2020/05/04

Sete semanas noutra cidade: começou a fase 0...


Depois do levantar o confinamento para "niños" até aos 14 anos, desde que acompanhados pelos pais ou tutores identificados, o governo espanhol "autorizou" os maiores de 70 anos (leia-se "grupo de risco") a saírem da quarentena, em períodos diferenciados do dia. Podem, agora, sair das 10h às 12h e das 19h e as 20h, diariamente. Uma alegria.
Durante o dia, só os adultos empregados em funções imprescindíveis (médicos, enfermeiros, maqueiros, bombeiros, condutores de transportes públicos, taxistas, polícia, ou serviços indispensáveis, como a água, electricidade e gaz) estão autorizados.
Para além destes grupos etários, as restantes pessoas (todas, portanto!) podem sair para tarefas indispensáveis: ir ao supermercado, à farmácia, ao multibanco, passear o cão e fazer "jogging", desde que mantenham o distanciamento social de dois metros e usem máscara e luvas. Para dentro de casa mantêm-se as recomendações iniciais: lavar as mãos com álcool ou gel (sabão azul e branco, também serve), mudar de roupa e acessórios quando se sai/entra em casa, lavar as máscaras e as luvas com desinfectante, etc. Uma trabalheira, para além da despesa implícita. Já vou na terceira versão da máscara e cada vez as compro mais caras. Há as ordinárias (misto de papel e têxtil) que custam 96c e são para usar e deitar fora; as de têxtil melhorado, que custam €5,90 e as profissionais ("bico de pato") que custam €6,60. As primeiras (quirocirúrgicas) evitam contaminar o parceiro, mas nós podemos ser infectados; as segundas, sendo mais seguras, exigem lavagens frequentes; as terceiras, que parecem viseiras da idade média, dada a sua forma ponteaguda, impõem respeito e mantêm as pessoas à distância. O pior é o calor na cara. Ontem, estiveram 35 graus em Sevilha e as máscaras profissionais são insuportáveis. Se o vírus não morrer com esta temperatura, morrem os cidadãos de certeza...

Fase 0
A Espanha entrou, oficialmente, na fase 0.
Entretanto, o governo deu a conhecer o programa de desconfinamento por fases. Serão cinco no total, com a duração de duas semanas, cada. Se tudo correr bem, em Julho terminará a quarentena. Se não (leia-se, aumento do número de infecções), volta tudo ao princípio.
A estratégia, subordinada ao título "A que horas posso sair à rua?", é a seguinte:   
Das 06h às 10h -  Maiores de 14 anos, sózinho ou acompanhado, num raio de 1km, sempre à distância de dois metros. Os desportistas individuais, não têm limite de circulação, dentro do município;
Das 10h às 12h - Maiores de 70 anos, sózinhos ou acompanhados.
Das 12h às 19h - Menores de 14 anos acompanhados.
Das 19h às 20h - Maiores de 70 anos, sós ou acompanhados.
Das 20h às 23h - Exercícios físicos ou passeios. Não são permitidos carros ou transportes públicos.
Estas medidas não se aplicam em municípios com menos de 5000 habitantes.
Consultada a tabela, verifico que posso sair em todos os períodos, à excepção daquele compreendido entre as 12h e as 19h, dedicado aos "niños". Nada mau...
Como era de esperar, pouca gente respeita as regras e não se vê tanta polícia como nas primeiras semanas de confinamento. Os carros de patrulha, passam agora discretamente pelos transeuntes e só interferem quando vêem grupos parados nos passeios. A ordem, nesta altura, é para circularem.
O plano gerou inquietação no mundo empresarial (indústria, hotelaria, restauração, imobiliárias e grandes armazéns) e os protestos não se fizeram esperar. Na melhor das hipóteses, só na 2ª quinzena de Maio e com restrições (ocupação de 1/3 dos lugares disponíveis, distanciamento mínimo nos hotéis, restaurantes, etc...), haverá um afrouxamento de algumas medidas. As reuniões e as petições contra as medidas do governo, já surgiram e os partidos políticos da oposição aproveitam o descontentamento dos empresários, para apertarem o cerco a Sanchéz/Iglésias, que tentam manobrar no meio da tempestade que se avizinha. O PIB deve cair 9% e tudo aponta para que a dívida espanhola ultrapasse os 120% do PIB, enquanto o desemprego pode disparar até 20% da população activa. A "tempestade perfeita", no dizer dos analistas. É por isso, natural, que o PP, o CCds e o VOX tentem explorar a crise. 
A boa notícia, é que o IFEMA (hospital provisório, construído em Madrid, para receber infectados) encerrou as suas portas, por não ter mais pacientes. Pelas suas instalações, passaram no último mês, mais de 4000 infectados. Ontem, foram registadas 164 mortes,  a nível nacional, o número mais baixo desde a primeira quinzena de Março.

Ainda que estejamos longe do fim da pandemia (que parece ter ultrapassado o seu pico na Europa, mas continua a deslocar-se para outros continentes), os métodos utilizados para combatê-la, podem ser reduzidos a três tipos de intervenção distintos: o do confinamento tradicional (exemplos: Portugal, Espanha, Itália, França, etc...); o do semi-confinamento ou sistema aberto (exemplos: Suécia, Holanda, UK, EUA) e o sistema asiático, de controlo digital (exemplos: China, Coreia do Sul, Taiwan, Japão e Singapura). Todos têm os seus adeptos e detractores, pelo que a polémica está longe de encerrada.
Na Ásia, onde o vírus foi detectado (China), os países mais atingidos debelaram o vírus com relativa rapidez e eficácia, graças ao sistema de controlo digital existente, que permite seguir todos os passos dos cidadãos, através de uma "app" instalada nos seus telemóveis que, por sua vez, estão ligados a um sofisticado sistema de cãmaras de vigilância. A "app", que serve para medir a febre do portador do telemóvel, está ligada ao sistema central de informação e, a partir de identificação pessoal, é fácil rastrear quem está infectado ou não. Dessa forma, foi possível confinar a população infectada e isolá-la do resto da população. Um êxito (só possível em estados fortemente centralizados e autoritários) onde os cidadãos, aparentemente, confiam no estado "protector" e não se importam de partilhar informação.
Método diferente, e mais consensual, é o do confinamento total (afinal, já usado na Idade Média) quando se desconhecem as causas (vírus) e não existe tratamento (vacina) para a cura. Isolam-se as populações em casa, coercivamente se necessário, de forma a diminuir o risco de contágio e a evitar o colapso das unidades hospitalares que, em caso de pânico, ficariam sobrecarregadas.
Finalmente, o sistema aberto (ou "inteligent lockdown") que tem os seus adeptos nos países europeus mais liberais e foi seguido e.o. pela Holanda, pela Suécia, pela Noruega, pelo UK e pelos EUA. Este sistema defende a "imunidade do rebanho" (herd's imunity) segundo a qual, a imunidade de grupo, é atingida quando 60% da sua população fica infectada. Nessa altura, o grupo-alvo, está imune. Isto, enquanto não houver vacina, claro.
Johan Giesecke, ex-director geral da saúde sueca e actual assessor para questões epidemiológicas naquele país, deu ontem uma entrevista ao "Público", onde defende o método sueco, aconselhando as pessoas a fazer a sua vida normal ao ar livre, ainda que mantendo o distanciamento social aconselhável. Também diz que a imunidade de grupo, na Suécia, rondará os 25% na região da grande Estocolmo (2,5 milhões de habitantes), o que quer dizer que cerca de 625.000 cidadãos suecos, já estarão imunes. Na mesma entrevista, afirma que, quando esta pandemia terminar, os números de mortes serão muito semelhantes em todo o continente europeu...
Fomos consultar os dados disponibilizados pela Organização Mundial de Saúde (site "worldometer"):
Dos 30 primeiros países da lista, só 6 países apresentam mais mortes em números relativos (mortos por milhão de habitantes) do que a Suécia: a Espanha (544), a Itália (478), o Reino Unido (419), a França (381), a Bélgica (684) e a Holanda (297). A Suécia tem 274/por milhão. Os restantes 23 países, entre os quais Portugal (104/por milhão), têm todos menos mortes.
Em ambos os grupos, há países que defendem o confinamento geral e países que defendem o sistema aberto. Portugal, que tem sensivelmente o mesmo número de habitantes da Suécia (10 milhões) e defende o confinamento geral, tem quase 3 vezes menos mortos que a Suécia, que tem um sistema aberto. Afinal, em que ficamos?
Numa coisa, estou de acordo com Giesecke. Ele alerta para os perigos dos estados de emergência, que os ditadores não deixarão de aproveitar para aumentar o seu poder. Dá o exemplo de Orbán (Hungria). É verdade. Por isso, para além de combater o vírus, também é preciso combater os ditadores.

2020/04/29

Seis semanas noutra cidade: uma luz ao fundo do túnel...

foto Extra Venezuela
Pela primeira vez, em 6 semanas, as crianças espanholas puderam sair à rua depois de 42 dias de "confinamiento". Um acontecimento nacional, celebrado por todas as famílias com filhos menores, impedidos de ir à escola desde o dia 16 de Março. Na passada segunda-feira, as ruas de Sevilha encheram-se de pais atentos e cuidadosos, que passeavam de mão dada com os "niños", como se fora a primeira saída da sua vida. Milhares deles, pais e filhos, em grupos de 3 e 4 pessoas, a pé ou de bicicleta, nos parques e ruas da cidade. Uma festa!
O episódio gerou uma onda de anedotas nas redes sociais, das quais destacamos aquela onde um pai pressuroso, é interrogado por um polícia, que lhe pergunta: "onde vai o senhor, sózinho?"... "ah, pois, tenho de voltar, tenho de voltar...na pressa, trouxe os bilhetes de identidade, meu e do "niño", a licença paternal para poder acompanhá-lo, o "lanche", a garrafa de água, a máscara, as luvas, a mochila, a fita métrica para medir a distância permitida e... esqueci-me do "niño"!".  
Para que isto acontecesse, foram necessárias semanas de isolamento draconiano, preconizadas num dos países mais afectados pela actual pandemia: 236.899 infectados e 24.275 mortes, o que tornou a Espanha no 2º país com maior número de infectados e o 3º com maior número de mortes, a nível mundial. Tratam-se de números absolutos (fonte: worldometer), que não contabilizam os números relativos por país. Pior, só mesmo os EUA e a Itália (em número de mortes), ainda que, noutros países (França, UK, Alemanha, Turquia, Irão, Brasil, China, Bélgica, Holanda...) o número de infectados continue a crescer. Dado que os infectados são sempre mais do que revelam as estatísticas e sabendo que o número de testes está muito aquém do necessário, fácil é concluir que estamos longe de uma pandemia controlada. Isto, apesar dos sinais positivos que vão sendo dados nalguns países onde o "pico" da pandemia foi ultrapassado e onde se iniciou a chamada fase do "achatamento" da curva de infecções. Mas faltam muitos países de risco anunciado, como o Brasil (onde em poucas semanas, o número de infectados e mortos ultrapassou os da China), a Índia ou a Indonésia, países de grande densidade populacional, com graves problemas sanitários e onde os sistemas de saúde deixam a desejar. Uma longa marcha e ainda falta África...
Não está fácil o combate ao vírus, ainda que algumas análises pretendam desvalorizá-lo, apresentando estudos comparativos, onde demonstram que a gripe mata mais pessoas no Mundo inteiro do que o Covid19. É verdade, mas para a gripe há vacina e para o Covidis19 (ainda) não. Enquanto não for resolvido este problema (que pode demorar um ano ou mais) o vírus vai continuar a disseminar-se pelo Mundo e voltar a "atacar". Os especialistas (vírologistas, epidemiologistas...) já avisaram sobre a recidiva no próximo Inverno. Só negacionistas, como Trump e Bolsonaro, desprezam a ciência e, por isso, estão a pagar com "língua de palmo" a sua ignorância. Boris Jonhson, outro tonto, também pensava que o Reino Unido podia continuar com a "city" aberta, pois a economia não devia parar, mas a realidade foi mais forte que o "mercado de capitais". Resta saber se, depois da quarentena forçada a que foi obrigado, aprendeu alguma coisa com a infecção...
Em Espanha, independentemente das medidas que o governo anuncie, a oposição condena sempre. Sem poder constituir uma alternativa de poder, dada a composição parlamentar actual, os partidos de direita franquista (PP e Vox), alternam-se nas críticas ao executivo: ou porque faltam máscaras, ou porque estas são caras, ou porque faltam testes, ou porque a economia não pode parar, ou porque os apoios para as regiões são poucos, enfim, a lista é longa. Mesmo depois do pré-acordo, conseguido na passada semana em Bruxelas, que prevê a maior ajuda europeia para esta crise, o governo de Sánchez não parece ter a vida facilitada. O endividamento do país (dívida pública), o fraco crescimento económico e o desemprego, previsiveis após a crise sanitária, apresentam-se como os grandes obstáculos para uma recuperação rápida da economia e a oposição tudo fará para derrubar a coligação actual (PSOE/Podemos) no poder. Só não o conseguirá, se os catalães (uns cretinos, nesta crise) o não quiserem. Tudo em suspenso, em Espanha, pois.
Interessantes, têm sido as opiniões do homem comum e dos "media" espanhóis (El País, El Diario de Sevilla) sobre Portugal. Depois dos rasgados elogios do New York Times e da Euronews, à forma como Portugal tem enfrentado esta crise - um país com fracos recursos e um sistema de saúde fragilizado depois da crise de 2008 - é a vez dos espanhóis se "renderem" à eficácia do método português. Um excerto de um artigo, intitulado "La Excepción Portuguesa", no "El País" de ontem (dia 28 de Abril):
"Con la quarta parte de población que España, Portugal tiene una tasa de mortalidad por coronavirus del 3%, mucho más baja que las de España (10%), El Reino Unido (12%) o Francia (15%) y la razón de esta notable diferencia es analisada por el periodista Paul Ames, quien destaca que ni su aventejada población ni una sanidad con escasos recursos han impedido un éxito de gestión que ha mitigado el castigo de la Covid19". E o cronista, continua: "Los portugueses comprendieron de imediato que debían compensar sus limitaciones. El autor ha conversado con Ricardo Baptista Leite, médico especialista en enfermedades infecciosas y diputado del PSD, el partido de oposición de centroderecha, quien destaca la enorme solidaridad que han demonstrado por ser conscientes de que Portugal tenía que hacer un esfuerzo mayor que otras naciones si queria doblegar la curva de contagios". Ames aponta outra importante diferença, em relação a Espanha e Itália: " Al primer ministro, Antonio Costa, no le han disparado franco-tiradores de la oposición, porque los políticos se han dado una tregua muy envidiada em Madrid. Baptista Leite defiende que este es el momento de colaborar, no de confrontar, y de que públicamente se proyecte una imagen de unidad aunque en privado se hagan llegar al Gobierno críticas por algunas decisiones". 
Pois é, a cooperação, contra um inimigo comum.
Em Sevilha, onde me encontro há seis semanas em "confinamiento", as palmas diárias de apoio ao pessoal médico e sanitário, também são intercaladas por "panelaços" de saudosistas, que penduram bandeiras franquistas nas varandas. Já a música, em alto volume, é para todos os gostos. Há prédios que preferem "Sevilhanas" e outros que preferem "La Bella Ciao". É difícil agradar a Gregos e Troianos, neste país.  
                 
   

2020/04/25

(Apesar do confinamento) 25 de Abril, sempre!

gravura de José Santa Bárbara

Hoje não descerei a Avenida da Liberdade, como sempre fiz nos últimos 24 anos.
Há 46 anos atrás, também não o tinha feito, embora por razões diferentes. Nessa data - nesta data - estava exilado noutro país e impedido de regressar a Portugal.
Uma outra forma de "confinamento", nessa época protegido do "vírus" fascista que governava Portugal.
Nao é fácil protegermo-nos de vírus, ainda que a ciência ajude. Desde logo, com vacinas adequadas e, caso sobrevivamos, através da imunidade criada pelos anti-corpos.
Foi assim com as doenças infantis que todos contraímos na idade própria: do sarampo à varíola, da varicela à tosse convulsa. Para algumas, existia a vacina; para outras, o remédio era a quarentena forçada, que nos imunizava para o resto da vida. Também tomei a famosa BCG (contra a tuberculose), que em Portugal era obrigatória e que, nalguns países, nunca foi. Lembro-me bem, de ser chamado a um centro clínico holandês, onde aguardavam dezenas de refugiados portugueses para serem testados, dado que havia suspeitas que um de nós poderia estar infectado e contaminar os restantes. O médico, que me atendeu, ficou surpreendido por estarmos todos vacinados. Ninguém estava infectado. Nem o suspeito.
Durante os meus 8 anos de exílio, confirmei aquilo que já sabia. Não só estava imunizado contra as mais diversas doenças infantis, como tinha adquirido outras imunidades. Uma delas, contra o fascismo.
Uma "longa travessia", como cantou o Zé Mário, ao longo da qual vamos ficando mais fortes.
Esse vírus não apanhámos nós. E, aqueles que o apanham, são apenas a excepção que confirma a regra. 
Vem esta história toda, a propósito das comemorações deste ano, que vi em directo, através da NET.
Contrariamente a anos anteriores, estavam apenas 96 deputados e alguns convidados nas bancadas circundantes. Estiveram presentes, para além do PR, do PM e do Presidente da AR, representantes de todos os partidos.
Pese a tentativa grosseira de impedir a sessão, através de uma petição lançada em desespero pelo deputado fascista, a comemoração realizou-se na mesma. Da mesma forma que, como bem lembrou o PR, o Parlamento nunca fechou durante esta crise, também haverá celebrações do 10 de Junho, do 5 de Outubro e do 1ª de Dezembro, datas institucionais que não são pertença de ninguém em particular, mas pertencem aos portugueses em geral e por isso devem ser celebradas.
Foi bom seguir os discursos, ainda que à distância, desta vez forçada por um confinamento no estrangeiro. Nada a que não estivesse habituado, de resto.
Todos falaram. Até o fascista. Ainda bem. Prova que a democracia está forte e todos têm direito a expressar as suas opiniões, mesmo quando delas discordamos.
Confirmei aquilo de que suspeitava: estou imunizado contra o vírus do fascismo.   
Fascismo, nunca mais.
25 de Abril, sempre!

2020/04/19

Duas semanas noutra cidade (10): Modelos, Medos e Medidas Avulsas

photo NYTimes
A disseminação do coronavírus, agora de forma constante em todo o hemisfério Norte, obrigou a maior parte dos governos a tomarem medidas de acordo que, para além de sanitárias, reflectem o cariz de cada regime.
Depois do alarme ter soado na China (23 de Janeiro, n.r.), seguiu-se uma rápida reacção dos países limítrofes (Coreia do Sul, Taiwan, Japão...) que, alertados para o perigo de contaminação grave, rapidamente puseram em prática modelos sanitários, de detecção e prevenção, eficazes. Decisivo neste combate, foi o sistema de vigilância digital dos cidadãos que permitiu, em tempo real,  identificar quem estava infectado e avisar potenciais contaminados. Não é só na China, (portanto um estado totalitário) que os cidadãos são controlados no seu quotidiano. Também em sociedades asiáticas mais democráticas, o controlo digital é praticado, de forma semelhante, há muitos anos.
Em Taiwan, o estado envia simultaneamente a todos os cidadãos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contactos com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios onde houve pessoas contagiadas. Ainda numa fase inicial, Taiwan utilizou uma ligação dos diversos dados para localizar possíveis infectados em função das viagens que tinham realizado.
Na Coreia do Sul, quem se aproxima de um edifício onde tenha estado um infectado, recebe um sinal de alarme através de um "app", especial criado para o Coronavírus. Todos os lugares, onde havia infectados, estão registrados nesta aplicação. Não se tem muito em conta a protecção de dados nem a esfera privada. Em todos os edifícios da Coreia foram instaladas câmaras de vigilância em cada andar, em cada escritório, em cada loja. É praticamente impossível a movimentação em espaços públicos sem ser filmado por uma câmara de vídeo. Com os dados do telefone móvel e do material filmado por vídeo, pode criar-se o perfil de movimento completo de um infectado. Os movimentos de um infectado, são todos publicados. Nos escritórios do ministério coreano da saúde, existem pessoas, chamadas "trackers" que, dia e noite, não fazem outra coisa do que visionar o material filmado por vídeo para completarem o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tenham tido contacto com estas.
Outra diferença fundamental, entre a Ásia e a Europa, são, sobretudo, as mascarilhas protectoras. Na Coreia do Sul, não há praticamente pessoas, que saiam à rua, sem mascarilhas respiratórias especiais, capazes de filtrar o ar do vírus. Não são as habituais mascarilhas quirocirúrgicas, mas mascarilhas protectoras especiais, com filtros, também usadas pelos médicos que tratam os infectados. Nas primeiras semanas, após o alarme, o tema prioritário na Coreia foi a distribuição massiva de máscaras à população. Perante as longas filas de espera nas farmácias, os governantes tomaram medidas radicais: foram construídas, à pressa, novas máquinas para fabricá-las. Aparentemente, com sucesso. Existe, inclusive, um "app", que indica quais as farmácias mais próximas que dispõem de máscaras.
Assim que souberam do vírus na China, as 4 fábricas farmacêuticas existentes, receberam dinheiro e autorização do governo, para fabricarem "kits" de teste. No pico da crise, chegaram a ser testados 20.000 cidadãos por dia. Para analisar os testes, foram criados 56 laboratórios especiais. As pessoas eram testadas nos hospitais ou em clínicas de proximidade, em casa e dentro dos próprios carros. Os infectados foram isolados em casa e o resto da população pode prosseguir a sua vida. Mais importante ainda, os sul-coreanos não esperaram por ajudas exteriores e fabricaram todo o material de que necessitavam em fábricas nacionais. O único país que fez mais testes do que a Coreia do Sul, foi a Alemanha (60.000/diários), graças a um bom sistema sanitário de prevenção e à capacidade industrial de que o país dispõe.
Na maioria dos países europeus e após um período de subvalorização da crise, o número de infectados e mortes disparou, tendo atingido números impensáveis há dois ou três meses, ainda que, comparativamente, o número de falecidos devido às gripes anuais, seja maior.
Dois meses após terem sido detectados os primeiros casos na Europa (Itália), o número de mortes por coronavírus continua a crescer nos países mais industrializados, sem que se veja um fim à vista: Itália (23.227), Espanha (20.453), França (19.323), UK (15.464), Bélgica (5.683), Holanda (3.684)...
Por outro lado, as medidas de contenção tomadas em cada país, divergem na sua aplicação e nos instrumentos postos à disposição pelos respectivos governos e serviços sanitários.
Uma das falhas, parece residir na capacidade de responder em tempo (material e logisticamente) a uma epidemia nova e com estas dimensões. Um dilema que atravessa a maioria dos países europeus, como bem exemplificou Erdad Balci, no semanário holandês HP/DeTijd do passado dia 23 de Março: "A Holanda, com a sua economia do conhecimento e o seu sector de serviços, viu-se reduzida a um país em vias de desenvolvimento, que tem de pedir materiais simples para que os seus súbditos não morram. É tempo de acordar". Utilizando a metáfora do "cavalo de competição que ganha sempre e que, por isso, continua a correr depois de perder...", o articulista prossegue: "na passada quarta-feira, chegou uma avião de mercadorias a Schipol, com um carregamento de 80.000 máscaras sanitárias vindas da China. Os chineses ofereceram as máscaras, porque tinhamos necessidade. Grande alegria à chegada das paletes, com direito a fotografia da tripulação chinesa e aplausos dos presentes. O carregamento gratuito é o espelho em que nos devemos mirar. Para obter uma coisa tão simples como máscaras orais, a Holanda teve de pedir a uma potência estrangeira que, na primeira oportunidade, também acaba com a nossa "open society" (em inglês, no texto). A chegada das máscaras, é o mesmo tipo de ajuda para o desenvolvimento, que um poço de água num aldeia africana. Sabíamos, há meses, da existência do vírus, mas não conseguimos fabricar máscaras para nos protegermos!". A razão, explica Balci, reside num factor muito simples: o desmantelamento progressivo da industria no Ocidente e a transferência de investimentos para a China e países límitrofes, onde a mão-de-obra é barata e os operários obedientes. Só que, agora, estamos todos nas mãos dos chineses. Esta constatação, leva-nos a outro tipo de questões que a crise epidémica levantou.
A pandemia põe à prova os regimes políticos em todo o Mundo.
A rivalidade entre USA e China, está a ser vista como uma competição entre dois modelos políticos opostos: A democracia e o autoritarismo. Qual deles respondeu melhor a esta crise e qual dos dois vai prevalecer depois da crise?
A China foi o primeiro país a registrar o contágio do Covid19. Em Novembro de 2019, ocorreu o primeiro caso em Wuhan, na província de Ubei, que seria abafado até começarem a correr notícias de que o médico que tinha detectado o vírus - Li Weng Lian - tinha sido afastado e, posteriormente, falecido devido à infecção, que alastrou em pouco mais de um mês. Em Janeiro deste ano, a China confirmava a epidemia e informava a OMS. As nações ocidentais não podem declarar que não sabiam da existência deste vírus.
Trump, como sempre, seguiu uma politica errática. Começou por fechar as fronteiras e abandonou o palco internacional, acusando a China de ser responsável pela disseminação do vírus, que apelidou de "vírus chinês". Xi Jinping seguiu uma política assertiva. Abre a China ao Mundo e quer ocupar o vazio deixado pelos EUA na liderança global.
A ideia que daqui resulta é a de que o autoritarismo é mais eficaz que a democracia e sairá reforçado desta crise.
Nesta crise, encontramos três componentes, que correspondem "grosso modo" a três tipos de regime  diferentes:
1) O Autoritarismo: do qual o melhor exemplo é a China. Começou por negar o problema, depois tentou escondê-lo, impedindo o médico de denunciar a doença, no que perdeu um mês que pode ter sido decisivo no combate à epidemia. Finalmente, tomou medidas draconianas e, uma vez controlado o surto,  fez aproveitamento político. Foi eficaz na resposta. Venceu o vírus (ainda que não saibamos se os números são exactos), enviou ajuda, material sanitário e médicos, para os países mais atingidos (Itália e Espanha). É o líder mundial desta crise.
2) As Democracias governadas por Populistas: Trump, Bolsonaro, Boris Johnson. Começaram por ridiculizar a gravidade da doença ("é só uma gripezinha", dizia Bolsonaro) contribuindo para a desinformação e adiando as soluções. Desvalorizaram o papel da ciência e as opiniões de médicos, em nome de uma suposta superioridade étnica. Finalmente, foram forçados a reagir, tarde e a más horas. Hesitaram entre o valor da vida humana e os interesses económicos.    
O resultado não foi o melhor. Em apenas quatro semanas, os EUA atingiram já os 40.000 mortos (metade das quais no estado de Nova Yorque) e os 30 milhões de desempregados (20% da força de trabalho). A maior percentagem dos últimos 10 anos!
Do Brasil, nem vale a pena falar: Bolsonaro, o pior presidente da história brasileira, continua a passear-se entre os seus adeptos, tão mentecaptos como ele e, entretanto, despediu o ministro da saúde, por este ousar criticar a sua gestão nesta crise. O país é um barril de pólvora, com milhões de pessoas a viver em condições infra-humanas nas favelas do Rio e São Paulo, para além dos 200.000 presos, confinados em prisões sobrelotadas. O caos é tão grande que os militares (chefiados por Mourão, vice-presidente) estão à beira de forçar uma demissão (por "impeachment" ou acordo) de Bolsonaro e da sua família, o que não augura grande futuro para o país.
Entre os populistas, há ainda quem se aproveite dos poderes de excepção para reforçar a autocratização do regime. É o caso de Orban (Hungria) que aproveitou a epidemia, para decretar o "estado de excepção" por tempo indeterminado. Quem desobedecer pode apanhar 5 anos de prisão! A Hungria passou a ser a primeira ditadura na União Europeia.
3) As Democracias Liberais: umas mais cedo, outras mais tarde, todas levaram o problema a sério e tomaram decisões com base na ciência, ainda que os "confinamentos" (lockdowns) sejam diferentes de pais para país. Os mais liberais (Suécia, Finlândia, Noruega, Holanda, etc...) optaram por um sistema semi-aberto, onde os cidadãos são responsáveis pelo seu comportamento; enquanto outros (Portugal, Espanha, Itália...) seguem guiões mais tradicionais e prolongaram os estados de excepção até à primeira quinzena de Maio.
Uma coisa, parece certa. Depois da pandemia, nada ficará como dantes. Resta saber se para melhor. Os indicadores, para já, são péssimos. Primeiro, assustaram as pessoas com o vírus e, agora, assustam-nas com a próxima crise económica. Como bem explicou Naomi Klein em "A Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo do desastre", o sistema aproveita-se do medo, causado por crises (económicas, humanitárias ou outras) para manipular e reforçar o seu poder. Nuvens negras no horizonte.

(continua)

2020/04/15

Duas semanas noutra cidade (9): Espanha, Confinamentos e Estratégias


Rainha Máxima da Holanda e o marido Rei Willem-Alexander na Feria 2019 (foto Look)

Depois de uma semana "santa", em que o sol brilhou e a temperatura não baixou dos 22º, voltou a chover em Sevilha. Chuva e trovões, que o "criador" não parece ter gostado da forma como os citadinos voltaram à "festa"...
Mal passou a Quaresma, mudaram as regras sociais. O que antes era penitência e martírio, transformou-se em música pop e "sevilhanas". A explicação é simples: dentro de quinze dias, teria lugar a "Feria", este ano cancelada por motivos óbvios, pelo que os habitantes da cidade não podem reencontrar-se naquela que é considerada a maior festa tradicional andaluza: dez dias de feira popular gigante, visitada anualmente por milhares de pessoas, vindas de todo o país para ver e frequentar as centenas de tendas, agrupadas em colectividades culturais e associações de ganadeiros e agricultores da região, onde a entrada é exclusiva. Depois, existem as tendas públicas, onde se pode provar tudo o que é petisco regional e ouvir música ao vivo. Com sorte, é possível ver bons espectáculos de Flamenco e dançar "sevilhanas", em palcos espalhados pela Feira. Pelas largas alamedas, passeiam grupos de sevilhanas, deslumbrantes nos seus trajes de lunares, enquanto os ganadeiros da região ostentam riqueza, montados em "puros sangue" andaluzes e passeando em charretes descobertas, com cocheiros de libré. Anexo ao recinto principal, existe ainda um "lunapark", onde os mais jovens se divertem sob o olhar condescendente dos pais. A polícia, omnipresente, regula o trânsito e impede os excessos. Uma orgia de côr e música, que nenhum sevilhano que se preze, deixa de visitar uma vez por ano.
Desta vez, devido ao "confinamiento", restam as varandas e as açoteias dos prédios, onde todos os dias, pelas 20h, os habitantes da cidade agradecem aos profissionais da saúde, com uma longa salva de palmas e música: depois de uma semana de marchas e pregões religiosos, a alegria das "sevilhanas", transmitidas através de aparelhagens sonoras que são escutadas em todo o bairro. Uma festa contagiante.
Esta (genuína) alegria, não ignora a triste e dura realidade. Pesem as medidas draconianas, anunciadas e postas em prática pelo governo espanhol, de que somos testemunha diariamente (patrulhas de policias armados de metralhadora, controlo severo nos transportes públicos e unidades paramédicas instaladas em lugares estratégicos, para acudir aos necessitados), a verdade é que o número de infectados e mortes, causado pelo coronavírus, não pára de subir. Hoje, eram 177.633 e 18.579, respectivamente, o que faz de Espanha o segundo país com mais infectados e o terceiro com mais mortes, a nível mundial. A maior crise humanitária, desde a segunda guerra mundial.
Da situação, tentam tirar proveitos politicos os dois maiores partidos da oposição, que não perdem uma ocasião para criticar as medidas do governo. Enquanto, Casado (líder do PP, direita conservadora) acusa o governo de tomar decisões de forma unilaterar e declara não estar disposto a apoiar o governo ou assinar mais "Pactos de Moncloa" (acordo entre partidos parlamentares, em 1977, n.r.); Abascal (líder do Vox, fascista) acusa o governo de practicar uma "eutanásia feroz" e de ter uma "gestão criminosa", na contenção da pandemia do vírus. As declarações, deste homem defensor do "senso comum", têm sido acompanhadas por mentiras nas redes sociais, onde sugere que o governo censura as mensagens telefónicas relacionadas com o vírus, que os imigrantes são beneficiados no tratamento em hospitais, ou que a causa de morte dos infectados é devido à "peste chinesa", entre outros mimos. Nada que nos surpreenda, já que o nihilismo e as "fakenews", a par da negação da ciência e o ódio aos estrangeiros, faz parte do discurso de todos os populistas de direita. Veja-se o caso de Trump (USA) Bolsonaro (Brasil) ou, mais perto de nós, Orbán (Hungria), Le Pen (França), Wilders (Holanda) e Ventura (Portugal).

Acontece que o sucesso da China e de outros países asiáticos, no combate ao Coronavírus, se deve a factores culturais e políticos específicos, que explicam a forma como abordaram a pandemia, para a qual, de resto, a OMS já tinha alertado em 2016.
No excelente ensaio "Coronavirus y estado policial. La revolución viral",  publicado em 22 de Março último no El País, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, traça uma panorâmica da expansão do vírus e aponta as razões pelas quais, segundo ele, a Europa está a fracassar no combate à pandemia.
Um resumo: as cifras dos infectados não param de aumentar em Itália, Espanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suiça ou Alemanha, onde diariamente morrem centenas de pessoas e têm de ser tirados ventiladores aos mais velhos para dá-los aos mais jovens, enquanto se decretam estados de excepção que, em última análise, legitimam o "estado soberano" (que decide sobre o estado de excepção) e fortalecem o nacionalismo. Segundo ele, esta é uma exibição de soberania que de pouco serve, da mesma forma que proibir a entrada de estrangeiros nesta altura, é um acto absurdo, já que a Europa é justamente o continente para onde ninguém quer vir agora. Seria muito mais útil a eficaz cooperação entre estados europeus e proibir a saída de europeus para outros continentes, uma vez que a Europa é o epicentro da epidemia.
Em comparação com a Europa, quais as vantagens que o "sistema asiático" pode oferecer na eficiência do combate ao vírus? Estados asiáticos, como o Japão, a Coreia, a China, Hong-Kong, Taiwan e Singapura, têm uma mentalidade autoritária que vem da sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos negativas e mais obedientes que na Europa. Também confiam mais no estado. Não apenas na China, mas também na Coreia e no Japão, a vida está organizada de uma forma mais estrita que na Europa. Sobretudo, para detectar o vírus, os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Admitem que a "big data" pode encerrar um enorme potencial para se defender da pandemia. Poderia dizer-se que as pandemias na Ásia não são apenas combatidas por virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo por informáticos e especialistas em macrodata. Uma mudança de paradigma, da qual a Europa não parece ter-se dado conta. Ou seja, a "bigdata" salva vidas humanas.
A consciência crítica, perante a vigilância digital, praticamente não existe na Ásia. Apenas se fala da protecção de dados em democracias liberais como o Japão ou Coreia. Ninguém se opõe à recolha de dados pessoais pelas autoridades. Na China, criaram um sistema de crédito social, inimaginável para europeus, que permite uma valorização e uma avaliação exaustiva dos cidadãos. Na China, não há nenhum momento da vida quotidiana que não esteja submetido a avaliação. Controla-se cada clic, cada cada compra, cada contacto, cada actividade nas redes sociais. A quem atravessar o semáforo vermelho, a quem tiver contactos com críticos do regime, ou a quem coloque comentários críticos nas redes sociais, tiram pontos. Nesse caso, a vida pode tornar-se muito perigosa. Ao contrário, a quem comprar alimentos sãos ou quem ler publicações do regime, dão pontos. Na China isto é possível, porque existe um intercâmbio, sem restrições, entre os provedores da internet, os telemóveis e as autoridades. Praticamente, não existe protecção de dados e não se conhece o conceito "esfera privada".  
Na China, 200 milhões de câmaras de vigilância, muitas delas dispondo de tecnologia de reconhecimento facial detalhado, permitem vigiar e controlar todos os cidadãos em espaços públicos. Ao sair do metro ou do comboio, as câmaras medem a temperatura corporal dos passageiros e avisam-nos, assim como aos restantes passageiros, do perigo de contágio. Este tipo de rastreio, permitiu isolar e testar potenciais infectados e dirigi-los para unidades hospitalares onde são tratados. Esta foi, de resto, uma das razões do sucesso do combate ao vírus, que em menos de três meses, limitou a epidemia, em Wuhan e em 12 cidades circundantes, a números residuais. Sobre isto e muito mais, no próximo "post".

(continua)

2020/04/10

Duas semanas noutra cidade (8): Eurogrupo, Pandemia e Portugal


É sexta-feira "santa" e não se vê vivalma nas ruas de Sevilha. Hoje, nem sequer supermercados abertos há. A excepção é uma "loja de conveniência" do Carrefour e a Farmácia do bairro. Esta, continua a fazer bom negócio e até já recebeu máscaras de papel e luvas. Só falta o álcool. Por alguma razão, a industria farmaceutica é a que mais lucro dá, depois da industria de armamento...
Entretanto, lá fora, o Mundo não pára.
Depois de três longos dias de (tele)trabalho, os ministros das finanças da Zona Euro chegaram a um consenso. O consenso possível, dizem todos. A decisão mereceu uma salva de palmas dos presentes. A ministra espanhola das finanças diz ter sido um "bom acordo" (!?), enquanto Centeno, nas declarações prestadas, disse ter sido um acordo "tirado a ferros"...
Tudo depende, afinal, de como vemos o copo: meio-cheio ou meio-vazio.
Antes da reunião, eram dois os cenários em cima da mesa:
O primeiro, defendido pela Itália, Espanha, França, Portugal e.o., apoiava a criação de um fundo europeu de solidariedade (também conhecido por Eurobonds ou Coronabonds); o segundo, defendido pela Holanda, Alemanha, Austria e Finlândia, recusava a criação de um fundo específico de solidariedade e defendia a utilização do FEE (Fundo Europeu de Estabilidade) criado e já utilizado noutras crises europeias (ex: "bailouts" das economias necessitadas).
Os "Eurobonds" são "Obrigações de Dívida Pública" emitidas por todos os países, dependendo do risco de cada país, ou seja uma emissão conjunta de "bonds" que permitiria, a países em crise, obter melhores condições de financiamento. No entanto, esta fórmula, não traria ganhos imediatos para a Holanda ou para a Alemanha (países com grande excedente de liquidez);
Já o acesso ao FEE, permite aos países ricos emprestarem dinheiro a juros mais altos, como aconteceu durante a última crise financeira de 2008, nos países intervencionados (Portugal, Espanha, Itália e Grécia).
Estas posições, que até à tarde de ontem pareciam intransponíveis, acabaram por ser amenizadas, após a intervenção dos ministros de França e da Alemanha, no que foram apoiados pelos respectivos chefes de governo.
O acordo obtido, cria 3 linhas de financiamento:
1. Apoio ao Trabalho, no valor de 100.000 milhões de euros;
2. Apoio ao Emprego, no valor de 200.000 milhões de euros (através do BEI)
3. Apoio do FEE, no valor de 240.000 milhões de euros
Contas feitas, um total de 540 mil milhões de euros para os próximos três meses.Depois, logo se verá...
Pontos a reter: a Holanda deixou cair algumas das suas exigências, como a "necessidade de reestruturação das economias dos países afectados" (nomeadamente em Itália). Os países do Euro poderão, agora, gastar até 2% do PIB em despesas com a saúde (combate à epidemia). Esta dívida terá de ser paga no prazo máximo de dois anos. No caso de Portugal, cerca de 4.200 milhões de euros. Por comparação, durante a última crise (2011-14) Portugal recebeu 78.000 milhões, que ainda estão a ser pagos.
Nicolau Santos (economista, n.r.) fez as contas e escreveu hoje um elucidativo artigo com o título "Palmas para quê?", em que desmonta a falácia desta solução para a crise europeia (27 países/500 milhões de cidadãos). Dá o exemplo dos EUA, onde Trump mandou libertar 3,2 triliões de dólares (a maior injecção de capital no pós-Guerra) para uma população de 350 milhões de habitantes. A solução encontrada no Eurogrupo favorece, uma vez mais, os países menos necessitados, que terão agora mais facilidade em obter fundos. Quando esta crise terminar, os países mais necessitados, para além da reposição dos 2% do PIB, terão de continuar a pagar a sua dívida estrutural, actualmente suspensa (no caso de Portugal, 122% do PIB), o que fará aumentar a dívida global e os juros respectivos no futuro. Ainda é cedo para fazer futurologia, mas vem aí uma crise económica de dimensões desconhecidas e os mais fracos serão os mais atingidos. De facto, não há muitas razões para bater palmas...

Outra coisa é a pandemia, propriamente dita. Os números não enganam, ainda que possam ser lidos de forma diferente, já que "as estatísticas, quando torturadas, confessam sempre". Para além da "worldometer" (que actualiza diariamente os números absolutos de infectados, recuperados e falecidos), outras há que nos dão uma perspectiva mais exacta. É o caso do site da Statista (Health Pharmaceuticals - State of Health), que estabelece uma relação entre total de mortes e mortes por milhão de habitantes. Visto deste prisma, a situação não é exactamente a mesma. Assim, de acordo com o site "Statista", o país com maior número de mortes por milhão de habitantes é a Espanha (14.045 falecidos/46.72 milhões de habitantes/300.6 mortes por milhão), seguido da Itália (17.127/60.43/283.41), da Bélgica (2.035/11.42/178.16), da França (10.328/66.99/154.18) da Holanda (2.101/17.23/121.93), etc...Estes são os cinco países com mais mortes por milhão de habitantes. Portugal, em 16º lugar em número de infectados a nível mundial, está em 13º lugar em número de mortes por milhão de habitantes (345/10.28/33.55). Notícias que não nos sossegam, o que terá levado o governo português a sugerir o prolongamento do confinamento até ao dia 15 de Maio.
Perante estes números, franceses (Radio France) e holandeses (De Volkskrant) interrogam-se sobre a  razão da baixa mortalidade em Portugal. Várias hipóteses: um relativo isolamento do país em relação ao epicentro da epidemia (Itália, Espanha e França); medidas de contenção tomadas em tempo, após serem conhecidos os primeiros 50 casos de infectados e a primeira morte confirmada (12 de Março); encerramento de escolas e cancelamento de eventos desportivos e culturais (13 de Março); encerramento de fronteiras (16 de Março), para além de haver menos turistas nesta época do ano. Também as medidas de coação, obrigando ao fecho do comércio e à proibição de trânsito privado, assim como a desertificação de grandes zonas do interior, explicarão as poucas mortes verificadas no Algarve, Alentejo e Beiras Interiores. Outra razão, parece assentar na relativa "facilidade" com que a população portuguesa aceitou as novas normas, o que daria lugar a interpretações que não cabem neste "post". Fica para uma próxima vez.

(continua)

2020/04/07

Duas semanas noutra cidade (7): Santos, Vírus e Testes


Em tempos normais, a semana da Páscoa é, por tradição, a mais celebrada e concorrida em toda a Espanha. Em Sevilha, o epicentro das comemorações, a "Semana Santa", congrega o maior número de devotos e forasteiros, ainda que haja celebrações nos principais centros urbanos do país.
A cidade pára literalmente durante a maior parte da semana, com serviços públicos, departamentos e escolas,  encerrados para o grande evento. A população, calculada em mais de 700.000 pessoas, prepara-se o ano inteiro para a celebração. Desde logo, através do "Consejo General de Hermandades e Cofradías de la cidade de Sevilla", orgão máximo, responsável pela organização dos rituais religiosos, que determina quais as confrarias participantes (são mais de cinquenta!), quais os percursos seguidos pelas procissões (todas passam, obrigatoriamente, pela Catedral de Sevilha e pelo "Ayuntamiento", onde são instaladas bancadas para os "vips" da cidade); quem transporta os andores nas procissões (constituídas por santos, virgens, mistérios, penitentes e crucificados); os "costaleros" (equipas de 30 moços que alternam, à vez, o transporte dos altares, que chegam a pesar toneladas); os "hermanos", representantes das dezenas de irmandades existentes na cidade; os "nazarenos", reconhecidos pelos seus capuzes ponteagudos de diversas cores, a lembrar os acólitos do "klu-klux klan"; para além de familiares e amigos, que encorajam e apoiam, com água e alimentos, os mais jovens. Toda a gente participa, dos veteranos aos mais novos, que vestem a rigor durante a semana: as mulheres, deslumbrantes nos seus trajes clássicos de "mantilla sevilhana"; os homens, em traje formal, de fato e gravata a condizer. As varandas, engalanadas para a ocasião, são alugadas com antecedência, não sobrando lugares nas açoteias e terraços nos percursos conhecidos. O turismo local, em colaboração com as diversas confrarias, edita pequenos guias em diversas línguas, sobre os locais e horas previstas da passagem de cada procissão, de modo a possibilitar, aos interessados, a possibilidade de escolher os melhores lugares para apreciar o evento. A maior parte das confrarias, são acompanhadas por bandas filarmónicas, que ensaiam todo o ano nas praças da cidade para o grande momento. As procissões têm lugar durante o dia, ainda que algumas só iniciem o seu percurso ao cair da noite, para terminar já de madrugada. Nessas ocasiões, as luzes apagam-se junto à igreja onde recolhe o andor e os estabelecimentos comerciais encerram. O único som audível, à distância, é o arrastar dos pés dos "costaleros", enquanto os "nazarenos", cobertos pelos seus capuchos e capas, empunham longas tochas de cera a arder e continuam a desfilar durante horas. Não raramente, as procissões nocturnas terminam com "saetas" flamencas, cantadas à capela por aficionados e profissionais das varandas mais próximas. Momentos de êxtase e "cante jondo" (canto profundo) sublimes.
A anormalidade, imposta este ano pelo "confinamiento", impediu a celebração centenária, mas não diminuiu a devoção dos habitantes de Sevilha. À falta de festa, os vizinhos do bairro esmeram-se, decorando as janelas e colocando altifalantes nas varandas, através dos quais transmitem "saetas", bandas filarmónicas e "pregões" (declarações) da Semana Santa. Os mais nacionalistas (estas coisas, andam sempre ligadas) mantém as bandeiras franquistas, que penduraram durante a crise catalã de 2018.
Não faltam episódios hilariantes nesta quarentena: desde o homem que saiu a passear o cão, vestido de nazareno e carregando uma cruz às costas (o vídeo tornou-se viral e a polícia acabaria por detê-lo); à mulher infectada, que fugiu de um hospital onde estava isolada (acabaria por ser presa e voltar à quarentena), passando pelo vizinho do condómino onde me encontro, que ameaçou filmar e denunciar outro morador à polícia (!?) por este ter ousado sair à rua sem máscara (há sempre um "pequeno homem" com medo, como escreveu Reich, num dos seus escritos mais citados). Encontra-se de tudo um pouco. Entretanto, na Galiza, foi roubado um carregamento de um milhão máscaras, no valor de 5 milhões de euros, destinadas a Portugal (!?). Em tempo de crise, "quem tem olho..."
A crise viral continua a dominar os noticiários e as preocupações dos espanhóis. O país é já o segundo com maior número de infectados e mortos a nível mundial, resp. 146.690 e 14.555, não se vislumbrando decréscimo na curva de infecções nos próximos dias. Perante a catástrofe anunciada (20.000 mortes na projecção mais optimista e 40.000 mortes na mais pessimista), a Espanha entrou na terceira semana de "confiniamento", agora prolongado até ao próximo dia 26. As pressões e as críticas ao governo de Sánchez, para que reabra o congresso (actualmente encerrado) e para diminuir progressivamente as medidas de quarentena, têm vindo a aumentar, ainda que não seja fácil tomar esta decisão, enquanto o número de infecções não diminuir. As mais acérrimas críticas vêm, como sempre, do "pequeno homem" Abascal (VOX), que diariamente grava vídeos através do Instagram onde ameaça processar Sanchéz pela prorrogação do período de isolamento. Ontem, em mais uma histérica comunicação ao país, anunciou com ar solene "cortar relações" com o governo, enquanto este não abrisse o Congresso. A estupidez continua a dominar o discurso dos pequenos líderes. 

Conforme nos explicam diariamente os "experts" na matéria, há 3 questões a considerar nesta crise pandémica: a vacina (que não existe), o distanciamento social (como forma de reduzir a disseminação do vírus) e os testes (para avaliar quem está infectado). Sobre a vacina, é consensual entre vírologistas e epidemiologistas, poder demorar entre 12 e 18 meses, até ser comercializada. Sobre o distanciamento social (tomando as devidas precauções, com máscaras, luvas, desinfecções diárias de roupa e calçado) é fundamental, mas não impede a contaminação. Mais, podemos estar infectados e não ter sintomas. Quando a febre surge, a infecção já existe e, entretanto, já infectámos outras pessoas.
Finalmente, os testes. Há dois tipos de teste: o de diagnóstico rápido (aplicado na maioria de países e populações) e o teste serológico (que é caro e não está ao alcance de toda a gente). No primeiro teste, este pode dar negativo, mas podemos contrair a infecção no dia seguinte; no segundo teste, a imunidade é garantida pelos anti-corpos já existentes, o que permite contactos com outras pessoas, sem as infectar. A experiência, levada a cabo nos primeiros países infectados (China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Singapura) permitiu perceber que o isolamento, seguido à risca, pode resultar, ainda que só ao fim de alguns meses. Acontece que, em países de regime autoritário (como os países asiáticos referidos) é sempre mais fácil manter as populações confinadas, dada a obediência e disciplina existentes (confucionismo). Também o sentido colectivo e a confiança no estado é maior do que no Ocidente. Acresce que, em países como a China (portanto, um estado totalitário) a "data" existente, devido à ligação dos telemóveis pessoais às câmaras de vigilância em todo o país (mais de 200 milhões!) permite identificar, rapidamente, quem tem febre, através de um "app" que mede a temperatura do corpo. As pessoas assinaladas, são avisadas através do seu telemóvel e enviadas para quarentena. Essa é uma das razões, porque os países asiáticos conseguiram reduzir substancialmente a epidemia, enquanto na Europa e nas Américas, portanto mais atrasadas no uso da tecnologia existente, o surto viral continua a crescer exponencialmente. Preocupantes são, agora, os surtos em grandes países como os EUA e o Brasil, que não dispõem de sistemas de saúde de qualidade e onde o número de vítimas pode atingir proporções catastróficas. 

(continua)

2020/04/03

Duas semanas noutra cidade (6): Todavia, vivos...


Hoje, acordámos, com uma notícia previsível: de acordo com o "site" da OMG que monitoriza o "coronavírus" a nível mundial, o número de infectados, ultrapassou o primeiro milhão. Mais exactamente, 1.030.570 pessoas, das quais 54.226 falecidas.
Em Espanha, onde me encontro, o número de infectados era, esta manhã, 117.710 e, o número de mortes, 10.935. Em termos absolutos, a Espanha é já o segundo país com mais infectados a nível mundial e, em termos relativos, o primeiro país, com um total de 2350 infectados por milhão de habitantes.
Números terríveis, que entram diariamente pela rádio e tv dentro, em contínuos boletins emitidos pelo Ministério Nacional de Saúde, a partir da "task force" criada para esta pandemia, instalada no palácio de Moncloa em Madrid.
A Andaluzia, registrava 7.374 infectados e 408 mortos, um número relativamente baixo, quando comparado com as regiões mais infectadas (Madrid, Catalunha e País Vasco).
Em Sevilha, o hospital "Virgen del Rocío", criou dois circuitos paralelos de detecção e tratamento de potenciais doentes, onde estes são testados e internados. Comparativamente a Madrid, onde o número de mortes em lares de idosos ultrapassou as 3000 pessoas (infectados incluídos), a cidade de Sevilha também registava um número relativamente baixo: 57 falecidos. As agências funerárias não têm capacidade para responder atempadamente a esta calamidade e muitos corpos, tiveram de permanecer em morgues, antes de serem incinerados. Dadas as medidas sanitárias impostas, muitas pessoas não conseguem sequer despedir-se dos seus familiares. Um filme de terror, que fez manchete na comunicação internacional. Acresce, que a maioria dos "lares" são residências privadas, que não dispõem de equipas médicas permanentes, o que dificulta a detecção (e testes) dos residentes infectados.
Perante a situação, o governo já anunciou o prolongamento do estado de excepção, que durará até ao dia 26 de Abril. Entretanto, a polícia aumentou as medidas de coacção e, nos transportes públicos de Sevilha, passou a controlar os passageiros para avaliar da necessidade da sua deslocação. Quem não consegue justificar a viagem, pode ser obrigado a sair ou a pagar uma multa. A desobediência, pode custar entre 200 e 20.000 euros, no caso de automobilistas que infrinjam a lei.
Nem tudo é mau, no entanto. Diariamente, pelas 20h, milhões de cidadãos do país, continuam a assomar à janela, para agradecer aos profissionais de saúde que enfrentam esta luta sem desfalecer. Uma homenagem que, ontem, graças à temperatura amena de Sevilha, se prolongou no tempo. Após o ritual das palmas, os moradores permaneceram nas janelas e em açoteias vizinhas, onde aproveitaram para pôr a "conversa em dia", muitos deles pela primeira vez entre si. Não faltam críticas aos governantes, pois sempre há algo mau nos hospitais, nas farmácias ou nos supermercados. Habituados à sociedade de consumo, os espanhóis (como os europeus em geral) lamentam-se das "carências" e, o que é pior, temem pela sua existência, agora mais frágil. Um bom teste de sobrevivência e resiliência, quando comparado com a situação (essa sim, deplorável) dos refugiados, amontoados em campos gregos, italianos e líbios. É de esperar que este período de austeridade e confinamento traga, a todos, mais humanidade e solidariedade em tempos de crise.
Solidariedade tem sido, de resto, uma das palavras mais inflacionada por estes dias. Depois das reservas mostradas pelos chamados países do "bloco do marco" (Holanda, Alemanha, Austria e Finlândia) em apoiar a criação de um fundo europeu especial para esta crise (os chamados "coronabonds") seguiram-se as infelizes declarações do ministro holandês das finanças, que só vieram piorar as coisas. A reacção crítica e de repúdio por parte de António Costa, no que foi apoiado pelos restantes países do Sul, seria transcrita nos principais orgãos de informação europeus, como o El País, Le Monde, The Guardian, NRC, De Volkskrant, HP/Tijd (estes três últimos, holandeses).
No Público, a articulista Teresa de Sousa, especialista em assuntos europeus, resumiu bem a situação, num artigo intitulado "Se o Sul se afundar, o Norte opulento deixará de existir":
"Já não é apenas um caso entre António Costa e Mark Rutte e o seu ministro das Finanças. Nem apenas um caso entre Países-Baixos de um lado, e a Itália e a Espanha, os dois países europeus mais brutalmente fustigados pela pandemia, do outro. De repente, os Países-Baixos transformaram-se no lugar geométrico de prova de vida a que a Europa e as suas democracias, estão a ser sujeitas neste exacto momento da História. O debate interno ameaça a coligação de governo (holandês n.r.). A pandemia aproxima o sistema de saúde da ruptura".
As críticas europeias, acabariam por fazer "mossa" na frente germânica, que se apressou a "emendar a mão". Já esta semana, Mark Rutte (primeiro-ministro holandês) veio declarar que não tinha sido muito "diplomático" (a expressão é "bot", em neerlandês) e, ontem mesmo, Von der Leyen (presidente alemã da Comissão Europeia) reafirmou o apoio da Europa à Itália, anunciando um crédito sem limites ao país mais fustigado por esta crise. Algo é algo.

P.S. Recebemos um mail da "COVID19", uma linha de apoio, aberta pelo MNE, para portugueses impedidos de regressar ao país. Pedem desculpa pelo atraso na resposta e perguntam se ainda necessitamos de ajuda (?). Vale mais tarde, que nunca. Claro que necessitamos de ajuda. Ainda estamos vivos...

(continua) 

2020/03/30

Duas semanas noutra cidade (5): "Confinamiento", Vírus e outras mortes

foto ABC Sevilla
A Espanha, entrou hoje no segundo período de "confinamiento". Até ao próximo dia 11 de Abril, na melhor das hipóteses, continuaremos "todos" em casa. Todos, é como quem diz. Diariamente, podem ser vistas pessoas na rua, fazendo compras ou, simplesmente, passeando os cães. Há cães que nunca devem ter saído tanto, tal o número de vizinhos a passear a trela...
As ruas de Sevilha, habitualmente fervilhantes de alegria, transformaram-se em tristes "calles", cujos únicos meios de transporte são, agora, os autocarros (vazios), os táxis e as ambulâncias. Nas principais vias de La Macarena, o bairro onde me encontro, há unidades para-médicas e carros de polícia em permanente estado de alerta. No centro (em redor da Plaza de Armas) o exército está de prevenção e colocou diversos blindados em pontos estratégicos, junto ao rio, para dissuadir os mais afoitos que por lá costumam passear.
Celebrações tradicionais, como a "Semana Santa" e a "Feira de Sevilha", atracções turísticas que, anualmente trazem milhares de forasteiros à cidade, foram este ano canceladas, com consequências que se prevêem desastrosas para a economia local.
Ainda que a Andaluzia, em termos relativos, mantenha uma baixa taxa de infectados quando comparada com as regiões de Madrid, País Vasco e Catalunha (as mais afectadas), os números não mentem. A Espanha passou a ser o 3º país com mais infectados a nível mundial (85.195) e o 4º país em número de mortes (7.340). Os dados são da OMS e podem ser consultados através da aplicação "worldometer". Uma catástrofe humanitária sem precedentes, a maior no país desde a 2ª guerra mundial.
Como em todo o lado, o oportunismo aproveita-se da crise. Os partidos mais à direita (PP e VOX) continuam a criticar o governo e a clamar por mais meios sanitários, ignorando deliberadamente a contenção de gastos e a privatização da saúde nos governos de Rajoy que, na eminente falência de La Caja, teve de pedir um resgate de 100.000 milhões de euros para salvar a banca (um dos maiores resgates na UE). Rajoy, acabaria por ser demitido, devido a uma moção de censura do Parlamento, tantos eram os casos de corrupção em que o PP estava envolvido. Na província foram, entretanto, reportados os primeiros casos de assaltos a moradias isoladas, por supostos agentes sanitários que se apresentaram aos moradores para inspeccionar as suas casas. Uma nota positiva: devido à diminuição do tráfico, a poluição ambiental, nas regiões mais industrializadas, caiu drasticamente. Nas ruas de Madrid, foram avistados os primeiros pavões e javalis, a passear à noite...
Nem todas as mortes, no entanto, são uma consequência do vírus. Outras mortes, por causas diferentes, vão chegando ao nosso conhecimento, através de amigos e da imprensa estrangeira. 
É o caso do cantor Pedro Barroso (1950-2020), pioneiro da "nova canção portuguesa" dos anos '60 (programa Zip-Zip) que tive o prazer de conhecer na Holanda. Lembro uma histórica intervenção em Nijmegen, organizada pelo grupo local de apoio à Reforma Agrária em 1976; uma curta digressão, que incluiu as cidades de Wageningen e Amsterdão em 1979; e, finalmente, em Amsterdão, onde voltaria a actuar em 1980, naquela que foi a sua última visita como cantor. Viria a reencontrá-lo em Lisboa, há dois anos atrás, durante um evento dedicado à cidadania, no páteo do Liceu Camões, liceu que ele frequentou em jovem. Estava já doente, afectado pela doença que viria a vitimá-lo este mês. A nossa amizade, apesar da distância física e temporal, manter-se-ia até final.
Da Holanda, chegam-me notícias de personalidades que acompanhei de perto e com quem me cruzei, durante a minha longa estada em Amsterdão. Registo quatro nomes importantes:
O político Harry van der Berg (1942-2020), deputado e ministro do PVDA (social-democrata), célebre por ter apoiado a causa dos refugiados e transportado diversas malas com milhares de escudos para Portugal (supostamente enviadas por Willy Brandt para ajudar Mário Soares na sua "cruzada" contra o comunismo). Mais tarde, veio a saber-se que o dinheiro era enviado pela CIA, que utilizava o deputado holandês, dado que este era detentor de um passaporte diplomático, o que não levantava suspeitas. O episódio, referido em todas as necrologias, já era conhecido há muito e está descrito, em detalhe, no livro "Contos Proíbidos: memórias de um PS desconhecido" de Rui Mateus, publicado pela editora D. Quixote, em 1996. O livro, que esgotou num ápice, nunca mais seria reeditado.  Vá lá saber-se porquê...
Outro personagem marcante, foi o professor Goudsblom (1932-2020) emérito sociólogo e conselheiro do governo holandês para questões sociais, que tive o privilégio de ter como docente na Universidade de Amsterdão, onde leccionava na década de setenta. Dos seus colégios, guardo a imagem do grande auditório da faculdade, repleto de "caloiros", que o escutavam religiosamente, enquanto nos iniciava nas ideias de Marx, Weber, Comte e Durkheim.
Da área da cultura, destaco a cantora Liesbeth List (1941-2020), representante da canção ligeira de qualidade, a solo e em duo, com Ramses Schaffy, o seu "partner" preferido. Cantou Teodorakis em holandês, à època preso pela junta militar grega. Relembro uma histórica actuação, num "meeting" de solidariedade com o povo grego, organizado no Hotel Kranapolsky em Amsterdão, no início dos anos setenta, onde seria a estrela da noite.
Destaque, ainda, para o jornalista Peter van Bueren (1942-2020), figura central da critica cinematográfica holandesa, durante mais de 40 anos, primeiro no diário de "De Tijd" e, mais tarde, no "De Volkskrant", onde terminaria a sua carreira em 2002. No mesmo ano, ser-lhe-ia atribuido o "Lifetime Film Achievement" pela sua contribuição para o cinema, durante o Internacional FilmFestival de Roterdão que eu, à época, acompanhava como colaborador do DN. O Peter morava no mesmo bairro de Amsterdão e encontrávamo-nos, frequentemente, no mercado da Ten Katestraat. Tinha um conhecimento enciclopédico e um humor cáustico, muito holandês, que nem sempre era apreciado por todos os colegas de profissão.  
Em Espanha, registo dois falecimentos de figuras públicas, na última semana:
A artista italiana Lucia Bosè (1931-2020), popularizada durante os anos do neo-realismo e cuja carreira se dividiu entre Itália e Espanha, onde vivia. No dia da sua morte, a televisão espanhola prestou-lhe homenagem, com a projecção do clássico "A Morte de um Ciclista", de Juan António Bardem" (1955), onde desempenha o principal papel.
Finalmente, a morte do activista Chato Galante (1948-2020), preso político durante o regime franquista e membro da "Asociación de Presos y Represaliados por La Ditadura Franquista". Era igualmente activista na ARMH (Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica). Vimo-lo recentemente na película "El Silencio de Otros" (prémio Goya 2019), documentário impressionante sobre o trabalho de exumação dos corpos fuzilados e enterrados em valas comuns, durante a guerra civil e durante a ditadura franquista. São mais de 115.000.   
A semana não terminaria, sem mais uma notícia alarmante, ainda que provável: o director do Centro de Coordenação de Alerta e Emergência, Dr. Fernando Simón, porta-voz do governo espanhol para a epidemia do Covid19, contraíu a infecção e encontra-se confinado em casa.  

(continua)


  

   

2020/03/28

Duas semanas noutra cidade (4): Países do Sul, Países do Norte

Seriati, Itália (foto Pakistan Latest News)
A pandemia viral não poupa ninguém. Salvo raras excepções, todo o planeta parece infectado e deixou de haver "santuários" protegidos. O encerramento de fronteiras (ainda que ajude) nunca resolverá este problema, pela simples razão que o vírus não conhece limitações geográficas e os portadores já se encontram, muitas das vezes, entre nós. Não conhecer o inimigo é, por isso, o maior medo.
John Carpenter, cineasta americano de culto, realizou um filme ("The Thing") onde explora este sentimento, provocado por um vírus desconhecido. No filme, a "coisa" vem do espaço e aloja-se no corpo de um cão, adoptado por um equipa de cientistas, numa estação de investigação no Ártico. A metáfora perfeita do Corona. Acontece, que não estamos num filme de ficção científica, mas numa realidade que ganhou a dimensão de uma pandemia.
Aparentemente, só há duas soluções para combater a situação: uma vacina (que ainda não existe) e o isolamento - voluntário ou forçado - das populações infectadas. Contrariamente ao que possa pensar-se, a segunda medida não se destina apenas a manter pessoas em casa, mas a isolar o grupo de risco que necessita de mais cuidados. Para determinar quem, dos infectados, necessita de cuidados prioritários, é preciso fazer testes e ter material sanitário adequado o que, como se compreende, não existe na maior parte dos países, nem é possível adquirir de um dia para o outro. Daí, o método chinês, que se revelou fundamental para circunscrever o vírus à região infectada (Wuhan).
Ao contrário de epidemias conhecidas (malária, ébola, dengue, sars, etc.) normalmente circunscritas a territórios pequenos em países africanos, asiáticos e sul-americanos (os chamados países em vias de desenvolvimento), o "corona" espalhou-se pelo Mundo Ocidental, com uma rapidez sem precedentes. Habituados a viver em estados mais assépticos, graças a sistemas de saúde funcionais e maior prevenção, os europeus descobriram que não estavam imunes à "coisa". Pior: porque a maioria dos países ocidentais desvalorizou o surto de vírus na China, não foram tomadas medidas atempadas e, agora, corremos "atrás do prejuízo": uns mais que outros, mas, inevitavelmente, todos na mesma direcção: maior número de infectados, maior número de mortes e o colapso da maior parte das unidades médicas existentes...
Como o vírus é "democrático", não escolhe países, classes sociais, ou protegidos do reino. Atinge toda a gente, ricos e pobres, novos e velhos, famosos e desconhecidos, Que o digam personagens como o monarca de Mónaco, o príncipe Charles de Inglaterra ou, mais recentemente, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, para citar três exemplos avulso. Que chatice.
Os europeus (e os norte-americanos por extensão) descobriram também que tinham de seguir uma disciplina férrea (há quem lhe chame "estado de emergência") se queriam sobreviver. Em países autoritários, como a China e em "democracias musculadas", como a Coreia do Sul e Singapura, é sempre mais facil, mas, à falta de melhor método, a coação e as multas ajudam. De um dia para o outro, ficámos todos confinados ao nosso pequeno espaço doméstico, com saídas limitadas e a privacidade ameaçada. Passámos, sem dar por isso, a exilados em casa própria. Agora, somos todos sírios. Após esta crise, veremos. Pode ser que a experiência nos torne mais sábios e solidários.
A solidariedade, no entanto, não parece ser interpretada da mesma maneira pelos governantes desta Europa a 27. Como era esperado, as clivagens entre Norte e Sul (leia-se países "ricos" e países "pobres") voltaram a fazer sentir-se. Nem uma crise humanitária, com estas dimensões, parece ter demovido os "empedernidos corações" calvinistas e luteranos na Holanda e na Alemanha. Perante o apelo de Sánchez, Conte e Costa, apoiados por Macron, para que fossem criados "bonds" europeus como forma solidária de combater a crise (os chamados "Coronabonds"), a Holanda, a Alemanha, a Austria e a Finlândia (o bloco do "marco"), opuseram-se firmemente, argumentando que o Mecanismo Europeu de Estabilidade, criado em 2012, poderia ser utilizado para este fim. Acontece, que a sugestão dos países do Sul, que pretendiam "dividir o mal pelas aldeias" (criando um fundo temporário àparte), não convém à Holanda e à Alemanha, mais interessados em emprestar dinheiro, do qual possam receber juros. Já Portugal, Espanha e Itália, países fortemente penalizados com os "resgates" sofridos, após a crise de 2008, não querem repetir a experiência e criticaram fortemente esta posição, que trará menos solidariedade e mais desigualdade entre os países membros.
Esteve bem Costa, ao criticar publicamente o ministro das finanças holandês (Wopke Hoekstra) que "sugeriu que a UE investigasse o que justifica alguns países não terem verbas suficientes (!?) para lidar com os impactos económicos da crise motivada pelo coronavírus". Depois do cretino Jeroen Dijsselbloem ter afirmado, em 2017, que os países do Sul "só pensam em mulheres e vinho" (!?), esta é a segunda vez que ministros holandeses repetem afirmações arrogantes, com base numa pretensa superioridade, sustentada pelo dinheiro. De resto, o primeiro-ministro Rutte é da mesma opinião, o que não espanta, vindo de um governo cuja ideologia neoliberal sempre defendeu o primado da economia sobre as pessoas. A situação agravou-se, com o crescimento de dois partidos de extrema-direita (leia-se neo-fascistas) o PVV (Wilders) e o FvD (Baudet),  o segundo dos quais tem a maioria na primeira câmara (Senado), o que pode explicar as reticências de Rute em libertar verbas de coesão, com medo de perder votos para a direita.
Azar dos Távoras: a Holanda, portanto um país com um dos melhores sistemas de saúde do Mundo, de acordo com os parâmetros da OMS, tinha (às 19h de hoje) um total de 9.762 infectados e 639 mortos pelo corona vírus,  sendo já 10º país com mais casos de infectados no Mundo (worldometer).
Muito mais haveria a dizer. Por exemplo, sobre a política de confinamento seguida, que permitiu a milhares de holandeses regressarem de férias sem serem testados, o reduzido número de testes praticado diariamente (cerca de 2000) e a política de comércio semi-aberto no início, o que facilitou o contágio, como, de resto, aconteceu em Inglaterra. Contrariamente, ao que possa pensar-se, Portugal, Espanha e Itália, são os países com as medidas mais drásticas da Europa, relativamente ao isolamento e aplicação da lei neste momento. Isso não evitou a propagação do vírus como sabemos (a Itália tinha hoje 86.498 infectados e 9.134 mortos e a Espanha 72.248 infectados e 5.812 mortos, respectivamente), mas os restantes países para lá caminham. É só uma questão de tempo.
Nem só do corona vírus, morrem pessoas, no entanto. Nas últimas semanas, foram muitos os conhecidos e alguns amigos que faleceram. Deles, falarei no próximo "post".

(continua)

Carta de um vírus em vilegiatura

Genoma do do coronavirus, 2019-nCoV de Wuhan (Instituto Pasteur)
Viva, estou a falar-te daqui do meio do muco que enche os alvéolos pulmonares de um tipo qualquer — não faço ideia quem seja.
É mais um.
Não me consegues ver, mas eu vejo-te muito bem.
Não me consegues ver, não nos consegues ver, mas nós estamos a ver-vos e somos muitos.
Somos, aliás, cada vez mais. Vamos sendo cada vez mais. Graças a ti e à tua estupidez.
Estamos a fazer exactamente aquilo que muitos de vocês fazem: a lutar pela sobrevivência, seja de que maneira for.
Mas temos uma enorme vantagem sobre vocês.
Tu, mesmo com os teus poderosos microscópios, mesmo com os teus sofisticados sequenciadores, não atinas comigo.
Eu já te tirei o retrato. De corpo inteiro.
E já percebi tudo o que me interessa sobre ti.
Mesmo que, aparentemente, tenhas sobre mim a vantagem de uma vida mais longa e os recursos que resultam do carácter poliforme do teu organismo, não tens hipótese comigo.
Nós fazemos rigorosamente apenas o que é necessário, unimo-nos, multiplicamo-nos e reproduzimo-nos mais depressa do que tu poderás alguma vez fazer. Somos mais ligeiros, mais simples e menos dados a distracções do que tu.
Estamos totalmente focados na nossa tarefa.
E estamos por todo o lado.
À espreita.
À primeira oportunidade vamo-nos agarrar a cada superfície do teu ambiente, a cada peça da tua roupa, vamos pousar em cada ponto do teu corpo, vamo-nos infiltrar por cada um dos teus tecidos, vamo-nos meter por cada um dos teus poros, furar as paredes de cada uma das tuas células. Vamos andar pacientemente à procura de cada uma dessas entradas. A nossa vida consiste em aprender como.
Só fazemos isso. Temos tempo.
Tu não.
O tempo que andas a perder com discussões inúteis, é o tempo que nós vamos aproveitar para te aniquilar. Não sobrará um único de vós.
Estavas talvez à espera de um meteoro? Algo vindo do além? Um “castigo” de uma qualquer divindade, dessas que vocês gostam de criar para vos consolar nas vossas frustrações?
Pois, não te canses mais.
Nós já aqui estamos.
Mesmo ao teu lado. Não nos viste?
Estamos aqui mesmo.
À espreita. 


A vigiar as tuas células.

Não vai sobrar um único de vocês.
E tu estás a ajudar, felizmente. Oh se estás!
A cada dia que passa, verifico que a tua ajuda é preciosa. Nem sei o que faria sem ela…
Tudo o que podias fazer de errado, fizeste-o no passado e continuas a fazê-lo agora. Estragaste tudo à tua volta. Mas, sobretudo, estragaste aquilo que te trouxe ao ponto em que estás — os teus laços com os outros.
Que bom que andem agora todos às cotoveladas!
Juntos, tu com os outros, sois imbatíveis. Mas, felizmente, fizeste tudo para quebrar esses laços. És tão estúpido!
E eu estou tão feliz por o seres.
Porque isso facilita imensamente a minha tarefa.
E traz cada vez mais lutadores para o meu exército.
Exército, sim.
Porque é, de facto, uma guerra que aqui estamos a travar. Mas tu vais perdê-la!
Repara como consigo liquidar já, sem qualquer dificuldade, os mais velhos. É canja. Consegui perceber logo isso.
Mas, não te iludas! Tu, falo contigo, jovem, vais a seguir!
Vou continuar a aprender e, em breve, nem os que ainda estão para nascer vão sobrar. A estupidez não vos vai permitir ter tempo para perceber como é que nós vos vamos liquidar a todos, com toda a  facilidade, velhos, novos ou fetos.
A estupidez não escolhe idades, e a tua idade não vai, de facto, ser impedimento para eu concluir a minha tarefa.
Nem há locais ou situações privilegiadas para te defenderes de mim.
Não deixaremos de cumprir o nosso destino. E tu? Qual é o teu?

Nós, tu e eu, estamos intimamente ligados, desde os tempos mais remotos. Os nossos destinos parecem desde sempre ligados. Não penses, portanto, que te vais livrar facilmente de mim.
Seja onde for, seja quem for, mais hora menos hora, repito: não vai sobrar um único de vocês!

A menos que…

A menos que, para meu azar, resolvas emendar a mão. E percebas que, sem vocês, nós também não vamos longe e que isto é uma guerra que, nem nós poderíamos ganhar sem a vossa existência. É que nós precisamos de vocês, mas vocês não precisam de nós, para nada.
Já viste?
O que estás a fazer então?
O que andas para aí a fazer, a perder tempo em vez de restabeleceres os teus laços com os outros? De trabalhares para os outros, como trabalhas para ti?
Talvez assim me conseguisses ver, finalmente,
Talvez assim conseguisses virar o desfecho desta fatalidade.
Mas, por enquanto, apenas eu te vejo a ti.
Não me consegues ver, a mim, é verdade, mas consegues ver os outros, teus semelhantes, à tua volta.
Repara como estão vivos. Repara como, no fundo, querem todos continuar vivos como nós.
Pensas que algum desses, que vês à tua volta, quer morrer às minhas mãos?
Oh que ingénuo! Todos querem o mesmo que tu.
A única diferença entre vocês, é que pensas que só tu tens o poder de escapar às consequências da minha luta pela sobrevivência. Que te vais safar. Mas, como te disse antes, não vais. Só terás o poder de te veres livre de mim se assumires que o não podes fazer contando apenas contigo.
Eu sou muito mais esperto que tu. A minha luta por permanecer vivo resume-se, simplesmente, a criar mais de nós. Por outro lado, repara, não há, entre nós, velhos e novos, pretos e brancos, ricos e pobres, do norte ou do sul. Somos muitos, somos rigorosamente iguais e, graças a ti, seremos sempre quantos formos necessários para sobreviver. É por isso que somos imbatíveis.
Cada um de vocês que tu, com a tua estupidez, sacrificas à minha determinação, é alguém que não vais poder substituir. Que te poderia ajudar. Alguém diferente. Alguém que te poderia talvez ajudar precisamente por ser diferente. É nisso que reside o teu poder, não vês?!
Nós estamos todos focados no mesmo objectivo e cada um de nós que tomba será substituído, à tua custa, por alguém exactamente igual a mim, com a mesma determinação, o mesmo propósito e a mesma sanha por te sugar o último traço do teu ADN.
Eu estou focado e só me interessa uma coisa. Cada um de nós que desaparece é substituído por uma multidão de outros, que toma o nosso lugar e se junta aos outros nesse propósito. É o nosso foco que mantém, justamente as nossas fileiras em crescimento. É o nosso foco, único, que nos dá a força de que precisamos. O teu foco enfraquece-te.
Vê os que estão à tua volta. Ou melhor, ouve-os! Ouve-os, a sério. Ouve-os como ouvias quando andavas a dar os teus primeiros passos nesta Terra. Eles dizem tudo o que é preciso saber para mudar o rumo das coisas e tu já não sabes ouvi-los.
Talvez ainda haja tempo. Mas apressa-te porque eu viajo ligeiro. Quase nada pode impedir o meu desígnio.
Eu e os meus irmãos temos a simplicidade das coisas que perduram, que se adaptam, que resistem. Vimos de longe. Temos o foco, o espaço e todo o tempo do mundo..
E tu?

2020/03/26

Duas semanas noutra cidade (3): Fronteiras, Espanha e Pandemia

Foto Brunoticias

Após uma semana de espera, o segundo telefonema do Consulado Português em Sevilha. O interlocutor, simpático, começa por perguntar se já "regressei" a Portugal. Dada a resposta negativa, informa que os serviços consulares (leia-se MNE) não conseguiram reunir os 20 passageiros necessários, que justificasse o aluguer de um autocarro para um repatriamento colectivo. Pragmático, passou às alternativas existentes: apanhar um autocarro de carreira Sevilha-Ayamonte (15 euros) e, de lá, chamar um táxi que me leve a V.R. Sto. António (20 euros). A partir daí, tinha duas opções: comboio V. R. Sto. António-Lisboa (com mudança em Faro); ou autocarro, directo, até Lisboa. Outra opção (mais cara), seria alugar um carro com chauffeur, mais barato que um táxi, por um preço médio de 150 euros até à fronteira de V. Real. Acrescentou, que se trata de carros de luxo, agora a preço reduzido (!?), dada a escassez da procura. Perguntou-me qual a minha situação e se podia esperar em segurança. Respondi que sim. Realista, acrescentou: "nesse caso, deixe-se estar onde está, que está bem. Quanto mais viajar, maior o risco. De qualquer das formas, quando regressar, terá sempre de cumprir os 15 dias de quarentena, obrigatórios em Portugal." Na despedida, não deixou de sublinhar que eu tinha o seu número de telefone e que o Consulado estaria sempre à disposição para qualquer informação ou ajuda, se necessário...
Contas feitas, e na melhor das hipóteses, irei permanecer aqui até dia 11de Abril, quando o segundo período de quarentena no país terminar.
Com menos de 15 dias de quarentena (o primeiro período ainda não expirou), a situação em Espanha é de alarme generalizado. O país atravessa uma crise sanitária sem precedentes e as estruturas de acolhimento estão à beira do colapso. É o caso de Madrid (o mais grave) onde os hospitais públicos não têm meios humanos e materiais, para receber todos os infectados. O governo fez um apelo aos hospitais privados, alguns dos quais já disponibilizaram alas inteiras para tratamento dos mais necessitados e encomendou 14 milhões de euros em material sanitário. O pessoal médico começa a acusar o esforço titânico a que tem estado submetido e o contacto com os infectados já provocou as primeiras baixas que, nalguns centros, são da ordem dos 20% entre os médicos e enfermeiros! Os meios necessários (camas, máscaras, respiradores, kits de teste, desinfectantes) são manifestamente insuficientes para as proporções desta epidemia e os apelos ao governo são, por isso, constantes. Afinal, os médicos estão na primeira linha do combate e serão os primeiros infectados. São eles os heróis, nos dias que passam. Diariamente, a população de Sevilha, assoma às janelas pelas 20h. para agradecer com uma salva de palmas a dedicação demonstrada. Minutos impressionantes.
Nem tudo são palmas, no entanto. Também há "caçaroladas". A primeira, contra o rei Filipe VI, durante o discurso onde este animava o país, e que coincidiu com anúncio onde renunciava à herança do seu pai, por manifesta corrupção; a segunda, contra o governo, por ter decretado o prolongamento do estado de calamidade pública, agora reforçado com medidas austeras de circulação e multas pesadas para quem não obedecer. Os transportes públicos foram reduzidos a metade e a entrada nos únicos estabelecimentos abertos (supermercados e farmácias) é feita a conta-gotas, com filas de pessoas que guardam distância entre si. Pesem as medidas tomadas, o número de mortos não pára de aumentar. À hora de escrever este texto, o Worldometer (OMS) registava um total de 56 197 infectados e 4145 mortes em Espanha, o 4% país com mais infectados a nível mundial, depois da China, USA e Itália. Uma catástrofe sem precedentes. A infecção já está em 196 países, apesar de alguns não publicarem estatísticas fiáveis.
Países com maior número de infecções (short list):
China: 81.285 (3.287 mortes)
USA: 74.388 (1.072)
Itália: 74.386 (7.503)
Espanha: 56.197 (4.145)
Alemanha: 41.519 (239)
Irão: 29.406 (2.234)
França: 25.233 (1.331)
Suiça: 11.712 (191)
UK: 9.849 (477)
Coreia do Sul: 9.241 (131)        
Holanda: 7.431 (434)    
Portugal, aparece em 15º lugar com 3.544 infectados e 60 mortes.
A registar, pela positiva, a redução do número de mortos na China e na Coreia do Sul, onde a epidemia foi considerada controlada (o que pode ser explicado pela disciplina e pelas austeras medidas militares de contenção e prevenção); o baixo-número de mortos na Alemanha (o que pode ser explicado pelo sistema de prevenção existente: 160 000 testes/dia - mais do que na Coreia do Sul) - o maior número de camas por habitante (8/26) e menos mortes de pessoas idosas.
A surpresa, surge do Reino Unido (o país que criou o National Health Service), da Suíça e da Holanda, países com bons sistemas de saúde. Se, no primeiro caso, uma das explicações poderá ter a ver com a descapitalização do NHS e a atitude negligente do governo neoliberal de Boris Johnson, que, para manter a economia a funcionar, autorizou a abertura do comércio, para além do razoável (deixando a porta aberta aos contactos sociais que ampliaram as infecções); já na Suíça e na Holanda, países pequenos com grande densidade populacional, a possibilidade de contágio é um factor de risco. Acresce que, em ambos os países, a descapitalização e consequente privatização dos serviços públicos, também se fazem sentir o que, de resto, é transversal à maioria dos países europeus.
Portugal, em termos relativos ainda pouco atingido, confronta-se com o mesmo problema: depois de uma década de desinvestimento no sector público (anos da Troika, com Passos Coelho e anos de estabilização com Costa) não recuperou os níveis anteriores a 2011. A privatização da saúde (50% do sector) aumentou o fosso entre os "have" e os "have not", com as consequências conhecidas. Com a curva dos infectados a aumentar (ainda que abaixo das projecções mais pessimistas), o sistema do SNS está em risco de implosão e o governo deve tomar medidas que defendam a população. Desde logo a nível sanitário (comprando material e obrigando os privados a disponibilizar instalações e testes para a população) e, simultaneamente, criando medidas temporárias de apoio a desempregados e empresas em dificuldade. Estamos num tempo de solidariedade. A economia, fica para depois.
Este é, de resto, o apelo de Sanchez (PSOE) e outros líderes europeus, que pediu um novo "Plano Marshall" para a Europa, ao que a presidente da Comissão (Von der Leyen) respondeu que a Comissão dispunha de meios suficientes para suster a crise (!?). Quanto à comissária da saúde europeia, parece perdida em combate, já que ninguém ouve falar dela...
No meio do caos organizado em que se transformou esta pandemia, não faltam as vozes da oposição, para quem tudo o que os governos fazem está mal feito. No caso espanhol, o líder do Vox (extrema-direita) secundado pelo PP (franquista), falam todos os dias das suas casas, onde estão refugiados em quarentena. Abascal (Vox) criticou o governo por autorizar manifestações feministas no dia 8 de Março que, na sua "perspectiva", teriam aumentado o risco de contágio (!?); ontem, voltou a manifestar-se, exigindo que os imigrantes ilegais pagassem todos os gastos se fossem atendidos em hospitais públicos (!?). Esqueceu-se de referir os milhares de imigrantes legais, que trabalham nas estufas andaluzas, sem máscaras e sem luvas, onde são explorados e vivem em condições deploráveis de salubridade.
Outro palerma, é um médico de Granada, que dá pelo nome de Jésus Candel e coloca vídeos na Net. Começou por elogiar os serviços médicos nos primeiros dias, para mudar o discurso à medida que faltava material e o hospital onde trabalha deixava de responder às necessidades. O homem pensou que tinha graça e fez das suas intervenções diárias, uma espécie de "stand-up comedy", onde injuriava tudo e todos, a começar pelo primeiro-ministro. A idiotice (um caso de insubordinação inqualificável) foi criticada por colegas de profissão e Joan Planas, um comentador que (num vídeo viral) exigiu a Candel que pedisse desculpa ao povo espanhol. Já esta semana, Candel retratou-se e veio mudar o discurso, agora com lágrimas nos olhos. O medo e o pânico não poupam ninguém, mesmo os mais parvos.
Esta é, provavelmente, a maior lição desta pandemia. Atinge tudo e todos: doentes e médicos, pobres e ricos, famosos e desconhecidos: do monarca de Mónaco ao príncipe Charles de Inglaterra; de Irene Montero (Podemos), ministra da Igualdade a Carmen Calvo (PSOE), vice-presidente do governo espanhol, que, hoje mesmo, teve alta do hospital onde se encontrava internada devido ao Coronavírus. Também o juíz Garzón, se encontra hospitalizado com dificuldades respiratórias.

(continua)





 

2020/03/24

Duas semanas noutra cidade (2): isolamento, rotinas e notícias


Em dias de quarentena forçada, continuamos à espera de notícias do consulado de Sevilha, sobre um eventual repatriamento colectivo, organizado pelo governo português a partir da capital andaluza. 
Como era expectável, o governo espanhol decidiu prolongar o período inicial da quarentena, de 15 para 30 dias. O governo português fez o mesmo, o que de resto estava implícito no "estado de emergência" decretado no passado 15 de Março. A quarentena está para durar, pelo menos até dia 11 de Abril. A circulação, entre os dois países, foi drasticamente limitada (menos 99% de tráfico terrestre, segundo a imprensa espanhola) e as punições para os infractores podem atingir multas na ordem dos milhares de euros. As medidas mais drásticas da União Europeia, segundo Sánchez, o primeiro-ministro. 
Outros países tomaram medidas similares (o que, em si, é compreensível) e não tardará muito que a população europeia (quiçás mundial) fique confinada em casa, esperando pelo abrandamento da "crise sanitária". Se a "coisa" resultar, o confinamento pode ser uma tentação para ditadores em potência. Não por acaso, foram os partidos de direita extrema (Chega, CDS, etc...) os primeiros a exigir o "estado de emergência", apesar de não saber muito bem o que fazer com ele. Para já, os populistas estão desaparecidos em combate, ainda que o "desventurado" André, tenha andado pelos hospitais a tentar capitalizar o descontentamento dos médicos e utentes, na tentativa vã de culpar o SNS (leia-se, o governo) pelos infortúnios de uma sociedade pouco preparada para uma epidemia destas dimensões. Ninguém estava preparado. A prova é o crescimento exponencial do vírus a nível mundial, como pode ser observado diariamente na app "worldometer", que actualiza ao minuto as cifras disponibilizadas pela Organização Mundial de Saúde. Vão lá ver e depois falem.
Para já, há que seguir as indicações sanitárias aconselhadas e permanecer em casa. Parece fácil, mas não é. A principal dificuldade, é a falta de exercício. Compensamos com sessões de yoga diárias e subidas à açoteia que cobre todo o edifício (vantagens mediterrânicas), lugar de reunião dos condóminos e dos filhos em tempo de clausura. Uma vez ao dia, descemos para ir ao supermercado (falta sempre qualquer coisa), à farmácia ou ao ATM. Aproveito para comprar o "El País" impresso, já que nem todos os artigos estão disponíveis online. Os "workshops" na cozinha fazem parte da rotina diária e temo pelos quilos acumulados.  As leituras diárias, online e não só, são obrigatórias, dada a informação importante que circula, ainda que a opinião disparatada tenha aumentado em proporção. Podemos dividir as notícias que circulam em três grandes grupos: as catastrofistas, as cómicas e as cínicas. As primeiras, vêem na actual pandemia, um sinal do fim do Mundo (fundamentalistas religiosos e negacionistas em geral); as segundas, fazem circular anedotas, algumas delas geniais (o humor é importante nos dias que correm); finalmente, as terceiras, provavelmente as mais  pessimistas, ainda que, às vezes, com razão. Afinal, um pessimista é um optimista realista.  
Das centenas de notícias lidas, respigamos alguns assuntos que nos chamaram a atenção:
Desde logo, o "estado de excepção", promulgado pelo governo português, depois de um apelo do Presidente da República, após ouvir o Conselho de Estado no passado dia 18. A medida seria aprovada por uma maioria da AR, com abstenção do PCP, Verdes e IL. Uma lei polémica, já que é a primeira vez que  é aplicada em 44 anos de democracia (se exceptuarmos o período que se seguiu ao 25 de Abril, quando os militares, do MFA, garantiam a ordem democrática) e que continua a ser fortemente criticada em diversos artigos de opinião, e.o. por Raquel Varela, Manuel Loff, Rui Tavares (Público), Francisco Louçã (Expresso), Garcia Pereira (Diário de Notícias) ou Carlos Matos Gomes (Tornado). No seu discurso perante a AR, António Costa procurou serenar os ânimos, ao garantir que as liberdades fundamentais (leia-se, democracia) estavam salvaguardas. Resta saber se, ao prolongamento da situação de excepção, se seguirá uma situação de aceitação destas mesmas medidas, que poderão ser prolongadas caso a crise social e económica, que, inevitavelmente, virá a seguir, lance o pânico nos "mercados". Conhecemos o enredo: em situação de crise, a especulação aumentará exponenciamente e, a não serem tomadas medidas preventivas desde já (dos governos, mas também dos cidadãos que neles votaram) podemos vir a confrontar-nos com um dos dois pesadelos: ou controlo financeiro da economia e, por extensão da política, como aconteceu após o "crash" de 2008; ou o fascismo (implícito e explícito), que é a forma mais drástica do ditadura do capital. Como declarava, ontem, Yanis Varoufakis, em debate online organizado pelo movimento DIEM25, "a esta hora, em Budapeste, Orbán e os seus congéneres europeus, como Le Pen e Salvini, esfregam as mãos, à espera da próxima crise que facilitará os regimes autoritários."
Outras notícias, não menos importantes, são naturalmente os boletins clínicos e conselhos práticos fornecidos diariamente pela OMS e, no caso português, pela DGS. Pesem algumas discrepâncias em dados e opiniões abalizadas, algumas coisas começam, no entanto, a ser aceites pelo mundo científico. Assim, e contrariamente à notícia difundida em Janeiro, o Coronavírus pode ter sido originado noutro local, que não em Wuhan, apesar de ter sido num mercado dessa cidade que primeiro foi detectado. De acordo com cientistas chineses, japoneses, taiwaneses e norte-americanos, o vírus pode, inclusive, ter origem nos EUA, o único país onde foram (até agora) encontradas as cinco estirpes do Corona. O seu aparecimento na Ásia, não exclui a possibilidade de ter sido transportado para Wuhan, onde decorreram exercícios militares internacionais. Em todos os outros países asiáticos (China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Singapura, etc.), o vírus tem apenas uma ou duas estirpes. Está tudo num artigo publicado no El Ciudadano.
Também sabemos que a China e a Coreia do Sul, os primeiros países (com o Japão) a serem atingidos pela epidemia, conseguiram o "achatamento da curva" de expansão dos infectados, reduzindo o número de mortos. Dos 1500 casos diários registados no pico da crise, Wuhan passou a 6 por dia! Uma das explicações para o sucesso, prende-se, naturalmente, com a disciplina asiática o que, num estado totalitário como a China, não será difícil de acatar. Já na Coreia do Sul (o segundo país asiático mais infectado), assim que souberam da situação chinesa, foi desenvolvida uma estratégia nacional: as 4 maiores fábricas farmacêuticas do país receberam meios e dinheiro para fabricar kits de teste, o que permitiu testar 20 000 cidadãos diariamente, em hospitais e unidades clínicas de proximidade. Simultaneamente, foram criados 56 laboratórios em todo o país, para analisar os resultados e, desta forma, separar os cidadãos infectados da restante população. Hoje, tanto os médicos chineses, como os sul-coreanos, estão na Europa (o continente mais afectado) a ajudar em países como a Itália e a Espanha. A prevenção e a disciplina, não bastam, mas ajudam.

(continua)