2009/05/14

Turista Acidental

Na visita que, por estes dias, Cavaco Silva faz por terras turcas, todos os dias há discursos e declarações avulso. Por exemplo: "A Turquia faz falta à Europa, como a Europa é necessária à Turquia", ou "Portugal teve de esperar sete anos para entrar para a Europa", ou esta, a lembrar o inesquecível Tomaz, "É a segunda vez que aqui estou. Estive aqui, neste mesmo lugar, há seis anos. Da outra vez não tirei fotografias, agora vou fixar o momento". A mais citada, do guia explicando porque é que as mulheres têm de ficar atrás dos homens nas orações, também é boa: "As mulheres à frente, como têm de pôr a cabeça no chão, podiam atrapalhar os homens" (?!). Claro que não há discriminação das mulheres na Turquia moderna, apressa-se a esclarecer o tradutor. Cavaco e a esposa acenam afirmativamente.
Sabemos todos que este tipo de visitas, acompanhadas de dezenas de empresários portugueses (sempre os mesmos) não se destinam a discutir nada de essencial, para além dos negócios e do óbvio.
Pesem as boas intenções e troca de gentilezas - A Turquia deve entrar na Europa - não ocorreu a Cavaco que algumas das razões pelas quais a Turquia ainda não entrou na UE (e já está à espera há mais de sete anos) tem exactamente a ver com coisas tão óbvias como: pertencer à Ásia, a maioria da população ser muçulmana, não respeitar os direitos das minorias curdas, manter ocupada parte da ilha de Chipre, ser uma democracia musculada onde o exército tem a última palavra e, dada a religião dominante (o Islão), ainda manter as mulheres em segunda fila, nas mesquitas e não só...
Porque Portugal está num extremo da Europa e não tem problemas fronteiriços ou outros (imigração, por exemplo) com a Turquia, não custa nada fazer declarações inóquas. Não é esta a opinião de Merkel e Sarkozy que já declararam alto e bom som que não querem a Turquia na União Europeia. Como são eles quem (ainda) manda nesta Europa, bem pode o nosso presidente continuar a tirar fotografias ao Bósforo.

2009/05/13

A diferença

Paul Krugman, o Nobel da economia, diz que a recessão que vivemos não é como as outras e que as medidas que têm estado a ser implementadas pelos governos e investidores são desadequadas. De facto, ou é do meu ouvido, ou aquilo que mais se ouve hoje para os lados do poder, é um enorme coro de assobios para o lado. A crise existe e manifesta-se diariamente, assumindo as formas mais variadas e violentas. Afecta tudo e todos, mas o que observamos no meio do drama social real que vivemos é um empenho de plástico para disfarçar a indiferença. No fundo, os velhos hábitos, as velhas taxonomias sociais, a arrogância e o exercício pecaminoso da hipocrisia continuam a prevalecer. E as crises, sabemo-lo bem, até dão jeito.
O que é que originará então a diferença notada agora por Krueger nesta recessão?
No Brave New World, a personagem Lenina lembra-se de ter um dia acordado subitamente e de ter dado conta do murmúrio constante que condicionava todo os seus sonos. Recordava a voz suave que repetia incessantemente "Todos trabalham para todos os outros! Não sobrevivemos sem os outros! Até os Épsilons são úteis! Não sobreviveríamos sem os Épsilons!" E o tom calmante dessa voz conduzia-a de novo ao sono.
"Suponho que os Épsilons não se sentem verdadeiramente mal por serem Épsilons?" perguntava então Lenina a Henry. "Claro que não!" retorquia Henry. "Como seria isso possível? Eles não sabem o que é ser outra coisa."
A diferença talvez resida no facto de agora, depois de ter tido que pagar os desmandos dos Alfas e dos Betas e de ter perdido o seu emprego, agora até o Épsilon mais Épsilon sabe.

2009/05/12

A miopia

A Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO) alerta para a possibilidade de o Magalhães poder vir a fazer disparar os casos de miopia. O tamanho do portátil e o das letras obrigam as crianças a uma leitura "muito próxima", alegam os especialistas.
A leitura mais próxima que podemos fazer é a de que está enganada a SPO. A miopia já era um verdadeiro problema de saúde pública em Portugal, antes do Magalhães entrar em cena. O próprio Magalhães é a prova disso.
Tremo agora só de pensar o que pode vir a ser a "geração magalhães" daqui a vinte ou trinta anos. Imaginem uma versão míope da "geração rasca", prima afastada da "geração dos 500", filha dos pais do Magalhães...

A Europa deles

De acordo com as mais recentes sondagens, 60% dos portugueses não pensa votar nas próximas eleições europeias de Junho. Interrogados sobre a razão da sua abstenção, 37% responderam que as eleições europeias não têm interesse. Na Europa, propriamente dita, a percentagem de abstenções não difere muito da portuguesa e esse é um motivo que devia preocupar os eurocratas que nos representam. Lamenta-se, mas percebe-se.
Quem ontem viu o "debate televisivo a 13", onde pela primeira vez puderam estar presentes todos os candidatos partidários registados, pode perceber a razão deste desinteresse. Para os partidos maioritários (PS e PSD) a Europa é uma questão tão "evidente" que já não merece discussão. Para quê referendar o Tratado de Lisboa se o "povo" não o entende? Para quê referendos, se Portugal nunca referendou nenhuma Constituição ou Tratado na história da União?...
Moreira, o vital pavão socrático, chegou ao ridículo de dizer que os portugueses nunca foram chamados a referendar nenhum dos grandes momentos da sua história; desde o 25 de Abril (!?) à Independência...Estaria ele a referir-se a 1143? Porquê, esta obsessão com o referendo, agora? Não ocorreu ao constitucionalista de Coimbra que a Constituição Portuguesa foi modificada de forma a permitir tal referendo e, mais importante ainda, que este foi uma promessa eleitoral do partido que Vital representa na Europa? A arrogância e o desplante dos "partidos do centro" (em Portugal, como no hemiciclo europeu) face às exigências e direitos democráticos das populações que supostamente representam e são frequentemente silenciadas, não têm limites. Quando, algum dos países membros não respeita o "guião" do politicamente correcto - caso da Holanda e da França em 2005 e da Irlanda em 2007 - aqui d'el rei que a União está em perigo! Nessa altura não se poupam esforços para trazer a "ovelha tresmalhada" para o rebanho. A Irlanda votará quantas vezes for necessária até que o "sim" à Europa seja obtido. Bonita democracia, esta!
Se alguma coisa o debate de ontem provou, pesem os esforços manipuladores da apresentadora mais interessada em dar a palavra aos grandes partidos, foi a recusa dos restantes onze candidatos em participar na farsa europeia proposta pelo PS e pelo PSD. A Europa que os grandes partidos querem não é, de certeza, a dos cidadãos. Resta, agora, aguardar o dia da votação para confirmar se a penalização do "bloco central" é uma mera especulação, ou se confirma o desencanto geral.

2009/05/08

Lealdade e apoio

Basílio Horta, o circunspecto e respeitável presidente da API e o homem a cujos calcanhares Paulo Rangel não chega --a não ser que se deixe seduzir pela campanha de promoção do produto que a Maizena entendeu aproveitar para fazer-- já veio agradecer a "lealdade e o apoio" dados pelo ministro Pinho.
A Maizena, segundo se diz, pensa já lançar dois novos produtos no mercado: a Maizena Lealdade, para crianças difíceis, e a Maizena Apoio para crianças carenciadas...
Entretanto, a famosa marca Dr. Scholl's vai lançar uma linha de produtos para calcanhares, em complemento dos conhecidos produtos para o cuidado dos pés... Aguarda-se com ansiedade um produto desta nova linha, feito a partir de chá mexido com colher de prata...
É o regresso do comércio tradicional & dos produtos da nossa infância!

2009/05/07

A CIP quer-se fazer ouvir

O presidente da CIP defende uma coligação. É uma das "medidas" preconizadas para vencer a "crise" e faz parte de um conjunto que consta de um documento apresentado publicamente hoje que vai ser posteriormente entregue ao governo.
Para justificar a coligação, Van Zeller diz estarmos perante uma posição de "abuso de posição dominante" por parte do governo da maioria. Bloco central, ou outra qualquer solução, apressa-se a esclarecer, para dissipar dúvidas osbre se está ou não a fazer política. Porque a CIP, alerta, não é um orgão político... Sabendo que defendeu recentemente uma solução de bloco central e tendo em conta que, como ele diz, "talvez uma coligação transmitisse melhor as nossas preocupações e talvez nos fizéssemos ouvir melhor", é fácil perceber que tipo de coligação o presidente da CIP tem em mente.
Não está certamente a defender uma coligação PS-Verdes...
Ou seja, contra uma solução governativa a solo, prepotente, a CIP vê com bons olhos uma outra solução governativa baseada na mesma maioria abusadora, que agora nos governa, retocada por uma minoria totalmente incompetente, inoperante, que falhou totalmente o simples exercício do seu papel como oposição.
Aqui está o melhor que os capitães da indústria portuguesa conseguem produzir para melhor se fazerem ouvir. É aliás um belo enquadramento para o resto das sessenta propostas da CIP e revela a sua visão e noção de responsabilidade social.
E a avaliar pelo ar solene e pomposo da apresentação, pretendem ser levados a sério...

2009/05/06

Duas Cruzes

Dias Loureiro, esse grande amnésico compulsivo, acaba de acrescentar mais uma metáfora ao seu discurso hiperbólico. Já era dele o célebre "pai, sou ministro!"; mas recentemente tornou-se célebre por ter declarado que "não se lembrava do que assinava". Ontem, acrescentou que assinava de "cruz" os negócios do BPN. Lê-se e não se acredita!
Com tantas "one-liners" arrrisca-se mesmo a tornar-se um clássico e, pior do que isso, criar jurisprudência: a partir de agora, todo o alegado criminoso (independentemente da cor do colarinho) pode dizer que não se lembra. Quem é que vai condenar um amnésico?
Quando o oiço falar lembra-me sempre uma história que me contaram em Itália: certo dia um siciliano dirige-se ao notário para fazer uma escritura e, quando chega a hora de assinar, declara que não sabe escrever. O notário sossega-o e diz-lhe para fazer uma "cruz", que é suficiente. O homem concorda e faz duas "cruzes". Mas, porquê duas, pergunta o notário? O homem sorri e diz: "dottore!...".

2009/05/05

Chá, Maizena e calcanhares

Alguém deveria explicar ao dr. Manuel Pinho que não fica bem a um Ministro da República dizer de um deputado da Assembleia da República que este tem de comer "muita papa Maizena" para chegar aos calcanhares de um alto funcionário do Estado Português. A papa Maizena não será bitola apropriada para ser usada em comparações entre figuras de Estado, por uma outra alta figura do Estado.
O chá sim! O chá é um instrumento legítimo para estabelecer comparações. É perfeitamente possível, por exemplo, detectar a presença ou ausência desta substância numa tentativa de escalada rumo ao cume do calcanhar alheio.
No caso vertente verifica-se que, em matéria de chá, os calcanhares do ministro Pinho são de Aquiles...

O Bloco Central de Interesses

Anda para aí uma grande excitação a propósito das últimas declarações de Jorge Sampaio por este ter sugerido a criação de uma coligação dos partidos do "centro", única forma (segundo ele) de garantir alguma estabilidade governamental e para ver se "saimos disto" - sendo "isto" a situação a que Portugal chegou, depois de anos de desgoverno dos partidos que governaram ao "centro".
A mensagem (subliminar) de Sampaio vem no seguimento de outras opiniões no mesmo sentido (Van Zeller, Belmiro de Azevedo, António Mexia, Mário Soares) e circula entre diversos "capitães da industria" e banqueiros falidos do "sistema".
Curiosamente, ou talvez não, quem de imediato recusou tal coligação (o chamado "bloco central") foram os partidos do "centro", pondo de parte a ideia, remota que fosse, de alianças interpartidárias.
Compreende-se: para o PS, só interessa a maioria absoluta, única forma de continuar a legislatura vigente; para o PSD, só interessa opôr-se ao actual governo, única forma de capitalizar a insatisfação crescente na sociedade portuguesa.
Não será, pois, de esperar qualquer modificação nas estratégias de ambos os partidos até às eleições.
Acontece que entre as estratégias partidárias e a realidade eleitoral, vai uma grande distância. A acreditar nas sondagens que de há um ano a esta parte têm vindo a ser publicadas (nomeadamente as da Universidade Católica, tidas como as mais fiáveis) tudo aponta para uma vitória do PS, mas sem maioria absoluta. Neste cenário, resta ao PS governar em minoria (a exemplo do que fez Guterres entre 1995 e 1999), governar através de acordos pontuais (como tentou Guterres entre 1999 e 2001) ou coligar-se à esquerda (com o BE, por exemplo), cenário que está longe de ser consensual.
Numa situação de maioria relativa do Partido Socialista e uma subida acentuada do PCP e do BE, não faltará quem advoge um governo abrangente de esquerda. Isso seria natural se o PS fosse de esquerda o que, manifestamente com Sócrates, há muito deixou de ser. Não é de excluir a ideia de um afastamento de Sócrates (por iniciativa própria, ou por pressão interna) para facilitar uma maior convergência à esquerda. Mas, o mais natural é - com Sócrates ou sem ele - que o PS seja pressionado pelo Presidente da República a coligar-se à direita. Nessa altura, o parceiro menos natural será o CDS-PP, aparentemente em queda eleitoral. Resta, pois, o PSD, eventualmente com melhor votação do que hoje muitos vaticinam.
É aqui que as declarações de Sampaio, podem ganhar actualidade. Apesar de todos dizerem que não desejam o "bloco central", os interesses do "sistema" acabarão por prevalecer numa sociedade pouca dada a mudanças e conservadora por natureza. É um pouco como a história do lobo: de tanto gritar por ele, quando vier ninguém acreditará...

2009/05/02

Europeus

A pouco mais de um mês das eleições europeias, o interesse pela Europa é preocupante. A acreditar nas primeiras sondagens, entretanto saídas em diversos orgãos de comunicação social, a maioria da população não pensa sequer votar! Paradoxalmente, os cabeças de lista mais conhecidos, são aqueles que têm menos votos em termos partidários. Há aqui uma contradição aparente que não parece muito lógica...
Pior, nos painéis do partido que diz que nós "somos" europeus, uma das mensagens está incorrecta. Mostra Mário Soares a assinar a adesão, à então CEE, a 12 de Junho de 1986. A data certa é 12 de Junho de 1985!
Com "europeus" destes, não vamos a lado nenhum...

2009/05/01

O 1º de Maio

Enquanto a taxa de desemprego ronda os 9% e ameaça, como alguns analistas prevêem, alcançar os dois dígitos; enquanto a percentagem do PIB que representa o trabalho desceu para os ca. 30%, depois de já ter estado nos ca. 60%, o grande tema de conversa deste 1º de Maio foi... Vital Moreira!
Abriu todos os telejornais, confessou ufano que já tem a "sua Marinha Grande" e disse que a sua preocupação é elevar o nível do debate democrático.
Graças a ele, o debate já está nos píncaros...

2009/04/30

Justiça e injustiça

As palavras de D. Januário Torgal Ferreira sobre a questão da justiça em Portugal fazem todo o sentido. A voz do bispo das Forças Armadas é corajosa, diria mesmo demolidora, e reflecte a avaliação que todos fazemos desta área chave da vida do País.
Só um tolo poderá pensar o contrário. Pena é que os vários agentes da justiça não aproveitem o mote dado pelo bispo para fazer uma acto de contrição perante o povo português pela modo, de facto, vergonhoso como este sector da vida nacional funciona.
Estas palavras mereceram reparos. Alguns desses agentes da justiça tentaram retirar-lhes a carga dramática que efectivamente têm, acusando-as de serem demasiado generalistas e declarando, de forma pueril, que não se sentem atingidos por elas. Pudera!
Se algum reparo há a fazer às palavras de D. Januário é o de que elas pecam por defeito. Há, de facto, um problema de justiça em Portugal. Mas, há sobretudo, um problema de injustiça. A sociedade portuguesa é injusta nos seus desequilíbrios e nas suas profundas desigualdades. É injusta na hipocrisia das suas alegações declaradas. É injusta na arrogância da sua indiferença. Velhos problemas que ficaram de fora do novo "mapa judiciário", mas que estão exemplarmente reflectidos no novo código de custas...
Será que, como prelado, D. Januário quis lembrar que, se bem que a justiça dos homens possa estar a falhar, a injustiça tem sempre o recurso supremo para a justiça divina. Que por vezes segue linhas tortuosas, como sabemos...

2009/04/29

A gripe da economia

Não tenho nada contra nenhum economista ou gestor em particular, mas tenho tudo contra os economistas e gestores em geral. Quando os ouço a fazer previsões, então, dá-me logo vontade de puxar do revólver!
Ouvi-los debitar diariamente banalidade atrás de banalidade, com aquele ar irritante de quem sabe algo que a gente não sabe é coisa que me deixa doente.
Já estou como o outro, read my lips: as "previsões", interpretações e explicações para a "crise" que se vão descobrindo por aí têm um denominador comum, o da sua total falta de credibilidade! Bem podem os gestores, doutos economistas e "analistas" da economia exibir estatísticas, mostrar-nos muitos gráfico, citar prémios Nobel. O mundo está como está por vossa causa, por causa do falhanço total da vossa "ciência" e por causa da vossa ganância.
E não vai melhorar com os vossos exercícios miseráveis de hipocrisia...
As previsões que fazem e os cenários que pintam agora são tão credíveis como os cenários que terão sido traçados antes, que conduziram à actual situação de catástrofe mundial.
Imagino o que seria do mundo se os médicos epidemiologistas falhassem nas previsões e nas medidas para controlo da gripe dos porcos como os economistas e gestores falharam e falham em relação à epidemia da economia.
Arrisco mesmo dizer que sei muito bem em que porcos é que se desenvolveu a estirpe de vírus que provocou esta pandemia fulminante, esta gripe da economia mundial, de que todos estamos a padecer, aguardando com impaciência crescente por ver a vacina ao fundo do túnel...

2009/04/26

Ao largo!

Afinal os valores de tolerância democrática que Abril gerou prevalecem. Santa Comba ficou orgulhosamente só neste seu desafio. O largo com o nome do ditador foi inaugurado, sem incidentes, ao que parece, apesar da declarada intenção provocatória.
Para os registos fica uma acção caricata, ligada a um largo caricato, com um nome anacrónico, e da satisfação de uma população caricata, cuja autarquia tem à sua frente um presidente de câmara caricato, de um concelho fantasma, com poucos atributos, de entre os quais sobressai o de ser um deserto, habitado por zumbis, a única ambição dos quais é serem governados por um zumbi. Pelos vistos, no que toca ao governo da autarquia, já têm a sua ambição satisfeita.
Santa Comba Dão é localidade para passar ao largo...

2009/04/24

Jonathan Vale

João Vale e Azevedo - para quem não saiba, ex-presidente do Benfica - não pára de surpreender. De Inglaterra, chega-nos a notícia que um tribunal inglês declarou falida a empresa V&A Capital Limited, gerida pelo advogado português. A notícia não teria em si nada de especial, não fosse um pequeno pormenor digno do melhor Madoff. A empresa em questão é descrita no seu "site"como "uma sociedade de investimentos de capitais privados com interesses na indústria do açúcar, adoçantes de cereais e amidos e em especial na produção e comercialização do etanol como uma nova fonte de energia não poluente". O pedido de insolvência teria sido accionado pela Finurba Corporate Finance, subsidiária do grupo português Finurba, para além de diversos credores de uma dívida calculada em 4 milhões de euros. Abigail Wright, um dos credores, diz ter acreditado em Jonathan Vale (nome que Vale e Azevedo usava nas suas relações comerciais) quando este lhe garantiu um retorno garantido de 50% ao fim de 120 dias, podendo o ganho chegar até aos 117%. Convencido da bondade da proposta, Wright investiu 50 mil libras em troca de 50 mil acções da V&A. O mesmo já tinha acontecido ao presidente do partido político Unita, Isaías Samakuva que, a troco de uma promessa de investimento em Angola, pagou 1 milhão de dólares à V&A.
Num país com o historial de Inglaterra, nomes como Robin Hood, Dick Turpin, Jack The Ripper ou Ronnie Biggs, pertencem há muito à galeria dos famosos. Um apelido como Azevedo passaria completamente despercebido. Jonathan Vale (pronunciar Veile) tem outro "pedigree". Desta forma, será certamente mais fácil frequentar os corredores palacianos. À cautela, a rainha já mandou instalar câmaras de vigilância e guardas ao redor de Buckingham Palace. Vale e Azevedo, aliás Jonathan Vale, vive em Londres...

2009/04/23

Cidadania (3)

Ontem recebi, finalmente, o meu Cartão de Cidadão. Após dois meses e meio de um processo e episódios que são dignos de uma verdadeira "República da Pera Rocha". Chegada a minha vez, e após quase três horas de espera (que aproveitei para ler Coetzee), a funcionária informa-me que o cartão tem 4 códigos (quatro!) diferentes: um para a identidade, um para a morada, um para a assinatura e outro para cancelamento do dito cartão. Imaginei-me a ter de decorar mais quatro "pincodes" diferentes, mas certamente adivinhando os meus pensamentos a simpática senhora sugeriu-me alterar os códigos para um só, fácil de memorar. Claro, respondi aliviado. Infelizmente para mim e apesar da sua boa vontade, o "servidor" estava a 10% e não processava os dados...
Hoje mesmo, recebi uma carta da Loja do Cidadão, em resposta à minha queixa sobre a lentidão e ineficiência dos serviços. Muito bem, pensei, pelo menos são rápidos a responder. Acontece que a carta estava cheia de imprecisões o que me levou a corrigir os erros e a enviar outra carta a repôr a verdade. Uma questão de rigor.
Voltei à Junta de Frequesia, para confirmar o recenseamento. Sim, estou recenseado...na Holanda! Na Holanda? Mas eu não vivo na Holanda há anos e já pedi o cartão há mais de dois meses...respondo a medo. Não há problema, dizem-me: dentro de 1 mês (um!) já estará recenseado em Portugal...
Quero acreditar que no dia 7 de Junho posso votar, mas começo a duvidar. O "sistema" foi tão aperfeiçoado que, independentemente de chamar-se "simplex", não funciona. Desta forma, não posso prometer que não voltarei ao tema. Uma "saga". De incompetência e "chocos" tecnológicos.

2009/04/22

Vítimas e silêncio

Em complemento do que escrevi no post anterior sobre o silêncio e as verdadeiras vítimas do caso Freeport, aqui vos deixo uma citação do escritor Alberto Manguel (*):
"Porque a voz das vítimas é fulcral, os opressores tentam muitas vezes silenciar as suas vítimas (...). A essência da condição de vítima --de qualquer vítima-- é a injustiça (...). A justiça não deve perseguir um sentido privado de satisfação, mas emprestar publicamente à sociedade uma noção auto-correctiva de aprendizado. Se há justiça haverá esperança, mesmo face a uma qualquer divindade caprichosa. "




(*) The Library at Night

2009/04/21

Peixe dentro e fora de água

Duas curtas notas sobre a intervenção do Primeiro Ministro de hoje na RTP.
A primeira para dizer que aquilo que escrevi aqui anteontem parece justificar-se. Fazer a crítica da governação fora do contexto exclusivamente político é um erro que vai custar caro à oposição e ao Presidente da República. O PM está totalmente à vontade dentro e fora de água. Os outros agentes políticos só têm brânquias... Fora de água morrem asfixiados em três tempos.
Fora de água estiveram também os dois entrevistadores. No final os sinais de asfixia eram aliás evidentes...
Uma segunda nota para reiterar o que escrevi sobre o caso Freeport aqui e aqui. Acrescento apenas que me choca ver um assunto desta natureza abordado como se estivéssemos, neste caso, perante um qualquer "socialite", envolvido numa qualquer frivolidade. Culpa dos jornalistas e culpa do PM que aceita embarcar neste exercício absolutamente indigno do cargo que ocupa e do povo que serve, aproveitando para fazer, ele, o papel da vítima.
Não conheço outra vítima deste caso, seja qual for o desfecho que venha a ter, que não seja o povo português.

Vai ler o Tratado, pá!

O debate dos "P'rós & Contras" de ontem, dedicado às eleições europeias, foi uma ocasião perdida de elucidar os espectadores sobre algo que a todos diz respeito, mas que só alguns "iniciados" parecem saber. Duas horas e meia de chorrilhos e peixeirada, como há muito tempo não víamos em painéis televisivos. Sempre à espera de um momento de lucidez, e porque as alternativas não eram muitas, resisti a desligar o televisor. Como era de esperar e, salvo raras excepções, a maioria dos participantes levou o debate para a política interna, já que as "europeias" são vistas como um teste a Sócrates. E, se a "inexperiência" de Nuno Melo e Paulo Rangel nestas andanças não é de estranhar, a prestação de Moreira, muito pouco vital, é um mau prenúncio para a campanha. O candidato do PS é manifestamente um erro de "casting" e não será de admirar se a sua participação vier a saldar-se por uma derrota clamorosa, o que muito boa gente já previu. Dos outros candidatos (Ilda Figueiredo e Miguel Portas) ambos veteranos de Estrasburgo, o discurso conhecido, ainda que o último tentasse, por mais de uma vez, recentrar o debate no que verdadeiramente interessa: a Europa. Perante tanta demagogia, e à falta de melhor argumentação, seria dele a melhor tirada da noite: "Vai ler o Tratado, pá!". Se calhar é o que nós todos devíamos fazer. Mas, quem é que vai querer ler um Tratado, sobre o qual não podemos votar?

2009/04/19

... e nós a ver!

Há tempos escrevi aqui que pelo caminho que as coisas estavam a tomar, as eleições legislativas deste ano ameaçavam transformar-se numa parada de vitória para o Primeiro Ministro. A menos que ocorra uma catástrofe de grau 10, os meus receios encontram cada vez mais justificações.
Um dos motivos que me levou a escrever o que escrevi foi verificar que, olhando para a forma como o Presidente da República decidiu fazer frente ao Primeiro Ministro, ao seu estilo desastrado e inócuo, somos levados a suspeitar que este se deveria estar a rebolar de gozo com tanta facilidade. É gritante a falta de jeito revelada pelo PR e abismal a diferença de performance entre os dois para um combate que foi, justamente, levado pelo PR para terrenos onde ele se mostra --quase somos levados a concluir...-- de um amadorismo confrangedor.
Ontem, os orgãos de informação fizeram um grande alarido à volta de declarações do PR proferidas numa qualquer conferência pública. Grande puxão de orelhas dado ao governo e aos empresários por Cavaco Silva, nunca se viu nada assim, disseram...
Ontem ainda, o Ministro das Finanças achou a posição do PR "saudável", e hoje o Primeiro Ministro já veio dizer que o País não precisa de uma "política de recados"... O que é um facto. Numa frase, dita assim em tom quase inocente, a magistratura de influência, versão Cavaco Silva 2009, escaqueirou-se com estrondo.
Estou cheio de curiosidade em seguir os próximos capítulos desta novela que promete, mas cheira-me que alguém vai saír da contenda bastante mal tratado.
Para que haja equilíbrio de poderes é preciso que se saiba exercer o poder. O País, o tal que não precisa, de facto, de uma "política de recados", esse continua na mesma, à espera de saber qual é então a política necessária, porque a verdade é que, tirando os recados de um lado e de outro, pouco mais resta.

"Uma frase com graça"

Pronto! Durou pouco a "trégua" pascal... O Cardeal Patriarca confirma-se como mais papista que o Papa, ou talvez como bombeiro incendiário, o que é bem pior.
Em declarações recentes, a propósito da questão do preservativo e da SIDA, D. José Policarpo vem defender o Papa, tentando explicar-nos que aquilo que o que Bento XVI disse não foi aquilo que a gente ouviu. E que a ideia que temos sobre a posição absolutamente retrógrada, inconcebível e totalmente deplorável da Igreja sobre esta questão é uma fantasia e não é o que está, lá bem no fundo, na origem do comentário do Papa. 
Na mesma declaração recente a que aludi antes, D. José Policarpo aproveita para dizer que o comentário totalmente despropositado que fez em relação aos casamentos entre praticantes de confissões religiosas diferentes teria sido dito "com graça". Não vejo onde está a piada, mas suspeito que a defesa que agora faz do Papa e da sua posição relativamente ao preservativo também não passará então de uma "boutade" a atirar para o humorístico. Afirmar a este propósito que o preservativo é "falível" é, com efeito, um momento de humor...

2009/04/16

O novo código de custas judiciais

O discurso do actual bastonário da Ordem dos Advogados deixa frequentemente, temos de reconhecê-lo, muito a desejar. Hoje, porém, é dia de aplauso (que querem, esta semana deu-me para aqui...)
Marinho Pinto insurgiu-se contra o novo código de custas judiciárias que vai entrar em vigor a partir de amanhã. Acusa o Estado de transformar a Justiça num "bem de luxo, pago a preços de mercado."
Tem toda a razão.
Marinho Pinto fala numa "violação qualificada da Constituição", teme, perante a patente elitização deste sector, o surgimento de casos de justiça feita pelas próprias mãos e chama a tudo isto um "retrocesso" no estado de direito.
A transformação de tarefas essenciais, prestadas em regime de monopólio pelo Estado, em "bens de consumo", e do próprio Estado numa espécie de grande centro comercial, com parqueamento pago, que procura cativar a clientela em vez de servir os cidadãos, como é seu dever, é um problema grave em relação ao qual apenas podemos esperar uma coisa: vai-se agravar ainda mais. Não podemos esperar alívio da canga enquanto imperar esta lógica de organização do aparelho de Estado. O Estado está hoje remetido a um papel de garante da sua própria sobreviência, da dos seus mentores e das clientelas políticas que gravitam no seu campo magnético. A crise é isto.
Desenganem-se aqueles que pensam que as reformas se destinam a melhor cumprir o seu papel. Os "simpléxes" destinam-se a encontrar novas formas de sustentar a máquina, quando as velhas se revelam obsoletas ou ineficazes. Os novos "produtos" que nos são constantemente propostos não passam de impostos encapotados destinados a garantir uma máquina administrativa parasita, deficitária e mal gerida. Um crime escandaloso que a generalidade dos portugueses não parece perceber. Há mesmo uma inexplicável tolerância e uma atitude ingénua de aceitação dos renovados expedientes de que o Estado se serve para sustentar a sua insuportável autofagia. Novas oportunidades é com o povo português! O novo código de custas judicias constitui apenas mais um nicho de mercado deste rico negócio em que se tornou a causa pública. Tudo isto é crise...
E nada os parece conseguir parar. Vale tudo! Agora até o seleccionador de râguebi foram buscar para motivar ainda mais os publicanos.
Ao ver as garantias, a imunidade à crise, a resistência à reforma e os privilégios de que goza este sector, até me admiro como os milhares de trabalhadores, que enxameiam hoje os Centros de Emprego por esse país fora, não vêm mais frequentemente para a rua gritar "Também quero!"
Amanhã entra em vigor o novo código das custas judiciais, depois de amanhã inventar-se-á outro negócio para cobrir o défice da coisa publica. A seguir um outro qualquer Marinho Pinto virá insurgir-se muito contra isso. E o processo seguirá assim, até que a corda se rompa...

2009/04/15

Matemática para os matemáticos...

Faltam a Cavaco Silva, na minha opinião, todas as qualidades para ocupar o cargo para que foi eleito. Não surpreende, pois, que os seus comentários e as suas iniciativas reflictam isso mesmo.
Hoje o PR declarou-se, mais uma vez, muito preocupado. Desta feita está preocupado com as previsões do BdP. Também eu tenho andado muito preocupado com essas previsões, devo confessar. Sobretudo porque noto que os responsáveis, em particular o PR, se limitam a revelar-nos os seus estados de alma, declarando-se preocupados, enquanto mantêm tudo exactamente na mesma! Assim, asseguro-vos, também eu era PR. Se alguém aliás estiver disposto a apoiar a minha candidatura, declaro-me desde já disponível para ocupar o cargo. O trabalho dava-me jeito...
O PR anda também preocupado com a Matemática. Diz que é "imprescindível» o aumento do número de pessoas com competências" nesta disciplina. Fá-lo no âmbito do que designa de "roteiro da ciência", iniciativa destinada a chamar a atenção dos cidadãos para esta área.
Fala em "iliteracia" quando se refere ao panorama do país no domínio da Matemática. Reconhece, com ar grave, que este problema "prejudica seriamente o desenvolvimento do país".
Fá-lo nalgum bairro popular? Nalguma escola básica? Nalguma zona carenciada por forma a que os seus habitantes tenham a noção de que precisam de se ultrapassar e desenvolver conhecimentos matemáticos, porque estes são úteis para o progresso do país e dos seus cidadãos? Perante uma plateia de trabalhadores vítimas de lay off e em busca de requalificação? Fá-lo no âmbito de alguma iniciativa específica, por ele patrocinada, destinada a promover a erradicação deste problema ? Fá-lo para anunciar que vai dar pessoalmente noções de Matemática na Presidência da República, em horário pós-laboral, aos moradores da zona de Belém?
Não, fá-lo no ISEG, onde é suposto toda a gente ter conhecimentos de matemática, acima do nível da iliteracia... Fá-lo debitando generalidades há muito conhecidas. Fá-lo no final de um "roteiro" que o levou a percorrer uma série de universidades e centros de investigação onde seria escandaloso se o nível de competência no domínio da Matemática indiciasse iliteracia e onde a linha principal de actividade não pode passar pela luta contra ela. Falou, portanto, como se costuma dizer, para o boneco.
Que leitura devemos nós então fazer desta iniciativa presidencial?

Criacionismo e Darwin

Volta não volta, a minha costela anticlerical manifesta-se aqui no Face. É simples perceber porquê. As posições da Igreja Católica e dos seus agentes dão-me frequentemente volta ao estômago. Considero que esta instituição é, entre as muitas outras razões que originam esta minha perturbação estomacal, um contribuinte, decisivo e relapso, para o mal profundo que afecta este país. Não admira, pois, que o assunto seja aqui tema de conversa regular.
Sejamos, contudo, justos: a crítica recente do cardeal patriarca feita às leituras apressadas que os teólogos católicos fazem muitas vezes do evolucionismo merece saudação. D. José Policarpo não hesita em classificar estas posições como resultantes de uma "leitura deficiente" da Bíblia, feita tanto pelos críticos católicos, como por alguns darwinistas. E vai mais longe, aproveitando muito justamente para estender a sua crítica a outros movimentos criacionistas.
A quantidade de asneiras que se dizem sobre este tema, de um lado e de outro, é de facto lamentável. E é um facto: há gente mais papista que o Papa (seja qual for o cisma), mas há também aqueles que são mais darwinistas que Darwin. 
Ora, o que há é, sobretudo, mais evolucionismo para além de Darwin. Sabendo disso, D. José Policarpo revela nestes seus comentários uma enorme habilidade e --para mim, que sou bastante limitado enquanto observador destas coisas...-- uma surpreendente sensibilidade e coragem.  
Por uma vez, tenho de aplaudir um prelado.