2009/10/06
"Letra M", um texto sobre a música
Um texto sobre a nova produção do Teatro da Rainha para o qual fiz a música. Assistam ao espetáculo se puderem. Mais informação no site do Teatro da Rainha.
2009/10/04
Mercedes Sosa
Com a idade de 74 anos, faleceu ontem Mercedes Sosa, uma das mais admiradas e prestigiadas cantoras sul-americanas da actualidade.Vi-a, pela primeira vez, na década de setenta, quando a América Latina vivia a ferro e fogo sob regimes militares ditatoriais.
A cantora tinha acabado de exilar-se na Europa, onde viveu nos anos oitenta antes de regressar à Argentina. Podia regressar, mas não podia cantar e essa foi a razão porque escolheu Paris e, posteriormente, Madrid, para viver.
Nessa época, Mercedes deslocava-se frequentemente à Holanda, onde existia uma grande comunidade de exilados argentinos e outros sul-americanos. Recordo a sua estreia absoluta, no "Paradiso" de Amsterdão, onde actuou sózinha, tendo como único instrumento um enorme tambor com que se acompanhava em palco. Uma voz e o ritmo das batidas no tambor. Uma experiência inolvidável, que marcou para sempre a minha relação com a música sul-americana . Voltaria a vê-la, anos mais tarde, na cidade de Utrecht, a solo e num concerto dos Inti-Illimani (Chile) de quem fez a primeira parte.
Dos concertos, lembro-me do apresentador, também ele um chileno exilado (Luís Araveña) com quem partilhei muita música e que me ajudou a compreender a alma da "la negra más negra do continente americano". O Luis, seria, anos mais tarde, convidado para apresentar e participar numa homenagem a José Afonso que organizámos em Amsterdão.
Agora, "La Negra" morreu. Mas a obra discográfica ficou e está ai para quem quiser confirmar a sua história que já é parte da história da canção argentina e mundial.
2009/10/01
Tango certificado
O Tango, em tanto que género musical, foi hoje considerado pela UNESCO património intangível da humanidade.
Uma notícia encorajadora para a candidatura do Fado a certificação semelhante, decisão que será conhecida no primeiro semestre do próximo ano. Independentemente do resultado, o mais importante é o trabalho de levantamento e classificação que vem sendo feito pela comissão portuguesa criada para o efeito, a qual reuniu um espólio documental e de gravações inéditas, até há bem pouco tempo completamente desconhecidas. E isso, em si, é bem mais importante.
Uma notícia encorajadora para a candidatura do Fado a certificação semelhante, decisão que será conhecida no primeiro semestre do próximo ano. Independentemente do resultado, o mais importante é o trabalho de levantamento e classificação que vem sendo feito pela comissão portuguesa criada para o efeito, a qual reuniu um espólio documental e de gravações inéditas, até há bem pouco tempo completamente desconhecidas. E isso, em si, é bem mais importante.
The Yellow Submarine
Não é bem o contrato da compra dos submarinos que desapareceu. O que desapareceu é o contrato de financiamento. As contrapartidas. Qualquer coisa como 30 milhões de euros. Estão a perceber?
2009/09/30
Novos agentes de estabilidade
Os argumentos invocados pelo PR e pelo PS para a instauração deste conflito, se forem analisados com cuidado, indicam que ambas as partes têm razão. O PR reclama que houve uma manobra para o "encostar" ao PSD, uma iniciativa que parece de facto estranha vinda da parte do partido do governo. Mas, a verdade é que o PR andou feito ventríloquo (cf. este meu post) soprando deixas à líder da oposição e a figuras do seu universo para fazer chegar o recado ao destinatário. Lembram-se concerteza do período do "realismo cavaquista", quando se falava da fantasia dos números, do governar para a estatística, etc. E lembram-se certamente que já na altura o PM se insurgia contra a "política do recado".
O que mais aflige em tudo isto é o nível a que chegou o confronto político, a noção algo transviada que os mais altos dignitários portugueses têm do primado de Portugal sobre os seus interesses e agendas e os meios de que se socorrem para prosseguir este confronto.
Todo esta "rixa" -- a sugerir noites brancas transformadas em noites rosa...-- prova bem que as alternativas que se nos colocam são falsas, ninguém parece estar à altura das exigências e o que precisamos é, de facto, de um novo figurino para a democracia portuguesa porque este, está provado, fede. As eleições de domingo passado já não contam.
Temos de inventar um regime novo.
Não se pode invocar constatemente a estabilidade e continuar a funcionar num quadro político que só produz instabilidade. E não se pode usar a palavra estabilidade quando o que se pretende é apenas entalar o adversário político. Os portugueses merecem mais e sabem disso!
Procuram-se novos agentes de estabilidade.
2009/09/29
2009/09/28
O que esta votação quis dizer
A maioria absoluta do PS nas eleições de 2005 foi alcançada porque uma maioria absoluta de portugueses queria, de facto, reformas em muitas áreas da nossa vida colectiva. Estou certo de que mesmo gente que votou nos outros partidos teria igual desejo. Há um desígnio comum, difuso, mas muito amplo e real.
O PS pareceu a muitos de nós capaz de, sob o comando de José Sócrates, levar por diante este projecto. O discurso de tomada de posse do primeiro ministro foi um primeiro sinal de que as expectativas geradas iriam encontrar eco nas políticas do governo. O governo PS teve todas as condições para fazer aquilo para que os seus apoiantes o mandataram. A maioria absoluta foi a expressão deste impulso colectivo, empolgante e necessário.
O desfecho deste episódio não foi, como sabemos, o melhor...
O resultado das eleições de ontem foi uma clara demonstração de que 1) os eleitores continuam interessados nestas reformas e 2) os eleitores perceberam que aquela maioria absoluta infectou o PS.
O PS perdeu o mandato inequívoco que lhe foi conferido em 2005. O PS perdeu!
E terá novos dissabores se continuar a olhar para o umbigo e se se esquecer que o tombo de ontem não foi maior porque há uma percentagem significativa de gente, que lhe deu o voto em 2005, que ainda pensa --legitimamente, ou não, não interessa-- que não houve tempo para cumprir o programa e decidiu dar-lhe, por mais esta vez, o benefício da dúvida.
Privado dos ingénuos que lhe deram o voto em 2005 e de muitos qua ontem teimaram em acreditar ainda na possibilidade de cumprir o programa de 2005, o PS estaria hoje ao nível do CDS-PP.
Ontem, todos os partidos subiram. Todos, até mesmo, pasme-se!, o partido da inimaginavelmente inapta M. Ferreira Leite!. Até o MRPP subiu e vai passar a beneficiar dessa subida...
Só o PS desceu.
O que esta votação quis dizer foi a reafirmação da necessidade das reformas.
O que esta votação quis dizer é que os partidos vão ter de se entender e a solução a solo não funcionou, nem pode funcionar se prevalecerem dentro dos partidos, sejam quais forem, interesses egoistas.
O que esta votação quis dizer é que os eleitores estão mais atentos do que julgavam alguns políticos e observadores medíocres da coisa pública.
O que esta votação quis dizer é que as agendas políticas dos partidos são todas legítimas e são todas para ter em conta, para discutir e dissecar com seriedade, sem ambiguidades, sem manobras manhosas e abertamente.
O que esta votação quis dizer é que uma certa forma de fazer "política", cerzida, frequentemente, na calúnia, no desrespeito, no golpe baixo, na arrogância, na grosseria e no interesse mesquinho, acabou.
O que esta votação quis dizer é que não é possível continuar a deixar que se confunda o governo da Nação com associações de defesa de interesses corporativos, de classe, de actividade económica ou de outra qualquer natureza.
O que esta votação quis dizer é que os responsáveis políticos do país têm de se entender, abandonar este estilo trauliteiro de resolver os nossos problemas colectivos e aprender a respeitar os interesses dos diferentes sectores da sociedade, tentando conciliá-los para bem da sociedade no seu conjunto.
O que esta votação quis dizer é que não há sectores da sociedade portuguesa virtuosos por direito divino, enquanto outros são pecadores contumazes por acção do demónio.
O que esta votação quis dizer é que a ingovernabilidade começa nos próprios políticos que confundem serviço público com o servir-se do público.
Quanto a mim, foi uma nova era que se iniciou ontem. Quem não percebeu isso está condenado a um ocaso político rápido. Chamem-me optimista, mas o futuro apresenta-se agora mais promissor.
O PS pareceu a muitos de nós capaz de, sob o comando de José Sócrates, levar por diante este projecto. O discurso de tomada de posse do primeiro ministro foi um primeiro sinal de que as expectativas geradas iriam encontrar eco nas políticas do governo. O governo PS teve todas as condições para fazer aquilo para que os seus apoiantes o mandataram. A maioria absoluta foi a expressão deste impulso colectivo, empolgante e necessário.
O desfecho deste episódio não foi, como sabemos, o melhor...
O resultado das eleições de ontem foi uma clara demonstração de que 1) os eleitores continuam interessados nestas reformas e 2) os eleitores perceberam que aquela maioria absoluta infectou o PS.
O PS perdeu o mandato inequívoco que lhe foi conferido em 2005. O PS perdeu!
E terá novos dissabores se continuar a olhar para o umbigo e se se esquecer que o tombo de ontem não foi maior porque há uma percentagem significativa de gente, que lhe deu o voto em 2005, que ainda pensa --legitimamente, ou não, não interessa-- que não houve tempo para cumprir o programa e decidiu dar-lhe, por mais esta vez, o benefício da dúvida.
Privado dos ingénuos que lhe deram o voto em 2005 e de muitos qua ontem teimaram em acreditar ainda na possibilidade de cumprir o programa de 2005, o PS estaria hoje ao nível do CDS-PP.
Ontem, todos os partidos subiram. Todos, até mesmo, pasme-se!, o partido da inimaginavelmente inapta M. Ferreira Leite!. Até o MRPP subiu e vai passar a beneficiar dessa subida...
Só o PS desceu.
O que esta votação quis dizer foi a reafirmação da necessidade das reformas.
O que esta votação quis dizer é que os partidos vão ter de se entender e a solução a solo não funcionou, nem pode funcionar se prevalecerem dentro dos partidos, sejam quais forem, interesses egoistas.
O que esta votação quis dizer é que os eleitores estão mais atentos do que julgavam alguns políticos e observadores medíocres da coisa pública.
O que esta votação quis dizer é que as agendas políticas dos partidos são todas legítimas e são todas para ter em conta, para discutir e dissecar com seriedade, sem ambiguidades, sem manobras manhosas e abertamente.
O que esta votação quis dizer é que uma certa forma de fazer "política", cerzida, frequentemente, na calúnia, no desrespeito, no golpe baixo, na arrogância, na grosseria e no interesse mesquinho, acabou.
O que esta votação quis dizer é que não é possível continuar a deixar que se confunda o governo da Nação com associações de defesa de interesses corporativos, de classe, de actividade económica ou de outra qualquer natureza.
O que esta votação quis dizer é que os responsáveis políticos do país têm de se entender, abandonar este estilo trauliteiro de resolver os nossos problemas colectivos e aprender a respeitar os interesses dos diferentes sectores da sociedade, tentando conciliá-los para bem da sociedade no seu conjunto.
O que esta votação quis dizer é que não há sectores da sociedade portuguesa virtuosos por direito divino, enquanto outros são pecadores contumazes por acção do demónio.
O que esta votação quis dizer é que a ingovernabilidade começa nos próprios políticos que confundem serviço público com o servir-se do público.
Quanto a mim, foi uma nova era que se iniciou ontem. Quem não percebeu isso está condenado a um ocaso político rápido. Chamem-me optimista, mas o futuro apresenta-se agora mais promissor.
Sacanas sem Lei
...é o título da última obra-prima de Tarantino, provavelmente o seu melhor filme à data. Optei por assistir à sua projecção enquanto aguardava pelos resultados eleitorais. Aventura magnífica, baseada numa ficção do autor, onde as citações, à história e personagens marcantes do cinema americano, são constantes. Para além do bom argumento (a good story, is a good story) realce para as magníficas interpretações de todos os actores, a excelente música - sempre soberba nos filmes de Tarantino - e a emoção (film is emotion) que, mais uma vez, é total.
Sem emoção, decorreram as eleições que, à excepção dos resultados do CDS, não provocaram grande "frisson". Como se esperava, o PS (ganhando) perdeu a maioria; o PSD (perdendo) nunca conseguiu arrancar da "pole position"; o BE mantendo o seu crescimento sustentado e a CDU que, mesmo descendo duas posições, subiu em votos e em deputados. Ou seja, perderam os partidos do "bloco central" e ganharam os partidos mais à direita e à esquerda do hemiciclo. Também aqui, poucas surpresas.
Difícil, mesmo, prevê-se a constituição do próximo governo que, não permitindo grandes variantes, pode durar ainda menos tempo do que a legislatura. De fora, parecem ficar as soluções PS/PSD e PS/BE/CDU. Restam, quanto a nós (politólogos de bancada) duas alternativas: um governo minoritário do PS, com acordos pontuais no parlamento; um governo de coligação PS/CDS, que garanta a maioria.
Importante neste cenário, poderá ser a posição de Cavaco Silva, cujas declarações aguardadas a qualquer momento, podem destabilizar todos os cenários propostos.
Uma coisa, no entanto, parece certa: os sacanas do costume, estarão agora mais escrutinados e não poderão continuar impunemente acima da lei.
Sem emoção, decorreram as eleições que, à excepção dos resultados do CDS, não provocaram grande "frisson". Como se esperava, o PS (ganhando) perdeu a maioria; o PSD (perdendo) nunca conseguiu arrancar da "pole position"; o BE mantendo o seu crescimento sustentado e a CDU que, mesmo descendo duas posições, subiu em votos e em deputados. Ou seja, perderam os partidos do "bloco central" e ganharam os partidos mais à direita e à esquerda do hemiciclo. Também aqui, poucas surpresas.
Difícil, mesmo, prevê-se a constituição do próximo governo que, não permitindo grandes variantes, pode durar ainda menos tempo do que a legislatura. De fora, parecem ficar as soluções PS/PSD e PS/BE/CDU. Restam, quanto a nós (politólogos de bancada) duas alternativas: um governo minoritário do PS, com acordos pontuais no parlamento; um governo de coligação PS/CDS, que garanta a maioria.
Importante neste cenário, poderá ser a posição de Cavaco Silva, cujas declarações aguardadas a qualquer momento, podem destabilizar todos os cenários propostos.
Uma coisa, no entanto, parece certa: os sacanas do costume, estarão agora mais escrutinados e não poderão continuar impunemente acima da lei.
2009/09/27
Prognósticos Finais
Ao fim de treze anos de "jejum" fui hoje, de novo, votar.
Gostei do que vi: centenas de pessoas em longas filas de espera, aguardando a sua vez de cumprir o ritual.
Se as sondagens não falharem, teremos uma grande afluência às urnas e uma vitória, mais ou menos folgada, do partido do governo. De acordo com o meu "trabalho de campo", levado a cabo em supermercados da zona, padarias, farmácia, quiosque de jornais e junto de moradores do bairro (acamados incluidos), o resultado das eleições de hoje deve andar próximo deste:
PS: 35%
PSD: 32%
BE: 10%
CDU: 9%
CDS: 7%
MEP: 2%
MMS: 1%
Outros: 2%
Brancos: 2%
A margem de erro é enorme. A ingovernabilidade seria total. Mas, não deixava de ter graça...
Gostei do que vi: centenas de pessoas em longas filas de espera, aguardando a sua vez de cumprir o ritual.
Se as sondagens não falharem, teremos uma grande afluência às urnas e uma vitória, mais ou menos folgada, do partido do governo. De acordo com o meu "trabalho de campo", levado a cabo em supermercados da zona, padarias, farmácia, quiosque de jornais e junto de moradores do bairro (acamados incluidos), o resultado das eleições de hoje deve andar próximo deste:
PS: 35%
PSD: 32%
BE: 10%
CDU: 9%
CDS: 7%
MEP: 2%
MMS: 1%
Outros: 2%
Brancos: 2%
A margem de erro é enorme. A ingovernabilidade seria total. Mas, não deixava de ter graça...
2009/09/26
2009/09/24
Um marco histórico
De acordo com as últimas notícias, o Ministério da Justiça anunciou já não existirem em Portugal reclusos alojados em celas com balde higiénico, vulgo "balde de merda". Certamente um argumento de monta para a campanha eleitoral do partido do "choque tecnológico". Ou, como diria o outro: "Um pequeno passo na história da humanidade, um grande passo na história de Portugal"...
2009/09/22
Parelhas cómicas
A parelha cómica é um clássico da comédia. Trata-se de uma fórmula que terá talvez origem na tradição da parelha de palhaços do circo. Parelhas famosas foram Bucha (Hardy) e Estica (Laurel), Abbott e Costello, Martin e Lewis, French e Saunders.
Há parelhas cómicas feitas de actores de carne e osso ou de figuras de desenho animado, compostas de homens ou de mulheres, por vezes com mais um ou dois personagens para baralhar o esquema. E não nos esqueçamos do ventríloquo, uma variação a solo da parelha cómica em que um mesmo actor actua a duas vozes.
E qual é a "fórmula" da parelha cómica para nos fazer rir? Uma relação desigual entre os dois personagens, com comportamentos e personalidades deliberadamente contrastantes. Um (o palhaço rico), o sisudo e ajuizado, vestido de lantejolas, provoca o outro (o palhaço pobre), o pateta, vestido de modo mais trapalhão, aquele a quem sucedem os episódios ridículos, que tropeça e se estatela, enquanto o sisudo remata, grave, um qualquer disparate a fingir que é sério.
Ao longo da história do espetáculo têm surgido inúmeras parelhas cómicas e variações destas que têm um único objectivo: criar uma tensão artificial com o objectivo de nos fazer rir.
A parelha cómica, não o esqueçamos, é apenas um artifício. Na realidade, embora até possa existir rivalidade real entre os personagens, a parelha cómica não passa de um expediente técnico usado para criar uma tensão fingida.
O problema das escutas em Belém e a "crise" que suscitou faz-me lembrar esta coisa das parelhas cómicas. Os actores são sem dúvida maus, estamos longe de perceber quem é o palhaço rico e o palhaço pobre, mas o artifício da parelha cómica está lá.
Quase certamente que estamos perante um caso de papéis intermutáveis conforme as circunstâncias e as necessidades. De fora está, definitivamente, a líder do PSD, partenaire de uma outra dupla com o ventríloquo Cavaco, parelha que está agora defintivamente posta em causa.
Certamente vexados pelo êxito da SIC com o programa dos "Gato Fedorento", o senhor Presidente da República e o senhor Pimeiro Ministro decidiram lançar um produto para competir com esta fórmula de (aparente) sucesso, sublinhando a tendência destas eleições de levar o "debate" político para o terreno da comédia...
Há parelhas cómicas feitas de actores de carne e osso ou de figuras de desenho animado, compostas de homens ou de mulheres, por vezes com mais um ou dois personagens para baralhar o esquema. E não nos esqueçamos do ventríloquo, uma variação a solo da parelha cómica em que um mesmo actor actua a duas vozes.
E qual é a "fórmula" da parelha cómica para nos fazer rir? Uma relação desigual entre os dois personagens, com comportamentos e personalidades deliberadamente contrastantes. Um (o palhaço rico), o sisudo e ajuizado, vestido de lantejolas, provoca o outro (o palhaço pobre), o pateta, vestido de modo mais trapalhão, aquele a quem sucedem os episódios ridículos, que tropeça e se estatela, enquanto o sisudo remata, grave, um qualquer disparate a fingir que é sério.
Ao longo da história do espetáculo têm surgido inúmeras parelhas cómicas e variações destas que têm um único objectivo: criar uma tensão artificial com o objectivo de nos fazer rir.
A parelha cómica, não o esqueçamos, é apenas um artifício. Na realidade, embora até possa existir rivalidade real entre os personagens, a parelha cómica não passa de um expediente técnico usado para criar uma tensão fingida.
O problema das escutas em Belém e a "crise" que suscitou faz-me lembrar esta coisa das parelhas cómicas. Os actores são sem dúvida maus, estamos longe de perceber quem é o palhaço rico e o palhaço pobre, mas o artifício da parelha cómica está lá.
Quase certamente que estamos perante um caso de papéis intermutáveis conforme as circunstâncias e as necessidades. De fora está, definitivamente, a líder do PSD, partenaire de uma outra dupla com o ventríloquo Cavaco, parelha que está agora defintivamente posta em causa.
Certamente vexados pelo êxito da SIC com o programa dos "Gato Fedorento", o senhor Presidente da República e o senhor Pimeiro Ministro decidiram lançar um produto para competir com esta fórmula de (aparente) sucesso, sublinhando a tendência destas eleições de levar o "debate" político para o terreno da comédia...
Garganta Profunda
A demissão de Fernando Lima poderá ter resolvido um problema a Cavaco Silva, mas não explica os verdadeiros motivos da conversa do seu principal assessor com um jornalista do "Público". Foi, ou não, Lima mandatário de outrém e, se foi, quem tinha interesse em fazer circular a notícia das "escutas" em Belém? Alguém de Belém (outro assessor) ou alguém do exterior, para dessa forma tentar culpabilizar o Governo? Cavaco prometeu falar depois da campanha. Entretanto, o presidente, mandou "matar" o mensageiro, o que não contribui para o esclarecimento do caso. Se não estamos perante um "mal-entendido", como querem fazer crer alguns comentadores da nossa praça, poderemos estar perante um caso muito mais grave que indicia a degeneração do próprio sistema político e dos seus principais actores. Sabemos, de outras paragens, que a cultura de "omertá" esteve na origem da república dos juízes. Já estivemos mais longe.
2009/09/17
É possível rir disto?
Tenho uma costela que me grita a todo o momento a inutilidade do Estado e de outras instituições da "civilização". Mas, tenho uma outra que me diz que alguns poderão encontrar nele um justificação legítima. E tenho outra ainda que me diz "ai de nós se não tivermos um Estado activo e actuante."
O Estado tem um único objectivo: o exercício da justiça. Seja qual for a área --agricultura, indústria, ambiente, economia, cultura...-- o Estado serve apenas para corrigir, de uma forma ou de outra, as perturbações e os desequilíbrios que resultam da interacção social e dos handicaps sociais e individuais. O Estado serve para equilibrar e não pode ser, ele próprio, factor de desequilíbrio. O Estado serve para introduzir o factor justiça na nossa vida colectiva.
No actual "debate" eleitoral este tema, que considero ser o único que (nos) interessa, não aparece.
Ora, os cidadãos contribuem com uma percentagem muito significativa dos seus rendimentos para sustentar uma máquina que há muito deixou de obedecer a esta lógica de exercício da justiça e existe apenas para se auto-perpetuar. Em Portugal, a actividade do Estado resume-se praticamente a sustentar a sua máquina. A máquina que existe para garantir justiça entre os cidadãos serve apenas para sustentar os seus membros. E eles sabem que a gente sabe que eles sabem que nós sabemos.
O Estado tem um único objectivo: o exercício da justiça. Seja qual for a área --agricultura, indústria, ambiente, economia, cultura...-- o Estado serve apenas para corrigir, de uma forma ou de outra, as perturbações e os desequilíbrios que resultam da interacção social e dos handicaps sociais e individuais. O Estado serve para equilibrar e não pode ser, ele próprio, factor de desequilíbrio. O Estado serve para introduzir o factor justiça na nossa vida colectiva.
No actual "debate" eleitoral este tema, que considero ser o único que (nos) interessa, não aparece.
Ora, os cidadãos contribuem com uma percentagem muito significativa dos seus rendimentos para sustentar uma máquina que há muito deixou de obedecer a esta lógica de exercício da justiça e existe apenas para se auto-perpetuar. Em Portugal, a actividade do Estado resume-se praticamente a sustentar a sua máquina. A máquina que existe para garantir justiça entre os cidadãos serve apenas para sustentar os seus membros. E eles sabem que a gente sabe que eles sabem que nós sabemos.
Em vez de exercer o seu desígnio de forma serena e categórica, o Estado está em permanente confronto com o cidadão para, debaixo da capa do exercício legítimo da justiça, se auto-alimentar.
Os cidadãos sabem disto e desconfiam do Estado. De tal maneira isto é verdade, de tal maneira o Estado está desacreditado e desautorizado, que das raras vezes em esse exercício de justiça é efectivamente levado a cabo o cidadão comum, desconfiado, insurge-se.
Os cidadãos sabem disto e desconfiam do Estado. De tal maneira isto é verdade, de tal maneira o Estado está desacreditado e desautorizado, que das raras vezes em esse exercício de justiça é efectivamente levado a cabo o cidadão comum, desconfiado, insurge-se.
Neste confronto entre o Estado e os cidadãos, perante a desigualdade das forças que se defrontam, alguns acabam por se acoitar debaixo da asa do Estado na esperança que, assim, a vidinha lhes possa correr melhor. Desta forma, numa espiral terrível, o Estado sai ainda mais desacreditado, o confronto aprofunda-se e a injustiça aumenta.
A vitória por maioria absoluta nas últimas eleições deveu-se apenas a um facto: aqueles que deram ao PS e a Sócrates o decisivo apoio extra, destinado a legitimar a introdução de reformas sérias na organização do Estado, acreditaram que esta situação iria ser afrontada. Sabemos agora que isso não se passou assim. E sabemos agora, depois do PSD nos seus diferentes sabores e do PS 1 e 2, o que é o tal centrão: uma espécie de super-máfia destinada a garantir esta máquina do Estado complacente consigo próprio, à sombra do qual se resguardam os acólitos.
O centrão não está contra os professores, juizes, polícias ou médicos. O centrão está contra todos os que estejam dispostos a garantir o desígnio do Estado: o exercício da justiça.
À falta de debate sério é interessante observar como o debate político virou comédia. Os grandes temas da vida nacional são agora introduzidos pelos "Gato Fedorento".
Há quem defenda que o riso é uma expressão de libertação perante a passagem do perigo. Neste programas já percebi onde está o perigo para cada um dos intervenientes. Ainda não consegui foi perceber o que está a provocar o riso dos seus protagonistas, nem de que perigo eles julgam que se estarão a libertar.
Vamos ver quem ri por último no dia 27...
2009/09/15
Debates
Após dez dias de debates "a dois", em que a televisão portuguesa ensaiou o "modelo americano", ficaram no ar mais perguntas do que respostas. Por exemplo: porque é que as discussões, propriamente ditas, demoraram apenas 45 minutos e os comentários dos painéis de "politólogos" chegaram a demorar 60 minutos? Em debates centrados em questões económicas, porque é que nunca foi abordado o problema da dívida externa, quando se sabe que esse será um dos maiores problemas que Portugal enfrentará no futuro? Porque é que ninguém falou de energia ou questões climatéricas? Porque é que, estando Portugal integrado no espaço europeu, nunca foram discutidas questões como a do Tratado de Lisboa, a política de imigração europeia ou a adesão da Turquia, para apenas citar três exemplos da actualidade? Porque é que, estando Portugal na NATO, nunca foi questionada a presença de tropas portuguesas em cenários de guerra, como o Iraque, o Afeganistão ou o Kosovo? Enfim, a lista seria interminável e a única explicação plausível para a ausência de temas considerados "não-convencionais", só pode ser uma: os participantes acordaram entre si o que eles consideram interessante para os potenciais votantes, formatando à partida o modelo de discussão que lhes interessava mais. Ora o que mais interessa aos políticos não é, necessariamente, o que mais nos interessa a nós, eleitores. Se o modelo de debate em grupo não favorece a clareza das propostas políticas, o modelo espartilhado de debates a dois, para mais cronometrado ao segundo, pareceu-nos demasiado limitativo para os fins pretendidos.
Resultado: um "anti-climax", na maior parte dos confrontos, o que não favorecerá a participação eleitoral no próximo dia 27. Ora, era essa tendência que era necessário inverter: a da abstenção galopante, reflexo do desinteresse que as actuais políticas nos provocam. Mas, se são os próprios políticos a concordar participar numa farsa, como é que o "sistema" pode mudar?
Assim, não vamos lá...
Resultado: um "anti-climax", na maior parte dos confrontos, o que não favorecerá a participação eleitoral no próximo dia 27. Ora, era essa tendência que era necessário inverter: a da abstenção galopante, reflexo do desinteresse que as actuais políticas nos provocam. Mas, se são os próprios políticos a concordar participar numa farsa, como é que o "sistema" pode mudar?
Assim, não vamos lá...
2009/09/12
2009/09/07
Cá me queria parecer...
No debate televisivo de ontem, a economista Manuela Ferreira Leite disse uma coisa extraordinária: "as nacionalizações feitas em 1975 levaram a economia portuguesa ao desastre". Atendendo ao brilhante estado da economia portuguesa actual, não podia estar mais de acordo. A culpa foi do Vasco Gonçalves...
2009/09/04
A "Cacha"
As especulações sobre as razões da "eliminação" do Jornal das sextas-feiras na TVI, apontam para uma de três possibilidades:o motivo político, o motivo comercial e o motivo editorial.
Para a oposição (da esquerda à direita) o "ideal" seria o PS estar por detrás da manobra. Não constituia o jornal, apresentado por Moura Guedes, o maior ataque semanal ao primeiro-ministro em toda a comunicação social portuguesa?
Para o governo, tal tese só pode prejudicá-lo e não parece que os "spin-doctors" do PS fossem assim tão estúpidos.
Restam os "espanhóis". Estes, da sede da Prisa, algures em Madrid, teriam dado as ordens pelo telefone.
Confrontadas as "partes" com os diversos cenários, ninguém parece ter uma resposta clara sobre o assunto:
O PS vem a terreiro pedir explicações à Alta Autoridade para a Comunicação Social, demarcando-se do acto. A oposição não acredita e continua a querer ver o dedo do governo na manobra. Os "espanhóis" desmentem qualquer implicação no caso e passam a responsabilidade para a Média Capital em Lisboa. Esta delega na administração da TVI a decisão e a administração, por sua vez, emite um comunicado a falar na "harmonização" dos blocos informativos da estação, como razão última para a "homogeneização" em curso. No meio destes jogos florentinos, falta a verdade. Ou, na falta dela, a notícia principal. Aquilo, a que, em jargão jornalístico, se chama a "Cacha". Mas, agora, sem a Manuela, como é que vamos saber quem é o culpado?
Para a oposição (da esquerda à direita) o "ideal" seria o PS estar por detrás da manobra. Não constituia o jornal, apresentado por Moura Guedes, o maior ataque semanal ao primeiro-ministro em toda a comunicação social portuguesa?
Para o governo, tal tese só pode prejudicá-lo e não parece que os "spin-doctors" do PS fossem assim tão estúpidos.
Restam os "espanhóis". Estes, da sede da Prisa, algures em Madrid, teriam dado as ordens pelo telefone.
Confrontadas as "partes" com os diversos cenários, ninguém parece ter uma resposta clara sobre o assunto:
O PS vem a terreiro pedir explicações à Alta Autoridade para a Comunicação Social, demarcando-se do acto. A oposição não acredita e continua a querer ver o dedo do governo na manobra. Os "espanhóis" desmentem qualquer implicação no caso e passam a responsabilidade para a Média Capital em Lisboa. Esta delega na administração da TVI a decisão e a administração, por sua vez, emite um comunicado a falar na "harmonização" dos blocos informativos da estação, como razão última para a "homogeneização" em curso. No meio destes jogos florentinos, falta a verdade. Ou, na falta dela, a notícia principal. Aquilo, a que, em jargão jornalístico, se chama a "Cacha". Mas, agora, sem a Manuela, como é que vamos saber quem é o culpado?
2009/08/28
De uma lado chove, do outro troveja
Depois de um período de expectativa cuidadosamente montado, o programa eleitoral do PSD foi ontem finalmente conhecido. Seguiu-se-lhe uma dissecação, quase até à exaustão, por parte de analistas e responsáveis políticos. Faltou-lhes a todos referir um pormenor: não se trata um programa eleitoral, mas de um produto de simples marketing político.
De forma simplificada pode-se dizer que à posição, por parte do governo PS, de eleger o investimento público como motor da recuperação, o PSD propõe que esse papel seja assumido pela iniciativa privada. É isto em termos simples. Estamos perante uma manobra que visa criar no eleitorado a ideia de que o PSD tem uma "alternativa" à política do PS. Com isto o PSD aparece como um partido diferente do PS e aparece... com uma alternativa!
Ora, em primeiro lugar, PS e PSD são face de uma mesma moeda. Má moeda, para usar uma expressão cara ao PR, o joker deste jogo. Podem ser alternativa um ao outro, mas não são alternativa relativamente ao que verdadeiramente importa à Nação. Talvez por serem faces da mesma moeda se fale de forma tão despudorada de "bloco central"...
Em segundo lugar, a "alternativa" do investimento privado só nos pode dar vontade de rir. Nem os privados estão em posição de cumprir o papel de que o estado actual da economia carece, nem a sua folha de serviços nos revela nada de bom. O que se trama no silêncio dos gabinetes dos privados tresanda a sinistro. Os portugueses não podem esperar nada do sector privado.
Em suma, não poderíamos esperar nada de bom debaixo do primado da iniciativa privada.
O mesmo, porém, se pode dizer infelizmente da "alternativa" contrária. Da iniciativa pública também nada podemos esperar de bom. Os programas são medíocres e os executantes são pateticamente maus. O oportunismo e a corrupção são males maiores para a erradicação dos quais não vemos nem vontade, nem mecanismos adequados. Do poder público só podemos esperar o pior. O que se trama nos gabinetes públicos a sinistro tresanda. Os portugueses não podem esperar nada do sector público.
De resto, uma solução séria para os problemas do país neste momento tem de incluir um pouco de tudo. Apresentar programas ao eleitorado na base do "either, or" é uma completa mistificação só compreensível no contexto da mesquinha luta partidária que se trava em Portugal. Ninguém minimamente sério pode dizer que a solução passa exclusivamente pelo investimento público ou pelo privado. Qualquer proposta deste tipo (e é nessa lógica que tanto o PS como o PSD embarcaram!) é um insulto à inteligência de todos nós.
Neste contexto, a "luta" entre PSD e PS só nos pode causar uma de duas reacções: nojo ou vontade de rir.
Resta-nos a possibilidade de fortalecer significativamente os partidos de fora da área do poder e forçar a criação de outras alternativas para a governação do país que os incluam forçosamente, mas isso será objecto de futuras reflexões quando for possível.
De forma simplificada pode-se dizer que à posição, por parte do governo PS, de eleger o investimento público como motor da recuperação, o PSD propõe que esse papel seja assumido pela iniciativa privada. É isto em termos simples. Estamos perante uma manobra que visa criar no eleitorado a ideia de que o PSD tem uma "alternativa" à política do PS. Com isto o PSD aparece como um partido diferente do PS e aparece... com uma alternativa!
Ora, em primeiro lugar, PS e PSD são face de uma mesma moeda. Má moeda, para usar uma expressão cara ao PR, o joker deste jogo. Podem ser alternativa um ao outro, mas não são alternativa relativamente ao que verdadeiramente importa à Nação. Talvez por serem faces da mesma moeda se fale de forma tão despudorada de "bloco central"...
Em segundo lugar, a "alternativa" do investimento privado só nos pode dar vontade de rir. Nem os privados estão em posição de cumprir o papel de que o estado actual da economia carece, nem a sua folha de serviços nos revela nada de bom. O que se trama no silêncio dos gabinetes dos privados tresanda a sinistro. Os portugueses não podem esperar nada do sector privado.
Em suma, não poderíamos esperar nada de bom debaixo do primado da iniciativa privada.
O mesmo, porém, se pode dizer infelizmente da "alternativa" contrária. Da iniciativa pública também nada podemos esperar de bom. Os programas são medíocres e os executantes são pateticamente maus. O oportunismo e a corrupção são males maiores para a erradicação dos quais não vemos nem vontade, nem mecanismos adequados. Do poder público só podemos esperar o pior. O que se trama nos gabinetes públicos a sinistro tresanda. Os portugueses não podem esperar nada do sector público.
De resto, uma solução séria para os problemas do país neste momento tem de incluir um pouco de tudo. Apresentar programas ao eleitorado na base do "either, or" é uma completa mistificação só compreensível no contexto da mesquinha luta partidária que se trava em Portugal. Ninguém minimamente sério pode dizer que a solução passa exclusivamente pelo investimento público ou pelo privado. Qualquer proposta deste tipo (e é nessa lógica que tanto o PS como o PSD embarcaram!) é um insulto à inteligência de todos nós.
Neste contexto, a "luta" entre PSD e PS só nos pode causar uma de duas reacções: nojo ou vontade de rir.
Resta-nos a possibilidade de fortalecer significativamente os partidos de fora da área do poder e forçar a criação de outras alternativas para a governação do país que os incluam forçosamente, mas isso será objecto de futuras reflexões quando for possível.
2009/08/27
O Homem do Golf
Exactamente, de hoje a um mês, haverá eleições. A acreditar nas pitonisas que, diariamente, povoam os principais orgãos informativos e cuja única notícia parece ser manter a "silly season" actual, o país corre o risco de ficar "ingovernável" a 27 de Setembro. Este prognóstico é baseado em projecções que mostram os principais partidos do poder em queda, enquanto os partidos à sua esquerda mantêm um crescimento sustentado. Se as sondagens não falharem desta vez, teremos o PS e o PSD com votações bem abaixo dos 40% e o PCP e o BE com votações à volta dos 10%, o que inviabilizará qualquer governo de maioria absoluta. A alternativa, poderá ser um governo minoritário que, dificilmente, tem hipóteses de chegar ao fim da legislatura. Que fazer, pois, perante tal "catástrofe"?
A solução vem hoje escarrapachada no semanário "I", pela boca de João de Deus Pinheiro: "tem de se fazer uma coligação um bocadinho como fazem os holandeses. Os holandeses demoram normalmente um mês a fazer um governo de coligação. Porque negoceiam as medidas mais contenciosas. Em Portugal temos pouco essa tradição".
É verdade. Eu próprio vivi trinta anos na Holanda e não me lembro de ter visto um governo maioritário de um só partido. Mais, as coligações demoram longos meses a constituir-se. Um verdadeiro ritual que passa pelo convite da rainha a um "informador" para convidar o partido mais votado e conseguir consensos. Quando se atinge esta fase, o informador retira-se e entra em cena um "formador" que reune os partidos (podem ser dois, três ou mais) os quais discutem exaustivamente todos os pontos de um programa comum. Quando chegam a acordo, o "formador" volta à rainha com a proposta e esta nomeia o governo na base de um programa consensual. Por exemplo, actualmente, a coligação governamental holandesa é composta pelo partido cristão-democrata (CDA) pelo partido trabalhista (PvDA) e por uma pequeno partido cristão-reformador (PR). É possível, sim, mas é bom perceber que estamos a falar de um país de longa tradição democrática, com mais de um século de parlamentarismo e onde a monarquia tem um função institucional simbólica. Um país, onde a ética não é uma palavra vã e a política não é atravessada pela promiscuidade entre a política e outros poderes, como em Portugal.
O que Deus Pinheiro propõe mais não é do que a reedição do famigerado "bloco central" ao qual ele próprio pertenceu. Percebe-se, o homem já não está em idade de chatisses e nada melhor para o "sistema" do que manter os interesses em família, neste caso as "familias" do PS e do PSD que governam e se governam há mais de trinta anos em alternância. Bem diferente do modelo holandês, como se percebe, pois na Holanda não são sempre os mesmos partidos a formar governo. Um homem distraído, o Pinheiro. Se bem me lembro, não é a primeira vez. Ficou famosa a sua "gaffe", no dia em que rebentou a 1ª guerra do Golfo e ele foi o único comissário europeu a faltar à reunião de emergência em Bruxelas, por estar a jogar "golf". O incidente valeu-lhe um fabuloso "cartoon" na imprensa internacional, onde se via um funcionário entrar no "green" para alertá-lo da guerra em curso: "Golf War! Golf War!", gritava o rapaz. Ao que Pinheiro, impassível enquanto dava uma tacada, perguntava, "Golf, what golf?".
A solução vem hoje escarrapachada no semanário "I", pela boca de João de Deus Pinheiro: "tem de se fazer uma coligação um bocadinho como fazem os holandeses. Os holandeses demoram normalmente um mês a fazer um governo de coligação. Porque negoceiam as medidas mais contenciosas. Em Portugal temos pouco essa tradição".
É verdade. Eu próprio vivi trinta anos na Holanda e não me lembro de ter visto um governo maioritário de um só partido. Mais, as coligações demoram longos meses a constituir-se. Um verdadeiro ritual que passa pelo convite da rainha a um "informador" para convidar o partido mais votado e conseguir consensos. Quando se atinge esta fase, o informador retira-se e entra em cena um "formador" que reune os partidos (podem ser dois, três ou mais) os quais discutem exaustivamente todos os pontos de um programa comum. Quando chegam a acordo, o "formador" volta à rainha com a proposta e esta nomeia o governo na base de um programa consensual. Por exemplo, actualmente, a coligação governamental holandesa é composta pelo partido cristão-democrata (CDA) pelo partido trabalhista (PvDA) e por uma pequeno partido cristão-reformador (PR). É possível, sim, mas é bom perceber que estamos a falar de um país de longa tradição democrática, com mais de um século de parlamentarismo e onde a monarquia tem um função institucional simbólica. Um país, onde a ética não é uma palavra vã e a política não é atravessada pela promiscuidade entre a política e outros poderes, como em Portugal.
O que Deus Pinheiro propõe mais não é do que a reedição do famigerado "bloco central" ao qual ele próprio pertenceu. Percebe-se, o homem já não está em idade de chatisses e nada melhor para o "sistema" do que manter os interesses em família, neste caso as "familias" do PS e do PSD que governam e se governam há mais de trinta anos em alternância. Bem diferente do modelo holandês, como se percebe, pois na Holanda não são sempre os mesmos partidos a formar governo. Um homem distraído, o Pinheiro. Se bem me lembro, não é a primeira vez. Ficou famosa a sua "gaffe", no dia em que rebentou a 1ª guerra do Golfo e ele foi o único comissário europeu a faltar à reunião de emergência em Bruxelas, por estar a jogar "golf". O incidente valeu-lhe um fabuloso "cartoon" na imprensa internacional, onde se via um funcionário entrar no "green" para alertá-lo da guerra em curso: "Golf War! Golf War!", gritava o rapaz. Ao que Pinheiro, impassível enquanto dava uma tacada, perguntava, "Golf, what golf?".
2009/08/19
O que é isto?
Na noite de ontem, em zonas diferentes da grande Lisboa, duas jovens foram violadas. Como é normal, em casos semelhantes, as vítimas dirigiram-se aos hospitais das suas áreas habitacionais, respectivamente o Santa Maria e o Fernando Fonseca, vulgo Amadora-Sintra. Em ambos os casos, não puderam ser feitos os exames forenses, por ausência de especialistas de medicina legal, aparentemente os únicos a poderem avaliar este tipo de agressões. A razão, explica o director de Medicina Legal, prende-se com o mês de Agosto, quando há apenas 3 (três!) médicos escalados para o serviço nocturno de urgência. Porque a humilhação ainda não era suficiente, as jovens foram aconselhadas a não se lavarem, não escovarem os dentes ou mudar de roupa, para que, esta manhã, ainda houvesse provas da "alegada" violação. Ambas as histórias foram contadas pelos familiares das vítimas à televisão e o Instituto de Medicina Legal confirmou a falta de médicos no turno da noite em Agosto.
Ouve-se e não se acredita! Mas que merda de estado é este que permite serviços nocturnos de urgências sem pessoal qualificado e ainda por cima exige das vítimas que abdiquem dos seus sentimentos mais profundos, em completo desrespeito para com os seus direitos de cidadãos? O que é isto?
Ouve-se e não se acredita! Mas que merda de estado é este que permite serviços nocturnos de urgências sem pessoal qualificado e ainda por cima exige das vítimas que abdiquem dos seus sentimentos mais profundos, em completo desrespeito para com os seus direitos de cidadãos? O que é isto?
2009/08/14
Não tenho ídolos...
... Mas se os tivesse, Les Paul (1918-2009) tinha todas as características para ser o mais forte candidato a este lugar. Uma mente brilhante, o eterno e vivaz sorriso, o guitarrista excepcional, o artista extraordinariamente arrojado e interessante e, sobretudo, o pai de uma série de invenções cruciais para a produção musical tal como a conhecemos hoje.Do símbolo da cultura rock, a guitarra eléctrica (embora nesse campo não estivesse só e o nome de Leo Fender não possa de todo ser esquecido), até ao gravador magnético multipista, do conceito de auto-acompanhamento musical, ao humilde suporte de harmónica que artistas como Bob Dylan ou Neil Young popularizaram, o génio criativo de Les Paul tudo foi capaz de conceber e em tudo é possível descobrir o seu toque e influência. Um designer e um inventor na linha de Tesla ou de Edison!
Sem Les Paul, eu e muita gente ligada hoje à música, da mais erudita à mais popular, da mais "internacional" à mais tradicional, continuaríamos na idade da pedra da produção musical.
São poucos os indivíduos que conseguem produzir com as suas próprias mãos mudanças tão profundas na história e impôr conceitos tão radicais, tornando-os quase banais. Acabou de desaparecer um deles.
PS- Um documentário sobre ele, para quem estiver interessado, pode ser visto aqui.
A carreria de Medina
O que vou dizer a seguir será polémico, e a polémica começa, se calhar, aqui mesmo dentro do Face. Mas, aqui vai.
Ouço Medina Carreira, vejo a sua presença cada vez mais assídua na televisão, observo a sua transformação em comentador da moda, e tudo isto me causa uma sensação crescente de náusea.
Não porque muito do que ele diz não seja verdadeiro, não porque a forma como o faz não seja contundente qb, assim como uma espécie de special efx de televisão. Mas, sobretudo, porque ao nível a que ele se coloca, e ao nível a que coloca a discussão, só lhe restaria a alternativa de arregaçar as mangas e dar o exemplo compromentendo-se. O doutor Carreira não está contra o regime que parece denunciar. O doutor Carreira está a fazer o papel do bobo do regime. E é o regime que está mal, não os governantes. Estes servem-se dele como podem e como os deixam. O resto é conversa.
Sublinho e repito: ao nível a que ele se coloca e ao nível a que coloca a discussão, só lhe restaria a alternativa de arregaçar as mangas e dar o exemplo compromentendo-se.
Confortavelmente instalado no estúdio de televisão vai lançando os seus ataques de dentro mesmo de um dos principais sustentáculos e beneficiários da situação que aparentemente pretende denunciar. Carreira luta no maquis da tv. Imagine-se o Cristiano Ronaldo a fazer, no Real Madrid, o jogo do Barcelona. É tão absurdo como ver o doutor Medina Carreira a dizer mal da actual situação e dos actuais situacionistas, seus companheiros de equipa, entre câmaras e projectores, coberto de maquilhagem no meio de um cenário a fingir que há horizonte em tudo aquilo.
Depois há duas outras coisas que não recomendam o dr. Carreira e as suas teses. Primeiro, acusa os políticos de falta de sensibilidade social, de não “ouvirem” o que diz a rua... Mas, de seguida, afirma, peremptório e sem se atrapalhar com o ridículo, que a “solução” para o “problema” do país... é económica!
Ora, ó doutor Carreira, ouça bem o que lhe digo: o problema do país NÃO é económico! O problema é cultural. Haverá uma componente económica no “problema” português, haverá certamente uma dimensão "económica" na sua solução, mas não é a economia que explica o que se está a passar e não serão os economistas, nunca, a encontrar soluções. Quando está a chover, os economistas gostam de dizer "Está a chover!" Já sabíamos.
As provas dadas pelos economistas até agora foram abaixo de cão. A presente crise internacional é em boa medida uma crise forjada nas teorias ensinadas nas faculdades de economia. As receitas, as previsões e as análises dos economistas são pura merda! A lista de “economistas” e de praticantes de “economologia”, consigo incluído, que fizeram as coisas chegar ao ponto em que estão, é longa e sonante. E tilinta! Quanto a mim preferiria mil vezes ter a astróloga Maya a dirigir o país. De certeza que os resultados não eram piores.
Quando se conseguir pôr cobro neste país ao regime de castas, à indigência intelectual, à irresponsabilidade, à imoralidade, à exploração do tempo dos outros, então sim, podemos criar empresas viradas para a exportação, atrair investimento externo ou outra qualquer solução “económica” para regular o modo como nos relacionamos uns com os outros no plano material e procedemos à satisfação das nossas necessidades materiais colectivas e individuais. Até lá, tudo aquilo que o senhor diz não passa de um grande e inconsequente vazio.
Ou terá o senhor a veleidade de pensar que se aquilo que diz fosse verdadeiramente revolucionário, fosse gritado no foro adequado, brandindo as armas justas e os colocasse de facto em causa, esta corja de franganotes que o senhor tanto verbera não lhe tinha já mandado calar o bico?
Isto não vai lá com palavreado dr. Medina. Vai, e tem de ir, de outra forma. Daí eu pensar que a sua carreira já merece reforma...
Ouço Medina Carreira, vejo a sua presença cada vez mais assídua na televisão, observo a sua transformação em comentador da moda, e tudo isto me causa uma sensação crescente de náusea.
Não porque muito do que ele diz não seja verdadeiro, não porque a forma como o faz não seja contundente qb, assim como uma espécie de special efx de televisão. Mas, sobretudo, porque ao nível a que ele se coloca, e ao nível a que coloca a discussão, só lhe restaria a alternativa de arregaçar as mangas e dar o exemplo compromentendo-se. O doutor Carreira não está contra o regime que parece denunciar. O doutor Carreira está a fazer o papel do bobo do regime. E é o regime que está mal, não os governantes. Estes servem-se dele como podem e como os deixam. O resto é conversa.
Sublinho e repito: ao nível a que ele se coloca e ao nível a que coloca a discussão, só lhe restaria a alternativa de arregaçar as mangas e dar o exemplo compromentendo-se.
Confortavelmente instalado no estúdio de televisão vai lançando os seus ataques de dentro mesmo de um dos principais sustentáculos e beneficiários da situação que aparentemente pretende denunciar. Carreira luta no maquis da tv. Imagine-se o Cristiano Ronaldo a fazer, no Real Madrid, o jogo do Barcelona. É tão absurdo como ver o doutor Medina Carreira a dizer mal da actual situação e dos actuais situacionistas, seus companheiros de equipa, entre câmaras e projectores, coberto de maquilhagem no meio de um cenário a fingir que há horizonte em tudo aquilo.
Depois há duas outras coisas que não recomendam o dr. Carreira e as suas teses. Primeiro, acusa os políticos de falta de sensibilidade social, de não “ouvirem” o que diz a rua... Mas, de seguida, afirma, peremptório e sem se atrapalhar com o ridículo, que a “solução” para o “problema” do país... é económica!
Ora, ó doutor Carreira, ouça bem o que lhe digo: o problema do país NÃO é económico! O problema é cultural. Haverá uma componente económica no “problema” português, haverá certamente uma dimensão "económica" na sua solução, mas não é a economia que explica o que se está a passar e não serão os economistas, nunca, a encontrar soluções. Quando está a chover, os economistas gostam de dizer "Está a chover!" Já sabíamos.
As provas dadas pelos economistas até agora foram abaixo de cão. A presente crise internacional é em boa medida uma crise forjada nas teorias ensinadas nas faculdades de economia. As receitas, as previsões e as análises dos economistas são pura merda! A lista de “economistas” e de praticantes de “economologia”, consigo incluído, que fizeram as coisas chegar ao ponto em que estão, é longa e sonante. E tilinta! Quanto a mim preferiria mil vezes ter a astróloga Maya a dirigir o país. De certeza que os resultados não eram piores.
Quando se conseguir pôr cobro neste país ao regime de castas, à indigência intelectual, à irresponsabilidade, à imoralidade, à exploração do tempo dos outros, então sim, podemos criar empresas viradas para a exportação, atrair investimento externo ou outra qualquer solução “económica” para regular o modo como nos relacionamos uns com os outros no plano material e procedemos à satisfação das nossas necessidades materiais colectivas e individuais. Até lá, tudo aquilo que o senhor diz não passa de um grande e inconsequente vazio.
Ou terá o senhor a veleidade de pensar que se aquilo que diz fosse verdadeiramente revolucionário, fosse gritado no foro adequado, brandindo as armas justas e os colocasse de facto em causa, esta corja de franganotes que o senhor tanto verbera não lhe tinha já mandado calar o bico?
Isto não vai lá com palavreado dr. Medina. Vai, e tem de ir, de outra forma. Daí eu pensar que a sua carreira já merece reforma...
2009/08/13
Um Grande BPN
Medina Carreira, no tom truculento que o caracteriza, deu ontem mais uma entrevista na televisão. Uma hora de crítica impediosa a uma classe que ele caracteriza como oportunista e que está na política para tratar da vidinha. Nada que não tenha dito em entrevistas anteriores ou que não saibamos por observação empírica. Sobre Medina Carreira há, normalmente, duas opiniões diametralmente opostas: ama-se ou odeia-se.
De uma coisa, no entanto, não podemos acusá-lo: é de ser incoerente na forma como - com números - explica o aumento da dívida externa e as suas consequências para o futuro da economia portuguesa. As contas são fáceis de fazer: ao ritmo de endividamento actual, o país estará ingovernável no prazo de dez anos. Produzimos pouco e mal, não criamos riqueza suficiente, importamos mais do que exportamos, necessitamos de empréstimos para manter o consumo interno e estamos, por isso, cada vez mais endividados, logo mais pobres. À crise interna e estrutural juntou-se a crise externa internacional e os indicadores económicos são péssimos. Mas, diz mais: as eleições que aí vêm não trarão qualquer alteração substancial (na melhor das hipóteses um governo minoritário que cairá ao fim de uns meses) e os programas partidários não passam de intenções que o seu "amigo Banana" subscreveria. Os partidos actuais estão enfeudados aos interesses económicos que vêem no poder uma forma de fazer negócios e empregar familiares e, por isso, com maioria absoluta ou maioria relativa, o sistema não mudará substancialmente. Portugal está transformado num "grande BPN".
À pergunta do entrevistador sobre o que proporia para mudar o estado do país, exemplifica: mais do que promessas, é necessário um diagnóstico sério (bastam três meses para fazê-lo) sobre as causas do nosso atraso e um governo que, com um programa mínimo, elimine os obstáculos que impedem o desenvolvimento português. Pessoas capazes (não necessariamente enfeudadas aos partidos) e coragem para executar um programa reformista sob a égide do PR, parece ser a saída preconizada por Medina. Não sabemos se esta fórmula resultaria, mas que a situação não pode continuar assim por muito mais tempo, parece-nos evidente. Para BPN já basta o Banco...
De uma coisa, no entanto, não podemos acusá-lo: é de ser incoerente na forma como - com números - explica o aumento da dívida externa e as suas consequências para o futuro da economia portuguesa. As contas são fáceis de fazer: ao ritmo de endividamento actual, o país estará ingovernável no prazo de dez anos. Produzimos pouco e mal, não criamos riqueza suficiente, importamos mais do que exportamos, necessitamos de empréstimos para manter o consumo interno e estamos, por isso, cada vez mais endividados, logo mais pobres. À crise interna e estrutural juntou-se a crise externa internacional e os indicadores económicos são péssimos. Mas, diz mais: as eleições que aí vêm não trarão qualquer alteração substancial (na melhor das hipóteses um governo minoritário que cairá ao fim de uns meses) e os programas partidários não passam de intenções que o seu "amigo Banana" subscreveria. Os partidos actuais estão enfeudados aos interesses económicos que vêem no poder uma forma de fazer negócios e empregar familiares e, por isso, com maioria absoluta ou maioria relativa, o sistema não mudará substancialmente. Portugal está transformado num "grande BPN".
À pergunta do entrevistador sobre o que proporia para mudar o estado do país, exemplifica: mais do que promessas, é necessário um diagnóstico sério (bastam três meses para fazê-lo) sobre as causas do nosso atraso e um governo que, com um programa mínimo, elimine os obstáculos que impedem o desenvolvimento português. Pessoas capazes (não necessariamente enfeudadas aos partidos) e coragem para executar um programa reformista sob a égide do PR, parece ser a saída preconizada por Medina. Não sabemos se esta fórmula resultaria, mas que a situação não pode continuar assim por muito mais tempo, parece-nos evidente. Para BPN já basta o Banco...
2009/08/09
Histórias de Guerra
As minhas primeiras recordações de Solnado datam dos anos cinquenta, era eu ainda um jovem adolescente.
Lembro-me vagamente do seu nome nos cartazes do Parque Mayer e, já em finais da década, da sua interpretação no filme "O Tarzan do 5º esquerdo", exibido no antigo cinema Condes. O filme foi um êxito de bilheteira e a crítica viu nele um dos primeiros exemplos do cinema "neo-realista" português. Mais do que a história, lembro-me da personagem principal, interpretada pelo Raul, que "levava" o filme aos ombros.
Anos mais tarde, através da "Guerra de 1908", que viria a tornar-se um clássico da rádio, o seu nome tornou-se indissociável de uma época atravessada por uma guerra - essa sim, real - que o regime impunha em África.
Lisboa era, à época, uma cidade taciturna e cinzenta, onde os homens vestiam fatos às riscas e usavam chapéus de feltro e as mulheres sózinhas não eram bem vistas nos cafés. Nas tertúlias do Martinho e do Monte Carlo, discutiam-se as escolhas de uma geração: fazer a guerra ou desertar, o que implicava na maior parte dos casos um exílio incerto. Dado que optei pela segunda alternativa, vi-me impedido de regressar ao país durante oito largos anos. O Portugal Salazarista tornou-se uma recordação cada vez mais distante, que gravações como as de Solnado contribuiam para amenizar. No fundo, as "guerras", a dele e a do regime, eram um absurdo.
Dos seus êxitos, em programas como o "Zip-Zip" ou, mais tarde, "A Cornélia", só soube por relatos indirectos e, no cinema, lembro-me da sua interpretação no filme "Balada da Praia dos Cães", que vi em finais da década de oitenta no Festival de Cinema de Roterdão.
Num dia atravessado por memórias, eu, que nunca o conheci, relembro um tempo de angústia e frustação, onde uma das poucas coisas que o regime não podia proibir, era rir. Graças ao Solnado, ri-me a bandeiras despregadas. Antes e depois da liberdade. Sem o saber, ele foi dos que mais contribuiu para a minha sanidade mental. Não é coisa pouca.
Lembro-me vagamente do seu nome nos cartazes do Parque Mayer e, já em finais da década, da sua interpretação no filme "O Tarzan do 5º esquerdo", exibido no antigo cinema Condes. O filme foi um êxito de bilheteira e a crítica viu nele um dos primeiros exemplos do cinema "neo-realista" português. Mais do que a história, lembro-me da personagem principal, interpretada pelo Raul, que "levava" o filme aos ombros.
Anos mais tarde, através da "Guerra de 1908", que viria a tornar-se um clássico da rádio, o seu nome tornou-se indissociável de uma época atravessada por uma guerra - essa sim, real - que o regime impunha em África.
Lisboa era, à época, uma cidade taciturna e cinzenta, onde os homens vestiam fatos às riscas e usavam chapéus de feltro e as mulheres sózinhas não eram bem vistas nos cafés. Nas tertúlias do Martinho e do Monte Carlo, discutiam-se as escolhas de uma geração: fazer a guerra ou desertar, o que implicava na maior parte dos casos um exílio incerto. Dado que optei pela segunda alternativa, vi-me impedido de regressar ao país durante oito largos anos. O Portugal Salazarista tornou-se uma recordação cada vez mais distante, que gravações como as de Solnado contribuiam para amenizar. No fundo, as "guerras", a dele e a do regime, eram um absurdo.
Dos seus êxitos, em programas como o "Zip-Zip" ou, mais tarde, "A Cornélia", só soube por relatos indirectos e, no cinema, lembro-me da sua interpretação no filme "Balada da Praia dos Cães", que vi em finais da década de oitenta no Festival de Cinema de Roterdão.
Num dia atravessado por memórias, eu, que nunca o conheci, relembro um tempo de angústia e frustação, onde uma das poucas coisas que o regime não podia proibir, era rir. Graças ao Solnado, ri-me a bandeiras despregadas. Antes e depois da liberdade. Sem o saber, ele foi dos que mais contribuiu para a minha sanidade mental. Não é coisa pouca.
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