2010/07/03

"Tudo o resto é hermenêutica"

Alberto Manguel é um autor por quem tenho uma especial admiração. Numa excelente entrevista publicada ontem no Público, quando lhe perguntam se pensa que a leitura está a perder terreno, responde "O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor é preciso ser estúpido."
Não sei se a Ministra da Cultura percebe perfeitamente o que significa ocupar um cargo de Estado e se sabe do que fala quando usa a expressão hermenêutica no seu artigo "Cultura sem hermenêutica", também ontem vindo a lume no Público.
Mas, sei que esse artigo confirma a total justeza do comentário de Manguel.

2010/07/02

"Façam sopa!"

Prossegue a nova telenovela "Ao Vivo com a Telefónica". Os accionistas não querem saber do valor estratégico da PT. O Governo decide ditar a política de gestão da empresa. Se tem valor estratégico por que razão está na mão de privados? Se deixaram que se tornasse privada por que razão o governo decide intervir?
O valor estratégico da empresa resume-se --uma ideia chave que me parece consensual-- à sua capacidade como empregadora e criadora de mais valia tecnológica inovadora. A Vivo só estorva neste contexto. Vamos inovar tecnologicamente para a Vivo? É isto o valor estratégico da PT?
A inovação e a mais valia tecnológica constituem um activo que não tem limite e pode ser rentabilizado até ao infinito. A Vivo limita o desenvolvimento estratégico da empresa. Os espanhóis querem a Vivo e oferecem pela empresa praticamente o que vale PT. Os portugueses acham que sem a Vivo voltam ao campeonato da 2ª divisão. O sentido de "inovação" e a dimensão do seu conceito de futuro revelam-se em todo este processo: passa por vender chamadas aos brasileiros.
Eu cá nem hesitava. Vendia já a Vivo, criava uma PT fornecedora de mais valia tecnológica inovadora e comercializava-a. Se calhar, vendia-a à Vivo, à Telefónica e a quem mais dela necessitasse. Com a massa feita pela venda criava um grande centro de inovação tecnológica, uma coisa mesmo a sério num projecto com dimensão. A PT é talvez a empresa que está melhor colocada para corresponder aos desafios que se colocam a Portugal.
Mas, sair da "crise", pelos vistos, para estes dirigentes é obrigar uma das maiores empresas nacionais a remeter-se ao papel de vendedor de chamadas a brasileiros e assim ir criando mais valias financeiras que vão enganando o défice... Eis o significado de estratégia.
Por aqui se vê o que valem a ambição, a visão, o sentido de voo e de valor acrescentado e os grandes desígnios de todas estas aventesmas que nos dirigem politicamente. O que vale o discurso tipo Magalhães.
Por aqui se vê também o que vale a crítica dos críticos deste governo, porque ainda não vi ninguém insurgir-se contra esta tendência para o voo rasteiro e esta ambição que se fica pela criação de pacotes de chamadas para brasileiro comprar. De uma forma ou de outra (a favor ou contra a golden share), os partidos querem é vender chamadas. Todos unidos contra os espanhóis! Este caso convocou os fantasmas de Aljubarrota e até criou um inusitado grupo de "bed fellows", como se diz em inglês.
É isto Portugal hoje. O TGV avança, para logo recuar, os chips avançam para logo recuarem, a retroactividade dos subsídios na cultura avança para logo recuar. E agora, para completar o ramalhete, a PT transmite a Vivo em diferido.
Hoje o PM achava que perante um novo recorde da taxa de desemprego está tudo na maior, a Ministra da Cultura defende a venda da hermenêutica também quiçá aos espanhóis, ou mesmo aos brasileiros, e a Ministra da Saúde manda, de forma grotesca, a malta  "fazer sopa", para, aproveitando a crise, não engordar.
O pior, de facto, que poderia acontecer seria deixar os portugueses engordar...

2010/06/30

Estado Português 1 - Telefonica Espanhola 0

Cá se fazem, cá se pagam...

The Island

Hoje ouvi o senhor Procurador Geral da República barafustar contra "os portugueses" porque dizem mal de tudo. Ele é a saúde, a justiça, a educação, nada está bem para "os portugueses", segundo o senhor PGR.
Como se depreende das palavras do senhor PGR está, pois, tudo uma maravilha, o que está errado... são os portugueses.
Pois senhor PGR, há que dizer que V. Exa. está totalmente equivocado. Fosse isto um país a sério e não a infeliz opereta de que V. Exa. é um dos protagonistas e talvez V. Exa. estivesse já há muito fora do elenco, ou talvez nem nele tivesse mesmo entrado.
Repare V. Exa. no seguinte. A minha mãe tem 95 anos e foi há pouco operada a uma fractura do fémur, num hospital recentemente inaugurado com pompa e circunstância. Ainda mal lhe tinham tirado a máscara da anestesia já a ameaçavam com alta, porque "hospital não é asilo", sic! Mas, adiante...
Ora, hoje fui com ela a uma consulta nesse hospital recentemente inaugurado, com pompa e circunstância. Lá chegado dirigi-me ao serviço para requisitar uma cadeira de rodas
Será fácil imaginar que a minha mãe não está em condições de percorrer os longos corredores desse magnífico e novo hospital, inaugurado com pompa e circunstância...
A funcionária do serviço informou-me que durante o fim de semana a sala onde se encontram armazenadas as ditas cadeiras de rodas tinha ficado aberta e que as urgências deste magnífico hospital,  inaugurado com pompa e circunstância, tinham vindo sacar à sorrelfa todas as cadeiras disponíveis. A solução, dizia-me a solícita funcionária, seria eu ir ao serviço de urgência (um outro edifício, longe deste onde me encontrava) recuperar uma das cadeiras surripiadas, em pleno fim de semana, do serviço de consultas do moderno hospital.
Como fazê-lo? Onde iria eu deixar a senhora enquanto participava na operação de resgate da cadeira surripiada? Onde a iria sentar entretanto? Não podendo aceder à sugestão da dita e gentil funcionária lá tentei resolver o assunto como me foi possível. Acaba sempre por haver uma maneira, ou não fossemos nós conhecidos pelo desenrascanço.
Já na sala de espera, à falta de cadeiras de rodas, havia dois monitores que passavam, sem cessar, imagens obsessivas, felizmente mudas, do primeiro ministro e do presidente do conselho de administração do dito hospital inaugurado com pompa e circunstância, acompanhadas de sequências onde se podia ver o hospital em funcionamento quase idílico, tudo brilhante e funcional, e o slogan "A saúde da nova geração" a aparecer em momentos cuidadosamente cronometrados.
As imagens faziam-me lembrar aquele filme chamado "The Island", não sei se viu. Era tudo branco e luminoso. Os personagens das tais imagens idílicas sorriam de felicidade. Dos seus dentes soltavam-se pequenas estrelas.
Neste hospital não está tudo mal. Melhor seria! Mas, são pormenores como este que lhe descrevi que juntando-se a todos os outros levam a dizer que está tudo mal. Infelizmente, situações como esta multiplicam-se com uma frequência indesejada. Uma só já seria demais. E a solução acaba sempre por cair em cima do cliente. Seja nos desmandos da banca, seja nos da administração pública, seja nas cadeiras de rodas. O cliente desta unidade de "saúde de nova geração" que vá buscar a cadeirinha que uma organização deficiente permite subtrair...
Nos monitores da sala de espera aparecem os responsáveis por tudo e é isso que levará os utentes a pensar que tudo está mal. Pois se o primeiro ministro e o administrador-mor aparecem nos monitores da sala de espera a dar a cara por uma unidade hospitalar tida como exemplar, ainda com cheiro a tinta fresca e a gente quer uma cadeira de rodas e ela foi palmada, o que quer V. Exa. que a gente pense? Se eles são os responsáveis por tudo, e isto acontece, está tudo mal!
É como V. Exa.. Tivesse V. Exa. pensado melhor, senhor PGR, e talvez a simples ideia de que o cliente poderá por certo ter alguma razão o obrigasse a temperar as declarações. Tivesse V. Exa. pensado que o cliente lhe paga o ordenado e que tanta queixa poderá, poderá!, acabar mesmo por ter fundamento e teria V. Exa. ficado calado. Levasse V. Exa. a sua função a sério e talvez os alvos do seu comentário se invertessem. Outros alvos seriam objecto da sua intervenção. Por isso a gente pensa que a PGR está toda mal.
Não estamos todos (ainda) na Island... Mas, pagamos já todos os altos custos da insularidade.

2010/06/27

Swiss-brazuca


Este desporto da febril troca de videos do Youtube que grassa por aí traz-nos, por vezes, surpresas. É raro, mas acontece. Um amigo chamou-me há tempo a atenção para o video anexo (Top Secret Drum Corps, de Basileia - Suiça), adicionando o comentário: "parecem brazucas disfarçados"...
É preciso ver o video para compreender a expressão, que é, de facto, totalmente apropriada.
Para honrar o comentário criei o singelo poema que aqui vos deixo. Dedico-o ao querido amigo que me deu isto a conhecer e, em pleno espírito do Mundial 2010, a todos os sopradores da vuvuzela por esse mundo fora... Que o som dela vos traga os piores pesadelos!
Assim se dá oficialmente início à silly season aqui no Face.


Swiss-brazuca

Misto de precisão tresloucada!
Relógio que tiqui-tiqui-táka!
Tikitikitikiti!
Tá-tá-boom-boom!
Acarajé de chocolate!
Edelweiss do Pantanal!!
É Wilhelm? No telling...
É Guilherme? More likely!
Eh suiço ruim!
Nestlé-té-té-ré-ré!
Eh brazukas dos alpes!
Pauliteiros de pulso e de bolso.
Cangaceiros da confederação helvética do Piáui!!
Yodelériti-ti-ti-ti-taka-dadabum-bum!
A conta é secreta?
Que grande forró.
Cuíca não é cantão!
Tem mania d'arrumação?
Samba tem precisão?
Não, é anal na retenção.
E é neutral de coração...
Saravah, meu'irrrrrmão!!

2010/06/26

A crise portuguesa em perspectiva

Agora que alguns dos principais responsáveis da crise portuguesa actual se desdobram em recados por interpostos figurantes - procurando minimizar o seu papel nas políticas económicas dos últimos anos - é bom lançar alguma luz na cacofonia local e vermos a crise nacional em perspectiva europeia. A BBC fez o trabalho de casa e os resultados podem ser vistos aqui. Comentários, para quê?

2010/06/19

Fuso Luso 6


A 64º de latitude, estou nos limites da "ocidentalidade" a norte. Se continuasse a percorrer este meridiano em que me encontro, desse o pequeno passo que falta para ultrapassar a latitude 90º e me desviasse uns 70º para a minha direita, iria com toda esta facilidade e por uma via muito mais curta (se os navegadores soubessem...) tombar no outro lado, num outro norte, situado nas mesmas latitudes da ocidentalidade, mas com diferenças maiores do que a simples diferença entre o dia e a noite. Deste lado de cá não percebemos que há ali  uma vantagem ancestral. É aquele lado que primeiro vê o dia nascer. Eles sabem isso, sabem  a vantagem que têm e demonstam uma paciência sábia perante a nossa impaciência atrevida.
Ainda assim, apesar de percorrermos outras longitudes, continuamos a falar de norte. Se continuarmos, porém, a progredir ao longo deste mesmo meridiano em que me encontro (se os navegadores soubessem...), à queda do norte ocidental num norte oriental juntar-se-ia o trambolhão no sul. Onde nos vamos estatelar todos a sério!
Nestas latitudes remotas onde me encontro percebe-se melhor o quanto a ocidentalidade vive auto-convencida e alheada destas verdades meridianas.
Quando acordar arrisca-se a ser tratada com o mesmo respeito que Johan Ludvig Runeberg --o poeta nacional da Finlândia, representado na estátua da foto-- merece à gaivota nela pousada.
Não foi Gandhi que disse, a propósito da "civilização ocidental", que achava que seria uma boa ideia...?
E Portugal? Como vai lidando com todos estes problemas? Na região do fuso luso, esta dança dos quadrantes vai sendo tratada com a costumeira "astrolábia" dos dirigentes políticos, navegadores de águas chocas, desconhecedores do regime dos ventos, da força das marés e das regras da mareação actual. A marujada, por seu turno, opta pela arte da navegação solitária, já que ninguém a consegue mobilizar para um rumo comum. E como navegar é (continua a ser) preciso, toca de levantar ferro.

2010/06/18

José Saramago (1922-2010)

"A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu"

(em "As Intermitências da Morte", 2005)

2010/06/16

Fuso luso 5

É impossível não ficar esmagado pela paisagem vista aqui da montanha de Koli. Uma paisagem que é enjoativa de linda. São onze da noite e o sol brilha. Esmagado pela paisagem (não me esmagam facilmente!), baralhado pelo sol da meia noite e pela estafa da viagem, ainda tento perceber a verdadeira natureza destes finlandeses, as linhas que separam a Nokia da total e generalizada incompetência dos funcionários do aeroporto, a fronteira entre o acolhimento quente e jovial e os silêncios gélidos e prolongados (quem não ficaria silencioso e gelado perante a imensidão desta beleza?), a divisória entre a internet que jorra generosamente à borla por todo o lado e a televisão cobrada nos quartos do hotel a preços exorbitantes.
Sibelius passou por Koli e inspirado certamente, como eu fiquei, por uns retemperantes 6º C ao meio dia a meio de Junho, escreveu a sua 4ª sinfonia.
Não sei se vou conseguir arranjar tempo para escrever a minha quarta sinfonia, porque ainda me falta escrever as primeiras três, mas que estou inspirado lá isso estou.

2010/06/11

I've got a feeling

Começou o "circo" e os prognósticos, nesta altura do campeonato, não podiam ser piores.
Se o apuramento para a fase final já tinha sido "arrancado a ferros", o que se seguiu apenas confirmaria as piores impressões: uma selecção constituida por jogadores em baixo de forma, lesões preocupantes, um seleccionador sem soluções para lugares-chave da equipa, um estágio "morno" na Covilhá, fracas prestações nos jogos de preparação e uma forma física decepcionante. Às críticas da "bancada", o verdadeiro treinador respondeu sempre fleumaticamente, afirmando sermos os "maiores" e que vamos prová-lo no hemisfério sul. Mal tinhamos chegado a África e já o nosso melhor acrobata (duplo salto com flic-flac) tinha partido a clavícula. No meio deste "karma" lusitano, nem os jornalistas do "bungalow" conseguiram escapar. Valeu estarem já a dormir, o que ajuda sempre nestas situações.
A esperança renasceu esta semana com a infelicidade do Drogba, mas hoje os noticiários passavam em roda-pé que, afinal, sempre vai jogar contra Portugal. Quem parece não acreditar nos "navegadores" é o Toni, que preferiu ser "olheiro" a "patrioteiro", segundo a velha máxima "trabalho é trabalho, cognac é cognac".
O que é que ainda faltará acontecer à selecção? Não sabemos. Já provámos que somos sensíveis às "vuvuzelas", pois ninguém parece ouvir nada dentro do campo. Daí, a razão de cada um jogar por si. Pode ser que seja essa a táctica. Os adversários estão à espera de um modelo de jogo e nós ainda andamos à procura dele. Às vezes, dá resultado.

A ascensão asiática

2010/06/07

O jazz no centro

Terminou a oitava edição do Jazz ao Centro, Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra. Não conheço as estatísticas mas estou certo que foram mais um retumbante sucesso os Encontros deste ano.
Mais um êxito porque, em primeiro lugar, a persistência da equipa liderada pelo Pedro Rocha Santos conduziu a um caso de sucesso que é, em si, um facto digno de assinalar. Organizar (uma máquina a organização deste JaC!) ao longo de todos estes anos um festival com esta dimensão, sem quebras de qualidade e transformar o seu figurino, ampliando-o, dando-lhe uma dimensão nacional e impondo um carácter ainda mais transcendendente, através, nomeadamente, das suas publicações, das suas exposições e de uma dimensão pedagógica, única nas iniciativas desta natureza levadas a cabo no país, é um feito assinalável que merece enorme destaque.
Mas, é também um êxito porque, ao cuidado na programação e nas condições técnicas de produção, junta-se uma coisa única que eu creio que também ajuda o evento a destacar-se de eventos da mesma índole, que observamos no panorama nacional e internacional: apetece ouvir e tocar música no JaC.
A atmosfera gerada em Coimbra pelo JaC, a hospitalidade, o cuidado posto pela organização no acolhimento dos seus espectadores e convidados e nas condições proporcionadas a todos, a magia que circula no ar, ajudam a criar um evento sem paralelo, que transborda de vibrações positivas e em todos deixa uma marca de grande optimismo e alegria. Pela minha parte, o meu público obrigado. Que se mantenha este Jazz ao Centro por muitos e bons anos! Venha 2011!

2010/06/05

Os "mercados"

"Estranha modernidade esta que avança às arrecuas", escrevia o Subcomandante Marcos, há mais de 15 anos, num artigo chamado "A quarta guerra mundial já começou".
Ontem as bolsas cairam depois de se saber que, entre outros problemas, o emprego nos E. U. A. não cresceu o que se esperava. Estranha reacção esta: os investidores não investem, o desemprego mantém-se e esses investidores, que têm o poder de criar empregos, castigam as bolsas porque… o emprego não cresce!
Os estados que continuem com a tarefa de sustentar o desemprego, originado por uma crise criada, por sua vez, pela actuação dos investidores! Os estados que continuem a aumentar a sua "dívida soberana" para sustentar a "crise", diminuindo com isso as classificações das agências de "rating".
Agências de rating, essas instituições pardas que ninguém elegeu, mas que exercem um controlo fatal e total sobre os eleitos das democracias representativas, condicionando a vida dos eleitores. Agências de rating que estão fora do sistema democrático, incontroláveis e inimputáveis, cujos desaires, porém, os eleitores têm de pagar para não haver agitação sistémica...
Neste momento os "mercados" encontraram um negócio muito melhor do que investir para criar novos negócios que dêem origem a novos empregos: vender dinheiro mais caro aos estados para estes controlarem o défice provocado pelas desmandos…  dos "mercados". Um desenvolvimento que seguramente ilustra na perfeição o comentário do Subcomandante Marcos.
Está na hora de abandonar a fase do patriotismo primário e de explicar aos cidadãos o verdadeiro significado de expressões como "estado soberano" e "democracia". Não é questão de somenos nestes tempos de globalizações.

2010/05/31

Da semântica "socialista"

Contrariando a opinião de parte significativa dos seus militantes, a comissão política do PS acabou por anunciar Manuel Alegre como o candidato do partido às próximas eleições presidenciais. Nada que não se esperasse.
Que a escolha nunca foi consensual ficou logo bem patente nas reacções de alguns intervenientes na sessão do largo do Rato.
Desde logo, o maçónico Ramalho, que saíu mesmo antes da votação ter sido efectuada, certamente para mostrar o desagrado da facção soarista que nunca escondeu a afronta de 2006. Depois, a deputada Marta Rebelo (quem?) uma jovem aquisição da bancada "socialista", que foi mesmo mais longe ao declarar que nunca apoiaria Alegre por este "ter-se aproximado perigosamente da esquerda" (!?). E, finalmente, o próprio Sócrates que, mostrando um sorriso amarelo, lá foi dizendo que apoiava Alegre por este ser "progressista". Progressista?
Este é o estado de um partido onde, após cinco anos de despolitização continuada (foi para isso que serviu a tão proclamada "terceira" via) já nem os responsáveis ousam utilizar a palavra "esquerda". Saberá este geração de dirigentes que o Partido Socialista é, supostamente, de esquerda? Duvidamos. A lavagem ao cérebro, durante o reinado do grande líder, deve ter sido tão grande, que nem eles próprios se apercebem da vacuidade do discurso que utilizam.
Com "amigos" destes, Alegre não necessita de inimigos. Vai, muito provavelmente, perder estas eleições como, de resto, já tinha perdido há cinco anos atrás.

2010/05/30

Eleições já!

Há muito, confesso, que não ia a uma manifestação. Mas, ontem lá desci a Avenida com todo o gosto, juntamente com o RM e estive ao lado de quem eu mais gosto de estar. Não sei se foram 300 000 se foram apenas 150 000, pouco importa.
Para mim estão claríssimas três coisas na actual conjuntura, como sói dizer-se. Primeiramente, este governo está a mais. Por mais voltas e retórica que tentem despejar por cima da evidência, é claro que este governo já devia ter ido à vida há tempo demais porque não serve para resolver o problema que temos, antes o complica. Por trapalhadas bem menos graves, por incompetência bem menos óbvia já outros governos foram para o caixote de lixo da história. Cada minuto que passa com este primeiro ministro à frente deste governo é um minuto a mais de agravamento de uma pena que os portugueses não merecem.
Em seguida --o corolário afinal deste argumento-- este Presidente da República é a causa de uma série de padecimentos pelos quais os portugueses estão a ser obrigados a passar. O PR tem todas a prerrogativas para agir. Não o fazendo tornou-se parte do problema. Uma minoria, um governo minoritário, um presidente é uma fórmula que, temos de convir, não serve o país e agrava o nosso problema. Nem quero imaginar que a ausência de acção por parte do PR se fique a dever a uma agenda pessoal escondida. Ao menos que esta inacção presidencial se fique a dever à inépcia política que todos lhe reconhecemos.
É para mim também, finalmente, claro que nenhum dos protagonistas explícitos ou implícitos desta jornada --PR, PM e o seu governo, AR,  centrais sindicais (a presente e a ausente) e restantes parceiros sociais -- que o futuro do país é neste momento uma questão que não parece suscitar preocupação por aí além. Ora, ou o eixo da acção de todos passa a ser claramente o desenvolvimento e a alteração do actual paradigma social e económico em que o país vive, ou Portugal vai ter de ceder a sua concessão a existir e, tal como o concebemos, vai desaparecer a prazo.
Que se lixe a "crise", que a pague quem a provocou. Do que nós precisamos é de mudar, senhoras e cavalheiros.
Precisamos de mudar...! Comecemos por mudar os governantes.
Comecemos por eleições

2010/05/24

A ouvir e ver atentamente...

O "abafador"

No tempo em que as crianças ainda brincavam com berlindes, havia sempre alguém que aparecia com uns berlindes maiores e mais coloridos que davam pelo nome de "abafadores". Quem possuía um "abafador", tinha o "direito" de roubar os berlindes monocromáticos que valiam "menos".
Nos tempos modernos, as técnicas de "abafamento" tornaram-se mais sofisticadas e são, agora, justificadas com o argumento jurídico da "acção directa".
Ricardo Rodrigues, agindo directamente perante as câmaras, furtou dois gravadores a jornalistas em pleno Parlamento e resolveu entregá-los ao Tribunal, como prova da pressão psicológica a que supostamente estava a ser submetido.
Acontece que - a acreditar nas notícias - os gravadores desapareceram. Ou, estão em parte incerta, o que vai a dar ao mesmo. Não sabemos o que aconteceu aos gravadores, mas sabemos, porque vimos, como eles foram furtados.
Perante tais evidências, pergunta-se o cidadão comum, com razão, quem o protege da lei do mais forte que, pelo simples facto de pertencer ao partido do governo, pode "abafar" a propriedade alheia e não ser perseguido por isso.
Porque das duas uma: ou a cleptomania deixou de ser crime punível por lei e, a partir de agora, qualquer pessoa pode "abafar" o que lhe der na real "gana"; ou o senhor Rodrigues, tem de ser acusado daquilo que ele é - um ladrão - e, como tal, prestar contas do furto que praticou.
Que o deputado do PS não tenha dignidade para se demitir, já é grave. Que o partido ao qual pertence não o demita, é uma ofensa a todos os votantes que escolheram estes deputados para os representarem. Haja vergonha!

2010/05/21

O baile de máscaras

Hoje foi dia da discussão e votação da moção de censura. O PS obteve uma vitória de espirro. Uma vitória constipada, quero eu dizer. Vem aí a pneumonia, quer eles queiram, quer não. Há-de-lhes cair a máscara, raios me partam!
Falando de máscaras, foi interessante ver os deputados do PS a bater palmas ao chefe, submissos, soltando balidos, envergando aquela máscara de carneiros que tão bem lhes assenta. Foi também interessante ver o PSD com aquelas máscaras duplas. Pela frente, o PSD refilão, que se finge alternativa. Por trás, o PSD oportunista e rasteirinho, sem querer, sem poder ou sem saber utilizar a ocasião soberana que tem pela frente de se tornar uma alternativa real a esta seita miserável que vai mantendo o país estabilizado entre a denegação do escândalo e o presupuesto marketing. Foi e é sempre giro, sei lá, e fresco ver o CDS com a sua máscara de esquerda. Como já viram que se for pela direita não conseguem a ultrapassagem, toca de ultrapassar pela esquerda. Se aplicássemos o Código da Estrada à prática política a acção do CDS estaria dentro das regras. Assim, a esquerda ri-se, a direita reza...
Uma palavra para os partidos de esquerda da AR. O BE usa uma máscara que não se entende bem qual é. Uma máscara que é uma espécie de direito e de avesso ao mesmo tempo. Bem podiam descobrir o rosto e assumir responsabilidades. Que diabo, há lá gente com idade para ter juízo...! Está na altura do desmame. Vamos lá apagar o charro e fazer qualquer coisa mais consequente... O PCP, que tem tido uma actuação política verdadeiramente inenarrável ultimamente, fez, por uma vez, aquilo que tinha de ser feito: apresentou a moção de censura. Era a única resposta possível às malfeitorias que o governo tenta fazer aos portugueses. E a única resposta possível, responsável e coerente dos críticos deste governo era votar a favor! Quem o não fez desmascarou-se. Tem razão o primeiro ministro: uma moção de censura destina-se de facto a derrubar o governo. É isso que Portugal deseja, o PC interpretou bem este sentimento e este governo PS há-de caír seja lá de que maneira for, com mais ou menos estrondo. O PCP tirou a máscara e assumiu-se de cara lavada. Tem razão Jerónimo de Sousa: rompeu-se o contrato celebrado entre os portugueses que votaram PS e o partido. Como aqui escrevi há oito dias, isso de facto só pode conduzir a eleições.
O que nos leva à máscara final. A do amador de joker Cavaco Silva. Então ó senhor Presidente o país precisa de estabilidade?! De qual, desta que estamos a viver?! E precisamos de combater o flagelo número um que é, todos o reconhecemos, o desemprego?! Mas, como?! Com "estabilidade"? Sem programa? Sem política? Com roteiros? Tire a máscara senhor Presidente da República: por menos do que aquilo que agora se está a passar já outros primeiros ministros foram convidados a saír do baile. Se tiver coragem, demita este primeiro ministro, crie um governo de iniciativa presidencial que se reuna na sede própria (na sede da Presidência do Conselho de Ministros e não na sede da Presidência da República) e convoque eleições. A gente encarrega-se de votar, descanse. Nós não queremos estabilidade, queremos clarificação! E competência.
Ou então vai ter de arranjar uma maneira de explicar aos tais desempregados, pelos quais subitamente os bem empregados vertem tantas lágrimas, que quando faltar o pãozinho na mesa, basta a "estabilidade" proporcionada por este governo para saciar a fome.

2010/05/18

Esquizofrenia

Pacheco Pereira ouviu as escutas e declarou hoje, na Comissão de Inquérito, que o material escutado é de uma de gravidade extrema e comprova a tentativa do governo em silenciar a TVI.
Perante esta afirmação, Ricardo Rodrigues, um homem conhecido por não gostar de gravadores, replicou que as escutas - em tanto que material de prova - são ilegais, pelo que se trata de uma violação da justiça.
Temos, assim, provas em escutas e escutas que não podem constituir provas. Uma situação completamente surreal, uma vez que a Comissão solicitou as gravações, o que foi aceite pela Procuradoria da República e, agora, que as gravações podem ser escutadas, os deputados do PS dispensam a sua audição e refutam as conclusões de quem as escutou.
Quem é que, afinal, não está interessado em conhecer a verdade?

2010/05/17

Portunhol

Já conheciamos o inglês "técnico" da Universidade Independente, mas não sabíamos que também existiam cursos de "portunhol" para primeiro-ministros, "pero, se necessitan dos para bailar el tango, no?"
Felizmente, muitos dos presentes estavam a dormir...
Foi hoje em Madrid e o sucesso, segundo Rosa Veloso, foi enorme. "Vale!"

A Comunicação

Há já algumas horas que está a passar em roda-pé nos principais canais televisivos o anúncio de uma comunicação, do Presidente da República, a ser transmitida em horário nobre. Será logo à noite e o assunto é a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que motivo poderá levar a presidência da república a anunciar, com tanto destaque, uma comunicação à nação sobre tal tema? E logo no dia contra a homofobia.
Imagino que Cavaco, na "dúvida", se tenha aconselhado com o Papa. Quem melhor do que o chefe da igreja católica para o elucidar?
Aguardo uma comunicação a justificar um veto da lei. Uma lei que o próprio presidente já considerou "fracturante". Espero estar enganado.

Adenda: Afinal, Cavaco Silva, promulgou o diploma. Por motivos "éticos", claro.

2010/05/16

Eleições (3)

Não percebo por que razão a palavra eleições incomoda tanto, tanta gente hoje em dia em Portugal... E não percebo por que raio não pode haver eleições antecipadas.
Repito o que já escrevi aí mais para baixo: alguém desejaria que, depois de lhe roubarem a casa, fosse o ladrão a mudar a fechadura?
Quando é que os arautos das "mudanças estruturais" querem que se mude de facto de paradigma em Portugal? Quando os actuais esbirros do regime estiverem já instalados no novo paradigma?

Baltasar Garzon

Pelo que se passou em Espanha com o juiz Garzon e tendo em conta o tipo de gente que ele incomodou com os processos que levantou, se percebe que a escumalha fascistóide não anda a dormir e que democracia é uma palavra com picos ainda para muita gente.