A situação de expectativa em torno do resultado do referendo na Irlanda não pode deixar de causar uma enorme perplexidade. A Europa política está neste momento com a respiração suspensa. Muita coisa está em jogo com a aprovação deste "Tratado de Lisboa" e ouvimos mesmo hoje o primeiro ministro José Sócrates afirmar que está em jogo a sua carreira política. São oito anos de trabalho que dependem agora do sim ou do não do povo irlandês. A Irlanda foi o único país a submeter a referendo esta aprovação.
Numa Europa em crise, estando em causa o futuro de uma zona decisiva do globo, não deixa de suscitar uma profunda estranheza que tudo isto dependa desta singela mas significativa decisão. Ouvimos as reacções dos políticos quando questionados sobre a eventualidade do não triunfar, procuramos saber o que terá sido feito para o caso da votação não ser favorável na Irlanda e ficamos com a sensação que a Europa navega, fragilmente, nesta como noutras matérias, completamente à bolina.
A improvisação e o desnorte europeus não deixam de espantar, tanto mais que noutras matérias o grau de picuinhice das diversas instâncias políticas da Eurolândia raia frequentemente o ridículo pelo exagero. Então o Tratado é ou não uma questão importante? Que pensar destes políticos que um dia nos aparecem com ar dramático a dizer que ou o Tratado vinga ou vem aí o dilúvio, e que, posteriormente, perante a possibilidade de um único país colocar em causa todo este processo, mostram uma total falta de bom senso, de previsão e uma gritante incapacidade para gerar alternativas...?
Quando olho para o que está em causa e quando penso nos grandes desígnios em que hoje a Humanidade se encontra envolvida, para a consecução dos quais a Europa pode e deve desempenhar um papel crucial, não posso deixar de ficar boquiaberto com esta estratégia do deixa-ver-o-que-vai-acontecer.
Nesta altura já é tarde para o primeiro ministro se preocupar com o futuro político. Mesmo que ganhe o sim a imagem de improvisação e de leveza na condução deste processo já não descola...
2008/06/12
2008/06/09
"Blagues" em papel
Leio hoje no Público, no espaço do P2 dedicado aos blogues chamado "Blogues em papel", uma citação do blogue dazuis08.blogspot.com que inclui a seguinte frase: "O meu interesse pela selecção não se compara há minha paixão pelo FCPorto." Fui verificar e a asneira é mesmo do blogue. Será...?
Não me custa nada acreditar na sinceridade deste "bloguista" ("blogueiroso"? "bloguicida"?) e na sua profunda convicção clubística... Já me custa contudo ter de ler isto no Público. Que diabo, pela moeda antiga o jornal já custa cerca de 180 escudos! E é de referência! Ao menos que tivessem aproveitado para fazer um pouco de pedagogia.
Não me custa nada acreditar na sinceridade deste "bloguista" ("blogueiroso"? "bloguicida"?) e na sua profunda convicção clubística... Já me custa contudo ter de ler isto no Público. Que diabo, pela moeda antiga o jornal já custa cerca de 180 escudos! E é de referência! Ao menos que tivessem aproveitado para fazer um pouco de pedagogia.
2008/06/07
Mais impressões
Ainda no capítulo das impressões, não deixa de ser profundamente caricata a impressão que fica da colagem que a direita (ou pelo menos a direita que não está no poder neste momento...) faz a estas manifestações de descontentamento que atravessam a sociedade portuguesa. Já foi assim, por exemplo, com os professores, e agora continua com os 200.000...
Achará esta direita mentecapta e inútil que temos que os portugueses não sabem avaliar que para o estado actual do país, o seu contributo, o contributo de uma política de direita, foi determinante? Pensará esta direita canhestra que temos que basta colar-se ao descontentamento para ganhar uma credibilidade que perdeu inexoravelmente? Pensarão os novos panditas do PSD que a descoberta súbita de "preocupações sociais" da dra. Manuela Ferreira Leite faz esquecer os tempos em que ocupou a pasta das Finanças? Se pensam assim só posso dizer uma coisa: fico, eu próprio, impressionado!
Cautela porém: a ausência de um projecto, a caducidade completa de determinadas propostas, a pulverização organizativa da esquerda, e a sua teimosia em manter certos feudos (chamemos-lhe eufemisticamente assim...) podem muito bem ditar que a colagem, na prática, cole...
Achará esta direita mentecapta e inútil que temos que os portugueses não sabem avaliar que para o estado actual do país, o seu contributo, o contributo de uma política de direita, foi determinante? Pensará esta direita canhestra que temos que basta colar-se ao descontentamento para ganhar uma credibilidade que perdeu inexoravelmente? Pensarão os novos panditas do PSD que a descoberta súbita de "preocupações sociais" da dra. Manuela Ferreira Leite faz esquecer os tempos em que ocupou a pasta das Finanças? Se pensam assim só posso dizer uma coisa: fico, eu próprio, impressionado!
Cautela porém: a ausência de um projecto, a caducidade completa de determinadas propostas, a pulverização organizativa da esquerda, e a sua teimosia em manter certos feudos (chamemos-lhe eufemisticamente assim...) podem muito bem ditar que a colagem, na prática, cole...
Outras impressões, outras perguntas
Independentemente da impressão que poderá ter causado a manifestação da passada quinta feira ao Primeiro Ministro, uma pergunta a fazer é: qual a impressão que a manifestação causou à esquerda, ou às esquerdas, nomeadamente, aquela que se reuniu no Teatro da Trindade e que tanto incómodo causou ao partido do governo.
Outra pergunta que nós todos devemos fazer a estas esquerdas, as que foram ao teatro e à outra que não foi, será: se, ao contrário do Primeiro Ministro, ficaram impressionados com os números, qual é o plano que têm para dar um conteúdo a toda esta efervescência? Parece uma ocasião de ouro para avançar com um plano, se é que ele existe.
O pior que poderia acontecer seria ter de gramar os comentários dos que apontam a todas estas manifestações o defeito de não conterem propostas. E ficarmo-nos, sem perguntas, todos apenas pelas impressões...
Outra pergunta que nós todos devemos fazer a estas esquerdas, as que foram ao teatro e à outra que não foi, será: se, ao contrário do Primeiro Ministro, ficaram impressionados com os números, qual é o plano que têm para dar um conteúdo a toda esta efervescência? Parece uma ocasião de ouro para avançar com um plano, se é que ele existe.
O pior que poderia acontecer seria ter de gramar os comentários dos que apontam a todas estas manifestações o defeito de não conterem propostas. E ficarmo-nos, sem perguntas, todos apenas pelas impressões...
2008/06/06
Avisos, conselhos e impressões
Entre "avisos de amigo" de Mário Soares e conselhos para "terem juízo" de Manuel Alegre, dirigidos em ambos os casos ao Governo, 200.000 mil trabalhadores desfilaram ontem em Lisboa. Os números são, creio eu, oficiais, e não mereceram, que se saiba, qualquer contestação. Tudo decorreu com enorme naturalidade, numa quinta feira à tarde. O Primeiro Ministro reagiu, dizendo também com uma ar de grande naturalidade que não estava impressionado com os números.
Eu é que confesso que começo a ficar impressionado com o Primeiro Ministro...
Eu é que confesso que começo a ficar impressionado com o Primeiro Ministro...
2008/06/03
Aldina Mourinho
Aldina Duarte, fadista, convidada da SICN a apresentar o seu novo disco, está há mais de trinta minutos em estúdio aguardando que José Mourinho termine a sua apresentação como treinador do Inter.
Não é a primeira vez que a SICN interrompe emissões com convidados especiais e não é a primeira vez que o faz por causa de Mourinho. É uma opção jornalística da estação de televisão.
Quando lemos que as actividades do porto de Lisboa vão estar paradas durante os jogos da selecção para que os estivadores e demais trabalhadores portuários possam seguir o campeonato europeu de futebol, está tudo explicado.
Os portugueses podem estar muito preocupados com a crise petrolífera, a falta de peixe ou a crise governamental. Mas, mais do que tudo, estão preocupados com futebol. O jornalismo português não foge à regra. A SIC é o espelho da nação.
Ignoramos se Aldina ficou no estúdio. Provavelmente, não. Seria bom que os convidados da televisão dessem prioridade a outras coisas (neste caso a arte do fado) em detrimento da arte futebolística e tivessem a coragem de recusar tal subserviência ao desporto, mesmo que esse desporto seja o futebol e o entrevistado seja Mourinho. Com jornalismo deste jaez não há opinião crítica que resista.
Não é a primeira vez que a SICN interrompe emissões com convidados especiais e não é a primeira vez que o faz por causa de Mourinho. É uma opção jornalística da estação de televisão.
Quando lemos que as actividades do porto de Lisboa vão estar paradas durante os jogos da selecção para que os estivadores e demais trabalhadores portuários possam seguir o campeonato europeu de futebol, está tudo explicado.
Os portugueses podem estar muito preocupados com a crise petrolífera, a falta de peixe ou a crise governamental. Mas, mais do que tudo, estão preocupados com futebol. O jornalismo português não foge à regra. A SIC é o espelho da nação.
Ignoramos se Aldina ficou no estúdio. Provavelmente, não. Seria bom que os convidados da televisão dessem prioridade a outras coisas (neste caso a arte do fado) em detrimento da arte futebolística e tivessem a coragem de recusar tal subserviência ao desporto, mesmo que esse desporto seja o futebol e o entrevistado seja Mourinho. Com jornalismo deste jaez não há opinião crítica que resista.
2008/06/02
Exageros
A selecção e o Euro 2008 não são substituto para colocar Portugal no trilho certo e para transformar a vida dos Portugueses num processo menos doloroso que aquele que se vive, mas até parece. Correspondesse esta selecção a uma ideia verdadeiramente aglutinadora e fosse ela o espelho de uma situação global do país tão empolgante quanto o empolgamento que vamos vendo em relação ao jogo da bola e talvez tudo isto valesse a pena. Desse o Estado metade da atenção e dos meios às questões nucleares que interessam verdadeiramente aos portugueses, que dá continuadamente a este projecto e a história actual deste país seria outra.
Assim, cá vamos nós para mais uma prova relativamente inútil, ligeiramente fútil e seguramente inconsequente das nossas capacidades. Cá vamos nós para mais esta prova de "fé" em que permanentemente andamos metidos. Esta só não tem velas...
Mais exagerado do que tudo isto só talvez mesmo o comportamento dos suiços. Se não queriam os exageros do futebol no seu território porque raio concorreram à realização deste europeu? Prevejo o pior...
Uma coisa me dá algum gozo em tudo isto: em matéria de exageros, como em matéria de ridículo, os extremos tocam-se!
2008/05/29
Ainda a revolução no MNE, o acordo ortográfico e o futuro do Português
Não sou fundamentalista da língua. A língua é um instrumento, sabe-se hoje muito bem, simultaneamente, de expressão e de formação do pensamento. O uso e o domínio da língua, de qualquer língua, não é um luxo. É vital para todos nós, como é vital o domínio do anzol para um pescador, ou da raquete para um tenista.
Mas, qualquer língua serve para isto.
Há dias o relatório de uma dessas comissões sobre a Língua Portuguesa dizia que o Português nunca poderá aspirar tornar-se uma língua da ciência ou do comércio. Temo que com acordos, mais ou menos mal amanhados, em torno da Língua Portuguesa, o uso e o domínio da língua sejam postos em causa. E temo que com esta atitude demissionária perante o papel do Português e com estas tentativas pífias de barbarização gratuita ou "crioulização" do Inglês --como é exemplo esta "reforma" caricata dos endereços electrónicos do MNE--, as novas gerações acabem por não usar nem dominar qualquer língua, a que devia ser sua ou a que é dos outros. Talvez no futuro os jovens portugueses grunham, simplesmente, para se exprimirem e se limitem a ter também pensamentos (mal) grunhidos...
Não tenhamos dúvidas: sem o domínio da língua, de uma qualquer língua, os jovens portugueses correm o risco de passar ao lado da vida e, muito provavelmente, até de si próprios. A visão é deliberadamente catastrofista, apenas para enfatizar o meu argumento.
Que diabo, levem isto (mesmo) a sério! Já que o Português não tem futuro, façam do Inglês a língua oficial dos PALOP! Mas, ao menos, criem condições para que o seu uso e o domínio sejam tão amplos quanto possível.
Mas, qualquer língua serve para isto.
Há dias o relatório de uma dessas comissões sobre a Língua Portuguesa dizia que o Português nunca poderá aspirar tornar-se uma língua da ciência ou do comércio. Temo que com acordos, mais ou menos mal amanhados, em torno da Língua Portuguesa, o uso e o domínio da língua sejam postos em causa. E temo que com esta atitude demissionária perante o papel do Português e com estas tentativas pífias de barbarização gratuita ou "crioulização" do Inglês --como é exemplo esta "reforma" caricata dos endereços electrónicos do MNE--, as novas gerações acabem por não usar nem dominar qualquer língua, a que devia ser sua ou a que é dos outros. Talvez no futuro os jovens portugueses grunham, simplesmente, para se exprimirem e se limitem a ter também pensamentos (mal) grunhidos...
Não tenhamos dúvidas: sem o domínio da língua, de uma qualquer língua, os jovens portugueses correm o risco de passar ao lado da vida e, muito provavelmente, até de si próprios. A visão é deliberadamente catastrofista, apenas para enfatizar o meu argumento.
Que diabo, levem isto (mesmo) a sério! Já que o Português não tem futuro, façam do Inglês a língua oficial dos PALOP! Mas, ao menos, criem condições para que o seu uso e o domínio sejam tão amplos quanto possível.
2008/05/28
Revolução no MNE
Antecipando a entrada em vigor e o começo da aplicação do Acordo Ortográfico, o MNE decidiu desde já passar os endereços electrónicos dos diplomatas para inglês... No prosseguimento da actual política, consta que até o nome do pessoal do MNE vai ter de ser mudado. O próprio ministro já começou por dar o exemplo e o Face divulga aqui, em rigoroso exclusivo, o seu novo endereço: louis_beloved@foreignminstry.pt.
2008/05/27
Avisos
Mário Soares publica hoje um artigo no DN no qual chama a atenção para o clima de crescente descontentamento e instabilidade que se vive no País e para os efeitos que a crise daí decorrente pode ter. Nada do que Mário Soares diz é verdadeiramente novidade. Todos os sentimos na pele, todos os dias e por todo o lado. Soares invoca com habilidade a crise internacional para justificar a crise, mas não deixa de apontar o dedo ao governo e às suas políticas para lhe traçar a sua causa primeira. E pelo meio deixa um recado aos seus correlegionários do PS: "quem vos avisa vosso amigo é..."
Um membro do governo já reagiu. Também não foi novidade o que disse. Contemporizador, mas num tom onde se adivinha uma ligeira arrogância, o ministro Mário Lino saudou a preocupação de Mário Soares, mas, diz, o governo não anda a dormir e não está à espera das análises dele para actuar.
O aviso ficou. Vamos num futuro certamente próximo ver se o governo andava afinal a dormir ou não, e vamos ver também, uma vez que, sabemo-lo agora, não espera pelas análises de Soares, pelo que espera então o governo...?
Um membro do governo já reagiu. Também não foi novidade o que disse. Contemporizador, mas num tom onde se adivinha uma ligeira arrogância, o ministro Mário Lino saudou a preocupação de Mário Soares, mas, diz, o governo não anda a dormir e não está à espera das análises dele para actuar.
O aviso ficou. Vamos num futuro certamente próximo ver se o governo andava afinal a dormir ou não, e vamos ver também, uma vez que, sabemo-lo agora, não espera pelas análises de Soares, pelo que espera então o governo...?
2008/05/26
Expressões perigosas...
Face aos aumentos contínuos que sofrem os produtos derivados desde o petróleo, à intransigência em diminuir os impostos que sobre eles incidem, o IVA, o ISP, até às portagens, aos selos, selinhos e outros impostos que incidem sobre tudo o que roda e sobre tudo onde se roda em Portugal, escondidos ou com o rabo de fora, é caso para pedir aos portugueses que deixem de usar a expressão "vão roubar para a estrada"!
É que a gente diz isso e eles, como se vê, vão mesmo!!
É que a gente diz isso e eles, como se vê, vão mesmo!!
2008/05/18
"Saturday Night Fever"
A ida do primeiro-ministro às urgências de um hospital no Porto foi, como se previa, notícia de primeira página. Pelos vistos, tinha febre, nada que uma simples "aspirina" não curasse, a tempo do homem aparecer em Braga, bem disposto e a declarar que estava em forma. Trata-se, segundo Sócrates, do "síndrome do tabaco", provocado pela abstinência do mesmo, após cinco dias sem fumar. Cinco dias, apenas! Não consigo imaginar os terríveis dilemas de um ex-fumador, após um mês sem a companhia do cigarrito. Alucinações?
Com suores frios devem estar os portugueses, agora que são conhecidas as projecções do PEC para 2008: uma taxa de crescimento de 1,5% contra as previsões governamentais de 2,2%. Com um crescimento económico abaixo da média europeia e sem margem de manobra para criar emprego, o primeiro-ministro arrisca-se a passar mais sábados nas urgências, a exemplo daqueles que são hoje penalizados pela sua política. Ainda não são conhecidos os antídotos para este estado febril.
Com suores frios devem estar os portugueses, agora que são conhecidas as projecções do PEC para 2008: uma taxa de crescimento de 1,5% contra as previsões governamentais de 2,2%. Com um crescimento económico abaixo da média europeia e sem margem de manobra para criar emprego, o primeiro-ministro arrisca-se a passar mais sábados nas urgências, a exemplo daqueles que são hoje penalizados pela sua política. Ainda não são conhecidos os antídotos para este estado febril.
2008/05/15
"Business as usual"
Andam as brigadas dos bons costumes muito atarefadas em culpar o primeiro-ministro (oposição e fundamentalistas anti-tabagistas) ou em desculpá-lo (governo e demais clientelas políticas) sobre a questão de fumar ou não fumar num voo fretado de oito horas. Como se essa fosse a questão mais importante da nação. Um jornal de referência chegou, inclusive, a dedicar-lhe a sua manchete.
Entretanto, ninguém se interrogou sobre as declarações do cacique populista venezuelano (que alguma "esquerda" insiste em bajular) e que mandou à merda a chanceler alemã, depois de lhe chamar seguidora de Hitler num discurso público. A mesma chanceler, a quem Sócrates deve a aprovação do Tratado de Lisboa de que tanto se ufana...
Que se saiba, sobre este incidente, o nosso primeiro-ministro (e amigo de Merkel) disse nada. Como nada disse sobre o regime do títere que governa Angola e a quem o governo português presta vassalagem. Tudo a bem da negociata, está bem de ver.
Que os nossos governantes sejam o que são, já não nos deve admirar. Que a imprensa e os fazedores de opinião continuem a dar mais importância a questões como fumar num avião sobre o Oceano Atlântico, dá que pensar...
Entretanto, ninguém se interrogou sobre as declarações do cacique populista venezuelano (que alguma "esquerda" insiste em bajular) e que mandou à merda a chanceler alemã, depois de lhe chamar seguidora de Hitler num discurso público. A mesma chanceler, a quem Sócrates deve a aprovação do Tratado de Lisboa de que tanto se ufana...
Que se saiba, sobre este incidente, o nosso primeiro-ministro (e amigo de Merkel) disse nada. Como nada disse sobre o regime do títere que governa Angola e a quem o governo português presta vassalagem. Tudo a bem da negociata, está bem de ver.
Que os nossos governantes sejam o que são, já não nos deve admirar. Que a imprensa e os fazedores de opinião continuem a dar mais importância a questões como fumar num avião sobre o Oceano Atlântico, dá que pensar...
2008/05/14
Voltando ao assunto...
Retomo a ideia que tentei desenvolver no texto que intitulei Recobro Ortográfico... Algumas vozes amigas contestam (infelizmente não consegui que o fizessem sob a forma de um comentário que seria bem mais útil) a ideia de que estaremos, sem nos darmos disso conta, a assistir ao nascimento de mais um crioulo com esta introdução tosca de anglicismos no nosso discurso quotidiano. O português, alertam estas vozes, é, ele próprio, um "crioulo" resultante do latim e da "globalização" moderna resultará um inevitável processo da "barbarização" do inglês, como da "globalização" romana nasceu um latim bárbaro.
Não questiono o efeito dos mecanismos que envolvem os processos de globalização, de ontem e de hoje, e não duvido dos perigos que rodeiam o português no contexto de um tal processo. O que contesto aqui é a ideia de inevitabilidade. Como se estivéssemos já condenados a uma extinção inexorável. Ora, justamente a "evitabilidade" desta extinção anunciada é que vem tornar claro a importância da língua. Falar português neste mundo global é a afirmação, não só, de uma realidade linguística única, mas também da possibilidade de nos reinventarmos como povo. Esse é o desafio, que ultrapassa qualquer projecto de cariz nacionalista bacoco. Assistir sem luta ao processo de degenerescência da Língua Portuguesa é, pois, mais do que um simples problema do domínio da linguística, a admissão clara de uma tendência suicida.
Vamos ver quem tem a última palavra...
Não questiono o efeito dos mecanismos que envolvem os processos de globalização, de ontem e de hoje, e não duvido dos perigos que rodeiam o português no contexto de um tal processo. O que contesto aqui é a ideia de inevitabilidade. Como se estivéssemos já condenados a uma extinção inexorável. Ora, justamente a "evitabilidade" desta extinção anunciada é que vem tornar claro a importância da língua. Falar português neste mundo global é a afirmação, não só, de uma realidade linguística única, mas também da possibilidade de nos reinventarmos como povo. Esse é o desafio, que ultrapassa qualquer projecto de cariz nacionalista bacoco. Assistir sem luta ao processo de degenerescência da Língua Portuguesa é, pois, mais do que um simples problema do domínio da linguística, a admissão clara de uma tendência suicida.
Vamos ver quem tem a última palavra...
Ted Nelson
Soube que Ted Nelson passou por Portugal. Tenho pena de não ter podido acompanhar este personagem que considero fascinate, cuja obra conheço há muito. Enquanto lamento não ter podido cruzar-me com ele, vêm-me à ideia alguns pensamentos sobre o universo em que ele está inserido. Nelson é tido por muitos como o "inventor" deste meio que nos permite estar neste momento em contacto, a World Wide Web. Não será o "inventor" no sentido literal do termo, mas foi certamente o seu grande e mais remoto mentor. O Projecto Xanadu, um antepassado inequívoco desta WWW onde hoje todos nos encontramos, data de 1960. As ideias de Nelson levaram-no à criação do conceito de hipertexto e, mais tarde, de hipermedia. Mas, o conceito do Xanadu estava muito para além daquilo em que a WWW hoje se tornou. O conceito era iminentemente político. Ele próprio escreve que em 1960 imaginou "um sistema universal de publicação electrónica, anarquista e corrente, através do qual qualquer um pudesse publicar o que quer que fosse, que qualquer um pudesse ler. (Até agora, isto parece a web.) Mas, a minha abordagem prende-se com profundidade literária, que inclui a apreciação comparada, a anotação e uma proposta de direito de autor única. Hoje chamo-lhe literatura electrónica profunda, uma vez que as pessoas confundem hipertexto com a net."O debate continua, mas a influência de Nelson no nosso quotidiano actual parece insofismável.
Não posso deixar de associar o desenvolvimento destes conceitos aos tempos vividos na América dos anos 60. Não posso deixar de traçar paralelos entre a América dos anos 60 e o Portugal dessa época, e não posso deixar de encontrar aí factores que me parecem contribuir decisivamente para o atraso, nunca recuperado do nosso país.
Onde estavam os "Nelsons" portugueses nessa altura? Na guerra ou a fugir dela. Poderia ter havido "Nelsons" portugueses? Dificilmente, já que a luta dos "Nelsons" potenciais se situava ao nível da quase sobreviência, material, espiritual e intelectual. Enquanto na pátria, aos "Nelsons" pouco tempo lhes sobraria, depois de assegurar a sobrevivência, e nenhumas condições estariam criadas para imaginar um futuro liberto dos fantasmas da repressão, no estrangeiro, também não me parece que os "Nelsons" potenciais tenham tido tempo, disposição e condições para imaginar o nosso futuro no futuro.
O Xanadu é um projecto de liberdade. Não é possível concebê-lo no quadro de um quotidiano repressivo e inibidor. As condições brutais em que decorriam o protesto contra a repressão e a luta pela sobreviência quotidiana no Portugal dos anos 60 ditaram atrasos de que ainda hoje nos não libertámos, para além de tiques e formas de actuação dessas gerações de que as gerações mais novas se começam a aperceber e a combater. Vamos ver é se no seio das novas gerações surgirá a capacidade de reacção que lhes permita imaginar um Xanadu qualquer, ou se elas se vão acomodar.
Uma coisa é certa: ninguém os vai obrigar a usar gravata ou a cortar o cabelo...
2008/05/08
Politicamente incorrecto
Mira Amaral, gestor do novo banco BIC (de capitais angolanos) é de opinião que Bob Geldof não sabe do que fala. A razão é simples: o inglês é um cantor "pop" e não percebe nada de coisas sérias. Haja alguém que nos elucide.
2008/05/07
Politicamente correcto
Numa conferência, organizada pelo BES em Lisboa, Sir Bob Geldof (Live Aid) declarou que "Angola é gerida por criminosos".
Nem mais.
Nem mais.
Recobro ortográfico...
Abrimos os jornais, ligamos a televisão ou a rádio, ouvimos o cidadão comum a falar e o que podemos nós constatar acerca da língua preferencial que os portugueses usam para comunicarem entre si, neste espaço a que se convencionou chamar Portugal? Usam o Português? Hardly..!
Nespresso? What else... Reuter's? Know now... Toshiba? Não, Tôsh'bâ! EDP Renováveis (EDP!)? Powered by nature... E não esqueçam que It's a Sony... E visitem La Caffé, design Restaurant e espaço Lounge (sic)...
Mas, não é só no domínio da publicidade e dessa coisa a que chamam gestão que dominam os anglicismos. Ontem mesmo, Vital Moreira (professor universitário) lançava logo no início da sua habitual crónica do Público: "Um think tank britânico de esquerda elaborou um ranking dos países da UE quanto à qualidade da "democracia quotidiana" (everyday democracy)..." Parece uma daquelas conversas do Lauro Dérmio!
Enfim, não nos faltam exemplos que me sugerem a ideia de que antes de pretender alcançar um acordo ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa (vulgo PALOPs), Portugal deveria rever este relacionamento bizarro que tem com a sua própria língua. A discussão sobre o pretenso acordo ortográfico, os abaixo assinados e as petições... miss the point!
É que por este andar o português, dentro de algum tempo, vai-se transformar num crioulo qualquer, tipo caribenho, ou, na melhor das hipóteses, em mais uma variante do inglês. Nessa altura não valerá a pena pensar em acordo ortográfico, porque, como se sabe, os países anglófonos convivem muito bem com a sua diversidade linguística.
Valha-nos Deus! Ou deveria dizer "veilhemnús góde", em inglês...?
Nespresso? What else... Reuter's? Know now... Toshiba? Não, Tôsh'bâ! EDP Renováveis (EDP!)? Powered by nature... E não esqueçam que It's a Sony... E visitem La Caffé, design Restaurant e espaço Lounge (sic)...
Mas, não é só no domínio da publicidade e dessa coisa a que chamam gestão que dominam os anglicismos. Ontem mesmo, Vital Moreira (professor universitário) lançava logo no início da sua habitual crónica do Público: "Um think tank britânico de esquerda elaborou um ranking dos países da UE quanto à qualidade da "democracia quotidiana" (everyday democracy)..." Parece uma daquelas conversas do Lauro Dérmio!
Enfim, não nos faltam exemplos que me sugerem a ideia de que antes de pretender alcançar um acordo ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa (vulgo PALOPs), Portugal deveria rever este relacionamento bizarro que tem com a sua própria língua. A discussão sobre o pretenso acordo ortográfico, os abaixo assinados e as petições... miss the point!
É que por este andar o português, dentro de algum tempo, vai-se transformar num crioulo qualquer, tipo caribenho, ou, na melhor das hipóteses, em mais uma variante do inglês. Nessa altura não valerá a pena pensar em acordo ortográfico, porque, como se sabe, os países anglófonos convivem muito bem com a sua diversidade linguística.
Valha-nos Deus! Ou deveria dizer "veilhemnús góde", em inglês...?
Obama: uma candidatura imparável?
As vitórias repartidas dos democratas americanos, nas primárias de Indiana e North Carolina, só aparentemente mantêm Hillary Clinton na corrida. É certo que a candidata ganhou Indiana, um estado considerado crucial para ambos os concorrentes, mas trata-se de uma vitória de Pirro se considerarmos que Hillary ganhou 51% dos votos contra 49% de Obama. Ao contrário, no estado de North Carolina, o candidato "arrasou" com 56%,2 contra 41,5%, da rival, correspondente a 890.695 e 657.920 votos, respectivamente. Ou seja mais de 200.000 votos de diferença!
Com esta vitória, Barak Obama aumentou a sua vantagem para mais de 150 delegados, quando faltam seis estados e cerca de 200 lugares por eleger. Uma diferença impossível de recuperar, segundo os observadores americanos.
Resta saber qual a posição dos "super-delegados" que, independentemente dos resultados das "primárias", podem votar de acordo com a sua consciência. Nesse grupo exclusivo, Hillary detém ainda a maioria, mas a tendência pode inverter-se à medida que o movimento pró-Obama vá ganhando adeptos e os "super-delegados" cheguem à conclusão que ele é o melhor candidato para derrotar McCain. Nunca a disputa foi levada tão longe.
Com esta vitória, Barak Obama aumentou a sua vantagem para mais de 150 delegados, quando faltam seis estados e cerca de 200 lugares por eleger. Uma diferença impossível de recuperar, segundo os observadores americanos.
Resta saber qual a posição dos "super-delegados" que, independentemente dos resultados das "primárias", podem votar de acordo com a sua consciência. Nesse grupo exclusivo, Hillary detém ainda a maioria, mas a tendência pode inverter-se à medida que o movimento pró-Obama vá ganhando adeptos e os "super-delegados" cheguem à conclusão que ele é o melhor candidato para derrotar McCain. Nunca a disputa foi levada tão longe.
2008/05/05
A propósito da celebração do cónego Melo na AR
Creio que esta mensagem merece ampla divulgação...
Faço-o aqui a título pessoal, na convicção de que o PR tem toda a razão. Lembremo-nos pois das novas gerações...
Mensagem de Victor Louro, antigo Deputado à Assembleia da República, ao Grupo Parlamentar PS:
Permitam lembrar Brecht: de cedência em cedência (antes, era só um operário; depois, apenas um padre; depois, era ainda só um
comunista...) acabam por nos cortar a cabeça...a nós próprios, que não éramos nada disso!
Tenho o dever cívico de vos manifestar profunda indignação pela atitude do PS na 6ª feira na Assembleia da República a propósito do voto de pesar ao cónego Melo. Mesmo que ela tenha ocorrido após a vergonha da homenagem do seu Presidente ao Dr. A. J. Jardim: temos o direito - e o dever - de não nos habituarmos !
É que Melo agiu, em 1974/75, activamente e por meios terroristas contra a democracia que dava os primeiros passos: os comunistas eram as primeiras vítimas, mas o objectivo era a própria Democracia. Por isso que é intolerável que na hora da provocação, o PS encontre um qualquer alibi para não se pôr do outro lado da barreira. A vossa abstenção é uma traição à Democracia !
Digo-vo-lo com a responsabilidade de vos ter precedido na representação popular no Parlamento. E de ser filho de um Homem que também vos precedeu, Victor de Sá, como outros perseguido durante a luta contra o fascismo, que se viu obrigado a fugir de casa, em Braga, nesse "verão quente" para não ser abatido pela camarilha do cónego que deixásteis que o Parlamento homenageasse como um democrata.
É pelo respeito que os nossos mortos nos devem merecer, aqueles que lutaram para que Portugal vivesse em liberdade, que vos manifesto a repulsa democrática por essa indignidade que alguns de vós personificásteis. Não vos queixeis do divórcio do Povo!
Esta vossa atitude teve ainda a ironia de ocorrer quando se invocam os 40 anos do Maio 68: alguns de vós estavam, como eu, do lado dos que se revoltaram contra o stato quo do poder estabelecido. E agora, que sois Poder ?
Victor Louro, antigo Deputado à Assembleia da República.
Faço-o aqui a título pessoal, na convicção de que o PR tem toda a razão. Lembremo-nos pois das novas gerações...
Mensagem de Victor Louro, antigo Deputado à Assembleia da República, ao Grupo Parlamentar PS:
Permitam lembrar Brecht: de cedência em cedência (antes, era só um operário; depois, apenas um padre; depois, era ainda só um
comunista...) acabam por nos cortar a cabeça...a nós próprios, que não éramos nada disso!
Tenho o dever cívico de vos manifestar profunda indignação pela atitude do PS na 6ª feira na Assembleia da República a propósito do voto de pesar ao cónego Melo. Mesmo que ela tenha ocorrido após a vergonha da homenagem do seu Presidente ao Dr. A. J. Jardim: temos o direito - e o dever - de não nos habituarmos !
É que Melo agiu, em 1974/75, activamente e por meios terroristas contra a democracia que dava os primeiros passos: os comunistas eram as primeiras vítimas, mas o objectivo era a própria Democracia. Por isso que é intolerável que na hora da provocação, o PS encontre um qualquer alibi para não se pôr do outro lado da barreira. A vossa abstenção é uma traição à Democracia !
Digo-vo-lo com a responsabilidade de vos ter precedido na representação popular no Parlamento. E de ser filho de um Homem que também vos precedeu, Victor de Sá, como outros perseguido durante a luta contra o fascismo, que se viu obrigado a fugir de casa, em Braga, nesse "verão quente" para não ser abatido pela camarilha do cónego que deixásteis que o Parlamento homenageasse como um democrata.
É pelo respeito que os nossos mortos nos devem merecer, aqueles que lutaram para que Portugal vivesse em liberdade, que vos manifesto a repulsa democrática por essa indignidade que alguns de vós personificásteis. Não vos queixeis do divórcio do Povo!
Esta vossa atitude teve ainda a ironia de ocorrer quando se invocam os 40 anos do Maio 68: alguns de vós estavam, como eu, do lado dos que se revoltaram contra o stato quo do poder estabelecido. E agora, que sois Poder ?
Victor Louro, antigo Deputado à Assembleia da República.
Manicómio
Tomara eu ser como a panela de pressão! Ter uma válvula que andasse naquele rodopiar, largando a pressão em excesso e mantendo as coisas lá dentro em equilíbrio operacional... Mas, não! Não tenho válvula, desculpem. Neste final de semana extra longo fomos bombardeados com uma operação gigantesca de recolha de alimentos, de bancos alimentares e de organizações variadas para praticar o desporto favorito da sociedade bem portuguesa: a caridade! A fazer fé nos relatórios e reportagens dos jornais e televisões, o país está em derrocada total! Que seria de nós sem a "caridadezinha"!!?
Voltámos (ou talvez nunca tenhamos de lá saído) à canção do Barata Moura...
Faz-me uma enorme confusão esta coisa de as pessoas demonstrarem um engenho brutal para organizar operações e estruturas extremamente complexas destinadas a suprir falhas estruturais da sociedade (e até ter sucesso com isso!), conseguirem juntar até um número significativo de gente para o efeito, mas revelarem-se totalmente incapazes de se entenderem e organizarem-se como país, de modo a que tenhamos todos uma vida que respeite os "mínimos", mais justa, digna e sem favores. Tantos milhares de "voluntários" que acodem ao apelo caritativo, mas não conseguem acordar num projecto para este sacana deste país!!
E faz-me também uma enorme confusão este retrato que os portugueses parecem estar a fazer de si próprios: um povo esquelético e angustiado, que deambula perdido pelo território árido, esgravatando sem esperança as terras secas em busca de umas magras sementes para se alimentar, enquanto, ao mesmo tempo na vida real e por esses centros urbanos fora, vai enchendo os carrinhos dos supermercados, cruzando incessantemente os centros comerciais, pulando de loja em loja, dessas de "marca" que enxameiam por todo lado, enchendo a transbordar a noite nas discotecas e formando filas intermináveis de carros à hora de ponta, mesmo com a gasolina caríssima!
O Alto Comissário para os refugiados, que é português, como sabemos, terá certamente razão para vir fazer uma missão especial a Portugal... Preparem os hospitais de campanha! Mandem vir as missões humanitárias!!
Hoje as notícias dão-nos conta de um relatório da OCDE que indica que a emigração aumentou em Portugal 50%! Acto de resistência ontem, a emigração continua a ser uma maneira de lidar com a insanidade deste país. Hoje, se calhar, perante as novas realidades do país (democracia, integração europeia, euro) a motivação destes portugueses será um pouco diferente. O melhor, pensarão decerto estes novos emigrantes, é pirar-me deste manicómio...
Voltámos (ou talvez nunca tenhamos de lá saído) à canção do Barata Moura...
Faz-me uma enorme confusão esta coisa de as pessoas demonstrarem um engenho brutal para organizar operações e estruturas extremamente complexas destinadas a suprir falhas estruturais da sociedade (e até ter sucesso com isso!), conseguirem juntar até um número significativo de gente para o efeito, mas revelarem-se totalmente incapazes de se entenderem e organizarem-se como país, de modo a que tenhamos todos uma vida que respeite os "mínimos", mais justa, digna e sem favores. Tantos milhares de "voluntários" que acodem ao apelo caritativo, mas não conseguem acordar num projecto para este sacana deste país!!
E faz-me também uma enorme confusão este retrato que os portugueses parecem estar a fazer de si próprios: um povo esquelético e angustiado, que deambula perdido pelo território árido, esgravatando sem esperança as terras secas em busca de umas magras sementes para se alimentar, enquanto, ao mesmo tempo na vida real e por esses centros urbanos fora, vai enchendo os carrinhos dos supermercados, cruzando incessantemente os centros comerciais, pulando de loja em loja, dessas de "marca" que enxameiam por todo lado, enchendo a transbordar a noite nas discotecas e formando filas intermináveis de carros à hora de ponta, mesmo com a gasolina caríssima!
O Alto Comissário para os refugiados, que é português, como sabemos, terá certamente razão para vir fazer uma missão especial a Portugal... Preparem os hospitais de campanha! Mandem vir as missões humanitárias!!
Hoje as notícias dão-nos conta de um relatório da OCDE que indica que a emigração aumentou em Portugal 50%! Acto de resistência ontem, a emigração continua a ser uma maneira de lidar com a insanidade deste país. Hoje, se calhar, perante as novas realidades do país (democracia, integração europeia, euro) a motivação destes portugueses será um pouco diferente. O melhor, pensarão decerto estes novos emigrantes, é pirar-me deste manicómio...
2008/05/04
Ainda a propósito da juventude e política
Dois artigos sobre a questão da juventude e o 25 de Abril que merecem algum comentário. Tiago Tribolet de Abreu (TTA) escreveu no Público (08/05/01) um artigo intitulado "A geração de Abril ou os velhos do Restelo que se seguem" e hoje Daniel Sampaio (DS) escreve, também no Público, um outro chamado "Vendedores de ilusões."
Escrevo estas notinhas no seguimento do que eu próprio escrevi há dias sobre o tema.
O primeiro articulista "atira-se" ao que chama a "geração de Abril" e zurze forte e feio a geração que tinha 20-30 anos em 74. O segundo fala dos discursos pronunciados na AR pelo deputado José Moura Soeiro e pelo PR.
Devo confessar que o artigo de TTA me apanhou em cheio! Serei sem dúvida um dos visados no artigo, porque estava justamente na casa dos 20-30 anos em 74. E partilho os reparos que ele faz a esta geração que é a minha. Quanto ao artigo de DS, também me tocaram bastante as palavras do deputado Soeiro. O que "desempata" então isto é o discurso do PR. Não partilho de todo os elogios --como aliás deixei claro no meu post sobre este assunto-- que são feitos ao PR por ter abordado esta matéria no seu discurso na Assembleia.
Como disse no meu post "parece mesmo que o cidadão que ocupa actualmente o cargo de Presidente da República não contribuiu generosamente, enquanto primeiro ministro" para o desinteresse da juventudo pela política que hoje aponta com a solenidade de uma intervenção na AR.
Mas, não é só afinal o PR que chuta para canto. No fim de contas até o percebo. O pior é que olhando para a sociedade portuguesa hoje, ó Tiago Abreu e ó José Soeiro!, continuo a ler nas vossas palavras a auto-desresponsabilização, o atirar as culpas para o parceiro, o mesmo queixume e a mesma lógica do "pronto a vestir". Continuamos a observar um estado quase doentio de inanidade e uma languidez patológica. E nisto, Tiago Abreu e José Soeiro, não há generation gap! Estamos todos no mesmo barco. Na hora de ser coerente falhámos e falhamos, vocês e nós... Observo os mesmos padrões de comportamento nos "vintistas" de hoje e nos "vintistas" de ontem. Na minha geração ainda houve muita resistência e demonstração de coragem. A vossa resiste a quê?
Se é verdade que há um défice patético de modernidade nos cinquentenários e sexagenários de hoje (já eram "antigos", muitos deles, há trinta anos, acreditem...), há um enorme défice de coragem e de sentido de responsabilidade nos "vintistas" de hoje. Sacodem a água do capote para os "vintistas" de ontem, como gerações sucessivas de portugueses têm feito para as gerações precedentes desde há séculos...
Estou farto de ouvir o mesmo discurso! Estão à espera de quê? Que o futuro vos seja dado por aqueles que vocês criticam? Por este andar a "espécie" velho do Restelo já tem descendentes anunciados...
Escrevo estas notinhas no seguimento do que eu próprio escrevi há dias sobre o tema.
O primeiro articulista "atira-se" ao que chama a "geração de Abril" e zurze forte e feio a geração que tinha 20-30 anos em 74. O segundo fala dos discursos pronunciados na AR pelo deputado José Moura Soeiro e pelo PR.
Devo confessar que o artigo de TTA me apanhou em cheio! Serei sem dúvida um dos visados no artigo, porque estava justamente na casa dos 20-30 anos em 74. E partilho os reparos que ele faz a esta geração que é a minha. Quanto ao artigo de DS, também me tocaram bastante as palavras do deputado Soeiro. O que "desempata" então isto é o discurso do PR. Não partilho de todo os elogios --como aliás deixei claro no meu post sobre este assunto-- que são feitos ao PR por ter abordado esta matéria no seu discurso na Assembleia.
Como disse no meu post "parece mesmo que o cidadão que ocupa actualmente o cargo de Presidente da República não contribuiu generosamente, enquanto primeiro ministro" para o desinteresse da juventudo pela política que hoje aponta com a solenidade de uma intervenção na AR.
Mas, não é só afinal o PR que chuta para canto. No fim de contas até o percebo. O pior é que olhando para a sociedade portuguesa hoje, ó Tiago Abreu e ó José Soeiro!, continuo a ler nas vossas palavras a auto-desresponsabilização, o atirar as culpas para o parceiro, o mesmo queixume e a mesma lógica do "pronto a vestir". Continuamos a observar um estado quase doentio de inanidade e uma languidez patológica. E nisto, Tiago Abreu e José Soeiro, não há generation gap! Estamos todos no mesmo barco. Na hora de ser coerente falhámos e falhamos, vocês e nós... Observo os mesmos padrões de comportamento nos "vintistas" de hoje e nos "vintistas" de ontem. Na minha geração ainda houve muita resistência e demonstração de coragem. A vossa resiste a quê?
Se é verdade que há um défice patético de modernidade nos cinquentenários e sexagenários de hoje (já eram "antigos", muitos deles, há trinta anos, acreditem...), há um enorme défice de coragem e de sentido de responsabilidade nos "vintistas" de hoje. Sacodem a água do capote para os "vintistas" de ontem, como gerações sucessivas de portugueses têm feito para as gerações precedentes desde há séculos...
Estou farto de ouvir o mesmo discurso! Estão à espera de quê? Que o futuro vos seja dado por aqueles que vocês criticam? Por este andar a "espécie" velho do Restelo já tem descendentes anunciados...
2008/05/03
Em terra de cegos...
Andam os médicos oftalmologistas portugueses, Bastonário da Ordem incluído, preocupados com as operações às cataratas praticadas em Cuba. É compreensível. Se a moda pega (e parece estar a pegar), os cirurgiões nacionais podem perder uma boa parte dos seus potenciais clientes que é, como quem diz, negócio.O que se passa afinal?
De acordo com as informações da Ministra da Saúde, dos 500.000 portugueses que aguardam uma primeira consulta hospitalar, 120.000 esperam por uma consulta de oftalmologia. Destes, 29.000 necessitam de uma operação às cataratas. As operações são, normalmente, feitas em hospitais públicos cujas listas de espera chegam a atingir três anos. Sei do que falo, pois a minha mãe esperou mais de dois anos, até poder ser operada através do Serviço Nacional de Saúde. Tinha, à época, 88 anos e, como é compreensível, não podia esperar mais tempo...
Esta é a situação da maioria dos idosos com cataratas, cujos rendimentos não lhes permitem apressar uma intervenção, relativamente fácil, mas para a qual parecem não existir meios ou médicos suficientes.
Por esta razão, algumas autarquias - Alcoutim, Vila Real de Sto. António, Santarém, Aljezur, Castro Marim e Alandroal - aderiram a um protocolo com Cuba, que inclui internamento em Havana, diagnóstico e operação, para além de uma estadia de duas semanas na ilha de Fidel, por cerca de 2000 euros. Caro?
De acordo com o presidente de Vila Real, mais barato e mais rápido do que em Portugal, com vantagens inequívocas, pois muitos dos idosos corriam o risco de cegar. Mais do que o preço, trata-se de um problema humano.
É pois, natural, que os oftalmologistas portugueses comecem a fazer contas à vida. Agora que os seus honorários podem diminuir, têm de praticar preços mais baixos. Felizmente que há cada vez mais gente a ver melhor...
2008/04/26
26 de Abril
Os comentários do Presidente da República a propósito do suposto desinteresse da "juventude" pela política são curiosos. Habilmente, de uma forma que só os políticos conseguem (ou têm lata para) fazer, o ónus da culpa é invertido. Até parece que a forma como os políticos servem o poder aos cidadãos não entra nesta equação. Parece mesmo que o cidadão que ocupa actualmente o cargo de Presidente da República não contribuiu generosamente, enquanto primeiro ministro, para esse desinteresse. Parece, enfim, que este mesmo PR não continua a ser um contribuinte activo, apesar dos seus reparos contristados, para esse desinteresse ao ignorar publicamente os desvarios do Presidente do Governo Regional da Madeira, quando todos esperávamos que esta oportunidade para dignificar a prática política (esta prática política de que eles próprios são protagonistas!) não fosse desperdiçada. Rico exemplo que fica para as gerações futuras!
Neste contexto, pergunto-me se os mesmos jovens deputados que intervieram ontem na sessão comemorativa do 25 de Abril na AR terão a noção de que, naquele hemiciclo, são tanto parte do problema como aqueles que eles próprios criticam. Não vi nenhum dos jovens levantar-se da cadeira do poder em que nalguns casos, episodicamente, se sentaram quando o PR teceu as suas considerações.
No 25 já estávamos a 26...?
Neste contexto, pergunto-me se os mesmos jovens deputados que intervieram ontem na sessão comemorativa do 25 de Abril na AR terão a noção de que, naquele hemiciclo, são tanto parte do problema como aqueles que eles próprios criticam. Não vi nenhum dos jovens levantar-se da cadeira do poder em que nalguns casos, episodicamente, se sentaram quando o PR teceu as suas considerações.
No 25 já estávamos a 26...?
2008/04/25
25 de Abril
Hoje de manhã, aqui na minha nova terra, naquilo que aparentava ser parte do programa de "comemoração" local do 25 de Abril, um grupo de crianças fazia uma demonstração de dança no largo principal ao som de um tonitruante "Fame, I'm gonna live forever"...
Na AR, entretanto, decorria a sessão anual de comemoração desta data. Ouvi com atenção as intervenções dos deputados mais jovens e confesso que fiquei comovido com elas. Não foi para ouvir as suas queixas, em muitos casos totalmente legítimas, que o 25 de Abril se fez. Há 34 anos todos ansiávamos por criar condições diferentes para os nossos filhos. É triste e duro ouvir algumas das suas críticas sobre a precariedade, a falta de horizontes, o espartilho desta democracia.
Em todo o caso, cabe-lhes a eles fazerem a sua revolução. Que curiosamente continua, apesar de todos estes anos passados, a ser ainda a minha revolução...
O pior que eles poderão fazer é ficar pela crítica e esperar milagres.
Na AR, entretanto, decorria a sessão anual de comemoração desta data. Ouvi com atenção as intervenções dos deputados mais jovens e confesso que fiquei comovido com elas. Não foi para ouvir as suas queixas, em muitos casos totalmente legítimas, que o 25 de Abril se fez. Há 34 anos todos ansiávamos por criar condições diferentes para os nossos filhos. É triste e duro ouvir algumas das suas críticas sobre a precariedade, a falta de horizontes, o espartilho desta democracia.
Em todo o caso, cabe-lhes a eles fazerem a sua revolução. Que curiosamente continua, apesar de todos estes anos passados, a ser ainda a minha revolução...
O pior que eles poderão fazer é ficar pela crítica e esperar milagres.
Subscrever:
Mensagens (Atom)