2009/02/11
É difícil perceber como é que a força e convicção do discurso de Wafa Sultan, psicóloga árabe-americana de Los Angeles, pôde ir para o ar na Al Jazeera, estação de TV com patrocínio islâmico.
Trata-se de uma visão bem original das coisas, que repõe a questão do "choque de civilizações"; segundo Wafa Sultan foram os muçulmanos que começaram esse choque ao separarem o mundo em muçulmanos e não muçulmanos, arvorando-se aqueles a missão de combater os outros até à sua conversão.
Quando ela diz que não é crente, logo um dos intervenientes diz que não há diálogo possível, pois ela é uma hereje que blasfema contra o Islão, o Profeta e o Corão.
Assim colocadas as questões no campo do dogma, realmente o diálogo não é possível.
mensagem que me mandaram hoje
«Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado.»
*_Karl Marx, in Das Kapital, 1867 _*
*_Karl Marx, in Das Kapital, 1867 _*
2009/02/05
O verdadeiro freeport?
"1 800 milhões de euros. É este o custo para os contribuintes do maior escândalo financeiro de sempre no país" adverte Paulo Ferreira no editorial do PÚBLICO de hoje, enquanto nota que o Governo e o BdP "ao nacionalizarem o banco, nacionalizaram um 'buraco' que desconheciam."Os valores envolvidos neste escândalo não deixam de fazer tremer um teso como eu quando se lhes aplicam bitolas comparativas, como faz Paulo Ferreira: mais de metade do custo previsto para o novo aeroporto de Alcochete, cerca de 1% de toda a produção portuguesa durante um ano, o orçamento anual do MAI, a verba que a Segurança Social tem durante um ano para pagar os subsídios de desemprego, morte, doença e maternidade...
Esqueçam o Freeport. Este, sim, é o maior escândalo em que este governo está envolvido.
"Como é que se decidiu a solução antes de averiguar qual era a dimensão do problema?" pergunta Paulo Ferreira, que muito justamente acrescenta que este "era um problema que devia ter ficado do lado dos privados, dos accionistas (...) e dos clientes."
Opções criminosas fizeram, ao invés, passar o problema para as mãos dos contribuintes portugueses, transformando o BPN num verdadeiro freeport, um autêntico e escandaloso paraíso fiscal. Por mais piruetas de retórica que tentem executar esta é a realidade.
2009/02/03
Há mais vida para além do Freeport
No meio da novela de Alcochete, duas boas notícias:
O Presidente da República vetou hoje a proposta do PS que pretendia acabar com o voto por correspondência dos emigrantes. Para quem não saiba, o voto dos emigrantes por correspondência foi instituido logo após o 25 de Abril e tem funcionado perfeitamente até aos dias de hoje. Acontece que o PS, certamente por perder tradicionalmente três dos quatro deputados eleitos pelo círculo da emigração, apresentou uma proposta-lei que exigia a presença física dos portugueses no local de voto (os consulados). Sabendo que o número de consulados existente é cada vez menor e as distâncias entre os mesmos são de centenas de quilómetros, fácil é concluir que seria cada vez mais difícil aos portugueses que vivem no estrangeiro ir votar. Maior abstencionismo e desinteresse político seriam as consequências nefastas desta decisão caso o decreto tivesse sido aprovado. Andou bem o presidente ao não deixar manipular o voto da emigração.
Outra boa notícia, tem a ver com a decisão do Tribunal Europeu, que condenou hoje o estado português por este ter impedido o navio holandês "women on waves" (o barco do aborto) em navegar em águas territoriais portuguesas. Para quem não se recorde, o caso remonta a 2004 quando um grupo de activistas holandesas solidárias com as mulheres portuguesas, tentou entrar de barco em Portugal, no âmbito da campanha a favor da despenalização do aborto. O "ministro dos costumes" à época (Paulo Portas) resolveu impedir a atracagem, enviando uma corveta da marinha ao encontro do navio-clínica holandês. A organização holandesa protestou contra esta arbitrariedade junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e ouviu hoje a sentença condenatória de Portugal por impedimento do direito de expressão em territórios da União Europeia. Vale mais tarde do que nunca.
Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.
O Presidente da República vetou hoje a proposta do PS que pretendia acabar com o voto por correspondência dos emigrantes. Para quem não saiba, o voto dos emigrantes por correspondência foi instituido logo após o 25 de Abril e tem funcionado perfeitamente até aos dias de hoje. Acontece que o PS, certamente por perder tradicionalmente três dos quatro deputados eleitos pelo círculo da emigração, apresentou uma proposta-lei que exigia a presença física dos portugueses no local de voto (os consulados). Sabendo que o número de consulados existente é cada vez menor e as distâncias entre os mesmos são de centenas de quilómetros, fácil é concluir que seria cada vez mais difícil aos portugueses que vivem no estrangeiro ir votar. Maior abstencionismo e desinteresse político seriam as consequências nefastas desta decisão caso o decreto tivesse sido aprovado. Andou bem o presidente ao não deixar manipular o voto da emigração.
Outra boa notícia, tem a ver com a decisão do Tribunal Europeu, que condenou hoje o estado português por este ter impedido o navio holandês "women on waves" (o barco do aborto) em navegar em águas territoriais portuguesas. Para quem não se recorde, o caso remonta a 2004 quando um grupo de activistas holandesas solidárias com as mulheres portuguesas, tentou entrar de barco em Portugal, no âmbito da campanha a favor da despenalização do aborto. O "ministro dos costumes" à época (Paulo Portas) resolveu impedir a atracagem, enviando uma corveta da marinha ao encontro do navio-clínica holandês. A organização holandesa protestou contra esta arbitrariedade junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e ouviu hoje a sentença condenatória de Portugal por impedimento do direito de expressão em territórios da União Europeia. Vale mais tarde do que nunca.
Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.
2009/01/31
Não falo!
Sobre o caso Freeport, não esperem que eu venha deitar ainda mais achas para a fogueira da confusão que vai por aí. Não falo sobre isso!
(Porra! Já falei!)
(Porra! Já falei!)
O que se espera no caso Freeport
Volto ao caso Freeport depois do que aqui escrevi na passada segunda feira.
Existem suspeitas sobre o envolvimento do primeiro ministro em casos passados durante um período em que exerceu um outro cargo governamental. É um facto. O primeiro ministro afirma com grande convicção que não, a comunicação social insinua de forma cada vez mais veemente que sim.
Parece cada vez mais inevitável que o primeiro ministro deve apresentar a demissão e aguardar que o caso se esclareça na justiça. Não se pode aceitar que paire sobre o exercício de um cargo desta natureza a mais leve suspeita.
A suspensão do exercício do cargo decorre da natureza do próprio cargo, não tem a ver com a pessoa, como não teria caso ela ficasse, por exemplo, incapacitada por doença. O exercício de um cargo destes exige determinadas características pessoais, físicas, mentais e caracterológicas permanentemente. E a suspeita não se dissipa com declarações televisivas e jogos de retórica.
Mas ser suspeito não é ter efectivamente cometido qualquer acto ilícito.
Resta-lhe que se prove ou não que está inocente e que quem levantou estas denúnicias seja ou não condenado em consequência.
Se, por uma lado, a suspensão do exercício do cargo é um acto com enormes custos para todos, resumir tudo isto que se está a passar a uma espécie de jogo da malha tem consequências, na minha opinião, ainda mais graves. A pouca confiança que os cidadãos depositam nas instituições da República levará um abalo irrecuperável. A força das instituições vê-se no exercício das suas funções próprias, não na finta e na dissimulação.
Quem teme afinal o exercício da justiça?
Se se provar que Sócrates não cometeu acto nenhum ilícito ele pode sair reforçado politicamente de tudo isto. Se não cometeu qualquer acto ilícito os autores das insinuações devem ser duramente responsabilizados pelo mal que lhe causaram e causaram ao país. Se cometeu actos ilícitos deverá sofrer as consequências. Se cometeu acto ilícito os denunciantes devem ser saudados por terem cumprido o papel que num regime democrático se lhes exige.
De outra forma ficará sempre a pairar no ar a suspeita que afinal ninguém quer que haja reacção. De que isto foi montado e vai sair impune. Que estamos perante um mero jogo político em que as ambiguidades do sistema e a frouxidão da actuação servem às mil maravilhas, num caso e noutro, agendas escondidas. Que as diferentes instituições não querem, ou não sabem como agir. Que guardam do exercício das respectivas funções apenas a noção que mais lhes convém...
Nada disto é bom para o regime.
Existem suspeitas sobre o envolvimento do primeiro ministro em casos passados durante um período em que exerceu um outro cargo governamental. É um facto. O primeiro ministro afirma com grande convicção que não, a comunicação social insinua de forma cada vez mais veemente que sim.
Parece cada vez mais inevitável que o primeiro ministro deve apresentar a demissão e aguardar que o caso se esclareça na justiça. Não se pode aceitar que paire sobre o exercício de um cargo desta natureza a mais leve suspeita.
A suspensão do exercício do cargo decorre da natureza do próprio cargo, não tem a ver com a pessoa, como não teria caso ela ficasse, por exemplo, incapacitada por doença. O exercício de um cargo destes exige determinadas características pessoais, físicas, mentais e caracterológicas permanentemente. E a suspeita não se dissipa com declarações televisivas e jogos de retórica.
Mas ser suspeito não é ter efectivamente cometido qualquer acto ilícito.
Resta-lhe que se prove ou não que está inocente e que quem levantou estas denúnicias seja ou não condenado em consequência.
Se, por uma lado, a suspensão do exercício do cargo é um acto com enormes custos para todos, resumir tudo isto que se está a passar a uma espécie de jogo da malha tem consequências, na minha opinião, ainda mais graves. A pouca confiança que os cidadãos depositam nas instituições da República levará um abalo irrecuperável. A força das instituições vê-se no exercício das suas funções próprias, não na finta e na dissimulação.
Quem teme afinal o exercício da justiça?
Se se provar que Sócrates não cometeu acto nenhum ilícito ele pode sair reforçado politicamente de tudo isto. Se não cometeu qualquer acto ilícito os autores das insinuações devem ser duramente responsabilizados pelo mal que lhe causaram e causaram ao país. Se cometeu actos ilícitos deverá sofrer as consequências. Se cometeu acto ilícito os denunciantes devem ser saudados por terem cumprido o papel que num regime democrático se lhes exige.
De outra forma ficará sempre a pairar no ar a suspeita que afinal ninguém quer que haja reacção. De que isto foi montado e vai sair impune. Que estamos perante um mero jogo político em que as ambiguidades do sistema e a frouxidão da actuação servem às mil maravilhas, num caso e noutro, agendas escondidas. Que as diferentes instituições não querem, ou não sabem como agir. Que guardam do exercício das respectivas funções apenas a noção que mais lhes convém...
Nada disto é bom para o regime.
2009/01/30
Um errozito de paralaxe
Hoje a comunicação social deu conta das palavras do PR sobre a questão da nova lei do divórcio, num congresso da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade. Nesse seu discurso, o PR referiu um artigo que citava um dos autores da referida lei que terá confessado "que ela tinha alguns lapsos, uns ‘errozitos’ e que a culpa foi da pressa”. “A ser verdadeira esta declaração," acrescentou o PR em tom indignado, "a nossa perplexidade como se legisla em Portugal sobre matérias com esta relevância não podia ser maior".
Alguém deveria, na minha modesta opinião, explicar ao PR que este tipo de manifestações está bem para os dignitários da Igreja Católica, membros das associações de família, para os colunistas dos jornais, etc. De um PR espera-se muito mais do que o simples comentário público, em tom queixoso, baseado em citações de um jornal, sobre matérias que ele próprio classifica de relevantes. Assim, é curto...
Alguém deveria, na minha modesta opinião, explicar ao PR que este tipo de manifestações está bem para os dignitários da Igreja Católica, membros das associações de família, para os colunistas dos jornais, etc. De um PR espera-se muito mais do que o simples comentário público, em tom queixoso, baseado em citações de um jornal, sobre matérias que ele próprio classifica de relevantes. Assim, é curto...
2009/01/29
Neurónio Criativo
Querido Sobrinho,
Não acredites em nada do que dizem por aí. É tudo mentira. Já avisei o teu primo que está na China e ele confirma ter lido mal as instruções do "lego". Ora, como sabemos, o "inglês técnico" não é a sua especialidade. Desde há muito que os promotores de actividades imobiliárias são acusados de influenciarem o poder político e vice-versa. Eu cá, como não percebo nada de políticas, não posso pronunciar-me sobre tais matérias. Limito-me a intermediar e, se forem projectos PIN, tanto melhor. Quando se metem estrangeiros nos negócios, dá sempre "bronca". Pessoalmente, nunca confiei nos ingleses. Veja-se o caso da pequena "Maddie", quando quiseram culpar o Amaral por alegados murros na mãe da Joana. Tudo invenções. Razão tinha o Ferro Rodrigues. Isto é mais uma cabala contra o PS.
Segue o meu conselho: mantém-te afastado dessa gente.
Fraternalmente,
O Tio de Alcochete
Não acredites em nada do que dizem por aí. É tudo mentira. Já avisei o teu primo que está na China e ele confirma ter lido mal as instruções do "lego". Ora, como sabemos, o "inglês técnico" não é a sua especialidade. Desde há muito que os promotores de actividades imobiliárias são acusados de influenciarem o poder político e vice-versa. Eu cá, como não percebo nada de políticas, não posso pronunciar-me sobre tais matérias. Limito-me a intermediar e, se forem projectos PIN, tanto melhor. Quando se metem estrangeiros nos negócios, dá sempre "bronca". Pessoalmente, nunca confiei nos ingleses. Veja-se o caso da pequena "Maddie", quando quiseram culpar o Amaral por alegados murros na mãe da Joana. Tudo invenções. Razão tinha o Ferro Rodrigues. Isto é mais uma cabala contra o PS.
Segue o meu conselho: mantém-te afastado dessa gente.
Fraternalmente,
O Tio de Alcochete
A crise e o Berardo
Escrevi, há dias, um post que parece ter sido mal entendido. O tema do mesmo era uma questão que está no centro das minhas preocupações: a crise actual. Pelos comentários expressos, parece que o tema versava as virtudes e defeitos do cidadão Joe Berardo (JB), e o que é bom ou mau para ele; ou, no limite, se prestava a expor as antipatias que o sujeito suscita nos comentadores, presumindo-se, a contrario, a minha simpatia pelo cromo.
Caguei para o cromo. A não ser que, talvez a contracorrente, a mim, presentemente, interessam mais as opiniões dos actores lúcidos do sistema, que as dos seus manifestos opositores. Não confundo, pois, o mensageiro com o teor da mensagem. E aprendi com o mestre da guerra Sun Tzu que só «quem conhece o inimigo e a si próprio não terá a sua vitória posta em causa».
Caguei para o cromo. A não ser que, talvez a contracorrente, a mim, presentemente, interessam mais as opiniões dos actores lúcidos do sistema, que as dos seus manifestos opositores. Não confundo, pois, o mensageiro com o teor da mensagem. E aprendi com o mestre da guerra Sun Tzu que só «quem conhece o inimigo e a si próprio não terá a sua vitória posta em causa».
Quanto a mim, o JB provou, pelas declarações que prestou, estar consciente de que a crise do sistema é mais grave e mais profunda que o que alguns teimam em fazer crer.É uma crise dos fundamentos do sistema, que não se consegue resolver com os paliativos habituais, antes exigindo um tipo de medidas de carácter estrutural.
É uma crise que leva o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, no discurso que fez na abertura do ano judicial a dizer: «O primeiro [princípio inalienável a adoptar pelo mundo do Direito] mostra-nos a falência dos sistemas de auto-regulação que conduzem sempre à defesa corporativa de interesses de grupo em detrimento dos interesses sociais com os efeitos distorcidos que daí advém, se é que (como diz Luís Máximo dos Santos, em artigo ainda inédito) “não estaremos antes perante uma situação, bem mais difícil, em que as próprias características do actual sistema …. comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz”».
O que me interessa aqui é esta última tirada, principalmente por vir da boca de um dos mais altos responsáveis do sistema, ainda por cima no contexto em que foi expressa. Porque é uma tirada de conteúdo “revolucionário”, isto é, põe em causa as «próprias características do actual sistema [as quais, por hipótese] comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz».
Os actores principais do sistema que nos regula dominavam, ainda há bem pouco tempo, as causas e os efeitos do dito; e tudo ia correndo sobre rodas, com os mais ricos enriquecendo ainda mais, à custa do endividamento dos pobres e dos remediados que queriam comprar casa ou carro. Subitamente encontraram-se, como o Berardo, «banzados». É ver os debates dos economistas, dos políticos, dos juristas, na televisão. E os artigos de opinião nos jornais. Estão todos à rasca; não sabem o que esperar do dia de amanhã, não sabem propor receitas para uma crise que os ultrapassa.
Tem portanto razão JB quando diz que «os políticos não estão a perceber», apesar de estarem «a dar aquele ar de que é possível recuperar». Pela própria formulação, vê-se bem que JB duvida muito disso, mas vai dizendo «que fazem bem». Remata então JB, dizendo que está mas «é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande».
— Pois, lá está o hipócrita! Com que então agora é que ele descobriu a sua vocação filantrópica para com os pobrezinhos?!
Esta abordagem figadal é inimiga da razão. Porque não deixa ver que JB não manifesta aqui preocupações “sociais” senão na medida em que, para que os negócios em que ele anda metido se processem na paz dos anjos, o que menos lhe interessa é que sobrevenha uma «destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande». É por isso, para o povo estar sossegado, que ele diz que os políticos «fazem bem» ao darem «aquele ar de que é possível recuperar».
Interessa-me muito mais ouvir isto da boca de quem está com a mão na massa (nos vários sentidos da expressão), que da boca do Louçã ou do Jerónimo, ou mesmo, hoje em dia, dos economistas e da maioria dos políticos.
É uma crise que leva o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, no discurso que fez na abertura do ano judicial a dizer: «O primeiro [princípio inalienável a adoptar pelo mundo do Direito] mostra-nos a falência dos sistemas de auto-regulação que conduzem sempre à defesa corporativa de interesses de grupo em detrimento dos interesses sociais com os efeitos distorcidos que daí advém, se é que (como diz Luís Máximo dos Santos, em artigo ainda inédito) “não estaremos antes perante uma situação, bem mais difícil, em que as próprias características do actual sistema …. comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz”».
O que me interessa aqui é esta última tirada, principalmente por vir da boca de um dos mais altos responsáveis do sistema, ainda por cima no contexto em que foi expressa. Porque é uma tirada de conteúdo “revolucionário”, isto é, põe em causa as «próprias características do actual sistema [as quais, por hipótese] comprometem a possibilidade de uma regulação viável e eficaz».
Os actores principais do sistema que nos regula dominavam, ainda há bem pouco tempo, as causas e os efeitos do dito; e tudo ia correndo sobre rodas, com os mais ricos enriquecendo ainda mais, à custa do endividamento dos pobres e dos remediados que queriam comprar casa ou carro. Subitamente encontraram-se, como o Berardo, «banzados». É ver os debates dos economistas, dos políticos, dos juristas, na televisão. E os artigos de opinião nos jornais. Estão todos à rasca; não sabem o que esperar do dia de amanhã, não sabem propor receitas para uma crise que os ultrapassa.
Tem portanto razão JB quando diz que «os políticos não estão a perceber», apesar de estarem «a dar aquele ar de que é possível recuperar». Pela própria formulação, vê-se bem que JB duvida muito disso, mas vai dizendo «que fazem bem». Remata então JB, dizendo que está mas «é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande».
— Pois, lá está o hipócrita! Com que então agora é que ele descobriu a sua vocação filantrópica para com os pobrezinhos?!
Esta abordagem figadal é inimiga da razão. Porque não deixa ver que JB não manifesta aqui preocupações “sociais” senão na medida em que, para que os negócios em que ele anda metido se processem na paz dos anjos, o que menos lhe interessa é que sobrevenha uma «destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande». É por isso, para o povo estar sossegado, que ele diz que os políticos «fazem bem» ao darem «aquele ar de que é possível recuperar».
Interessa-me muito mais ouvir isto da boca de quem está com a mão na massa (nos vários sentidos da expressão), que da boca do Louçã ou do Jerónimo, ou mesmo, hoje em dia, dos economistas e da maioria dos políticos.
Entre estes últimos, exceptuo o Obama, depois direi porquê.
2009/01/26
Assim não!
O que me escandaliza neste processo todo do Freeport não é a denúncia, nem o alarido em torno de tudo isto. O caso, a ser verdadeiro, é sério e a denúncia é um dever. O que considero absolutamente inadmissível é que sejam levantadas suspeitas gravíssimas sobre uma figura maior do Estado português e a tudo isto esteja a ser dado, por todas as partes envolvidas, um tratamento tipo Jornal do Incrível.
Todos nos lembramos do que eram os títulos desse "jornal". "Mulher desposa homem com barbatanas"! "Artista mutilado faz mural de 30 m em apneia e de olhos vendados"! "Cobra com duas cabeças dá à luz touro de lide com três patas"! A gente lia aquilo e passava à frente. Os títulos desacreditavam-se a si próprios e nem piada tinham.
Ora, observando os títulos dos jornais e as reaccções dos comentadores e do próprio primeiro ministro e governo, somos levados a pensar que neste caso Freeport estamos perante um simples jogo, sem que ninguém saiba ou queira tirar daqui as devidas ilações.
Sou o primeiro a defender o direito ao bom nome e à presunção de inocência até trânsito em julgado da condenação. Mas, das duas uma: ou tudo isto não passa de uma gigantesca manobra para desacreditar uma figura que merece um respeito especial, pelo seu estatuto e pelas funções que exerce; ou tudo isto é verdade e a figura respeitável pelas funções que exerce e pelo estatuto que tem não as pode estar a exercer em nome de todos nós e com a dignidade que o cargo exige.
O que se está a passar é gravíssimo e não iliba ninguém. Os culpados, se o são de facto, devem ser rapidamente acusados e daí devem ser extraídas todas as consequências, com carácter de absoluta prioridade. O que está em causa é demasiadamente sério para que se espere um dia que seja sem que esta matéria não esteja totalmente clarificada. E os diversos acusadores têm de ser responsabilizados pela acusação de que são autores.
Outra actuação que não seja esta é pretexto para todo o tipo de especulações e propicia uma inaceitável desresponsabilização dos culpados, de um lado ou de outro.
Uma situação que se repete em Portugal mas que urge corrigir. É o regime que o reclama.
O que se está a passar é que não é de todo admissível. Esgrimem-se argumentos, reforçam-se ou destroem-se acusações, preparam-se e executam-se operações de propaganda, como se tudo isto, a ser provadamente verdadeiro ou falso, não fosse susceptível de vir a ter a mínima consequência. Como se de um jogo se tratasse.
Resumindo: se existe a suspeita fundada de que um primeiro ministro de Portugal está envolvido num caso de corrupção como o descrito no caso Freeport, o País não pode correr o risco de ter à frente dos destinos do seu governo uma pessoa assim. Tem de haver um mecanismo que garanta rapidamente o funcionamento do Estado acima de qualquer suspeita. Pelo contrário, se esta acusação é falsa e foram levantadas contra o primeiro ministro acusações falsas, que levam a uma perturbação grave da governação, os acusadores devem ser rapidamente responsabilizados pelo prejuízo que causam à Nação.
Assim, com toda a gente a embarcar no folclore, é que não vamos a lado nenhum. Afinal isto é a sério ou é mais uma à Jornal do Incrível?
Todos nos lembramos do que eram os títulos desse "jornal". "Mulher desposa homem com barbatanas"! "Artista mutilado faz mural de 30 m em apneia e de olhos vendados"! "Cobra com duas cabeças dá à luz touro de lide com três patas"! A gente lia aquilo e passava à frente. Os títulos desacreditavam-se a si próprios e nem piada tinham.
Ora, observando os títulos dos jornais e as reaccções dos comentadores e do próprio primeiro ministro e governo, somos levados a pensar que neste caso Freeport estamos perante um simples jogo, sem que ninguém saiba ou queira tirar daqui as devidas ilações.
Sou o primeiro a defender o direito ao bom nome e à presunção de inocência até trânsito em julgado da condenação. Mas, das duas uma: ou tudo isto não passa de uma gigantesca manobra para desacreditar uma figura que merece um respeito especial, pelo seu estatuto e pelas funções que exerce; ou tudo isto é verdade e a figura respeitável pelas funções que exerce e pelo estatuto que tem não as pode estar a exercer em nome de todos nós e com a dignidade que o cargo exige.
O que se está a passar é gravíssimo e não iliba ninguém. Os culpados, se o são de facto, devem ser rapidamente acusados e daí devem ser extraídas todas as consequências, com carácter de absoluta prioridade. O que está em causa é demasiadamente sério para que se espere um dia que seja sem que esta matéria não esteja totalmente clarificada. E os diversos acusadores têm de ser responsabilizados pela acusação de que são autores.
Outra actuação que não seja esta é pretexto para todo o tipo de especulações e propicia uma inaceitável desresponsabilização dos culpados, de um lado ou de outro.
Uma situação que se repete em Portugal mas que urge corrigir. É o regime que o reclama.
O que se está a passar é que não é de todo admissível. Esgrimem-se argumentos, reforçam-se ou destroem-se acusações, preparam-se e executam-se operações de propaganda, como se tudo isto, a ser provadamente verdadeiro ou falso, não fosse susceptível de vir a ter a mínima consequência. Como se de um jogo se tratasse.
Resumindo: se existe a suspeita fundada de que um primeiro ministro de Portugal está envolvido num caso de corrupção como o descrito no caso Freeport, o País não pode correr o risco de ter à frente dos destinos do seu governo uma pessoa assim. Tem de haver um mecanismo que garanta rapidamente o funcionamento do Estado acima de qualquer suspeita. Pelo contrário, se esta acusação é falsa e foram levantadas contra o primeiro ministro acusações falsas, que levam a uma perturbação grave da governação, os acusadores devem ser rapidamente responsabilizados pelo prejuízo que causam à Nação.
Assim, com toda a gente a embarcar no folclore, é que não vamos a lado nenhum. Afinal isto é a sério ou é mais uma à Jornal do Incrível?
2009/01/25
Berardo, o revolucionário
Interrompo um silêncio de vários meses para recomendar a leitura da entrevista que Joe Berardo deu ao suplemento Economia do Público de sexta-feira passada.
De facto, tenho visto os economistas e os políticos à rasquinha, sem saberem no que isto da crise vai dar. O Berardo, que é, ele próprio o reconhece na entrevista, um bocado desbocado, diz que está "banzado" e que "tudo aquilo que [aprendeu] até agora, que era analisar as potencialidades, os endividamentos, os dividendos, foi tudo por água abaixo e [que tem] que voltar a aprender de novo [passe a forma pleonástica]." Remata com a frase lapidar "Tem que haver um novo sistema."
Eu cá, desde que ouvi Greenspan dizer que se enganou acerca da capacidade do sistema se auto-regular (assim fazendo do "padre" João Carlos Espada praticamente o único fiel do liberalismo), só tenho a dizer que já nada me espanta. E acho paradigmáticas as afirmações de Berardo.
Estou convencido de que o que vem aí de crise é muito, mesmo muito, mais grave que o que a generalidade das pessoas julgam.
Porque (segundo Anselm Jappe, em artigo que recomendo vivamente) "desta vez, todos os comentadores estão de acordo" sobre que é realmente uma crise sistémica o que está a começar, e não uma "mera turbulência passageira dos mercados financeiros". Mas "todos aqueles que agora apelam a uma «maior regulação» dos mercados financeiros, desde a associação ATTAC ao Presidente Sarkozy, não vêem nas loucuras das bolsas mais do que um «excesso», um abcesso num corpo são".
Continuando assim a varrer a poeira para debaixo do tapete, nunca perceberão que o que realmente se está a passar é uma crise dos próprios fundamentos do sistema em que vivemos. "Os políticos não estão a perceber, estão a dar aquele ar de que é possível recuperar, eu acho que fazem bem, mas eu estou é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande", Berardo dixit.
As boas notícias são que, depois de ler o discurso de tomada de posse de Obama, fiquei convencido de que ele, tal como o Berardo, também percebeu!
De facto, tenho visto os economistas e os políticos à rasquinha, sem saberem no que isto da crise vai dar. O Berardo, que é, ele próprio o reconhece na entrevista, um bocado desbocado, diz que está "banzado" e que "tudo aquilo que [aprendeu] até agora, que era analisar as potencialidades, os endividamentos, os dividendos, foi tudo por água abaixo e [que tem] que voltar a aprender de novo [passe a forma pleonástica]." Remata com a frase lapidar "Tem que haver um novo sistema."
Eu cá, desde que ouvi Greenspan dizer que se enganou acerca da capacidade do sistema se auto-regular (assim fazendo do "padre" João Carlos Espada praticamente o único fiel do liberalismo), só tenho a dizer que já nada me espanta. E acho paradigmáticas as afirmações de Berardo.
Estou convencido de que o que vem aí de crise é muito, mesmo muito, mais grave que o que a generalidade das pessoas julgam.
Porque (segundo Anselm Jappe, em artigo que recomendo vivamente) "desta vez, todos os comentadores estão de acordo" sobre que é realmente uma crise sistémica o que está a começar, e não uma "mera turbulência passageira dos mercados financeiros". Mas "todos aqueles que agora apelam a uma «maior regulação» dos mercados financeiros, desde a associação ATTAC ao Presidente Sarkozy, não vêem nas loucuras das bolsas mais do que um «excesso», um abcesso num corpo são".
Continuando assim a varrer a poeira para debaixo do tapete, nunca perceberão que o que realmente se está a passar é uma crise dos próprios fundamentos do sistema em que vivemos. "Os políticos não estão a perceber, estão a dar aquele ar de que é possível recuperar, eu acho que fazem bem, mas eu estou é preocupado com a destabilização que se pode criar da noite para o dia, que crie uma crise social muito grande", Berardo dixit.
As boas notícias são que, depois de ler o discurso de tomada de posse de Obama, fiquei convencido de que ele, tal como o Berardo, também percebeu!
2009/01/24
2009/01/20
A América de novo na ofensiva...
Não consigo encontrar uma fragilidade no discurso de Obama. Diria antes que depois dele se tornou mais fácil encontrarmos as fragilidades dos discursos dos outros líderes mundiais.
Os líderes da UE, dos países árabes, da Rússia, dos chamados países das economias emergentes, de todos os países, amigos e inimigos da América, todos eles acomodados em discursos afinados para um diapasão que hoje se extinguiu definitivamente, vão ter de arranjar novos tópicos para a sua oratória.
Muita gente sublinha o facto de que quando passar a crise os velhos paradigmas vão ter de mudar e o mundo não vai ser o mesmo. Já não é, pelo que ouvimos. Vamos é ver, continuando a metáfora musical, quem vai conseguir definir o novo Lá de concerto...
Como nota lateral, devo confessar que quase tive pena do Bush. A organização desta tomada de posse esqueceu-se de lhe arranjar ali um buraco por onde ele se pudesse enfiar... Teria sido mais digno.
2009/01/19
Sempre a descer...
As previsões apresentadas pela Comissão Europeia, que confirmam a análise do "The Economist" e revêem em baixa os números do Orçamento Suplementar do governo, são preocupantes: a contracção da economia não será de 0,8%, mas 1,6% (o dobro!), o "déficit" não será de 3,9%, mas de 4,6% e a taxa de desemprego não será de 8,5%, mas de 8,8%. Entretanto, os analistas vão avisando que a situação ainda pode piorar e chegarmos mesmo à deflação. Recuperação, só mesmo lá para 2011...
Concordou o governo? Nem pensar. Sócrates não tardou em desmentir os comentadores do "The Economist" (que não teriam lido bem as suas declarações) prometendo, desde logo, novos investimentos e linhas de crédito e, a "cereja em cima do bolo", o inenarrável Madaíl, anunciava a candidatura de Portugal à organização conjunta do Mundial de Futebol em 2018. Crise? Qual crise?
Este país parece-se cada vez mais com o "Titanic". Mesmo a afundar-se, a "orquestra" continua a tocar...
Concordou o governo? Nem pensar. Sócrates não tardou em desmentir os comentadores do "The Economist" (que não teriam lido bem as suas declarações) prometendo, desde logo, novos investimentos e linhas de crédito e, a "cereja em cima do bolo", o inenarrável Madaíl, anunciava a candidatura de Portugal à organização conjunta do Mundial de Futebol em 2018. Crise? Qual crise?
Este país parece-se cada vez mais com o "Titanic". Mesmo a afundar-se, a "orquestra" continua a tocar...
Hipocrisia de Estado
Há (de novo) um cessar-fogo em Gaza. Para já, boas notícias. Resta saber até quando.
As declarações de ministro israelita Ehud Olmert no Cairo, onde apelou aos palestinianos para que "compreendessem" que "eles" não eram o principal inimigo, roça a pornografia. Como é possível, depois de três semanas de consecutivos bombardeamentos que mataram 1500 pessoas e feriram outras 5000, para além da destruição aleatória de infraestruturas fundamentais como hospitais, escolas, condutas de água e de electricidade, vir falar em compreensão?
Mesmo dando de barato que metade das vítimas eram do Hamas (o principal inimigo, nas palavras de Olmert) que culpa têm os milhares de crianças, velhos e demais palestinianos que ficaram privados das mais elementares meios de subsistência para além do terror que viveram, sem poder escapar para lado nenhum?
Já toda a gente percebeu quais as razões que estiveram por detrás desta guerra preparada com meio ano de antecedência: Bush estava de saída e havia que actuar rápido; Obama ainda não é presidente e era necessário "marcar terreno" antes da sua tomada de posse; aproximam-se as eleições em Israel e o Kadima necessitava de subir nas intenções de voto e havia necessidade de reabilitar a imagem das tropas, depois da campanha do Libano (2006), que correu mal ao exército israelita. No meio da confusão, até o processo de corrupção contra Olmert, que está de saída, passaria a segundo plano...
Vinte e quatro horas depois do anunciado cessar-fogo, agora aceite por ambas as partes, tanto Israel como o Hamas cantam vitória. Em Israel, no entanto, um inquérito levado a cabo pela TV israelita mostra que 41% da população acha que foi uma vitória e, a mesma percentagem, que foi um falhanço. Aparentemente, voltámos ao "ponto de partida".
Se nada se adiantou, porquê tal incursão, que mais não fez do que aumentar o ódio já existente e alimentar uma nova geração de combatentes para a próxima guerra?
As declarações de ministro israelita Ehud Olmert no Cairo, onde apelou aos palestinianos para que "compreendessem" que "eles" não eram o principal inimigo, roça a pornografia. Como é possível, depois de três semanas de consecutivos bombardeamentos que mataram 1500 pessoas e feriram outras 5000, para além da destruição aleatória de infraestruturas fundamentais como hospitais, escolas, condutas de água e de electricidade, vir falar em compreensão?
Mesmo dando de barato que metade das vítimas eram do Hamas (o principal inimigo, nas palavras de Olmert) que culpa têm os milhares de crianças, velhos e demais palestinianos que ficaram privados das mais elementares meios de subsistência para além do terror que viveram, sem poder escapar para lado nenhum?
Já toda a gente percebeu quais as razões que estiveram por detrás desta guerra preparada com meio ano de antecedência: Bush estava de saída e havia que actuar rápido; Obama ainda não é presidente e era necessário "marcar terreno" antes da sua tomada de posse; aproximam-se as eleições em Israel e o Kadima necessitava de subir nas intenções de voto e havia necessidade de reabilitar a imagem das tropas, depois da campanha do Libano (2006), que correu mal ao exército israelita. No meio da confusão, até o processo de corrupção contra Olmert, que está de saída, passaria a segundo plano...
Vinte e quatro horas depois do anunciado cessar-fogo, agora aceite por ambas as partes, tanto Israel como o Hamas cantam vitória. Em Israel, no entanto, um inquérito levado a cabo pela TV israelita mostra que 41% da população acha que foi uma vitória e, a mesma percentagem, que foi um falhanço. Aparentemente, voltámos ao "ponto de partida".
Se nada se adiantou, porquê tal incursão, que mais não fez do que aumentar o ódio já existente e alimentar uma nova geração de combatentes para a próxima guerra?
2009/01/17
Mais crescimento negativo
O orçamento rectificativo, agora baptizado de "suplementar", veio confirmar o que já sabíamos: a economia não descola, as exportações diminuiram, o desemprego aumentará para 8,5% e o famigerado "déficit" para 3,9%...uma "contracção" e peras, para usar o jargão economista. Claro está que a crise veio de "fora" e, não fosse o debacle internacional, Portugal estaria em condições de resistir à estagnação.
Porque a procissão ainda vai no adro e o ano é longo, dizem-nos alguns especialistas - essas cassandras da desgraça - que este não será o único orçamento "suplementar". Outros se seguirão...
Em ano eleitoral, é de prever mais acertos e apoios estatais em obras, faraónicas e outras, que mantenham a economia virtual em alta. Vale tudo, porque tudo é válido para um governo que fez da demagogia a sua arma de eleição.
O mal não está só na crise, que é real e atinge milhões de portugueses. O mal está nestes governantes que, olimpicamente, continuam a ignorar os sinais e avisos vindos dos mais diversos quadrantes, mantendo-se numa rota suicida que só pode conduzir ao descalabro.
Os primeiros sinais estão aí. Depois de um ano consecutivo de sondagens, as tendências do eleitorado permanecem estáveis: mesmo ganhando, o PS perde a maioria absoluta, o que pode abrir um novo ciclo político. Um pouco à imagem do orçamento: cresce, mas negativamente...
Porque a procissão ainda vai no adro e o ano é longo, dizem-nos alguns especialistas - essas cassandras da desgraça - que este não será o único orçamento "suplementar". Outros se seguirão...
Em ano eleitoral, é de prever mais acertos e apoios estatais em obras, faraónicas e outras, que mantenham a economia virtual em alta. Vale tudo, porque tudo é válido para um governo que fez da demagogia a sua arma de eleição.
O mal não está só na crise, que é real e atinge milhões de portugueses. O mal está nestes governantes que, olimpicamente, continuam a ignorar os sinais e avisos vindos dos mais diversos quadrantes, mantendo-se numa rota suicida que só pode conduzir ao descalabro.
Os primeiros sinais estão aí. Depois de um ano consecutivo de sondagens, as tendências do eleitorado permanecem estáveis: mesmo ganhando, o PS perde a maioria absoluta, o que pode abrir um novo ciclo político. Um pouco à imagem do orçamento: cresce, mas negativamente...
2009/01/14
Um monte de sarilhos...
...é o que espera as mulheres portuguesas que venham a casar-se com muçulmanos, na opinião do Cardeal Patriarca de Lisboa que ontem, em sessão pública na Figueira da Foz, aconselhava: "cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde acabam".
Não sei onde é que D. Policarpo foi buscar tais certezas, mas esta declaração de intolerância e proselitismo não fica nada bem a um representante de uma igreja que advoga a tolerância e o diálogo. Para dogmas já bastam os "mullahs" de serviço. Não precisamos de mais em Lisboa.
Não sei onde é que D. Policarpo foi buscar tais certezas, mas esta declaração de intolerância e proselitismo não fica nada bem a um representante de uma igreja que advoga a tolerância e o diálogo. Para dogmas já bastam os "mullahs" de serviço. Não precisamos de mais em Lisboa.
O estado da arte e a "arte" do Estado
Neste país já nada nos consegue surpreender. Vivemos na corda bamba do território previsível, seguros de que ao caír seremos amparados pela rede da meta-crise. Esta condição retira, é certo, margem de manobra ao inesperado, cava a depressão, mas não deve diminuir a nossa capacidade de repulsa.
Vem isto a propósito da declaração do Ministro da Cultura sobre o apoio aos artistas, como resposta a uma interpelação feita no Palácio Foz por Paula Castro Guimarães ao Primeiro Ministro, durante a apresentação dos programas Inov-Art e Inov-Mundus.
A interpelação correu os orgãos de comunicação social, que a mostraram, bem como a reacção do PM, e motivou um comunicado da Miso Music Portugal que pode ser lido aqui.
Factos são factos: Portugal está no fim da escala dos parceiros europeus no que diz respeito aos indicadores que medem o desenvolvimento. Mas, no plano específico da cultura (a distinção que faço aqui entre cultura e desenvolvimento é artificial, eu sei, e só imposições de natureza retórica a justificam), esta escala não serve. Portugal é hoje um país que só encontrará adversários à altura naquelas ditaduras retrógradas, palco de constantes lutas tribais, cujo território é totalmente sulcado por esgotos humanos a céu aberto.
A cultura tóxica não é de hoje certamente, mas o actual executivo fez questão de lhe aumentar a toxicidade. Não só em razão da linha política geral seguida, sem perspectiva, sem espessura, inculta, que hoje, todos o compreendemos, não passa de um enorme logro. Mas também porque no sector específico da cultura --liderado sucessivamente por dois personagens cuja actuação sugere frequentemente estarmos em pleno reino do poltergeist-- se alcançou o nível zero. É o pior do mau! É o retorno ao período mais negro, dos dias mais negros que jamais vivemos nesta matéria!
Os tiques autoritários evidenciados nas respostas destes governantes, perante uma interpelação, totalmente pertinente, feita com toda a legitimidade e com enorme coragem (um facto digno de realce neste país de cágados...), são fáceis de explicar. Ainda estão no tempo em que quando se ouvia falar de cultura se sacava do revólver. Falta classe à classe política. Bem poderiam aproveitar o tal projecto das "Novas Oportunidades" para se reciclarem a eles próprios e subirem um pouco a altura do seu voo. Neste momento não passam de aves de voo raso.
Estas figurinhas são, contudo, as mesmas que quando partem em viagem de Estado, ou quando precisam de imagens fortes para promover o país se encavalitam nas artes e nos artistas para mostrarem ao mundo as nossas e as suas virtudes... Mas, não se pode tomar banho com perfume. Antes de o perfumar, o corpo precisa de passar por uma boa barrela, com um bom sabão e água. De outro modo o mau cheiro sente-se sempre lá ao fundo.
Os artistas, esses, continuam a sua cruzada solitária, fazendo todos os dias das tripas coração e buscando fora os apoios que a sua terra lhes sonega. A democracia ainda não mora aqui.
Vem isto a propósito da declaração do Ministro da Cultura sobre o apoio aos artistas, como resposta a uma interpelação feita no Palácio Foz por Paula Castro Guimarães ao Primeiro Ministro, durante a apresentação dos programas Inov-Art e Inov-Mundus.
A interpelação correu os orgãos de comunicação social, que a mostraram, bem como a reacção do PM, e motivou um comunicado da Miso Music Portugal que pode ser lido aqui.
Factos são factos: Portugal está no fim da escala dos parceiros europeus no que diz respeito aos indicadores que medem o desenvolvimento. Mas, no plano específico da cultura (a distinção que faço aqui entre cultura e desenvolvimento é artificial, eu sei, e só imposições de natureza retórica a justificam), esta escala não serve. Portugal é hoje um país que só encontrará adversários à altura naquelas ditaduras retrógradas, palco de constantes lutas tribais, cujo território é totalmente sulcado por esgotos humanos a céu aberto.
A cultura tóxica não é de hoje certamente, mas o actual executivo fez questão de lhe aumentar a toxicidade. Não só em razão da linha política geral seguida, sem perspectiva, sem espessura, inculta, que hoje, todos o compreendemos, não passa de um enorme logro. Mas também porque no sector específico da cultura --liderado sucessivamente por dois personagens cuja actuação sugere frequentemente estarmos em pleno reino do poltergeist-- se alcançou o nível zero. É o pior do mau! É o retorno ao período mais negro, dos dias mais negros que jamais vivemos nesta matéria!
Os tiques autoritários evidenciados nas respostas destes governantes, perante uma interpelação, totalmente pertinente, feita com toda a legitimidade e com enorme coragem (um facto digno de realce neste país de cágados...), são fáceis de explicar. Ainda estão no tempo em que quando se ouvia falar de cultura se sacava do revólver. Falta classe à classe política. Bem poderiam aproveitar o tal projecto das "Novas Oportunidades" para se reciclarem a eles próprios e subirem um pouco a altura do seu voo. Neste momento não passam de aves de voo raso.
Estas figurinhas são, contudo, as mesmas que quando partem em viagem de Estado, ou quando precisam de imagens fortes para promover o país se encavalitam nas artes e nos artistas para mostrarem ao mundo as nossas e as suas virtudes... Mas, não se pode tomar banho com perfume. Antes de o perfumar, o corpo precisa de passar por uma boa barrela, com um bom sabão e água. De outro modo o mau cheiro sente-se sempre lá ao fundo.
Os artistas, esses, continuam a sua cruzada solitária, fazendo todos os dias das tripas coração e buscando fora os apoios que a sua terra lhes sonega. A democracia ainda não mora aqui.
2009/01/10
Já tinhamos percebido...
De acordo com o mais recente relatório económico da OCDE, as "finanças portuguesas têm dificuldade em fazer projecções económicas correctas". Já tinhamos percebido.
2009/01/07
O problema de Gaza visto por Fernando Nobre
Grito e choro por Gaza e por Israel Fernando Nobre (do Blog Contra a Indiferença)
Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.
O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.
Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:
- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..
- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamisaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?
- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.
- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).
- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares!
- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!
- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!
- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!
- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!
- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!
Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!
É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.
É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.
Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia.
O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.
Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:
- Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel..
- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamisaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?
- Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.
- Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).
- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares!
- Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!
- Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!
- Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca!
- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!
- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!
Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos!
É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.
É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.
2009/01/06
Crescimento Negativo
De acordo com o governador do Banco de Portugal, o insuspeito Constâncio, Portugal entrou oficialmente em recessão.
Ou seja, a economia portuguesa deixou de crescer há dois trimestres consecutivos o que, tecnicamente, equivale a uma situação de recessão. Nas palavras de Constâncio, a economia portuguesa teve uma "contracção" de 8%.
Ainda de acordo com os dados do Banco de Portugal, o crescimento da economia portuguesa atinge apenas 0,3%, comparativamente aos 1,4% verificados em Outubro. Em jargão económico estamos, por isso, a assistir a um "crescimento negativo".
Crescimento negativo? Ou cresce ou decresce. Se não cresce, diminui. Certo? Alguém que me explique o que é isto do "crescimento negativo" porque, para "língua de pau", já basta a do primeiro-ministro.
Ou seja, a economia portuguesa deixou de crescer há dois trimestres consecutivos o que, tecnicamente, equivale a uma situação de recessão. Nas palavras de Constâncio, a economia portuguesa teve uma "contracção" de 8%.
Ainda de acordo com os dados do Banco de Portugal, o crescimento da economia portuguesa atinge apenas 0,3%, comparativamente aos 1,4% verificados em Outubro. Em jargão económico estamos, por isso, a assistir a um "crescimento negativo".
Crescimento negativo? Ou cresce ou decresce. Se não cresce, diminui. Certo? Alguém que me explique o que é isto do "crescimento negativo" porque, para "língua de pau", já basta a do primeiro-ministro.
A Oeste nada de novo
O primeiro-ministro deu mais uma entrevista na televisão.
As perguntas foram as esperadas: aquelas que os portugueses mais fazem.
As respostas, as esperadas: aquelas que o primeiro-ministro vem dando há anos a esta parte.
Ou seja: a vida dos portugueses não melhorou nos quatro anos que este governo leva, mas Sócrates diz que não há alternativa, pois a crise é estrutural (leia-se internacional).
Uma coisa, no entanto, ele admitiu: Portugal vai mesmo entrar em recessão (já estávamos à espera), o que só piorará a situação actual (menos crescimento, menos exportações, mais desemprego, mais pobreza e, lá mais para a frente, talvez mesmo deflação).
Outra coisa ele deixou no ar: Sócrates vai candidatar-se a mais um mandato, mas não explicou como vai governar caso não obtenha a maioria absoluta: em minoria, em coligação (com quem?) ou desistir (como Guterres e Barroso no passado).
Esta é, provavelmente, a questão mais interessante e que os portugueses gostariam de saber. Também para saberem se vale, ou não, a pena votar nele. Mas, ainda não foi desta...
As perguntas foram as esperadas: aquelas que os portugueses mais fazem.
As respostas, as esperadas: aquelas que o primeiro-ministro vem dando há anos a esta parte.
Ou seja: a vida dos portugueses não melhorou nos quatro anos que este governo leva, mas Sócrates diz que não há alternativa, pois a crise é estrutural (leia-se internacional).
Uma coisa, no entanto, ele admitiu: Portugal vai mesmo entrar em recessão (já estávamos à espera), o que só piorará a situação actual (menos crescimento, menos exportações, mais desemprego, mais pobreza e, lá mais para a frente, talvez mesmo deflação).
Outra coisa ele deixou no ar: Sócrates vai candidatar-se a mais um mandato, mas não explicou como vai governar caso não obtenha a maioria absoluta: em minoria, em coligação (com quem?) ou desistir (como Guterres e Barroso no passado).
Esta é, provavelmente, a questão mais interessante e que os portugueses gostariam de saber. Também para saberem se vale, ou não, a pena votar nele. Mas, ainda não foi desta...
2009/01/04
Um gueto sem saida
Menos de vinte e quatro horas depois do início da operação israelita em território de Gaza, começam a surgir as reacções previsíveis em conflitos semelhantes na região. De um lado, os defensores de Israel, que justificam todo e qualquer ataque contra os palestinianos (independentemente das razões e consequências que estas acções punitivas possam ter) com o argumento que os provocadores são sempre o Hamas; do outro, os apoiantes da causa palestina que (independentemente, das barbaridades cometidas pelos fundamentalistas islâmicos) vêem em tudo quanto de mal lhes acontece, a mão israelita.
Confesso que tenho cada vez mais dificuldade em tomar partido por qualquer das posições, já que sei (sabemos todos) que há bons e maus argumentos de ambos os lados e nenhum dos opositores tem a razão única neste conflito.
Alguns princípios começam, no entanto, a ser aceites pela maioria dos analistas e que me parecem pertinentes:
Israel, para o bem e para o mal, é um estado criado e reconhecido há 60 anos e tem, por isso, direito à existência em tanto que país independente. Os palestinianos, têm direito a um estado igualmente independente que, de resto, foi reconhecido em 1947. Ou seja, ambos os povos têm direito ao seu país, sendo que o maior problema do lado dos sucessivos representantes palestinianos tem sido o reconhecimento do estado israelita em tanto que tal (e daí os ataques sucessivos dos países árabes em 1948, 1967 e 1973); e, do lado israelita, a recusa em entregar os territórios ocupados nas sucessivas guerras, continuando com a construção de colonatos na Cijordânia e obrigando os palestinianos a viverem em verdadeiros guetos dentro dos seus próprios territórios. É esta intransigência, de ambos os campos, que vem justificando a chegada ao poder das forças mais extremistas no campo israelita e no campo palestiniano: a do Likud e dos movimentos judeus de extrema-direita em Israel e a do Hamas e dos fundamentalistas islâmicos em Gaza. Sempre que o Hamas ataca Israel, as forças fundamentalistas judaicas fortalecem-se e ganham argumentos para a guerra; sempre que Israel ataca e destrói cidades palestinianas, o Hamas ganha em popularidade. Não será diferente desta vez e os "falcões" dos dois movimentos terão com que se entreter nos próximos dias (os analistas da guerra já dizem que poderão ser semanas). Dias, ou semanas, o balanço será sempre negativo. O número de vitimas civis em ambos os campos será sempre demasiado; a devastação física de cidades e infraestruturas vitais para o bom funcionamento da sociedade (hospitais, por exemplo) nunca será compensada e, no fim, o ódio permanecerá mais vivo que nunca. Para recomeçar tudo outra vez, daqui a uns anos...
O plano defendido por Edward Said e, posteriormente, recuperado por Amos Oz (uma federação/dois estados, ou dois países/fronteiras comuns) esteve prestes a concretizar-se, mas a morte prematura de alguns dos seus defensores (Sadat e Rabin) às mãos de fanáticos fundamentalistas islamistas e judeus, atrasou o processo histórico em curso.
Uma coisa é certa: não parece que a guerra (esta guerra) vá resolver a situação; como, de resto, as guerras anteriores não resolveram. A solução terá sempre de ser política. Infelizmente, não descortinamos em nenhum dos governos, palestinos ou israelitas actuais, figuras com capacidade para tal.
Há quem ponha a esperança no próximo presidente americano. A avaliar pelas suas declarações sobre o conflito não parece que dali venha algo de construtivo...
Confesso que tenho cada vez mais dificuldade em tomar partido por qualquer das posições, já que sei (sabemos todos) que há bons e maus argumentos de ambos os lados e nenhum dos opositores tem a razão única neste conflito.
Alguns princípios começam, no entanto, a ser aceites pela maioria dos analistas e que me parecem pertinentes:
Israel, para o bem e para o mal, é um estado criado e reconhecido há 60 anos e tem, por isso, direito à existência em tanto que país independente. Os palestinianos, têm direito a um estado igualmente independente que, de resto, foi reconhecido em 1947. Ou seja, ambos os povos têm direito ao seu país, sendo que o maior problema do lado dos sucessivos representantes palestinianos tem sido o reconhecimento do estado israelita em tanto que tal (e daí os ataques sucessivos dos países árabes em 1948, 1967 e 1973); e, do lado israelita, a recusa em entregar os territórios ocupados nas sucessivas guerras, continuando com a construção de colonatos na Cijordânia e obrigando os palestinianos a viverem em verdadeiros guetos dentro dos seus próprios territórios. É esta intransigência, de ambos os campos, que vem justificando a chegada ao poder das forças mais extremistas no campo israelita e no campo palestiniano: a do Likud e dos movimentos judeus de extrema-direita em Israel e a do Hamas e dos fundamentalistas islâmicos em Gaza. Sempre que o Hamas ataca Israel, as forças fundamentalistas judaicas fortalecem-se e ganham argumentos para a guerra; sempre que Israel ataca e destrói cidades palestinianas, o Hamas ganha em popularidade. Não será diferente desta vez e os "falcões" dos dois movimentos terão com que se entreter nos próximos dias (os analistas da guerra já dizem que poderão ser semanas). Dias, ou semanas, o balanço será sempre negativo. O número de vitimas civis em ambos os campos será sempre demasiado; a devastação física de cidades e infraestruturas vitais para o bom funcionamento da sociedade (hospitais, por exemplo) nunca será compensada e, no fim, o ódio permanecerá mais vivo que nunca. Para recomeçar tudo outra vez, daqui a uns anos...
O plano defendido por Edward Said e, posteriormente, recuperado por Amos Oz (uma federação/dois estados, ou dois países/fronteiras comuns) esteve prestes a concretizar-se, mas a morte prematura de alguns dos seus defensores (Sadat e Rabin) às mãos de fanáticos fundamentalistas islamistas e judeus, atrasou o processo histórico em curso.
Uma coisa é certa: não parece que a guerra (esta guerra) vá resolver a situação; como, de resto, as guerras anteriores não resolveram. A solução terá sempre de ser política. Infelizmente, não descortinamos em nenhum dos governos, palestinos ou israelitas actuais, figuras com capacidade para tal.
Há quem ponha a esperança no próximo presidente americano. A avaliar pelas suas declarações sobre o conflito não parece que dali venha algo de construtivo...
2009/01/03
A origem das crises
A mensagem de fim de ano do PR mereceu os habituais comentários e análises dos "fazedores de opinião" profissionais. Mais um imposto que os portugueses têm de pagar pela sua iliteracia e por não saberem pensar pela sua cabeça: ouvir os comentaristas...
Quanto à mensagem propriamente dita, independentemente de achar justos muitos dos comentários e recados que incluiu, ela suscitou-me alguns pensamentos. Desde logo uma interrogação: este PR é o mesmo que foi PM durante um larguíssimo período, ou estarei engando? Terá sido a mesma pessoa...? Às tantas fiquei com dúvidas.
Por outro lado, ouviu-se uma longa diatribe a propósito da situação económica. Um desses comentadores que li notava que estava ali um especialista em economia, uma vez que a mensagem se centrou quase exclusivamente sobre a coisa económica. Mas no essencial, porém, a coisa económica ficou reduzida a um "cada um que se amanhe", aquilo que de resto temos sido sempre obrigados a fazer face a crise contínua em que o país parece estar permanentemente metido, e às "soluções" propostas pelos políticos que nos vão calhando na rifa.
Temos de convir que parece curto para um Presidente da República. Nem uma palavra sobre... Portugal e sobre os portugueses, a sua alma mais profunda, a sua cultura, o seu património. Aquilo que, em última análise, será o motor de qualquer superação real da crise. Dito assim, a mensagem do PR não diferia muito da conversa que ouço junto do quiosque dos jornais aqui da minha terra, entre os refomados que ali se reúnem. Uma espécie de presidentes de bancada...
Ouvi de facto este discurso e não pude deixar de me recordar do que escrevi aqui há pouco tempo. Não pude deixar de me lembrar, por exemplo, que ao actual PR, que se orgulha, muito justamente, da sua condição de professor de economia, lhe terão passado pelas mãos muitos dos que contribuiram para o estado caótico da economia portuguesa. Da sua boca terão certamente ouvido, pela primeira vez, os fundamentos da teoria tóxica que inquinou a nossa economia. E na sua condição de PM, algumas das estrelas mais cintilantes, responsáveis pelos escândalos financeiros que se conhecem, até colaboraram com ele directamente.
E não pude deixar de me lembrar que quando ele invocava justamente as virtudes dos pressupostos e princípios que aplicou na sua sua gestão do país (*), eu, por mim, torcia já o nariz, desconfiado com tanta "prosperidade" e com a assustadora proliferação de "habilidosos", que se ia vendo grassar por aí, gozando da mais absoluta das impunidades...
Ou esta gente pensa que nascemos todos ontem?
(*) Que em nada diferem dos que agora conduziram à actual "crise", dr. Medina Carreira...
A Gripe
Ontem, saí pela primeira vez em 2009. Uma curta visita ao hospital de Santa Maria, onde um amigo muito especial luta contra a morte. No piso onde se encontra internado (pneumologia) alguns visitantes usavam uma máscara contra as potenciais bactérias. Hesitei, entre imitar as visitas, ou os enfermeiros que diligenciam nos seus tratamentos diários sem máscara. Optei por imitar os segundos.
Hoje, de manhã, dei os primeiros espirros do ano. Assustado, fui adquirir as minhas provisões de comprimidos e aproveitei para comprar o jornal. As notícias confirmam os meus receios: a gripe está por todo o lado, mas está "controlada". Assegura-nos o Director do Serviço Nacional de Saúde. Fiquei mais descansado. Nada como um estado protector para nos sossegar. Inconscientemente, dei-me a pensar em Mugabe. Também ele decretou o fim da cólera no Zimbabwe. Se o presidente disse, deve ser verdade. Porque é que eu hei-de pensar que vou apanhar uma gripe?
Hoje, de manhã, dei os primeiros espirros do ano. Assustado, fui adquirir as minhas provisões de comprimidos e aproveitei para comprar o jornal. As notícias confirmam os meus receios: a gripe está por todo o lado, mas está "controlada". Assegura-nos o Director do Serviço Nacional de Saúde. Fiquei mais descansado. Nada como um estado protector para nos sossegar. Inconscientemente, dei-me a pensar em Mugabe. Também ele decretou o fim da cólera no Zimbabwe. Se o presidente disse, deve ser verdade. Porque é que eu hei-de pensar que vou apanhar uma gripe?
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