2007/06/09

Internet e mexerico

Um artigo recente do New York Times aborda a questão da informação divulgada por via electrónica, vis-à-vis os velhos métodos do boato, da coscuvilhice ou do mexerico. Citando um trabalho de Dan Ryan, do Mills College, chamado "Getting the Word Out: Notes on the Social Organization of Notification" o articulista chama a atenção para a quantidade de informação que recebemos diariamente via internet. A maior parte da informação transmitida desta forma, não sendo propriamente irrelevante, não observa as regras implícitas na transmissão da informação de forma tradicional: oportunidade, interesse, cortesia e, sobretudo, a inclusão. Este último ponto é interessante. Nos tempos da coscuvilhice pura e simples, nota o jornalista, a divulgação de uma qualquer informação junto de um grupo que nos é próximo (amigos, colegas, familiares) estabelece desde logo uma hierarquia e uma relação de inclusão ou exclusão desse grupo. Certas informações quando partilhadas assumiam um carácter quase ritualístico ou iniciático. Quem tinha acesso à informação era "nosso" e quem dela era excluído era "deles". O receptor e o transmissor estavam unidos pela criação de uma certa teia de cumplicidades.
Hoje transmitimos toda a espécie de informação a todos, em qualquer altura e em qualquer lugar. Revelamos, sem pudor, tudo a toda a gente. As mensagens de email são frequentemente enviadas sem critério para a nossa "lista de contactos e os blogs funcionam por vezes como um mostruário quase libidinoso de sentimentos que preferíamos não conhecer. Enviamos sms's contendo informação cujo conteúdo pretende distinguir, diferençar ou discriminar, mas fazêmo-lo de forma, chocantemente, "industrial". Muitas vezes essa informação não solicitada revela-se inoportuna e, não raro, causa mesmo graves prejuízos. Há uns tempos um amigo meu teve de aceder ao próprio servidor de correio do seu prestador de serviço de internet como resultado de um problema com a sua caixa de correio electrónico que teve consequências sérias no plano profissional. A sua conta de correio electrónico ficou totalmente bloqueada por causa de um "filme" enviado por alguém de que resultou a perda do seu correio profissional.
O autor deste artigo do NYT nota que "qualquer mensagem contém outra mensagem na forma como é transmitida."
Se assim é, o que estamos quase todos a dizer uns aos outros por via electrónica é que nos estamos nas tintas.

2007/06/08

fervoroso

Visto e ouvido na televisão: interrogada sobre os motivos que teriam levado o "seriall killer" português (António Costa do seu nome) a cometer tais actos, respondeu uma vizinha: "Eu nunca desconfiei dele. Como podia desconfiar de uma pessoa assim? Era sempre tão simpático, tão amigo de ajudar...além disso era católico, Um católico fervoroso". Adoro o adjectivo. Tão português. Os "seriall killers" anglo-saxónicos são, normalmente, apelidados de "monstros", os francófonos de "perversos", os portugueses são "fervorosos". E católicos, já agora...

2007/06/07

A imigração em Londres

Um dos assuntos dos jornais de Londres nos útimos dias anda à volta do projecto de alguns ministros do actual executivo inglês em fazer uma "revolução de cidadania". A proposta da secretária das comunidades, Ruth Kelly e do ministro da imigração, Liam Byrne mereceu o aplauso do PM indigitado Gordon Brown.
Consiste ela em, no futuro, a cidadania plena vir a depender dum somatório de créditos obtidos a partir do tempo de permanência no país, de investimentos substanciais feitos no Reino Unido, de passar em testes de inglês, de demonstrar conhecimento do Reino Unido, de participar em voluntariado civil e de viver de acordo com a lei. Um sistema de pontos para aquisição da cidadania daria créditos por estes desempenhos, aos quais seriam deduzidos pontos por comportamento anti-social.
A preocupação é, segundo o ministro, «ajudar [os imigrantes] a compreender os valores dos britânicos e o seu modo de vida»; e acrescenta: «precisamos de tornar mais claro que a cidadania não é simplesmente oferecida, mas é alguma coisa que se conquista».
Do lado dos indígenas, e para tornar o programa mais universal, também houve a preocupação de exaltar o orgulho patriótico, propondo-se a distribuição de um dossiê de cidadania a todos os nacionais que atinjam a idade de votar. Por outro lado, lançou-se a ideia de criar um dia nacional do Reino Unido; por mais estranho que pareça os britânicos não têm o equivalente ao 4th of July (dia da independência dos EUA), ou ao 14 Juillet dos franceses (tomada da Bastilha).
O problema reside na consciência que há de que a integração dos imigrantes não é feita da melhor maneira. Tal constatação tornou-se mais clara para os britânicos a partir dos atentados de 7/7; pessoas que pareciam ser cidadãos plenamente integrados revelaram-se bombistas atentando contra a vida dos seus pares.
Ora a paranóia nunca é boa conselheira. Este caso é mais um em que os políticos são tentados a resolver os problemas por decreto. Em vez de trabalhar as condições de recebimento e integração, dificulta-se o ingresso através de processos que, na tentativa de serem "objectivos", acabam por, objectivamente, dificultar a integração dos imigrantes.
Receio bem que, em vez de integrar, os bifes venham, caso esta proposta passe, a criar ainda mais hostilidade entre os imigrantes. A somar à que já existe, sobretudo após a desastrada tentativa de impor a democracia no Iraque pela força das armas.

2007/06/04

Novo aeroporto

Confesso que esta questão do novo aeroporto já me cheira mal. O nível e os timings da discussão são suficientes para deixar qualquer pessoa em estado de desespero. Extrair quaisquer conclusões sobre tudo o que se vai ouvindo, parece-me tarefa absolutamente vã.
Não há ninguém que se safe em todo este processo.
Uns porque nos querem atirar poeira para os olhos fazendo-nos crer que participam nesta discussão por motivos altruístas, por estarem preocupados com o País, com a ecologia, etc e tal. Como se numa obra desta envergadura eu acreditasse que os interesses financeiros em confronto não são os únicos a ditar lei. Só haveria uma única maneira de eu acreditar que esta discussão é minimamente séria: se todos estes figurões que se pronunciam sobre tudo isto fossem obrigados a assinar uma declaração de interesses, como as que os políticos em funções são obrigados a fazer.
Outros porque levaram a discussão para um nível que me faz lembrar as conversas de café à segunda feira, depois de um fim de semana de bola. Se a reflexão sobre o novo aeroporto se situa apenas no plano em que todos, imprensa, governantes, oposição, técnicos e as diversas organizações da sociedade civil teimam em se manter, sou levado a acreditar que tudo isto não passa de uma gigantesca acção de promoção do filme "Conversas da Treta." Deixo à vossa imaginação a tarefa de adivinhar quem é o Toni e quem é o Zézé...
Por mim, cada vez que se "descobre" mais um argumento a favor ou contra o novo aeroporto, contra ou a favor desta ou daquela localização, cada vez que ouço estas figuras patéticas a debitar, com ar convicto, mais uma alarvidade qualquer sobre este assunto, mais fico persuadido que este país só tem mesmo uma daquelas saídas que propus aqui há uns tempos, que volto aqui a recordar de forma cada vez mais convicta: ou fazemos como as baleias e suicidamo-nos colectivamente, ou procedemos a uma liquidação total e mudamos de ramo...

Ritornello

Para quem não saiba, "Ritornello" é (era) o nome de um dos poucos programas de qualidade da RDP/Antena 2.
Jorge Rodrigues, o locutor e responsável do programa, foi dispensado e, com ele, terminou o "Ritornello".
Dispensado é uma forma airosa de dizer despedido, o que vem a dar no mesmo.
A acreditar na versão de Jorge Rodrigues, a "dispensa" está relacionada com a sua recusa em assinar um contrato de trabalho de 2006, com data de Maio de 2007. Antes de assinar o contrato, Jorge Rodrigues enviou-o ao seu advogado para este avaliar da sua validade. Normal. Eu faria o mesmo.
Porque não gostaram da decisão, os seus superiores despediram-no. Com ele acabou um dos melhores programas de cultura e música da RDP.
Jorge Rodrigues trabalha há doze anos na Rádio e é um profissional conceituado e respeitado na sua profissão. O seu programa, atestava-o. A rádio portuguesa está mais pobre e os ouvintes de rádio de qualidade, também.
Já vi este filme em qualquer lado. O guião é o mesmo. A responsabilidade é a mesma:
A incompetência (dos serviços do estado) e a prepotência do estado (neste caso, do governo PS).
Mais um triste episódio a acrescentar à lista das pequenas grandes coisas.

Os jovens e a surdez

A perda de audição é um problema que, a mim, me aflige particularmente. Tenho-a estudado e tento manter-me informado sobre as reflexões que sobre esta matéria se vão fazendo. Na década de 60 um estudo feito sobre o problema da perda de audição devida ao envelhecimento (a chamada presbiacúsia) deitou abaixo uma série de ideias feitas que até então eram aceites e que ainda hoje as pessoas dão como verdadeiras. O otologista americano Samuel Rosen conduziu um estudo comparativo entre o povo Mabaan do Sudão e habitantes de Nova Iorque e concluiu que a audição de um jovem nova-iorquino de vinte anos equivalia a um velho Mabaan de setenta. O estudo é bastante complexo e envolve a análise de um leque vasto de variáveis e não vou aqui, naturalmente, entrar em grandes detalhes. Mas, a conclusão era esta. A razão: os jovens nova-iorquinos estavam sujeitos a níveis de ruído ambiente elevadíssimos.
Estamos perante uma doença da civilização, a que normalmente se não presta nenhuma atenção. Só damos pelo problema quando perdermos a audição e se corta um elo absolutamente crucial que nos liga ao ambiente que nos rodeia. A presbiacúsia não é uma fatalidade como muita gente crê e na atitude passiva e negligente, talvez mesmo criminosa, de muita gente mais velha vejo as raízes de um mal que vai afectar as gerações futuras.
Hoje os jornais referem declarações do otorrinolaringologista António Nobre Leitão. Diz ele que "ultimamente tem-se verificado, especialmente nos jovens e jovens-adultos portugueses, um forte aumento de traumatismos sonoros, provocados pela exposição prolongada a níveis elevados de sons, que é irreversível e pode levar à surdez." Na origem de tudo isto estará a exposição prolongada aos intensos níveis sonoros das discotecas, dos festivais e dos aparelhos de reprodução de música portáteis.
A surdez profissional é já, salvo erro, a primeira doença profissional em Portugal. Se juntarmos a isto a mais que previsível perda de audição precoce de uma parte significativa dos nossos jovens podemos facilmente adivinhar um futuro sombrio. Surdos que nem portas... Triste fim.

O tempo em Londres

É a primeira vez que estou em Londres com bom tempo.
A cidade espraia-se em habitantes de roupas coloridas pelas ruas. Das que conheço é de longe a cidade mais cosmopolita. Etnias, nacionalidades, línguas, tudo se mistura numa algaraviada de corpos e de sons nos múltiplos mercados de rua dos fins-de-semana.

Gostava de poder mostrar-vos os “cromos” que se vêem pelas ruas nesta altura em que os londrinos desabrocham com a presença do sol; mas as fotos, momentos de imagem sem o resto dos sentidos, nunca são capazes de transmitir senão uma aproximação da realidade. No caso dos cromos, mesmo para essa imagem limitada da realidade, seriam precisas tantas fotos que, mesmo que eu as tivesse, não caberiam neste blog.
Assim, e por falar em tempo, não agora do tempo climatérico, mas do outro, dou-vos uma imagem do tempo em Portobelo Road, no mercado de sábado.

Não longe daqui, situa-se a pastelaria dos portugueses, onde se podem encontrar autênticos pasteis de nata; uma casa que ostenta um nome que não dá para acreditar. Vejam na foto:

2007/06/03

Lição oculta?

A zona onde moro fica a cerca de 15 quilómetros de Lisboa, e a um escasso quilómetro da praia de Carcavelos. Esta zona era até há uma meia dúzia de anos quase rural. Nessa altura, havia aqui uma enorme seara e um pinhal. Um rebanho vinha pastar diariamente e da minha varanda assistia-se, frequentemente, ao nascimento dos cordeiros.
Quando o tempo começava a aquecer, por entre a aveia e, depois da ceifa, por entre o restolho, cresciam as papoilas.
Depois vieram as escavadoras, as britadeiras, as betoneiras e outras "oras" e "eiras" e num ápice fomos brindados com uma via rápida e um novo bairro que obrigou ao corte integral dos pinheiros e tapou integralmente a antiga seara. Foram vários anos de um sofrido calvário, feito de poeira, de manobras de enormes máquinas e de barulho. Não é difícil imaginar...!
As papoilas essas, pelos vistos, ficaram e despontam de novo por entre a calçada à portuguesa dos passeios entretanto construídos, como a foto mostra.
Não saberão os moradores do novo bairro o que se passava nos terrenos onde agora estão implantadas as suas casas. Não saberão que estas papoilas são velhas habitantes desta zona e teimam, de forma caprichosa e vistosa, em renascer. Mesmo por entre paralelepípedos. Não saberão que estas papoilas guardam memórias antigas.
Quem sabe se este renascimento não resultou, justamente, da vontade destas papoilas nos quererem transmitir essas memórias e, com isso, ensinar-nos uma lição...

2007/05/31

O tempo, escultor de pessoas e dos seus mapas

Um dia um amigo, de quem sou muito próximo apesar das diferenças de idade, perguntou-me como é que acontece a chegada dos anos, do tempo. Expliquei-lhe que é como uma visita que não convidámos, mas que é tão discreta que não se dá por ela. Tudo se passa como quando os dias de Verão vão dando lugar a outros e vamos sentindo a necessidade de vestir peças sucessivas de roupa, que se somam sobre o corpo à medida que o tempo muda. Às tantas chegamos ao Inverno e é quando nos damos conta de que está um frio do caraças.
A roupa não é de pano ou de fazenda; são camadas de pele que se vão sobrepondo, moldando o aspecto com que aparecemos junto dos outros e de nós mesmos.
O tempo é, de facto, "esse grande escultor", Yourcenar dixit.
Quando nos damos conta de que o tempo foi chegando, acrescentando novas camadas de tecidos adiposos e de pele mais flácida que dantes, achamos que ele nos está a fazer mal; mas não temos razão. E tentamos despir as camadas de pele, como quem se quer despir das memórias. Mas as memórias são precisamente aquilo que o tempo nos dá em troca das sucessivas camadas de pele que nos impõe. São as fatias da vida que já vivemos.
Essas já cá cantam; ninguém no-las pode tirar.
Às vezes penso que gostaria de traçar os mapas, datados, dos percursos de um amigo que já não via há anos e que venho a reencontrar; assim ficaria a saber o quão perto estivemos naquele dia, mas não nos cruzámos, e o quanto se afastaram nossos percursos noutras alturas. E tantos acontecimentos e vivências cada um viveu, com tantas outras pessoas cruzou intimidades, tantas coisas aconteceram sobre as pedras das ruas que pisamos... que será feito dele?
Depois percebemos que cada um está numa fase, num chão da sua vida.
Por mais que não coincidam esses chãos, ou mesmo impeçam o calor que, por momentos, se desejou, uma proximidade já esquecida pode acontecer.
E, se por acaso aconteceu, agora já cá canta e ninguém ma pode tirar.
E vamos continuando a traçar os nossos mapas...

Fumados e mal pagos

Penso que é por estarmos a viver neste clima de vidros meio fumados, de queijos meio curados, de meias tintas, de meios tons e meias verdades que estas coisas vão acontecendo e eu já não me consiga sequer espantar. Então não é que em pleno Dia Mundial Sem Tabaco ficamos a saber que a nova Lei Anti-Tabaco vai afinal ter as coimas atenuadas?! Quando se pensava que íamos ver uma perseguição violenta aos fumadores, o convite, quiçá, aos não fumadores para denunciarem algum fumador incauto, apanhado a fumar em local proibido, sem que a autoridade estivesse atenta, e outras medidas semelhantes --condizentes, aliás, com alguns sinais que o governo vem lançando de que quer taxar tudo o que mexa e tudo quer manter sob controlo...--, eis que assistimos, estupefactos, a este aliviar dos rizes!
Como temo de há muito que nos andam a querer tratar da saúde, ponho-me, desconfiado que sou, a pensar se o recuo não será antes o resultado da previsão de uma quebra substancial de receitas provenientes da venda do tabaco.

O tempo, esse grande escultor

Uma das minhas grandes referências literárias é Marguerite Yourcenar. Curiosamente não tanto pelo celebrado "Memórias de Adriano", mas mais pelo percurso desencantado do visionário de "A obra ao negro", ou a descrição do drama que é imposto por situações em que se cai malgré nous em "Golpe de misericórdia".
Mas tenho reflectido sobre o tempo, nos últimos tempos. Talvez porque o tempo para mim começa a contar e, consequentemente, dou por ele.
É por isso que partilho convosco a fala de Gherardo Perini traduzindo palavras do seu Mestre, Miguel Ângelo, que o conheceu em 1522 e por ele se apaixonou, retiradas de "O tempo, esse grande escultor" (ed. Difel, com magnífica tradução de Helena Vaz da Silva):
clicar nas imagens para as aumentar

2007/05/30

stand-up comedy

Todos os anos, por esta altura, chegam-nos os sinais que antecedem o Verão. 2007 não tem sido excepção. Aliado ao Verão e ao calor, temos a "silly season", uma época normalmente marcada por episódios caricatos e aos quais não se costuma dar muita importância. Este ano, porém, a "silly season" parece ter chegado mais cedo.
Começou com a anedota do ministro Lino, sobre o seu diploma de engenheiro, reconhecido pela respectiva Ordem; seguiu-se a entrevista do inefável Manuel Pinho, sobre 500 postos de trabalho que, apesar de terem desaparecido, já teriam sido criados anteriormente; voltou o ministro das obras públicas a reincidir, com o melhor "on liner" da semana sobre o deserto a Sul do Tejo; e, certamente inspirado por tantos "gags", Almeida Santos não resistiu a lembrar que um aeroporto a Sul do Tejo seria um alvo fácil para o terrorismo...
Estava eu ainda a recuperar desta verdadeira selecção de cromos quando, ao ligar a televisão, deparo com o candidato do PSD à Câmara de Lisboa em visita a uma unidade de pediatria da capital. Interrogado sobre as condições do estabelecimento de saúde (era esse o motivo da visita) Negrão respondeu que a situação era conhecida e não diferia muito de outras unidades semelhantes, para continuar: "mas já agora quero aproveitar para dizer que não compreendo porque é que o candidato do PS, ainda não falou se quer ou não o aeroporto da OTA" . O aeroporto da OTA? Numa visita à unidade de pediatria de um hospital? Mas, esta gente endoideceu? E os jornalistas? Ninguém que chamasse a atenção de Fernando Negrão para as perguntas que lhe tinham sido feitas sobre as condições de saúde que ele, supostamente, tinha ido averiguar?
Ou será que os políticos, invejosos do êxito dos "Gatos Fedorentos", querem criar o seu próprio programa de anedotas? É uma possibilidade. Quando terminarem a carreira, poderão sempre concorrer a um programa de "stand up". Por enquanto, o meu cómico favorito ainda continua a ser Lino. O maior. Não perco uma.

2007/05/25

Matar moscas com mísseis

Aqui há uns anos uma canção chamada "Tourada" venceu o Festival da Canção RTP. Estávamos em período pré-25 de Abril. A canção falava de peões de brega "cuja profissão não pega." Este verso motivou um comunicado irado de um até então desconhecido "Sindicato dos Toureiros". Num período em que os sindicatos eram calados à força, o comunicado deste "sindicato", com largas e conhecidas tradições na luta sindical (!), motivou ampla campanha e mereceu grande cobertura dos jornais. De tão ridícula a situação foi alvo, num primeiro tempo, de uma enorme chacota, para logo a seguir ter merecidamente caído num total esquecimento. Naquele tempo as pessoas estavam mesmo mais atentas e aparentavam ter uma maior noção do ridículo.
Não sei porquê, lembrei-me de tudo isto a propósito dos actuais casos das declarações do ministro Lino ou dos comentários do professor Charrua...
O certo é que enquanto a malta anda toda distraída com estas momentosas e graves questões e assiste à mobilização por parte dos partidos de toda a artilharia pesada de que dispõem para lidar com este assunto, o governo acaba de fazer aprovar, de forma discreta e invocando habilmente larga soma de motivos virtuosos, uma proposta para criação de uma base de dados de ADN. Que me lembre esta questão, gravíssima, não mereceu nunca qualquer espécie de debate, nem foi nunca discutida na imprensa.
Os portugueses conhecem hoje bem o deserto do Poceirão e o Charrua da DREN, mas desconhecem inteiramente as consequências que para si e para os seus descendentes pode ter este projecto da base de dados de ADN e os problemas que gerou noutros países. As seguradoras e as famacêuticas (como pagar os 719 milhões que o Estado lhes deve...?), essas, já devem estar, entretanto, a esfregar as mãos de contentes.
ADN... mmm, mas que raio é isso? Um novo partido? Uma marca de desodorizante? Ou será a sigla da empresa de desinfecção que nos vai livrar de toda a poluição social...?
Ó Mendes! Ó Sousa! Ó Chico! Tragam aí mais mísseis!!!

2007/05/24

jamais

Há ministros que, se não existissem, tinham de ser inventados. Por exemplo, Manuel Pinho, Isabel Pires de Lima, Jaime Silva e, tantos outros, também de outros governos, de quem já nem me lembro o nome...Mário Lino, pertence certamente a esta galeria de carácteres notáveis. Que seria do "Contra Informação" ou do "Inimigo Público", sem eles?
As últimas declarações do ministro das obras públicas, sobre a localização do novo aeroporto, são de espantar! Não sei se hei-de rir, se hei-de chorar...
Viajante assíduo de avião e, por isso, de aeroportos, fico sempre espantado com as opiniões definitivas dos nossos governantes sobre tal matéria: desde os delirantes louvores à Portela, que já não pode crescer para lado nenhum e representa um perigo acrescido em termos ambientais e acidentes aéreos imprevisíveis; até à OTA (custe o que custar) porque já não há tempo a perder (para quem?), todos os argumentos parecem válidos. No Sul, é que não! Porquê? Porque todos os especialistas (todos?) dizem que no Sul, "jamais" (em francês).
Ora, como sabemos, "jamais" em francês, tem muito mais força do que jamais (nunca, em tempo nenhum, principalmente), em português. É difícil combater este argumento linguístico.
E porque é que o aeroporto não pode ser a Sul do Tejo (quereria o ministro dizer Alentejo)?. Porque lá, nada medra. Veja-se a agricultura: não tiveram os alentejanos de vender os "montes" aos lisboetas e emigrar para Lisboa? Veja-se o Alqueva: não foi lá construído o maior lago artificial da Europa para regadio e afinal só lá andam barcos? Veja-se o porto de Sines: não é que, entretanto, acabaram os petroleiros de grande calado? Veja-se a base de Beja: então não é que só lá podem trabalhar chineses?. Aquela terra está amaldiçoada, Ali, nada dá. Nunca. "Jamais" (em francês).
Eu não sei se a OTA é pior ou melhor local para construir um aeroporto. O senso comum diz-me que não. Mas de uma coisa eu desconfio: é da pressa em construir o aeroporto na OTA. Hoje, até o presidente do partido no governo veio dizer que um aeroporto na margem Sul era um perigo, pois se os terroristas dinamitassem uma das pontes sobre o Tejo, o aeroporto ficava isolado do Mundo. Extraordinário!
Lê-se, ouve-se e não se acredita. Alguém era capaz de comprar um carro em segunda-mão a esta gente? Eu, jamais...

citação do dia

Com agradecimentos a A Causa Foi Modificada
«Se o PSD tivesse um mínimo de vergonha na cara e algum vestígio de respeito pelos eleitores de Lisboa que nele votaram nas passadas eleições, reuniria toda a direcção política para uma conferência de imprensa às oito da noite, e anunciaria a decisão de se abster de apresentar um candidato às próximas eleições autárquicas, pedia desculpas aos lisboetas pelo sucedido nos últimos não sei bem quantos anos e prometia gastar os próximos a pensar numa estratégia e num candidato de qualidade para Lisboa.»

2007/05/23

Espantosa Itália

Espantosa Itália, sempre no limiar da ingovernabilidade, porém sempre recomposta. Universo político de que não estão nunca ausentes jogos florentinos de poder com tons de "commedia dell'arte". É a Itália que se traduz muitas vezes ainda na expressiva fórmula do velho dirigente socialista Pietro Nenni (1891-1980) : país onde "tutto vive, niente funziona". Ora, nesta espantosa e única Itália, o "Partito Democratico" em constituição, no qual convergem personalidades do centro-direita e do centro-esquerda, toma como modelo o partido homónimo estado-unidense e pretende-se de inspiração kennedyana (seja lá o que isso for nos dias de hoje...). E o comité constituinte, que conduzirá este embrião de partido até 14 de Outubro, data da realização da assembleia contituinte, integra nada mais nada menos que 45 membros. É já apelidado, pois, de "il comitatone". Pressagiam algumas más- línguas, como o mordaz humorista Michele Serra, do "La Repubblica", que o primeiro congresso da novel organização será - evidentemente - o da respectiva dissolução. Veremos ("staremo a vedere") ...

os pequenos sinais

O processo disciplinar recentemente imposto a um professor, por alegada anedota sobre o primeiro-ministro, é em si uma anedota, mas revela outra coisa mais grave: a intolerância persecutória de uma coordenadora do ensino, no seguimento de uma denúncia, à boa maneira dos "bufos" do antigo regime.
Não devemos admirar-nos. Depois da proposta-lei, sobre avaliações na função pública, que aceita denúncias de mau desempenho, como critério de avaliação, tudo pode acontecer. A começar pela denúncia dos colegas que querem ver-se livres dos competidores mais competentes na sua área. Sei do que falo e por isso o denuncio.
Curioso (ou talvez não) é estas leis serem propostas pelo Partido Socialista. Não é a primeira vez e, creio, não será a última. Começou, ainda num passado não muito distante, por uma proposta da (então) deputada Jamila Madeira que sugeria a criação de um bilhete de identidade que incluisse dados do ADN do portador (tão nova e já tão perversa!). Seguiu-se a famigerada "Lei de Escutas", proposta por António Costa que (oh, ironia do destino!) lhe havia de cair em cima. Já mais recentemente, a criação do "Cartão Único" (5 em 1), apresentado pelo "iluminado Sócrates", como o suprasumo do facilitismo tecnológico. A recente lei de avaliação da função pública é, até ver, a "cereja em cima do bolo".
No campo cultural, a "coisa" fia mais fino, mas o dirigismo e o provincianismo estão lá também: nomeação de Carlos Fragateiro para o D. Maria II, despedimento de Pinamonti no S. Carlos, compra em "comodato" (gosto desta palavra) da mais do que discutível colecção do "comendador" Berardo, que será sempre o seu dono e ainda receberá dinheiro do MC para actualizá-la, etc...
São pequenos sinais e, provavelmente, apenas coincidências. Mas como eu não acredito em bruxas, há que estar atento. Como dizia o poeta russo: "ontem foram os comunistas, hoje os estrangeiros, amanhã serás tu. Nessa altura, será tarde, pois ninguém te ajudará".

Novo tipo de roubo


Está em preparação, segundo dizem os jornais hoje, um novo tipo de roubo nas caixas multibanco. Desta feita, porém, em vez da habitual ameaça com a seringa ou da extracção da caixa de multibanco com um tractor, o método e o autor são diferentes. Agora são os próprios bancos que pretendem cobrar operações que são executadas pelos seus clientes, usando uma rede --que é propriedade de um consórcio que envolve todos os bancos--, criada como alternativa aos dispendiosos balcões. Em vez de uma agência, com funcionários, mobiliário, equipamento, papel, etc, somos brindados com um PC ligado em rede, à chuva ou ao sol, sem interior design, nem uma plantinha para decoração. E este PC que nos colocam à disposição nem sequer dá para jogar um Solitaire enquanto trabalhamos...
Podemos facilmente imaginar que, se esta rede não existisse, os bancos se veriam forçados a admitir os funcionários necessários para levar a cabo essas operações que agora somos nós que executamos, a dar-lhes formação e a aumentar as suas infraestruturas proporcionalmente.
Não quero acreditar que isto seja verdade, mas se for vou voltar ao cheque, ao talão de depósito, etc. E vou voltar a frequentar novamente os bancos por dá cá aquela palha, podem disso ter a certeza. Ah! e se algum funcionário me quiser vir explicar como posso executar a mesma operação no multibanco peço o Livro de Reclamações!
Resta saber o que pensa sobre tudo isto o senhor primeiro ministro, que se mostrou no passado tão sensível em relação a estas questões do direito dos consumidores...

2007/05/16

Lusofonias

Uma das palavras mais fascinantes do vocabulário recente do país é a palavra "lusofonia". Por dá cá aquela palha lá vem ela. Ele é o Encontro das universidades lusófonas que vai ser promovido em Cabo Verde, ele é a Cena Lusófona que aparenta estar a perder as pilhas, ele foi uma recente Primeira Bienal da Lusofonia organizada pela Malaposta. Enfim, a "lusofonia" é palavra que se ouve e é conceito, aparentemente, celebrado todos os dias, de uma forma ou de outra.
Digo aparentemente porque, vistas todas estas iniciativas, ficamos com a sensação que "lusofonia" não passa de um chavão, sem outro objectivo que não seja o de promover umas reuniõezecas inócuas. Ficamos muitas vezes persuadidos que ninguém quer, de facto, fazer nada para tornar a Lusofonia uma realidade, e que, pelo contrário, se procura projectar esta imagem de criança hiperactiva para que as coisas fiquem sempre, assim, num limbo calmo, caloroso e conveniente. (O "limbo" foi oficialmente extinto, eu sei... Mas, como diria um grande pensador do futebol português, "vocês sabem do que estou a falar...").
Lusofonia arrisca-se a ser um daqueles conceitos relativamente ao qual se pode aplicar aquele célebre comentário de Gandhi a propósito da civilização ocidental: "era uma boa ideia!"
Banalizado, esvaziado de conteúdo e, sobretudo, destituído de um suporte sério, político e financeiro, a Lusofonia parece, por vezes, mais um pretexto para uns quantos amigalhaços irem comendo umas "cachupas" ou umas "moambas" juntos do que um conceito mobilizador e útil para todos os povos que integram este espaço.
A menos que... Bom, a menos que um desses novos países de expressão oficial portuguesa tome a iniciativa e lance verdadeiramente mãos à obra! Ou que esses novos países decidam definitivamente habitar uma outra língua e nos deixem a falar sózinhos...

2007/05/13

Rigor e vulnerabilidade

A utilização dos computadores veio revolucionar o nosso quotidiano, mas, ao mesmo tempo, veio trazer também muitos motivos de ansiedade. Eu, pelo menos, fico exasperado com o "modo de pensar" dos computadores e com algumas exigências dos seus procedimentos e detecto isso nalguns utilizadores que observo.
Há duas causas para esta reacção.
Por um lado, os computadores e respectivos softwares revelam uma total intolerância em relação aos erros e às imprecisões. Escrever "faceocultadaterra.blogspot.com" para aceder a este blogue não é, nem de perto nem de longe, o mesmo que escrever "faceoclutadaterra.blogspot.com". O erro, que para nós seria facilmente ultrapassável, constitui para um computador e para os softwares que o governam uma barreira intransponível. "Blog does not exist!" declara peremptório! Pior ainda: imaginamos que o computador e os seus softwares "aprendem" o nome mil vezes escrito e que basta escrever "face" para ele automaticamente aceder ao endereço correcto. É verdade. Mas, o endereço incorrecto também ficou guardado na "memória" da criatura e lá voltamos nós, sem apelo, ao erro, à crescente frustração e à ansiedade.
Por outro lado, este universo das redes de computadores é o das identidades secretas, dos "usernames", das "passwords", dos "perfis", das privacidades e dos códigos secretos! Sem estabelecermos um perfil, sem criarmos um username e uma password adequada, este universo está-nos completamente vedado. A imprecisão na inserção dos "usernames" e das "passwords", então essa é fatal: Access denied! Operation timed out! Connection cancelled! Contact the webmaster! Process terminated!, sentencia sem piedade...
Se pensarmos nisto como uma forma de preservar a nossa identidade neste frágil universo digital e de estarmos defendidos, a ideia parece reconfortante. Porém, todos os indícios parecem mostrar que nunca estivemos tão expostos e que nunca fomos tão vulneráveis. Todo o código é decifrável, não há passwords invioláveis e não estamos digitalmente seguros em lado nenhum. Aqui andamos todos nus. A nossa persona electrónica, o nosso íntimo digital, todos os nossos dados circulam por aí, neste grande caldeirão que é a internet, ao alcance de todos.
Não se trata de dar voz a nenhum alarmismo, daqueles que os jornais gostam muito de escarrapachar nas primeiras páginas. Nada disso! Até porque nós temos sempre, de facto, a possibilidade de criar uma identidade digital com um raio de acção curto... O que quero dizer é que existem inúmeros alçapões e corredores secretos e que, em consequência, o assédio nunca foi tão fácil (pensem, por exemplo, nas toneladas de junk mail que todos os dias recebemos, até aqui no endereço do Face...). Este assédio só é possível porque invadir os terrenos da nossa privacidade digital é, efectivamente, canja.
Por um lado, portanto, estamos presos nesta teia digital e nela temos de adoptar um comportamento rigoroso senão não somos ninguém. Por outro lado, todo o fruto deste nosso rigor anda por aí, à solta, e é de quem o apanhar...

2007/05/10

Mais do mesmo?

A actual governação da Câmara Muncipal de Lisboa foi, finalmente, dissolvida. Uma boa notícia. Também foram anunciadas as eleições intercalares, que terão de decorrer no prazo de sessenta dias. Até aqui tudo bem.
Curiosamente - ou talvez não - os primeiros candidatos a apresentarem a sua disponibilidade, foram dois "independentes" (o que quer que isso signifique): Carmona Rodrigues, o engenheiro destituido e Helena Roseta, a arquitecta demissionária. Uma confirmação e uma surpresa. Nenhum deles parece ser um "peso pesado" e, sem os aparelhos partidários a apoiá-los, dificilmente conseguirão atingir os seus objectivos. Os partidos de "esquerda" irão, ao que tudo indica, separados e, os da "direita", também. Se, aos nomes conhecidos (Rúben de Carvalho pelo PCP e José Sá Fernandes pelo BE) juntarmos o dos candidatos do PS e do PSD (por anunciar) são já seis os potenciais candidatos. Ainda falta um candidato do CDS e já é conhecida a vontade de Fontão de Carvalho (ex-vereador) e de Manuel Monteiro (PND) em participar no escrutínio. E vão nove! Daqui até ao fim do prazo, para apresentar as candidaturas, mais candidatos reais ou virtuais vão aparecer. É bom haver tanta escolha. Não nos parece que algum deles tenha qualquer hipótese. Quando aparecerem os nomes dos partidos maiores (PS e PSD) perceberemos melhor quem tem mais possibilidades. O problema é que são estes partidos os principais culpados da "bagunça" em que se tornou Lisboa. Os lisboetas têm aqui uma boa oportunidade de inverter o rumo das coisas. Caso isso não aconteça, arriscamo-nos a ter mais do mesmo na martirizada capital do país.

Fait-divers antixenófobo

Vá lá mais uma pequena achega contra a xenofobia, suscitada por um brevíssimo diálogo ao balcão nesta Lisboa que está a ser de novo a "das muitas e desvairadas gentes". A empregada brasileira, ainda jovem, em comentário às trivialidades sobre os caprichos do tempo, afirmou que o clima já não era como antigamente, pois passámos em escassos dias do Inverno para o Verão, sem experimentar a Primavera. Achei delicioso este "já não é como antigamente", proferido com a naturalidade de quem se sente de aqui, como se aqui tivesse nascido ou aqui vivesse há longos anos. E isto fez-me sorrir e sentir como esta terra pode e deve acolher mais imigrantes (criando condições dignas para tal, evidentemente), em reforço da ideia que a miscigenação, a mestiçagem foi e continuará a ser um dos trunfos genéticos - muitas vezes esquecido - deste país . Bem-vindos, pois! Quanto a essa rapaziada que por aí anda com ideias rapadas e cruz gamada tatuada no corpo e no paupérrimo espírito, boa viagem até, por exemplo, à Antárctida, sem ofensa para os que lá trabalham sazonalmente e para os animais que lá vivem...

2007/05/04

Câmara Obscura

O folhetim da Câmara Municipal de Lisboa tornou-se a nova novela da política portuguesa. Na boa tradição dos seriados brasileiros, fica sempre algo por esclarecer de episódio para episódio. Há que manter o "suspense", para prender o espectador aos telejornais. Estes, como sabemos, podem ser diários, de hora a hora ou (se a notícia assim o exige) de "última hora". Qual será o desfecho, amanhã? Teremos novo anúncio de Carmona, agora demitindo-se de vez? Ou teremos mais manifestações de solidariedade para com um presidente que perdeu a confiança política do partido que o apoiou? Haverá eleições? Daqui a quarenta ou a sessenta dias? Quem são os candidatos? Os mesmos de sempre, ou outros, "independentes" e "novinhos" em folha? Perguntas cruciais, como se percebe, agora que alguns dos casos mais mediáticos dos últimos meses vão perdendo a actualidade. Já que não há "notícias boas", ao menos que haja "más notícias". Infelizmente, a questão da CML não se reduz a Carmona ser pouco hábil ou não. Já toda a gente percebeu que não é. Será, quanto muito, um homem sério e um bom engenheiro, o que já não é pouco. Mas, a questão principal, não reside no homem. Vem de longe e tem fama como o célebre "brandy". Há quantos anos é que Lisboa não é bem governada? Esta é a questão e por alguma razão o passivo da Câmara ultrapassa hoje o milhão de euros... Também por isso (mas não só) os partidos da oposição não desejam eleições. Eles sabem (melhor o PS e o PCP) que o problema não é o actual presidente da Câmara. Ele é apenas a face de um "sistema" que elimina liminarmente todos aqueles que não jogam a seu favor. Que os lisboetas sejam também utilizados neste jogo sujo, é deplorável. Que mais iremos ouvir nos próximos dias? A seguir com atenção, como todas as novelas...

2007/05/03

Campeonato Nacional da Língua Portuguesa (CNLP) e barbaridades

O CNLP é uma organização lúdico-cultural que se inspira numa boa causa e apresenta inegáveis méritos. Porém, não podem nem devem ser escamoteados os aspectos negativos que tem revelado e que haverá todo o interesse em eliminar em futuras edições. Por exemplo : 1 . O carácter altamente polémico do critério de correcção de algumas questões dos testes de qualificação. 2. A existência de erros de português na redacção do articulado do próprio regulamento do concurso. Estes foram entretanto corrigidos na quase totalidade, após alerta lançado por alguns concorrentes. 3 . As falhas, silabadas, erros cometidos na última fase da final - a das perguntas-respostas orais - por parte da apresentadora (cuja telegenia e esforço de bem fazer as coisas são inquestionáveis, mas insuficientes). 4 . Questionários também eles inquinados e, por conseguinte, geradores de confusão para os concorrentes, agravando assim as derrapagens da apresentadora. Ora, tudo isto denota uma certa superficialidade na elaboração das provas e no respectivo controlo, que não se coaduna com a pomposidade de que esta competição faz alarde. Onde acaba o desleixo e começa a incompetência ? Quero agora referir tão-só dois exemplos, entre vários outros significativos, que se impõem por escandalosos e, creio, com influência no resultado final do recente CNLP : 1.º Foi perguntado a um dos concorrentes seniores qual a função sintáctica de "amor eterno" na frase "os namorados (ou os apaixonados) prometeram-se amor eterno". O concorrente respondeu, e bem, "complemento directo", mas a resposta considerada correcta era..."complemento indirecto"(!). 2.º A concorrente sénior vencedora respondeu erradamente a uma das últimas perguntas. O termo era "inconsútil", que significa "sem costuras". Pois bem, quer a resposta dada quer a "oficial" apontaram para "sem consumo"(!). É, pois, de todo desejável que esta competição não se deixe subjugar por vícios decorrentes do seu formato demasiado tributário da lógica mediática imperante - a da espectacularidade , com os seus corolários de frivolidade e laxismo -, em prejuízo do rigor e da profundidade que a matéria em causa merece e exige.

2007/04/30

Um quadradinho de verde na aldeia de Telheiras

Ana Contumélias participou activamente numa experiência de intervenção cívica no bairro de Telheiras e resolveu, como ela escreve, contar a história. A coisa meteu a Associação de Residentes local (ART), a Escola, a Associação de Pais, o Jornal de Telheiras, instituições nas quais umas dezenas de moradores procuraram obter força para um seu projecto. Consistia tal projecto em «implementar, no bairro de Telheiras, em Lisboa, um clube de jardineiros/horticultores, com terreno suficiente para plantarem flores, vegetais, plantas diversas. Também para produzirem comunidade e estruturarem sociabilidades, afectos, convívios».
Dinamizadora desse grupo (segundo outros intervenientes na sessão de lançamento, nunca a ART teve tanto dinamismo como quando ela foi sua presidente), a autora, sendo socióloga, foi levada a interessar-se também pelo «significado sociológico do caso e a agir como investigadora».
O «objectivo de estudo que deu origem a este livro» foi «perceber de que forma uma acção colectiva, baseada num entendimento partilhado sobre o uso de uma parcela de território de um bairro -- no caso concreto, o bairro de Telheiras, em Lisboa -- pode ser entendida como uma aprendizagem ambiental».
Este livro situa-se definitivamente de fora da mainstream das cabeças pensantes e dos opinion makers, a qual se pauta pela realpolitik: «É no quadro de uma teoria da acção e do sujeito permitindo a utopia pragmática, o realismo utópico, que este trabalho académico se filia». "Fora de moda", como se vê, o que interessa a Ana Contumélias é saber «em que medida vivências ligadas ao território geram e activam identidades colectivas locais (...) resultantes do sentido de pertença, construídas através da apropriação quotidiana da cidade, do bairro, da praça ou do jardim». Há a consciência de que estamos «num tempo em que aprendemos a desconfiar das Grandes Utopias (...) mas se pressente que os espaços locais podem ser o lugar certo para o germinar das pequenas, mas mobilizadoras utopias».
A utopia confrontou-se com a realidade dos poderes e da burocracia. Tenho a convicção de que um dia «a noção de humanidade como um todo ganhará nova acuidade e sentido» e «o civismo tornar-se-á fundamentalmente um civismo ecológico»; mas eu vou esperar sentado, para não me cansar muito. É que estou convencido de que gestos como estes estão bem à frente do seu tempo.
Os habitantes mais antigos de Telheiras ainda dizem "vou a Lisboa", quando se deslocam ao centro da cidade e as dezenas de pessoas que se inscreveram como desejando ser jardineiros/horticultores ainda lá moram, em Telheiras.
Também ainda lá está, sem que a comunidade o utilize, o quadradinho verde, terreno passível de ser utilizado pelos "jardineiros/moradores de Telheiras". Surpresa seria se um dia eles ganhassem o direito de ali fazer hortas. A lógica de desenvolvimento da cidade é a do negócio imobiliário que não se compadece com utopias.
No entanto, como dizia Sartre em Maio de 1968 e Ana cita, é preciso "alargar o campo do possível"; estas acções, se outro efeito não tiverem, terão certamente o da experiência de intervenção cívica que conferem aos intervenientes.
Um dia iremos acordar ajoujados ao peso de uma cidade inumana em que nos habituámos a viver, e vamos querer vizinhos, e amigos, e fruição, e convívio; e exigiremos intervalos na sucessão de prédios para podermos cultivar as nossas hortas. Só nessa altura estaremos à altura de ser verdadeiros jardineiros ou horticultores.
A parte mesmo boa deste caso é o conforto que podemos retirar de saber que ainda existem pessoas como Ana Contumélias; pessoas com quem o futuro é possível.

Um quadradinho de verde na aldeia de Telheiras, de Ana Contumélias, Plátano Editora