2009/02/27

a última citação que me mandaram

«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»

Thomas Jefferson, 1802

2009/02/24

No meio do aparente caos

Nem tudo vai mal. Vale a pena assinalar a sentença sobre o caso denunciado pelo actual vereador da CML José Sá Fernandes, de uma tentativa de corrupção por parte de Domingos Névoa, o administrador da Bragaparques.
Não há nada a acrescentar. O caso ficou provado, o administrador da Bragaparques foi condenado e a sentença foi exemplar, embora o montante da multa aplicada se afigure, de facto, totalmente ridículo.
Todos são presumidos inocentes até trânsito da sentença em julgado, repete-se vezes sem conta neste país onde tudo se alega para que a justiça fique por cumprir. Mas, este caso não contempla alegações adicionais. A corrupção não é afinal uma fantasia de gente mal intencionada. Ela existe mesmo. E por este caso ficamos ainda a saber como é que "determinadas pessoas agem para corromper outras."

O insustentável peso da censura

De forma cordata e pedagógica o Dr. Elísio Sumavielle, director do IGESPAR, tem passado o dia de hoje a explicar aos portugueses que a "lei da rolha", imposta aos técnicos e funcionários daquele Instituto, não é censura. Diz ele, com candura, que passou por muitas situações idênticas enquanto funcionário e que acha perfeitamente normal esta regra de funcionamento interno. Pois.
Acontece que medidas como esta, não sendo sequer inovadoras, têm vindo a repetir-se mais frequentemente do que seria desejável. Estamos a lembrar-nos da perseguição e suspensão, aplicada pela coordenadora da DREN ao professor Charrua no Porto; a visita da polícia a um sindicato de professores em Coimbra, durante as manifestações de 2008; ou as ameaças explícitas do ministro da propaganda socialista, o inenarrável Augusto Santos Silva, que faz gaúdio em anunciar que gosta de "malhar" na oposição.
A outro nível, mas não menos preocupante, é a intromissão da Igreja nos hábitos e costumes dos cidadãos, condenando o casamento com membros de outras religiões, ou censurando a homosexualidade como um comportamento desviante.
Hoje mesmo, a comunicação social dá conta da apreensão de alguns exemplares de um livro de arte, cuja capa reproduz um quadro famoso de Gustave Courbet (ver "post" anterior) com a pretensa e esfarrapada justificação da pornografia.
Sabíamos que a "lei da rolha" era uma prática vulgar nos tempos da "outra senhora", da mesma forma que o "centralismo democrático" ainda continua a ser aplicado em partidos estalinistas. Também sabemos que o progresso nunca foi apanágio da igreja e dali não se esperam grandes "revelações".
Começa, no entanto, a tornar-se prática corrente a tentativa de "abafar" vozes que discordem da cultura dominante. Tudo o que sai da "normalização" e arrisca incomodar o poder (político ou outro) começa por ser negligenciado e, em última análise, silenciado. Se não podemos silenciá-lo, há sempre um regulamento interno para justificar a sanção. Ora estas, cada vez mais frequentes, erupções autoritárias não surgem do nada, nem sequer da pena de um legislador mais zelota.
Antes radicam numa longa história de censura e punição, certamente iniciada na velha inquisição, continuada no recente fascismo e hoje aplicada por governantes de espírito castrador. Ou seja, uma tradição de 400 anos. É obra.
Como tudo o que é demais, começamos a estar fartos desta gente de voz cândida e persecutória. Pactuar com tal vileza seria sujeitarmo-nos à condição de figuras passivas de um jogo no qual só podemos participar se abdicarmos da opinião. Esperamos que os funcionários do IGESPAR não deixem de dizer o que lhes vai na alma, pois para património arqueológico já bastam as pedras tumulares. Maior peso, só mesmo o da censura.

O pecado da nudez

Esta ridícula sanha persecutória que se tem verificado ultimamente contra o "nudismo" e os tiques autoritários revelados pela acção das entidades oficiais protagonistass nesta matéria, não conseguem esconder a verdade nua e crua: a actuação global do MP, da PSP e das restantes entidades que lidam, directa ou indirectamente, com os problemas de aplicação da justiça em Portugal (no fundo, todo o Estado!) revela um saldo altamente negativo de incompetência e de oportunismo.
É certamente essa a convicção da generalidade dos cidadãos. E o mau cheiro que todos os dias vai emanando de todas estas instituições é cada vez mais insuportável. Não há perfume que o disfarce e já não há narina que aguente.
É bom que se lhes faça sentir, com grande clareza e firmeza, que estas suas acções de defesa da falsa virtude têm o condão de tornar os seus próprios pecados ainda mais sinistros ao nosso olhar!!
Vai sendo tempo de lhes pedir contas e de deixar de condescender com a sua própria bandalheira...

2009/02/21

O conluio

No estilo desassombrado que a caracteriza, a (ainda) deputada europeia Ana Gomes (PS) disse ontem na RTPN o que toda a gente sabe, mas ninguém ousa afirmar: o texto original do relatório da Comissão Europeia sobre os voos da CIA foi alterado devido aos protestos, entre outros, do ministro Luís Amado, por não concordar com as referências a Portugal e ao governo de Durão Barroso, actual presidente da Comissão Europeia.
Instada pelo jornalista a explicitar a sua afirmação, a deputada não podia ter sido mais explicita: "Não é só cá que existe o "centrão". Lá, como cá, domina o "bloco central" e existe um conluio entre os maiores partidos do Parlamento. Ao protestar contra a inclusão do nome de Portugal no relatório, o ministro português evitou que Barroso pudesse ser alvo de críticas, agora que este se prepara para um novo mandato em Bruxelas".
Desta forma, ficou toda a gente contente: o governo português, que não é mencionado no relatório; o Partido Popular Europeu que pode voltar a candidatar Barroso e Luís Amado que, provavelmente, será recompensado com um lugar em Estrasburgo (ver a lista de nomes proposta pelo PS às europeias).
Resta saber o que acontecerá à Ana. Mas, ou muito nos enganamos ou, desta vez, fica fora da lista...
Quem a mandou denunciar o "bloco central de interesses"?

2009/02/19

Ministério Público presente no Carnaval de Torres Vedras

O Ministério Público depois de anos de barracada decidiu mostrar serviço. E após o cumprimento do dever foi legítima e literalmente brincar ao Carnaval.
As razões para esta súbita queda para a folia carnavalesca de uma instituição que se quer sóbria e digna ficam, para já, em segredo de justiça...

A fé move montanhas

O ministro Manuel Pinho fala em fé a propósito do desfecho do caso Qimonda... Seria por isso que o cardeal Saraiva Martins disse que o Estado e a Igreja têm de se articular para lidar com certas matérias...?
Os desígnios de Deus são, de facto, insondáveis e sabemos que a fé move montanhas.
Valha-nos, portanto, Deus!

2009/02/18

Geografias

Depois do Portugal Westcoast e do Allgarve, temos agora o Portugoal. Se esta moda do trocadilho "anglo-portuguese" pega, vamos ter em breve o mundo a olhar para nós como o país que, no fundo, verdadeiramente somos: a terra dos Sailoios, esses descendentes dos navegadores de tempos idos, actuais habitantes de uma região situada algures entre o Twitter e Curral de Moinas, na estreiteza do Magalhães.

A normalidade do cardeal

De acordo com o Cardeal Saraiva Martins, as crianças não devem ser educadas por um casal homosexual, porque "os homosexuais não são pessoas normais". Pensa ele, mas não diz, que são pessoas anormais. Ou seja, não são normais como o Cardeal Saraiva Martins.

2009/02/12

Fracturas expostas

É fascinante observar o doutor Almeida Santos a fazer esta performance da moção da eutanásia. O PS não poderia arranjar melhor intérprete para este número. O ar convicto com que se declara adepto da eutanásia é verdadeiramente comovedor.
Confesso que fico fascinado com o desenho, o timing e as razões invocadas para o surgimento desta campanha. Desta e doutras, não negras, mas cheias de cores do arco íris...
Para não lhe faltar nenhum ingrediente até já está garantido pelos orgãos de comunicação social (uns por "inerência de cargo", outros porque lhes dá jeito embarcar no andor...) que esta questão da eutanásia é "fracturante". Reparem que ninguém ainda se pronunciou sobre isto e ninguém sabe sequer muito bem o que isto é, mas já todos nos garantem que é "fracturante".
A coisa é tão descarada e orquestrada de forma tão bacoca que bem podemos dizer, sem hesitar, que estamos perante uma fractura exposta. Esperemos que não gangrene...

A involução das espécies

Fala-se muito de Darwin nestes dias. Muita gente lembra, a propósito e com prudência, que é preciso distinguir entre Darwin e o darwinismo. À semelhança do que se passa com outro qualquer "ismo", o darwinismo é palco onde se pronunciam as maiores barbaridades e terreno apropriado para as mais inacreditáveis cambalhotas intelectuais! São nódoas que caem mesmo no melhor pano...
É conhecida a celeuma causada pelas teorias de Darwin na altura em que foram reveladas. Pensando nela e no tempo que passou desde então, questiono-me se as "espécies" envolvidas ainda hoje nesta querela entre darwinistas e anti-darwinistas terão sido objecto do mesmo processo de evolução a que eu próprio fui sujeito. Pergunto até se, entretanto, não terão sofrido um processo de involução...

2009/02/11



É difícil perceber como é que a força e convicção do discurso de Wafa Sultan, psicóloga árabe-americana de Los Angeles, pôde ir para o ar na Al Jazeera, estação de TV com patrocínio islâmico.
Trata-se de uma visão bem original das coisas, que repõe a questão do "choque de civilizações"; segundo Wafa Sultan foram os muçulmanos que começaram esse choque ao separarem o mundo em muçulmanos e não muçulmanos, arvorando-se aqueles a missão de combater os outros até à sua conversão.
Quando ela diz que não é crente, logo um dos intervenientes diz que não há diálogo possível, pois ela é uma hereje que blasfema contra o Islão, o Profeta e o Corão.
Assim colocadas as questões no campo do dogma, realmente o diálogo não é possível.

mensagem que me mandaram hoje

«Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado.»

*_Karl Marx, in Das Kapital, 1867 _*

2009/02/05

O verdadeiro freeport?

"1 800 milhões de euros. É este o custo para os contribuintes do maior escândalo financeiro de sempre no país" adverte Paulo Ferreira no editorial do PÚBLICO de hoje, enquanto nota que o Governo e o BdP "ao nacionalizarem o banco, nacionalizaram um 'buraco' que desconheciam."
Os valores envolvidos neste escândalo não deixam de fazer tremer um teso como eu quando se lhes aplicam bitolas comparativas, como faz Paulo Ferreira: mais de metade do custo previsto para o novo aeroporto de Alcochete, cerca de 1% de toda a produção portuguesa durante um ano, o orçamento anual do MAI, a verba que a Segurança Social tem durante um ano para pagar os subsídios de desemprego, morte, doença e maternidade...
Esqueçam o Freeport. Este, sim, é o maior escândalo em que este governo está envolvido.
"Como é que se decidiu a solução antes de averiguar qual era a dimensão do problema?" pergunta Paulo Ferreira, que muito justamente acrescenta que este "era um problema que devia ter ficado do lado dos privados, dos accionistas (...) e dos clientes."
Opções criminosas fizeram, ao invés, passar o problema para as mãos dos contribuintes portugueses, transformando o BPN num verdadeiro freeport, um autêntico e escandaloso paraíso fiscal. Por mais piruetas de retórica que tentem executar esta é a realidade.

2009/02/03

Há mais vida para além do Freeport

No meio da novela de Alcochete, duas boas notícias:
O Presidente da República vetou hoje a proposta do PS que pretendia acabar com o voto por correspondência dos emigrantes. Para quem não saiba, o voto dos emigrantes por correspondência foi instituido logo após o 25 de Abril e tem funcionado perfeitamente até aos dias de hoje. Acontece que o PS, certamente por perder tradicionalmente três dos quatro deputados eleitos pelo círculo da emigração, apresentou uma proposta-lei que exigia a presença física dos portugueses no local de voto (os consulados). Sabendo que o número de consulados existente é cada vez menor e as distâncias entre os mesmos são de centenas de quilómetros, fácil é concluir que seria cada vez mais difícil aos portugueses que vivem no estrangeiro ir votar. Maior abstencionismo e desinteresse político seriam as consequências nefastas desta decisão caso o decreto tivesse sido aprovado. Andou bem o presidente ao não deixar manipular o voto da emigração.
Outra boa notícia, tem a ver com a decisão do Tribunal Europeu, que condenou hoje o estado português por este ter impedido o navio holandês "women on waves" (o barco do aborto) em navegar em águas territoriais portuguesas. Para quem não se recorde, o caso remonta a 2004 quando um grupo de activistas holandesas solidárias com as mulheres portuguesas, tentou entrar de barco em Portugal, no âmbito da campanha a favor da despenalização do aborto. O "ministro dos costumes" à época (Paulo Portas) resolveu impedir a atracagem, enviando uma corveta da marinha ao encontro do navio-clínica holandês. A organização holandesa protestou contra esta arbitrariedade junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e ouviu hoje a sentença condenatória de Portugal por impedimento do direito de expressão em territórios da União Europeia. Vale mais tarde do que nunca.
Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.

2009/01/31

Não falo!

Sobre o caso Freeport, não esperem que eu venha deitar ainda mais achas para a fogueira da confusão que vai por aí. Não falo sobre isso!

(Porra! Já falei!)

O que se espera no caso Freeport

Volto ao caso Freeport depois do que aqui escrevi na passada segunda feira.
Existem suspeitas sobre o envolvimento do primeiro ministro em casos passados durante um período em que exerceu um outro cargo governamental. É um facto. O primeiro ministro afirma com grande convicção que não, a comunicação social insinua de forma cada vez mais veemente que sim.
Parece cada vez mais inevitável que o primeiro ministro deve apresentar a demissão e aguardar que o caso se esclareça na justiça. Não se pode aceitar que paire sobre o exercício de um cargo desta natureza a mais leve suspeita.
A suspensão do exercício do cargo decorre da natureza do próprio cargo, não tem a ver com a pessoa, como não teria caso ela ficasse, por exemplo, incapacitada por doença. O exercício de um cargo destes exige determinadas características pessoais, físicas, mentais e caracterológicas permanentemente. E a suspeita não se dissipa com declarações televisivas e jogos de retórica.
Mas ser suspeito não é ter efectivamente cometido qualquer acto ilícito.
Resta-lhe que se prove ou não que está inocente e que quem levantou estas denúnicias seja ou não condenado em consequência.
Se, por uma lado, a suspensão do exercício do cargo é um acto com enormes custos para todos, resumir tudo isto que se está a passar a uma espécie de jogo da malha tem consequências, na minha opinião, ainda mais graves. A pouca confiança que os cidadãos depositam nas instituições da República levará um abalo irrecuperável. A força das instituições vê-se no exercício das suas funções próprias, não na finta e na dissimulação.
Quem teme afinal o exercício da justiça?
Se se provar que Sócrates não cometeu acto nenhum ilícito ele pode sair reforçado politicamente de tudo isto. Se não cometeu qualquer acto ilícito os autores das insinuações devem ser duramente responsabilizados pelo mal que lhe causaram e causaram ao país. Se cometeu actos ilícitos deverá sofrer as consequências. Se cometeu acto ilícito os denunciantes devem ser saudados por terem cumprido o papel que num regime democrático se lhes exige.
De outra forma ficará sempre a pairar no ar a suspeita que afinal ninguém quer que haja reacção. De que isto foi montado e vai sair impune. Que estamos perante um mero jogo político em que as ambiguidades do sistema e a frouxidão da actuação servem às mil maravilhas, num caso e noutro, agendas escondidas. Que as diferentes instituições não querem, ou não sabem como agir. Que guardam do exercício das respectivas funções apenas a noção que mais lhes convém...
Nada disto é bom para o regime.

2009/01/30

Um errozito de paralaxe

Hoje a comunicação social deu conta das palavras do PR sobre a questão da nova lei do divórcio, num congresso da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade. Nesse seu discurso, o PR referiu um artigo que citava um dos autores da referida lei que terá confessado "que ela tinha alguns lapsos, uns ‘errozitos’ e que a culpa foi da pressa”. “A ser verdadeira esta declaração," acrescentou o PR em tom indignado, "a nossa perplexidade como se legisla em Portugal sobre matérias com esta relevância não podia ser maior".
Alguém deveria, na minha modesta opinião, explicar ao PR que este tipo de manifestações está bem para os dignitários da Igreja Católica, membros das associações de família, para os colunistas dos jornais, etc. De um PR espera-se muito mais do que o simples comentário público, em tom queixoso, baseado em citações de um jornal, sobre matérias que ele próprio classifica de relevantes. Assim, é curto...

2009/01/29

Neurónio Criativo

Querido Sobrinho,

Não acredites em nada do que dizem por aí. É tudo mentira. Já avisei o teu primo que está na China e ele confirma ter lido mal as instruções do "lego". Ora, como sabemos, o "inglês técnico" não é a sua especialidade. Desde há muito que os promotores de actividades imobiliárias são acusados de influenciarem o poder político e vice-versa. Eu cá, como não percebo nada de políticas, não posso pronunciar-me sobre tais matérias. Limito-me a intermediar e, se forem projectos PIN, tanto melhor. Quando se metem estrangeiros nos negócios, dá sempre "bronca". Pessoalmente, nunca confiei nos ingleses. Veja-se o caso da pequena "Maddie", quando quiseram culpar o Amaral por alegados murros na mãe da Joana. Tudo invenções. Razão tinha o Ferro Rodrigues. Isto é mais uma cabala contra o PS.
Segue o meu conselho: mantém-te afastado dessa gente.

Fraternalmente,

O Tio de Alcochete

A crise e o Berardo

Escrevi, há dias, um post que parece ter sido mal entendido. O tema do mesmo era uma questão que está no centro das minhas preocupações: a crise actual. Pelos comentários expressos, parece que o tema versava as virtudes e defeitos do cidadão Joe Berardo (JB), e o que é bom ou mau para ele; ou, no limite, se prestava a expor as antipatias que o sujeito suscita nos comentadores, presumindo-se, a contrario, a minha simpatia pelo cromo.
Caguei para o cromo. A não ser que, talvez a contracorrente, a mim, presentemente, interessam mais as opiniões dos actores lúcidos do sistema, que as dos seus manifestos opositores. Não confundo, pois, o mensageiro com o teor da mensagem. E aprendi com o mestre da guerra Sun Tzu que só «quem conhece o inimigo e a si próprio não terá a sua vitória posta em causa».
Quanto a mim, o JB provou, pelas declarações que prestou, estar consciente de que a crise do sistema é mais grave e mais profunda que o que alguns teimam em fazer crer.É uma crise dos fundamentos do sistema, que não se consegue resolver com os paliativos habituais, antes exigindo um tipo de medidas de carácter estrutural.
É uma crise que leva o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, no discurso que fez na abertura do ano judicial a dizer: «O primeiro [princípio inalienável a adoptar pelo mundo do Direito] mostra-nos a falência dos sistemas de auto-regulação que conduzem sempre à defesa corporativa de interesses de grupo em detrimento dos interesses sociais com os efeitos distorcidos que daí advém, se é que (como diz Luís Máximo dos Santos, em artigo ainda inédito) “não estaremos antes perante uma situação, bem mais difícil, em que as próprias características do actual sistema …. comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz”».
O que me interessa aqui é esta última tirada, principalmente por vir da boca de um dos mais altos responsáveis do sistema, ainda por cima no contexto em que foi expressa. Porque é uma tirada de conteúdo “revolucionário”, isto é, põe em causa as «próprias características do actual sistema [as quais, por hipótese] comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz».
Os actores principais do sistema que nos regula dominavam, ainda há bem pouco tempo, as causas e os efeitos do dito; e tudo ia correndo sobre rodas, com os mais ricos enriquecendo ainda mais, à custa do endividamento dos pobres e dos remediados que queriam comprar casa ou carro. Subitamente encontraram-se, como o Berardo, «banzados». É ver os debates dos economistas, dos políticos, dos juristas, na televisão. E os artigos de opinião nos jornais. Estão todos à rasca; não sabem o que esperar do dia de amanhã, não sabem propor receitas para uma crise que os ultrapassa.
Tem portanto razão JB quando diz que «os políticos não estão a perceber», apesar de estarem «a dar aquele ar de que é possível recuperar». Pela própria formulação, vê-se bem que JB duvida muito disso, mas vai dizendo «que fazem bem». Remata então JB, dizendo que está mas «é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande».
— Pois, lá está o hipócrita! Com que então agora é que ele descobriu a sua vocação filantrópica para com os pobrezinhos?!
Esta abordagem figadal é inimiga da razão. Porque não deixa ver que JB não manifesta aqui preocupações “sociais” senão na medida em que, para que os negócios em que ele anda metido se processem na paz dos anjos, o que menos lhe interessa é que sobrevenha uma «destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande». É por isso, para o povo estar sossegado, que ele diz que os políticos «fazem bem» ao darem «aquele ar de que é possível recuperar».
Interessa-me muito mais ouvir isto da boca de quem está com a mão na massa (nos vários sentidos da expressão), que da boca do Louçã ou do Jerónimo, ou mesmo, hoje em dia, dos economistas e da maioria dos políticos.
Entre estes últimos, exceptuo o Obama, depois direi porquê.

2009/01/26

Assim não!

O que me escandaliza neste processo todo do Freeport não é a denúncia, nem o alarido em torno de tudo isto. O caso, a ser verdadeiro, é sério e a denúncia é um dever. O que considero absolutamente inadmissível é que sejam levantadas suspeitas gravíssimas sobre uma figura maior do Estado português e a tudo isto esteja a ser dado, por todas as partes envolvidas, um tratamento tipo Jornal do Incrível.
Todos nos lembramos do que eram os títulos desse "jornal". "Mulher desposa homem com barbatanas"! "Artista mutilado faz mural de 30 m em apneia e de olhos vendados"! "Cobra com duas cabeças dá à luz touro de lide com três patas"! A gente lia aquilo e passava à frente. Os títulos desacreditavam-se a si próprios e nem piada tinham.
Ora, observando os títulos dos jornais e as reaccções dos comentadores e do próprio primeiro ministro e governo, somos levados a pensar que neste caso Freeport estamos perante um simples jogo, sem que ninguém saiba ou queira tirar daqui as devidas ilações.
Sou o primeiro a defender o direito ao bom nome e à presunção de inocência até trânsito em julgado da condenação. Mas, das duas uma: ou tudo isto não passa de uma gigantesca manobra para desacreditar uma figura que merece um respeito especial, pelo seu estatuto e pelas funções que exerce; ou tudo isto é verdade e a figura respeitável pelas funções que exerce e pelo estatuto que tem não as pode estar a exercer em nome de todos nós e com a dignidade que o cargo exige.
O que se está a passar é gravíssimo e não iliba ninguém. Os culpados, se o são de facto, devem ser rapidamente acusados e daí devem ser extraídas todas as consequências, com carácter de absoluta prioridade. O que está em causa é demasiadamente sério para que se espere um dia que seja sem que esta matéria não esteja totalmente clarificada. E os diversos acusadores têm de ser responsabilizados pela acusação de que são autores.
Outra actuação que não seja esta é pretexto para todo o tipo de especulações e propicia uma inaceitável desresponsabilização dos culpados, de um lado ou de outro.
Uma situação que se repete em Portugal mas que urge corrigir. É o regime que o reclama.
O que se está a passar é que não é de todo admissível. Esgrimem-se argumentos, reforçam-se ou destroem-se acusações, preparam-se e executam-se operações de propaganda, como se tudo isto, a ser provadamente verdadeiro ou falso, não fosse susceptível de vir a ter a mínima consequência. Como se de um jogo se tratasse.
Resumindo: se existe a suspeita fundada de que um primeiro ministro de Portugal está envolvido num caso de corrupção como o descrito no caso Freeport, o País não pode correr o risco de ter à frente dos destinos do seu governo uma pessoa assim. Tem de haver um mecanismo que garanta rapidamente o funcionamento do Estado acima de qualquer suspeita. Pelo contrário, se esta acusação é falsa e foram levantadas contra o primeiro ministro acusações falsas, que levam a uma perturbação grave da governação, os acusadores devem ser rapidamente responsabilizados pelo prejuízo que causam à Nação.
Assim, com toda a gente a embarcar no folclore, é que não vamos a lado nenhum. Afinal isto é a sério ou é mais uma à Jornal do Incrível?

2009/01/25

Berardo, o revolucionário

Interrompo um silêncio de vários meses para recomendar a leitura da entrevista que Joe Berardo deu ao suplemento Economia do Público de sexta-feira passada.
De facto, tenho visto os economistas e os políticos à rasquinha, sem saberem no que isto da crise vai dar. O Berardo, que é, ele próprio o reconhece na entrevista, um bocado desbocado, diz que está "banzado" e que "tudo aquilo que [aprendeu] até agora, que era analisar as potencialidades, os endividamentos, os dividendos, foi tudo por água abaixo e [que tem] que voltar a aprender de novo [passe a forma pleonástica]." Remata com a frase lapidar "Tem que haver um novo sistema."
Eu cá, desde que ouvi Greenspan dizer que se enganou acerca da capacidade do sistema se auto-regular (assim fazendo do "padre" João Carlos Espada praticamente o único fiel do liberalismo), só tenho a dizer que já nada me espanta. E acho paradigmáticas as afirmações de Berardo.
Estou convencido de que o que vem aí de crise é muito, mesmo muito, mais grave que o que a generalidade das pessoas julgam.
Porque (segundo Anselm Jappe, em artigo que recomendo vivamente) "desta vez, todos os comentadores estão de acordo" sobre que é realmente uma crise sistémica o que está a começar, e não uma "mera turbulência passageira dos mercados financeiros". Mas "todos aqueles que agora apelam a uma «maior regulação» dos mercados financeiros, desde a associação ATTAC ao Presidente Sarkozy, não vêem nas loucuras das bolsas mais do que um «excesso», um abcesso num corpo são".
Continuando assim a varrer a poeira para debaixo do tapete, nunca perceberão que o que realmente se está a passar é uma crise dos próprios fundamentos do sistema em que vivemos. "Os políticos não estão a perceber, estão a dar aquele ar de que é possível recuperar, eu acho que fazem bem, mas eu estou é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande", Berardo dixit.
As boas notícias são que, depois de ler o discurso de tomada de posse de Obama, fiquei convencido de que ele, tal como o Berardo, também percebeu!

2009/01/20

A América de novo na ofensiva...

Não consigo encontrar uma fragilidade no discurso de Obama. Diria antes que depois dele se tornou mais fácil encontrarmos as fragilidades dos discursos dos outros líderes mundiais. 
Os líderes da UE, dos países árabes, da Rússia, dos chamados países das economias emergentes, de todos os países, amigos e inimigos da América, todos eles acomodados em discursos afinados para um diapasão que hoje se extinguiu definitivamente, vão ter de arranjar novos tópicos para a sua oratória. 
Muita gente sublinha o facto de que quando passar a crise os velhos paradigmas vão ter de mudar e o mundo não vai ser o mesmo. Já não é, pelo que ouvimos. Vamos é ver, continuando a metáfora musical, quem vai conseguir definir o novo Lá de concerto...
Como nota lateral, devo confessar que quase tive pena do Bush. A organização desta tomada de posse esqueceu-se de lhe arranjar ali um buraco por onde ele se pudesse enfiar... Teria sido mais digno.

2009/01/19

Sempre a descer...

As previsões apresentadas pela Comissão Europeia, que confirmam a análise do "The Economist" e revêem em baixa os números do Orçamento Suplementar do governo, são preocupantes: a contracção da economia não será de 0,8%, mas 1,6% (o dobro!), o "déficit" não será de 3,9%, mas de 4,6% e a taxa de desemprego não será de 8,5%, mas de 8,8%. Entretanto, os analistas vão avisando que a situação ainda pode piorar e chegarmos mesmo à deflação. Recuperação, só mesmo lá para 2011...
Concordou o governo? Nem pensar. Sócrates não tardou em desmentir os comentadores do "The Economist" (que não teriam lido bem as suas declarações) prometendo, desde logo, novos investimentos e linhas de crédito e, a "cereja em cima do bolo", o inenarrável Madaíl, anunciava a candidatura de Portugal à organização conjunta do Mundial de Futebol em 2018. Crise? Qual crise?
Este país parece-se cada vez mais com o "Titanic". Mesmo a afundar-se, a "orquestra" continua a tocar...