2008/04/25

Marinhas de sal de Rio Maior

Um local, para mim, desconhecido cuja visita aconselho. Dizem-me que são as únicas salinas de sal-gema existentes em Portugal. Dizem-me também que a extracção do sal neste local deverá remontar à era romana, embora só existam referências explícitas às salinas a partir de 1177.
O local contém ampla matéria de reflexão e vale a pena lançar-lhe um olhar demorado, perceber o seu modo de funcionamento e conhecer as origens de tudo isto.
Inexplicavelmente, a perspectiva que este local transmite ao visitante deixa muito a desejar. A esmagadora maioria das lojas, cafés e restaurantes instalados nas curiosas casas de madeira, antigamente usadas para guardar o sal, está fechada e a informação e as referências ao local, que dista uns 3 km da cidade de Rio Maior, são escassas, e, no mínimo, carecem de uma abordagem mais profissional.
Mereciam mais estas salinas naturais de Rio Maior...

2008/04/23

The Big Race

Apesar de esperado, o triunfo de Hillary Clinton na Pensilvânia veio animar uma campanha que, há menos de um mês, dava como quase certa a vitória de Obama nas primárias norte-americanas.
Com 99% dos resultados apurados, a candidata democrata tinha obtido 55% dos votos contra 45% do seu rival, correspondendo a 81 delegados, no total dos 158 lugares em disputa.
As grandes tendências demográficas mantêm-se, com as mulheres, os colarinhos azuis e os seniores brancos a votarem em Hillary; enquanto os negros, os colarinhos brancos e os jovens, continuam a votar Obama.
Para quem pense que Hillary é a candidata com maior apoio financeiro, os números divulgados não mentem: a candidata tem "apenas" $3.8 milhões para gastar, enquanto Obama dispõe de um "budget" de $11, o que nesta fase da corrida pode vir a revelar-se determinante.
Pese o bom momento de Obama, a verdade é que o candidato de Illinois não consegue "descolar" da rival. Para esta aparente contradição, os analistas dão cinco explicações: a "raça" (os americanos não estarão preparados para um presidente negro); a "inexperiência" (o candidato não tem experiência internacional); "os colarinhos azuis" (o candidato não consegue cativar os mais mal pagos); o "reverendo Wright" (as ligações ao pastor racista da sua paróquia) e a "mudança" (que ninguém sabe muito bem o que é).
Resta a opinião dos "super-delegados", que irá ser determinante na escolha do candidato democrata. Para já, a diferença entre delegados obtidos é de 1.719 para Obama, contra 1.591 para Clinton. Irá Hillary a tempo de recuperar?

2008/04/20

Palhaçada Atlântica

Quem estava à espera de uma reacção do Presidente da República, aos recentes dislates do régulo madeirense, saiu defraudado. Quem não estava à espera, pôde confirmar a fibra de que são feitos os políticos portugueses, PR incluído.
É caso para dizer: estão bem um para o outro.

2008/04/18

Menezes

Acreditar que a demissão de Menezes pode salvar o PSD da crise em que o partido caiu, depois da fuga de Durão e do desastre de Lopes, é não perceber que, desde então, o PS ocupou o espaço político dos sociais-democratas. São as políticas de direita de Sócrates que inviabilizam o regresso do PSD ao lugar de partido de oposição. Não há lugar para dois partidos ocuparem o centro. Por isso, eles são tão iguais. Na dúvida, os eleitores preferem o "menos mau".

2008/04/17

O "Testa de Ferro"

José Faria, ex-motorista de Avelino Ferreira Torres, deu uma entrevista à televisão portuguesa, digna das melhores histórias sicilianas. Disse o homem que receava pela sua vida e por isso tinha-se refugiado no Brasil, pois sabia demais e já tinha havido uma tentativa de "calá-lo". Para melhor ilustrar a sua tese, mostrou a boca, desdentada, onde podiam notar-se as marcas de uma alegada agressão. É possível. Depois de ver os impropérios e ameaças do ex-autarca de Marco de Canaveses, no tribunal onde está a ser julgado, diria mesmo mais: é bastante provável.
Temos pois, aqui, todos os ingredientes necessários a uma boa história de "omertá": numa pequena cidade do Portugal profundo, um cacique local domina a seu belo prazer, enquanto compra o "silêncio" dos seus apaniguados através de pequenas mordomias. O clientelismo, na sua forma mais larvar. Como as relações de patrocinato são sempre assimétricas, o protegido aceita as condições do patrono, a troco de protecção. O sistema funciona, enquanto o "eleito" puder distribuir mordomias. Um jantar aqui, uma festa acolá, viagens ao estrangeiro, favorecimento nos pequenos negócios da terra, aprovação de construção em terrenos interditos, são alguns dos exemplos de que as nossas autarquias estão cheias...
Em troca, o "padrinho" exige fidelidade absoluta e utiliza o "intermediário" para fazer negociatas em seu nome. Chama-se a isto um "testa de ferro". José Faria era o "testa de ferro" de Avelino Torres.
O pior foi quando este último perdeu a Câmara de Marco e, depois de uma tentativa falhada para conquistar a Câmara de Amarante, foi acusado de diversos crimes, pelos quais está hoje a responder perante a justiça. Nessa altura, o ex-motorista perdeu a protecção. Como parece não ter grande jeito para negócios e ainda por cima começou a dar com a "língua nos dentes", foi aconselhado a mudar-se para o Brasil. Lá tratavam dele. O home acreditou e hoje não tem dentes. Mas tem língua e por isso já declarou querer falar em tribunal, desde que sob protecção policial. Já vi este filme em qualquer lado, mas a história é sempre boa. Porque não adaptá-la ao cinema? Como os "Sopranos", por exemplo...

2008/04/14

Glossário ultra rápido do boyísmo (1)

Este glossário não respeita ainda as regras do acordo ortográfico, segue a sina antiga do p em óptimo e do c de gaita em facto, assumindo no entanto o y de boy sem receio de quem, sendo pelo ph, tenha, de há muito, optado por ser habitante de uma solidão elitista vocabular, em Ortugal (queda involuntária do P que, como na anedota do lete e do cafei, fugiu para Pespanha) e se decida pela agressão verbal contra o precário autor destas notas, um zé ninguém.
No país dos boys é óbvio (em breve obio) que boy e não boi prevalece dado que boi pertence manifestamente ao léxico taurino (tauino após a previsível queda do r de cornos, conos no âmbito acordado, coisa feia e não existente, que se grafará dentro de cinco anos istente).
Porctanto vejamos:
1. O Y distingue o boy do boi. O primeiro fala portinglês e o segundo fala à quarta classe antiga sendo mais clarividente e sensato que o primeiro. É porctanto comum e precvisível ouvir o boy dizer performance como flop como spréde como self made woman assim como nunca usa a expressão fast thinking apesar de portinglesa.
2. O verdadeiro boy usa gel e não usa chapéu. Normalmente o gel é da cor do nó da gravacta ou vice-versa.
3. O boy é de código genético um vice que sonha permanentemente com a oportunidade de ser um primeiro e que, logo que possa, mata o parceiro para lá chegar. Nos cromossomas traz um bafejo cheirando a nabos, a humildade dos nascidos remediados toscos numa beira alta ou baixa e gosta de n coisas caras nomeadamente de sonhar aristocrata turbo.
4. O boy é politicamente correcto pela frente e ladrão por detrás, chegando a vendar o pai, a mãe ou os irmãos. É muito comum não falar com a irmã mais velha por causa da quarta classe antiga dela.
5. O boy é centrista para os dois lados.
6. Os boys crescem como erva daninha.
7. Um boy pêessedê é muito diferente de um boy pêesse. O boy pêessedê consegue ser mais moderno, usar outro tipo de gel e o boy pêesse é mais ligado às sondagens e a perfumado de fresco.
8. Os boys detestam-se e chamam-se boys uns aos outros, depreciativamente, com o ânimo exaltado dos que afirmam o direito à indignação.
9. Há o grande boy de conselho de administração e há o pequeno boy para-autárquico. É comum que o último, depois de sete anos de nojo, chegue a um conselho privado de administração empresarial local ou mesmo público.
10. A história dos boys remonta à introdução do vinho do Porto nas encostas soalheiras do Douro aquando da chegada dos ingleses que nos descobriram assim como nós descobrimos os indianos da Índia. Nessa altura a palavra boy significava rapaz e não rapace, sentido actual do termo. O que os foi unindo na classe dos boys – o sindicato é clandestino – foi a defesa do mesmo princípio relativo à comissão: comissão para cá ou nada feito é a expressão que mais se ouve sempre que se fala de fazer qualquer coisa em que entrem dinheiros públicos. O boy nunca fez nem fará nada de próprio porque ele é, como diz Agamben, o pequeno burguês planetário, o que tudo aposta na indiferenciação indistinta. O boy age sempre na sombra e por conta própria. O boy é mais perigoso que o boi mesmo quando este é da lezíria.
É por estas razões que não gosto dos boys e gosto dos bois.
Finalmente o boy é um AMELO.

(1) Este glossário assume de modo vanguardista uma nova ordem alfabética atirando claramente o a de A para o fim das letras e assumindo o y de boYísmo como a letra Um.

Novo membro

Uma rápida nota de boas vindas ao FLeao, novo membro do Face .

Com genitais não se brinca

Ainda não foi desta que o homem mordeu o cão, mas o cão já mordeu o homem e logo nas suas partes mais sensíveis. Este é o teor da notícia que a comunicação social, televisão incluída, transmitiu este fim-de-semana.
Depois de terem sido achincalhados na praça pública, ao longo das últimas semanas, os "pitbulls" resolveram passar ao contra-ataque. Nada que não tivéssemos previsto.
Lá pôr-lhes o açaime ou prendê-los a uma trela, ainda vá que não vá. É nisso que um cão se distingue de um humano. Mas, castrá-los, impedindo-os de procriar e de ter algum prazer na curta vida que levam desta terra, já é demais.
E se assim "pensaram", melhor o fizeram. Foi um "pitbull", como podia ter sido um "rottweiler". Agora que têm a fama, também devem ter o proveito. Assim como assim, não vão desta para melhor sem fazerem sentir aos seus donos e amigos que com genitais não se brinca.
Pelos vistos, a "mensagem" passou. À cautela, a testemunha do caso, quando interrogada pela televisão, optou por falar de cara tapada. Ele lá saberá porquê...

2008/04/03

Contagem Decrescente

A confirmarem-se as previsões, não deve faltar muito para que o povo do Zimbabwe possa festejar a vitória das forças do MDC (oposição) nas eleições daquele país. Uma vitória que, a ser aceite pelo governo, significará o afastamento de um dos maiores títeres africanos em exercício. Um resultado que os democratas devem saudar.
Resta saber qual a reacção de Mugabe e daqueles que sempre o apoiaram, agora que nada mais lhes restará do que o exílio algures, provavelmente num país "irmão".
A avaliar pela reacção de alguns generais de Mugabe, não é de todo improvável que o ditador africano escolha a confrontação. Nogueira Pinto, um ideólogo do salazarismo que sabe do que fala, afirmou que essa opção (a de ficar, resistindo) dá mais garantias aos ditadores, pois estes não estão livres de serem presos no estrangeiro, como aconteceu a Pinochet durante uma visita médica a Londres...
Dois cenários, portanto, se perfilam: a aceitação da derrota por parte do ditador e o exílio dourado; ou a contestação dos resultados, com a inevitável escalada de violência entre grupos rivais, a exemplo do que aconteceu no vizinho Quénia.
Os democratas de todo o Mundo (juíz Garzon incluído), aguardam ansiosamente a confirmação das previsões indicadas nos resultados desta madrugada.

2008/03/31

Flamenco (ao) vivo!

O evento não teria importância de maior, não fosse esta a primeira vez que um Festival de Flamenco - a sério - tem lugar em Portugal. Iniciou-se na passada sexta-feira, com um "workshop" sobre os diferentes "palos" (estilos) que são a base de tudo; seguiu-se uma palestra sobre os "nuevos flamencos", a cargo de Mario Pacheco; e terminou com um excelente documentário alemão sobre a família Carmona (The Flamenco Clã).
Sábado, foi o dia do primeiro concerto "al toque" (instrumental) a cargo do guitarrista Pepe Habichuela e do Josemi Carmona Sexteto, retratados no filme da véspera.
Seguem-se os concertos de Miguel Poveda (al cante) e da companhia La Moneta (al baile), respectivamente a 19 de Abril e a 17 de Maio próximos.
Nos dias que antecedem os concertos haverá palestras, "workshops" de canto/dança flamenca e filmes (e.o. "Flamenco" de Carlos Saura). Até ao dia 19 de Abril estará patente a exposição fotográfica "Flamencos", de Mario Pacheco.
Todos as sessões são na Aula Magna da Reitoria da Cidade Universitária, temporariamente transformada em "tablao" lisboeta. É caso para dizer: não há fome que não dê em fartura...

2008/03/29

"E chamam a isto democracia"

Uma notável capacidade de síntese revela João Paulo Guerra na sua crónica de hoje do Diário Económico intitulada "Ciclo". A propósito da declaração do Primeiro Ministro que garantiu no Parlamento que a crise orçamental está "ultrapassada" e que os factores que a geraram estão "resolvidos", JPG caracteriza assim o "ciclo económico" português: "ordem para apertar o cinto, uma folga com a aproximação de eleições, cinto de novo apertado."
Assim, neste país amornado, onde o efeito do aquecimento global parece ser o de nos irmos deixando embalar, "as legislaturas têm um ano para enganar incautos e três para os espremer. E chamam a isto democracia."
Espremido e mal pago, o português só parece reagir quando alguém lhe tenta tirar o telemóvel.
..

2008/03/28

Uma visão do conflito no Tibete

Yi-Fu Tuan é uma geógrafo por quem tenho um enorme respeito, cuja vasta bibliografia conheço razoavelmente bem. Desde há algum tempo que mantém um site na internet que inclui uma secção chamada "Dear Colleague Letters". Já em tempos escrevi sobre ele aqui no Face.
Desta feita chamo a vossa atenção para a sua última letter que aborda a questão do diferendo entre o Tibete e a China. Uma visão especial de um americano de origem chinesa, académico de enorme gabarito e observador atento destas realidades sobre a qual vale a pena reflectir um pouco.

2008/03/27

E as Caldas aqui tão perto...

Para quem ainda duvide da descentralização cultural, aconselho a deslocar-se à antiga Lavandaria do Hospital das Caldas, onde a Companhia local - O Teatro da Rainha - leva à cena "Weisman & Cara Vermelha" (um western judaico) da autoria do dramaturgo George Tabori. Uma grande texto, de um autor relativamente pouco ensaiado em Portugal que, amiúde, nos remete para Beckett e Saul Bellow, na sua visão absurda e crítica da sociedade actual. Entre a memória (judaica) europeia e os valores (índio) americanos, os personagens movem-se num "décor" povoado por abutres que esperam uma morte anunciada: a dos valores da civilização ocidental.
A interpretação está a cargo de Fernando Mora Ramos (igualmente responsável pela encenação) para além dos excelentes Bárbara Andrez e Carlos Borges e do actor Octávio Teixeira. Os cenários/figurinos são de José Carlos Faria e a música, a condizer com a paisagem, é de Carlos "Morricone" Augusto. Este é, certamente, um bom motivo para visitar as Caldas da Rainha. Ou, como dizem os programas: agora, em últimas representações!

2008/03/21

Metade do problema

O impacto destas imagens que agora foram divulgadas pelos orgãos de informação e através do Youtube da aluna que tenta arrancar o telemóvel das mãos da professora é fortíssimo. Pessoalmente, o que observo ali é um "deseducador" despique, o total descontrolo de quem devia estar a dominar os acontecimentos, mas está a ser por eles dominado, uma total e absoluta ausência de autoridade, uma sala de aula transformada em "estúdio" de tv e uma notória e inexplicável falta de "técnica" para lidar com estes acontecimentos.
A cena do "clip" não é produto do momento. Levou certamente muito tempo até ter chegado àquele estado de coisas. Houve muito ensaio, muita direcção de actores. E não creio tão pouco que se trate de um acto imputável a este ou àquele professor, a este ou àquele aluno. Podemos imaginar muitos outros actores responsáveis até termos chegado àquela cena em concreto.
Neste momento particular, porém, não é isso que é valorizado e quer-me parecer que o burburinho à volta das imagens pretende passar uma outra mensagem, muito particular.
Estivéssemos nós numa altura diferente e, se calhar, teríamos visto um outro tipo de imagens. Talvez captadas por um aluno que se tivesse lembrado de filmar um momento de prepotência de algum professor, por exemplo...
Tivesse eu telemóvel com câmara quando andava na escola primária e nos primeiros anos do liceu, tivesse eu internet, e teria com toda a certeza colocado no Youtube várias imagens interesssantes de cenas que fui presenciando. Imagens de "castigos" aplicados, de forma mais ou menos fria, pelos professoress sob a forma de palmatoadas, reguadas e outro tipo de agressões ainda mais violentas. Não eram, direi, o pão nosso de cada dia, mas eram, certamente, bastante frequentes. Recordo-me de várias cenas lamentáveis, e de numa ocasião em particular --teria eu uns 11 anos-- um professor de português ter agredido de forma absolutamente selvática, ao pontapé, um colega por causa de um erro numa redacção.
Hoje, estou absolutamente convicto, já não seria possível presenciar cenas deste tipo. A gente, pelo menos, nunca as viu no Youtube...
Neste caso concreto, longe de servir para tirarmos daqui, todos, um qualquer ensinamento, estas imagens parecem-me estar a servir outros propósitos. O que é pena.
E para que o espetáculo continue, para que as responsabilidades se diluam, para ficarmos com uma visão completa sobre metade do problema e para ficarmos com aquela sensação de termos a "liberdade" de tudo poder discutir, para que tudo fique na mesma, talvez aquela senhora da RTP1 se lembre de fazer mais um debate encarniçado sobre este assunto, daqueles em que estão uns de uma lado e outros do outro...

2008/03/19

Hot Clube de Portugal

Nenhum músico, nenhum melómano, ninguém que esteja mergulhado, de uma forma ou de outra, no caldo da cultura poderá ignorar o jazz. E, nesta conformidade, ninguém poderá ignorar o Hot Clube de Portugal, o nosso local de culto, por excelência, deste estilo musical.
Ora, o Hot comemora hoje 60 anos de existência, imaginem só, e eu não queria deixar de assinalar a data aqui no Face.
Falar do Hot é, antes do mais, falar de Luís Villas-Boas, o seu fundador. Figura cimeira da divulgação da música de jazz em Portugal, foi também criador nos anos 60 do Luisiana, situado em Cascais --uma espécie de HCP II, entretanto desaparecido-- e já nos anos 70, do Festival de Jazz de Cascais, por onde passou uma parada inverosímil do who's who do jazz mundial.
O jazz é o sistema de improvisação estruturada mais elaborado que a música ocidental produziu, é uma arte de risco, uma arte sem rede. Não é a arte do registo, é a arte do instante em que é produzida. E o Hot tem tido um papel único em Portugal, ao longo destes anos, ao acolher todo os instantes de que é feita a arte da miríade de músicos, mais ou menos grandes, que por lá têm passado. Também por lá passaram alguns instantes fugazes da minha arte.
A par deste papel de divulgação o Hot abriu nos princípios dos anos 80 uma outra notável frente de acção ao criar a sua Escola. O impacte, certamente fulminante, da Escola do HCP na música portuguesa está por medir, mas estou certo que constituiria matéria de investigação musicológica do mais alto interesse. Alguém agarra o desafio?

2008/03/18

Iraque, ano cinco

Na semana em que passa mais um aniversário do início da guerra do Iraque, os "média" tentam contabilizar o número de mortos iraquianos. O número de mortos americanos é conhecido (cerca de 4.000) e, da sua contagem, encarregam-se diariamente diversos serviços nos Estados Unidos. O "New York Times" mantém, mesmo, uma rubrica onde publica regularmente a fotografia, o nome e o "ranking" do falecido. Quando o número de vítimas americanas atingiu os 2.000, o jornal publicou um encarte com as fotos de todos os soldados mortos. Sem comentários. Uma tomada de posição que calou fundo na opinião pública americana. Três anos mais tarde, não é de todo improvável que o NYT repita a edição, agora a dobrar...
Mais difícil de contabilizar parecem ser os mortos iraquianos. As estimativas variam entre 82.199 (segundo a organização britânica "Iraq Body Count") e os 1.033.000 mortos (segundo a "Opinion Research Business", uma organização de contagem britânica). Mas há mais estimativas: de acordo com o Inquérito de Saúde Familiar no Iraque (governo) elaborado em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, teriam morrido cerca de 151.000 iraquianos. Já o estudo dos especialistas iraquianos, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, calcula terem sido 654.965 os mortos iraquianos, dos quais 601.027 em consequência directa da guerra.
Pesem as metodologias usadas (nem sempre coincidentes) o número 151.000 da OMS, parece ser o mais credível, dado que 92% das mortes foram confirmadas através das certidões de óbito.
Como sempre acontece, não faltaram as vozes "discordantes": Bush à cabeça (who else?) e o governo britânico, cúmplice da invasão, foram os mais críticos em relação aos números apresentados. Entre os tradicionais apoiantes portugueses, o descaramento não é menor: tanto Durão Barroso, como os "fazedores de opinião", José Manuel Fernandes ou Pacheco Pereira, continuam a defender a tese de que "perante os dados conhecidos" (que eram falsos) teriam apoiado a invasão...como se a invasão de um país soberano, à revelia das leis internacionais, fosse defensável. Que tudo tenha corrido mal, parece ser apenas um pormenor sem importância para estes defensores da "democracia ocidental". No fundo, o que são cento e cinquenta mil anónimos mortos?

2008/03/17

Perguntar não ofende...

Deixo uma pergunta singela... A moeda que serve de referência ao preço do petróleo continua a ser o dólar e este desvaloriza-se sistematicamente, como é sabido, face ao euro. Hoje lá foi ultrapassado mais um daqueles "limiares psicológicos" de que os orgão de informação tanto gostam de falar... Isto quer dizer que compramos mais petróleo com menos euros. Por que razão então os preços dos bens e serviços sofrem aumentos baseados no aumento do preço de um produto que na realidade diminuiu?

2008/03/14

Ribau-bau, pardais ao ninho...

Quando a descida do PS passou a ser um factor constante nas sondagens e do principal partido da oposição se esperava uma retoma, rebentou o "escândalo" entre os despeitados "barões" do PSD. Logo agora, que o seu secretário-geral prometia um acérrimo combate ao governo. Ele bem tenta, seja através do apelo à refiliação das "bases", seja alterando o logotipo e as cores da bandeira, mas a imagem não ajuda. A dele, claro.
Não fora as manifestações, que começam a fazer escola nas ruas de Lisboa, e diríamos que quase nada se passava de anormal nesta morronha.
Em contrapartida, o "homem da maratona", que devia ter todas as razões para estar preocupado, vê com alívio que dali não virá mal ao Mundo. Aparenta estar tão descontraído que até recebe entrevistadoras em casa...
Um país esquizofrénico este: enquanto centenas de milhares de pessoas protestam contra as insuportáveis condições em que são obrigados a (sobre)viver, os socialistas reunem para fazer um "balanço positivo" de três anos de governação. Não é de admirar. Com oposições destas, quem deseja no governo um partido de ribaus?

2008/03/08

Reforma Zero

O governo e a ministra da educação vão ter agora um enorme dificuldade em avançar com qualquer reforma do ensino. Os professores ganharam uma força que os ilibou automaticamente de quaisquer responsabilidades no que respeita à questão da qualificação dos portugueses, passada e futura. Tudo vai ficar na mesma.
De paixão em tragédia, assim se transformou a questão do ensino. Depois de todos estes meses, o que fica deste tema é que uns são "pró" outros são "contra"...
Perdemos (mais) uma oportunidade. Seria preciso muito bom senso e muita disciplina individual para ultrapassar a "reforma zero" que vai daqui resultar. Mas, como se previa deste confronto estúpido e inútil entre um governo de nabos e incompetentes e uma classe que não parece estar à altura das necessidades do país, bom senso é palavra que não existe e disciplina individual só se for imposta por uma qualquer carga de chuis solícitos... Não há, pois, nada a esperar.
Os juros políticos que todos iremos pagar por esta aventura vão ser certamente pesados, mas isso até é o menos. O País, esse, segue, como sempre, dentro de momentos.

2008/03/07

Novas Oportunidades

Agora que o nosso sistema de ensino tem vindo a ser tão contestado, é bom ver a polícia voltar às escolas.
Não sei se as visitas estão inseridas nalgum curso de "novas oportunidades", mas penso que devem ser dadas oportunidades novas aos polícias, com vista a obter mais conhecimentos e informações. Conhecimentos e Informações são, como sabemos, as bases de uma sociedade moderna, assente na Investigação e Desenvolvimento, paradigmas de qualquer governo que se preze. As escolas já tinham professores e alunos, faltavam só os polícias. Percebe-se a estratégia: uma vez nas escolas, os polícias não só as guardam, como ainda por cima, aprendem. Ainda dizem mal desta ministra de educação!

2008/03/05

A Guerra das Estrelas

Ainda não foi desta que os Estados Unidos - e o Mundo, por extensão - ficaram a saber quem será o candidato democrata nas próximas eleições americanas. Já no campo republicano, McCain limitou-se a cumprir calendário e a aumentar a sua confortável vantagem, sendo hoje o candidato oficial dos conservadores.
Numa noite de "tudo ou nada" para Hillary, a candidata ganhou dois estados determinantes (Texas e Ohio) e ainda arrecadou uma vitória em Rhode Island. Para Obama, restou Vermont, o estado "mais progressista" do mapa eleitoral americano.
Independentemente do resultado final, lá mais para o Verão, os sinais transmitidos nesta corrida de resistência democrata, confirmaram as tendências conhecidas: mais mulheres, latinos e trabalhadores de "colarinho azul" a votarem em Hillary; mais jovens, negros e classe média/alta, a votarem em Obama. Já em número de nomeações, a vantagem continua a pertencer ao candidato negro, que esta madrugada detinha 1477 lugares contra 1391 da rival. Tudo em aberto, pois.
Resta a questão principal: numa campanha marcada por "jobs, war and taxes" (empregos, guerra e impostos) qual será o candidato melhor apetrechado para debelar a crise americana? A ambiciosa, inteligente, realista e "experiente" Clinton, ou o ambicioso, inteligente, idealista e "inexperiente" Obama?
A avaliar pelos ataques pessoais dos últimos dias, a campanha só pode subir de tom. Não é, de resto, de excluír novas acusações, com vista a destabilizar o adversário. Até ao momento, o "clã" Clinton mostrou ter mais experiência nas "peixeiradas". Não é de todo improvável que resultem. Em Abril, saberemos.

2008/03/04

Hengameh

E, de repente, acontece poesia. Je vois la vie en rose, deve estar a cantar Hengameh, a mulher cujo marido foi condenado a dar-lhe 124 mil rosas! A setença foi ditada por um tribunal iraniano a Shahin, um homem avarento que não cumpriu a sua palavra relativamente ao dote prometido à mulher.
Shahin terá agora de desembolsar o equivalente a 163 mil euros em rosas se não quiser ir parar à cadeia.
A poesia já esteve na rua em 74, como observou Vieira da Silva. Agora foi visitar a Justiça. No Irão.

2008/02/29

Outra Ana

Outra Ana, desta vez de Benavente, resolveu partir a louça. Disse ela que se fosse professora estava na primeira fila das manifestações contra a Ministra da Educação, contra o seu próprio partido. O governo reagiu.
Anda qualquer coisa de verdadeiramente obsceno no ar.
Ao olhar para os cacos que se vão espalhando um pouco por todo o lado, ao observar as acções e o comportamento do governo e das oposições (ontem na AR, por exemplo, foi um autêntico festival!), ao verificar o que vai fazendo mover a política e os políticos, ao ouvir as reacções dos poderosos quando são colocados na iminência de ter de prestar contas, ao sentir a auto-complacência da imprensa, mas, sobretudo, quando vamos nós fechar as contas no término de mais um dia, ficamos com uma fortíssima sensação de enfartamento.
Um sensação que não é afinal tão difusa como pretende o relatório da SEDES.
Num primeira tempo, constatamos que com simples Rennies a coisa, como é óbvio, já lá não vai. Vem então a convicção que teremos de passar rapidamente a uma terapêutica mais agressiva...

2008/02/24

Ana e o cilindro

Há entrevistas assim. A de Ana Gomes à RR, que ontem passou na RTP2 e hoje pode ser lida no "Público", é uma delas. Das entrevistas e das entrevistadas. Marcantes. Resta saber o que acontecerá agora.
Diz Ana, entre outras coisas, que há muito mais dados sobre os voos de prisioneiros da CIA (para Guantanamo) para serem tornados públicos e que este é um processo imparável, como as desculpas do governo inglês de Gordon Brown já o provaram. Não compreende, por isso, que o governo português actual (defensor dos direitos humanos, como ela gosta de frisar) não queira e até impeça um inquérito aberto e profundo sobre tão delicada matéria. Porque é disso que se trata. Uma matéria delicada para Portugal, cujas relações com os EUA o governo do PS não se atreve a pôr em causa.
Mas Ana diz mais: que o acordo da utilização da base das Lajes nos Açores, apesar de existir desde os anos cinquenta, nunca foi ratificado pelos americanos. Os sucessivos governos portugueses (de Salazar a Sócrates) sempre assinaram, mas os EUA não assinam. Limitam-se a utilizar a base (que é nossa). Extraordinário.
Sobre as suas opiniões, e como são vistas dentro do partido a que pertence, não podia ter sido mais esclarecedora: "Começaram por tentar comprar-me dizendo: 'Vê lá se não queres ir para a próxima lista (do PE)'. Depois, era a intimidação, as acusações de deslealdade. Agora estamos noutra, a que quase chamaria de cilindragem. A menos que me passem com um carro por cima, eu não paro". Uma mulher de coragem, a Ana.
Só que, depois, "borra a pintura toda", ao dizer: "Tenho dito que o primeiro-ministro tem sido mal informado e mal aconselhado nesta matéria". Oh Ana, mal aconselhado nesta matéria? O Sócrates? O condutor do cilindro?
E eu que estava a gostar tanto da entrevista...