que "voou" acima dos seus pares, quem sabe na procura de voos mais largos.

2014/06/26

Síndrome Nacional

A poucas horas do "mata-mata", poucas ilusões restam sobre o futuro da selecção portuguesa, nesta edição do Campeonato do Mundo de Futebol. Amanhã, por esta hora, estará a fazer as malas para regressar a Portugal o que, independentemente da exibição de hoje, será o epílogo lógico de uma participação sem brilho e força anímica, outra designação amável para a chamada falta de atitude.
Depois do apuramento na fase de qualificação, conquistado graças a um super motivado São Cristiano, os responsáveis embandeiraram em arco, convencidos que a exibição de Estocolmo era a regra e não a excepção. A FIFA ajudou nesta ilusão, ao classificar-nos (vá lá saber-se porquê) em 4º lugar no "ranking" mundial de selecções e, a partir desse momento, toda a gente pensou que poderíamos ser a surpresa do torneio e - calculem só! - até ganharmos no Brasil.
Daí para cá, e já lá vão uns meses largos, assistimos a um acumular de sinais que pronunciavam a borrasca: desde jogadores (considerados titulares da selecção), que praticamente não jogavam nos seus clubes devido a má forma; passando por outros, afastados por castigo ou pré-eliminados pelo seleccionador; até às épocas longas e desgastantes nos principais clubes, tudo contribuiu para que o lote de escolha fosse reduzido. Junte-se a digressão preparatória pelos Estados Unidos (que mais interesse parece não ter tido do que cumprir contractos comerciais) e a escolha de um lugar de estágio, distante milhares de quilómetros dos estádios onde ia competir, para perceber que, dificilmente, nestas condições logísticas e climatéricas, a selecção poderia ter um bom desempenho.
Não por acaso, as limitações físicas desta equipa, apareceram logo no primeiro jogo com as lesões de três dos seus titulares. Junte-se a estes, o afastamento de um quarto elemento por expulsão e as duas posteriores lesões no segundo jogo, para perceber que, com metade dos titulares lesionados, dificilmente uma selecção, sem "segundas linhas", poderia resistir. Com o "melhor jogador do Mundo" em sub-rendimento e um treinador teimoso, que não abdica dos seus fiéis, estavam reunidas as condições ideais para a "tempestade perfeita". Tudo o que devia correr mal, correu pior e, como é habitual  nestas ocasiões, a lei de Murphy também não falhou.
Num país desmotivado por uma crise estrutural, e onde as perspectivas de melhores dias não passam da "fata morgana" permanentemente adiada, esta equipa nacional é bem o símbolo do período histórico que atravessamos. Porque tudo muda, e pior do que estamos é quase impossível, só nos resta confiar que, daqui para diante, consigamos melhorar. Com um bocado de inspiração e sorte, talvez comece já esta tarde, quem sabe?...
   

2012/06/28

Freud explica

Agora que Portugal foi eliminado do Euro, após semanas em que o sentimento dos portugueses alternou entre a descrença, a esperança e a ilusão, é sempre reconfortante ouvir os treinadores de bancada opinar sobre a grande prestação da equipa portuguesa. Uma vez mais, ganhámos moralmente: não jogámos melhor do que a Espanha, mas merecíamos ganhar nos 90 minutos, pesem os 30 minutos de tempo extra onde os espanhóis podiam ter acabado com o jogo. Os penalties, são um capítulo à parte. Há quem lhe chame lotaria, azar ou destino. Obviamente, é preciso algum sangue-frio e isso os espanhóis tiveram-no. Tão simples como isto. Também não lembra a ninguém pôr o João Moutinho a marcar o primeiro penalti e deixar o Ronaldo para o fim. Sobre a prestação do "melhor jogador" do Mundo, as opiniões dividem-se: uns acham que esteve bem, outros que só às vezes e há quem ache que, na selecção, ele não rende tanto como nos clubes que representa. Uma das explicações para este facto, poderá ter a ver com a "ansiedade" que sempre demonstra nos jogos da "nossa" equipa. De acordo com uma opinião (imagino que de um treinador de divã) a "ansiedade" que caracteriza Ronaldo nos jogos da selecção, poderá ter a ver com uma infância infeliz e a falta de uma verdadeira mãe quando era criança (!?). Por isso, devemos compreendê-lo. Desta, confesso, nunca me tinha lembrado.

2010/07/11

Parabéns ao polvo!

Pese a resistência holandesa, a vitória espanhola é indiscutível. Ganhou o melhor futebol. Até o polvo alemão já tinha percebido o óbvio.

2010/06/29

Espanha 1 - Portugal 0

Contra factos, não há argumentos. Ou, de como uma equipa derrotou um conjunto de jogadores à procura do jogo.

2010/06/11

I've got a feeling

Começou o "circo" e os prognósticos, nesta altura do campeonato, não podiam ser piores.
Se o apuramento para a fase final já tinha sido "arrancado a ferros", o que se seguiu apenas confirmaria as piores impressões: uma selecção constituida por jogadores em baixo de forma, lesões preocupantes, um seleccionador sem soluções para lugares-chave da equipa, um estágio "morno" na Covilhá, fracas prestações nos jogos de preparação e uma forma física decepcionante. Às críticas da "bancada", o verdadeiro treinador respondeu sempre fleumaticamente, afirmando sermos os "maiores" e que vamos prová-lo no hemisfério sul. Mal tinhamos chegado a África e já o nosso melhor acrobata (duplo salto com flic-flac) tinha partido a clavícula. No meio deste "karma" lusitano, nem os jornalistas do "bungalow" conseguiram escapar. Valeu estarem já a dormir, o que ajuda sempre nestas situações.
A esperança renasceu esta semana com a infelicidade do Drogba, mas hoje os noticiários passavam em roda-pé que, afinal, sempre vai jogar contra Portugal. Quem parece não acreditar nos "navegadores" é o Toni, que preferiu ser "olheiro" a "patrioteiro", segundo a velha máxima "trabalho é trabalho, cognac é cognac".
O que é que ainda faltará acontecer à selecção? Não sabemos. Já provámos que somos sensíveis às "vuvuzelas", pois ninguém parece ouvir nada dentro do campo. Daí, a razão de cada um jogar por si. Pode ser que seja essa a táctica. Os adversários estão à espera de um modelo de jogo e nós ainda andamos à procura dele. Às vezes, dá resultado.

2009/03/24

O espelho da nação

Há três dias que o país não discute outra coisa. Aparentemente teria havido um "assalto" no Algarve que, pelas suas dimensões, ultrapassou tudo o que a nação desportiva alguma vez teria visto. Não há jornal que não o refira, programa televisivo que não o comente (só ontem contei quatro!) e, seja no supermercado ou nos transportes públicos, a opinião é ainda mais acalorada, tal a paixão desencadeada pela ladroagem. Sim, porque o que está aqui em causa, é esta patológica demência que ataca os portugueses quando o crime se passa entre as quatro linhas de um campo de futebol. Há quem lhe chame "paixão" e, até há bem pouco tempo, o amor à causa era tanto que alguns maridos chegavam a manifestar os seus enlevados sentimentos nas pobres consortes que com eles tinham o azar de conviver.
Os tempos mudaram, o desporto tornou-se uma indústria e hoje os resultados da bilheteira é que contam. Ora, quando não há resultados no campo, não há bilheteira que resista e, sem esta, não há receitas que comportem as despesas dos clubes. Porque estes são um reflexo da nação e vivem acima das suas possibilidades, fácil é perceber que ganhar ou perder um título, por muito insignificante que seja, pode ser de importância capital na manutenção de determinadas ambições. Para os dirigentes dos principais clubes portugueses, que não olham a meios para atingir os seus fins, a verdade desportiva há muito que deixou de interessar. O que interessa é a manutenção deste sistema podre que é, ele próprio, um reflexo da corrupção generalizada que grassa na sociedade portuguesa. Gastam-se milhões em plantéis medíocres, contratam-se técnicos com curriculos duvidosos por somas astronómicas, contraem-se dívidas bancárias que acumulam juros incomportáveis para os clubes e prometem-se títulos vários por época, a adeptos crentes e carentes de vitórias.
Obviamente, que nem todos os clubes podem ganhar títulos e, os mais bem preparados têm, à partida, mais possibilidades. Que nem sempre isso acontece é uma evidência, como é uma evidência que algumas arbitragens influenciam directamente os resultados. Que fazer? Uma das possibilidades - que não a solução - seria adoptar tecnologias sofisticadas que permitissem avaliar "in loco" os lances mais duvidosos. Esta proposta tem a oposição das federações internacionais e dos próprios árbitros que argumentam, com alguma razão, que isso seria tirar emoção e dúvida ao jogo. O que, em última análise, afastaria os espectadores dos campos e as receitas necessárias para a sobrevivência dos clubes. Um círculo vicioso.
Mais vicioso, porém, parece ser o ciclo de pobreza endémica que atingiu a sociedade portuguesa nos últimos anos e que veio para ficar. Mais pobreza, mais exclusão social, mais criminalidade e mais corrupção. É neste caldo social, propício a todas as demagogias, que o futebol vai ocupando paulatinamente o lugar da religião como o opiáceo mais importante dos portugueses. E enquanto os portugueses andarem ocupados com o Baptista, não se lembram do Sócrates. Uma benção para o partido do governo.