2010/04/16

Cosa Nostra

Quando, no pico da crise, o petróleo estava a 150 dólares o barril, o preço médio de um litro de gasolina em Portugal era de €1.40. Agora, que o barril está a menos de 90 dólares, o preço médio do litro de gasolina é de €1,40...
Bem se esforçou hoje, no Parlamento, o cada vez menos convincente ministro Vieira da Silva, a explicar que o governo está atento à cartelização dos preços e que por isso existe uma entidade reguladora.
Convinha que o ministro explicasse que o estado arrecada 60% de impostos por cada litro de gasolina vendido e que, por essa razão, quanto mais caro for o combustível, mais receita arrecada o governo.
Esta é a razão porque Portugal, um dos países com os salários mais baixos da União Europeia, paga uma das gasolinas mais caras da União. Estão a perceber o negócio?
Pensarão estes governantes que as pessoas são estúpidas?

Pobres povos que têm tais presidentes

Já não faltava termos de viver internamente, impotentes, sob a tirania do discurso do défice. Já não faltava que fossemos tratados como se existisse um "português genérico" capaz, por si só, de ser o causador de todas as catástrofes financeiras de que Portugal é vítima. Já não faltava que fossemos tratados como se depois de termos provocado a derradeira catátrofe financeira nos tivessemos todos pirado para um qualquer paraíso tropical, para beber água de côco e dançar o hula-hula, deixando os virtuosos do sistema aqui a pagar as nossas contas.
Agora tinha de vir o palerma do presidente checo manifestar, no papel de anfitrião, em cerimónia pública e de forma grosseira, a sua "apreensão" pelo défice português.
O Presidente da República Portuguesa ouviu e calou. Devia-lhe ter respondido que isto é um insulto ao povo português, mas que nós não vamos julgar o povo checo por ter dado o poder a um imbecil como o senhor Václav Klaus demonstra ser.

2010/04/14

O fordismo está de volta... pela mão da PSP!

O fordismo foi aquela ferramenta do capitalismo, tão bem retratado por Charlie Chaplin no seu aterrador filme "Modern Times", que consistia no uso de mão de obra desqualificada para produzir mais e mais barato. Colapsou em toda a linha. Este colapso explica aliás muitos dos problemas com os quais as sociedades contemporâneas se debateram ao longo dos últimos 30 anos e é um dos factores que contribui para a explicação da presente "crise".
Ora, numa altura em que o fordismo se transforma, mais e mais, numa relíquia da história dos povos, ei-lo que parece renascer por via da acção de uma entidade totalmente supreeendente: o Ministério da Administração Interna português!
Segundo o DN de hoje, "a Direcção Nacional da PSP estabeleceu números mínimos de multas, detenções, viaturas a bloquear e a rebocar, operações Stop, entre outras actividades, que devem ser atingidos pelos comandos de todo o País (...)
Um documento oficial do Comando Metropolitano do Porto, a que o DN teve acesso, define objectivos à exaustão. Cada divisão, Gondomar, Maia, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, a 1.ª, 2.ª e 3.ª, e as divisões de trânsito, investigação criminal e aeroportuária, receberam as ordens escritas do intendente Abílio Pinto Vieira dos valores que devem atingir em 2010 na sua actividade operacional.
Tudo ao mínimo detalhe, desde o número de armas que deverão ser apreendidas - e que implica, obrigatoriamente detenções - ao número de arrumadores que devem ser autuados, passando, pelo número de testes de álcool, multas de trânsito e empresas de segurança privada que devem ser fiscalizadas."
Seria, como se costuma dizer, risível se não se tratasse de uma tragédia total.
Compreendem-se os objectivos. Trata-se de criar mecanismos para proceder à avaliação desta força policial. Até aí ainda se percebe.
O que já é mais difícil engolir é que os critérios de avaliação da actuação da polícia sejam determinados, não pela qualidade da sua intervenção (acções preventivas, por exemplo, com a proximidade e empenho que permitiriam diminuir actos e comportamentos que deveriam ser excepcionais e raros, puníveis com raro e excepcional rigor; a avaliação do grau de eficência da actuação das forças policiais quando são solicitadas a intervir; ou ainda a avaliação e a correcção das causas que levam a uma actuação ineficiente, por exemplo), mas por um desempenho desqualificado, de cariz marketing-contabilístico, em torno de factores cujo surgimento revela, ele próprio, amadorismo, e a total inépcia do seu papel e o das outras entidades que devem agir sobre estas matérias.
Digamo-lo com clareza: quanto mais armas, mais as multas de trânsito, ou mais testes de álcool a PSP efectuar mais se revela que não estão, nem eles nem as outras autoridades e organismos públicos, a actuar da forma e no momento mais adequados, parecendo antes quererem-se alimentar antropofagicamente dos podres da sociedade para justificarem o seu salário. Só fazendo previamente vista grossa a estes podres se pode depois vir pedir para actuar desta forma sobre eles.
Prevenir e não remediar, deveria ser este o lema da actuação da Polícia.
Há contudo uma avaliação urgente e necessária que esta medida, vá ela para a frente ou não, vem revelar como possível e absolutamente desejável: os "génios" que se lembraram disto deviam levar nota zero na sua própria avaliação!
Se o Ministro da Administração Interna não fizer já esta avaliação nós, cidadãos, cá estaremos para o avaliar a ele...

2010/04/13

Notícias do Taguspark

Afinal, parece que houve mesmo corrupção passiva. Pelo menos, foi essa acusação que o MP deduziu contra Rui Pedro Soares (o jovem quadro promissor da PT, lembram-se?), Américo Thomati e João Carlos Silva. Vá lá, ilibaram o Figo, pois ser "pesetero" não é necessariamente sinónimo de corrupção. Acontece cada coisa...

2010/04/10

Porque não?

O Deco, o Pepe e depois o Liedson puderam alinhar por Portugal por razões mais fúteis. Não me digam que a Cidinha não era mais útil... Ia ter e dar imenso trabalho aqui na AR e de certeza que ficava mais barata que os "craques" da bola.

2010/04/01

Os instalados do regime

Alguém dizia hoje que o facto do BPP ser o primeiro banco a falir depois de reinstaurada a democracia era uma elucidativa indicação do estado em que estava a democracia. Talvez se pudesse, e fosse mesmo mais conveniente, colocar as coisas ao contrário: a falência desta democracia diz bem do estado a que chegou o BPP.
A falência desta democracia diz igualmente bem do estado em que estão as empresas públicas, a imprensa, as autarquias, a justiça e tantas outras das suas instituições. A falência da democracia diz bem do estado a que chegou... o povo! Sim, o povo vulgar, que cai na tentação de entrar neste samba. Hoje mesmo, numa operação da PSP e da GNR, foram detidas ou autoadas 130 pessoas, apanhadas a conduzir sem carta, alcoolizadas, com armas, droga, etc, etc. 130 pessoas numa noite de pescaria é obra!
Não me interpretem mal: sou partidário da democracia. Mas, por muito que não se queira, o problema de Portugal é mesmo um problema de regime. A democracia, esta democracia, não está de boa saúde e as causas não serão difíceis de encontrar.
Dá uma enorme vontade de rir quando nos lembramos da conversa dos bonzos da democracia actual,  falando, então como agora, dos excessos do PREC para justificar as suas investidas contra os partidos e forças que rotulavam --e rotulam!-- de radicais, e os vemos neste momento dengosamente refastelados nesta "democracia" que contrapuseram ao PREC, sobre a qual o Carlucci e seus acólitos verteram la sauce diabolique dos seus dólares, francos, deutsch marks e coroas. Foi contra o "radicalismo" de Abril que se ergueu esta "democracia" que agora temos, tão sóbria, contida, equilibrada, espartana e moralmente inatacável, como todos podemos observar... E foi nela que se instalaram os "anti-radicais" de antanho que hoje comandam, lambareiros e chocalheiros, todos os sectores da vida nacional.
Creio que a democracia não tem arcaboiço para uma média tão elevada de escândalos por dia. Creio que nenhuma democracia, digna desse nome, pode acolher tanta desigualdade e tanta injustiça.
Creio também que nenhuma democracia se dá bem com tanto "deixa-andarismo" e indiferença. Está pois na hora de correr o "desinstalador"...

2010/03/31

yellow submarines

De acordo com o "Der Spiegel" o montante pago em subornos no negócio dos submarinos poderá atingir os 36 milhões de euros. Imagino a inveja dos pescadores portugueses: Quantas toneladas de robalos não poderiam ser comprados com tal maquia?

2010/03/25

O crime compensa

Lê-se e não se acredita.
Ricardo Sá Fernandes (advogado) foi condenado a pagar 13.000 euros a Domingos Névoa (empresário) por ter chamado corruptor ao presidente da Bragaparques.
Névoa, que tentou corromper o irmão de Sá Fernandes, a troco de dezenas de milhares de euros (está gravado), teve de pagar pelo seu crime 5.000 euros. Grande negócio.
Digam lá se isto não dá vontade de rir?

2010/03/24

Sabem o que eu desejo às agências de rating?

O Rui Tavares chama a atenção hoje no Público sobre a nova emigração para o Brasil. É verdade, conheço alguns casos como os que ele descreve. Mais perturbante é a sua afirmação de que esta emigração vai ter novas tonalidades. Mais portugueses vão descobrir o Brasil. Serão mais e, sobretudo, mais cérebros e mais gente de iniciativa. Mais mulheres também, pelo que indicam outros dados disponíveis.
Uma dessas associações de indigentes a que chamam pomposamente "agência de rating" emitiu hoje um qualquer parecer sobre a economia portuguesa, baixando a nossa classificação. Os termos desse parecer são um insulto a todos os portugueses! A todos nós que trabalhamos e vivemos neste país, a todos nós que sentimos esta impotência que nos impede de fazer o que tem de ser feito, a todos nós que nos sentimos de mãos e pés atados para ultrapassar as nossas dificuldades, mas que teimamos em resolver os nossos próprios problemas, a todos nós que lutamos contra um sem número de dificuldades ridículas e espíritos tacanhos, a todos nós, em especial, os jovens, cujas esperanças são, tão depressa, levianamente levantadas, como, logo de seguida, levianamente destruídas, a todos nós, incluindo aqueles novos emigrantes que voltam a ter de colocar a mochila às costas e a calcorrear caminhos que julgávamos definitivamente intransitáveis.
Ouço e leio as "sentenças" dessas agências e não posso reprimir um sentimento de enorme revolta.
O governo toma, perante o nosso olhar quase (ou já?) complacente, medidas consideradas indispensáveis, com aquele ar de depois-de-mim-o-dilúvio --medidas que exigem o nosso sacrifício brutal, sem contrapartidas nenhumas--, para logo a seguir vermos o rating descer porque essas medidas são consideradas insuficientes. O PEC, dizem eles, não se debruça suficientemente sobre o crescimento da economia. Um PEC sem pica, dir-se-ia...
Aqui há dias, alguém cujo nome não consigo recordar, dizia, com razão, que mesmo que conseguíssemos cumprir todas as metas de correcção dos défices e reordenamento das contas públicas, era preciso que a nossa economia crescesse, porque há o "depois". Se, depois de tudo estar corrigido e saneado, continuarmos sem crescimento, voltamos ao mesmo. E para haver crescimento tem de haver trabalho, inovação, empenhamento e mobilização de todos.
No meio de tudo isto, olho à minha volta e vejo a esmagadora maioria dos meus concidadãos a derreter por aqui, inutilmente, a sua energia, à espera de um qualquer sinal, de um qualquer pretexto mobilizador para dar sentido a essa energia. "Just say the word" parecem dizer os portugueses...
Em contrapartida, constato que conseguimos o pleno: um governo surdo, capitulante e totalmente incapaz, uma oposição sem dimensão, entretida consigo própria e o olhar das agências de rating que preparam o terreno para sermos comidos vivos, ainda com mais voracidade. É este o preço irónico da condição de economia periférica: abrimos o apetite das economias centrais...
E metidos nesta embrulhada toda, estamos nós, os portugueses, vulgares, entalados entre uma indesejada delegação de competências e o garrote do usurário.
O PEC que os pariu a todos!

2010/03/22

Dignidades e recursos

Verdadeiramente insólito é o facto do Primeiro Ministro não ir à comissão de inquérito parlamentar sobre o negócio da compra da TVI, invocando, segundo o Público, a "defesa da dignidade do cargo" e fazendo acusações de tentativa de transformação do "Parlamento numa instância de recurso."
O senhor primeiro ministro está perante um duplo desafio, um desafio sério, perfeitamente à sua altura. Em primeiro lugar, ao recusar-se a falar perante um orgão de soberania no pleno exercício das suas competências, vai ter de desfazer perante os portugueses uma contradição: como é que concilia, ao exigir respeito pelo seu cargo, o respeito que é devido à AR, outro orgão de soberania. Em segundo lugar, como é que contraria a sensação, que todos nós passamos a ter, de que desta forma parece querer transformar-se, ele próprio, numa instância de recurso em relação à matéria que aquela comissão pretende legitimamente apreciar.

2010/03/19

Desculpem o atraso...

Foi anteontem lançado o Sidereus Nuncius, O Mensageiro das Estrelas, o clássico livro onde de Galileu dá conta das suas observações astronómicas, publicado há 400 anos. Uma edição magnífica da Fundação Calouste Gulbenkian.
A tradução portuguesa demorou 400 anos... Mais ainda do que o tempo que levou à Igreja Católica a pedir desculpa pelo tratamento miserável que deu ao ilustre e, seguramente, mais inovador representante da Revolução Científica dos séculos XVI-XVII.
Este atraso de 400 anos explicará, quiçá, o nosso estado actual e a dificuldade com que se debatem as nossas tentativas de recuperação, quase sempre baseadas em pressupostos obsoletos e ideias tacanhas.
Já agora, para quem gosta da figura, recomendo a leitura de um livro chamado Galileo's Dream de Kim Stanley Robinson. Ficção à volta da figura de Galileo.
O que não é ficção é o Sidereus Nuncius. O centro do Universo não é afinal a Terra... Quem havia de dizer, ao fim de todo este tempo!? Eppur si muove...

2010/03/18

Rolhas, Tenazes, Purgas e Exclusões

Desde o passado domingo que a célebre "lei da rolha" vem animando os espaços de opinião daqueles que defendem a plena liberdade de expressão. Como não podia deixar de ser, o PS julgou ver aqui uma oportunidade para desviar as atenções das acusações que são feitas ao governo neste capítulo, acusando o PSD de falta de espírito democrático. Acontece que estes partidos - todos - têm telhados de vidro e, ainda mal os "campeões da democracia" tinham começado os ataques, já um excluido autarca de Matosinhos vinha denunciar práticas internas que tão bem conhece. No PS, a "Lei da Rolha" chama-se "Tenaz" e os militantes críticos são purgados à boa maneira estalinista. Narciso Miranda, pois é dele que se trata, prometeu mais revelações e a coisa promete não ficar por aqui. Pelos vistos, ele não foi a única vítima e a lista de "purgados" é extensa.
Já tinhamos as vítimas do fascismo e do comunismo. Temos agora os "excluídos" dos partidos do centrão, "impolutos" campeões da liberdade e da democracia. Desta forma, ficam todos na mesma fotografia. A fotografia da "rolha" e da "tenaz", da "purga" e da "exclusão", da intolerância e da censura, da hipocrisia e da mentalidade fascista e totalitária que sempre os caracterizou. Todos diferentes, mas todos iguais, afinal.

2010/03/17

Plano de Empobrecimento Colectivo

Ouvir Pedro Adão e Silva dizer que o actual PEC é um documento alheio ao ADN do Partido Socialista, diz mais sobre a deriva ideológica que grassa actualmente no partido do governo de que todas as críticas que os partidos da oposição possam vir a fazer ao programa de estabilidade e crescimento anunciado. O jovem turco do PS não podia ser mais claro: o documento não só contradiz as promessas eleitorais do PS (não aumentar impostos, aumentar o investimento público e reduzir despesas) como - mais uma vez - vai sacrificar a larga maioria do assalariados portugueses, agora eufemisticamente denominados de "classe média", e que são quem vai pagar uma crise da qual não têm culpa alguma. Pior, as deduções fiscais anunciadas, vão atingir principalmente os grupos mais desfavorecidos da sociedade portuguesa: desempregados, reformados com pensões baixas e dependentes do subsídio de inserção social, para não falar dos desempregados de longa duração, os quais não têm qualquer espécie de apoio após os meses de subsídio a que têm direito. Qualquer coisa como dois milhões de pessoas.
"Medidas de direita que o CDS subscreveria", as palavras são de Adão e Silva e, a avaliar por outras vozes dissonantes dentro do seu partido (Paulo Pedroso, João Cravinho, Maria de Belém), uma prova de que o socratismo já nem os seus soldados consegue motivar. Resta saber se, no PS, há gente suficiente que se reconheça nestas palavras, ou se o partido vai prosseguir no caminho autista que vem trilhando de há cinco anos a esta parte. Para já, as notícias não são animadoras e não parece existir plano que melhore as projecções conhecidas. O único plano conhecido é mesmo o do empobrecimento nacional.

2010/03/11

Leis e corolários

Os jornais revelaram recentemente um inquérito, levado a cabo pela BBC, dando conta que 87% dos portugueses consideram a Net como um direito fundamental. Só os turcos nos batem nesta fé digital.
Contudo, há um outro resultado bastante perturbante neste inquérito. 53% dos portugueses inquiridos revelam que se sentem inseguros quando expresssam das suas opiniões usando este meio.
Os portugueses, com outros povos que estiveram ou estão sujeitos ao garrote da censura, prezam a possibilidade de exprimirem livremente os seus pontos de vista, e vêem naturalmente na net uma garantia dessa liberdade e do repeito pelos seus direitos. Mas, avisadamente, percebem que há por aí ainda muitas caixas de lápis azuis escondidas.
Intuitivamente, sentimos que os espaços de opinião, designadamente aqueles que a internet proporciona, são espaços de liberdade rigorosamente vigiada. E não estou sequer a referir-me ao controlo do poder. Os próprios cidadãos convivem mal com a opinião dos outros. Embora o exercício público, saudável, desejável e democraticamente indispensável, do direito de opinião vá assumindo formas variadas e pujantes, esta prática da cidadania através da manifestação livre e responsável é ainda um acto que está longe de ser banal, e está visivelmente mal enraizado nos nossos hábitos colectivos.
Repare-se nos blogues e, sobretudo, no comentário. Aí se vê o mais das vezes o quanto esse exercício é penoso para alguns e suscita indisfarçáveis tiques fascistóides a outros. É disso exemplo o culto do "anonimismo" e a tentativa de boicote técnico, mais comum do que se pensa.
Numa perspectiva mais alargada, esta bronquite cívica, que impede a opinião de respirar livremente, longe de ser uma tendência em declínio, parece querer medrar.
Depois de --certamente com justiça, pelo que se sabe hoje-- o PSD ter acusado o PS de "asfixia democrática" (eu chamo-lhe bronquite, mas continuamos sempre no domínio da pneumologia...), eis que o próprio PSD faz aprovar uma norma que nos lembra aquela máxima do Frei Tomás.
Santana Lopes exigia neste último congresso do seu partido, que o primeiro ministro se demitisse ou "desse um murro na mesa", como forma de responder à crítica sobre as sinistras tentativas de limitação da liberdade de imprensa que lhe é feita. Logo a seguir vem propôr e vê aprovada a tal "lei da rolha" desenhada para conter a crítica interna. O congresso aprovou, Sócrates deve-se ter rebolado a rir com o resultado da votação e os paladinos da asfixia democrática foram todos para a tenda de oxigénio respirar à vontade...
Enquanto se critica o regabofe inaceitável a que tudo isto chegou, vemos aparecer por aí umas criaturas, aparentemente pias, preocupadíssimas com a possibilidade de a crítica a estes partidos, a esta vergonha de seitas que desgraçadamente temos de aturar, a estes partidos que dão tais exemplos de irresponsabilidade, poder estar, quiçá, a abrir a porta a putativos ditadores que saiam da toca e tomem conta da ocorrência. É o corolário da lei da rolha...

2010/03/10

Pessoas de Bem

Assistir às sessões da Comissão de Ética, que por estes dias decorrem na Assembleia da República, pode não ajudar a esclarecer quem pressiona quem, mas ajuda-nos certamente a perceber quem são sempre os mesmos que pressionam. Se já tinhamos as pressões de Sócrates (denunciadas explicitamente por Mário Crespo, Henrique Monteiro, Moura Guedes e Eduardo Moniz) ontem tivemos as pressões de Morais Sarmento (denunciadas por Henrique Granadeiro, ao tempo administrador do grupo Lusomundo). Segundo Granadeiro, o ex-ministro de Durão Barroso e Paulo Portas ter-lhe-á exigido a demissão de Leite Pereira (JN), Luís Tadeu (CM) e Joaquim Vieira (GR), directores de publicações controladas pela Lusomundo. Sarmento já se apressou a desmentir e quer agora ir à Comissão contar a sua versão. A opinião pública está a ficar cada vez mais baralhada e, se calhar, é mesmo essa a intenção: baralhar e dar de novo. Para que tudo recomece, com os partidos do costume a pressionarem e a manipularem os grupos económicos que detêm orgãos de informação e para serem estes a pressionarem os jornalistas. Daí ao despedimento, ou à aceitação da auto-censura, a que muitos jornalistas se prestam, vai um pequeno passo. Se isto não é pressão, vou ali e já venho. Tudo gente de bem, como se depreende.

2010/03/09

À guitarra e à viola

O Face foi alvo de uma tentativa de violação. É um facto. Não alinho em teorias da conspiração, acredito em coincidências e não quero fazer tempestades em copos de água, mas é um facto que houve uma tentativa de entrar aqui. Isto está a ficar interessante...
Temos backups do blog e, se por um azar, este ficasse inoperacional era subsituído em segundos.
É tudo.

2010/03/08

Há vida para além do PEC

A música não vai salvar o mundo, mas pode ajudar. O projecto das Orquestras Geração é uma iniciativa da Fundação Gulbenkian e da Câmara da Amadora, apoiado na Escola de Música do Conservatório Nacional e na Fundação EDP. Já conta, creio, dois anos. A inspiração vem do conhecido Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis venezuelano, fundado por José António Abreu.
É justo dizer que no domínio da aplicação dos princípios da inclusão social e da aprendizagem do trabalho cooperativo através da música, as bandas filarmónicas, em particular --de uma forma voluntarista e totalmente desapoiada-- e as escolas Menuhin vêm de há muito dando um contributo decisivo nesta matéria. Mas, estas Orquestras Geração constituem um caso de sucesso, hoje e aqui, que contém lições que ultrapassam em muito o domínio das artes.
Se o País quisesse mesmo perceber o que tem de fazer para conseguir ir além do sacrossanto PEC --uma oportunidade perdida; um documento que lá ficou naturalmente aquém do que os abutres esperavam e do que seria necesssário-- bastaria atentar nos princípios e nos resultdos destas Orquestras Geração. Está lá tudo para quem quiser entender. Tudo!
Eu aconselharia os governantes (incluíndo a pianista Gabriela Canavilhas), os opinadores, políticos e para-políticos paralíticos deste país a atentarem melhor nestes exemplos que estão mesmo debaixo dos seus narizes e a inspirarem-se neles para fazer qualquer coisa de verdadeiramente útil pelo país.
Portugal entendido como uma orquestra de gerações? Uma orquestra criada para combater a exclusão social, onde o contributo de todos e de cada um é valorizado e onde cada um é responsável pela qualidade e valor colectivo desse seu contributo, onde se ensinam as virtudes do trabalho cooperativo e se enaltece a necessidade de regras colectivas para atingir um fim maior? Porque não?
Dá trabalho, exige criatividade e paciência. Se não perceberem vão lá ouvir estes miúdos que eles ensinam-vos como é...

2010/03/04

Uma leitura demolidora da Leya...

Uma chamada especial de atenção para o "Ainda Ontem" de hoje de Miguel Esteves Cardoso no Público, com o título O Ultraje.
Saúdo o desassombro e subscrevo tudo o que escreveu, até ao fim...

2010/03/03

Televisões portuguesas: o horror à música

Os portugueses serão menos musicais que os outros povos? Gostarão menos de música? Praticarão menos música per capita? Será a sua estrutura neurológica diferente da dos outros, no que respeita às áreas dos seus cérebros que reagem ao fenómeno musical? A música fará menos parte do seu dia a dia? Estarão menos interessados do que os outros na música que se faz fora do seu país? Estarão, perguntaria mesmo, menos interessados na sua própria música e nos seus músicos do que os outros povos demonstram estar pela sua, própria?

Estas e outra perguntas acodem-me à mente quando, de repente, tomo consciência que não vejo um programa de música nas televisões portuguesas há muito, muito tempo. Não me refiro a essa imbecilidade dos programas dos tops. Nem me refiro à inclusão de músicos que vão tocando nos pouquíssimos programas que têm banda residente.

Refiro-me aos concertos, aos programas gravados em estúdio, às séries de música, aos programas musicais especiais, em particular os que envolvem música e músicos portugueses. Nem um, em nenhuma das televisões existentes, com especial relevo para a RTP, a tal que é paga, a peso de ouro, por todos os portugueses, a tal cujo orçamento parece não chegar nunca, cujas receitas parecem nunca ser suficientes, e que se vai desdobrando em ámens aos governos e programas para atrasados mentais.

Há uns anos ainda se viam umas séries cuidadosamente seleccionadas sobre música, rock, jazz, clássica (sempre do estrangeiro que cá não há músicos...), programas geralmente de grande qualidade. Já não peço um concerto do Francisco Lopez ou do Pedro Carneiro, nem sequer um daqueles videos do Tiago Pereira. Por mim bastaria um enlatadozinho, desses vindos dos States, ou da BBC, com música mainstream, que fosse, mas música!

Adorava aqueles casamentos musicais improváveis do Jools Holland. Que é feito do Jools? Ou o “Night Music with David Sanborn”. Escutava com prazer os programas do Rui Neves, ou as outras músicas do Zé Duarte... Onde param essas músicas? Adoraria saber o que escondem os arquivos musicias da RTP, que, suspeito, contêm tanta coisa fantástica...

Que é feito de tudo isso?!

E já nem queria programas de música de iniciativa e produção próprias, com música e músicos portugueses. Bastavam os enlatados...

Mas, nada, nem um! Ziltch!

Nem uma banda filarmónica, um coro, uma orquestra juvenil, um quarteto de cordas, um tocador de flauta de bisel, a banda da GNR, nada!

Não há o perigo do fenómeno musical se banalizar em Portugal. Aqui, a música está na categoria do fenómeno raro, só talvez observável por meio de equipamento especial, como aquelas câmaras de infravermelhos que registam o aparecimento de um animal em vias de extinção, desses raros que vivem nas florestas recônditas.

A última coisa que me lembro de ver há já bastante tempo, relacionada com música, foi uma série (excelente, de resto) sobre a história da música portuguesa, de autoria de Jorge Matta, que passava a uma hora daquelas que sugere que a RTP não levou este trabalho muito a sério...

O que é mais trágico, mas ao mesmo tempo cómico, é que vejo com alguma frequência músicos, compositores e musicólogos em programas chamados "culturais" (haverá outros?) a falar pormenorizadamente sobre música e sobre questões da vida musical portuguesa como se fosse uma coisa acessível a toda a gente. As televisões passam uma entrevista com um compositor a falar da sua própria música, o que demonstra o interesse editorial neste assunto, mas o responsáveis pela programação parecem incapazes de experimentar incluir na sua grelha a música de que esse compositor fala. Aquilo que devia ser uma reflexão a posteriori sobre a prática corrente, é transformado, sabe-se lá por que razões obscuras e numa total inversão do cenário, no eixo da programação.

Tolera-se algum parlapié sobre a música, mas dá-la a ouvir parece estar absolutamente fora de questão.

Trata-se, francamente, de um fenómeno aberrante e de uma estranha forma de praticar e fomentar a cultura: convidam-se uns músicos e uns compositores, arranja-se um apresentador que fala sempre de modo pomposo sobre questões que obviamente não domina, produz-se um espetáculo sobre os músicos e compositores a falar de música, mas não se mostra a música. As televisões encavalitam-se, sempre que podem, no "social" que os músicos e compositores geram, concentram-se no epifenómeno gerado por esses músicos e compositores, exploram alguma da sua dimensão mais "circense", susceptível de ser valorizada pela câmara, mas esquecem-se de mostrar a actividade que está na base de tudo isto: a música.

O horror à música das televisões “generalistas” portuguesas é um fenómeno que só encontra paralelo no clássico fenómeno do horror que a natureza tem ao vazio. A televisão portuguesa abomina música.

E, no entanto, por esse mundo fora, as televisões dos outros países passam imensa música, de todas a "convicções", e fazem mesmo uma coisa que as televisões portuguesas não fazem: debruçam-se, imaginem, sobre a música e os músicos portugueses. Músicos que por cá vão observando os ecrãs, vazios da sua arte.

Ele há défices e défices, não é...?

Sobre a rádio falarei noutra oportunidade...



(a foto foi retirada do site da Biblioteca ETG de Barcelos)

2010/02/27

Os anónimos e a irresponsabilidade ilimitada

Os comentários deixados neste blog foram sempre moderados por causa do eventual e desagradável spam. Com o uso do "captcha" o spam deixou de ser um problema. Mas, até hoje nenhum comentário dirigido ao blog deixou de ser publicado. Vamos continuar a publicar tudo. Mas, a partir de agora , para além de serem moderados, os comentadores passarão obrigatoriamente a ter de possuir uma identidade qualquer. Os comentários, seja qual for a sua natureza, continuarão a ser publicados como habitualmente, os comentadores até podem manter o "anonimato", mas será necessário ser um "anonimato conhecido".

Faço notar que o que muda é mesmo apenas o facto de qualquer comentador ter de possuir um identidade pública (do blogger ou do OpenID), visto que nós também a temos.

É uma questão institucional.

"Anónimo" não é identidade. É cobardia pura, para a qual não há pachorra. Não me atrapalha absolutamente nada ter comentários neste blog, não me chocam de todo as brejeirices, não me importa o vazio das apreciações ou os desvios do tema, nem mesmo os insultos me fazem cócegas. A prova é que, tendo nós o privilégio de aprovar ou não a publicação desses comentários e o privilégio até de, pura e simplesmente, não ter comentários, tudo o que é "anónimo" pôde sempre mandar, sem problemas, os seus recados aqui para o Face.

Mas, a partir de agora, quem o quiser fazer vai ter de assumir a sua responsabilidade, perante nós e os outros leitores do Face.

É a nossa prerrogativa e um dever que temos para com esses leitores que fazem o favor de comentar, mas não se escondem num pretenso anonimato, de forma cobarde. Pela nossa parte, sabemos desde sempre qual a origem dos comentários "anónimos", se vêm da margem sul ou da margem norte, deste ou daquele servidor, mas a partir de agora acaba o anonimato. Esperamos os vossos comentários e pedimos desculpa pelo eventual incómodo.

2010/02/26

L'Omertà

Os depoimentos das testemunhas convidadas para participar nesta mega-audição, em que se transformou a Comissão de Ética, corroboram grosso modo as posições já conhecidas dos principais intervenientes - jornalistas, empresários e políticos - que reafirmam (ou negam), interferências do governo em orgãos de comunicação social. Depois de prestações nada prestigiantes de jornalistas com alguma reputação, como Mário Crespo e Felícia Cabrita, o director do "Expresso", Henrique Monteiro, foi o primeiro que, de forma explícita, confirmou ter recebido um telefonema do primeiro-ministro a pressioná-lo para não publicar notícias sobre a sua licenciatura. Monteiro acrescentaria que, as pressões, existem sempre, mas são normalmente feitas à "posteriori" (como o BES ter retirado a publicidade do jornal), mas esta foi a primeira vez que a pressão foi feita antes do próprio artigo ter saído.
Já da parte dos principais visados na tentativa de compra da TVI pela PT - Vara, Penedos e Rui Soares - as declarações primaram pela unanimidade. Ou melhor, todos, sem excepção, recusaram responder a perguntas em "segredo de justiça". Um aparente contrasenso já que, diariamente, diversos orgãos da comunicação social (CM, Público, SOL, Expresso, etc.) publicam extensos excertos das conversas telefónicas tidas entre estas três personagens, sem que o seu conteúdo tenha sido desmentido. Ou seja, na "forma", eles têm razão (o segredo de justiça está a ser quebrado, o que é ilegal), ainda que os "conteúdos" sejam verdadeiros e falem por si. Compreende-se, como nos filmes, tudo o que os arguidos disserem pode ser usado contra eles. Nesses casos, vale mais prevenir do que remediar. Nada como a célebre "Lei do Silêncio".

2010/02/22

Derrocada

O donatário da Madeira mostrou mais uma vez do que é capaz. À falta de matéria substantiva a propósito do que ali se passou e perante a ausência de explicações sobre a razão pela qual tanta coisa, que poderia ter amenizado a catástrofe, falhou de modo tão grosseiro e evidente, apressou-se logo a apelar a um inconcebível silêncio noticioso sobre a região, porque, não-sei-quê, a "economia" era muito dependente do exterior, e, blá-blá-blá, os "mercados", etc e tal...
O apelo era, em si, já perfeitamente patético e bastante estranho para um Presidente do Governo Regional, mas um simples gesto do Cristiano Ronaldo no jogo de ontem, depois de marcar ao Villareal, veio deitar mais por terra e contrariar totalmente o donatário, deixando-o ainda em piores lençóis.
Ninguém, ninguém!, vai esquecer que Jardim manda, omnipotente, na Madeira desde 1978 e que teve, portanto, no âmbito da sua esfera de responsabilidade, tempo suficiente para fazer pela região autónoma algo mais.
As falhas do governo regional estão à vista de todos. Que caia com grande estrondo!

(foto AP)

2010/02/19

Nobre escolha

Fernando Nobre, actual presidente da AMI, anuncia hoje, formalmente, a sua candidatura a Belém. Uma decisão algo surpreendente, ainda que seja conhecido o apoio que deu a diversas candidaturas e formações políticas ao longo dos últimos anos. Do PSD ao BE, passando pelas candidaturas de Mário Soares, António Capucho ou António Costa, o presidente da AMI tem mostrado a sua disponibilidade para apoiar causas públicas em que acredita. Nada a opôr.
A sua disponibilidade para, agora, se candidatar ao mais alto cargo da nação tem, no entanto, características diferentes. Pela primeira vez, deixa de ser apoiante de um partido ou político específico, para pedir o apoio destes. E das duas uma: ou o presidente da AMI, pensa que as suas ideias são suficientes para mobilizar um eleitorado cada vez mais descrente nas instituições que nos representam, naquilo que poderíamos apelidar de vaga de fundo para a"moralização da coisa pública"; ou o presidente da AMI dispõe já de um apoio concreto (aparelho partidário) que lhe garanta iniciar uma campanha eleitoral, com alguma probabilidade de sucesso, contra dois candidatos de peso: Cavaco Silva e Manuel Alegre.
Interrogado ontem, à chegada ao aeroporto, Nobre reafirmou alto e bom som que não era apoiado por nenhum partido, nomeadamente pelo partido socialista. É bem capaz de ser verdade.
Uma coisa parece certa, Nobre será sempre um candidato de "esquerda" nestas eleições e, nesse contexto, um concorrente de Alegre contra Cavaco. Independentemente de vir a ter o apoio de qualquer partido, o partido que apoiar Nobre não apoiará Alegre e vice-versa. Ou seja, Nobre, com a melhor das intenções, contribuirá para a divisão daqueles que se opõem a Cavaco. A manterem-se os pressupostos actuais, e caso estes três candidatos mantenham as suas candidaturas, não é difícil vaticinar que o actual presidente será, mais uma vez, eleito. Como escreveu o conhecido filósofo, a "história repete-se, agora como comédia".