2010/02/27

Os anónimos e a irresponsabilidade ilimitada

Os comentários deixados neste blog foram sempre moderados por causa do eventual e desagradável spam. Com o uso do "captcha" o spam deixou de ser um problema. Mas, até hoje nenhum comentário dirigido ao blog deixou de ser publicado. Vamos continuar a publicar tudo. Mas, a partir de agora , para além de serem moderados, os comentadores passarão obrigatoriamente a ter de possuir uma identidade qualquer. Os comentários, seja qual for a sua natureza, continuarão a ser publicados como habitualmente, os comentadores até podem manter o "anonimato", mas será necessário ser um "anonimato conhecido".

Faço notar que o que muda é mesmo apenas o facto de qualquer comentador ter de possuir um identidade pública (do blogger ou do OpenID), visto que nós também a temos.

É uma questão institucional.

"Anónimo" não é identidade. É cobardia pura, para a qual não há pachorra. Não me atrapalha absolutamente nada ter comentários neste blog, não me chocam de todo as brejeirices, não me importa o vazio das apreciações ou os desvios do tema, nem mesmo os insultos me fazem cócegas. A prova é que, tendo nós o privilégio de aprovar ou não a publicação desses comentários e o privilégio até de, pura e simplesmente, não ter comentários, tudo o que é "anónimo" pôde sempre mandar, sem problemas, os seus recados aqui para o Face.

Mas, a partir de agora, quem o quiser fazer vai ter de assumir a sua responsabilidade, perante nós e os outros leitores do Face.

É a nossa prerrogativa e um dever que temos para com esses leitores que fazem o favor de comentar, mas não se escondem num pretenso anonimato, de forma cobarde. Pela nossa parte, sabemos desde sempre qual a origem dos comentários "anónimos", se vêm da margem sul ou da margem norte, deste ou daquele servidor, mas a partir de agora acaba o anonimato. Esperamos os vossos comentários e pedimos desculpa pelo eventual incómodo.

2010/02/26

L'Omertà

Os depoimentos das testemunhas convidadas para participar nesta mega-audição, em que se transformou a Comissão de Ética, corroboram grosso modo as posições já conhecidas dos principais intervenientes - jornalistas, empresários e políticos - que reafirmam (ou negam), interferências do governo em orgãos de comunicação social. Depois de prestações nada prestigiantes de jornalistas com alguma reputação, como Mário Crespo e Felícia Cabrita, o director do "Expresso", Henrique Monteiro, foi o primeiro que, de forma explícita, confirmou ter recebido um telefonema do primeiro-ministro a pressioná-lo para não publicar notícias sobre a sua licenciatura. Monteiro acrescentaria que, as pressões, existem sempre, mas são normalmente feitas à "posteriori" (como o BES ter retirado a publicidade do jornal), mas esta foi a primeira vez que a pressão foi feita antes do próprio artigo ter saído.
Já da parte dos principais visados na tentativa de compra da TVI pela PT - Vara, Penedos e Rui Soares - as declarações primaram pela unanimidade. Ou melhor, todos, sem excepção, recusaram responder a perguntas em "segredo de justiça". Um aparente contrasenso já que, diariamente, diversos orgãos da comunicação social (CM, Público, SOL, Expresso, etc.) publicam extensos excertos das conversas telefónicas tidas entre estas três personagens, sem que o seu conteúdo tenha sido desmentido. Ou seja, na "forma", eles têm razão (o segredo de justiça está a ser quebrado, o que é ilegal), ainda que os "conteúdos" sejam verdadeiros e falem por si. Compreende-se, como nos filmes, tudo o que os arguidos disserem pode ser usado contra eles. Nesses casos, vale mais prevenir do que remediar. Nada como a célebre "Lei do Silêncio".

2010/02/22

Derrocada

O donatário da Madeira mostrou mais uma vez do que é capaz. À falta de matéria substantiva a propósito do que ali se passou e perante a ausência de explicações sobre a razão pela qual tanta coisa, que poderia ter amenizado a catástrofe, falhou de modo tão grosseiro e evidente, apressou-se logo a apelar a um inconcebível silêncio noticioso sobre a região, porque, não-sei-quê, a "economia" era muito dependente do exterior, e, blá-blá-blá, os "mercados", etc e tal...
O apelo era, em si, já perfeitamente patético e bastante estranho para um Presidente do Governo Regional, mas um simples gesto do Cristiano Ronaldo no jogo de ontem, depois de marcar ao Villareal, veio deitar mais por terra e contrariar totalmente o donatário, deixando-o ainda em piores lençóis.
Ninguém, ninguém!, vai esquecer que Jardim manda, omnipotente, na Madeira desde 1978 e que teve, portanto, no âmbito da sua esfera de responsabilidade, tempo suficiente para fazer pela região autónoma algo mais.
As falhas do governo regional estão à vista de todos. Que caia com grande estrondo!

(foto AP)

2010/02/19

Nobre escolha

Fernando Nobre, actual presidente da AMI, anuncia hoje, formalmente, a sua candidatura a Belém. Uma decisão algo surpreendente, ainda que seja conhecido o apoio que deu a diversas candidaturas e formações políticas ao longo dos últimos anos. Do PSD ao BE, passando pelas candidaturas de Mário Soares, António Capucho ou António Costa, o presidente da AMI tem mostrado a sua disponibilidade para apoiar causas públicas em que acredita. Nada a opôr.
A sua disponibilidade para, agora, se candidatar ao mais alto cargo da nação tem, no entanto, características diferentes. Pela primeira vez, deixa de ser apoiante de um partido ou político específico, para pedir o apoio destes. E das duas uma: ou o presidente da AMI, pensa que as suas ideias são suficientes para mobilizar um eleitorado cada vez mais descrente nas instituições que nos representam, naquilo que poderíamos apelidar de vaga de fundo para a"moralização da coisa pública"; ou o presidente da AMI dispõe já de um apoio concreto (aparelho partidário) que lhe garanta iniciar uma campanha eleitoral, com alguma probabilidade de sucesso, contra dois candidatos de peso: Cavaco Silva e Manuel Alegre.
Interrogado ontem, à chegada ao aeroporto, Nobre reafirmou alto e bom som que não era apoiado por nenhum partido, nomeadamente pelo partido socialista. É bem capaz de ser verdade.
Uma coisa parece certa, Nobre será sempre um candidato de "esquerda" nestas eleições e, nesse contexto, um concorrente de Alegre contra Cavaco. Independentemente de vir a ter o apoio de qualquer partido, o partido que apoiar Nobre não apoiará Alegre e vice-versa. Ou seja, Nobre, com a melhor das intenções, contribuirá para a divisão daqueles que se opõem a Cavaco. A manterem-se os pressupostos actuais, e caso estes três candidatos mantenham as suas candidaturas, não é difícil vaticinar que o actual presidente será, mais uma vez, eleito. Como escreveu o conhecido filósofo, a "história repete-se, agora como comédia".

2010/02/18

O que está verdadeiramente em causa hoje na política portuguesa

Se dúvidas houvesse sobre a verdadeira natureza do que está em jogo nesta discussão sobre as escutas divulgadas pelo "Sol", uma simples intervenção --feita ontem em tom de vítima ofendida e impotente-- da deputada socialista Isabel Oneto, na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da AR, veio clarificar tudo. Afirmava ela que "os jornalistas podem escrutinar e dizer o que pensam dos outros cidadãos e políticos, mas os deputados que aqui estão não podem dizer o que pensam dos jornalistas."
Não interessa se houve ou não pressões sobre a comunicação social, se houve ou não tentativas de usar o Estado para manobras obscuras por parte do Governo. Não interessa sequer que os políticos afectos ao governo tentem minimizar estes acontecimentos e que os da oposição os tentem exacerbar. Isso são problemas menores.
O que fica a descoberto aqui é o modo como os dignitários do regime democrático, que deviam ser os seus primeiros guardiões, encaram a sua função. Colocar a função jornalística no mesmo plano que a função política é um pecado indesculpável. Tolerá-lo-ia se viesse de um jornalista, nunca de um político.
Um jornalista não legisla, não aplica a lei, não gere dinheiros públicos, nem cobra impostos. O jornalista não está investido de nenhuma função pública. Os políticos funcionam de acordo com um programa sancionado pelos votos. O jornalista manufactura produtos de comunicação que eu tenho a liberdade de comprar ou não. Eu posso não comprar um jornal, mas tenho de pagar impostos. E quem os define são os políticos.
Os mecanismos de actuação e o espírito das funções são diametralmente diferentes. Os políticos não podem "dizer o que pensam" dos jornalistas porque a sua função não é dizer o que pensam. É outra. A lei é a matéria que perpassa tudo isto. Mas, as funções estão em lados operacionalmente contrários da lei. Um polícia não pode fazer apreciações sobre o ladrão. Actua segundo as leis que enquadram a sua função. O ladrão, por definição e por sua vez, tenta iludir a lei...
Se os políticos desatam a fazer notícias (como foi o caso do primeiro ministro, entre outros, em diversas ocasiões), ou se acham anormal e lamentam não o poderem fazer (como foi o caso da deputada citada), estão a demonstrar que não compreendem claramente as suas funções e temos então de nos questionar sobre que raio de ideia terão da sua função. Não chegámos à Madeira, nem à Venezuela...
O que todo este processo vem colocar a descoberto é que os políticos em Portugal (alguns, pelos menos, designadamente o primeiro ministro) jogam um jogo intolerável, aplicando um inaceitável estatuto de cidadãos comuns ao exercício das suas funções como cidadãos de excepção, mas revindicando o estatuto de cidadãos de excepção quando esses comportamentos de cidadão comum são julgados no quadro do exercício da sua função institucional.
Comportamentos mesquinhos e institucionalmente inaceitáveis, eis o que todo este processo revela e eis o que nos deve verdadeiramente preocupar. Esta gente está a mais na vida pública.

2010/02/17

Habituem-se!

A tática do PS para tentar demonstrar que não houve (há) uma tentativa de controlar a liberdade de expressão e de imprensa em Portugal, inclui 1) pedidos totalmente descabidos de "provas concretas" de que tudo isso se passou ou passa (repare-se nas intervenções dos deputados do PS nas interpelações da AR sobre a imprensa, por exemplo, ou nas declarações de alguns dirigentes do partido de governo), 2) lançar mão de tudo o que possa servir para desviar as atenções dos portugueses, desenterrando inclusivé velhos machados de guerra, ou, finalmente 3) deixar cair pedras incómodas que foram jogadas neste xadrez, que agora se nos vai revelando devagarinho (se agora caem, porque é que foram lá colocadas para começar...?).
O doutor Vitorino, o tal que postula que o primeiro ministro tem a pele coriácea e vai sair deste processo incólume, bem tinha avisado: habituem-se! A malta é que não ligou, na altura, ou interpretou a frase como lhe convinha...
Há um cheiro qualquer a podre em tudo isto e parece-me inevitável que a coisa acabe mal para este governo e seus apoiantes. Ainda bem, é bem feito!
Mas, por outro lado, quando olhamos para as intervenções da presidência da república ou quando vemos as alternativas que se perfilam no horizonte do lado da oposição, não podemos deixar de levar as mãos à cabeça. Que Zeus nos acuda (para usar uma expressão do Rui Tavares em crónica recente)! Quando me lembram que qualquer um daqueles patéticos candidatos à presidência do PSD pode ser primeiro ministro, fico gelado.
Mas, é isto que temos de facto. Horácios e coriácios! É com isto que temos de contar. Gostaria de poder dizer que há alternativas, mas não me parece. Espera-vos, pois, mais do mesmo. Habituem-se!

2010/02/12

Tapar o "Sol" com a peneira

A providência cautelar interposta pelo administrador da PT, Rui Pedro Soares, com vista a impedir as notícias do "Sol" onde o seu nome fosse referido, levanta dois tipos de questões:
1) A primeira, diz respeito ao direito que assiste a todos os cidadãos de defenderem o seu nome da calúnia e difamação. Este é o regime que foi inaugurado há 35 anos e por ele nos batemos.
2) Outra, é do direito à liberdade de informação, imprensa incluida, que está consignado na constituição e que deve igualmente ser defendido.
Independentemente do que possamos pensar dos intervenientes neste caso - governo, justiça, imprensa - todos, sem excepção, contribuiram para o estado a que este regime chegou. Não há, por isso, inocentes nesta história mal contada por ambos os lados (admitindo que só há dois...).
Nem Pedro Soares (lembremos, um "boy" do Partido Socialista que representa a "golden share" governamental na PT) é apenas um cidadão que se sente ofendido; nem determinada imprensa, da qual o "Sol" faz parte, pode ser considerada um exemplo de isenção e objectividade jornalística. Ambos defendem interesses, nem sempre tão obscuros como isso, que se batem pelo controlo do aparelho de estado, sendo, nessa luta, o controlo da imprensa uma tentação constante à direita e à esquerda do aspectro político.
Mesmo partindo do princípio que, neste caso, o segredo de justiça foi (mais uma vez) violado - e isso é, em si, grave e condenável - a verdade é que as "escutas" chegaram às redacções dos jornais e não vamos agora culpar o mensageiro pelas más notícias para o governo. Se os visados neste caso - Vara, Penedos, Pedro Soares - se sentem difamados, há sempre os tribunais aos quais podem recorrer. Aí se verá quem cometeu a infracção. Outra coisa, diferente, é tentar impedir a publicação de notícias, antes mesmo de que estas sejam publicadas. Ou seja, aplicar uma censura prévia!
Voltando a Voltaire, "defenderemos sempre o direito à opinião, mesmo daqueles que discordam de nós". Este é o princípio.
Ora, com este lamentável episódio, o governo parece não ter aprendido nada. De facto, cravou mais um prego no "caixão" do defunto Sócrates que, dificilmente, conseguirá sair incolume deste terremoto político.
Restam, quanto a nós, duas hipóteses: ou o PS tenta uma solução interna, substituindo o seu secretário-geral por alguém que possa prolongar este ciclo governamental, eventualmente com outras forças políticas; ou o Presidente da República, aproveitando os seus poderes constitucionais, entre Março e Julho, dissolve o parlamento e promove eleições antecipadas. Sabemos que nenhuma delas será uma verdadeira solução, mas não acreditamos que os portugueses possam continuar a assistir a esta degradação diária da democracia sem que alguma coisa mude.

2010/02/04

Os portugueses vêem-se gregos

Pelos vistos, não são apenas as "cassandras da desgraça" a apontarem o descalabro das contas públicas portuguesas. Depois das famigeradas agências de "rating", dos relatórios do FMI, da OCDE e da Eurostat, vem agora o comissário Almunia dar a má notícia: Portugal terá de aplicar a receita da consolidação orçamental da Grécia e com juros agravados, pois a situação do nosso país já só é comparável à dos PIIGS (gosto desta denominação) as economias mais débeis da zona Euro. A Grécia está mal, mas nós temos de pagar mais juros.
Nada que nos deva surpreender. Depois de dez anos de continuado "crescimento negativo", durante os quais a divergência de Portugal em relação à média europeia só aumentou, restava-nos sempre a Grécia como consolação. Com os gregos nunca nos sentíamos sós. Eles são, assim, uma espécie de irmãos na desgraça. Sempre em último nos "rankings" do progresso. A excepção, foi mesmo aquela final de 2004...

2010/02/02

Uma história mal contada

A notícia da alegada "censura" a Mário Crespo (MC) que há mais de 24horas faz parte do anedotário nacional, carece da confirmação que só poderia ser dada pelas testemunhas do ocorrido (admitindo que alguma coisa de grave ocorreu).
Ainda que não seja propriamente uma surpresa vermos um primeiro-ministro pressionar directores de TV para "calar" jornalistas incómodos, não me parece muito lógico que essa pressão tenha de ser feita num lugar público e em voz alta para que toda a gente ouvisse. A mesma pressão podia ter sido feita através do telefone ou no recato de um gabinete.
Admitindo que tudo o que Mário Crespo escreveu é verdade, ele devia saber que o contraditório era fundamental para ajuizar das suas acusações. Ora um artigo (ainda que de opinião) fundamentado em rumores, dificilmente passa o crivo de um jornalismo respeitável. Se o director do JN estava à espera de um argumento para censurar as suas crónicas, bastava-lhe este.
Por outro lado, de todas as personalidades presentes no dito almoço, MC não cita o nome do director do canal da TV abordado por Sócrates. Ficam, assim, algumas questões por responder:
Porque é que MC não revelou o nome da quarta pessoa presente (director da TV) nesse almoço?
Porque é que o director do JN não procurou indagar junto dos acusados a veracidade das acusações, exercendo o próprio jornal o seu contraditório?
Porque é que o governo, através de Jorge Lacão (um dos presentes no almoço) desvalorizou a questão afirmando que o governo não comentava calhandrices?
Verdade ou não, o afastamento de comentadores e jornalistas indesejáveis, começa a tornar-se uma tradição em Portugal: Marcelo e Moura Guedes na TVI, Marcelo na RTP e, agora, Mário Crespo no JN. Quem se seguirá?...

2010/01/25

O Haiti não é aqui (2)

A televisão mostrou-o e o jornalista in loco confirmou-o: a primeira estrutura de apoio a ser montada em Port-au-Prince é portuguesa e dará, a partir de hoje, apoio a 600 pessoas nos próximos seis meses. A registar.

2010/01/23

Pedido...

Solicito aos habituais leitores do Face que me expliquem o sentido da seguinte frase:
"Vamos continuar a ser-nos fornecidos elementos indispensáveis [para avaliar o orçamento...]"
A frase é de autoria de Manuela Ferreira Leite e foi pronunciada (duas vezes, para que não haja dúvida!) à saída do seu encontro de hoje com o Primeiro Ministro.

2010/01/22

A tradição ainda é o que era...

Tudo aponta para que o próximo Orçamento de Estado (OE) venha a ser aprovado com os votos favoráveis do PS e do CDS. Nada que nos espante, pois já o tinhamos previsto aqui no último Verão. Sempre que o PS governou em minoria - com Soares nos anos setenta e oitenta e com Guterres nos anos noventa e no período 1999-2001 - todos os acordos para viabilizar os respectivos OE foram feitos à "direita". De uma coisa não podemos acusar o PS, que se auto-proclama um partido de "esquerda": é de falta de coerência. A tradição, sabemos, tem sempre muita força.

2010/01/18

A voz do dono

Este tipo de pensamento tem dono e portanto age, melhor reage, sob o efeito da trela. A sua vocação é o mimetismo. É mimético do que o chefe diz e nada diz por si mesmo. Há muitos exemplos de criaturas que representam este tipo de produção mental. Os mais notórios são aqueles que pertencem ao universo dos acólitos e que têm o treino de secundar. Secundam a opinião do chefe pois nada mais lhes agrada do que agradar ao chefe. Isto não significa que gostem do chefe ou que admirem o chefe. O chefe aliás, nos tempos que correm, é chefe numa prestação de tempo e portanto não garante ao que secunda, ao que amplifica o que o chefe quer que se saiba, uma carreira longa, um tempo de privilégio que dure uma vida. Por isso os secundários têm de ser infiéis por natureza. Eles apostam num chefe e já estão a olhar para o próximo. São traidores por natureza.
Acontece também que este tipo de criatura caixa de ressonância, por vezes, quando está ameaçada a sua situação de segundo, pode ser voraz e perigosa. Quando enraivece pode mesmo morder e mais que argumentar o que a cartilha da circunstância dita, pode agredir, insultar, lançar boato, explorar os baixos instintos da massa e lançar o opróbrio sobre quem, ameaçando-o dirá ele, afirme uma verdade, defenda uma causa, afirme um desígnio de mudança para melhor, em suma queira naturalmente, por sensatez e mesmo por bondade, um mundo melhor, portanto diferente.
O cão de fila, outro nome para este tipo de “segundo”, é a expressão mais agressiva deste tipo de criatura. A expressão é feliz pois é um cão que fila aquele que é dissidente, o que é do outro clube e se quer passar para o dele não havendo espaço nem cargo, e principalmente o que afirma que há uma alternativa à situação, que nem tudo é a dívida pública, nem os impostos, nem a economia, nem a Europa, e que Pirandello e Pessoa já o diziam. O cão de fila diz o que o chefe diz de um modo mais peremptório que o chefe. O que o chefe diz de um modo suave, mesmo que cinicamente suave, ou hipocritamente suave, o cão de fila diz com os dentes cerrados e espera a contestação para lançar o gás pimenta do verbo de um modo obviamente definitivo. Não gosta do debate, gosta de opinar de cima para baixo e aprecia o argumento populista, manobra bem a intriga e paga bem, a um outro candidato a segundo capaz de fidelidade por cima do cadáver da ética. Paga obviamente com os dinheiros de outros, nomeadamente com os dinheiros públicos – também acontece pagar em géneros e em cargos, situações, viagens ao estrangeiro, na conta de um familiar, através de um empreiteiro que constrói fora do país.
Todas as manhas são possíveis num país com séculos de manha. O que assusta mais o cão de fila é ver outro cão de fila a aproximar-se do seu lugar na fila. Nessa situação é capaz de matar o próximo e de mandar matar o próximo do próximo, como a Máfia. É um tipo deveras perigoso porque nunca consta daquele tipo de cartaz que havia no Texas a dizer “procura-se morto ou vivo”. Está sempre do lado dos que procuram, dos que fazem a lei e nunca do outro lado. É um tipo que se disfarça de boa pessoa e que diz constantemente que não tem outra agenda que não seja a agenda do chefe. Bem vistas as coisas, neste tipo de criatura, descobrimos sempre mais de um chefe desejado e alguns mudam mesmo rapidamente para o chefe da posição antagonista com a rapidez da bala. Da fidelidade reafirmada são capazes de passar a outra religião qualquer desde que essa seja a que fica por cima nos tempos subsequentes. Têm um feitio traçado para acumulação de capital. Seja através de acções, seja na bolsa, seja em imobiliário. Vêm normalmente de baixo e quanto mais de baixo, maior é a voracidade. São, na opinião dos chefes, insubstituíveis. Neste preciso momento abundam, proliferaram com a falta de ar e de debate. São de facto muito dados a crescer no mofo e gostam de tudo o que é bafiento. São muitas vezes difíceis de distinguir dos outros, porque nem todos caiem na esparrela da ostentação do que adquiriram por via ilícita. Muitos passam aliás por pessoas de bondade e dedicadas à causa pública de alma e coração. Não vêem um pobre sem lhe encher a mão de cêntimos desde que alguém faça a fotografia. Enfim, são como tartufos e não são uma espécie em vias de extinção.
Na realidade este tipo de criatura assume um papel na engrenagem e na engrenagem cumpre como a mola, sem brilho algum, sem entusiasmo algum, sem coração. E dizer que pensa é afinal um erro crasso porque pensar é outra coisa, é algo que se faz na solidão e no debate, o que pressupõe justamente a ausência do chefe. Quanto muito a presença simbólica do mestre. O pensamento escravo é afinal um contra-senso nos termos e uma forma específica do pensamento único, aquele que regula o mercado pela sua própria regra sistémica de injustiça estruturante e sempre disposto a cimentá-la dinamicamente. É um gestor constante da verdade única.

2010/01/17

Mergulhados na ausência

Com a devida vénia (neste caso, uma vénia sentida e humilde, não uma mera vénia de circunstância) aqui reproduzo um artigo do historiador Paulo Varela Gomes, publicado ontem no jornal Público de ontem.


2010/01/16

O Haiti não é aqui...

...mas, às vezes, parece. Logo agora, que a missão portuguesa foi uma das primeiras a disponibilizar-se para ajudar a mártir população haitiana, o C-130 (que devia transportar os membros do INEM, da AMI e restantes equipas de salvamento) sofreu uma avaria técnica ao sobrevoar o Atlântico e foi obrigado a regressar a Lisboa. A nova partida (do mesmo avião) está prevista para o meio-dia de hoje. Vamos lá ver se é desta...

2010/01/07

O Albergue Espanhol

A disciplina de voto - imposta por Sócrates à bancada do PS, na aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo - será obrigatória para todos os deputados, menos cinco. As excepções são os três "independentes" (Miguel Vale de Almeida, João Galamba e Inês Medeiros) e os dois "fracturantes" (Sérgio Sousa Pinto e Duarte Cordeiro). Não se compreende porque não é dada liberdade de voto aos deputados, a menos que as divisões internas sejam tão grandes que os votos a favor desta lei não garantam a maioria desejada para aprová-la. Se é essa a razão, compreende-se a preocupação do primeiro-ministro. Aceitar cinco votos contra, ainda vá que não vá, mas se houver muitos mais, o que será da lei e, pior, do "unanimismo" partidário?
É por isso que a lei proposta pelo PS é coxa e discriminatória na sua essência: aprova a igualdade no casamento, mas desaprova a igualdade na adopção, que é a sua implicação lógica. Pior: exige dos seus deputados um voto único, numa questão de escolha individual e onde o estado não tem de meter o bedelho.
Nas ditaduras estalinistas de má memória, chamava-se a esta disciplina, "disciplina de cadáver" (só os mortos não podem opinar). Neste PS sem ideologia, como apelidar esta bancada partidária? "Casa de putas"?

2010/01/04

Lhasa

As agências são parcas em notícias. Era americana de origem, tinha 37 anos, gravou três albuns e morreu de cancro. Vi-a, ao vivo, na Aula Magna de Lisboa e, posteriormente, na cidade de Montreal (Canadá), durante a "Folk Alliance" de 2005. Um espanto, a "cantora nómada", como era apelidada pelos seus fãs. Chamava-se Lhasa de Sela.

2009/12/31

Ortografia

Ao contrário da maior parte das pessoas ainda não sei o que vou fazer em 2010.
Mas sei o que não vou fazer em 2010. É escrever segundo as regras do novo Acordo Ortográfico.
Tudo como dantes, pois.
Bom Ano!

2009/12/29

Num país de labregos

A Ordem dos Médicos, essa vetusta corporação que representa uma das classes profissionais mais reaccionárias do pequeno mundo lusitano, acaba de proclamar, através de comunicado anunciado com pompa e circunstância por todos os meios de comunicação social, que a "homossexualidade não é uma doença". Lê-se e não se acredita. O que se aprende com a Ordem dos Médicos!
Estou absolutamente convencido que, a partir de agora, os portugueses vão passar a dormir muito mais descansados. Menos um problema para 2010. Que alívio...

2009/12/24

Política à Portuguesa

A questão do casamento homossexual ameaça transformar-se numa bomba política que vai escaqueirar tudo, bombistas e vítimas da bomba.
A aposta no tema do casamento homossexual parecia ganha para o PS. Cavaco Silva, com aquele seu habitual agudo sentido político, reforça a vitória e faz o enorme favor aos socialistas de afirmar que havia coisas mais importantes na vida dos portugueses. Ao fazer estas declarações neutralizou o potencial de conflito deste tema e o PS viu uma bomba capaz de lhe explodir nas mãos ser neutralizada pela figura que dela podia tirar maior partido político. A malta tem mais em que pensar, terá pensado Cavaco, e serão os próprios portugueses que com a sua indiferença farão o favor de neutralizar este maçador problemazinho. Os portugueses acharão que isto não passa de... mariquices e remetê-las-ão para o armário de onde saíram, terá pensado sua excelência.
Puro engano! Um movimento de cidadãos conseguiu reunir as 75 000 assinaturas necessárias para levar esta questão à AR e o assunto vai mesmo ser discutido. Ainda por cima, este movimento inclui até gente da zona do PS. Cá para mim, o Freeport, a licenciatura do Primeiro Ministro, etc, são bombinhas de carnaval comparadas com esta bomba!
O casamento homossexual ameaça assim fazer muito mais mossa do que os diferentes agentes políticos queriam ou previam que iria fazer.
Resultado: o PS viu este vulcão, que ia borbulhando mansamente na agenda política do país, entrar de novo em violenta erupção. No meio disto, o PR (e, já agora, a Igreja Católica que deixa cair a sotaina, desenterrando, ao referir-se a este assunto, linguagem da Inquisição...) vai ter de explicar a toda esta gente onde é que está a importância dos outros problemas que referiu nas suas declarações. Pelos vistos, para umas largas dezenas de milhar de portugueses, desemprego, défice, sobreendividamento, etc, são problemas de lana caprina comparados com o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
E assim vamos vivendo...

2009/12/23

Hot Clube

Lamentar um incêndio, num prédio parcialmente devoluto, seria banal não fora nesse mesmo prédio estar alojado (há 60 anos!) o mais famoso e emblemático espaço de "jazz" de Lisboa. Foi ontem, de madrugada, e podia ter sido há anos atrás, tantos quanto o imóvel esteve abandonado. Para já, o "jazz" deve continuar no S. Jorge, ao virar da esquina, que chegou a ser uma das melhores salas de cinema de capital e que, nos últimos anos, não passa de uma "barriga de aluguer" sem qualquer critério de programação ou gosto definido.
Resta-nos desejar um rápido regresso do "Hot" ao seu lugar de origem, se possível ocupando todo o edifício com actividades ligadas ao "jazz", pois é essa a sua vocação natural. Os melómanos agradecem e a capital ficará certamente mais rica com uma sala a condizer. Se há dinheiro para as acrobacias do "Red Bull" também tem de haver meios para a reconstrução da "escola", não é verdade? Se fôr preciso, faz-se uma petição. Com baixo-assinado e tudo.

2009/12/16

Poupadinhos

Certamente preocupada com a grave situação do país - quem não está? - a confederação dos patrões, com o inenarrável Van Zeller à cabeça, veio propôr um aumento de 10 euros para o salário mínimo nacional, em vez dos 25 euros anunciados pelo governo. A argumentação é a de que a maioria das pequenas e médias empresas - que constituem 80% do tecido empresarial português - não estariam em condições de pagar tal aumento.
Os sindicatos fizeram as contas e chegaram à conclusão que o aumento proposto pelo governo não atingia sequer 1% dos lucros globais gerados o que, traduzido em euros, daria qualquer coisa como 8 euros por cada 10.000 euros produzidos. Ou seja, "peanuts" em linguagem de hipermercado.
Resta, obviamente, uma questão: se os grandes hipermercados e distribuidores podem pagar os 25 euros propostos, o mesmo não será possível para a maioria das nano-micro-pequenas e médio-empresas deste país. Muito bem. Nesse caso, obrigue-se os bancos, muitos deles culpados da recente crise que a todos afecta e a quem o governo deu milhões de euros para "salvar" da bancarrota, a abrir linhas de crédito favoráveis à sustentabilidade das pequenas empresas. Para que, deste modo, estas não só garantam os postos de trabalho, como possam pagar o salário mínimo nacional proposto (475 euros) o que permitirá aos trabalhadores gastarem mais nas lojas do Belmiro de Azevedo. Desta forma, ganhavam todos, incluindo o poupadinho Van Zeller...

Irresponsabilidades

Se passassem a trabalhar 60 horas por semana, onde iriam os trabalhadores das grandes superfícies comerciais detidas por Belmiro Azevedo e Cia., arranjar tempo para gastar as fortunas monumentais que passariam a ganhar? Ou a ideia seria a de passarem a fazer as suas compras pessoais todas nessas superfícies, quiçá mesmo passar a dormir lá...?

2009/12/14

COP15 tem sucesso assegurado


A questão climatérica, que constitui o eixo da discussão que neste momento decorre em Copenhaga, sempre me suscitou muitas dúvidas. Aqui mesmo no Face exprimi há tempos umas ideias (de leigo!) sobre o assunto.
No geral, continuo a fazer parte do grupo dos cépticos, no que estou aliás estou bem acompanhado... Desde que escrevi aquele post não vejo razões para mudar radicalmente o meu pensamento sobre esta matéria. Concedo, apesar de tudo, que a acção humana pode ter alguma influência sobre estes fenómenos, sobretudo quando pensamos nas zonas de grande concentração urbana e de intensa actividade industrial, que certamente têm um impacto significativo no ambiente. Mas, olhando para a história das grandes "convulsões" ambientais do passado, no geral, continuo a pensar que, apesar de tudo e por simples exercício de lógica, que está por provar que a acção humana, por muita importância que tenha, tem dimensão suficiente para produzir as alterações pretendidas.
São opiniões de total leigo, mas mantenho-as.
Se, por um lado, não posso pois esperar grande coisa de Copenhaga, creio também, contudo, que esta reunião tem um mérito indesmentível.
Para aqueles de nós que crescemos empunhando a bandeira da ecologia, a indiferença foi um dos nossos piores inimigos. O outro inimigo, que nós próprios criámos, resultou do erro brutal de termos deixado que esta questão se tranformasse numa espécie de derby futebolístico, com "claques" de um lado e de outro.
O mérito e a vitória (já assegurada!) da COP15 reside no impulso decisivo que é dado ao problema ecológico, colocando-o no centro das nossas atenções ("Prestar atenção é, em si mesmo, ampliar" - Galileo's Dream, K. S. Robinson) e provando que ele é transversal, estruturante e que, de facto, nos diz respeito a todos. E mais! Longe de ser um problema fracturante, a questão ambiental é uma das poucas que, definitivamente, nos obriga a entendimentos e a uma acção concertada sobre o modelo de desenvolvimento humano que queremos para o futuro.
Não é questão de pouca monta...

2009/12/10

É de facto caso para dizer: tenham juizinho...!

O episódio da troca de insultos na AR não é só grave pelas razões substantivas que todos tivemos oportunidade de conhecer. O que me choca não é ver membros de um orgão de soberania usando, de forma ostensiva, métodos e uma linguagem próprios de moços (e moças!) de estrebaria. O que me deixa seriamente apreensivo é imaginar que esta gente tem poder para tratar de assuntos que influenciam profundamente o dia a dia de todos nós.
Não deixa de chocar também que o Presidente da AR se limite a esperar que os deputados envolvidos neste caso moderem a linguagem, e não deixa de chocar que os outros deputados, instados a comentar o que se passou, respondam tentando branquear, uns, estas situações e chutando, outros, para a comunicação social a responsabilidade de relevar estes actos em detrimento do que, supostamente, de bom se passa na AR. Ou, tantos outros ainda, se calem.
A verdade é que podemos legitimamente perguntar: se estes deputados demonstram uma tal falta de controlo pessoal e de princípios, e os outros se calam ou assumem uma atitude de um corporativismo caricato, é de esperar que exerçam as suas funções de forma competente?
Não se trata de um fait divers. É um problema grave que merece a tomada de medidas exemplares.