Tento definir o conceito de usucapião. Sou um leigo em matéria de leis, mas penso que se trata do direito à posse de um bem, material ou imaterial, resultante do seu uso ao longo de um certo tempo. Espero que os juristas que eventualmente leiam este escrito me concedam uma folgazita...
A "imagem pública" que as figuras com algum tipo de influência no nosso colectivo tentam construir não é um fenómeno que tenha surgido de repente. Alimentando mitos, gerindo silêncios, cuidando do penteado, tendo lições de voz, proferindo discursos, dando entrevistas escolhidas, decidindo a inclinação das riscas das gravatas, evitando perguntas incómodas ou "tablóidizando" as suas vidas, as "figuras públicas" tornam-se, assim, maiores do que a realidade, e usam a imagem para criar poder ou segurar e aumentar o poder que têm. Ao usar a imagem essas figuras acabam com o tempo por se apossar dela. Mas, há qualquer coisa de estranhamente artificial neste "título de propriedade".
A imagem é uma criação que raramente "cola" ao personagem. É que há uma diferença entre ter uma imagem de honestidade, de artista, de louco e ser de facto honesto, artista ou louco. Há uma diferença entre inspirar confiança, suscitar um sentimento de rigor ou causar repulsa e ser confiável, rigoroso ou repulsivo de facto. Há quem tenha imagem de honesto e não seja, há quem não tenha uma imagem repulsiva mas seja repulsivo, há quem tenha imagem de iconoclasta mas seja afinal profundamente conservador. A "imagem", como a pós-produção na fotografia e no cinema, trata de corrigir os defeitos, apagar borbulhas ou dar estatura a quem a não tem. Mas muitas figuras públicas beneficiam da imagem que lhes foi criada e acabam mesmo por ser consideradas honestas, confiáveis ou estarolas pela generalidade das pessoas.
Na próxima eleição presidencial os concorrentes têm todos uma imagem que foi criada para ou por eles. O facto de terem essa imagem não quer dizer que ela corresponda à realidade. Temos de avaliar, através da análise dos factos, se a imagem cola com o personagem ou não. Por mim, creio que todos os personagens que estão na arena da luta presidencial têm imagens com defeito, mas há um candidato, em particular, que tem uma imagem que não condiz, por mais que ele se esforce, com a realidade: Cavaco Silva. Depois do espectáculo que deu, ao não esclarecer a embrulhada das acções da SLN, também ele vai ter de nascer uma segunda vez para conseguir, depois disto, parecer mais honesto do que pretende ser.
Cavaco é, claramente, um destes casos de usucapião. Como desconfiamos da imagem também os factos, esta súbita preocupação com os alunos e pais e as suas escolas, com os funcionários públicos e com os desempregados, suscitam desconfiança. É preciso estar atento para que não venha, por usucapião, a beneficiar desta imagem de paladino dos desprotegidos que agora surge, surpreendentemente, nesta etapa final da campanha.
2011/01/18
2011/01/12
Embandeirar em arco e em flecha
Não deixa de ser curioso observar as reacções dos candidatos à presidência ao leilão de obrigações de hoje. Alegre declara-se satisfeito, Cavaco diz que não devemos embandeirar em arco. De facto, pensava eu, se a estratégia de combate à "crise" correr bem e o governo levar a melhor nessa sua estratégia o que fica da argumentação do candidato Cavaco que justifique a sua recandidatura?
Não sei se já repararam, mas toda a estratégia deste homem assenta no falhanço do governo, no aprofundamento da crise e no afundanço final de Portugal. A tal "reserva" é isto: enquanto espera que tudo vá ao fundo ele "reserva-se" o direito de aparecer como o salvador da pátria. Onde é que já se ouviu isto?
Se falhar o tal afundanço não resta nada do "pensamento político" do candidato. Cavaco parece um verdadeiro abutre olhando a crise à espera de lhe chupar as carnes.
Aqui há uns anos, nos tempos em que Cavaco era primeiro ministro, alguém (se não me engano, o Miguel Urbano Rodrigues) distinguia nele traços de ditador. Na altura, para alguns, essa leitura foi classificada como apressada e exagerada. Creio que está hoje mais que provada a sua justeza. Cavaco embandeira em flecha.
Não sei se já repararam, mas toda a estratégia deste homem assenta no falhanço do governo, no aprofundamento da crise e no afundanço final de Portugal. A tal "reserva" é isto: enquanto espera que tudo vá ao fundo ele "reserva-se" o direito de aparecer como o salvador da pátria. Onde é que já se ouviu isto?
Se falhar o tal afundanço não resta nada do "pensamento político" do candidato. Cavaco parece um verdadeiro abutre olhando a crise à espera de lhe chupar as carnes.
Aqui há uns anos, nos tempos em que Cavaco era primeiro ministro, alguém (se não me engano, o Miguel Urbano Rodrigues) distinguia nele traços de ditador. Na altura, para alguns, essa leitura foi classificada como apressada e exagerada. Creio que está hoje mais que provada a sua justeza. Cavaco embandeira em flecha.
2011/01/11
A quadratura do círculo
Vejo a televisão e sou confrontado com duas notícias, aparentemente, antagónicas:
Enquanto Sócrates, acompanhado do ministro de finanças, anuncia em directo a redução do "déficit" para 7,3% (cumprindo, assim, os objectivos do Orçamento para 2010), a mesma estação televisiva passa em roda-pé a notícia de que o Banco de Portugal prevê uma recessão da economia portuguesa em 2011, com recuo de 1,3% do PIB e um crescimento (negativo) de 0,6% em 2012.
Ou seja, apesar da relativa melhoria do "déficit" no ano transacto, a economia não crescerá o suficiente em 2011, nem em 2012. Isto quer dizer que haverá menos emprego, menor consumo e mais desemprego. Logo, maior recessão. Podemos, pois, antecipar maior "déficit" no ano corrente, a menos que sejam contraídos novos empréstimos no estrangeiro.
Ora, como sabemos, os empréstimos dependem, entre outras coisas, das notações das famigeradas "agências" que, em última análise, acabam por influenciar a taxa de juro a aplicar pelos credores internacionais. Os juros aplicados a Portugal rondam os 7,3% nos dias que correm.
Gostaria que alguém me explicasse como vai ser isto possível. Por outras palavras, como é que o governo português, com estes indicadores, poderá a prazo evitar a entrada do FEE e do FMI em Portugal, coisa que os nossos governantes teimam em negar?
Enquanto Sócrates, acompanhado do ministro de finanças, anuncia em directo a redução do "déficit" para 7,3% (cumprindo, assim, os objectivos do Orçamento para 2010), a mesma estação televisiva passa em roda-pé a notícia de que o Banco de Portugal prevê uma recessão da economia portuguesa em 2011, com recuo de 1,3% do PIB e um crescimento (negativo) de 0,6% em 2012.
Ou seja, apesar da relativa melhoria do "déficit" no ano transacto, a economia não crescerá o suficiente em 2011, nem em 2012. Isto quer dizer que haverá menos emprego, menor consumo e mais desemprego. Logo, maior recessão. Podemos, pois, antecipar maior "déficit" no ano corrente, a menos que sejam contraídos novos empréstimos no estrangeiro.
Ora, como sabemos, os empréstimos dependem, entre outras coisas, das notações das famigeradas "agências" que, em última análise, acabam por influenciar a taxa de juro a aplicar pelos credores internacionais. Os juros aplicados a Portugal rondam os 7,3% nos dias que correm.
Gostaria que alguém me explicasse como vai ser isto possível. Por outras palavras, como é que o governo português, com estes indicadores, poderá a prazo evitar a entrada do FEE e do FMI em Portugal, coisa que os nossos governantes teimam em negar?
2011/01/10
Orgulho
Cavaco Silva foi ministro das finanças em 1980, presidente do Conselho Nacional do Plano em 1981, primeiro ministro de 1985 até 1995 e é presidente da república desde 2005. É, segundo se diz, o político actual com mais anos de vida pública no activo.
José Mourinho não precisou de tantos anos para mostrar serviço na sua área. Falando na sua língua, declarou-se hoje singelamente um "orgulhoso português", perante uma plateia internacional que premiou com um significativo galardão os resultados excepcionais que obteve graças às suas capacidades técnicas, de estratégia e de liderança da sua equipa.
Ao dizer-se "orgulhosamente português" Mourinho tem consciência de que nos revemos (eu revejo-me!) nos seus êxitos e neles encontramos um elemento mobilizador.
Cavaco não tem, na sua área e ao seu nível de actuação, resultados de que se possa vangloriar ao fim de tantos anos de exercício dos mais altos cargos públicos, a sua estratégia continua a ser sair de Boliqueime e a sua equipa é o que se sabe. Ao fim de todo este tempo, isolado e acossado, Cavaco consola-se com o seu auto-proclamado título de "reserva da nação" quando, na verdade, pôs a nação na reserva.
Dir-me-ão, treinador de futebol é treinador de futebol e político é político. Mas, por maioria de razão, deixo-vos então a pergunta: depois de tantos anos de actuação, ao mais alto nível, o que fica da acção de Cavaco que nos faça sentir "orgulhosamente portugueses" e que elementos mobilizadores contém? O que diz tudo isto dele? E de nós?
José Mourinho não precisou de tantos anos para mostrar serviço na sua área. Falando na sua língua, declarou-se hoje singelamente um "orgulhoso português", perante uma plateia internacional que premiou com um significativo galardão os resultados excepcionais que obteve graças às suas capacidades técnicas, de estratégia e de liderança da sua equipa.
Ao dizer-se "orgulhosamente português" Mourinho tem consciência de que nos revemos (eu revejo-me!) nos seus êxitos e neles encontramos um elemento mobilizador.
Cavaco não tem, na sua área e ao seu nível de actuação, resultados de que se possa vangloriar ao fim de tantos anos de exercício dos mais altos cargos públicos, a sua estratégia continua a ser sair de Boliqueime e a sua equipa é o que se sabe. Ao fim de todo este tempo, isolado e acossado, Cavaco consola-se com o seu auto-proclamado título de "reserva da nação" quando, na verdade, pôs a nação na reserva.
Dir-me-ão, treinador de futebol é treinador de futebol e político é político. Mas, por maioria de razão, deixo-vos então a pergunta: depois de tantos anos de actuação, ao mais alto nível, o que fica da acção de Cavaco que nos faça sentir "orgulhosamente portugueses" e que elementos mobilizadores contém? O que diz tudo isto dele? E de nós?
2011/01/06
Vale a pena
Vale a pena ler este artigo "The credit rating agencies are leading an assault on nations and peoples" de Martin Kettle e divulgá-lo.
Vale a pena ler este artigo.
Vale a pena recordar o papel que estas agências de rating tiveram e têm na geração da "crise".
Vale a pena questionar seriamente a existência destes anjos exterminadores, desta nova peste, destes modernos carrascos dos povos.
Vale certamente a pena recordá-lo ao escutarmos os comentários do candidato Cavaco sobre este tema.
Vale a pena recordá-lo enquanto estivermos a pagar as "reformas" e a especulação que o expediente da invocação da palavra "crise" tem suscitado e perguntar porque é que, tendo rosto e tendo nós que a pagar, a "crise" continua impune.
Vale a pena saír deste torpor em que nos encontramos.
Vale a pena insurgirmo-nos contra o fait accompli.
Vale a pena condenar o perdão implícito e corresponsável que o torpor automaticamente concede aos poderosos e o libelo fácil e leviano que muitos proferem contra os que sofrem, contra aqueles que por estarem habituados a sofrer, por lhes ouvirmos poucas ou nenhumas queixas, por estarem mais debilitados ou por terem medo, deixamos condenar sumariamente em resultado deste torpor.
A culpa de tudo isto não é deles. A culpa da "crise" é dos poderosos!
Vale a pena ler este artigo.
Vale a pena recordar o papel que estas agências de rating tiveram e têm na geração da "crise".
Vale a pena questionar seriamente a existência destes anjos exterminadores, desta nova peste, destes modernos carrascos dos povos.
Vale certamente a pena recordá-lo ao escutarmos os comentários do candidato Cavaco sobre este tema.
Vale a pena recordá-lo enquanto estivermos a pagar as "reformas" e a especulação que o expediente da invocação da palavra "crise" tem suscitado e perguntar porque é que, tendo rosto e tendo nós que a pagar, a "crise" continua impune.
Vale a pena saír deste torpor em que nos encontramos.
Vale a pena insurgirmo-nos contra o fait accompli.
Vale a pena condenar o perdão implícito e corresponsável que o torpor automaticamente concede aos poderosos e o libelo fácil e leviano que muitos proferem contra os que sofrem, contra aqueles que por estarem habituados a sofrer, por lhes ouvirmos poucas ou nenhumas queixas, por estarem mais debilitados ou por terem medo, deixamos condenar sumariamente em resultado deste torpor.
A culpa de tudo isto não é deles. A culpa da "crise" é dos poderosos!
2011/01/04
Saiu-nos a "fava"
No Conselho de Segurança da ONU, Portugal ficará com a pasta da Coreia do Norte...
2011/01/02
Isto já começa mal...
Agora que me preparava para escrever um "post" com as tradicionais saudações anuais, deparo-me com uma noticia que é, no mínimo, bizarra.
Leio que os EUA querem ter acesso aos dados biométricos e biográficos dos portugueses que constam do Arquivo de Investigação Criminal e Civil de Portugal. Trata-se de uma medida de "prevenção", no quadro do combate ao terrorismo, levada a cabo pelo governo americano, sendo que os referidos dados ficarão à guarda do FBI. Acrescenta a notícia, que o governo português já teria aceite o pedido, faltando apenas o acordo da Assembleia da República. Interessante.
Como estas coisas das relações internacionais entre estados implicam alguma reciprocidade, é de esperar que o governo português solicite igualmente os dados biométricos e biográficos dos cidadãos americanos que constem do Arquivo Criminal e Civil do FBI. Dessa forma, ficaríamos todos muito mais descansados.
Só falta saber a reacção dos criticos do WikiLeaks, os quais têm aqui uma excelente oportunidade de expressarem a sua indignação por mais esta devassa da privacidade alheia.
Leio que os EUA querem ter acesso aos dados biométricos e biográficos dos portugueses que constam do Arquivo de Investigação Criminal e Civil de Portugal. Trata-se de uma medida de "prevenção", no quadro do combate ao terrorismo, levada a cabo pelo governo americano, sendo que os referidos dados ficarão à guarda do FBI. Acrescenta a notícia, que o governo português já teria aceite o pedido, faltando apenas o acordo da Assembleia da República. Interessante.
Como estas coisas das relações internacionais entre estados implicam alguma reciprocidade, é de esperar que o governo português solicite igualmente os dados biométricos e biográficos dos cidadãos americanos que constem do Arquivo Criminal e Civil do FBI. Dessa forma, ficaríamos todos muito mais descansados.
Só falta saber a reacção dos criticos do WikiLeaks, os quais têm aqui uma excelente oportunidade de expressarem a sua indignação por mais esta devassa da privacidade alheia.
2010/12/30
With a little help from my friends
O candidato Cavaco Silva espalhou-se ao comprido no caso BPN. É um caso que causa um evidente estrago na sua imagem, por mais poeira que queira deitar-nos para os olhos. Tudo isto é agravado pelo facto de ele ainda não ter percebido que, mesmo que não existissem reparos formais a fazer sobre os investimentos levados a cabo (há quem já tenha manifestado fundada opinião contrária), o candidato não se vai livrar nunca da carga política que estas suas ligações carregam.
É a questão política que interessa e é nesse domínio, do manifesto potencial político explosivo desta questão, que o candidato se tem espalhado.
Demonstrando a sua proverbial inabilidade políticia, deu mesmo uma ajudinha ao PS ao levar o governo minoritário a reagir já hoje, com veemência e com toda a legitimidade, à sua declaração relativa à actual administração do BPN. Nada mau hein?!
É a questão política que interessa e é nesse domínio, do manifesto potencial político explosivo desta questão, que o candidato se tem espalhado.
Demonstrando a sua proverbial inabilidade políticia, deu mesmo uma ajudinha ao PS ao levar o governo minoritário a reagir já hoje, com veemência e com toda a legitimidade, à sua declaração relativa à actual administração do BPN. Nada mau hein?!
2010/12/29
As rãs
Uma rã é colocada num vaso de água fria. Naturalmente não tem reacção, está no seu meio. A água é então aquecida de modo suficientemente lento até ferver. Não se apercebendo do aumento da temperatura —demasiadamente lento para que seja detectada a elevação da temperatura— a rã não reage e morre cozida.
Os resultados desta conhecida experiência, produzida e reproduzida no século XIX, têm sido utilizados como metáfora para descrever a dificuldade que os humanos têm em reagir a certos fenómenos de evolução muito lenta, de cujos efeitos só se apercebem quando já é tarde.
Mais do que a experiência original e o pretenso desfecho fatal, interessam-me as experiências que apontam para a falsidade das conclusões a que chegaram os experimentadores do século XIX.
Em Portugal a metáfora da rã aplica-se na forma insidiosa como o estado da economia nos tem sido descrito. Lentamente temos sido levados a pensar que as coisas estão mal. E lentamente temos sido levados a pensar que somos nós os culpados. A situação descambou e agora somos levados a acreditar que estamos cozidos. mas, quem levantou o lume?
A manobra está clara nas justificações que são dadas para introduzir medidas brutais e pretensamente cegas e está clara em algumas das medidas tomadas. Lentamente tem-nos sido transmitida a ideia que os portugueses gastam demais. Dão-se gritos de alerta porque cada português deve 500 euros. Lentamente o caldo de cultura destas "verdades" vai aquecendo e as rãs portuguesas parecem mostrar sinais de que não se apercebem disso. Mas, repare-se como dos diversos escândalos financeiros, dos diversos casos de corrupção, do abuso legal que algumas das medidas impostas prenunciam, nada resulta. E como estes escândalos são cobertos. Repare-se como em clima de restrições pesadas, de aumento brutal dos preços, de dificuldades dos bancos em aceder ao mercado interbancário, de níveis inimagináveis de crédito malparado, vemos diversas campanhas de empresas financeiras ligadas à banca, na televisão e pelo telefone, que oferecem crédito... ao consumo!!
As perguntas impõem-se então: há ou não há crise? Quem a provocou? Quem a deve pagar?
Dizia eu atrás que cientistas contemporâneos concluíram, após reproduzirem as experiências originais do século XIX, que é falso que as rãs não reajam ao aquecimento da água. Ai não que não saltam cá para fora assim que ela atinge um determinado limite de temperatura! A menos que a fuga lhes seja barrada... Os experimentadores do século XIX estavam enganados, conduziram mal as suas experiências ou extraíram delas conclusões erradas.
Pois é esta a verdadeira metáfora. Em vez de pensarmos que os portugueses vão docilmente deixar-se cozer, devíamos talvez acreditar que vão reagir. Para surpresa de muitos, estou certo.
Bom ano novo!
Os resultados desta conhecida experiência, produzida e reproduzida no século XIX, têm sido utilizados como metáfora para descrever a dificuldade que os humanos têm em reagir a certos fenómenos de evolução muito lenta, de cujos efeitos só se apercebem quando já é tarde.
Mais do que a experiência original e o pretenso desfecho fatal, interessam-me as experiências que apontam para a falsidade das conclusões a que chegaram os experimentadores do século XIX.
Em Portugal a metáfora da rã aplica-se na forma insidiosa como o estado da economia nos tem sido descrito. Lentamente temos sido levados a pensar que as coisas estão mal. E lentamente temos sido levados a pensar que somos nós os culpados. A situação descambou e agora somos levados a acreditar que estamos cozidos. mas, quem levantou o lume?
A manobra está clara nas justificações que são dadas para introduzir medidas brutais e pretensamente cegas e está clara em algumas das medidas tomadas. Lentamente tem-nos sido transmitida a ideia que os portugueses gastam demais. Dão-se gritos de alerta porque cada português deve 500 euros. Lentamente o caldo de cultura destas "verdades" vai aquecendo e as rãs portuguesas parecem mostrar sinais de que não se apercebem disso. Mas, repare-se como dos diversos escândalos financeiros, dos diversos casos de corrupção, do abuso legal que algumas das medidas impostas prenunciam, nada resulta. E como estes escândalos são cobertos. Repare-se como em clima de restrições pesadas, de aumento brutal dos preços, de dificuldades dos bancos em aceder ao mercado interbancário, de níveis inimagináveis de crédito malparado, vemos diversas campanhas de empresas financeiras ligadas à banca, na televisão e pelo telefone, que oferecem crédito... ao consumo!!
As perguntas impõem-se então: há ou não há crise? Quem a provocou? Quem a deve pagar?
Dizia eu atrás que cientistas contemporâneos concluíram, após reproduzirem as experiências originais do século XIX, que é falso que as rãs não reajam ao aquecimento da água. Ai não que não saltam cá para fora assim que ela atinge um determinado limite de temperatura! A menos que a fuga lhes seja barrada... Os experimentadores do século XIX estavam enganados, conduziram mal as suas experiências ou extraíram delas conclusões erradas.
Pois é esta a verdadeira metáfora. Em vez de pensarmos que os portugueses vão docilmente deixar-se cozer, devíamos talvez acreditar que vão reagir. Para surpresa de muitos, estou certo.
Bom ano novo!
2010/12/23
Assimetrias
No mesmo dia em que o governo, magnânimo, anuncia um "aumento" de 10 euros (!?) no ordenado mínimo nacional, que passará a 485 euros em Janeiro, ficámos a saber que os gestores portugueses ganham, em média, 14 vezes mais. Ou seja, 6.800 euros.
Nada que não se saiba, mas é sempre "reconfortante" ouvir os discursos dos responsáveis da nação quando pedem sacrifícios e, ao mesmo tempo, se preparam para meter mais 500 milhões de euros no "buraco" do BPN.
Ora, como sabemos, o dinheiro não "estica". Para dar para uns, não pode dar para todos, não é verdade?
É Natal, nada parece mal...
Nada que não se saiba, mas é sempre "reconfortante" ouvir os discursos dos responsáveis da nação quando pedem sacrifícios e, ao mesmo tempo, se preparam para meter mais 500 milhões de euros no "buraco" do BPN.
Ora, como sabemos, o dinheiro não "estica". Para dar para uns, não pode dar para todos, não é verdade?
É Natal, nada parece mal...
2010/12/22
O homem sem qualidades
Se dúvidas houvesse, a prestação de Cavaco Silva no debate televisivo de ontem, frente a um candidato do PCP sem qualquer "histórico" nestas andanças, mostrou a verdadeira estrutura do actual presidente. Um homem sem discurso, atabalhoado e frágil, nitidamente incomodado com as acusações relativas à fraude do BPN ou a submissão portuguesa face aos ataques dos "mercados" internacionais. Não fora a pronta e cirúrgica intervenção da moderadora a "salvá-lo" das questões mais incómodas e Cavaco teria passado por um debacle televisivo, naquela que foi atá agora a sua pior prestação nos debates em curso. Nada que nos espante, num personagem sem verbo e sem Mundo, que se refugia num discurso economês supostamente superior, mas incapaz de prever a crise com a qual nos debatemos há, pelo menos, cinco anos (tantos quantos leva de magistratura). Uma desgraça, este presidente-candidato, no qual não imagino alguém poder querer votar. O pior é que as alternativas são más de mais para acreditar nelas e, perante tal panorama, não são de esperar resultados muito diferentes das últimas eleições presidenciais. Uma escolha impossível.
Já nem vale a pena manter as aparências
As expressões "mercados" ou "agências de rating" não passavam até há pouco tempo de conceitos distantes e abstractos para a maior parte dos leigos. Seriam referidas como se terá pronunciado, imagino eu, a palavra Papa durante séculos. O Papa, lá de longe, decretava, excomungava, decidia sobre a veracidade da mentira e a aldrabice da verdade e a malta, respeitosamente, flectia o joelho e acatava, com temor reverencial, os seus ditames.
Infelizmente para o novo papado, a informação não circula com a lentidão de outrora e os símbolos deste novo poder estão muito mais sujeitos ao escrutínio imediato dos povos. Hoje só quem insiste em viver nas estrelas ignorará a verdadeira natureza deste novo pontificado.
O filme "Inside Job", referido pelo Rui Mota aqui, traça um retrato implacável dos "mercados". As agências de "rating" não passam, quanto a mim, de novos piratas. Os pontífices desta nova religião, diz quem sabe, deixariam os dissolutos Bórgias e Medicis corados de vergonha... ou roídos de inveja. Os processos, a crueldade e a discricionariedade destes novos pontífices fariam empalidecer Gregório IX.
E, contudo, as nações dobram-se hoje perante os papas desta nova religião e inquietam-se perante a possibilidade de serem excomungados por desrespeito a S. Mercado e S. Rating, os jovens santos, recentemente canonizados, mentores desta nova igreja. Teme-se a bula, tenta-se comprar as indulgências a juro favorável.
A submissão a este novo papado ilegítimo e imoral surpreende. Surpreende, por exemplo, a forma desavergonhada como um representante do Ministério das Finanças de Portugal, representante de um governo legitimado pelo veredicto do povo, declara, de forma submissa e reactiva, respondendo directamente a uma ameaça de um agente privado de um poder ilegítimo: "Reitera-se que tudo se fará no sentido de contrariar os riscos que estão na base do anúncio da análise por parte da agência Moody’s e isso reflectir-se-á, confiamos, na decisão resultante dessa análise durante o primeiro trimestre de 2011."
"Tudo se fará"... Prostrados "confiamos..." É, portanto, uma questão de fé. Pornocracia II.
Infelizmente para o novo papado, a informação não circula com a lentidão de outrora e os símbolos deste novo poder estão muito mais sujeitos ao escrutínio imediato dos povos. Hoje só quem insiste em viver nas estrelas ignorará a verdadeira natureza deste novo pontificado.
O filme "Inside Job", referido pelo Rui Mota aqui, traça um retrato implacável dos "mercados". As agências de "rating" não passam, quanto a mim, de novos piratas. Os pontífices desta nova religião, diz quem sabe, deixariam os dissolutos Bórgias e Medicis corados de vergonha... ou roídos de inveja. Os processos, a crueldade e a discricionariedade destes novos pontífices fariam empalidecer Gregório IX.
E, contudo, as nações dobram-se hoje perante os papas desta nova religião e inquietam-se perante a possibilidade de serem excomungados por desrespeito a S. Mercado e S. Rating, os jovens santos, recentemente canonizados, mentores desta nova igreja. Teme-se a bula, tenta-se comprar as indulgências a juro favorável.
A submissão a este novo papado ilegítimo e imoral surpreende. Surpreende, por exemplo, a forma desavergonhada como um representante do Ministério das Finanças de Portugal, representante de um governo legitimado pelo veredicto do povo, declara, de forma submissa e reactiva, respondendo directamente a uma ameaça de um agente privado de um poder ilegítimo: "Reitera-se que tudo se fará no sentido de contrariar os riscos que estão na base do anúncio da análise por parte da agência Moody’s e isso reflectir-se-á, confiamos, na decisão resultante dessa análise durante o primeiro trimestre de 2011."
"Tudo se fará"... Prostrados "confiamos..." É, portanto, uma questão de fé. Pornocracia II.
2010/12/19
Os pobres que se cuidem...
Agora que os debates televisivos vão adiantados, começa a ser claro qual o alvo principal dos candidatos nestes tempos de penúria. Na época do ano onde, por tradição, a caridadezinha volta sempre com amor, os políticos presidenciáveis já encontraram o votante potencial perfeito: aqueles que - por desespero - mais crêem no Messias. Os pobres que se cuidem, pois a caça ao voto não olhará a meios...
2010/12/16
O holocausto
"Aumentar a competitividade da economia portuguesa" significa para o governo, para os patrões e para a UGT, sacrificar e tornar ainda mais precária a vida dos trabalhadores. Os gordos vão continuar gordos e sorridentes, o resto do pessoal que ande aos caixotes ou permaneça na rua, despedido, à frente das empresas, encerradas à má fila e com impunidade, na esperança que tenha sobrado um vago sentimento de justiça na sociedade portuguesa. Poder despedir desta forma era certamente uma "deficiência" da legislação laboral actual que urgia corrigir...
A falta de vergonha é tanta que as medidas são adiantadas por uma criatura chamada António Saraiva que é presidente não sei de que agremiação privada, antes de serem formalmente anunciadas pelo governo. Ninguém o responsabiliza por esta óbvia quebra de protocolo. Tudo parece normal. Triunfante, Saraiva vai continuar a sorrir alvar, gordo e reluzente como um porco.
O que, no entanto, me causa maior angústia é o facto de não perceber o que querem fazer os portugueses perante todo este calvário. As imagens de trabalhadores à porta das empresas encerradas, da miséria crescente, do desespero dos desempregados passam nos ecrãs. Passam sem que se pareça esboçar sequer uma reacção. Cresce o número de gente que procura nos caixotes do lixo a sobrevivência, dizem-nos e vamos nós vendo por aí. Mas, a sociedade portuguesa arfa, coitada, de cansaço.
Um clássico da banda desenhada "Maus" de Art Spigelman conta a história dos judeus durante o holocausto, através de personagens animais. Uma espécie de mega-fábula, à La Fontaine, tingida de sangue e dor. Os judeus são ratos. Relembro uma conversa entre um rato-judeu, sobrevivente do holocausto, e um outro, seu filho, determinado em recuperar as recordações do calvário do pai. Este descreve ao rato-filho o modo como os judeus eram queimados perante a vista de todos. "A gordura que ia correndo dos corpos queimados, eles (os alemães) recuperavam-na e voltavam a deitá-la por cima desses corpos para que queimassem melhor."
"Isto ultrapassa-me", confessa o filho, "porque é que os judeus não tentaram pelo menos esboçar uma resistência". Responde o pai: "Não era tão fácil como possas imaginar. Estavam todos tão esfomeados, tinham tanto medo e estavam tão cansados. Até mesmo o que se desenrolava perante os seus próprios olhos, nem nisso eles acreditavam."
A falta de vergonha é tanta que as medidas são adiantadas por uma criatura chamada António Saraiva que é presidente não sei de que agremiação privada, antes de serem formalmente anunciadas pelo governo. Ninguém o responsabiliza por esta óbvia quebra de protocolo. Tudo parece normal. Triunfante, Saraiva vai continuar a sorrir alvar, gordo e reluzente como um porco.
O que, no entanto, me causa maior angústia é o facto de não perceber o que querem fazer os portugueses perante todo este calvário. As imagens de trabalhadores à porta das empresas encerradas, da miséria crescente, do desespero dos desempregados passam nos ecrãs. Passam sem que se pareça esboçar sequer uma reacção. Cresce o número de gente que procura nos caixotes do lixo a sobrevivência, dizem-nos e vamos nós vendo por aí. Mas, a sociedade portuguesa arfa, coitada, de cansaço.
Um clássico da banda desenhada "Maus" de Art Spigelman conta a história dos judeus durante o holocausto, através de personagens animais. Uma espécie de mega-fábula, à La Fontaine, tingida de sangue e dor. Os judeus são ratos. Relembro uma conversa entre um rato-judeu, sobrevivente do holocausto, e um outro, seu filho, determinado em recuperar as recordações do calvário do pai. Este descreve ao rato-filho o modo como os judeus eram queimados perante a vista de todos. "A gordura que ia correndo dos corpos queimados, eles (os alemães) recuperavam-na e voltavam a deitá-la por cima desses corpos para que queimassem melhor."
"Isto ultrapassa-me", confessa o filho, "porque é que os judeus não tentaram pelo menos esboçar uma resistência". Responde o pai: "Não era tão fácil como possas imaginar. Estavam todos tão esfomeados, tinham tanto medo e estavam tão cansados. Até mesmo o que se desenrolava perante os seus próprios olhos, nem nisso eles acreditavam."
A grande cabala
Trata-se obviamente de uma grande "confusão" entre voos da CIA e voos de repatriamento de prisioneiros, como "explicou" hoje Luís Amado. Ninguém acredita que o governo português tenha dado autorização FORMAL para os voos da CIA através das Lajes. A autorização, a ser dada, só pode ter sido INFORMAL. Esta é a chave para interpretar as declarações "formais" de Luís Amado, que não podem ser refutadas, ainda que os telegramas disponibilizados pela Wikileaks provem que o governo português esteve disponível para autorizar os voos. Fecha-se assim mais um capítulo obscuro da política portuguesa, pródiga em explicações cabalísticas que tudo explicam e nada esclarecem.
2010/12/15
A mãe de todas as fraudes
Inicia-se hoje o julgamento do caso BPN.
Convém lembrar alguns números: para evitar uma crise sistémica na banca portuguesa, o estado injectou (até agora) no BPN, a módica quantia de 4.600 milhões de euros. O banco foi, entretanto, nacionalizado e posto à venda pelo valor de licitação de 180 milhões. Para além desta verba, os eventuais interessados (até agora não apareceu nenhum) terão de investir 200 milhões extra para resolver problemas urgentes de tesouraria. Só em dívidas aos clientes são 400 milhões. Acresce que a CGD já comprou 2.000 milhões da dívida. Sim, leu bem. Trata-se da maior fraude da história da banca em Portugal. Esta é uma das razões da nossa dívida pública, que não pára de aumentar e explica os aumentos de impostos do OE para 2011. Esta dívida, que não foi contraída pelos contribuintes, vai ter de ser paga e alguém terá de o fazer. Imagine quem...
Convém lembrar alguns números: para evitar uma crise sistémica na banca portuguesa, o estado injectou (até agora) no BPN, a módica quantia de 4.600 milhões de euros. O banco foi, entretanto, nacionalizado e posto à venda pelo valor de licitação de 180 milhões. Para além desta verba, os eventuais interessados (até agora não apareceu nenhum) terão de investir 200 milhões extra para resolver problemas urgentes de tesouraria. Só em dívidas aos clientes são 400 milhões. Acresce que a CGD já comprou 2.000 milhões da dívida. Sim, leu bem. Trata-se da maior fraude da história da banca em Portugal. Esta é uma das razões da nossa dívida pública, que não pára de aumentar e explica os aumentos de impostos do OE para 2011. Esta dívida, que não foi contraída pelos contribuintes, vai ter de ser paga e alguém terá de o fazer. Imagine quem...
2010/12/14
Wikileaks, como, onde, porquê
Veja como é feito, quem o faz e porquê. Juian Assange explica. Leia a petição para libertar Assange aqui.
Serviço público
O Público iniciou no dia 22 de Novembro a publicação do trabalho em filme de Michel Giacometti. "Povo que Canta" é o título da série de 12 volumes (livros, cd e dvd), contendo os 37 episódios da série emitida entre 1970-1974 pela RTP e dois outros volumes com material extra. Esta edição foi coordenada pelo antropólogo Paulo Lima.Ninguém que se interesse por música neste país pode prescindir desta série. Este "Povo que Canta" é um trabalho que não vai certamente deixar ninguém indiferente. Já suscita, e suscitará certamente ainda mais no futuro, muitas interrogações sobre uma vasta gama de questões.
Um verdadeiro serviço público este que o jornal Público faz. Veja mais informação sobre o "Povo que Canta" aqui.
2010/12/13
Morente
O Mundo Flamenco está hoje mais pobre. Morreu Enrique Morente, "cantaor" maior da arte "jonda".
Para quem, como nós, teve o privilégio de vê-lo cantar - a última vez há menos de três meses, durante o recente Festival de Flamenco de Lisboa - o desaparecimento do "maestro", representa o fim de um ciclo de ouro, que conheceu nomes como Camarón de la Isla e Antonio Gadges. A arte "jonda", antiga de séculos, sobreviverá a esta perda, da mesma maneira que sobreviveu à morte de nomes que fizeram a história do Flamenco. Outros se seguirão, certamente, mas nenhum como Morente.
Resta-nos os discos. Vinte e dois no total, numa carreira que teve início em 1967 e que se prolongou até 2008, ano da sua última gravação. Para os amantes da "arte", os títulos "Homenaje a D. Antonio Chacon" (guitarra Pepe Habichuela), "Morente - Sabicas " (guitarra Sabicas), "Omega" com Lagartija Nick (dedicado a Lorca e Leonard Cohen) e "El pequeño reloj" (este com a participação da sua filha Estrella Morente), são indispensáveis. A ouvir com atenção. Arte Flamenca em estado puro. Um clássico.
Para quem, como nós, teve o privilégio de vê-lo cantar - a última vez há menos de três meses, durante o recente Festival de Flamenco de Lisboa - o desaparecimento do "maestro", representa o fim de um ciclo de ouro, que conheceu nomes como Camarón de la Isla e Antonio Gadges. A arte "jonda", antiga de séculos, sobreviverá a esta perda, da mesma maneira que sobreviveu à morte de nomes que fizeram a história do Flamenco. Outros se seguirão, certamente, mas nenhum como Morente.
Resta-nos os discos. Vinte e dois no total, numa carreira que teve início em 1967 e que se prolongou até 2008, ano da sua última gravação. Para os amantes da "arte", os títulos "Homenaje a D. Antonio Chacon" (guitarra Pepe Habichuela), "Morente - Sabicas " (guitarra Sabicas), "Omega" com Lagartija Nick (dedicado a Lorca e Leonard Cohen) e "El pequeño reloj" (este com a participação da sua filha Estrella Morente), são indispensáveis. A ouvir com atenção. Arte Flamenca em estado puro. Um clássico.
Quem tem medo da Wikileaks?
Era inevitável. Mais cedo ou mais tarde, as revelações da Wikileaks teriam de "chegar" a Portugal. Foi hoje e faz manchete nos principais orgãos de informação. Nada que nos deva surpreender. Todos os países e governantes têm "telhados de vidro" e o sigilo das chancelarias é, na maior parte das vezes, um eufemismo para a hipocrisia diplomática. Curiosos não são os adjectivos usados pelos serviços da embaixada que descrevem Sócrates como "carismático", Cavaco como "vingativo", ou Alegre como "dinossáurio de esquerda". Curiosas, mesmo, são as notícias que revelam a dupla faceta do presidente do BCP (Carlos Santos Ferreira) e do papel do banco português no conflito Irão-EUA, ou (mas isso já suspeitávamos) as dúbias afirmações de José Sócrates, a propósito da passagem de prisioneiros da CIA pela base das Lajes.
Não faltarão as habituais reacções - de apoio e condenação - às últimas revelações da agência de Julian Assange. Desta vez não são os EUA os visados, ainda que, indirectamente, a política americana esteja, mais uma vez, implicada.
Trata-se de algo mais grave: a ingerência de um banco português na política de um país estrangeiro; e as mentiras do primeiro-ministro no famigerado caso de voos para Guantánamo.
São estas notícias verdadeiras? Tudo indica que sim. Trata-se de textos, extraídos de e-mails, enviados da embaixada americana em Lisboa. Porque haveria de ser mentira?
São estas revelações de interesse público? Certamente que sim.
Devem ser tais textos publicados? Se os textos são verdadeiros e foram validados por jornais de referência (neste caso, o "El Pais") é porque são de interesse jornalístico.
A liberdade de informação é um direito adquirido das democracias avançadas e constitui um pilar essencial - quiçá o mais importante - da liberdade de opinião. Pesem algumas críticas que possam ser feitas aos conteúdos e ao "timing" das revelações, entretanto vindas a lume, é sempre preferível saber de mais do que saber de menos. Aos cidadãos, em geral, de extrair as suas conclusões e agirem em consequência. Contra a difamação e os infractores existem sempre os tribunais. Estas devem ser as regras do jogo.
É preferível uma sociedade onde possam existir "wikileaks" do que uma sociedade que os proíba. Esta é a minha convicção mais profunda e bater-me-ei por ela. E você?
Não faltarão as habituais reacções - de apoio e condenação - às últimas revelações da agência de Julian Assange. Desta vez não são os EUA os visados, ainda que, indirectamente, a política americana esteja, mais uma vez, implicada.
Trata-se de algo mais grave: a ingerência de um banco português na política de um país estrangeiro; e as mentiras do primeiro-ministro no famigerado caso de voos para Guantánamo.
São estas notícias verdadeiras? Tudo indica que sim. Trata-se de textos, extraídos de e-mails, enviados da embaixada americana em Lisboa. Porque haveria de ser mentira?
São estas revelações de interesse público? Certamente que sim.
Devem ser tais textos publicados? Se os textos são verdadeiros e foram validados por jornais de referência (neste caso, o "El Pais") é porque são de interesse jornalístico.
A liberdade de informação é um direito adquirido das democracias avançadas e constitui um pilar essencial - quiçá o mais importante - da liberdade de opinião. Pesem algumas críticas que possam ser feitas aos conteúdos e ao "timing" das revelações, entretanto vindas a lume, é sempre preferível saber de mais do que saber de menos. Aos cidadãos, em geral, de extrair as suas conclusões e agirem em consequência. Contra a difamação e os infractores existem sempre os tribunais. Estas devem ser as regras do jogo.
É preferível uma sociedade onde possam existir "wikileaks" do que uma sociedade que os proíba. Esta é a minha convicção mais profunda e bater-me-ei por ela. E você?
2010/12/11
Aplauso para César!
A iniciativa de Carlos César pareceu-me desde o início um iceberg com uma pequena ponta apenas visível, que ameaçava causar inevitáveis estragos em diversas frentes. As opiniões começaram por apontar para os estragos que causaria no próprio César, homem politicamente ambicioso, Carlos César iria ser a primeira vítima da sua iniciativa. O coro de críticas (onde sobressai um PR entalado) apontava o demérito, o carácter demagógico e populista ou o aparente desrespeito pelos princípios da República.
Olhando para o cacos que se começavam lentamente a juntar e para a reacção extremamente nervosa de gente que considero, inequivocamente, inimiga do povo português, pensei para com os meus botões que haveria certamente algo mais a dizer sobre tudo isto. Algo mais do que as primeiras impressões que se vão ouvindo.
Hoje o Público traz uma análise de São José Almeida, sob o título "A alternativa de César", que aconselho todos vivamente a ler e que, na minha opinião, resume esta ideia de que a iniciativa de Carlos César é virtuosa, ao contrário da crítica feita por uns de forma quiçá apressada, ou, por outros, à esquerda e à direita, já conscientes do estrago que ela causou e das consequências sérias que vai ter no futuro político do País.
"Afinal, há alternativa e Carlos César provou-o. O presidente do Governo Regional dos Açores mostrou como é possível encontrar soluções para a crise económica que não passam exclusivamente pelo sacrifício das pessoas e do seu nível de vida. Como é possível encontrar saídas sem que isso ponha em causa os pressupostos políticos e ideológicos que devem mover a esquerda. Como é possível fazer um Orçamento mais parco sem pôr em causa princípios ético-políticos que devem mover os partidos socialistas, nomeadamente o princípio de que primeiro está o bem-estar das pessoas e o respeito pela dignidade humana."
Não posso estar mais de acordo com o que São José Almeida escreveu. Acrescentaria talvez apenas três pequenas notas.
Em primeiro lugar, para sublinhar a ideia de que se o OE2011 é mau, não pelas razões apontadas pela generalidade dos seus críticos, mas porque revela ter sido feito em cima do joelho, para acudir a problemas conjunturais. Havia e há alternativas possíveis à leviandade. "Trata-se de uma questão de opções e prioridades," como sublinhou Carlos César a propósito da iniciativa açoreana. Está provado!
Em primeiro lugar, para sublinhar a ideia de que se o OE2011 é mau, não pelas razões apontadas pela generalidade dos seus críticos, mas porque revela ter sido feito em cima do joelho, para acudir a problemas conjunturais. Havia e há alternativas possíveis à leviandade. "Trata-se de uma questão de opções e prioridades," como sublinhou Carlos César a propósito da iniciativa açoreana. Está provado!
Em segundo lugar, o PSD que apoiou este OE por dever patriótico e que colhe por isso dividendos políticos, na prática, mais não fez do que dar luz verde a um instrumento leviano e mal feito. Ao deixar passar o OE o PSD revelou que, nas mesmas condições, faria exactamente as mesmas opções levianas, que este governo fez. O PSD (para quem imagina que poderia ser alternativa política a este PS) aprendeu na mesma cartilha e dele não se poderia esperar uma política diferente. Tem de pagar a factura política!
Como nota de rodapé, vai um aplauso para a reacção de Carlos César à crítica de Alberto João Jardim. É digno de registo ouvi-lo dizer, com todas as letras, que o presidente do Governo Regional da Madeira "não tem vergonha nenhuma!" É que não tem mesmo, mas ninguém lhe diz. Talvez Jardim venha a ter de meter a viola no saco mais cedo do que pensa...
2010/12/08
Estado (a)Social
Só cadáveres eram quatro. Descobertos num "lar" da terceira idade, onde a mensalidade podia chegar aos 700 euros. Uma ninharia, para uma senhoria que, mais do que o alvará, prezava o "amor" com que tratava as suas utentes. O facto de terem morrido quatro pessoas ao mesmo tempo deve-se, certamente, a uma coincidência e às avançadas idades das falecidas. Todos nós temos de "partir" um dia, declarou a afável senhora à comunicação social.
De acordo com o mais alto "responsável" (gosto desta designação) da Segurança Social, o "lar" já estava identificado pelos serviços há três meses por não cumprir as exigências impostas por lei. Na altura foi pedido à dona do "lar" para encerrá-lo. De livre vontade. De livre vontade? Devem estar a gozar connosco.
Quando oiço falar esta gente "responsável" fico sempre mais descansado. O que seria se eles fossem irresponsáveis?...
De acordo com o mais alto "responsável" (gosto desta designação) da Segurança Social, o "lar" já estava identificado pelos serviços há três meses por não cumprir as exigências impostas por lei. Na altura foi pedido à dona do "lar" para encerrá-lo. De livre vontade. De livre vontade? Devem estar a gozar connosco.
Quando oiço falar esta gente "responsável" fico sempre mais descansado. O que seria se eles fossem irresponsáveis?...
2010/12/07
A mulher de César
Júlio César proferiu a célebre frase "à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta." A diplomacia (e não só!) tem vivido sempre à sombra deste princípio. É a área da actividade humana onde os vestígios da barbárie mais se manifestam e é uma área onde a democracia nunca entrou. Com mais ou menos punhos de renda, em ambientes mais ou menos perfumados, mais à direita ou mais à esquerda, a diplomacia é um antro de cínicos, amorais. E são todos assim, como lembrava alguém ontem, muito candidamente, num programa da CNN sobre o tema do Wikileaks: do Vaticano à China, dos EUA à Venezuela.
Muitos dos que criticam a revelação dos "telegramas" americanos referem, como que a querer encerrar o argumento, que a única "vítima" destas revelações é a diplomacia norte-americana. Não foram revelados segredos dos Chineses ou dos Norte-Coreanos. Se assim fosse ainda vá lá...
É divertidíssimo ouvir estes defensores da institucionalização do cinismo e da mentira como ferramenta política. Até um surpreendentemente reaccionário e míope Miguel Sousa Tavares enveredou por esta via, ao criticar um artigo certeiro do Rui Tavares de ontem no Público sobre esta matéria.
Ora, a verdade é que o que está em causa neste caso não é, sobretudo, a bondade dos meios usados pelas diplomacias dos vários países, mas sim a sua utilização por quem prega moral a toda a hora e se arma em campeão da defesa da virtude mundial. Os EUA são as principais vítimas de todas estas revelações (veremos se assim é...)? Pois é bem feita, porque deveriam ser um exemplo. E, ao contrário do que disse o tirano Romano, à mulher de César não deve bastar parecer ser honesta. É preciso ser mesmo honesta! É este o problema. À "comunidade internacional" também não basta parecer honesta, é necessário que seja honesta. Só isso torna a "comunidade internacional" uma entidade legítima.
O que as revelações do Wikileaks parecem vir demonstrar —independentemente da própria bondade dos seus intentos...— é que os EUA parecem honestos, mas não são. Não estão sozinhos, claro, mas como querem muito parecer o que não são, ficaram com a careca também muito mais à mostra. O grito que se ouve nestas revelações é pela transparência e pela honestidade num sector que tresanda a opacidade e trafulhice. Não seria o facto de revelar telegramas da Coreia do Norte ou do Irão que tornaria as revelações da Wikileaks mais ou menos legítima. Estes países não são exemplos de virtude.
A conclusão é simples: a democracia, a transparência e a ética têm de chegar à diplomacia e às relações entre estados. Tem de chegar ao fim o tempo da diplomacia feita de sociedades secretas, em autogestão e em formato tablóide.
Muitos dos que criticam a revelação dos "telegramas" americanos referem, como que a querer encerrar o argumento, que a única "vítima" destas revelações é a diplomacia norte-americana. Não foram revelados segredos dos Chineses ou dos Norte-Coreanos. Se assim fosse ainda vá lá...
É divertidíssimo ouvir estes defensores da institucionalização do cinismo e da mentira como ferramenta política. Até um surpreendentemente reaccionário e míope Miguel Sousa Tavares enveredou por esta via, ao criticar um artigo certeiro do Rui Tavares de ontem no Público sobre esta matéria.
Ora, a verdade é que o que está em causa neste caso não é, sobretudo, a bondade dos meios usados pelas diplomacias dos vários países, mas sim a sua utilização por quem prega moral a toda a hora e se arma em campeão da defesa da virtude mundial. Os EUA são as principais vítimas de todas estas revelações (veremos se assim é...)? Pois é bem feita, porque deveriam ser um exemplo. E, ao contrário do que disse o tirano Romano, à mulher de César não deve bastar parecer ser honesta. É preciso ser mesmo honesta! É este o problema. À "comunidade internacional" também não basta parecer honesta, é necessário que seja honesta. Só isso torna a "comunidade internacional" uma entidade legítima.
O que as revelações do Wikileaks parecem vir demonstrar —independentemente da própria bondade dos seus intentos...— é que os EUA parecem honestos, mas não são. Não estão sozinhos, claro, mas como querem muito parecer o que não são, ficaram com a careca também muito mais à mostra. O grito que se ouve nestas revelações é pela transparência e pela honestidade num sector que tresanda a opacidade e trafulhice. Não seria o facto de revelar telegramas da Coreia do Norte ou do Irão que tornaria as revelações da Wikileaks mais ou menos legítima. Estes países não são exemplos de virtude.
A conclusão é simples: a democracia, a transparência e a ética têm de chegar à diplomacia e às relações entre estados. Tem de chegar ao fim o tempo da diplomacia feita de sociedades secretas, em autogestão e em formato tablóide.
Preocupados a valer
Aparentemente, os bancos e as autoridades ficaram preocupados com a sugestão feita pelo ex-futebolista Eric Cantona. Muitos a discutem, mas poucos falam das razões que levaram Cantona a fazer este apelo. Diz ele, já agora lembremo-lo aqui também: "Creio que não nos podemos sentir verdadeiramente felizes ao ver tanta miséria que nos rodeia."
Em vez das óbvias fragilidades da sugestão do Cantona, sublinhadas por uns, e dos anátemas sobre ele lançados por outros, era, sei lá, giro que se discutisse a pergunta substantiva que o ex-jogador fez e o levou a pronunciar-se sobre esta questão. Sei lá, é uma sugestão...
Podemos, de facto, ser verdadeiramente felizes com tanta miséria à nossa volta? Responda quem souber.
Os bancos estão preocupados? É pouco para quem faz de preocupar os outros o seu negócio. Falta ainda ficarem, eles, verdadeiramente preocupados.
Em vez das óbvias fragilidades da sugestão do Cantona, sublinhadas por uns, e dos anátemas sobre ele lançados por outros, era, sei lá, giro que se discutisse a pergunta substantiva que o ex-jogador fez e o levou a pronunciar-se sobre esta questão. Sei lá, é uma sugestão...
Podemos, de facto, ser verdadeiramente felizes com tanta miséria à nossa volta? Responda quem souber.
Os bancos estão preocupados? É pouco para quem faz de preocupar os outros o seu negócio. Falta ainda ficarem, eles, verdadeiramente preocupados.
Subscrever:
Comentários (Atom)