2010/11/27

Inside Job


Encontra-se em exibição, nas salas de Lisboa, um dos mais extraordinários documentários desta década. Na senda dos filmes-denúncia popularizados por Michael Moore, cujo "Capitalism, a love story" era já um prenúncio do que aí vinha, "Inside Job" (A Verdadeira Crise) de Charles Ferguson, arrisca a tornar-se o verdadeiro "clássico" da crise financeira actual.
Ao longo de hora e meia, Ferguson (académico de Berkeley, Harvard, MIT e conselheiro da Casa Branca) escalpeliza as causas e consequências desta crise, passando em revista os momentos mais importantes, sem deixar de interrogar os principais actores e confrontando-os com as suas práticas fraudulentas. Tudo ilustrado com exemplos e graficos claros, ainda que aqui e ali com algum excesso de informação nem sempre fácil de acompanhar. Uma verdadeira lição em "economia fraudulenta", que deixou milhões de pessoas na falência, levou países à bancarrota (a Islândia é o exemplo maior) e provocou um "crash" em Wall Street, como não se assistia desde a grande depressão de 1929.
Se a surpresa é grande, quando confrontados com os dados inequívocos apresentados por Ferguson, mais surpreendidos ficamos ao verificar que a maior parte daqueles que estiveram na origem desta crise, sairam com elevadas indemnizações e, alguns deles, foram inclusive reconduzidos em cargos políticos de responsabilidade financeira.
Se alguma dúvida existisse em relação à promiscuidade existente entre a alta finança e a política, este filme desvanece-a definitivamente. Isso em si é uma boa notícia. A má notícia é que os actuais dirigentes - Obama incluido - não parecem querer ou ter força para contrariar esta tendência. E isto só nos pode preocupar.
A ver, absolutamente.

2010/11/25

O pendor para a direita

O dr. Ferraz da Costa veio tentar apequenar os resultados da Greve Geral, e mais-não-sei-quê de alterar a lei da greve, acrescentando que os sindicatos não sabem a verdadeira situação em que o país se encontra. Uma metralhadora a atirar em todas as direcções. (Ouça tudo aqui.)
Ó dr. Ferraz da Costa, se calhar não é sua intenção, mas esta conversa é um triste insulto à inteligência dos seus ouvintes, que são muitos, fervorosos e devotados, creia...
Então os sindicatos não sabem o estado em que o país se encontra?! Permita-me discordar. Sabem e sabem melhor do que ninguém, antes de mais nada porque os sindicatos são de trabalhadores e os trabalhadores sentem na pele —e são os primeiros a sentir— o "estado em que o país se encontra". Ao contrário de outros sectores da sociedade portuguesa a quem não falta calor para aquecer neste inverno, roupinha pinoca e comidinha no prato para manter a barriguinha aconchegada.
Por outro lado, diga-me lá: os sindicatos não sabem como o país está, mas depreende-se então das suas palavras que o senhor sabe. Se sabe, porque não o revela? E se não o revela porque razão o não faz? Será uma razão política? E se o senhor tem direito a não o fazer, por uma razão política, os sindicatos não terão o mesmo direito, ou pretende para si regime de excepção...?

2010/11/24

Generalidades

O Secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos, diz que esta greve não é geral. Não se preocupe, senhor Secretário de Estado. Depende do conceito que o senhor tenha da palavra "geral". O governo também devia, em geral, governar e não governa. 
A perspectiva depende sempre do ponto de fuga...

2010/11/23

Mobilizar

GREVE GERAL!
24 de Novembro, 2010

A lição da Irlanda

Agora que a Irlanda, pressionada pela Alemanha e pelo BCE, acabou por pedir a intervenção do FMI (100 mil milhões de euros para acudir ao sistema bancário irlandês) caiu mais um mito do modelo económico neo-liberal, tão elogiado pelos governantes portugueses que viam no "tigre celta" a referência europeia para a nossa economia. Pelos vistos, não chegaram as medidas draconianas impostas ao povo irlandês, a quem foram pedidos os maiores sacrifícios há menos de um ano com a promessa que, daqui a uns tempos, a situação iria melhorar. Da mesma forma que os sacrifícios pedidos ao povo grego não saciaram os interesses dos especuladores e banqueiros internacionais (eufemisticamente designados por "mercados") e que conduziu à mesma receita aplicada na Irlanda, ou seja, a entrada do FMI na Grécia.
Mal era conhecida a decisão irlandesa, já as "nervosas" bolsas notavam em baixa os índices bolsistas espanhóis, sinal que alguns analistas interpretaram como um possível ataque a Espanha por parte dos especuladores.
Resta Portugal, o quarto "PIG", que há muito faz parte do elo fraco do sistema Euro e que, por essa razão, é manchete diária nos principais orgãos de referência económica internacional, como o "Financial Times", o "The Economist" ou o holandês "De Volkskrant". Bem podem os governantes portugueses, como Sócrates e Cavaco, repetirem à exaustão que os nossos bancos são saudáveis e que não temos uma crise sistémica semelhante à Irlandesa. A pressão é enorme e Merkel, secundada por Sarkozy, não esconde o seu desejo: uma Europa "a duas velocidades", onde os países economicamente mais fracos devem abandonar o Euro se tal for necessário.
Acontece que, a verificar-se tal medida, o próprio Euro será posto em causa. Tentar resolver um problema económico, sem medidas políticas adequadas, é mais um passo para o abismo a que esta política desastrada conduziu. Ou seja, sem coragem política que limite o desregulamento financeiro actual, não há projecto europeu que resista e, para isso, é preciso voltar a pôr a política a comandar a economia, questão que os governos da União Europeia não querem resolver. É nestas alturas que são necessários estadistas, coisa que, obviamente, não se verifica na Europa a vinte sete, hoje dirigida por meros executantes da grande finança especulativa. Não extrair as devidas lições no tempo certo, conduzir-nos-á, inevitavelmente, a uma crise ainda maior, cujas consequências são para já imprevisíveis. A Irlanda devia, por isso, constituir o aviso necessário. Mas, pode já ser tarde.

2010/11/21

A hermenêutica e as frases históricas

A ministra da cultura diz que não há outra solução senão aceitar os cortes de 23% previstos para a cultura. Vai ficar na história esta ministra.
É conhecida aquela expressão "quando ouço a palavra cultura saco logo da pistola", que terá sido proferida por Hanns Johst (um escritor expressionista nazi) e depois aproveitada por Göring.
Vejam lá quem, ao fim destes anos todos, acabou mesmo por dar o tiro...! Que o sorriso vos não engane.

2010/11/20

Há mais vida para além da NATO

Preparada com meses de antecedência, a Cimeira da NATO encerra em Lisboa um ciclo iniciado em 1949. Criada em plena "Guerra Fria", com o objectivo de defender os interesses aliados, a NATO funcionou sempre como elemento dissuador do poderio militar soviético organizado em redor do Pacto de Varsóvia. Com a implosão do Bloco de Leste, e consequente derrota do modelo socialista russo, a organização levou tempo a posicionar-se num Mundo que deixara de ser bipolar para tornar-se multipolar. Durante mais de uma década os militaristas americanos pensaram que eram donos do Mundo. O "11 de Setembro" e as guerras longínquas que se seguiram - Afeganistão e Iraque - obrigaram a organização que, supostamente, fora criada para defender os países do eixo Norte Atlântico, a deslocar-se para regiões que não controlava. Os resultados estão longe de satisfazer os estrategas do Pentágono e os tradicionais aliados europeus têm cada vez mais dificuldade em acompanhar as aventuras expansionistas americanas, vítimas da sua própria ignorância. Há muito que o inimigo principal deixou de ser a Russia e os inimigos actuais não estão organizados em pactos militares apoiados em exércitos tradicionais. Como constatam os politólogos de sofá, o inimigo é hoje "transversal" (está em todos os continentes e em nossa casa) e não pode ser apenas combatido com bombardeamentos massivos ou divisões militares blindadas. Os fiascos do Iraque e do Afeganistão, comprovaram uma lição que a História já nos tinha ensinado. Mais cedo, ou mais tarde, um exército tradicional estrangeiro, por mais bem preparado que esteja, perde sempre contra uma guerrilha nacionalista bem organizada. Foi assim na Coreia, na Indochina, na Argélia, no Vietnam, nas colónias portuguesas de África ou, mais recentemente, no Iraque e, tudo indica, no Afeganistão.
Perante a evidência dos factos, restava à NATO acabar ou mudar. À falta de melhor alternativa (os EUA não abdicam do apoio dos aliados e a Europa não dispõe de exército próprio) restava a mudança. É esta nova era que agora se inicia em Lisboa. Resta saber se a "guerra psicológica" e conquista da opinião das populações afegãs, que a NATO se propõe fazer, dará alguns frutos. Com o histórico conhecido (nove anos de lutas infrutíferas e o apoio a líderes corruptos como Karzai) não é de esperar mudanças significativas naquela região.
Uma coisa é certa: Lisboa voltará, amanhã, a ser uma cidade mais livre e sem a paranóia securitária que caracterizou este fim-de-semana. Os seus cidadãos poderão concentrar-se nos verdadeiros problemas que afligem a sociedade portuguesa; esses, sim, preocupantes para o nosso futuro imediato. Porque há mais vida depois da cimeira...

2010/11/19

Dúvidas, receios, mercados e tentativas de fuga

Lembrar-se-á quem anda atento a estas coisas que o acordo PS-PSD sobre o OGE ficou preso pelos tais 500 milhões de euros, que depois o governo acabou por desencantar, não se sabe bem por que artes.
Para se ter uma noção da dimensão real do problema que trouxe o país suspenso e convocou as pitonizas e os pitonizos deste país, que vimos em grande afã opinativo, vale apena recordar um curioso comentário que o coordenador da CGTP, Carvalho da Silva, fez num programa emitido pela TSF aqui há dois dias.
O país vem assistindo, com enorme incredulidade, aos esforços de última hora por parte dos accionistas dos grandes grupos económicos para antecipar a distribuição dos dividendos relativos à primeira metade do ano. Uma  verdadeira, declaradamente pública e escandalosa tentativa de fuga ao fisco. Ora, Carvalho da Silva afirma que tinha apurado que, só da parte de dois desses grandes grupos, esta tentativa de fuga ao fisco representaria um desfalque nas finanças públicas de mais 300 milhões de euros, ou seja, mais de 60% da quantia que "dividiu", de forma tão assanhada, PS-PSD...
Quando se fala nas dúvidas dos "mercados" sobre a capacidade de Portugal implementar as medidas do OGE 2011, há uma dúvida que a mim me assalta. O que é que os "mercados" querem dizer? Que "receio" é este? O de que o governo não consiga suster estas tentativas de fuga, ou o de que o governo se terá de pôr a pau porque os "mercados" não perdoarão se os candidatos à fuga não se conseguirem mesmo baldar?

2010/11/14

Estamos Salvos!

O presidente José Ramos-Horta anunciou, durante a cimeira de Macau, que Timor-Leste está interessado em comprar títulos da dívida pública portuguesa. E esta, hein?

2010/11/10

Os agiotas

Portugal pôs hoje à venda mais títulos da dívida pública portuguesa. Teixeira dos Santos, o ministro a prazo, declarou não ter havido qualquer dificuldade em encontrar compradores e que tinha vendido por um bom preço (!?). O preço é indicado por Portugal, mas a taxa dos juros é fixada pelos investidores internacionais. Obviamente que os agiotas estão interessados em comprar. Quando o juro é alto, quem não quer comprar a dívida de um país falido? Imaginem o lucro gerado com juros a sete por cento?...
Os governantes portugueses devem pensar que somos todos parvos.

"Nós estamos no pensamento mágico"

João Cravinho, lá de longe, faz uma crítica arrasadora ao actual momento do país. Vale a pena ouvir a entrevista que deu à TSF (a parte mais interessante foi incluída no noticiário que pode ouvir aqui; terá de ter a paciência de deixar passar as notícias sobre a emissão de dívida pública e, sobretudo, as vulgaridades habituais dos "analistas".)
Cravinho chama a atenção para a questão central que Portugal enfrenta: não há uma única medida (uma única!) para fomentar o crescimento. E também não há culpados. Vogamos à bolina portanto, ou, como diz o ex-ministro e deputado deportado, "estamos no pensamento mágico". E sem timoneiro, o que é uma coisa verdadeiramente extraordinária.
Querem soluções? Ask the 8 ball...

2010/11/09

7%

Com a taxa de juros a sete por cento, Portugal atingiu hoje um número simbólico - que o próprio ministro das finanças considerou ser a barreira psicológica - após o qual o FMI poderia ser chamado a intervir no nosso país.
Não sabemos se é isso que vai acontecer, mas sabemos que a economia portuguesa continua a não crescer acima dos 0,8%, que o desemprego se mantém em 10,6% (a quinta maior percentagem europeia) que a dívida pública continua a crescer e que 4% do PIB são para pagar juros (qualquer coisa como 4 mil milhões de euros ao ano). De acordo com a análise do "Financial Times" de ontem, somos já o país mais pobre da Europa.
Ou seja, não se prevêem melhores dias a curto prazo e, a médio-prazo, como diria um famoso economista, estaremos todos mortos...
E agora, Teixeira dos Santos? Qual vai ser a próxima mentira?

Os "mercados"

Quando ouvir dizer a palavra "mercados" outra vez, lembre-se deste artigo, que reproduzo do NYT com a devida vénia.
Pense nas dificuldades que sente, nos cortes dos pequenos salários e pensões, pense nas notícias que se ouvem sem cessar, pense nos PECs, nos PIIGS, pense na austeridade, na "austera" Merkel, no "apreeensivo" Barroso, pense, sobretudo, na cara do Presidente da República, na cara do Primeiro Ministro, na cara do Ministro das Finanças, na figura do Catroga de telemóvel na mão e do seu staff sorrindo a compasso por trás dele, pense nos deputados do PS e nos da oposição na AR Portuguesa, na cara e no discurso dos dirigentes  dos diferentes partidos. Pense nos comentadores e "politólogos" que a toda a hora invadem o nosso espaço com os seus malabarismos verbais e pense na conversa com que nos enchem os ouvidos a toda a hora.
Pare um momento e pense em tudo isto. Clique depois na imagem e leia o artigo...
Garanto-lhe: é um exercício que vai mudar a sua vida!

2010/11/07

Notícias de outra cidade (2)

Doze dias em Amsterdão, sendo pouco tempo, permitem perceber algumas alterações de humor neste povo tradicionalmente cordial e afável. A cidade, que durante décadas ostentou o título de uma das capitais mais tolerantes da Europa, está a tornar-se da "cor" da estação do ano. O Outono é, por definição, mais cinzento.
Logo à chegada ao aeroporto, enquanto compro o bilhete de comboio que há-de transportar-me ao centro da cidade, a funcionária - já depois de ter-me atendido - repreende grosseiramente uma mulher muçulmana de meia-idade (que ousou perguntar-lhe uma informação, enquanto eu recolhia o troco do pagamento) obrigando-a a ir para trás de mim e esperar pela sua vez. É verdade que, formalmente, a funcionária tinha razão, mas duvido que usasse aquele tom de voz com um holandês.
Porque o sistema de controlo nos eléctricos é agora feito através de um cartão electrónico (chip-kaart) quem não o tiver terá de comprar um bilhete válido por uma hora. Nem todos os estrangeiros falam holandês, mesmo aqueles que vivem há anos nesta sociedade. Os muçulmanos (normalmente marroquinos) que não se fazem entender à primeira, correm sérios riscos de serem despachados com frases de duplo sentido, ditas entre sorrisos de escárnio e aparente amabilidade.
No dia da meu regresso a Lisboa tento, sem êxito, fazer o "check-in" numa das máquinas do aeroporto. O computador não reconhece o número da minha reserva e pede-me outra identificação. Introduzo o passaporte e recebo uma reserva com outro nome, ainda que com o mesmo apelido. Em desespero de causa dirijo-me a uma funcionária que tenta perceber o erro enquanto me pede o passaporte. Porque tenho cinco nomes não consegue atinar com o apelido. Explico-lhe que a reserva está feita em nome do primeiro e último nome. Ela tenta desesperadamente todos os apelidos e desiste, tentando enviar-me para outro balcão. Recuso e peço-lhe para tentar Rui Mota. Acede, contrafeita e, quando descobre o óbvio, vira-se para mim com ar de enfado e exclama: "com tantos nomes, não é para admirar que não encontre a sua marcação!". Refreio os meus impulsos para lhe responder à letra, pois não quero perder o avião e ainda tenho de tirar o cinto e os sapatos quando passar o controlo electrónico...
Os holandeses andam nervosos e a recente chegada ao poder de uma coligação de direita, apoiada pelo partido do xenófobo Geert Wilders, contribui para o aparecimento dos "little men" de que falava Willem Reich nos idos anos quarenta...

Não estou a falar sozinho

Vinha no carro a falar sozinho. Falava alto. É coisa que me acontece amiúde (falar sozinho!), e, em  especial quando estou a guiar, falo alto.
De repente, "dou um prego" na gramática. Uma troca na ordem correcta dos pronomes, fruto do ruído constante proveniente deste português abrasileirado que enche o ar nos tempos que correm. Emendei-me a mim próprio (sempre em voz alta...), escandalizado com o meu próprio "prego".
Depois, comentei discretamente para mim mesmo (desta feita já não em voz alta...), que estava satisfeito. Norma é norma e, mesmo a falar sozinhos, temos de ser exigentes. A infalibilidade não existe, mas a sua procura permanente, mesmo quando se trata apenas de colocar na ordem um pronome que tentou meter-se na bicha à má fila, é uma dessas exigências elementares.
Não sou certamente a única pessoa no mundo sozinha e não sou, seguramente, o único a falar sozinho. Há por aí muita gente, hoje em dia, só e a falar sozinha. Conheço muitos. E não serei, certamente também, o único a impôr-se a si próprio padrões exigentes de vida e de obediência a valores, gramaticais e outros. Conheço também muitos.
Podemos e devemos questionar todos os valores e estar atentos, sobretudo, àqueles que afinal o não são. Mas, uma vez discutidos e firmados, a eles temos de nos submeter, humildemente e em nome da coerência. Em nome da ordem correcta do pronome ou de qualquer outra norma, temos de obedecer à regra livremente estabelecida. É a regra do jogo.
Como não serei certamente o único a pensar assim, sou de opinião que nos devíamos juntar para fazer passar esta mensagem. Inevitavelmente, ao lutar pela regra dos valores, ao discuti-los, ao questioná-los primeiro, e, finalmente, ao aceitar o seu primado, vamos obter de imediato um mapa simples que desenha com clareza a fronteira entre os que, de um lado, querem fazer isto e os que, do outro, o não querem. Podemos depois mais facilmente discutir o que fazer com estes e vamos também conseguir distinguir, com maior precisão, de que "valores" falam quando, eles próprios, falam de valores.
O debate político em Portugal está a este nível. É mais ou menos básico e rasteiro, mas é o que se pode arranjar.
Não estou a falar sozinho, pois não?

2010/11/03

Inevitabilidades

O "debate político" em Portugal resume-se hoje a isto: as medidas a tomar são inevitáveis, não se pode discutir as causas da crise ou soluções porque as medidas são inevitáveis e o que nos espera é, assim, inevitavelmente, ter de aguentar as consequências da inevitabilidade das medidas.
E ninguém tem culpa! Não se pode discutir a culpa, não se pode sequer apresentar alternativas, porque as medidas são inevitáveis e ninguém pode apontar o dedo ou apresentar uma saída deste ciclo vicioso, que resulta de ter de gramar as consequências inevitáveis da tomada de medidas inevitáveis, porque as medidas  são... inevitáveis!
É o arrefecimento global, é "a verdade conveniente"!
Quem toma as medidas inevitáveis está defendido pelo seu carácter inevitável e fica livre de mais encargos, e quem as ousar contestar está a esquecer que elas têm um carácter inevitável e portanto não sabe do que está a falar...
É este o espetáculo que se desenrola perante os nossos olhos espantados, enquanto pegamos na caneta para assinar mais um cheque que ajude a pagar todo este desvario.
Mas, no meio de tudo o que se está a passar, passa-se, e passa-nos ao lado, uma outra coisa, que por parecer uma inevitabilidade, é rapidamente metida nos arrumos da nossa mente sem grande crítica.
É que no meio de tudo isto vamos ter uma eleição presidencial em breve. O candidato Cavaco Silva  (admiravelmente retratado por José Vitor Malheiros ontem no Público num artigo intitulado "A austera, apagada e vil tristeza da retórica") lembrou-se de repente que a "classe política" dá um triste espetáculo ao país. É verdade. É aliás uma daquelas verdades que, por ser tão, tão verdade de La Palice, leva inevitavelmente a que toda a gente concorde com ela. Esqueceu-se Sua Excelência (mas convém lembrar-lhe!) que ele faz parte indissolúvel dessa classe política que critica e que faz parte dela há muitos, muitos anos. Está inevitavelmente ligado a tudo isto, e de que forma!!, primeiro como ministro das finanças, a seguir como primeiro ministro e agora como presidente da república. São muitos anos, é muita ligação ao poder, é muito exercício de poder, é muita ligação à vida política deste país para agora vir tirar, com este descaramento todo, o cavalinho da chuva!
Cavaco Silva é inevitavelmente parte do problema que agora suscita. Com responsabilidades acrescidas porque o seu papel foi determinante durante 10 anos (tinha a faca e o decreto na mão!) e agora, como presidente da república tinha e tem a obrigação de ter um outro tipo de actuação.
Pois é a esta criatura, mesquinha e sem dimensão, que os portugueses se preparam para estender a passadeira que o levará de novo até Belém. Sem debate, sem avaliação profunda do que foram os seus mandatos como político e do que está em jogo agora, sem discussão, sem luta, pelo que se consegue perceber até agora. Se ele ficar na presidência, os inevitáveis do costume manter-se-ão também. Se ele não quisesse os inevitáveis do costume há muito que os teria mandado à vida. Não vai mudar no futuro.
Com todos estes protagonistas seria inevitável que os portugueses se continuassem a afundar ainda mais. Enquanto houver cheques em branco e canetas para os assinar não se podem, porém, esperar grandes mudanças. Mas, como os cheques estão a acabar e as canetas a ficar sem tinta, se calhar é inevitável que a mostarda chegue ao nariz de alguns.

2010/11/01

Notícias de outra cidade

O "Podium Mozaiek" é um centro intercultural situado em pleno coração do distrito de Bos en Lommer, um dos bairros mais problemáticos de Amsterdão. Nesta zona vive a maior comunidade muçulmana da cidade, com predominância de turcos e marroquinos, as nacionalidades mais numerosas. Construido originalmente para funcionar como mesquita, o centro cultural manteve a arquitectura árabe exterior (um grande cubo encimado por um minarete) e foi totalmente remodelado por dentro. Nele coexistem serviços sociais, galeria de exposições, biblioteca, cybercafé, um bar e um restaurante, abertos ao público em geral. Dispõe ainda de um auditório com capacidade para 300 pessoas, que mantém uma programação regular de música, teatro, dança e cinema, onde actuam periodicamente nomes conhecidos da cena nacional e internacional. Foi o caso do grupo português "Deolinda", que aqui actuou no passado sábado no âmbito de uma digressão holandesa. Sala cheia, de um público curioso, maioritariamente constituido por holandeses e portugueses, para além de alguns curiosos de outras nacionalidades e estudantes portugueses do programa "Erasmus".
Um excelente concerto, onde o grupo passou em revista o seu último album "Dois selos e um carimbo" e ainda teve tempo para três "encores", a pedido de uma sala rendida à arte de Ana Bacalhau, uma fonte inesgotável de energia. Música simples e cativante, com textos irónicos traduzidos em doses reduzidas, a mostrar que os dois anos de "estrada" deram consistência e profissionalismo a um projecto que é já um caso sério de popularidade internacional. No final, a festa e a celebração da interculturalidade, sempre possível quando a música é o elo de ligação. Num bairro conhecido como um dos mais conflituosos da cidade, devido à exclusão social dos seus habitantes e aos conflitos religiosos empolados pelo discurso populista da direita xenófoba, o concerto dos "Deolinda" teve o condão de amenizar as tensões existentes numa sociedade que continua a procurar pontes de entendimento entre culturas diferentes. Se a música puder ajudar, tanto melhor...

2010/10/30

Leite achocolatado para os olhos

Totalmente patético este acordo, verdadeiramente patéticas as posições e justificações do governo e do PSD, patética a estratégia do PR, verdadeiramente confrangedor o comportamento da restante  oposição, enfim, não há ponta por onde se lhe pegue.
É importante reter, porém, do lado do governo, a ânsia de demonstrar que ainda governa e, da parte do PSD, 1) a ânsia de provar que é capaz de governar, 2) o empenho em demonstar que não tem "nada a ver com isto" ("isto" é o estado de descalabro a que a governação do país chegou) e 3) o contributo vergonhoso dado para esta monumental e descarada operação de propaganda a favor da candidatura de Cavaco Silva.
É importante sublinhar e não deixar passar em claro que, face a uma situação classificada como tão, tão calamitosa, nenhum dos protagonistas de toda esta charada se eximiu afinal de prosseguir friamente a sua estratégia própria de curto prazo. O povo português que se lixe! O povo português que pague os dislates destes miseráveis que nos têm governado à vez e que passe o cheque para pagar a estratégia que os seus coveiros manhosamente montaram! Os tachos estão todos salvaguardados, o povo portugês paga. É nisto que consiste o "entendimento" agora atingido.
O que é que mudou verdadeiramente com o "acordo" entre o PS e o PSD, senão terem acordado que fica tudo rigorosamente na mesma?

2010/10/27

Uma proposta singela...

...Para acabar de vez com a "crise": passar isto à hora dos telejornais, em sua substituição. Passar nos 3 canais e em simultâneo.
Ouçam, já agora, até ao fim. Talvez a "crise" passe também a ter, para todos vós, um outro significado...



Alerta

As notícias sobre os resultados positivos que a sua "magistratura de influência produziu" podem muito bem ser exageradas...

2010/10/26

O semáforo

O semáforo é uma criação extraordinariamente simples e eficaz. Raramente paramos para pensar na sua utilidade. Nem quando estamos ali com a luz vermelha mesmo à frente do nosso nariz nos interrogamos, por um momento, sobre o que seria se o semáforo não estivesse a funcionar. Não paramos para pensar o que seria se não existisse semáforo ou se, em vez daquela sequência estável, precisa e categórica de alternância de luzes, tivessemos uma coisa errática, sem lógica e totalmente imprevisível ou absurda. Para mim, governar é algo que se assemelha à acção do semáforo. Depois de ser instalado, ligado à corrente e colocado a funcionar, o semáforo assegura que todos têm hipótese de exercer o seu direito a circular, em condições de perfeita igualdade e com um mínimo de perturbação. No semáforo, como na governação, quanto menos fantasia melhor...
É tão simples quanto isso. Governar é exercer Justiça e velar por uma clara igualdade de oportunidades para todos. O semáforo é justo (todos passam, de acordo com uma ordem convencionada, mas todos passam!) e proporciona igualdade de oportunidades (passa o Rolls-Royce e passa a "bicla" velha).
Em Portugal a governação é um semáforo que tem vindo a evidenciar falhas crescentes, a reclamar manutenção. Nos dias que correm avariou totalmente. Falo de governação num sentido amplo, no quadro da democracia, com o povo como actor da soberania. Reina o caos total no trânsito!
O trânsito empancou em Portugal, como seria de esperar que acontecesse, mais tarde ou mais cedo.
É possível o tráfego fluir sem semáforos. Era útil que esta comissão que "negoceia" o OE 2011 e o actual PR, putativo recandidato ao cargo, percebessem isso claramente... Ou fazem o que é suposto que façam ou não são precisos. É (mesmo) assim, simples como um semáforo.

2010/10/25

"Deixar de pagar as dívidas à banca"

A propósito da nova taxa que os bancos certamente irão ter de pagar para o ano, o presidente do BES veio-nos hoje lembrar que a banca existe para ser rentável. Num súbito ataque de amnésia esqueceu-se do estatuto fiscal de privlégio de que goza este sector particular da nossa economia e de que a "rentabilidade" da banca portuguesa assenta, em boa parte, num inexplicável e injustificado "perdão fiscal" que o generoso povo português decidiu atribuir, por delegação de competências, à banca neste país.
Vale a pena ver e ouvir o insosso presidente do BES a dizer isto ao vivo e a cores.
(O título foi tirado do texto de Paulo Varela Gomes que ontem tive a oportunidade de reproduzir no post "Declaração".)

2010/10/24

"Declaração"

O Público de ontem contém uma "Declaração" de Paulo Varela Gomes (clique na imagem para a ler)  incluida na habitual crónica de sábado "Cartas do Interior".
Por concordar totalmente com o que aí é dito, por ser sensível a este apelo bem articulado, sincero e simples, e por estar disposto a participar nas acções nele sugeridas, aqui a reproduzo com a devida vénia—como acto de total solidariedade— na esperança de que outros, que não tiveram possibilidade de o fazer, possam ler esta "Declaração" e avaliar, por si próprios, a oportunidadade e o alcance do que aí é preconizado.
Se esta reprodução não for legal, paciência; é, desde já, uma forma de começar a participar no que PVG sugere...

2010/10/22

Cosa Nostra no Bombarral

Pelos vistos, a "Máfia" chegou à West Coast da Europa. A verdadeira, porque a máfia lusitana já cá está há muito tempo.