2022/10/03

XXII Bienal: em Sevilha, o Flamenco está vivo!

 

Decorreu, durante todo o mês de Setembro, mais uma edição da Bienal de Flamenco, o maior e mais prestigioso evento dedicado à arte "jonda" que, de há dois séculos a esta parte, apaixona os melómanos e estudiosos de todo o Mundo. 

Após a edição de 2020, condicionada pela pandemia reinante, em que a maior parte dos concertos foram  limitados a metade da sua assistência habitual, a Bienal voltou, quiçá mais pujante que nunca, com dezenas de espectáculos de "cante",  "toque" e "baile", o tripé sob o qual assenta o género musical mais popular de Espanha. 

Com nomes sonantes no programa, entre os quais a Cia. Eva y Yerbabuena,  Olga Pericet, Vicente Amigo, Gerardo Núñez, Israel Galván, La Tremendita, Niño de Elche, Marina Heredia, Segundo Falcón, La Macanita, Rafael Carrasco, Pastora Galván y Marina Marín, Manuela Carrasco, Bolita, Mayte Martín, Rocío Molina (com Niño de Elche), era difícil escolher. Dificuldades de datas e bilhetes esgotados com antecedência, impediram uma selecção mais abrangente, ainda que o critério de qualidade estivesse garantido à partida. 

Lá fomos, munidos de entradas para três concertos, que não podiam desiludir: o guitarrista Vicente Amigo, a "cantaora" Mayte Martín e a "bailaora" Rocío Molina, esta com um convidado especial, o iconoclasta Niño de Elche.

Regressado a Sevilha, após um largo período de ausência, Vicente Amigo (Córdoba) voltou ao nível dos seus melhores dias: versátil, intimista e arrojado, nos variados "palos", que executou com a mestria que lhe conhecemos. Reportório renovado e clássicos que todos sabem de cor. Um guitarrista a um tempo clássico e moderno, que sabe agradar aos mais aficionados e ao público em geral. Poucos são os guitarristas que esgotam La Maestranza, a sala de visitas de Sevilha e Vicente Amigo voltou a consegui-lo. Depois de uma introdução clássica, em que interpretou um "medley" de "soleás", "seguiriyas" e "bulerías", Amigo iniciou uma viagem pelos seus temas mais conhecidos, culminando com a homenagem à arte do toureio, dedicada a um famoso lidador de Sevilha. Passou em revista temas do seu último álbum "Memoria de los sentidos", entre os quais "Requiem Coral" (uma homenagem a Paco de Lucía), aqui numa interpretação contida, mas dramática de Rafael de Utrera. Com Amigo, estiveram mais sete acompanhantes, entre músicos, "cantaores" e "bailaores", todos de qualidade ímpar. Destaque para o "cantaor" Rafael Usero Vilches (Rafael de Utrera), excelente nas interpretações mais dramáticas e Antonio Molina Redondo (El Choro), magnífico na sua curta mas rigorosa intervenção de "baile". 

Outra "cantaora", que acompanhamos há mais de 25 anos e que nunca desilude, é Mayte Martín (Barcelona) uma das vozes e presenças mais apreciadas no circuito flamenco. Mayte, não tem apenas uma boa voz, mas uma presença que o público e a crítica especializada sabem reconhecer. Lá estivémos todos, num Lope de Vega cheio até ao tecto, para acompanhá-la nas duas horas que duraram a actuação, pontuada por momentos de pura magia, em que nem uma mosca se ouvia na velhinha sala de Sevilha. Uma actuação a todos os títulos brilhante, em que interpretou, com igual desenvoltura, os "palos" mais clássicos. De destacar, aqueles em que foi acompanhada pelo guitarrista José Gálvez, num dos momentos mais solenes do concerto. Não faltaram outros temas e incursões por géneros não-flamencos e dois "encores", respectivamente, o celebrado  "S.O.S.", do seu álbum de estreia "Muy Frágil" e a "Milonga del Solitario" do argentino Atahualpa Yupanqui, ambos cantados com a mestria que lhe conhecemos. Mayte Martín está no topo da carreira e arriscamos a dizer que, das vezes que a vimos ao "vivo" esta foi, sem dúvida, a sua melhor actuação. Brilhante.     

Finalmente, um dos espectáculos mais aguardados desta Bienal: "Carnación" (estreia nacional), uma criação de Rocío Molina (Málaga), "bailaora" e "dansaora", reconhecida pela sua abordagem à dança flamenca contemporânea e de fusão, que a tornaram famosa no circuito da arte. Desta vez, rodeada de um elenco notável, entre os quais, o conhecido El Niño de Elche (voz), Pepe Benitez (piano, electrónica, programações), Maureen Choi (violinista), Calude Alemán (soprano) e ProyectoeLe (coro). Pese embora a encenação operática, em que as luzes, o som e as cores dominaram, o espectáculo pecou por falta de ritmo, aliado a uma duração que nos pareceu excessiva, dado o desafio - difícil - a que Molina se propôs. Uma performance de quase duas horas, com muito de teatro pós-dramático, "bondage" e provocação, em que todos os intérpretes se expuseram ao limite. Nada que não tivéssemos visto em companhias de dança contemporânea (Pina Bausch, Teresa De Keersmaeker) com a diferença de que, aqui, a "mensagem" não passou. Acresce que, de Flamenco, houve muito pouco (afinal, o tema da Bienal), salvo um "martinete", interpretado a preceito por El Niño de Elche e um bailado soberbo de Molina, num despique furioso com a violinista Choi, certamente dois dos momentos mais conseguidos de "Carnación". Como em todas as experiências, a inovação não agradou a todos. Entre espectadores meio bocejantes, que pediam "mais baile" e fãs incondicionais, que não regatearam aplausos no final, ficou uma sensação de vazio, difícil de interpretar. Nem toda a crítica local gostou do espectáculo e o diário "El Mundo", considerou-o mesmo o "pior da Bienal"...

A Bienal terminou, mas o Flamenco continua. Hoje, mais vivo que nunca, renovando-se com intérpretes de excepção, que prosseguem com a arte "jonda", um género musical universal.                

2022/09/26

Itália ou o eterno retorno do fascismo

 


Pela primeira vez, desde a 2ª guerra mundial, a Itália tem um governo de extrema-direita. 

A grande vencedora da noite, Giorgia Meloni (neta de Mussolini) tratou logo de dizer que não era fascista como o avô (estas coisas não têm de ser genéticas). De facto, o neo-fascismo, que é disso que se trata, já não necessita de "botas cardadas" para governar (até ver...). Por enquanto, só o símbolo do partido "Irmãos de Itália" é o mesmo do partido do patriarca. A continuidade, ora aí está...  

À Meloni não faltam "pomodori": tem carisma, é autoritária, fala aos gritos, é contra os burocratas de Bruxelas, quer unir a Itália e devolvê-la aos italianos, quer governar com toda a gente, não quer mais imigrantes, refugiados e minorias a viver à custa do estado, defende uma baixa geral de impostos, é contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, como não podia deixar ser, o seu lema é "Deus, Pátria e Família".

Num célebre ensaio (Como reconhecer o fascismo) Umberto Eco enumera aquelas que considera as principais características do movimento original. São catorze no total, por isso o autor adverte: 

"O termo fascismo adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos e poder-se-á sempre reconhecê-lo como fascista. Retire-se ao fascismo o imperialismo, e teremos Franco e Salazar; retire-se o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescente-se ao fascismo italiano um anti-capitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescente-se o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola. Apesar desta confusão, considero que será possível indicar uma lista de características típicas do que poderei chamar de "Ur-Fascismo" ou "fascismo eterno". Estas caracteríticas não podem ser ordenadas num único sistema: muitas contradizem-se reciprocamente, e são típicas de outras formas de despotismo ou de fanatismo. Mas basta que esteja presente uma delas para fazer coagular uma nebulosa fascista" (Eco, Umberto: "Como reconhecer o fascismo", Ed. Relógio de Água, 2017).      

Eco escreveu a partir da sua experiência na Itália de Mussolini. Nasceu em 1932, quando o regime estava no auge e, desde então, muita coisa mudou. No entanto, as suas observações sobre o tema mantém-se actuais, já que o fascismo (nas suas diversas formas) volta sempre e não é um fenómeno típico de países do Sul. 

Essa é, também, a opinião do especialista Rob Riemen, que à questão dedicou vários escritos. No seu livro "O eterno retorno do fascismo", este filósofo holandês dá como exemplo um partido do seu próprio país: 

"Nos Países Baixos, Geert Wilders e o seu Partido da Liberdade (PVV), são os protótipos do fascismo contemporâneo e, enquanto tal, não são senão as consequências políticas lógicas de uma sociedade pela qual todos somos responsáveis. O fascismo contemporâneo resulta, mais uma vez, de partidos políticos que renunciaram à sua tradição intelectual, de intelectuais que cultivaram um niilismo complacente, de universidades que já não são dignas desse nome, da ganância do mundo dos negócios, de mass media que preferem ser ventríloquos do público em vez do seu espelho crítico São estas as elites corrompidas que alimentam o vazio espiritual, contribuindo para uma nova expansão do fascismo" (Riemen, Rob: "O eterno retorno do fascismo", Ed. Bizâncio, 2012).    

Voltando às eleições italianas: não penso que a coligação de extrema-direita que ganhou as eleições (constituída pelos "Irmãos de Itália" da Meloni, pela "Liga" de Salvini e pela "Forza Italia" de Berlusconi), possa governar durante muito tempo. Os egos e as contradições internas são demasiado grandes, apesar de alguns pontos em comum. A Itália é um membro demasiado importante para a União Europeia (a 3ª maior economia, o 2º país mais industrializado e a maior dívida pública da União), pelo que não deixará de estar atenta às exigências deste governo. Tudo depende, agora, de Bruxelas. Os "partidos Meloni" só crescem onde as democracias são fracas (é do livros). Por outro lado, a Hungria de Orbán (outro neo-fascista) já foi apelidada de país não-democrático pela própria Comissão Europeia e penalizada por isso. A questão de fundo é: se a Hungria (membro de pleno direito da União Europeia) não é democrata e não respeita o estado de direito, o que está a fazer na UE? 

Quando os regimes democráticos não se respeitam, não nos devemos admirar do crescimento dos partidos que, aproveitando-se da democracia, a querem destruir por dentro. Estamos avisados.

2022/09/25

"Indian Summer"

"Outubro quente, traz o diabo no dente" (provérbio português) 

De acordo com o calendário, começou o Outono. Para trás, o mais quente mês de Julho do século, a habitual seca e os fogos de Agosto, para além de uma "silly season" trivial, não fora a morte da monarca inglesa de maior longevidade no cargo. 

O falecimento de Isabel II e a cobertura das exéquias fúnebres por parte da comunicação social portuguesa, atingiu níveis inimagináveis e provavelmente nunca vistos (falo por mim, que vejo televisão desde 1957). Os diferentes canais, desde a circunspecta RTP, às televisões de cabo SIC, TVI, CNN e CMTV, não se pouparam a esforços (e, presume-se, orçamentos) para enviar os seus mais reputados "pivots" ao Reino Unido: de Balmoral a Saint James, passando por Windsor e Westminster, lá estiveram todos, a Clara, o José Rodrigues e o Nuno Santos, atropelando-se, ao sol e à chuva, para nos dar a imagem que faltava, pois o "serviço público" é isto: "dar ao público o que ele deseja ver", mesmo quando não havia nada para mostrar. Patéticos, alguns dos comentários de jornalistas experimentados, que não se cansaram de repetir os quilómetros e as horas passadas nas filas, por todos aqueles que quiseram prestar a última homenagem à rainha. Eram mais de sete quilómetros de fila, talvez oito, arriscava um com maior rigor...Chama-se a isto, em jargão jornalístico, "encher chouriços". Mas, não foi apenas a televisão portuguesa que exagerou. No dia do funeral, contei 22 canais de televisão em todo o Mundo, que cobriam o acontecimento, China incluída. É obra!

Com a mudança de estação, entrámos naquilo que os anglo-saxónicos apelidam de "Indian Summer" (verão indiano), uma designação que terá a sua origem na mitologia dos nativos americanos. Segundo a lenda, o sangue dos ursos mortos filtra-se pelos solos e viaja através das raízes para as folhas das árvores, colorindo-as de vermelho, a cor dominante das copas durante os meses de Outubro e Novembro no continente norte-americano. Outra explicação, tem origem no mito indiano, segundo o qual os meses de Outono correspondem à principal temporada de caça, devido às suaves temperaturas desta época do ano, quando os animais selvagens são atraídos para fora dos seus esconderijos e são mais fáceis de caçar. Na Europa, chamamos a este interregno "Dias de São Martinho", santo cujo dia é celebrado a 11 de Novembro. São dias de transição suave, algures entre os últimos calores de Verão e as primeiras chuvas do Outono, sem vento e de temperatura amena. No entanto, todos sabemos que, lá mais para a frente, virá a tempestade. Não será diferente desta vez, pois as nuvens acumulam-se no horizonte e nem todas serão obra da natureza. 

A maior "tempestade", que influencia e paralisa meio Mundo, é sem dúvida a guerra Russia-Ucrânia, iniciada há, precisamente, sete meses. Um desastre de dimensões incalculáveis, desde logo a nível humano, para além dos prejuízos materiais e da destruição massiva que atinge sobretudo a Ucrânia e o seu martirizado povo. Sete meses passados e apesar dos desejos expressos pela maioria dos comentadores (há quem lhes chame "wishful thinking") a verdade é que a guerra decide-se no terreno e, provavelmente, irá prolongar-se para além do Outono. Este é um cenário que pode convir à Rússia (cada vez mais isolada no plano internacional, devido às sanções aplicadas pela UE e pelos EUA) que dispõe de reservas de gás e petróleo das quais dependem os países do Norte e do Centro da Europa, que não hesitará em usar como "moeda de troca" nesta guerra de contra-sanções. De resto, alguns dos países que aprovaram as sanções (Áustria, Hungria, Republica Checa, e.o.) continuam a comprar e a pagar em rublos o gás russo de que necessitam, fazendo jus ao princípio "negócios, primeiro!". Resta saber o que restará da "unidade europeia", nesta guerra que só interessa às grandes potências (EUA e Rússia) quando o "Verão indiano" terminar e o Inverno começar. Nessa altura, as bandeirinhas azuis e amarelas nas janelas, poderão começar a desaparecer.

Outra "tempestade" previsível, é a crescente influência dos partidos populistas de extrema-direita (de tendência fascista) que, ontem na Suécia (e hoje, em Itália) poderão vir a integrar governos de regimes democráticos, depois de terem conseguido votações expressivas que rondam os 20% nas eleições legislativas de ambos os países. Este crescimento exponencial, torna-os parceiros ideais da direita tradicional e conservadora que, desta forma, poderá governar e implementar medidas protecionistas, xenófobas e anti-imigração, normalmente sempre mais difíceis de pôr em prática. Se, na Suécia, o tema da segurança foi central durante toda a campanha (devido ao aumento da criminalidade no seio das comunidades imigrantes nas últimas duas décadas); já, em Itália, os principais lemas defendidos pela assumida candidata fascista (neta de Mussolini) foram "a família, a pátria e a religião", a par da imigração e dos refugiados, temas centrais em todas as campanhas (de Salvini, ex-governante e cujo partido integra o actual bloco nacionalista ao "regressado" Berlusconi, o populista-mor do reino, que apoia Putin, o que o coloca numa posição ambígua perante o eleitorado italiano. Resta acrescentar que Putin "himself", tem sido um dos principais apoiantes dos movimentos populistas e de extrema-direita na Europa e nos EUA (Trump), numa estratégia que visa enfraquecer os países do bloco ocidental. Tudo "bons rapazes", portanto.    

Resta a crise social e económica, propriamente dita, que veio para ficar. Chama-se "inflação" e já cá estava antes da guerra e do crescimento dos partidos populistas de direita na Europa. Nos EUA atingiu os 8,3% nos últimos dias e, na zona euro, ronda os 7%. Portugal não foge à regra e apesar do crescimento económico anunciado para o próximo ano (6,5%), a verdade é que partimos de valores mais baixos, pelo que o crescimento real é, proporcionalmente, inferior. Na realidade, e apesar do anúncio feito por António Costa (de que todas as pensões e reformas abaixo dos 705euros, iriam receber um bónus de 50%) os pensionistas e reformados portugueses, vão perder esse aumento em 2023 e 2024, já que os valores das pensões deixarão de ser indexados à inflação, como tem sido regra até agora. Dito de outro modo: o governo prepara-se para congelar os aumentos das pensões e reformas no futuro, o que significará de facto uma perda do poder de compra real nos anos que aí vêm. Chama-se a isto "dar com uma mão e tirar com a outra"...

Mas, nem tudo são más notícias. Nos EUA, Trump foi acusado pelo Departamento de Justiça de fuga ao fisco e de sonegar documentos secretos da Casa Branca, encontrados na sua mansão da Florida. A acusação, e provável condenação, poderá significar o fim das suas ambições políticas e a perda de direitos nas próximas eleições, o que não deixa de ser uma boa coisa. Também Steve Bannon (ideólogo da Alt-Right, promotor de movimentos de extrema-direita na Europa e ex-assessor de Trump) foi acusado de corrupção e apropriação de bens angariados na campanha eleitoral, tendo-se entregado à justiça. Outra boa coisa, portanto. 

Finalmente, o Brasil. Do outro lado do Atlântico, chegam boas notícias: a uma semana das eleições, as sondagens (de todos os quadrantes) dão Lula como provável vencedor, com uma diferença de 14 pontos sobre Bolsonaro (47% versus 33%). A confirmarem-se estes números, será necessária uma 2ª volta, já que nenhum dos candidatos atingirá a maioria absoluta (50+1) necessária para poder governar. Depois de quatro anos de gestão danosa e conflituosa com o eleitorado brasileiro, o actual presidente, um tosco fascista, sem qualquer preparação para governar, poderá ser afastado e, inclusive, acusado por crimes de peculato e envolvimento em crimes sob investigação. A grande incógnita, parece residir na influência que os grupos evangélicos (70% do eleitorado de Bolsonaro) têm nestas eleições. Independentemente das simpatias pessoais, o que está em jogo no Brasil é muito mais do que uma simples disputa entre dois candidatos. Trata-se da escolha entre democracia e fascismo, o que não é coisa pouca. Vai Brasil!

Nunca o Outono pareceu tão quente.

2022/09/17

Allgarve

 

Tenho uma relação de amor-ódio com o Algarve. Passo a explicar:

Lembro-me, como se fosse hoje, da minha primeira visita, nos anos sessenta do século passado, já lá vão uns bons 60 anos...Desde então, muita coisa mudou, como seria natural. Uma coisa porém, provavelmente a mais importante, não sofreu alterações: o clima mais ameno do país, a luminosidade deslumbrante, a costa marítima - rochosa a Barlavento, suave a Sotavento - as areias finíssimas, a temperatura do mar, a reserva natural da Ria Formosa, a gastronomia excelente, onde o peixe e o marisco são reis imbatíveis, a arquitectura de influência árabe, a proximidade com Espanha, para além de tantas outras razões para continuar a gostar desta província. É sempre um prazer renovado voltar e não é difícil perceber porque é que tantos estrangeiros optaram por se fixar definitivamente nesta região. Um pequeno paraíso em território português.  

Esta é a imagem do Algarve que mantenho e que, ao longo dos anos, com maiores ou menores intervalos, venho comprovando: seja por razões profissionais, seja por razões turísticas.

A frequência das visitas nos últimos anos, aguçou o meu apetite pelas coisas boas e tornou-me mais exigente perante as coisas más, que um turista acidental tem tendência a subvalorizar e a considerar parte da "colour locale" que, aos seus olhos, as torna mais aceitáveis. Um bom exemplo, são os serviços: medíocres, a roçar o péssimo, quando comparados com outras regiões mais a Norte do país. 

Estamos em finais de Agosto em Tavira (portanto um concelho com cerca de 30.000 residentes), onde a população flutuante triplica nos meses de Verão. Chegados à cidade, depois de quase 3 horas de auto-estrada, procuramos um restaurante no centro, para almoçar. São 14.30h em ponto. Entramos no primeiro, com o original nome "A Romana - pizzaria" enquanto nos preparamos para encomendar algo. O empregado (brasileiro) dirige-se solicito à nossa mesa e pergunta o que desejamos. 

"Comer algo rápido", retorqui sem olhar para o cardápio. "A esta hora, só servimos "take away". "Como, não podemos comer? Mas, as cozinhas estão abertas e são 14.30h...". "Sim, podem comer, mas não aqui. Podem encomendar e ir comer para outro lado" (!?). Olho para o homem com vontade de o esganar e pergunto se há outro restaurante próximo. "Veja aqui ao lado, no "Olinda"...

Dirigimo-nos para o local indicado, uma esplanada a abarrotar de turistas, a 50 metros de distância. Sentamo-nos. Uma empregada solícita (inglesa) pede desculpa pelo seu mau português e pergunta o que queremos. "Algo rápido, para não perder muito tempo", respondo. "Muito bem, vá lendo a carta, que eu volto já". Desaparece no interior do restaurante. Passados uns minutos, volta com ar consternado e anuncia no seu melhor português: "Lamento, mas a cozinha já está fechada". Olho para ela e chamo a atenção para a hora. São14.40h...

"Nem ao menos uma salada ou uma omelete?". "Nada. Só bebidas...". Mudo de registo e digo-lhe no meu melhor inglês: "A senhora não tem culpa nenhuma, mas diga ao seu patrão que estamos no Algarve, a região mais turística de Portugal e que ele, se quer ganhar dinheiro, tem de fazê-lo nos meses de Verão...". Olha para mim, com ar compreensivo e responde: "You´re probably right, but I won't tell him that..."

Saímos em desespero, até encontrar um "cyber café" aberto onde, para além dos computadores, uma impressora e uma colecção de CDs respeitável, serviam "snacks" e refeições ligeiras. Eram exactamente 15h e, na esplanada, todas as mesas estavam ocupadas. Lá dentro, numa cozinha improvisada, um sujeito de meia-idade cozinhava algo parecido com um hamburguer. Ao ver-nos, perguntou com ar meio desesperado: "O que desejam?". "Comer! Pode ser uma salada para ser mais rápido", retorqui eu, com uma ar ainda mais desesperado. Abana a cabeça e diz: "Estou sozinho, tenho uma lista de clientes lá fora à espera. Vão ter de esperar 45 minutos"...". Aceitamos e enquanto escolhíamos uma salada de frango para dois, não resisto a perguntar-lhe: "Mas, está sozinho, porquê? Não há empregados?". O homem encolhe os ombros e, com ar resignado, diz: "Ninguém quer trabalhar. Os ordenados são baixos, os impostos são altos e o pessoal jovem não gosta de trabalhar na restauração, porque o dia não lhes "rende". Têm de trabalhar em dois turnos. Preferem ir para a praia e viver do subsídio de desemprego"...Perante tão eloquente resposta, fico sem argumentos. A verdade é que a taxa de desemprego é relativamente baixa (menos de 6%), mas no Verão e no Algarve, em particular, não devem faltar candidatos para o sector do turismo, responsável por 10% do PIB nacional (leio, na imprensa portuguesa, que os hotéis algarvios estão com uma ocupação de 93% e que, só no mês de Julho, o aeroporto de Faro registou 1,8 milhões de passageiros!).

Dias mais tarde e após uma boa experiência gastronómica num restaurante da zona ribeirinha, voltamos ao local para repetir a dose. O empregado reconhece-nos e diz-nos que a esplanada está cheia e há clientes à espera. Olho para o interior, vazio, onde uma televisão gigante transmite uma partida de futebol e esboço o meu melhor sorriso:"não faz mal, nós podemos ficar lá dentro...". "Lá dentro, não dá. Faz muito calor, por causa da cozinha, ali ao lado...". Não desisto e tento mais uma vez: "Nós esperamos...". "Não vai dar", diz o homem, com uma expressão de Buster Keaton. "Só temos uma placa na cozinha e leva muito tempo a cozinhar. Tente num restaurante mais adiante. Também são bons e baratos..."(!?). 

Perante tanto "entusiasmo" em fazer negócio, nem sei que pensar. Será que os algarvios já descobriram a fórmula da plena felicidade (trabalhar, quando apetece?). Se é assim, presto-lhes a minha homenagem. 

Os transportes são um capítulo à parte: os autocarros (vulgo "buses") ainda vão funcionando, mas apenas nas ligações internacionais. Dentro da província, são um pesadelo. À noite não existem e, a partir das 19h deixam simplesmente de funcionar (ex: carreira Faro-Loulé). O mesmo se passa com o comboio: só existe uma linha férrea, a ligação entre Lagos e Vila Real de Santo António (menos de 200 quilómetros) que demora hora e meia a percorrer. O serviço de automotoras existente, velho de 50 anos, pára em todas as estações e tem de fazer um compasso de espera em Faro, onde aguarda que chegue a automotora em sentido contrário, pois só existe um carril. Um sistema caduco, que já existia em 1974, quando recomecei as minhas visitas à região, nessa época ainda chamada de Algarve. As automotoras estão a cair do "tripé" e não devem ser lavadas há anos, tal a quantidade de graffitis nas carruagens. Na estação de Faro, o caos nas horas de ponta (chegadas dos comboios oriundos de Lisboa) é diário. Das quatro bilheteiras existentes, nunca vi mais de duas a funcionar em simultâneo. As filas para comprar bilhetes, são frequentes e não existem écrans numa língua estrangeira, que elucidem os turistas sobre os horários. Os anúncios sobre as chegadas e partidas dos diferentes comboios são feitos em português, através de uma aparelhagem sonora que não prima pela clareza. A maior parte dos funcionários, de idade avançada, não fala outra língua, para além do português. Só existe uma toilette pública (unisexo) onde, para entrar, há que pagar um euro. A alternativa é entrar no bar da estação e pedir a chave do WC, mas a empregada só a dá a quem consumir algo. Percebe-se, mas não é funcional. Podia ser no Burundi. É assim tão difícil construir lavabos modernos e funcionais para ambos os sexos numa das plataformas? Que raio, o Algarve é o nosso principal destino turístico e gera milhões de lucros anuais!   

Enfim, a lista de queixas é longa e de cansativa leitura. Há diferenças, no entanto: agora, chama-se "Allgarve" (Europe's most ocidental point), continua "very typical", funciona mal, mas ainda é "charming"...

2022/07/16

O próximo alvo

   

A publicação electrónica AbrilAbril assinala hoje, como seu "número do dia," que "com 329 votos a favor e 101 contra, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou o projecto de lei do orçamento para a Defesa, relativo ao ano fiscal de 2023, que contempla 840 mil milhões de dólares para despesas militares!

O número até custa a imaginar. Para ter uma noção da sua grandeza, ajudará dizer que o PIB português, estimado para 2022, é de 260 mil milhões de dólares. Ou seja, o PIB português é equivalente a cerca de um terço do orçamento americano aprovado para a defesa. Recorde-se que, actualmente, o orçamento americano é de 750 mil milhões, o da China 237 mil milhões, o da Arábia Saudita 67.6 mil milhões, o da Índia 61 mil milhões, o do Reino Unido 55.1 mil milhões, o da Alemanha 50 mil milhões, o do Japão 49 mil milhões. Só depois vem a Rússia com 48 mil milhões, parte dos quais vai servir, certamente, para cumprir aquele desígnio —que muitos, certamente, inspirados pelos prodígios de Tom Cruise exibidos na série Mission Impossible, acreditam ser uma possibilidade real— de transformar a Europa num quintal russo. O orçamento para a defesa russo, 41.5 mil milhões, é, praticamente, o mesmo da França. Lá vai a França tentar anexar a Rússia...  

(O quê?! Já tentou e arrependeu-se?! A sério?! Quando?! Não dei por nada. E os franceses é que entraram por Portugal a dentro, queimaram, pilharam, violaram, roubaram?! O quê??! E ninguém chamou a atenção do ministro da defesa? Que escândalo...

Agora vem a América aumentar a parada com mais 100 mil milhões de dólares. Só este aumento é equivalente ao dobro de todo o orçamento russo para a defesa. Toma e embrulha!

O que me faz imensa confusão (digo-o com toda a sinceridade e com uma certa tristeza) é continuar a ver os americanos (incluindo muitos autoproclamados democratas), completamente alienados, a reclamar um retorno aos "valores" e a um estatuto de exemplo para o mundo, sem perceberem que são os "valores" deles que levaram o mundo, justamente, ao estado caótico em que nos encontramos hoje e à iminência de novo conflito mundial. Retorno a quê, então?! Também me faz confusão que tantos europeus não vejam isso, mas isso é outra conversa.

Um mundo de valores em manifesto estertor de morte, facto que ainda assim não chega para comover os americanos e que continua a embalar os europeus para uma viagem segura até aos Cuidados Intensivos. Há dias assisti a um programa do David Letterman a entrevistar o Obama. A certo ponto dos seus monólogos, evocavam o senador John Lewis e o triste episódio da Edmund Pettus Bridge. Os dois, massajando o ego um do outro, tu és o maior, não, tu é que és! Lá iam enchendo a boca com os valores da "democracia," da sua defesa e da necessidade de a América voltar a ser um exemplo para o "mundo," conceito dentro do qual já imaginam,  certamente, incluir a Lua, Marte e todos os exoplanetas entretanto descobertos ou a descobrir pela sonda James Webb. Há por aí muito mundo a explorar...

Nem uma única palavra de autocrítica. Esquecendo os dois —enquanto o show continuava, cinicamente, para gáudio do auditório indígena— as intervenções militares ordenadas por Obama no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Iémen, Somália e Paquistão. Um Obama autcomplacente, que invoca os valores da paz, mas foi incapaz de largar a guerra quando teve o poder para isso. Um pouco como aquela situação patética da lei das armas. Morre gente, crianças e adultos são vítimas do direito ao tiro ao alvo constitucional, todos no final derramam lágrimas de crocodilo, mas ninguém muda a porca da lei. Porque a lógica é essa: a do confronto belicoso interno, permanente, sustentado mais ou menos a tiro, e a sua exportação como uma  forma de manter o seu estatuto da nação, estatuto em que, pelos vistos, todo partilham e todos nele se revêem. Já nem falo do miserável caso Julian Assange, que teve os seus piores contornos durante o mandato de Obama e levou à sua actual e desgraçada situação. Com a complacência do aliado RU, claro, esquecidos e perdoados que foram os prejuízos causados pelo embaraçoso episódio do porto de Boston... 

Faz confusão que esse senador John Lewis, que levou porrada e foi preso por simplesmente encabeçar um movimento para o direito de voto, apareça a dizer que Obama foi o melhor presidente que a América teve. Não foi. Não se entende a lógica. Não se pode criticar o défice democrático, como Obama faz nesse programa, e ficar paralisado na resolução desse problema. Na América ou em Portugal.

Toma lá agora 840 mil milhões de dólares, para manter os valores da "democracia americana." Os americanos descobriram o Viagra verde...

2022/07/14

Clima, Fogos e Prevenção

Ligo a televisão e vejo o primeiro-ministro no centro operacional da ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil) a falar sobre a maior calamidade natural que, anualmente, atinge o país: os fogos. 

António Costa repete, pela enésima vez, o óbvio: as condições climatéricas são excepcionalmente adversas nesta época do ano: as altas temperaturas, aliadas à baixa humidade e vento forte, são um "cocktail" explosivo, que podem provocar uma faísca, o suficiente para alimentar um incêndio de grandes proporções, durante dias. Por isso, apela à consciência dos portugueses. 

Apesar do reforço de medidas, tomadas após os grandes incêndios de 2017 (Pedrogão, etc...) que causaram 112 vítimas mortais, a situação está, hoje, mais controlada, existem mais meios humanos e materiais e, praticamente, não tem havido vítimas mortais.  Tudo isto é verdade e deve ser assinalado, pois - há que reconhecer - alguma coisa foi feita nestes últimos anos. 

Costa, também não se esqueceu de enumerar o aquecimento global e as causas exógenas, que não podemos controlar. No caso particular do Mediterrâneo, as altas temperaturas, aliadas à baixa humidade e os ventos fortes, são uma constante no Verão, como noutras latitudes com clima semelhante, como é o caso da Califórnia ou da Austrália, para citar dois exemplos que sempre vêm à baila. 

Hoje é o dia mais quente do século (46,2 graus) e mais de metade do país está sob alerta vermelho. Não chove há meses e as barragens a Sul do Tejo estão praticamente secas. Não estão previstas grandes alterações a curto prazo e os meteorologistas alertam-nos para a repetição de ciclos de calor cada vez mais frequentes nos próximos anos.

Portanto, temos aqui um problema (estrutural) que, nas palavras do primeiro-ministro, nunca poderá ser evitado. Haverá sempre fogos, mas há que prevenir, para não ter de remediar. Para remediar (combater os fogos) estão cá os bombeiros e os sapadores de serviço. Também há mais meios materiais (aviões, helicópteros e o sistema de alarme Siresp), nos quais foram investidos milhões de euros, ainda que pareçam nunca ser suficientes. Portanto, é difícil fazer mais com os meios disponíveis (Costa dixit).  

Claro que há outras questões a montante. Por exemplo, no campo da prevenção, a limpeza da floresta privada é da responsabilidade dos proprietários. Mas, como saber a quem pertencem as propriedades?  Costa faz a pergunta retórica, enquanto aponta para o écran do computador de uma funcionária:

"Então, diga-me lá, se eu quiser saber quem são os donos das terras nesta região, o que devo fazer"? Resposta da funcionária: "Terá de perguntar no Cadastro Predial do distrito, onde estão os registos de Propriedade. Mas, neste caso, será difícil de saber. Estamos no Alto-Minho, uma região de minifúndio e os  cadastros a Norte do Tejo, estão todos desactualizados" (!?). 

Ouve-se e não se acredita.  

Não resisto a contar uma história pessoal: em 1979, no âmbito do Curso de Antropologia Cultural, fiz o meu trabalho de campo (fieldwork) em Trás-os-Montes. O objecto de estudo, estava relacionado com práticas comunitárias (utilização de baldios, e.o.) no distrito de Montalegre, região do Barroso. Durante três meses, vivi numa aldeia próxima (Cambezes do Rio) onde observava e recolhia os dados que necessitava e, uma vez por semana, deslocava-me a Montalegre para consultar os cadastros de propriedade rústica, ali registados. Ao fim do estágio e perante a disparidade entre a informação prestada e os registos existentes, perguntei ao engenheiro agrónomo, que supervisionava o meu trabalho, onde é que podia obter informação mais fidedigna. Estávamos em Setembro e o homem, solicito, perguntou-me se eu podia voltar a Portugal em Janeiro de 1981. Nessa altura, já deviam ser conhecidos os dados do Censo Nacional (recolhidos no início de cada década) e podia confrontar os dados pessoais com os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE). Assim fiz e, alguns meses mais tarde, em conversa com um funcionário do INE, em Lisboa, este confirmou os meus receios: os dados existentes, não eram completamente fiáveis, dado que a maioria dos cadastros datava do século XIX, quando muitas das propriedades foram registadas e, desde então, as escrituras não eram actualizadas. Os descendentes herdavam os terrenos e, muitas vezes, trocavam-nos por outros, sem fazer qualquer registo oficial. Também eram frequentes as desavenças entre familiares por causa das heranças e os processos levavam anos a serem resolvidos em tribunal. Muita gente, desistia.

Quarenta e três anos depois, os cadastros de propriedade a Norte do Tejo, continuam desactualizados. Como é possível responsabilizar o proprietário de um terreno, por limpar, se continuamos sem saber quem é o seu dono?... 

(Nota - A imagem é de O Cadastro e a Propriedade Rústica em Portugal de Paula C S Ribeiro)

2022/07/06

Nojos

O futuro está traçado. A aliança EUA-NATO-UE, o corolário hodierno da famosa Doutrina Monroe, vai partir os dentes neste conflito na Ucrânia, vai sofrer uma humilhante derrota e o mundo vai passar a viver sob uma outra ordem. É apenas uma questão de tempo. O que aí vem é, por enquanto, uma incógnita, que se tornará porvetura mais clara quando for lida nos compêndios de história do século XXII. 

Os mostradores das bombas de gasolina que pulsam e rodam de forma cada vez mais vertiginosa, assim marcando a negro o dia a dia dos automobilistas, não reflectem, nem de perto nem de longe, o trambolhão que o "Ocidente" (cf. esta interessante análise de Carlos Matos Gomes sobre este conceito) vai dar, à conta desta miserável aventura em que nos meteram. Mas esses mesmos mostradores das bombas, ao rodarem cada vez mais depressa, para da pistola da bomba sair cada vez menos combustível, constituem uma espécie de metáfora, se se quiser ver para além dos números, do entalanço em que estamos metidos e não podem deixar de nos fazer pensar no que aí vem. Todos deveriam refectir, com seriedade e serenidade, sobre o futuro. 

Uma coisa que, para já, se me afigura certa é que os povos não parecem estar preparados para a reviravolta que se avizinha. A Europa, em particular, revelou-se, em todo este processo, incrivelmente vulnerável. E Portugal, então, pelo filme a que vamos assistindo, está em riscos de se tornar um protectorado de uma multinacional qualquer ou um gigantesco Airbnb.

Bruxelas não é Washington

Há tarefas que, no imediato e se não nos quisermos resignar a uma postura passiva perante tudo o que se passa, parecem urgentes. A mais importante, a que deveria ser dada atenção imediata, é a da continuação desta União Europeia. Uma organização dirigida por zombies que usurparam os direitos democráticos dos europeus e se instalaram ilegalmente nesta coisa inenarrável a que chamam Comissão. É urgente responsabilizá-los pelas consequências que esta decisão de se juntarem à cobóiada vão ter na vida de todos nós, numa atitude de subserviência absolutamente escandalosa. Repare-se que nem na própria América se engole todo este cenário criado em torno do conflito da Ucrânia.

Segundo o Ron Paul Institute, 71% dos americanos não desejam que Biden se candidate a um segundo mandato. Segundo outra fonte, a percentagem de americanos que não querem que Biden se candidate a esse segundo mandato é extraordinariamente alta, quando comparada com os presidentes anteriores, ainda em primeiro mandato. Os americanos já estão a sentir na pele o fiasco absoluto desta política terrorista das sanções, ditada pelos cowboys da Casa Branca. Mas os americanos não parecem dispostos a tal sacrifício. Quem os poderá criticar...?

Biden tenta, em fuga para a frente, culpar Putin, junto da opinião pública americana, pela escalada da inflação, mas, como conclui ainda a análise do Ron Paul Institute, há um grande problema: "os americanos não acreditam nele. De acordo com uma pesquisa da Rasmussen no início deste mês, apenas 11% dos americanos acreditam na afirmação de Biden de que o presidente russo Vladimir Putin é o culpado pelos altos preços." 

Os americanos também não querem, segundo parece, uma recandidatura de Trump. Mas é bom lembrar que a actual política de Washington é exactamente igual à que foi seguida pelo presidente golpista. Vale a pena recordar o que dizia o seu anterior Secretário de Estado, Mike Pompeo e comparar com o que está a ser feito agora. E vale a pena perceber quais são exactamente as personagens que têm transitado de administração em administração, desde há longos anos, para levar a cabo o mesmo programa de desastre universal. Se não acredita, veja os nomes.

De Bruxelas, nem bom vento nem bom casamento

Bruxelas não é, de facto, Washington. O seguidismo dos dirigentes europeus ao discurso americano é incompreensível. Os americanos demonstram um compreensível sentido de conveniência que falta totalmente a Bruxelas. E a Doutrina Monroe justifica a postura americana. Mas o que ganha a Europa em continuar a papaguear o discurso  da invasão vinda das estepes que só pararia no Cabo da Roca, apimentada agora com uma ameaça amarela, quando na própria América esta narrativa parece já não estar a pegar? Numa demonstração da validade da expressão "ser mais papista que o papa," por estas bandas vamos assistindo ao espectáculo desgraçado que a Presidente da Comissão Europeia, prostrada de joelhos, dá todos os dias. Uma actuação nojenta, que nos faz (pelo menos a mim faz!) corar de vergonha. A todos nós que acreditámos no projecto europeu e andámos a embarcar, ingénua mas zelosamente, nesta trapaça absurda, neste travesti de eleições, a que chamam eleições europeias. Sobre o que nós e os nossos compadres europeus pensamos de tudo isto, o que vai na alma do europeu, nestes dias de ansiedade e de incerteza sobre o futuro, pouco se sabe. Dos americanos sabemos, ainda assim, que não estão a achar grande graça ao que se está a passar, e a festa nem sequer está a ser no quintal deles. O que justifica a posição da Europa perante este conflito?

Ainda faltará algum tempo para percebermos o que dirão os europeus sobre tudo isto. Mas quando, finalmente, acordarem para a realidade que têm e vão ter pela frente, vai ser tarde.

E Portugal?   

Se o que vai na mente dos europeus é uma incógnita, cá pelo burgo não sabemos o que pensam verdadeiramente os portugueses sobre este conflito, para além da conversa de café. Sabemos menos ainda sobre o que pensam sobre a actuação do Governo, nesta sua desfilada à rédea solta.

Falando de governo, permitam-me que exprima aqui, sobre esta matéria, um ponto de vista pessoal, num tom um pouco mais veemente, diria mesmo, escandalizado. A posição portuguesa em todo este caso mete nojo. O comportamento do Governo nesta matéria e, em particular, o do Primeiro Ministro António Costa, é um nojo. Politicamente, está arrrumado. O tirocínio para substituir a Ursula menor de nada lhe vai valer porque deixou de ter a iniciativa, anda totalmente a reboque dos acontecimentos, sem dar o mínimo sinal de uma visão própria, sem um pensamento estratégico, digno de nota e sem um comprtamento que indicie ter a força necessária para mudar o rumo da Europa.  O "estadista" foi a banhos. Não foi para isto que votei nele. A credibilidade política, interna e externa, perdeu-a Costa num aperto de mão em Kiev. E veja-se, por exemplo, aqui, o tipo de santinhos a quem Costa foi apertar a mão, em nome de todos nós.

Comprometida, sem possibilidade de um entendimento, está também uma solução para Portugal, à esquerda. A Ucrânia constitui um tiro no porta-aviões da esquerda portuguesa, sem possibilidade de reparação do rombo. Como se diria, em inglês, Costa é um has been. Tanto que prometia o mocinho, tanta ponte, tanto diálogo para tudo ter acabado assim. É uma pena. À direita o panorama, é certo, não é melhor, o que significa que Portugal é de quem o apanhar.

Nota profundamente negativa, pois, para a actuação do governo, que faz o favor de representar o papel de manequim na montra do imperialismo. Não foram mandatados para isso! Repito: não foram mandatados para isso. 

Não estamos perante uma emergência nacional, não corremos riscos de segurança interna, temos problemas estruturais (lembram-se dos famosos problemas estruturais?!), estruturalmente adiados, temos milhões para ajudar à festa da guerra, mas os tais problemas estruturais ficaram para as calendas. Corremos agora, isso sim, o risco de sermos apanhados pelo fogo cruzado. Nada justifica que os portugueses tenham sido colocados em perigo desta forma. A culpa é do governo. Se já na América poucos compram a ideia de uma opção entre o sacrifício em resposta a uma hipotética ameaça, que corre lá longe, ou uma vida decente, por cá temos de perguntar e exigir uma justificação séria a este governo sobre esta decisão de converter Portugal em potencial barraquinha de tiro ao alvo e os sacrifícios e os riscos que esta opção representa. Para quê?! O que raio passou na mente perversa destes irresponsáveis para transformar Portugal, de repente, em feira popular? O PS criou a ilusão que tem tudo controlado e não percebeu que está em risco de se afrancesar. Não percebe, por exemplo, que entrou naquela fase em que os seus princípios resvalam para a "quimera" e para a "ambiguidade," como referia Thibaut Rioufrey a propósito do PS francês, que conduziram este partido ao eclipse quase total.

Do PR, sempre igual a si próprio, nem vale a pena falar, mas vale, isso sim, a pena falar da AR. A prudência política, o respeito pelos eleitores e o simples sentido patriótico, deveriam ter ditado uma outra postura da AR e do seu sibilino presidente, perante este conflito, mais contida, mais consentânea com o preceito constitucional, que tivesse evitado o espectáculo nojento do passado mês de Abril. O PS revelou-se, mais uma vez, nesta como noutras ocasiões, um nojo. Traiu os eleitores que depositaram confiança total nas suas propostas e lhes compraram as cadeiras do poder, onde agora se sentam. 

Tristíssimo o espectáculo deprimente deste partido, a dobrar a cerviz perante os senhoritos da guerra. Enquanto a Constituição preceitua a "solução pacífica dos conflitos internacionais, a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e a cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade," o que faz o governo da maioria? Oferece armas e junta-se ao coro internacional das fanfarronadas. De um país com tradição revolucionária na floricultura, esperava-se que fornecessem, ao menos, rosas, senhor! 

Por outro lado, também a actuação de uma parte da oposição, que diz, servilmente, amen a tudo isto ou se cala oportunisticamente, não pode senão ser classificada de outro nojo. Uma outra, reduzida, parte da oposição, que cavou por culpas políticas próprias o seu isolamento e revela total incapacidade de ter voz de combate, está encostada, inutilmente, a uma retórica que a ninguém impressiona. Mais outro nojo. Não pela posição neste caso específico, que sempre me pareceu correcta, mas pela inabilidade política que a levou a ficar aquém dos mínimos olímpicos e a revelar a sua debilidade preocupante, quando era tão necessário que fizesse agora voz grossa e tivesse algum peso específico. 

Estamos, pois, metidos num enorme molho de bróculos. Os portugueses irão certamente gozar o verão, finalmente, depois de dois anos de confinamento. Quando voltarem, logo se vê.


PS- Já depois de concluído este artigo, ficámos a saber que o Boris the Animal foi despedido e que, por agora, o PM se livrou de uma moção de censura. Ça bouge!

2022/06/23

Assim se vê...a força da CP!

Para o mês de Junho, a CP (Companhia Ferroviária Portuguesa), anunciou uma greve intermitente de maquinistas, a nível nacional. Porque a greve se anunciava "intermitente", temi o pior. Já bastam as greves "constantes" que, normalmente, só prejudicam os trabalhadores que compram passes mensais e perdem o dinheiro investido à cabeça, quanto mais "intermitentes"...

Porque necessitava de viajar de comboio para Faro, resolvi comprar o bilhete com alguma antecedência e dirigi-me à bilheteira de Sete-Rios, para tentar perceber o conceito de "intermitente". 

IDA

Conforme receava, apenas uma das duas bilheteiras funcionava e a fila (maioritariamente constituída por turistas) ultrapassava as três dezenas de pessoas. Após meia-hora de espera, sou atendido. 

- Estão em greve de zelo?

Não. Estamos em greve. 

- Estão em greve? Mas a bilheteira está a funcionar...

A greve é dos maquinistas.

- Não estou a perceber. Os maquinistas estão em greve, os comboios não funcionam e os senhores vendem bilhetes? 

É como vê. Para onde vai? 

- Quero ir, depois de amanhã, para Faro e desejo um bilhete para o comboio das 10.14h.    

Se quiser eu vendo-lhe o bilhete, mas não prometo que haja comboio...

- Bonito serviço. E agora, que me aconselha? 

O senhor é que sabe. Pode ir sempre de autocarro. Ou vir nesse dia e aguardar pelo comboio...

- Estou a perceber. A greve é "intermitente" e pode ser que esse comboio funcione. Arrisco.

Comprei o bilhete e voltei para casa, onde espero dois dias, enquanto sigo a greve da CP pelas notícias. Entretanto, pessoa amiga em Faro, ia-me informando da dificuldade que tinha em regressar a Lisboa, dado que alguns comboios tinham sido cancelados. Fazia sentido: dia 13 (segunda) foi feriado em Lisboa e muita gente aproveitou a "ponte" de três dias para ir até à praia. Nada melhor do que uma greve durante um fim-de-semana prolongado. De resto, há uma tradição de greves à sexta e à segunda, em Portugal, o que não deixa de ser curioso... 

No dia aprazado (13) fui, com uma hora de antecedência, para a estação. Comprei o jornal e esperei pelo comboio. Com 10 minutos de atraso, chega o dito e pude embarcar normalmente. 

VOLTA

Nove dias mais tarde, eis-me de regresso a casa. Chego à estação de comboios de Faro, onde apenas duas das três bilheteiras existentes estão a funcionar. Uma fila de nacionais e turistas espera pacientemente, de mochilas às costas, pela sua vez. Só há uma fila, que se divide, à medida que as bilheteiras vão ficando livres. Quando chega a minha vez, dirijo-me à bilheteira da esquerda, que tinha ficado livre. A funcionária ignora-me, deixa a bilheteira aberta e dirige-se a uma secretária, onde inicia uma série de telefonemas, enquanto confere a papelada com ajuda de uma máquina de calcular. 

Aguardo pacientemente, ao mesmo tempo que a bilheteira do lado, continua a vender bilhetes. Passaram mais de 5 minutos e a funcionária continuava alegremente a conversar pelo telefone. Impaciente, bato no vidro e chamo-lhe a atenção para o facto de continuar à espera, já que a bilheteira não tinha sido encerrada. Olha-me irritada e faz-me sinal que devo passar para a outra fila. Respondo negativamente, uma vez que ela não tinha encerrado a bilheteira, pelo que continuava de serviço e eu não ia passar à frente dos outros passageiros na fila da direita.

Desvia o olhar e continua a conferir documentos, enquanto fala ao telefone com alguém. Torno a bater no vidro e, já irritado, chamo a atenção para o facto da bilheteira continuar aberta e ela não ter avisado ninguém, nem colocado o aviso de "encerrado" na bilheteira. Nem responde. Dada a urgência, passo para a fila do lado, onde uma gentil japonesa deixa que eu passe à sua frente. Dirijo-me ao funcionário, que me olha com os olhos esbugalhados e compro o bilhete, não sem antes pedir o livro de reclamações e protestar contra a forma como a companhia, de que ele faz parte, não ter a mínima consideração pelos passageiros e fazer greves por direitos, mas raramente cumprir deveres. Aproveito para fazer o discurso sobre a falta de cultura de "civil servant" (funcionário público) que é inexistente em Portugal. O homem (era brasileiro...) olha para mim, com ar desconsolado, passa-me o livro de reclamações e, enquanto escrevo a queixa, continua a emitir o bilhete, após o que me pergunta: "E o senhor, vai desejar número de contribuinte na factura?". 

 

2022/06/12

Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades

 


Mão amiga chamou-me a atenção para um livro recente sobre Churchill e apontou-me este artigo sobre a controversa figura. Parece não merecer contestação que, como refere o artigo citado "A Grã-Bretanha entrou na guerra, afinal, porque enfrentava uma ameaça existencial e não, principalmente, porque discordava da ideologia nazista."

Mas, entrou!

Uma "geringonça" ainda mais improvável, que uniu um anticomunista, meio racista, um trafulha, inspirador dos imperialistas hodiernos e o rebitador da "cortina de ferro," derrotou o palhaço do bigodinho,  E quando vejo agora a von der Leyen a pousar sorridente ao lado do Zelensky, tremo. E quando me lembro dos Edwards e outras figuras do género —"aristo-fascistas," como lhes chamam no artigo — volto a tremer. Este quadro está hoje bastante mais carregado.


 

E, pergunto-me: onde poderemos encontrar na Europa de hoje um Churchill que bata o pé aos novos Edwards, que por aí pululam, apesar das enormidades, das atrocidades que aquele cometeu noutros sítios, em nome do Império e de uma ideologia duvidosa, que não escondia a sua origem de classe? Certamente que não no Largo do Rato...

É que entre o pintor falhado e o comediante da treta e as respectivas entourages, há mais perturbantes semelhanças do que se pensa, mas ninguém com a estatura do controverso Churchill. Pousar junto a qualquer uma dos protagonistas deste conflito, fora da mesa da negociação, não augura nada de bom. Os pintores falhados tiveram o fim que mereciam. Mas o que fazer a estes comediantes da treta que agora dominam a engrenagem?  Repare-se que os mandantes, esses, continuam, então como agora, a ser exactamente os mesmos.

Que estamos à beira de uma catástrofe, já deu para perceber.

"Check-Up"


Acontece aos melhores. 

Dirijo-me ao Centro de Saúde António Arnauth, recentemente inaugurado, para marcar uma consulta com o meu médico de família. Passada a triagem inicial (senha e tal...) sou chamado ao "guichet" para marcar a consulta. Não pode ser quando eu quero, mas um mês mais tarde...como não era urgente, aceito a data proposta. Estamos em Abril deste ano.

Semanas mais tarde, perante o médico, este faz-me a pergunta clássica: "Então, qual é a queixa?". 

- Nada em especial. Acontece que tenho por hábito fazer um "check-up" regular e há três anos que não faço nenhum, devido à pandemia de Covid e à sobrecarga nos hospitais. Pensei que estava na altura de retomar a rotina...

E faz muito bem. Então, diga lá quais os exames que quer fazer...

- Bom, para além das análises habituais, sangue, urina, psa, etc..., exame cardiológico (electro-cardiograma),  radiológico (pulmões) e ecografias (rins, estômago...). Parece-me que é tudo...

Sim senhor. Só um momento, para escrever e imprimir. Quando tiver os resultados não se esqueça de passar por cá outra vez...

Passadas umas semanas, dirijo-me ao Hospital mais próximo, no caso uma extensão do "Lusíadas", uma cadeia de hospitais privados da região de Lisboa. Uma vez chegado e passada a triagem, dirijo-me ao balcão das marcações. As análises eram num edifício e as radiografias noutro. A funcionária, olha-me com ar de comiseração e pergunta-me se desejo fazer o "check-up" num dia só, ou se pode ser em dias separados...

- Bom, se puder ser num só dia, ou em datas próximas, preferia...

Pois é, mas no mesmo dia, só tenho datas livres em Setembro...posso marcar-lhe as análises em Junho e as radiografias em Agosto...Pode ser? 

- Que remédio. Então marque já para as datas que tiver livres. 

Imprime as respectivas marcações e agrafa-as em separado. Faço uma leitura transversal da papelada e volto para casa.

Na data indicada, regresso ao hospital para fazer as análises e duas radiografias marcadas para esse dia. A funcionária que me atende examina os papéis e diz-me: "Não estão aqui os pedidos do médico para as radiografias de hoje. Sem pedidos, não podemos fazer os exames. Volte ao andar de baixo e veja lá com a minha colega das marcações. O resto pode fazer aqui". 

Dirijo-me ao laboratório de análises. A enfermeira olha para mim e pergunta-me pela amostra de urina e se tinha comido alguma coisa de manhã...

- Não trouxe nada e comi esta manhã. Ninguém me disse nada e nas marcações não estava escrito que devia vir em jejum..

Bom, nesse caso, diga-me do que constou o seu pequeno-almoço. Acha que tem vontade para urinar outra vez, mesmo que seja pouco?...

-  Ok. Hei-de arranjar vontade. Com vontade, tudo se consegue...

Quando voltar a falar com o médico, explique-lhe o que se passou, porque os valores podem não estar correctos (açúcar no sangue, ácido úrico...). Se ele pensar que tem de fazer novos exames terá de cá voltar...

Saio dali e dirijo-me ao andar de baixo para fazer as radiografias. Mesma questão: sem guia do médico, nada feito. Onde estavam os pedidos do médico?

- Só trouxe comigo as marcações para hoje. As outras, são para o dia 1 de Agosto...

Ah, que pena. E mora perto? Se quiser ir buscá-las, eu guardo aqui a sua senha e pode fazer as radiografias esta tarde...

Saio a correr, apanho um táxi, vou a casa buscar as guias médicas e regresso meia-hora mais tarde. Desço à cave e mostro triunfante os pedidos do médico; "Aqui estão os pedidos!".

Mostre cá. Claro, já percebi, a minha colega das marcações agrafou mal as receitas e estão com as datas trocadas. Ainda bem que guardei a sua senha. Não se preocupe, entra já, depois daquele senhor. Espere que o chamem pelo número. 

Assim foi. Dez minutos mais tarde, estava a ser chamado. Duas radiografias e estava na rua. Os resultados iriam ser comunicados através de um SMS no meu telemóvel ou, se preferisse, podia ir buscá-los em mão. Volto ao primeiro edifício e falo com a funcionária das marcações. Pede-me desculpas pelo erro e pergunta-me o que desejo. 

- Bom, queria saber se é possível alterar os exames ECG e as Ecografias, marcados para 1 de Agosto, pois estou de férias nessa data. Pode ser para mais tarde...

Claro, não há problema. o dia 8 de Setembro é a data que tenho livre. Convém-lhe?

- Que remédio. Já estou por tudo...

Agradeço, recolho o papel com a nova marcação e volto para casa. Passados dois dias tinha o resultado das análises e das primeiras radiografias no telemóvel. Volto ao Centro de Saúde, para marcar nova consulta com o médico de família e mostrar-lhe os resultados. O funcionário que me atendeu, olha para mim e diz-me com ar paciente: "Dia 1 de Julho, às oito da manhã. É o primeiro do dia. Não se atrase..."

- Não pode ser antes? É só para mostrar umas análises...

Oh amigo, isto aqui não é quando a gente quer! Para além disso, o médico também vai de férias. Veja lá bem.

- Pronto, pronto. Dia 1 de Julho, está perfeito.  

2022/05/25

Da Guerra (das guerras...)

Passaram três meses sobre o início da guerra na Ucrânia e não se vê fim à vista. Pior, muitos analistas e estrategas destas coisas, pensam, inclusive, que o conflito pode durar semanas, meses ou até anos... Uma catástrofe de dimensões incalculáveis. Independentemente do resultado final ("vitória" de um dos lados, impasse no avanço das tropas no terreno ou um acordo tácito, para evitar perdas maiores e salvar, de alguma forma, a "face") todas as opções estão, neste momento, em aberto. 

Ainda que soubéssemos que, numa guerra (qualquer guerra!), "a primeira vítima é sempre a verdade", não podemos deixar de criticar a forma acéfala, como a maioria da Comunicação Social em Portugal (há excepções, claro) acompanha o conflito. Desde logo, na falta de imagens da guerra real (não há "acompanhamento" da maior parte das acções militares, por parte de jornalistas, como nas guerras do Golfo, por exemplo...) e, depois, pela impossibilidade de verificar os dados apresentados por Moscovo e por Kiev. Uns, não fornecem dados (quantos mortos, quantas perdas de material, etc...); e outros, dão dados sobre as perdas do inimigo o que, não sendo uma originalidade, é sempre difícil de confirmar. A acreditar em organismos de estratégia militar no Ocidente (UK, EUA), haverá hoje cerca de 300 000 soldados a combater (mais ou menos, 150 000 de cada lado). Desse total, já teriam perecido cerca de 10% dos combatentes. Ou seja, a acreditar nesta estimativa, terão perecido cerca de 30 000 soldados russos e ucranianos, até este momento (por comparação, 3 vezes mais do que soldados portugueses na guerra colonial, que durou 13 anos!). Não estão aqui contabilizados os civis de ambos os lados (dezenas de milhar?), as perdas materiais (tanques, canhões, carros de combate, aviões, helicópteros...) e, claro está, o património destruído (cidades inteiras), avaliado em milhares de milhões de euros! Finda a guerra, a "reconstrução" exigirá um novo "Plano Marshall" (palavras dos dirigentes da UE) que ninguém saberá ainda quanto custará e quem irá pagar. Os "empreiteiros" do costume, já estão na fila, para os chorudos contratos.

Para o bem e para o mal, a Ucrânia e a Rússia, vão continuar no mesmo sítio e a ter de partilhar fronteiras. Obviamente que só negociações poderão conduzir a um "status-quo" aceite pelas partes beligerantes, com concessões de ambos os lados. A não acontecer isso, todos sairemos pior no fim desta tragédia: desde logo o povo ucraniano (a principal vítima); a Rússia (metida num beco sem saída, que conduzirá ao seu isolamento internacional); e, finalmente, a Europa (leia-se UE) que, sem exército próprio e no meio de uma crise económica (inflação) e energética (dependência da Rússia), sairá sempre prejudicada e mais dependente deste conflito. A única grande potência ganhadora é, neste momento, os EUA (que vende armas, petróleo, gás e cereais à Europa) sem dar um tiro, ou sacrificar homens no terreno. Grande negócio. Tudo, em nome da "democracia", claro está. Ou seja, três "blocos" políticos em crise, que lutam entre si por um lugar entre as grandes potências, nesta guerra pelo controlo geoestratégico das riquezas do planeta. Enquanto isso, a China, a única potência verdadeiramente emergente, parece não tomar posição, num silêncio ensurdecedor, que vale mais do que mil palavras. 

Resta Portugal, um país periférico, sem política externa, sempre a reboque das decisões tomadas em Bruxelas e Washington, sejam estas boas para o país ou não. Neste quadro e na tentativa de mostrar "serviço", a visita de Costa a Kiev - para mais com promessas de ajuda de 250 milhões de euros (empréstimo, doação?) à Ucrânia, quando em Portugal não há médicos de família para 1 milhão de portugueses, onde 2 milhões de cidadãos vivem com 540 euros por mês e não existe habitação condigna para dezenas de milhares de habitantes - foi lamentável. Por outro lado, o ministro Cravinho (outra desilusão) veio confirmar a intenção de Portugal aumentar para 2%, a sua contribuição para a NATO: qualquer coisa como 4000 milhões de euros do PIB. Isto para não falar sobre a sua declaração de se opor à venda do clube Chelsea (do Chelsea?), como parte das sanções aos oligarcas russos (!?). É pena haver sempre dinheiro para a guerra (armamento) e "nunca haver dinheiro" para a saúde, a educação ou a habitação em Portugal. Uns tristes, estes políticos que nos governam. 

Sim, a guerra, continua a ser um bom negócio. Principalmente para quem decide, mas não combate, ao contrário dos que combatem, mas não podem decidir.

2022/05/19

Entre talk-shows e sitcoms

Diz-se que aquela prática de introduzir riso artificial nos programas de TV terá tido origem num técnico de som americano, chamado Charley Douglass, que trabalhava na CBS, nos primórdios da televisão. Douglass, diz-se, ficava irritadíssimo porque o público do estúdio que assistia, ao vivo, aos programas daquele canal americano, ria nos momentos errados, não ria nos momentos certos, ria alto demais ou por tempo demasiadamente longo. Lançou-se então ao trabalho e inventou uma "máquina de rir," provida de uma ampla variedade de risadas e gargalhadas, que eram metidas no programa quando julgado aproriado. Na altura, o truque servia para "ajudar" o público, pouco acostumado ainda às práticas televisivas. A "laugh track," como é conhecida, pegou, e à medida que o público se foi tornando mais habituado aos códigos da televisão, foi desaparecendo, para, mais tarde, voltar com esta ou outra variação, com mais máquina e menos público ou vive versa. A prática mantém-se e espalhou-se. Até a televisão portuguesa copiou o modelo.

Sem conhecer os bastidores deste estúdio onde se está a produzir esta comédia trágica, o mundo (particularmente a Europa) tem andado, desde fevereiro, a fazer o papel de "laugh track," como nas sitcoms americanas, perante os desenvolvimentos da guerra. O que poucos vêem, são os cartazes que dos bastidores mandam o público rir e muito menos as máquinas que, em pós-produção, introduzem a gargalhada, que induz o espectador a achar graça a coisas que, tantas vezes, não têm qualquer graça. 

Quando tudo pareceria nos conduziria à reacção mais correcta, a lágrima ou o grito de dor perante o que se está a passar e perante a nossa impotência, a máquina milagrosa do riso faz-nos rir do palhaço trágico. Nem passa, sequer, pela cabeça deste público manso e dúctil o futuro possível que pode resultar desta tragédia para onde estamos a ser conduzidos e, muito menos, a possibilidade que têm de parar de ver a série, esquecer as deixas dos assistentes de estúdio e encarar de frente as opções que temos pela frente.

A gargalhada de plástico impede, dizem os estudiosos destas coisas da comunicação, o público de ouvir a piada. Suscita-lhe apenas a reacção alvar. Impede-o, por exemplo, de fazer esta simples pergunta: e se a Rússia ganha mesmo esta guerra? O que vai acontecer aos folgazões que neste momento assistem a tudo isto, refastelados nos seus sofás, a virar minis e a comer tremoços, como se estivessem a assistir a uma partida de bola?

Não quero agoirar... mas muitos analistas, vêm avisando —sem "laugh track"— que as coisas não estão nada famosas para os lados da equipa da casa. Este analista, por exemplo, é peremptório: afirma que o Ocidente está arrumado. E explica claramente porquê. Os suecos e os finlandeses não terão percebido bem de que lado vem o vento e parecem não ter problema com as correntes de ar. Este outro esclarece: tal como Roma e Bizâncio, o actual império não tem, simplesmente, os meios para contrariar as hordas que vêm das estepes. E todos sabemos o que aconteceu a Roma e Bizâncio. Estes dois exemplos não têm relação editorial, digamos, mas são coerentes entre si. E este outro, também em consonância com os outros dois, diz, sem hesitar: a Rússia está no caminho para atingir todos os objectivos militares que se propôs atingir com esta guerra. Acrescentando que a Europa está, nesta altura, no meio de um "choque económico" que se pode "tornar muito pior do que já é." Muitos outros analistas se têm pronunciado de forma que aponta na mesma direcção. Infelizmente, distraídos com a "laugh track" muitos não perceberam ainda a "piada" de tudo isto. Este artigo, por exemplo, aborda o papel do média em todo este processo. a propósito da suposta gaffe de G.W. Bush, ao confundir o Iraque com a Ucrânia. A presença da "laugh track" e da distração que provoca, surge aqui perfeitamente clara.

E enquanto os talk-shows e sitcoms sobre o que se passa na Ucrânia se sucedem, com gargalhada a compasso, a pergunta que deixo no ar é: e Portugal? O que nos aconteceria (acontecerá?) se a horda vinda das estepes marchasse (marchar) mesmo por aí fora, como tantos receiam? Para onde nos andam a querer empurrar? A nós, aos filhos e aos netos da geração que foi empurrada para uma guerra totalmente traumatizante, nas colónias. A nós, que sabemos que a Europa, como disse o analista que referenciei acima, está no meio de um "choque económico," um "choque" que se pode tornar ainda pior. A nós que temos a certeza que não há PRR que possa cobrir mais est crise, a nós que já vivemos há tempo demais num país que anda sempre de calças na mão? O que nos aconteceria (acontecerá?) se a horda vinda das estepes se lembrar que os Portugueses abriram as portas da sede da Democracia portuguesa a um fascista, que levou a cabo uma purga política sem precedentes e totalmente antidemocrática no seu país, mantendo, a pedido, apenas uma força e conservando, simbolicamente, Bandera como herói nacional? Quem pode atribuir algum crédito a esta criatura e dar-lhe cobertura institucional?! Poderiam, o pressuroso Costa, o sibilino Silva e o talk-show host Sousa, desligar, por um momento, a máquina das gargalhadas e dizer-nos, olhos nos olhos, o que planeiam fazer, o que querem, em resumo, fazer de nós...? Vamos, governo e PR, digam-nos! E, já agora, publiquem também a vossa declaração de interesses neste conflito, para memória futura.

(NB- a imagem não é da RT; é da CNN e ilustra o caso pouco divulgado da chamada Ilha Zmiyinyy, também conhecida por Ilha da Cobra.)

2022/05/17

Taxi Driver (24)

Está livre? 

- Entre, entre...então, para onde vamos? 

Para a Buraca, s.f.f.

- Muito bem. Já vi que veio do hospital. Está tudo bem consigo?

Para já, parece que sim. Não me queixo. Há quem esteja pior; os ucranianos, por exemplo...

- Não se esqueça do que vai dizer...A propósito da Ucrânia, tenho um casal amigo, de nacionalidade ucraniana, que já mora cá há uns bons anos. Ainda esta semana estive com eles e disseram-me que muitos ucranianos estão a voltar para a Ucrânia. O senhor acredita nisto?   

Acredito. É natural, querem ajudar o seu país. Os homens principalmente. As mulheres ficam cá com as crianças. De resto, quem não saiu até agora, dificilmente poderá fazê-lo, dado que todos homens adultos (a partir dos 16 anos) estão mobilizados para o serviço militar. 

- Pois, já ouvi falar nessa lei. Penso que é geral. Não estou nada de acordo. Acho que não devemos obrigar ninguém a ir para o serviço militar. Eu odeio o militarismo. 

De facto, a guerra não interessa a ninguém, mas há muita gente a ganhar com isso...

- Olhe, eu fui obrigado a ir para a tropa, na altura em que não se podia recusar. Cheguei a falar com o tenente de serviço (estava em Mafra) e dizia: "meu tenente, não me obrigue a fazer estes exercícios que eu não sou capaz e não tenho jeito nenhum para isto". Sabe, o que é que ele fazia? Punha-me de castigo e não me deixava ir a casa nos fins-de-semana...meses a fio! A minha mãe chegou a ir ao quartel falar com ele e ele disse-lhe: "os quartéis são para homens! As mulheres, devem estar em casa a cozinhar"...

Mas, isso foi há quanto tempo? 

- Então, eu tenho 50 anos. Nessa altura tinha dezoito, faça as contas...

Mas, isso já foi depois do 25 de Abril. Do que sei, a tropa deixou de ser obrigatória há muitos anos. Agora, só vai quem quer. Só aceitam voluntários.

- Sim, mas naquela altura ainda éramos obrigados. Não estou nada de acordo. Eu era incapaz de pegar numa arma para matar alguém. Nem um animal. Quando a minha mãe matava um frango ou um coelho, eu saia de casa para não ver...

Ou ser morto...

- Ou ser morto. Mas eu preferia ser morto a ter de matar alguém. Nunca na vida! 

Percebo. Estou inteiramente de acordo consigo. Aliás, eu também não fiz a tropa, ainda que por razões diferentes. Não fui objector de consciência. 

-   Pois, o tenente, obrigava-me a ficar de fascina e a esfregar o chão do quartel. Todas as semanas, quando chegava a vez de distribuir as cadernetas de licença militar, chamava-me e dizia: "Ramos, está aqui a tua caderneta!". Rasgava-a à minha frente e dava-ma aos bocados. Acredita?

Sim, conheço muitas histórias dessas, mas do tempo da ditadura e da guerra colonial. 

- Uma coisa sem sentido nenhum, o serviço militar. Só devia ir para a tropa, quem tivesse vocação e quisesse fazer carreira daquilo. Não está de acordo? 

Não podia estar mais de acordo. 

- Isto é um massacre. Todos os dias na televisão a ouvir as mesmas notícias: Putin, Putin, Putin...

Certo. Uma "lavagem ao cérebro", feita por quem ganha com a guerra. E há muita gente que ganha e bem com a guerra. Com todas as guerras...

- E vou dizer-lhe uma coisa: conheço bem a comunidade ucraniana e ele há cada um que mete medo. Ele é assaltos, máfias e até fascistas. 

Essa vertente é conhecida. Era na Ucrânia, que muitos grupos europeus de extrema-direita se treinavam. Só que essa característica é comum a todos os países do leste europeu. Os russos não são melhores. 

- Lindo, lindo, lindo!... Era mesmo isso que eu queria dizer. Como é que se chama? 

Rui...

- Eu chamo-me Ramos. Você é o máximo! Agora é que disse a verdade! 

Tenho dias...quanto é que lhe devo? 

- Por ser para si, sr. Rui, são 4 euros e 45 cêntimos.

Obrigado. Boa tarde e bom trabalho.

2022/04/19

Portugal visto de Espanha...

 

É sempre bom o distanciamento do país real, pois ajuda a perspectivar questões que nem sempre merecem a atenção dos indígenas. Não acontece todos os dias, mas o diário "El País", publicou ontem (18 de Abril), três artigos (3) onde se fala de Portugal e nem sempre pelas melhores razões. 

Porque as matérias são importantes, ainda que independentes, detenhamo-nos em cada uma delas: 

A primeira diz respeito aos preços de energia eléctrica, praticados em toda a União Europeia e à recente proposta conjunta, de Espanha e Portugal, para rebaixar (durante o corrente ano) o preço da electricidade na península ibérica, a troco de uma sobretaxa da energia, importada de França, como compensação. "Como os governos espanhol e português anunciaram, o seu propósito é estabelecer um preço máximo de 30 euros por MegaWat hora (MWh) no preço de gaz usado na geração de electricidade, para que não contagie o resto das fontes energéticas (mediante as discutíveis subtaxas marginais, que fixam os preços de todas ao nível das mais caras) e poder assim baixar o preço final da luz nos lares e nas empresas" (El País, d.d.18/04/22). Tal medida, ainda que defendida pela presidente da Comissão, não tem sido bem acolhida pelos restantes países da União, o que provocou um "braço de ferro" entre os países ibéricos e os técnicos da Comissão, em vésperas de assinar um duplo-documento que prevê, por um lado, a fixação de preços máximos da energia (e dessa forma aliviar o consumidor final); e, por outro, compensar a França, da qual a península ibérica só depende em 2,8% da sua capacidade. Ou seja, aplicar dois preços, um interno e outro externo, à energia importada. O argumento do "lobby" de energia é conhecido: ao baixar os preços, os países ibéricos competem de forma desleal com os preços praticados no Norte europeu. Esquecem que os preços praticados na península (relativamente ao poder de compra de portugueses e espanhóis), foram sempre mais altos do que na maioria dos países europeus do Norte. A querela está longe de resolvida e aguardam-se decisões finais.

A segunda notícia, diz respeito ao negócio de passaportes (leia-se, nacionalidade), emitidos nos últimos dez anos, ao abrigo de uma Lei de 2009, que permite aos descentes de judeus portugueses sefarditas (independentemente da sua residência ou nacionalidade) obter a nacionalidade portuguesa, bastando para isso apresentar um documento que prove (!?) a sua ascendência judia e interesses (sentimentais, comerciais ou outros) em Portugal...A correspondente do "El País" em Portugal, publicou um texto, onde o tema é extensamente abordado, que se inicia assim: "O português mais rico do Mundo chama-se Román Abramóvich (actual dono do Chelsea). A imprensa portuguesa ironiza sobre o assunto, sempre que tem oportunidade, desde que o jornal "Público" denunciou que o multimilionário russo obteve a nacionalidade portuguesa em Abril de 2021, aproveitando a via aberta, na Lei da Nacionalidade, para os descendentes dos sefarditas  expulsos de Portugal em 1496 pelo rei D. Manuel I. O oligarca que, antes contratava Lady Gaga para concertos privados e agora tem os seus iates confiscados em vários portos ocidentais, devido às sanções provocadas pela invasão russa, é um dos 56.686 judeus, a maioria residente em Israel, que se converteram em portugueses entre 2015 e 2019" (...) "Cerca de 90% dos 137.087 pedidos apresentados nestes seis anos, partiram da Comunidade Judaica do Porto, a única (para além da Comunidade Judaica de Lisboa) autorizada legalmente a emitir certificados para obter a nacionalidade portuguesa. As suspeitas centram-se na comunidade do Porto, que viu crescer o seu poder financeiro e institucional desde que foi aberto o processo dos sefarditas. O seu rabino, Daniel Litvak, foi detido em Março e, no mesmo mês, foram abertas investigações pelo Tribunal Português. (...) A polícia desconfia que foram desviados 35 milhões de euros em doações recebidas pela organização religiosa. O segundo acusado, é o advogado Francisco Almeida Garrett, director da Comunidade Judaica do Porto e sobrinho da deputada e ex-ministra da saúde, Maria de Belém (PS), que defendeu uma lei mais tolerante para os sefarditas, negando que o seu trabalho legislativo tenha favorecido o familiar" (El País, d.d.18/04/22). Este caso era conhecido e foi trazido ao conhecimento público por outra deputada do PS (Constança Sá e Cunha) que, ao apresentar uma proposta para alterar a Lei de favorecimento dos Sefarditas, sofreu pressões de diversos "históricos" do seu partido, entre os quais Maria de Belém, Manuel Alegre, Vera Jardim e Alberto Martins. É caso para dizer: um quarteto de respeito ou, a Maçonaria, no seu melhor! 

Finalmente, o terceiro artigo, "La Izquierda frente al Apocalipsis", onde o autor (Juan Luis Cebrián), num longo ensaio, analisa as eleições francesas à luz do crescimento dos partidos e movimentos de extrema-direita por toda a Europa (Marine Le Pen, etc.) e a crise ideológica das esquerdas em geral, cujos partidos socialistas (em França, Itália e Grécia) deixaram de ser alternativa para os votantes. Cebrián baseia parte da sua argumentação na tese do historiador inglês T. J. Clark que, em artigo publicado na New Left Review, com o premonitório título "A uma esquerda sem futuro", antevê um futuro de violência nas sociedades ocidentais, onde os cidadãos, habituados a viver em democracia, se revoltariam contra a sociedade, procurando a cada momento testar os seus limites. Uma espécie de "doença infantil", da qual parecem padecer muitos dos líderes e partidos actuais. Neste deserto de ideias e objectivos, onde as satisfações mais básicas nunca parecem estar satisfeitas, as atitudes mais comuns são a apatia (desinteresse) ou a violência (fascismo) como alternativa. Pese o seu pessimismo, relativo aos partidos sociais-democratas europeus (excepção feita aos países escandinavos, onde prevalecem coligações liberais e partidos ecologistas), Cebrián vê uma "luz ao fundo do túnel" na península ibérica onde, apesar da regimes diferentes, a esquerda democrática se mantém no poder: "Só Portugal e Espanha parecem ser bastiões da resistência socialista, com uma diferença substancial: em Lisboa, o partido levou a cabo políticas de moderação que valeram a António Costa a renovação do posto de primeiro-ministro com maioria absoluta. O espanhol é, na realidade, um governo de Unidade Popular, que incorpora a extrema-esquerda e restos do partido comunista, que se sustém graças ao apoio de outros extremismos identitários e ideológicos" (El País, d.d.18/04/22). Para o autor, resta um conselho: "Se a social-democracia quer recuperar o imenso terreno perdido no continente, deveria aprender a lição portuguesa: a moderação é a base do triunfo e o reformismo é uma maneira de fazer a revolução". E esta, hein?

2022/04/08

Taxi Driver (23)

Olá amigo, para onde é a corrida? 

- Para a Buraca...

Tem ideia por onde quer ir? 

- Penso que é melhor ir pelo Monsanto, tem menos semáforos.

Também acho que é melhor. Vim agora do Principe Real e não se pode passar no Bairro-Alto... 

- Sim, à sexta-feira à noite está sempre cheio de turistas...

Uma loucura. Para mais, vem aí a Semana Santa e já começaram a chegar os espanhóis. Está a ver este carro (apontando para um carro descaracterizado que se atravessa à frente...)? É um UBER. Nem o código das estradas sabem!

- Os UBER têm vantagens e desvantagens...

Acha? Então porque é que apanhou um táxi? 

- Normalmente apanho táxis, até porque não tenho uma APP para chamar UBERS.

Não sabem nada. A maior parte deles trabalha a "negro" e nem sequer português falam. Ainda há poucos dias, fui buscar uns amigos que queriam ir jantar fora e escolhi um restaurante conhecido. Eles pediram um UBER e quando o homem chegou, nem o restaurante conhecia. Não falava português, era do Bangladesh e disse-nos que estava a substituir o tio que não trabalhava à noite...

- Sim, essas histórias são conhecidas. Ganham mal, são explorados e a UBER nem sequer paga impostos em Portugal. Paga na Holanda...

Sim, eu sei, uma vergonha. Mas, a culpa não é deles, é de quem os autoriza. Eu moro no Cacém e tenho um filho que joga futebol no Massamá. Como não posso perder tempo a ir levá-los e buscá-los, costumava chamar um UBER. Pagava 8 euros de ida e volta. Agora, a minha mulher que está em casa, pega no carro e vai lá levá-los. Muito mais barato. Sabe porquê?

- Sei, pagam de acordo com a distância e o número de clientes que procuram carro...

Isso. A tarifa é calculada através da Aplicação. Se houver muitos clientes, o preço aumenta. Por exemplo: nós levamos um cliente dos Olivais a Cascais por 40euros em média. Eles levam por 35euros, se houver poucos clientes. Mas, no fim-do-ano ou nos Santos Populares chegam a pedir 150 euros pela viagem! Uma roubalheira! 

- De acordo. Também prefiro um táxi, pois posso controlar o preço pelo táximetro. 

É como as trotinetes eléctricas. São um perigo! Atravessam-se à nossa frente e ainda há dias vi um casal de alemães na Rua do Arsenal, que ia ficando debaixo de um autocarro, porque caiu no empedrado da rua...

- É verdade, até andam duas pessoas numa trotinete, o que é proibido, por lei.

Duas? Eu no aeroporto já vi pior: dois turistas chegarem com uma mala, pegarem numa trotinete e lá foram todos contentes, com mala e tudo! Diga lá, se isto faz algum sentido? 

- Pois, mas se ninguém controla, ou multa...tudo é permitido, logo nada é verdadeiramente importante. 

Pois é, mas quem se lixa é aqui o mexilhão, que chega a trabalhar 10 horas por dia, para levar para casa 50 euros e ainda tem que dar metade ao patrão. Agora, com o preço da gasolina, ainda vai ser pior, pois as tarifas vão ter de aumentar. Já viu, menos clientes para os táxis...

- Sim, tudo está a aumentar e esta crise, devido à guerra, ainda está no início. 

Não me fale mais em guerra! Quem entra aqui no táxi só fala em guerra! Mas, isto faz algum sentido? Um crime praticado por humanos. Deus deve ter desistido da raça humana...

- Deus não dorme, mas às vezes adormece...

Uma vergonha. Milhões de euros num só míssil, para matar pessoas. Veja bem quantos pobres podiam ser ajudados. Com os milhões que gastam nesta guerra, matavam a fome do Mundo...

- De acordo, mas quem é que está interessado nisso? As guerras dão muito dinheiro. A miséria de uns é a riqueza de outros. A ganância, sempre a ganância...

É verdade. A ganância. Não temos emenda. Ora cá estamos...Quer recibo? 

- Se não se importa.