Aproximam-se as eleições europeias e os principais líderes europeus - Sarkozy e Barroso à cabeça - começam a mostrar-se impacientes. A menos de um ano da data prevista e na impossibilidade de aplicar as directrizes do "Tratado de Lisboa", devido ao "não" irlandês, veio agora o presidente francês sugerir uma solução para o impasse que não lembrava ao careca: a Irlanda deve alterar a sua Constituição, de forma a poder referendar o Tratado antes das eleições, única forma de poder pô-lo em prática em tempo útil.
Lê-se e não se acredita.
Alguém em consciência imagina o governo irlandês a claudicar perante a arrogância francesa e a exigir aos seus cidadãos que voltem às urnas e a votarem as vezes que forem precisas até obterem o almejado "sim"? Obviamente que não.
Nenhum povo do Mundo, educado na tradição democrática e em plena consciência dos seus actos, aceitaria tal humilhação.
É isso que esperamos que os irlandeses respondam a Sarkozy: "não" à alteração da sua Constituição que permita a alteração do resultado do referendo que disse "não" ao "Tratado de Lisboa".
O "Tratado de Lisboa" está morto e enterrado e é bom que o directório europeu perceba isso e respeite a opinião democrática dos seus membros, de acordo, aliás, com os próprios princípios consignados na Carta Europeia. É tempo dos cidadãos europeus recusarem o centralismo administrativo de Bruxelas, que impediu a maior parte dos países membros de referendar o Tratado. Não bastava já o "déficit democrático" português (que proibiu referendar o Tratado) e ainda tínhamos de aturar a ingerência francesa nos assuntos internos de um país democrático. Basta já!
2008/11/11
2008/11/06
Missile, anyone...?
No exacto dia em que Obama festejava a sua inequívoca vitória, surge uma visão fugaz do que vai ser o futuro real. A dupla Putin-Medvedev --um adversário mais duro de roer do que foi a dupla McCain-Palin-- anuncia, sem cerimónias, a instalação de mísseis em Kalininegrado, bem junto à fronteira polaca.
Terá sido decerto o "telegrama de felicitações" mais expressivo que Obama recebeu...
Tudo isto parece tirado de um filme antigo, baseado num qualquer livro de John Le Carré. Mas, não nos iludamos, esta novela é real.
A Rússia parece apostada em seguir a doutrina Bush, mas com um Bush a sério, agora que o ainda inquilino da Casa Branca se prepara para voltar a casa, fechando as malas e metendo o Scottish Terrier na carrinha. Já noutras ocasiões tivemos ocasião de assistir a ensaios desta peça e observar o desempenho russo...
Vamos ver como é que o Presidente Obama irá lidar com esta matéria. A Rússia, mesmo com a sua rendição aos encantos do capitalismo, parece totalmente insensível (tanto no plano cultural, como no económico) aos apelos ao ressurgimento do "American dream" do novo presidente e mostra-se apostada em baralhar as contas dos que acreditam num futuro mais calmo.
Vejamos se os russos não estão persuadidos do mesmo que Obama e os seus seguidores: "yes we can!"
Terá sido decerto o "telegrama de felicitações" mais expressivo que Obama recebeu...
Tudo isto parece tirado de um filme antigo, baseado num qualquer livro de John Le Carré. Mas, não nos iludamos, esta novela é real.
A Rússia parece apostada em seguir a doutrina Bush, mas com um Bush a sério, agora que o ainda inquilino da Casa Branca se prepara para voltar a casa, fechando as malas e metendo o Scottish Terrier na carrinha. Já noutras ocasiões tivemos ocasião de assistir a ensaios desta peça e observar o desempenho russo...
Vamos ver como é que o Presidente Obama irá lidar com esta matéria. A Rússia, mesmo com a sua rendição aos encantos do capitalismo, parece totalmente insensível (tanto no plano cultural, como no económico) aos apelos ao ressurgimento do "American dream" do novo presidente e mostra-se apostada em baralhar as contas dos que acreditam num futuro mais calmo.
Vejamos se os russos não estão persuadidos do mesmo que Obama e os seus seguidores: "yes we can!"
2008/11/05
Obama
Ainda que a eleição de Barak Obama não tivesse constituido propriamente uma surpresa - afinal, todas as projecções lhe eram favoráveis - o modo como obteve esta vitória (estavam contados pouco mais de metade dos votos) é, em si, um facto histórico.
O Mundo está perante um acontecimento impar na história da nação mais poderosa do Mundo onde, pela primeira vez, um cidadão negro chega à "Casa Branca" em Washington.
Os números não enganam: com 338 grandes eleitores escolhidos (53%) contra 163 de McCain (47%), quando ainda decorre o escrutínio na Costa Oeste americana, os 270 lugares necessários para a sua eleição foram amplamente ultrapassados.
Esta é a vitória de uma candidatura que, desde o início, teve a oposição de parte significativa do próprio partido onde, entre outros, se reviam os apoiantes de Hillary. Essa foi, de resto, a sua prova de fogo e é nas "primárias" democratas que devemos procurar a explicação desta imparável dinâmica que terminaria já madrugada alta em Chicago.
Muitos foram (e são) aqueles que acusaram Obama de ter pouca experiência, ser vago nas intenções e ter um discurso redondo que diz tudo e o seu contrário. É provável. Conceitos como "change", "hope" e "yes, we can" não chegam para mudar a América, muito menos o Mundo. Mas, como dizia alguém esta semana a um observador da realidade americana, "tudo isso pode ser verdade, mas só o saberemos se ele for eleito. Primeiro temos de elegê-lo e depois podemos julgá-lo". Haja esperança.
O Mundo está perante um acontecimento impar na história da nação mais poderosa do Mundo onde, pela primeira vez, um cidadão negro chega à "Casa Branca" em Washington.
Os números não enganam: com 338 grandes eleitores escolhidos (53%) contra 163 de McCain (47%), quando ainda decorre o escrutínio na Costa Oeste americana, os 270 lugares necessários para a sua eleição foram amplamente ultrapassados.
Esta é a vitória de uma candidatura que, desde o início, teve a oposição de parte significativa do próprio partido onde, entre outros, se reviam os apoiantes de Hillary. Essa foi, de resto, a sua prova de fogo e é nas "primárias" democratas que devemos procurar a explicação desta imparável dinâmica que terminaria já madrugada alta em Chicago.
Muitos foram (e são) aqueles que acusaram Obama de ter pouca experiência, ser vago nas intenções e ter um discurso redondo que diz tudo e o seu contrário. É provável. Conceitos como "change", "hope" e "yes, we can" não chegam para mudar a América, muito menos o Mundo. Mas, como dizia alguém esta semana a um observador da realidade americana, "tudo isso pode ser verdade, mas só o saberemos se ele for eleito. Primeiro temos de elegê-lo e depois podemos julgá-lo". Haja esperança.
2008/11/03
Magia Sevilhana
Não sei se Sevilha tem mais encanto na hora da despedida, mas a última WOMEX ali realizada será, certamente, lembrada como a feira onde esteve presente a maior representação portuguesa de sempre e a edição onde Camané foi responsável por um dos concertos mais apreciados do certame.
Seleccionado por um juri internacional, que reuniu em Berlim no passado mês de Maio, a actuação do fadista português não era de todo isenta de riscos. Desde logo, porque não possui o carisma das "divas" que o antecederam e, depois, porque em apenas 40 minutos, muita coisa pode correr mal. Juntem-se os nomes sonantes que tinham precedido o cantor português no palco do Teatro Lope de Vega, desde o Flamenco Miguel Poveda (Espanha) ao mago do cimbalon Kalman Balogh (Hungria), passando pelos fabulosos "La Filleta" (Córsega) ou o projecto Mike Marshal + Vasen (USA/Suécia) e pode imaginar-se a tarefa. Mas o "principe" do fado saiu-se bem e as pessoas que, pouco a pouco, foram enchendo a sala do prestigioso teatro, acabaram por ficar rendidas à intensidade da arte transmitida por Camané. Uma emoção que, no dia seguinte, ainda era comentada pelos delegados na Feira, surpreendidos por verem um homem cantar o fado melhor que muitas mulheres...
Depois, a WOMEX propriamente dita. No mais importante certame de "WorldMusic" estiveram presentes 2800 delegados que, durante quatro dias, circularam por entre os dois pavilhões do Centro de Exposições FIBES, onde em permanência estavam 320 "stands" (record absoluto) representando 650 companhias de produtores, agentes, empresários, editores e artistas. De Portugal, destaque para a Associação MUSICA PT, uma organização "chapéu-de-chuva" que congrega já 17 empresas e 5 associados individuais, naquela que foi a maior e mais bem sucedida apresentação lusa na história da feira.
Sábado à noite, foi dia de saída ao "tablao" mais famoso da cidade, "Los Gallos", para apreciar a arte de Choni, uma das muitas bailadoras da dança Flamenca presente em Sevilha. E como se dança bem em "Los Gallos"!
No último dia (ontem) tempo ainda para assistir à entrega dos prémios WOMEX 2008, desta vez autorgados à Academia Sibelius da Helsinquia (Finlândia) pelo seu trabalho em prol da música tradicional e ao grupo Muzsikás (Hungria) pelos seus 35 anos de carreira. Não faltou o concerto final, a provar que os embaixadores magiares estão para durar e que o legado de Bela Bartok continua a ser uma fonte inesgotável. Prémios merecidíssimos, pois, que relevam da força da (boa) tradição musical, em tempos conturbados na industria discográfica internacional.
Em 2009 a feira muda-se para Copenhagen, por um período de três anos. Logo agora, que estávamos a habituar-nos à Andaluzia e às suas "sevilhanas"...
Seleccionado por um juri internacional, que reuniu em Berlim no passado mês de Maio, a actuação do fadista português não era de todo isenta de riscos. Desde logo, porque não possui o carisma das "divas" que o antecederam e, depois, porque em apenas 40 minutos, muita coisa pode correr mal. Juntem-se os nomes sonantes que tinham precedido o cantor português no palco do Teatro Lope de Vega, desde o Flamenco Miguel Poveda (Espanha) ao mago do cimbalon Kalman Balogh (Hungria), passando pelos fabulosos "La Filleta" (Córsega) ou o projecto Mike Marshal + Vasen (USA/Suécia) e pode imaginar-se a tarefa. Mas o "principe" do fado saiu-se bem e as pessoas que, pouco a pouco, foram enchendo a sala do prestigioso teatro, acabaram por ficar rendidas à intensidade da arte transmitida por Camané. Uma emoção que, no dia seguinte, ainda era comentada pelos delegados na Feira, surpreendidos por verem um homem cantar o fado melhor que muitas mulheres...
Depois, a WOMEX propriamente dita. No mais importante certame de "WorldMusic" estiveram presentes 2800 delegados que, durante quatro dias, circularam por entre os dois pavilhões do Centro de Exposições FIBES, onde em permanência estavam 320 "stands" (record absoluto) representando 650 companhias de produtores, agentes, empresários, editores e artistas. De Portugal, destaque para a Associação MUSICA PT, uma organização "chapéu-de-chuva" que congrega já 17 empresas e 5 associados individuais, naquela que foi a maior e mais bem sucedida apresentação lusa na história da feira.
Sábado à noite, foi dia de saída ao "tablao" mais famoso da cidade, "Los Gallos", para apreciar a arte de Choni, uma das muitas bailadoras da dança Flamenca presente em Sevilha. E como se dança bem em "Los Gallos"!
No último dia (ontem) tempo ainda para assistir à entrega dos prémios WOMEX 2008, desta vez autorgados à Academia Sibelius da Helsinquia (Finlândia) pelo seu trabalho em prol da música tradicional e ao grupo Muzsikás (Hungria) pelos seus 35 anos de carreira. Não faltou o concerto final, a provar que os embaixadores magiares estão para durar e que o legado de Bela Bartok continua a ser uma fonte inesgotável. Prémios merecidíssimos, pois, que relevam da força da (boa) tradição musical, em tempos conturbados na industria discográfica internacional.
Em 2009 a feira muda-se para Copenhagen, por um período de três anos. Logo agora, que estávamos a habituar-nos à Andaluzia e às suas "sevilhanas"...
2008/11/02
Episódios da democracia II
Ricardo Pais vai abandonar o TNSJ. O balanço que faz da política governamental na área da cultura é arrasador. Retenho em particular a sua afirmação de que "o governo conseguiu estar à altura de Carlos Fragateiro na maneira como o exonerou." Está consubstanciado nesta frase tudo o que o governo Sócrates tem feito nesta matéria e o que se pode esperar daqui para a frente.
Subscrevo totalmente as apreciações que Ricardo Pais faz.
Não me espantaria que o PM viesse admitir que a política do governo para a área da cultura tem grandes lacunas, que é o primeiro a reconhecê-lo, mas que o país está a braços com as prioridades há muito definidas, que o governo está a fazer o possível no quadro de restrições em que vivemos, os portugueses compreendem-no, etc e tal. O orçamento projectado para a cultura é que já deixou uma marca que não vai sair nem com lavagem a quente.
No meio disto tudo ficará interrompido um trabalho sem paralelo, levado a cabo por Ricardo Pais à frente do TNSJ.
Subscrevo totalmente as apreciações que Ricardo Pais faz.
Não me espantaria que o PM viesse admitir que a política do governo para a área da cultura tem grandes lacunas, que é o primeiro a reconhecê-lo, mas que o país está a braços com as prioridades há muito definidas, que o governo está a fazer o possível no quadro de restrições em que vivemos, os portugueses compreendem-no, etc e tal. O orçamento projectado para a cultura é que já deixou uma marca que não vai sair nem com lavagem a quente.
No meio disto tudo ficará interrompido um trabalho sem paralelo, levado a cabo por Ricardo Pais à frente do TNSJ.
Episódios da democracia I
Não deixa de ser surpreendente verificar que em 2008, 34 anos depois de Abril, volte a haver movimentações da tropa. É também revelador da qualidade da nossa democracia.
A tropa foi, e pretende manter-se, uma das poucas instituições portuguesas que sempre funcionou num quadro de padrões de exigência pouco habitual no país. Por razões várias, à instituição militar não se podem apontar, de um modo geral, os defeitos e vícios de que a generalidade da sociedade portuguesa e das suas instituições padecem e de que todos nos queixamos "no civil".
Contudo, há nas queixas dos militares ressonâncias mais profundas. Eles sabem-no e nós também. E sabe-o o governo. Estas queixas não são de hoje, é justo admiti-lo, mas é significativo que estas movimentações ocorram agora e que seja neste preciso momento que o seu tom de voz sobe.
Não me espantaria que o PM viesse dar toda a razão aos militares, afirmando que é o primeiro a reconhecer a bondade das suas queixas. Não me espantaria também que contrapusesse, como gosta de fazer para baralhar o esquema, o quadro de restrições em que o país vive e a conjuntura difícil que todos os portugueses conhecem, para manter tudo na mesma.
É certo que hoje vivemos em democracia e a ansiedade dos militares tem um outro carácter, menos "underground", se quiserem. E também é certo que o papel dos militares na sociedade portuguesa está muito mais claramente enquadrado e definido. Mas, também não é menos certo que, como diz o general Loureiro dos Santos, os militares "sentem uma certa injustiça relativamente a outras pessoas do serviço público (...) que não correm os riscos que eles correm, nem têm a restrição de direitos que eles têm" e queixam-se de "ignorância e de incompetência no tratamento dos seus assuntos."
O que tem piada é que, para além dos militares, também os outros servidores públicos se queixam do mesmo. E o que tem ainda mais piada é que a sociedade portuguesa, no geral, manifesta exactamente as mesmas razões de queixa.
Já não me lembro bem, mas acho que foi uma situação assim que desembocou no 25 de Abril e gerou depois uma coisa chamada unidade Povo-MFA...
A tropa foi, e pretende manter-se, uma das poucas instituições portuguesas que sempre funcionou num quadro de padrões de exigência pouco habitual no país. Por razões várias, à instituição militar não se podem apontar, de um modo geral, os defeitos e vícios de que a generalidade da sociedade portuguesa e das suas instituições padecem e de que todos nos queixamos "no civil".
Contudo, há nas queixas dos militares ressonâncias mais profundas. Eles sabem-no e nós também. E sabe-o o governo. Estas queixas não são de hoje, é justo admiti-lo, mas é significativo que estas movimentações ocorram agora e que seja neste preciso momento que o seu tom de voz sobe.
Não me espantaria que o PM viesse dar toda a razão aos militares, afirmando que é o primeiro a reconhecer a bondade das suas queixas. Não me espantaria também que contrapusesse, como gosta de fazer para baralhar o esquema, o quadro de restrições em que o país vive e a conjuntura difícil que todos os portugueses conhecem, para manter tudo na mesma.
É certo que hoje vivemos em democracia e a ansiedade dos militares tem um outro carácter, menos "underground", se quiserem. E também é certo que o papel dos militares na sociedade portuguesa está muito mais claramente enquadrado e definido. Mas, também não é menos certo que, como diz o general Loureiro dos Santos, os militares "sentem uma certa injustiça relativamente a outras pessoas do serviço público (...) que não correm os riscos que eles correm, nem têm a restrição de direitos que eles têm" e queixam-se de "ignorância e de incompetência no tratamento dos seus assuntos."
O que tem piada é que, para além dos militares, também os outros servidores públicos se queixam do mesmo. E o que tem ainda mais piada é que a sociedade portuguesa, no geral, manifesta exactamente as mesmas razões de queixa.
Já não me lembro bem, mas acho que foi uma situação assim que desembocou no 25 de Abril e gerou depois uma coisa chamada unidade Povo-MFA...
2008/10/30
Controleiros da era digital
As empresas Google, Microsoft, Yahoo, a France Télécom e a Vodafone planeiam, juntamente com grupos de direitos humanos, introduzir um "código global de conduta na internet que proteja a liberdade de expressão e a privacidade contra a intervenção dos governos." Este grupo inicial procura alargar a base de participação.
Esta iniciativa faz parte da Global Network Initiative que se destina, segundo o New York Times, a "evitar ou minimizar o impacte das restrições governamentais na liberdade de expressão." Pese embora o facto de algumas organizações terem já criticado este esforço, descrevendo-o como "pouco mais do que uma afirmação geral de princípios, sem nenhum mecanismo que assegure o cumprimento das regras", a verdade é que este é um tema a que não será nunca demais prestar toda a atenção. Afecta-nos a todos e vai-se tornar cada vez mais importante. Todas as iniciativas destinadas a debater e demonstrar a importância deste assunto são, pois, bem vindas.
O big brother anda aí há muito tempo. Por vezes veste-se de democrata, mas, hoje com ontem, o que pretende é cortar-nos o pio. Digital ou analógico o big brother gosta de ter a última (quiçá, a única!) palavra. O outro lado do hacking pode ser igualmente sórdido.
E há por aí muitos aspirantes a controleiro. Em Portugal, a tentação é mesmo nódoa que cai no melhor pano...
Esta iniciativa faz parte da Global Network Initiative que se destina, segundo o New York Times, a "evitar ou minimizar o impacte das restrições governamentais na liberdade de expressão." Pese embora o facto de algumas organizações terem já criticado este esforço, descrevendo-o como "pouco mais do que uma afirmação geral de princípios, sem nenhum mecanismo que assegure o cumprimento das regras", a verdade é que este é um tema a que não será nunca demais prestar toda a atenção. Afecta-nos a todos e vai-se tornar cada vez mais importante. Todas as iniciativas destinadas a debater e demonstrar a importância deste assunto são, pois, bem vindas.
O big brother anda aí há muito tempo. Por vezes veste-se de democrata, mas, hoje com ontem, o que pretende é cortar-nos o pio. Digital ou analógico o big brother gosta de ter a última (quiçá, a única!) palavra. O outro lado do hacking pode ser igualmente sórdido.
E há por aí muitos aspirantes a controleiro. Em Portugal, a tentação é mesmo nódoa que cai no melhor pano...
2008/10/26
E contudo...
Quando se faz uma balanço da actuação do Primeiro Ministro, do Presidente da República, dos partidos da oposição e das restantes forças sociais (designadamente os sindicatos) nesta legislatura, ficamos com uma certeza: ninguém consegue segurar Sócrates.
Estão todos à altura uns dos outros, ninguém está à altura do País, mas o Primeiro Ministro consegue reduzir a um grande zero qualquer tentativa de contrariar a sua política. Ele continua a ditar (como se diz em "politiquês"), com uma aparentemente enorme convicção, a agenda política.
A longa entrevista dada ao DN/TSF, a resposta da oposição e a actuação das restantes forças sociais deixam prever que não vai surgir alternativa credível a este governo. E mais: forçam mesmo o recrudescimento da sua popularidade, de tal maneira a reacção da oposição se revela pífia.
Do lado do PSD, já se percebeu perfeitamente que a dupla Cavaco/Ferreira Leite não tem pedalada para Sócrates. Tê-lo-ão subestimado e terão julgado que os seus tiros no pé iriam ser suficientes para o obrigar a coxear. Enganaram-se. Quanto mais directas e indirectas Cavaco e Ferreira Leite lançam nesta sua estratégia claramente concertada, mais nítida se revela a sua total incapacidade para o (este) jogo político. É verdadeiramente patético.
Do lado da restante oposição o panorama é, de igual modo, totalmente confrangedor. Faz lembrar aqueles jogos de futebol em que uma equipa que ganha vai trocando a bola a meio campo, controlando inteiramente o jogo, mas concedendo ocasionalmente a iniciativa ao adversário para o apanhar num contra-ataque mortífero.
Se isto é a oposição, estarão a pensar decerto muitos portugueses, se é isto que têm para contrapor, mais vale ficar na mesma... Chega a fazer pena a maneira como têm sido sistematicamente comidos.
No que toca às forças sindicais, parece-me a mim que estão longe de constituir ameaça. Sobra-lhes em carga ideológica o que lhes falta em capacidade de intervenção. A actuação no terreno é desastrosa. Que é feito dos assanhados professores de há uns meses? E os furiosos polícias? E os abespinhados funcionários públicos? Os médicos? Os juízes? Gastaram os cartuxos todos e agora nem à fisga... Os sindicatos não podem fazer o papel dos partidos da oposição. É tão ridículo como é ridícula a tentativa de alguns partidos da oposição, em tempos recentes, de fazerem sindicalismo de ocasião.
E contudo... estamos fartos de Sócrates e das sua políticas. E contudo, assistimos, furiosos, a esta degradação contínua das condições de vida e dos padrões de funcionamento deste País. E contudo, as nossas perspectivas de futuro, sentimo-lo claramente, estão abaixo da cota de alerta.
E contudo... muitos dos que assim pensam, irão, face ao panorama real que desfila perante os nossos olhos, continuar decerto a depositar na urna o votozinho no senhor engenheiro.
Dificilmente me parece possível contrariar esta tendência. As eleições de 2009 ameaçam mesmo constituir uma parada de vitória...
Estão todos à altura uns dos outros, ninguém está à altura do País, mas o Primeiro Ministro consegue reduzir a um grande zero qualquer tentativa de contrariar a sua política. Ele continua a ditar (como se diz em "politiquês"), com uma aparentemente enorme convicção, a agenda política.
A longa entrevista dada ao DN/TSF, a resposta da oposição e a actuação das restantes forças sociais deixam prever que não vai surgir alternativa credível a este governo. E mais: forçam mesmo o recrudescimento da sua popularidade, de tal maneira a reacção da oposição se revela pífia.
Do lado do PSD, já se percebeu perfeitamente que a dupla Cavaco/Ferreira Leite não tem pedalada para Sócrates. Tê-lo-ão subestimado e terão julgado que os seus tiros no pé iriam ser suficientes para o obrigar a coxear. Enganaram-se. Quanto mais directas e indirectas Cavaco e Ferreira Leite lançam nesta sua estratégia claramente concertada, mais nítida se revela a sua total incapacidade para o (este) jogo político. É verdadeiramente patético.
Do lado da restante oposição o panorama é, de igual modo, totalmente confrangedor. Faz lembrar aqueles jogos de futebol em que uma equipa que ganha vai trocando a bola a meio campo, controlando inteiramente o jogo, mas concedendo ocasionalmente a iniciativa ao adversário para o apanhar num contra-ataque mortífero.
Se isto é a oposição, estarão a pensar decerto muitos portugueses, se é isto que têm para contrapor, mais vale ficar na mesma... Chega a fazer pena a maneira como têm sido sistematicamente comidos.
No que toca às forças sindicais, parece-me a mim que estão longe de constituir ameaça. Sobra-lhes em carga ideológica o que lhes falta em capacidade de intervenção. A actuação no terreno é desastrosa. Que é feito dos assanhados professores de há uns meses? E os furiosos polícias? E os abespinhados funcionários públicos? Os médicos? Os juízes? Gastaram os cartuxos todos e agora nem à fisga... Os sindicatos não podem fazer o papel dos partidos da oposição. É tão ridículo como é ridícula a tentativa de alguns partidos da oposição, em tempos recentes, de fazerem sindicalismo de ocasião.
E contudo... estamos fartos de Sócrates e das sua políticas. E contudo, assistimos, furiosos, a esta degradação contínua das condições de vida e dos padrões de funcionamento deste País. E contudo, as nossas perspectivas de futuro, sentimo-lo claramente, estão abaixo da cota de alerta.
E contudo... muitos dos que assim pensam, irão, face ao panorama real que desfila perante os nossos olhos, continuar decerto a depositar na urna o votozinho no senhor engenheiro.
Dificilmente me parece possível contrariar esta tendência. As eleições de 2009 ameaçam mesmo constituir uma parada de vitória...
2008/10/11
The queen
Os socialistas não param de nos supreender. Agora é o director-geral do FMI, o socialista Dominique Strauss-Kahn que, a propósito da crise financeira, afirmava ontem que ela "é uma falha da supervisão, uma falha da regulação, uma falha na crença de que o mercado se pode regular autonomamente."
"A lição a tirar," acrescentou, "é que para fazer o mercado funcionar, teremos de ter mais Estado e mais poder público."
Mas, não é esta esquerda travesti não assumido, não é a esquerda das privatizações, não é o socialismo "moderno" e a social-democracia conservadora in drag, a primeira responsável por todo este clima de incerteza? Não é a esquerda transsexual, medrosa e mais papista que o Papa, que veste roupas do sexo político oposto às escondidas e se deslumbra secretamente com os "valores do mercado", esquecendo os seus valores primeiros, que capitulou e foi juntando os ingredientes da receita para o desastre?
Nos E.U., entretanto, o governo do senhor Bush prepara-se para "nacionalizar" mais uns bancos. O que virá a seguir? Vamos vê-los de punho erguido a cantar a Internacional?
"A lição a tirar," acrescentou, "é que para fazer o mercado funcionar, teremos de ter mais Estado e mais poder público."
Mas, não é esta esquerda travesti não assumido, não é a esquerda das privatizações, não é o socialismo "moderno" e a social-democracia conservadora in drag, a primeira responsável por todo este clima de incerteza? Não é a esquerda transsexual, medrosa e mais papista que o Papa, que veste roupas do sexo político oposto às escondidas e se deslumbra secretamente com os "valores do mercado", esquecendo os seus valores primeiros, que capitulou e foi juntando os ingredientes da receita para o desastre?
Nos E.U., entretanto, o governo do senhor Bush prepara-se para "nacionalizar" mais uns bancos. O que virá a seguir? Vamos vê-los de punho erguido a cantar a Internacional?
2008/10/10
Nim
Alberto Martins (lider da bancada do PS):
"Sou intransigentemente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas voto contra". Ou seja, "voto contra, apesar de ser intransigentemente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo".
Perceberam? Eu também não. Ou melhor, o PS no seu pior.
"Sou intransigentemente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas voto contra". Ou seja, "voto contra, apesar de ser intransigentemente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo".
Perceberam? Eu também não. Ou melhor, o PS no seu pior.
2008/10/05
"Foram todos na onda"
A intervenção do senhor presidente da CML na última edição do programa "Quadratura do Círculo" constituiu um momento particularmente infeliz.
Sou o autor da Petição sobre a Maria Keil, que 1) ao contrário do que afirmou o presidente da CML, 2) como se pode constatar pela sua simples leitura e 3) como fica, se as dúvidas continuarem a subsistir, definitivamente esclarecido pelo presente post, não é anónima. Sou, justamente, aquele que levantou esta onda toda atrás da qual foram aqueles milhares de pobres criaturas sem personalidade e volúveis que o presidente da CML referiu.
Devo dizer, antes de mais, que fiquei profundamente chocado com algumas afirmações que foram proferidas. Em particular, acho que o senhor presidente exagerou quando me apelidou de mentiroso e caluniador (foi isso que objectivamente disse; está gravado!). Quero crer que não seria essa a sua intenção, nem será esse o seu estilo normal... E quero ainda crer que se tivesse pensado no meu potencial voto o presidente da CML não me teria chamado mentiroso, nem caluniador.
Mas, o que me interessa aqui, sobretudo, relevar são outros aspectos desta sua intervenção.
Pergunto-me por que raio de carga de água o presidente da CML "impôs" (a expressão é de Carlos Andrade) este assunto na agenda do referido programa? O assunto era com ele? Com o organismo a que preside? É matéria de alguma área do exercício governativo em que tenha tido responsabilidade? Ou, fruto de uma enorme apetência pelo submundo, será que o presidente da CML não terá querido, ele próprio, perder a onda? Mistérios que gostaríamos todos de desvendar...
Sou o autor da Petição sobre a Maria Keil, que 1) ao contrário do que afirmou o presidente da CML, 2) como se pode constatar pela sua simples leitura e 3) como fica, se as dúvidas continuarem a subsistir, definitivamente esclarecido pelo presente post, não é anónima. Sou, justamente, aquele que levantou esta onda toda atrás da qual foram aqueles milhares de pobres criaturas sem personalidade e volúveis que o presidente da CML referiu.
Devo dizer, antes de mais, que fiquei profundamente chocado com algumas afirmações que foram proferidas. Em particular, acho que o senhor presidente exagerou quando me apelidou de mentiroso e caluniador (foi isso que objectivamente disse; está gravado!). Quero crer que não seria essa a sua intenção, nem será esse o seu estilo normal... E quero ainda crer que se tivesse pensado no meu potencial voto o presidente da CML não me teria chamado mentiroso, nem caluniador.
Mas, o que me interessa aqui, sobretudo, relevar são outros aspectos desta sua intervenção.
Pergunto-me por que raio de carga de água o presidente da CML "impôs" (a expressão é de Carlos Andrade) este assunto na agenda do referido programa? O assunto era com ele? Com o organismo a que preside? É matéria de alguma área do exercício governativo em que tenha tido responsabilidade? Ou, fruto de uma enorme apetência pelo submundo, será que o presidente da CML não terá querido, ele próprio, perder a onda? Mistérios que gostaríamos todos de desvendar...
Uma outra hipótese de justificação para esta intervenção canhestra e insultuosa: pode ser que a quantidade de assinantes da petição esteja próxima de um qualquer número mágico a partir do qual começam a soar os alarmes e é preciso agir...
A verdade é que perante a acutilância das acusações que nos fez, esperar-se-ia outra coisa que não aquele completo vácuo de ideias, aquela avalanche de clichés, aquela espantosa ligeireza, aquela desconcertante confusão técnica e aquelas imprecisões que ouvimos. O tema, os espectadores, o país merecem muito mais.
A verdade é que perante a acutilância das acusações que nos fez, esperar-se-ia outra coisa que não aquele completo vácuo de ideias, aquela avalanche de clichés, aquela espantosa ligeireza, aquela desconcertante confusão técnica e aquelas imprecisões que ouvimos. O tema, os espectadores, o país merecem muito mais.
De tudo isto fica apenas a prova de que o exercício da cidadania num país como Portugal, no quadro institucional que temos, é algo que continua a incomodar. Fica a ideia que o escrutínio dos cidadãos não suscita o esclarecimento dos escrutinados, gera antes escárneo e insulto. Fica finalmente a convicção que o uso da inteligência não é, afinal, para todos. No melhor pano, é certo, cai a nódoa.
Uma certeza: saímos de tudo isto com a determinação reforçada em continuar a batalha pelo valor da cidadania. A determinação em não ir na onda, compreendem...?
2008/10/02
Kadaverdiscipline
Por mais que o porta-voz do Partido Socialista se esforce, a disciplina de voto imposta aos membros da bancada parlamentar (na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo) não consegue apaziguar alguns dos deputados mais inconformados. A descer nas intenções de voto de há seis meses a esta parte, o PS sabe, que, numa conjuntura desfavorável, não pode arriscar uma guerra com a sua ala mais conservadora.
Paradoxalmente, é um partido de direita e teoricamente mais conservador em questões de costumes, o PSD, que dá liberdade de voto aos seus deputados.
Algo não bate certo nesta lógica de calculismo político seguida pelo maior partido do parlamento. A justificação dada por Alberto Martins, sobre a oportunidade da votação, é uma declaração acabada da hipocrisia que domina o voto socialista.
Longe vão os tempos em que o PS criticava os partidos estalinistas pelas suas práticas de centralismo democrático. O argumento, segundo o qual o PS seria um partido de opiniões livres, deixa assim de fazer sentido. Na antiga Europa de Leste, chamava-se a este método "kadaverdiscipline": disciplina de ferro. Deputados assim, não são de ferro, são "mortos vivos".
Paradoxalmente, é um partido de direita e teoricamente mais conservador em questões de costumes, o PSD, que dá liberdade de voto aos seus deputados.
Algo não bate certo nesta lógica de calculismo político seguida pelo maior partido do parlamento. A justificação dada por Alberto Martins, sobre a oportunidade da votação, é uma declaração acabada da hipocrisia que domina o voto socialista.
Longe vão os tempos em que o PS criticava os partidos estalinistas pelas suas práticas de centralismo democrático. O argumento, segundo o qual o PS seria um partido de opiniões livres, deixa assim de fazer sentido. Na antiga Europa de Leste, chamava-se a este método "kadaverdiscipline": disciplina de ferro. Deputados assim, não são de ferro, são "mortos vivos".
2008/09/28
A ARTE PÚBLICA É UMA PRERROGATIVA DOS CIDADÃOS!
A petição "Reposição dos painéis de azulejos de Maria Keil pelo Metropolitano de Lisboa" vai ser retirada logo que isso seja tecnicamente possivel. Como promotor desta iniciativa, queria desde já pedir a todos os que se envolveram nesta Petição, publicitando-a ou assinando-a, que fizessem o favor de divulgar agora este post.
A retirada da Petição tem propósitos claros. É para mostrar esta transparência de propósitos, para que se saiba o que verdadeiramente me move nesta tomada de decisão, que escrevo estas linhas.
1- Retirar a petição não significa capitulação.
Quando, reagindo à leitura dos blogs que estiveram na origem deste movimento, criei a Petição, estavam por trás desta minha decisão muitos anos do exercício, sempre difícil, de ser Português. Sou, somos todos, testemunhas de muitos casos de livre arbítrio, de desrespeito, de incúria, de injustiça e de desleixo neste País. Temos um capital de experiência que nos imuniza contra a surpresa perante este tipo de acontecimentos. Só por ingenuidade poderíamos pensar que não é possível acontecer algo semelhante em Portugal. "Painéis de Maria Keil" destruídos há-os por todo o reino e para vários os gostos. Assistimos todos a muitos casos de destruição de património. Presenciámos inúmeros atropelos às prerrogativas dos cidadãos (a arte pública é também uma prerrogativa dos cidadãos). Observámos o fingido respeito que é votado aos artistas, verdadeiros cidadãos de terceira categoria na hierarquia social do País. Assistimos a inúmeras perdas irreparáveis dos testemunhos culturais, materiais e imateriais, da história da nossa vida colectiva. Tomámos conhecimento dos múltiplos saques e pilhagens de património, com a complacência e mesmo, por vezes, com o beneplácito das autoridades. Somos testemunhas permanentes do desleixo e da boçalidade que imperam na nossa vida colectiva em tantos domínios. É assim o "sistema".
A experiência mostra que, em Portugal, qualquer desvio a este padrão ocorre apenas perante um cerrado escrutínio dos cidadãos. Quando entregue a si próprio, o "sistema" puxa imediatamente da pistola.
Não foi, pois, com surpresa, nem com incredulidade, que recebemos um alerta dando-nos conta da utilização da inovadora técnica da picareta na preservação dos painéis de azulejos de autoria de Maria Keil pelo Metropolitano de Lisboa. Apenas com revolta.
2- Retirar a petição não significa que os seus signatários tenham sancionado a criação de uma qualquer mentira.
Nem significa que tenham legitimado, com a sua participação, um qualquer acontecimento fantasma. Não! Os painéis da Maria Keil foram efectivamente destruídos! Como a própria empresa Metropolitano de Lisboa admitiu, quando foi sobre isso questionada por apoiantes da Petição (os factos estão aliás descritos com detalhe no seu site) e o filho de Maria Keil veio também depois confirmar publicamente. Ninguém inventou o problema.
3- Retirar a petição não significa que os motivos últimos, mais íntimos e profundos, que me levaram a criá-la, tenham sido ultrapassados.
O problema levantado está longe de ter ficado totalmente clarificado. O Metropolitano de Lisboa deve-nos uma explicação, que continuaremos a aguardar. Mais ainda: a questão dos painéis levantou até, curiosamente, problemas novos que não deixaremos passar sem análise cuidada. As minhas dúvidas em relação a todo o processo que se seguiu à destruição dos painéis são agora maiores.
4- Retirar a Petição não significa que concorde com o princípio de que o processo dos painéis de Maria Keil tem "prazo de validade".
Somos acusados de um pecado original neste movimento que ajudámos a criar. Os factos terão ocorrido há dez anos, mais coisa menos coisa. Num artigo recente da revista Atlantic intitulado "Is Google Making us Stupid?", Nicholas Carr escreve:
A concepção do mundo que resultou do uso generalizado de instrumentos de medição do tempo constitui [como diz Joseph Weizenbaum no seu livro "Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation" (1976)] 'uma versão exaurida da concepção antiga, porque se baseia na rejeição da experiência directa em que assentava, ou melhor, que era a própria substância da realidade anterior.' Quando decidimos a hora de comer, de trabalhar, de dormir e de acordar, deixamos de escutar os nossos sentidos e passamos a obedecer ao relógio.
Falando dos painéis de Maria Keil, o sentimento genuíno de revolta que escutámos dentro de nós, gerado por esta acção do Metro, esta reacção imediata dos sentidos, não parece impressionar os críticos da Petição. Para eles o calendário lavou a evidência do crime. Não interessa que sintamos que ao crime tem de corresponder julgamento e condenação. Não interessa que ao não ser sancionado este crime -- tenha ele ocorrido há dez anos ou há dez minutos-- esteja aberto o caminho para a sua mais que provável repetição. Há bem pouco tempo a RTP mostrou um outro problema grave, envolvendo novamente o Metro e um artista plástico português. Quem nos garante que a origem remota deste novo incidente não reside na condescendência, na irresponsabilidade e na leviandade com que o caso de Maria Keil foi e continua a ser encarado? Aceitar que o "prazo de validade" deste processo expirou é o mesmo que aceitar que, desde que se jogue bem com o tempo, o crime já pode compensar.
5- Razões que me levam a retirar a Petição.
Não posso de todo aceitar a teoria do "prazo de validade". Mas, tenho de admitir que ela pode ter algum eco na opinião pública. Receio que o argumento tenha sobre essa opinião pública efeitos perversos, antes mesmo de serem criadas oportunidades para uma reflexão mais aprofundada sobre este tema.
A par do argumento do "prazo de validade", ouvimos um outro --malévolo ou míope-- de que tudo isto teria perturbado a própria Maria Keil. Qualquer pessoa medianamente inteligente perceberá que uma iniciativa que pedia a reparação de um mal que lhe foi efectivamente causado (mas de que somos todos, nós e ela, vítimas), não pretende magoá-la. Porém, eu não quero que sobre essa matéria subsista qualquer dúvida. Se 4.000 pessoas expressam de forma espontânea e exuberante o seu carinho e o seu apreço por Maria Keil e pela sua obra, e esse seu acto pode, mesmo assim, ser interpretado como hostil, que não restem dúvidas: não era essa (penso que posso falar por todos) a nossa intenção...
Temo que o eco do argumento do "prazo de validade" possa, nesta era de memória curta e causas efémeras, afastar a generalidade da opinão pública da reflexão aprofundada e necessária sobre esta matéria. Pressinto que a argumentação mesquinha que a iniciativa também gerou tenha acabado por suscitar reservas e dúvidas que conduziram ao afastamento de muitos que estão próximos dos nossos pontos de vista e que interessa que estejam junto de nós neste debate. E não quero que os milhares de signatários da Petição sintam o seu apoio a esta causa traído porque os nossos objectivos foram desfocados por "controvérsias" ridículas e protagonismos frustrados, que conduzem a discussão para territórios indesejados e originam a perda de eficácia desta ferramenta. Por isso (e só por isso!) a retiro.
Mas, a luta por um papel activo da arte no desenvolvimento da consciência cívica dos portugueses irá prosseguir. Outros iniciativas irão ser postas em marcha e outros instrumentos serão encontrados para tratar esta questão que nos uniu e nos une a todos.
Até breve.
2008/09/27
The Hustler
Entre os muitos actores que descobri nos longínquos anos cinquenta - a década do cinema - dois ou três permaneceram para sempre no meu "hall" da fama. A maior parte já não pertence ao Mundo dos vivos, mas continuam vivos nos filmes que os tornaram imortais. O último desses heróis faleceu hoje, com 83 anos. Chamava-se Paul Newman e era um actor do caraças. Um verdadeiro "hustler".
2008/09/24
O crime de incúria não prescreve
O fenómeno do "aquecimento global" já há muito que chegou a Portugal. Antes afinal de se tornar preocupação à escala planetária, antes de todos os outros países, já Portugal padecia das consequências do fenómeno.
Outros países "aqueceram" com a mecanização, a dinâmica económica, com o desenvolvimento do conhecimento e com a inovação. "Aqueceram" com a proliferação, certamente desregulada, de novos meios, que vieram, no fim de contas, proporcionar um maior bem estar material às respectivas populações.
Portugal passou à margem de tudo isto. "Aqueceu" com o mal estar gerado pelo aumento da injustiça, do desleixo, da irresponsabilidade, da indiferença, da corrupção e da ignorância. Há de facto quem fique em braza com toda esta bandalheira. Aqui no Face, somos apenas mais um blog a olhar também as causas e os instrumentos deste "aquecimento" à Portuguesa e a analisar e denunciar alguns epifenómenos daí resultantes.
Este pequeno "furacão" gerado pela questão dos painéis da Maria Keill veio mostrar que, apesar de tudo, os agentes responsáveis pelo aquecimento à portuguesa estão debaixo de olho e que uma parte nada despicienda da população está sempre atenta e tenta, ela também, com todos os meios que tem à sua disposição, combater este fenómeno sui generis, que é resultado desta nossa triste e manhosa natureza. Uma parte significativa da população pratica o tal direito à indignação. Tão somente...
A internet, não é só o motivo de encantamentos serôdios --a internet já tem mais de 40 anos, a pacovice portuguesa é que acha que ela só começou com o "cabo"--, nem o tal fenómeno marginal e incontrolável como muitos a classificam --para disfarçar, quiçá, a vontade que teriam em controlá-la, eles próprios; o pé de muito boa gente desliza para o chinelo do fascismo e do "controleirismo" com enorme facilidade... As pessoas que assinaram a petição fizeram-no de forma consciente e sabem que esta é uma arma que não atira balas, mas que pode até talvez ser mais acutilante do que as armas que o fazem. Sabemos para quem a estamos a apontar.
O caso da destruição dos painéis da Maria Keill passou-nos ao lado na altura em que ocorreu. Paciência. Mas, foi e é um crime! O modo como foi tratado pelo Metropolitano, os acordos a que esta instituição terá chegado com a autora não acrescentam, nem retiram, nada à gravidade deste caso. Os painéis faziam parte do património artístico do País. Não eram do Metropolitano, nem já sequer da autora. Eram nossos.
Por um conjunto fortuito de circunstâncias, acabámos por ter conhecimento de tudo isto, a maior parte de nós, apenas agora. Através, imaginem, dos blogs. E reagimos. Para admiração, inclusivamente, de alguns camaradas bloguistas, que parecem achar que, opiniões, só as deles...
E, vejam lá!, somos muitos! Aparentemente, somos muitos a reagir e a mostrar a nossa enorme indignação. Somos muitos dentro do País e são muitos os que, pelos vistos, estão também atentos lá fora às tropelias que por aqui se vão fazendo. Tropelias que ainda há pouco, se repetiram, com outros autores e com outros painéis.
Porquê reagir agora? O crime da incúria e da leviandade não prescreve. Ontem foram os painéis da Maria Keil, amanhã será o quê, de quem? Ou serão só os Budas do Afeganistão que devem merecer o repúdio das almas piedosas?
O que pedimos é de uma enorme singeleza e clareza. Queremos uma resposta.
2008/09/19
Chapeladas
A proposta do PS relativamente ao voto dos emigrantes é, no mínimo, bizarra. O partido maioritário, que agora governa Portugal, pretende alterar uma lei, que funcionou bem durante trinta anos, com o argumento que esta é passível de fraude ou, até mesmo, de "chapeladas"!
Vivi (e votei) no estrangeiro durante trinta anos e sempre votei por correspondência. Não vejo porque é que este meio não há de funcionar. O método era, inclusive, elogiado por outros emigrantes com quem eu contactava (italianos, por exemplo) que tinham de deslocar-se ao seu país sempre que havia eleições.
O boletim de voto chegava, normalmente, um mês antes das eleições e eu só tinha de preênche-lo e reenviá-lo, dentro de outro envelope dos serviços, para a Comissão Eleitoral em Lisboa. Para serem considerados válidos, os votos tinham de ser enviados para Portugal até à véspera do escrutínio. O que acontecia depois, não sei. Até admito que tenha havido as tais "chapeladas" de que fala Vasco Franco...mas, se as houve, foram praticadas em Portugal!
E, das duas uma: ou a Lei actual não serve e não se compreende que, só ao fim de trinta anos, o governo tenha dado por isso; ou a Lei é boa, mas não serve os interesses eleitorais do PS que arrisca perder a maioria actual nas próximas eleições.
Há aqui outra questão importante: os votos dos emigrantes (que são diminutos, mas representam quatro deputados na AR) tornar-se-ão ainda mais residuais, se a Lei for alterada. Não por acaso, foi o actual governo que reduziu drasticamente o número de consulados no estrangeiro. Se já era difícil aos emigrantes deslocarem-se aos consulados para tratarem dos seus assuntos, calcule-se o que será para votarem...Ninguém lá vai!
Se calhar, é isso mesmo que o Partido Socialista deseja. Mas, se é assim, estamos perante uma "chapelada" do actual PS, na qual é secundado pelo inefável PCP que, como sabemos, sempre foi avesso a eleições. E esta, hein!?
Vivi (e votei) no estrangeiro durante trinta anos e sempre votei por correspondência. Não vejo porque é que este meio não há de funcionar. O método era, inclusive, elogiado por outros emigrantes com quem eu contactava (italianos, por exemplo) que tinham de deslocar-se ao seu país sempre que havia eleições.
O boletim de voto chegava, normalmente, um mês antes das eleições e eu só tinha de preênche-lo e reenviá-lo, dentro de outro envelope dos serviços, para a Comissão Eleitoral em Lisboa. Para serem considerados válidos, os votos tinham de ser enviados para Portugal até à véspera do escrutínio. O que acontecia depois, não sei. Até admito que tenha havido as tais "chapeladas" de que fala Vasco Franco...mas, se as houve, foram praticadas em Portugal!
E, das duas uma: ou a Lei actual não serve e não se compreende que, só ao fim de trinta anos, o governo tenha dado por isso; ou a Lei é boa, mas não serve os interesses eleitorais do PS que arrisca perder a maioria actual nas próximas eleições.
Há aqui outra questão importante: os votos dos emigrantes (que são diminutos, mas representam quatro deputados na AR) tornar-se-ão ainda mais residuais, se a Lei for alterada. Não por acaso, foi o actual governo que reduziu drasticamente o número de consulados no estrangeiro. Se já era difícil aos emigrantes deslocarem-se aos consulados para tratarem dos seus assuntos, calcule-se o que será para votarem...Ninguém lá vai!
Se calhar, é isso mesmo que o Partido Socialista deseja. Mas, se é assim, estamos perante uma "chapelada" do actual PS, na qual é secundado pelo inefável PCP que, como sabemos, sempre foi avesso a eleições. E esta, hein!?
2008/09/18
Maria Keil: silenciar o acto é pior que tê-lo cometido!
Não resisto a transcrever aqui ipsis verbis uma mensagem que hoje me enviaram. Não sei quem é o autor (*), mas vale a pena divulgá-la.

Esta senhora bonita é a nossa compatriota Maria Keil, artista plástica. Em 1941, via-se a si própria desta maneira...

Maria Keil (gosta que a tratem apenas por Maria) nasceu na cidade de Silves, em 1914. Partilhou a maior parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com quem se casou, muito jovem, em 1933. De lá para cá fez milhares de coisas, sobretudo ilustrações, que se podem encontrar em revistas como a “Seara Nova”, livros para adultos e “toneladas” de livros infantis, os de Matilde Rosa Araújo, por exemplo, são em grande quantidade. Está quase a chegar aos 100 anos de idade de uma vida cheia, que nos primeiros tempos teve alguns “sobressaltos”, umas proibições de quadros aqui, uma prisão pela PIDE, ali... as coisas normais para um certo “tipo de pessoas” no tempo do fascismo.
Para esta “história”, no entanto, o que me interessa são os seus azulejos. São aos milhares, em painéis monumentais, espalhados por variadíssimos locais. Uma das maiores contribuições de Maria Keil para a azulejaria lisboeta, foi exactamente para o Metropolitano de Lisboa. Para fugir ao figurativo, que não era o desejado pelos arquitectos do Metro, a Maria Keil partiu para o apuramento das formas geométricas que conseguiram, pelo uso da cor e génio da artista, quebrar a monotonia cinzenta das galerias de cimento armado das primeiras 19, sim, dezanove estações de Metropolitano. Como o marido estava ligado aos trabalhos de arquitectura das estações e conhecendo a fatal “falta de verba” que se fazia sentir, o Metro lá teve de pagar os azulejos, em grande parte fabricados na famosa fábrica de cerâmica “Viúva Lamego”, mas o trabalho insano da criação e pintura dos painéis... ficou de borla. Exactamente! Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e ao seu “jovem” Metropolitano. Estes pormenores das estações do “Intendente” (1966) e “Restauradores” (1959), são bons exemplos.


Parêntesis: Qualquer alteração na “Gare do Oriente” do Arq. Calatrava, ou nas Torres das Amoreiras, do Arq. Tomás Taveira, só a título de exemplo, têm de ser encomendadas ao arquitecto que as fez e mesmo assim, ele pode recusar-se a alterar a sua obra original. Se os donos da obra avançarem para a alteração sem o acordo do autor, podem ter por garantido um belo processo em tribunal, que acabará numa “salgada” indemnização ao autor.
Finalmente, a história! Recentemente a Metro de Lisboa decidiu remodelar, modernizar, ampliar, etc, várias das estações mais antigas e não foram de modas. Avançaram para as paredes e sem dizer água vai, picaram-nas sem se dar ao trabalho de (antes) retirar os painéis de azulejos, ou ao incómodo de dar uma palavra que fosse à autora dos ditos. Mais tarde, depois da obra irremediavelmente destruída, alguém se encarregaria de apresentar umas desculpas esfarrapadas e “compreender” a tristeza da artista.
A parte “realmente boa” desta (já longa) história é que, ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma sua obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização.
Perguntam vocês “porquê, Samuel?” e eu tão aparvalhado como vós, “Porque na Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma... exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra!!!
Este país, por vezes consegue ser “ainda mais extraordinário” do que é o seu costume! Ou não?
Maria Keil

Esta senhora bonita é a nossa compatriota Maria Keil, artista plástica. Em 1941, via-se a si própria desta maneira...

Maria Keil (gosta que a tratem apenas por Maria) nasceu na cidade de Silves, em 1914. Partilhou a maior parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com quem se casou, muito jovem, em 1933. De lá para cá fez milhares de coisas, sobretudo ilustrações, que se podem encontrar em revistas como a “Seara Nova”, livros para adultos e “toneladas” de livros infantis, os de Matilde Rosa Araújo, por exemplo, são em grande quantidade. Está quase a chegar aos 100 anos de idade de uma vida cheia, que nos primeiros tempos teve alguns “sobressaltos”, umas proibições de quadros aqui, uma prisão pela PIDE, ali... as coisas normais para um certo “tipo de pessoas” no tempo do fascismo.
Para esta “história”, no entanto, o que me interessa são os seus azulejos. São aos milhares, em painéis monumentais, espalhados por variadíssimos locais. Uma das maiores contribuições de Maria Keil para a azulejaria lisboeta, foi exactamente para o Metropolitano de Lisboa. Para fugir ao figurativo, que não era o desejado pelos arquitectos do Metro, a Maria Keil partiu para o apuramento das formas geométricas que conseguiram, pelo uso da cor e génio da artista, quebrar a monotonia cinzenta das galerias de cimento armado das primeiras 19, sim, dezanove estações de Metropolitano. Como o marido estava ligado aos trabalhos de arquitectura das estações e conhecendo a fatal “falta de verba” que se fazia sentir, o Metro lá teve de pagar os azulejos, em grande parte fabricados na famosa fábrica de cerâmica “Viúva Lamego”, mas o trabalho insano da criação e pintura dos painéis... ficou de borla. Exactamente! Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e ao seu “jovem” Metropolitano. Estes pormenores das estações do “Intendente” (1966) e “Restauradores” (1959), são bons exemplos.


Parêntesis: Qualquer alteração na “Gare do Oriente” do Arq. Calatrava, ou nas Torres das Amoreiras, do Arq. Tomás Taveira, só a título de exemplo, têm de ser encomendadas ao arquitecto que as fez e mesmo assim, ele pode recusar-se a alterar a sua obra original. Se os donos da obra avançarem para a alteração sem o acordo do autor, podem ter por garantido um belo processo em tribunal, que acabará numa “salgada” indemnização ao autor.
Finalmente, a história! Recentemente a Metro de Lisboa decidiu remodelar, modernizar, ampliar, etc, várias das estações mais antigas e não foram de modas. Avançaram para as paredes e sem dizer água vai, picaram-nas sem se dar ao trabalho de (antes) retirar os painéis de azulejos, ou ao incómodo de dar uma palavra que fosse à autora dos ditos. Mais tarde, depois da obra irremediavelmente destruída, alguém se encarregaria de apresentar umas desculpas esfarrapadas e “compreender” a tristeza da artista.
A parte “realmente boa” desta (já longa) história é que, ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma sua obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização.
Perguntam vocês “porquê, Samuel?” e eu tão aparvalhado como vós, “Porque na Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma... exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra!!!
Este país, por vezes consegue ser “ainda mais extraordinário” do que é o seu costume! Ou não?
(*) Já sei entretanto mais sobre a autoria deste escrito. Veio daqui e o seu autor é o Samuel.
PS - Enquanto falávamos aproveitei para elaborar uma Petição dirigida ao Metropolitano de Lisboa que está em http://www.petitiononline.com/MK2008PT aguardando a vossa eventual assinatura...
O poder na ponta da mangueira
A acreditar no ministro Manuel Pinho, se as petrolíferas não acompanharem a descida internacional do preço do crude e reduzirem os preços de acordo, o governo poderá ter de "intervir" para ajudar a "regular" o mercado. Mercado que, lembre-se, foi liberalizado pelo governo anterior com o apoio do PS e o argumento que essa liberalização iria beneficiar as petrolíferas e o consumidor. Como sabemos hoje, o que se verificou foi o contrário: uma cartelização de preços que continua a favorecer as petrolíferas e o governo que, desta forma, arrecada mais dinheiro em impostos. Quem perde, como sempre aliás, é o consumidor, o elo mais fraco nesta cadeia de interesses.
Interrogado sobre a forma como iria intervir, Pinho, o ministro do discurso desconcertante, refugiou-se numa citação clássica tão ao gosto da esquerda estatizante: "a política comanda sempre a economia". Querem ver que o homem é mesmo socialista?
Interrogado sobre a forma como iria intervir, Pinho, o ministro do discurso desconcertante, refugiou-se numa citação clássica tão ao gosto da esquerda estatizante: "a política comanda sempre a economia". Querem ver que o homem é mesmo socialista?
2008/09/12
Podium
O que está a acontecer na China, a exemplo do que tinha acontecido em Atenas, devia fazer corar de vergonha alguns dos nossos atletas do desporto-rei, pagos a peso de ouro, além de outros para quem a "caminha" é o lugar possível.Dos jornais de futebol, a que muita gente insiste em chamar desportivos, não vale a pena falar. Apesar da evidência, continuam a dedicar as suas capas a uma selecção de "ouro" que nunca ganhou nada.
Estamos a falar dos atletas portugueses para-olímpicos, de quem vamos sabendo que já ganharam 5 medalhas em Pequim. Eles são os verdadeiros heróis, neste país de vilões onde a Federação Portuguesa de Futebol exige 1500 euros a um jovem alemão para poder jogar no nosso campeonato amador. Haja vergonha!
2008/09/10
Buraco Negro
No mesmo dia em que, na Suiça, centenas de cientistas portugueses integram a equipa internacional responsável por uma das mais espectaculares experiências da física contemporânea - a recriação, num túnel acelerador de partículas, dos primeiros momentos da humanidade - outras notícias (bem menos optimistas) sobre o nível de formação dos portugueses, passaram despercebidas nos meios de comunicação nacional.
Assim, e de acordo com o último relatório publicado pela OCDE, Portugal continua a ocupar um dos lugares mais baixos no "ranking" europeu de qualificações escolares:
Mais de 60% da mão-de-obra portuguesa não tem qualquer formação específica (atrás de nós, só a Turquia com 63%).
Apenas 13% da população portuguesa é licenciada (atrás de nós, só a Turquia com 10%).
Somente 28% da mão-de-obra portuguesa é qualificada (também aqui, só a Turquia tem menos: 25%).
Ou seja, em três dos indicadores mais importantes, ocupamos sistematicamente o penúltimo lugar entre mais de trinta países europeus escrutinados.
Se juntarmos a esta notícia, a do INE, que nos diz que 9% da população (cerca de 1 milhão de portugueses!) continua estruturalmente analfabeta e 48% é analfabeta funcional, isto após mais três décadas de democracia e mais de duas décadas de quadros comunitários de apoio, é caso para perguntar: como é isto possível?
Bem pode o governo do "engenheiro" continuar a oferecer computadores "magalhães" e simplificar os exames para melhorar as estatísticas. Perante esta dramática realidade, não há acelerador que resista ao negro do nosso túnel. Um verdadeiro buraco!
Assim, e de acordo com o último relatório publicado pela OCDE, Portugal continua a ocupar um dos lugares mais baixos no "ranking" europeu de qualificações escolares:
Mais de 60% da mão-de-obra portuguesa não tem qualquer formação específica (atrás de nós, só a Turquia com 63%).
Apenas 13% da população portuguesa é licenciada (atrás de nós, só a Turquia com 10%).
Somente 28% da mão-de-obra portuguesa é qualificada (também aqui, só a Turquia tem menos: 25%).
Ou seja, em três dos indicadores mais importantes, ocupamos sistematicamente o penúltimo lugar entre mais de trinta países europeus escrutinados.
Se juntarmos a esta notícia, a do INE, que nos diz que 9% da população (cerca de 1 milhão de portugueses!) continua estruturalmente analfabeta e 48% é analfabeta funcional, isto após mais três décadas de democracia e mais de duas décadas de quadros comunitários de apoio, é caso para perguntar: como é isto possível?
Bem pode o governo do "engenheiro" continuar a oferecer computadores "magalhães" e simplificar os exames para melhorar as estatísticas. Perante esta dramática realidade, não há acelerador que resista ao negro do nosso túnel. Um verdadeiro buraco!
2008/09/09
Protões à solta daqui a pouco na Suiça!
É desta que o Large Hadron Collider (LHC) , o super acelerador de partículas, vai começar a funcionar. Daqui a pouco, pelas 3.30h (suponho que hora da Europa Central), os primeiros protões vão ser lançados no túnel do acelerador a velocidades muito próximas das da luz. Por agora vão apenas circular para aquecer. Mais tarde dar-se-á a colisão. Das duas uma: ou acaba o mundo, engolido por um qualquer fenómeno provocado pela zanga dos deuses que não suportam que se brinque com as suas prerrogativas, ou então, como diz o director-geral do CERN, Robert Aymar "qualquer sugestão de que possa constituir um risco é pura ficção." A hipótese de se gerar um buraco negro ou outra coisa ainda mais medonha não passará portanto de especulação...Eu sei que "protões" lançaria de bom grado, a velocidades próximas da da luz, por estes túneis do Hadron, até à colisão fatal. Mas, não digo!
Por agora fiquemos com os factos...
O LHC foi concebido para acelerar protões que irão gerar uma energia da ordem dos 7.000.000.000.000 electrões-volt. Estamos perante um projecto que dura há vinte anos e custou a módica quantia de 8 mil milhões de dólares. Nele trabalharam mais de 7.000 físicos de 80 nações. O túnel do LHC --com tamanho suficiente para nele poder passar um comboio-- tem 27 quilómetros de perímetro e está a 175 metros da superfície. As temperaturas geradas serão um milhão (um milhão!) de vezes mais altas que o núcleo do Sol. Os ímanes supercondutores que balizam o percurso das partículas lançadas a velocidades próximas da velocidade da luz são arrefecidos a temperaturas mais baixas que as que se verificam no espaço (-193.2º C).
O "espetáculo" poderá ser visto em http://webcast.cern.ch/ para quem gostar de emoções fortes. Será, seguramente, bem mais excitante que o discurso de encerramento da "universidade de verão do PSD" pela dra. Manuela Ferreira Leite...
(a imagem é do CERN)
2008/09/07
O tigre de papel
A América está a mudar? Vai mudar? Já mudou? Ou nunca mudou? Em véspera de eleições americanas, numa altura em que se ouvem cidadãos de outros países, que não têm direito a voto na América e que, se calhar, nem votam nos seus próprios países, proclamarem a sua preferência por este ou por aquele candidato, ou zurzirem no candidato que, no seu entender, não corresponde às suas simpatias ideológicas, surgem sinais de que as coisas na América já não são o que foram. Talvez nunca mais voltem a ser o que foram. Talvez mesmo nunca tenham sido aquilo que a gente pensa que foram....!
Entre as notícias sobre vices com mais ou menos viço, surgiram recentemente outras dando conta da preocupação de diversos analistas sobre o declínio da capacidade de inovação da sociedade americana. Embora alguns sectores ponham em causa a legimtimidade destas preocupações, o certo é que há diversos factos objectivos que demonstram que os E.U. estão hoje longe de ser o país onde reside a força que faz mover as rodas do progresso. As vozes que proclamam a sua preocupação sobre o que chamam de "défice de inovação" na América multiplicam-se.
Interessante nesta matéria um recente artigo do NYT sobre um livro há pouco publicado de autoria de Judy Estrin, uma dessas vozes críticas, chamado "Closing the Innovation Gap". É desse artigo que retirei a maior parte dos dados que cito aqui. Os cépticos dizem que não, que os E.U. mantêm uma liderança inquestionável em matéria de ciência e inovação. 40% do total dispendido no mundo na área da ciência provém da América. 70% dos prémios Nobel são americanos. A América tem 75% das 40 melhores universidades do mundo. Mas, a história pode não ser bem assim. A liderança dos E.U. em matéria de ciência e inovação é conseguida à custa de conhecimentos e tecnologias desenvolvidos há décadas. O que acontecerá quando o efeito se esgotar? A verdade é que, como diz um relatório encomendado pelo Congresso norte-americano, o financiamento em áreas como a física, por exemplo, era 40% inferior em 2004 ao que se verificava em 1976 e que 93% dos alunos entre o 5º e o 8º ano aprendiam ciência de professores sem as necessárias qualificações.
A actual liderança parece, pois, estar baseada numa estrutura montada há décadas, cujos efeitos se fazem agora sentir. Essa estrutura afigura-se não estar a ser sustentada e assim os americanos parecem começar a sentir uma mudança nos eixos do progresso científico, que agora parecem inclinar-se mais para os lados da China e da Índia. 30 a 40% dos graduados das universidades chinesas e indianas têm títulos na área das engenharias, contra os 5% dos graduados americanos. Mais: 60% dos títulos das universidades americanas são atribuídos a estudantes de outros países que não ficam na América a trabalhar, uma vez que a dinâmica económica americana não se compara com a desses países.
"Neste momento o país parece estar num lento declínio -nas suas infraestructuras, na investigação básica, na educação- lento suficientemente para nos levar a pensar que temos todo o tempo do mundo para andar a brincar em Tbilisi, Georgia, mais do que em Atlanta, Georgia," escreve Thomas L. Friedman, também nas páginas do NYT, a propósito do investimento americano de mil milhões de dólares para reconstruir a Georgia depois do conflito com a Rússia.
A internet é um exemplo interessante e talvez paradigmático. Trata-se de uma criação americana dos anos 70. O tráfego de dados na internet passou durante estas três primeiras décadas de existência pelos E.U.. Até o tráfego nacional de dados, num qualquer país com a sua própria rede, passava pelos servidores americanos. A falta de investimento em infraestruturas modernas e problemas de segurança têm levado grandes regiões económicas como o Canadá, a Europa e o Japão a criar as suas próprias redes e a curto-circuitarem as redes americanas. Os E.U. assistem hoje a uma mudança nos fluxos do tráfego de dados, com claros efeitos na sua economia e até na sua segurança. Cito de um outro artigo do NYT de que me socorro para alinhavar estas notas, Yochai Benkler, director adjunto do Berkman Center for Internet and Society at Harvard, que diz, relativamente ao esforço que neste domínio tem sido feito por países como a China e a Índia, o seguinte: “nós, por comparação, estamos militarmente mais fracos, economicamente mais pobres e tecnologicamente menos inovadores do que éramos. Ainda somos um parceiro maior, mas já não somos nós a controlar."
Mas, será que alguma vez os E.U. estiveram, verdadeiramente, a controlar? Será que se pode falar, verdadeiramente, de inovação no caso dos Estados Unidos? Ou será que outros factores entraram em jogo para conferir a este país a sua hegemonia tecnológica? Não serão antes o bloqueio mental e o preconceito europeus os factores decisivos que contribuíram para dar aos E.U. essa sua vantagem? A inovação americana começou por assentar basicamente em conhecimentos desenvolvidos e em massa crítica existente noutras paragens. Onde estaria ela, a inovação americana, sem os Von Braun e os Von Neumman made in Europe? E teria, por seu turno, Turing tido o fim que acabou por ter se não fosse o preconceito e a estreiteza de horizontes dos ingleses?
Esgotado que está o efeito desse período inovador, não podendo continuar a atrair e a manter os actuais e futuros Von Braun e os Von Neumman, se calhar não é só o domínio do tráfego da internet que os E. U. vão perder. O que constitui uma boa nova para o mundo.
Já agora, uma pergunta: enquanto os E.U. andam entretidos a resolver o problema das hipotecas nacionalizando o Fannie Mae e o Freddie Mac, alguém quer aproveitar esta "nova oportunidade", ou vamos já começar a prestar vassalagem ao novo líder antes de o ser?
Entre as notícias sobre vices com mais ou menos viço, surgiram recentemente outras dando conta da preocupação de diversos analistas sobre o declínio da capacidade de inovação da sociedade americana. Embora alguns sectores ponham em causa a legimtimidade destas preocupações, o certo é que há diversos factos objectivos que demonstram que os E.U. estão hoje longe de ser o país onde reside a força que faz mover as rodas do progresso. As vozes que proclamam a sua preocupação sobre o que chamam de "défice de inovação" na América multiplicam-se.
Interessante nesta matéria um recente artigo do NYT sobre um livro há pouco publicado de autoria de Judy Estrin, uma dessas vozes críticas, chamado "Closing the Innovation Gap". É desse artigo que retirei a maior parte dos dados que cito aqui. Os cépticos dizem que não, que os E.U. mantêm uma liderança inquestionável em matéria de ciência e inovação. 40% do total dispendido no mundo na área da ciência provém da América. 70% dos prémios Nobel são americanos. A América tem 75% das 40 melhores universidades do mundo. Mas, a história pode não ser bem assim. A liderança dos E.U. em matéria de ciência e inovação é conseguida à custa de conhecimentos e tecnologias desenvolvidos há décadas. O que acontecerá quando o efeito se esgotar? A verdade é que, como diz um relatório encomendado pelo Congresso norte-americano, o financiamento em áreas como a física, por exemplo, era 40% inferior em 2004 ao que se verificava em 1976 e que 93% dos alunos entre o 5º e o 8º ano aprendiam ciência de professores sem as necessárias qualificações.
A actual liderança parece, pois, estar baseada numa estrutura montada há décadas, cujos efeitos se fazem agora sentir. Essa estrutura afigura-se não estar a ser sustentada e assim os americanos parecem começar a sentir uma mudança nos eixos do progresso científico, que agora parecem inclinar-se mais para os lados da China e da Índia. 30 a 40% dos graduados das universidades chinesas e indianas têm títulos na área das engenharias, contra os 5% dos graduados americanos. Mais: 60% dos títulos das universidades americanas são atribuídos a estudantes de outros países que não ficam na América a trabalhar, uma vez que a dinâmica económica americana não se compara com a desses países.
"Neste momento o país parece estar num lento declínio -nas suas infraestructuras, na investigação básica, na educação- lento suficientemente para nos levar a pensar que temos todo o tempo do mundo para andar a brincar em Tbilisi, Georgia, mais do que em Atlanta, Georgia," escreve Thomas L. Friedman, também nas páginas do NYT, a propósito do investimento americano de mil milhões de dólares para reconstruir a Georgia depois do conflito com a Rússia.
A internet é um exemplo interessante e talvez paradigmático. Trata-se de uma criação americana dos anos 70. O tráfego de dados na internet passou durante estas três primeiras décadas de existência pelos E.U.. Até o tráfego nacional de dados, num qualquer país com a sua própria rede, passava pelos servidores americanos. A falta de investimento em infraestruturas modernas e problemas de segurança têm levado grandes regiões económicas como o Canadá, a Europa e o Japão a criar as suas próprias redes e a curto-circuitarem as redes americanas. Os E.U. assistem hoje a uma mudança nos fluxos do tráfego de dados, com claros efeitos na sua economia e até na sua segurança. Cito de um outro artigo do NYT de que me socorro para alinhavar estas notas, Yochai Benkler, director adjunto do Berkman Center for Internet and Society at Harvard, que diz, relativamente ao esforço que neste domínio tem sido feito por países como a China e a Índia, o seguinte: “nós, por comparação, estamos militarmente mais fracos, economicamente mais pobres e tecnologicamente menos inovadores do que éramos. Ainda somos um parceiro maior, mas já não somos nós a controlar."
Mas, será que alguma vez os E.U. estiveram, verdadeiramente, a controlar? Será que se pode falar, verdadeiramente, de inovação no caso dos Estados Unidos? Ou será que outros factores entraram em jogo para conferir a este país a sua hegemonia tecnológica? Não serão antes o bloqueio mental e o preconceito europeus os factores decisivos que contribuíram para dar aos E.U. essa sua vantagem? A inovação americana começou por assentar basicamente em conhecimentos desenvolvidos e em massa crítica existente noutras paragens. Onde estaria ela, a inovação americana, sem os Von Braun e os Von Neumman made in Europe? E teria, por seu turno, Turing tido o fim que acabou por ter se não fosse o preconceito e a estreiteza de horizontes dos ingleses?
Esgotado que está o efeito desse período inovador, não podendo continuar a atrair e a manter os actuais e futuros Von Braun e os Von Neumman, se calhar não é só o domínio do tráfego da internet que os E. U. vão perder. O que constitui uma boa nova para o mundo.
Já agora, uma pergunta: enquanto os E.U. andam entretidos a resolver o problema das hipotecas nacionalizando o Fannie Mae e o Freddie Mac, alguém quer aproveitar esta "nova oportunidade", ou vamos já começar a prestar vassalagem ao novo líder antes de o ser?
2008/09/04
Liberdade Angolana
Nao é a recusa de "vistos" angolanos aos jornalistas portugueses que deve constituir uma surpresa. A reacção do regime cleptocrata de Eduardo Santos às críticas veículadas pela imprensa de Balsemão é em tudo coerente com a política silenciadora e repressiva de uma ditadura. O que deve constituir uma surpresa é o constante bajular dos nossos representantes políticos - do Presidente da República ao Primeiro-Ministro - que tudo fazem para não ter uma opinião sobre um dos governos mais abomináveis do continente africano.
Pior mesmo, só a opinião do jornalista angolano David Borges que, nos estúdios da SIC (impedida de entrar em Angola), conseguiu defender o regime sem ousar defender os seus colegas jornalistas. É preciso coragem!
Pior mesmo, só a opinião do jornalista angolano David Borges que, nos estúdios da SIC (impedida de entrar em Angola), conseguiu defender o regime sem ousar defender os seus colegas jornalistas. É preciso coragem!
2008/09/02
Por quem os sinos dobram
Há mais de 20 anos trabalhei no departamento de ruído da então Secretaria de Estado do Ambiente (S.E.A.). Uma das áreas que mais preocupações nos dava era a das reclamações. Não se tratava de nenhuma brincadeira: o ruído era a causa principal de reclamação dentro da S.E.A.. As consequências desta disfunção ambiental podem ser extremamente sérias. Desde problemas gravíssimos de saúde até casos de tentativa de homicídio (consumado, num caso ocorrido na Amadora na altura em que trabalhava nesta área), passando por desavenças entre vizinhos (por vezes até entre familiares!) que acabavam em tribunal, houve de tudo um pouco.Em dado momento começámos a receber um número crescente de reclamações relativas ao que foi classificado como "sinos electrónicos". O "sino electrónico" (descobri-o no terreno...) era um vulgaríssimo relógio de pêndulo, com um pequeno badalo, daqueles que se penduram na sala ou no corredor, que uns quantos espertalhões equipavam com um microfone barato, ligado a um amplificador, por sua vez ligado a uma dessas "cornetas" acústicas de feira. As "cornetas" eram montadas nas torres sineiras tradicionais, o relógio e o restante equipamento era geralmente montados na sacristia. O preço de um sistema destes ultrapassava largamente o milhar de contos...
R. Murray Schafer, o conhecido teórico da área da ecologia acústica e criador do conceito de "paisagem sonora", diz numa das suas obras que o espaço acústico de um sino de uma igreja tradicional definia a área da paróquia. Schafer fala também no sino como "som sagrado", um som tornado símbolo pelas suas características, mas também pela autoridade de quem tem o poder de o fazer soar. Mas, é Alain Corbin quem no livro Les Cloches de la Terre nos desvenda os complicados mecanismos que estão por detrás do campanário da igreja. Os sinos são efectivamente sinais de poder e de autoridade e elementos estruturadores do território. Foram pretexto para sérios confrontos locais entre o poder eclesiástico e o poder civil. Quem os faz soar tem o poder de silenciar os outros, sob o ponto de vista simbólico e real. O sino evoca respeito, mas pelas suas características físicas silencia efectivamente tudo à sua volta. É um factor fulcral na definição de pertença a uma determinada comunidade e, finalmente, ao marcar um território, a sua operação define as hierarquias dentro da comunidade que o habita.
Ora, o "melhoramento" do "sino electrónico" procurava aparentemente subverter a ordem vigente ditada pelas relações de poder geradas no contexto da utilização do sino tradicional. O território alargava-se (o sino passou a ser ouvido nas paróquias vizinhas) e todos e ninguém o podiam faziam soar. No espírito de muitos, tratar-se-ia de uma conquista de Abril, portanto...
O que estes novos democratas esqueceram foi que o aumento do impacto sonoro do "sino electrónico", para chegar aos "territórios" vizinhos e assim satisfazer estes desejos "expansionistas" de subjugação dos vizinhos e de esmagamento por via "electrónica" de velhas rivalidades, iria começar por ter consequências perniciosas no seu próprio território e a suscitar desavenças dentro das suas próprias casas. Os efeitos dos sistemas pomposamente designados por "sinos electrónicos" são insuportáveis mesmo para os novos paroquianos com desejos expansionistas e, afinal de contas, um "sino electrónico" não é, de facto, um sino. Tivemos um caso verdadeiramente caricato de um morador abastado que pagou um destes sistemas, mas acabou por levar a aldeia a tribunal porque não conseguia dormir e as tentativas para fazer desactivar o sistema, que ele próprio num primeiro impulso tinha pago e que o impediam a si e à sua família de dormir, foram totalmente infrutíferas...
Não há, com efeito, nada de verdadeiramente único que materialize este "símbolo": o som é igual ao de todos os outros, e o "objecto" é agora um amontoado de fios e aparelhómetros de terceira categoria, guardados num armário de uma qualquer sacristia, longe de todos os olhares.
Fica apenas a capacidade (colectiva, agora expandida e não despicienda) de "democratizar" a marcação de um território e de poder silenciar os outros.
Vem isto tudo a propósito de um caso que agora anda aí nos jornais, ocorrido em Vilar de Perdizes onde foi instalado um destes sistemas. Pelo que pude constatar, trata-se de um sistema semelhante ao que descrevi acima.
Fica apenas a capacidade (colectiva, agora expandida e não despicienda) de "democratizar" a marcação de um território e de poder silenciar os outros.
Vem isto tudo a propósito de um caso que agora anda aí nos jornais, ocorrido em Vilar de Perdizes onde foi instalado um destes sistemas. Pelo que pude constatar, trata-se de um sistema semelhante ao que descrevi acima.
Como não podia deixar de ser, o "melhoramento" gerou uma série de reclamações --do próprio padre da paróquia, imagine-se!, o padre Fontes, promotor dos congressos de medicina popular. Mas, uma parte significativa da população opõe-se ao silenciamento do "sino" porque este mantém implicitamente a aludida capacidade de marcar território e silenciar os outros. Entre os argumentos explícitos a favor desta "guerra", uns invocam o prazer que lhes dá ouvir o toque da corneta acústica, outros saúdam o facto de, por serem analfabetos e não saberem ver as horas num relógio, poderem ouvir as horas de noite para tomar um remédio...
Esta capacidade de fazer soar estes novos "sinos" pode não ser, em si mesma, um factor negativo. Antigamente seria o pároco ou o regedor que teriam a chave do campanário e com ela a capacidade de fazer soar o sino. Agora será o povo que manda, ou tem a sensação que manda. O que me parece singular (e os sociólogos e antropólogos terão aqui uma palavra a dizer), e ilustra sem dúvida o que é este Portugal real em que vivemos, no ano de graça de 2008, é que se gere um conflito destas proporções porque há analfabetos que não sabem ver as horas num relógio e necessitam, portanto, das badaladas de um relógio público para poderem tomar um comprimido de noite, e gente sensível e de gosto educado a quem dá prazer ouvir a solenidade do toque das Avé-Marias através de uma corneta acústica manhosa, feita de lata.
Bronze para que te quero! Glória a todos estes portugueses, que controlam agora o som sagrado, que se emocionam ao som do relógio da sala e por quem a corneta acústica dobrará a finados quando morrerem...
Esta capacidade de fazer soar estes novos "sinos" pode não ser, em si mesma, um factor negativo. Antigamente seria o pároco ou o regedor que teriam a chave do campanário e com ela a capacidade de fazer soar o sino. Agora será o povo que manda, ou tem a sensação que manda. O que me parece singular (e os sociólogos e antropólogos terão aqui uma palavra a dizer), e ilustra sem dúvida o que é este Portugal real em que vivemos, no ano de graça de 2008, é que se gere um conflito destas proporções porque há analfabetos que não sabem ver as horas num relógio e necessitam, portanto, das badaladas de um relógio público para poderem tomar um comprimido de noite, e gente sensível e de gosto educado a quem dá prazer ouvir a solenidade do toque das Avé-Marias através de uma corneta acústica manhosa, feita de lata.
Bronze para que te quero! Glória a todos estes portugueses, que controlam agora o som sagrado, que se emocionam ao som do relógio da sala e por quem a corneta acústica dobrará a finados quando morrerem...
(a foto foi picada do blog "Ferrado de Cabrões")
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