2010/10/27
Alerta
As notícias sobre os resultados positivos que a sua "magistratura de influência produziu" podem muito bem ser exageradas...
2010/10/26
O semáforo
O semáforo é uma criação extraordinariamente simples e eficaz. Raramente paramos para pensar na sua utilidade. Nem quando estamos ali com a luz vermelha mesmo à frente do nosso nariz nos interrogamos, por um momento, sobre o que seria se o semáforo não estivesse a funcionar. Não paramos para pensar o que seria se não existisse semáforo ou se, em vez daquela sequência estável, precisa e categórica de alternância de luzes, tivessemos uma coisa errática, sem lógica e totalmente imprevisível ou absurda. Para mim, governar é algo que se assemelha à acção do semáforo. Depois de ser instalado, ligado à corrente e colocado a funcionar, o semáforo assegura que todos têm hipótese de exercer o seu direito a circular, em condições de perfeita igualdade e com um mínimo de perturbação. No semáforo, como na governação, quanto menos fantasia melhor...
É tão simples quanto isso. Governar é exercer Justiça e velar por uma clara igualdade de oportunidades para todos. O semáforo é justo (todos passam, de acordo com uma ordem convencionada, mas todos passam!) e proporciona igualdade de oportunidades (passa o Rolls-Royce e passa a "bicla" velha).
Em Portugal a governação é um semáforo que tem vindo a evidenciar falhas crescentes, a reclamar manutenção. Nos dias que correm avariou totalmente. Falo de governação num sentido amplo, no quadro da democracia, com o povo como actor da soberania. Reina o caos total no trânsito!
O trânsito empancou em Portugal, como seria de esperar que acontecesse, mais tarde ou mais cedo.
É possível o tráfego fluir sem semáforos. Era útil que esta comissão que "negoceia" o OE 2011 e o actual PR, putativo recandidato ao cargo, percebessem isso claramente... Ou fazem o que é suposto que façam ou não são precisos. É (mesmo) assim, simples como um semáforo.
É tão simples quanto isso. Governar é exercer Justiça e velar por uma clara igualdade de oportunidades para todos. O semáforo é justo (todos passam, de acordo com uma ordem convencionada, mas todos passam!) e proporciona igualdade de oportunidades (passa o Rolls-Royce e passa a "bicla" velha).
Em Portugal a governação é um semáforo que tem vindo a evidenciar falhas crescentes, a reclamar manutenção. Nos dias que correm avariou totalmente. Falo de governação num sentido amplo, no quadro da democracia, com o povo como actor da soberania. Reina o caos total no trânsito!
O trânsito empancou em Portugal, como seria de esperar que acontecesse, mais tarde ou mais cedo.
É possível o tráfego fluir sem semáforos. Era útil que esta comissão que "negoceia" o OE 2011 e o actual PR, putativo recandidato ao cargo, percebessem isso claramente... Ou fazem o que é suposto que façam ou não são precisos. É (mesmo) assim, simples como um semáforo.
2010/10/25
"Deixar de pagar as dívidas à banca"
A propósito da nova taxa que os bancos certamente irão ter de pagar para o ano, o presidente do BES veio-nos hoje lembrar que a banca existe para ser rentável. Num súbito ataque de amnésia esqueceu-se do estatuto fiscal de privlégio de que goza este sector particular da nossa economia e de que a "rentabilidade" da banca portuguesa assenta, em boa parte, num inexplicável e injustificado "perdão fiscal" que o generoso povo português decidiu atribuir, por delegação de competências, à banca neste país.
Vale a pena ver e ouvir o insosso presidente do BES a dizer isto ao vivo e a cores.
(O título foi tirado do texto de Paulo Varela Gomes que ontem tive a oportunidade de reproduzir no post "Declaração".)
Vale a pena ver e ouvir o insosso presidente do BES a dizer isto ao vivo e a cores.
(O título foi tirado do texto de Paulo Varela Gomes que ontem tive a oportunidade de reproduzir no post "Declaração".)
2010/10/24
"Declaração"
O Público de ontem contém uma "Declaração" de Paulo Varela Gomes (clique na imagem para a ler) incluida na habitual crónica de sábado "Cartas do Interior".
Por concordar totalmente com o que aí é dito, por ser sensível a este apelo bem articulado, sincero e simples, e por estar disposto a participar nas acções nele sugeridas, aqui a reproduzo com a devida vénia—como acto de total solidariedade— na esperança de que outros, que não tiveram possibilidade de o fazer, possam ler esta "Declaração" e avaliar, por si próprios, a oportunidadade e o alcance do que aí é preconizado.
Se esta reprodução não for legal, paciência; é, desde já, uma forma de começar a participar no que PVG sugere...
Por concordar totalmente com o que aí é dito, por ser sensível a este apelo bem articulado, sincero e simples, e por estar disposto a participar nas acções nele sugeridas, aqui a reproduzo com a devida vénia—como acto de total solidariedade— na esperança de que outros, que não tiveram possibilidade de o fazer, possam ler esta "Declaração" e avaliar, por si próprios, a oportunidadade e o alcance do que aí é preconizado.
Se esta reprodução não for legal, paciência; é, desde já, uma forma de começar a participar no que PVG sugere...
2010/10/22
Cosa Nostra no Bombarral
Pelos vistos, a "Máfia" chegou à West Coast da Europa. A verdadeira, porque a máfia lusitana já cá está há muito tempo.
2010/10/16
A "pen" da nossa incompetência
Depois de muitas "noites em claro", os homens do orçamento lá conseguiram esta madrugada entregar a famosa "pen" ao Presidente da Assembleia, num acto que ameaça transformar-se numa verdadeira tradição de ineficiência. Hoje, Teixeira dos Santos repetiu a dose, declarando-se aberto a todas as sugestões para "melhorar" o documento, desde que fosse respeitado o limite do "déficit" imposto pelo BCE.
Portugal tem assim duas hipóteses: ou respeita os ditames do Banco Central Europeu, aumentando os impostos, diminuindo o investimento, estagnando o crescimento e aumentando a recessão; ou, recusa os cortes a que se auto-impôs, aumenta os investimentos e mantém as prestações sociais como forma de diminuir a crescente pobreza, aumentando dessa forma os "ratings" negativos das agências e os juros da dívida à banca internacional. Ambas as soluções são más, pelo que não há, entre elas, escolha possível. Como foi possível chegar até aqui?
Porque as coisas não acontecem por acaso, convém não esquecer os principais responsáveis por esta situação que, durante anos a fio, ignoraram todos os avisos e conselhos, repetindo à exaustão a "mantra" da "economia saudável", bem acima da média dos países do espaço europeu.
Depois de dez anos de divergência económica continuada, dos piores índices em áreas tão fundamentais como a educação, a justiça, a evasão fiscal ou a corrupção, difícil seria esperar melhores resultados em termos económico-financeiros. E, no entanto, foi isso que aconteceu. Agora é tarde para prevenir, coisa que sucessivos governos sem qualquer visão estratégica nunca conseguiram fazer. Resta saber, se por dolo, ou por incompetência. Está tudo na "pen".
Portugal tem assim duas hipóteses: ou respeita os ditames do Banco Central Europeu, aumentando os impostos, diminuindo o investimento, estagnando o crescimento e aumentando a recessão; ou, recusa os cortes a que se auto-impôs, aumenta os investimentos e mantém as prestações sociais como forma de diminuir a crescente pobreza, aumentando dessa forma os "ratings" negativos das agências e os juros da dívida à banca internacional. Ambas as soluções são más, pelo que não há, entre elas, escolha possível. Como foi possível chegar até aqui?
Porque as coisas não acontecem por acaso, convém não esquecer os principais responsáveis por esta situação que, durante anos a fio, ignoraram todos os avisos e conselhos, repetindo à exaustão a "mantra" da "economia saudável", bem acima da média dos países do espaço europeu.
Depois de dez anos de divergência económica continuada, dos piores índices em áreas tão fundamentais como a educação, a justiça, a evasão fiscal ou a corrupção, difícil seria esperar melhores resultados em termos económico-financeiros. E, no entanto, foi isso que aconteceu. Agora é tarde para prevenir, coisa que sucessivos governos sem qualquer visão estratégica nunca conseguiram fazer. Resta saber, se por dolo, ou por incompetência. Está tudo na "pen".
2010/10/14
"O actual PR é fraco"
Em entrevista ao Público, Carvalho da Silva volta hoje a abordar a questão presidencial. Vale a pena lê-la. Já há dias referi aqui o coordenador da CGTP a propósito desta questão, sobre a qual nunca é demais insistir.
Carvalho da Silva tem-se revelado neste aspecto uma das vozes mais persistentes e lúcidas que se ouvem sobre esta matéria. Um discurso a necessitar de alguma ordem mas que, sem dúvida, revela uma enorme sensibilidade para analisar o que está neste momento em jogo.
O debate presidencial não deveria ser uma questão arrumada e eu creio que as forças que lutam por um Portugal mais justo a têm negligenciado.
Antes de entregar um poder tão importante, como é o do PR, de mão beijada a Cavaco Silva, vale a pena ir muito mais fundo na avaliação do que foi este seu mandato e no que pode e deve ser o papel de um presidente no Portugal que queremos ver saído do actual atoleiro em que se encontra.
Carvalho da Silva tem-se revelado neste aspecto uma das vozes mais persistentes e lúcidas que se ouvem sobre esta matéria. Um discurso a necessitar de alguma ordem mas que, sem dúvida, revela uma enorme sensibilidade para analisar o que está neste momento em jogo.
O debate presidencial não deveria ser uma questão arrumada e eu creio que as forças que lutam por um Portugal mais justo a têm negligenciado.
Antes de entregar um poder tão importante, como é o do PR, de mão beijada a Cavaco Silva, vale a pena ir muito mais fundo na avaliação do que foi este seu mandato e no que pode e deve ser o papel de um presidente no Portugal que queremos ver saído do actual atoleiro em que se encontra.
2010/10/13
Lições do Chile
Ainda nem metade dos mineiros chilenos soterrados foi resgatada e já se podem tirar algumas conclusões sobre tudo isto. Estou convicto que toda esta operação vai ter consequências profundas.
É um acidente e, como tal, uma coisa fortuita, imprevisível. É até um acidente de dimensões relativamente reduzidas quando comparado com episódios recentes como New Orleans ou o Haiti. É um acidente de dimensão reduzida quando comparado com o terramoto que ocorreu no próprio Chile!
Mas, se, por um lado, perante essas tragédias, não nos transformámos em cidadãos de qualquer destes lugares, neste caso de facto tornámo-nos "todos chilenos", como diz o RM no último post, e "somos todos mineiros" como me disse o FL. Porquê?
Fica demonstrado de forma inequívoca que a opção pelo primado da dimensão humana não tem discussão, nem escala padrão, e que o engenho, a solidariedade, a capacidade de sacrifício postos ao serviço dos outros não são "commodities", que possam ser sujeitas às oscilações do mercado de valores ou à especulação bolsista. O clima em que hoje se vive faz crer que tudo se resume aos "mercados". No Chile escreve-se neste momento o texto que demonstra justamente o contrário.
Parece-me também difícil justificar no futuro a aniquilação deliberada de seres humanos e a leviandade dos "danos colaterais" quando se vê o mundo ficar às avessas e comover-se até às lágrimas, depois de se ter sentido encurralado como e com estes 33 mineiros. No Chile apagaram-se os pretextos para as divisões artificiais. 33 ou 33 milhões, todos os encurralados querem libertar-se.
Se os meios justificassem os fins, estes 33 mineiros estariam a esta hora certamente mortos. Esta operação não peca por falta de meios e não houve estudos custo-benefício que impedissem o seu emprego. Fica claro de uma vez por todas a falsidade deste princípio e o crime que é aplicá-lo torcendo pela força a lógica das coisas. No Chile a realidade é maior que o mais "real" reality show e demonstra que quem está convicto do fim, não olha a meios.
É um acidente e, como tal, uma coisa fortuita, imprevisível. É até um acidente de dimensões relativamente reduzidas quando comparado com episódios recentes como New Orleans ou o Haiti. É um acidente de dimensão reduzida quando comparado com o terramoto que ocorreu no próprio Chile!
Mas, se, por um lado, perante essas tragédias, não nos transformámos em cidadãos de qualquer destes lugares, neste caso de facto tornámo-nos "todos chilenos", como diz o RM no último post, e "somos todos mineiros" como me disse o FL. Porquê?
Fica demonstrado de forma inequívoca que a opção pelo primado da dimensão humana não tem discussão, nem escala padrão, e que o engenho, a solidariedade, a capacidade de sacrifício postos ao serviço dos outros não são "commodities", que possam ser sujeitas às oscilações do mercado de valores ou à especulação bolsista. O clima em que hoje se vive faz crer que tudo se resume aos "mercados". No Chile escreve-se neste momento o texto que demonstra justamente o contrário.
Parece-me também difícil justificar no futuro a aniquilação deliberada de seres humanos e a leviandade dos "danos colaterais" quando se vê o mundo ficar às avessas e comover-se até às lágrimas, depois de se ter sentido encurralado como e com estes 33 mineiros. No Chile apagaram-se os pretextos para as divisões artificiais. 33 ou 33 milhões, todos os encurralados querem libertar-se.
Se os meios justificassem os fins, estes 33 mineiros estariam a esta hora certamente mortos. Esta operação não peca por falta de meios e não houve estudos custo-benefício que impedissem o seu emprego. Fica claro de uma vez por todas a falsidade deste princípio e o crime que é aplicá-lo torcendo pela força a lógica das coisas. No Chile a realidade é maior que o mais "real" reality show e demonstra que quem está convicto do fim, não olha a meios.
2010/10/12
Internacionalismo interesseiro?
Aquilo que me pareceu ser uma imbecilidade de todo o tamanho, pode afinal ser uma jogada de mestre! É que ontem ouvi a reacção do PCP à entrega do prémio Nobel da Paz. Uma reacção que me pareceu, à primeira vista, tão desastrada, tão desastrada, de um primarismo tão grande que nem queria acreditar no que ouvia.
Hoje leio que Wang Yong, do banco central chinês, aconselha a compra da dívida soberana dos países em dificuldade (Portugal, Grécia, Irlanda e Itália) para evitar a valorização do yuan acima dos 3%, pretendida pelos americanos. Ah!, pensei eu, afinal sempre traz água no bico a posição do PCP...
O PCP diz que o Nobel é "inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à República Popular da China". My mistake... Afinal, o PCP não foi desastrado, nem o Nobel atribuído a Liu Xiaobo é a condenação de um acto arbitrário de um estado que vive, em certos aspectos, numa situação de inexplicável paragem no tempo. Afinal o Nobel da Paz é um instrumento de pressão económica. E o PCP, numa atitude patriótica e surpreendentemente europeísta, faz o rapapé aos Chineses não vão eles chatear-se, como se chatearam já com a Noruega, e desistir da hipótese de "contribuir activamente para a resolução da dívida europeia", excluindo, nomeadamente, Portugal desse pacote de apoio activo.
Os insondáveis desígnios da diplomacia e da política internacional...
Hoje leio que Wang Yong, do banco central chinês, aconselha a compra da dívida soberana dos países em dificuldade (Portugal, Grécia, Irlanda e Itália) para evitar a valorização do yuan acima dos 3%, pretendida pelos americanos. Ah!, pensei eu, afinal sempre traz água no bico a posição do PCP...
O PCP diz que o Nobel é "inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à República Popular da China". My mistake... Afinal, o PCP não foi desastrado, nem o Nobel atribuído a Liu Xiaobo é a condenação de um acto arbitrário de um estado que vive, em certos aspectos, numa situação de inexplicável paragem no tempo. Afinal o Nobel da Paz é um instrumento de pressão económica. E o PCP, numa atitude patriótica e surpreendentemente europeísta, faz o rapapé aos Chineses não vão eles chatear-se, como se chatearam já com a Noruega, e desistir da hipótese de "contribuir activamente para a resolução da dívida europeia", excluindo, nomeadamente, Portugal desse pacote de apoio activo.
Os insondáveis desígnios da diplomacia e da política internacional...
O défice explicado para quem não tenha ainda percebido
Hoje chegou-nos a notícia que os tratamentos de infertilidade ministrados na Maternidade Alfredo da Costa tinham sido interrompidos. A interrupção resulta de uma circular do Ministério da Saúde que determina a limitação desses tratamentos a um durante este ano, por casal.
Até agora eram ministrados dois tratamentos anualmente. Quem estiver neste momento a aguardar por um segundo tratamento terá de esperar por 2011.
Há, porém, casos em que a interrupção foi ordenada já após o início do segundo tratamento, mesmo em pleno processo de preparação para esse tratamento, ao que consta. Uma "brutalidade", dizem alguns testemunhos que a comunicação social recolheu naquela maternidade. Uma situação que está a provocar revolta. Uma solução tecnicamente "incorrecta e incompreensível", diz uma responsável da D. G. de Saúde, ouvida pela TSF.
A MAC terá assim agido nestes casos por iniciativa própria, pelo que se percebe.
Independentemente das contradições burocráticas e do risco clínico, independentemente do facto de que estão previstos programas para o ano que ministrarão os três tratamentos desde sempre preconizados (e não apenas os dois que eram actualmente administrados), o que tudo isto vem desvendar perante os cidadãos é o caos, o grau de demência e de insensibilidade que reinam na administração pública portuguesa. "Até hoje nem sequer um telefonema da MAC com nenhum tipo de apoio, quando sabem que isto psicologicamente afecta muito," diz uma das mulheres ouvidas pela TSF.
Em Abril de 2009, o Governo determinou o "apoio aos casais que precisassem de tratamentos de fertilidade, aumentando a comparticipação dos medicamentos necessários de 37 para 69 por cento e o encaminhamento dos casais em lista de espera no público para clínicas privadas. A medida foi uma das grandes apostas do executivo Sócrates para a saúde em 2009," como nota o Público. Agora o défice manda fechar a loja e, mais papista que o Papa, a MAC revelando a sensibilidade de um pneu e tripudiando sobre os mais elementares princípios do comportamento humano, administra sem hesitar um preceito "incorrecto", segundo da DGS, revelando um desvelo que merecerá certamente nota "Excelente" na avaliação.
Aonde chegou a cegueira, a insensatez, o desnorte, o egoismo e a falta de solidariedade das instituições públicas neste País. Se é assim com a saúde reprodutiva, se é assim com a fragilidade da maternidade, é fácil imaginar o que se passará noutros sectores da vida portuguesa.
Até agora eram ministrados dois tratamentos anualmente. Quem estiver neste momento a aguardar por um segundo tratamento terá de esperar por 2011.
Há, porém, casos em que a interrupção foi ordenada já após o início do segundo tratamento, mesmo em pleno processo de preparação para esse tratamento, ao que consta. Uma "brutalidade", dizem alguns testemunhos que a comunicação social recolheu naquela maternidade. Uma situação que está a provocar revolta. Uma solução tecnicamente "incorrecta e incompreensível", diz uma responsável da D. G. de Saúde, ouvida pela TSF.
A MAC terá assim agido nestes casos por iniciativa própria, pelo que se percebe.
Independentemente das contradições burocráticas e do risco clínico, independentemente do facto de que estão previstos programas para o ano que ministrarão os três tratamentos desde sempre preconizados (e não apenas os dois que eram actualmente administrados), o que tudo isto vem desvendar perante os cidadãos é o caos, o grau de demência e de insensibilidade que reinam na administração pública portuguesa. "Até hoje nem sequer um telefonema da MAC com nenhum tipo de apoio, quando sabem que isto psicologicamente afecta muito," diz uma das mulheres ouvidas pela TSF.
Em Abril de 2009, o Governo determinou o "apoio aos casais que precisassem de tratamentos de fertilidade, aumentando a comparticipação dos medicamentos necessários de 37 para 69 por cento e o encaminhamento dos casais em lista de espera no público para clínicas privadas. A medida foi uma das grandes apostas do executivo Sócrates para a saúde em 2009," como nota o Público. Agora o défice manda fechar a loja e, mais papista que o Papa, a MAC revelando a sensibilidade de um pneu e tripudiando sobre os mais elementares princípios do comportamento humano, administra sem hesitar um preceito "incorrecto", segundo da DGS, revelando um desvelo que merecerá certamente nota "Excelente" na avaliação.
Aonde chegou a cegueira, a insensatez, o desnorte, o egoismo e a falta de solidariedade das instituições públicas neste País. Se é assim com a saúde reprodutiva, se é assim com a fragilidade da maternidade, é fácil imaginar o que se passará noutros sectores da vida portuguesa.
2010/10/07
Um Nobel ao retardador
O Nobel da literatura, hoje atribuído ao escritor peruano Vargas Llosa, premeia um dos mais destacados e prolíferos escritores da actualidade. Ainda que o seu nome não constasse há muito da lista de nomeáveis em que o "gossip" de Estocolmo é fértil, poucas vezes uma "obra" (porque é disso que se trata) recolheria tal unânimidade. É verdade que estas coisas valem o que valem e Llosa não precisava do Nobel para ser reconhecido como grande escritor que é. Mas fica sempre bem à Academia Sueca premiar os melhores na sua área. Foi o caso e deve registar-se.
Os cães ladram e a investigação continua
Há tempo escrevi aqui um comentário sobre o cinismo que os instalados no poder revelam ao abordar a questão do mérito. O mérito, para além de ser necessário tê-lo, precisa de ser reconhecido, e precisa de ser reconhecido através de actos concretos. Se assim não for, o mérito não passará nunca de uma curiosidade, de um número de variedades.
Em Portugal, o mérito é doença que suscita imediatas e violentas reacções de rejeição. Poder e falta de mérito vão aqui de mãos dadas. O exemplo vem de cima e pega como fogo em seara seca, por isso, o reconhecimento oficial do mérito, na prática, não existe.
Por mais "roteiros presidenciais" (iniciados por Mário Soares, recorde-se, que Cavaco segue à letra), por mais visitas simbólicas aos "centros de excelência", feitos por suas excelências, o círculo de giz caucasiano não se rompe. Fala-se em mérito e, na prática, ouve-se logo sacar da pistola!
Ainda há dias o professor António Damásio dizia, em entrevista na SICN —por palavras cuidadosamente escolhidas, mas dizia!— que a sua investigação não seria possível em Portugal. A ele coube reagir à falta de condições que tinha e escolher os EUA para fazer o seu trabalho. A nós todos, sobretudo os mais responsáveis, caber-nos-ia e cabe-nos perguntar, porque não? E é aqui que esta questão do mérito e do seu reconhecimento se começa a embrulhar num novelo cuja ponta precisamos de urgentemente encontrar.
Hoje o Público, num artigo de Teresa Firmino, refere que uma equipa de cientistas portugueses, que trabalha com a equipa que ganhou o Nobel da Física pela descoberta do grafeno, viu o financiamento de um projecto seu que permitiria avançar no domínio da investigação sobre este novo material, ser recusado pela FCT. Um responsável da equipa portuguesa, o professor Nuno Peres da Universidade do Minho, diz, ainda segundo o Público, que "vamos continuar a trabalhar —sem dinheiro, com mais dificuldade—, porque a nossa motivação é compreender a natureza e daí tirar vantagens para a vida das pessoas."
Um dia destes vão todos tentar alapar no "mérito" destes investigadores, vão ver. Talvez mesmo distingui-los em breve com uma paragem do "roteiro" eleitoral e, para o ano, o presidente eleito vai conceder-lhes uma medalha de um "mérito" qualquer, num qualquer dia, de um qualquer Camões, sem corar de vergonha pelo ridículo do seu acto...
Depois continua tudo na mesma.
Em Portugal, o mérito é doença que suscita imediatas e violentas reacções de rejeição. Poder e falta de mérito vão aqui de mãos dadas. O exemplo vem de cima e pega como fogo em seara seca, por isso, o reconhecimento oficial do mérito, na prática, não existe.
Por mais "roteiros presidenciais" (iniciados por Mário Soares, recorde-se, que Cavaco segue à letra), por mais visitas simbólicas aos "centros de excelência", feitos por suas excelências, o círculo de giz caucasiano não se rompe. Fala-se em mérito e, na prática, ouve-se logo sacar da pistola!
Ainda há dias o professor António Damásio dizia, em entrevista na SICN —por palavras cuidadosamente escolhidas, mas dizia!— que a sua investigação não seria possível em Portugal. A ele coube reagir à falta de condições que tinha e escolher os EUA para fazer o seu trabalho. A nós todos, sobretudo os mais responsáveis, caber-nos-ia e cabe-nos perguntar, porque não? E é aqui que esta questão do mérito e do seu reconhecimento se começa a embrulhar num novelo cuja ponta precisamos de urgentemente encontrar.
Hoje o Público, num artigo de Teresa Firmino, refere que uma equipa de cientistas portugueses, que trabalha com a equipa que ganhou o Nobel da Física pela descoberta do grafeno, viu o financiamento de um projecto seu que permitiria avançar no domínio da investigação sobre este novo material, ser recusado pela FCT. Um responsável da equipa portuguesa, o professor Nuno Peres da Universidade do Minho, diz, ainda segundo o Público, que "vamos continuar a trabalhar —sem dinheiro, com mais dificuldade—, porque a nossa motivação é compreender a natureza e daí tirar vantagens para a vida das pessoas."
Um dia destes vão todos tentar alapar no "mérito" destes investigadores, vão ver. Talvez mesmo distingui-los em breve com uma paragem do "roteiro" eleitoral e, para o ano, o presidente eleito vai conceder-lhes uma medalha de um "mérito" qualquer, num qualquer dia, de um qualquer Camões, sem corar de vergonha pelo ridículo do seu acto...
Depois continua tudo na mesma.
Uma petição oportuna
Agora que tantos economistas vão à televisão falar da actual crise e das soluções para combatê-la, seria bom ouvir outras opiniões para além dos "especialistas do sistema" que diariamente nos lavam o cérebro com as suas receitas.
Uma petição oportuna é esta aqui.
Assinem e divulguem.
Uma petição oportuna é esta aqui.
Assinem e divulguem.
2010/10/05
Atirar a toalha na questão presidencial
O antigo Presidente da República Ramalho Eanes diz que a gravidade da situação do País exige consensos entre os partidos. Ora aqui está uma frase, aparentemente inócua, que tem muito mais que se lhe diga. De repetida de forma ora automática, ora acéfala, esta ideia de que os partidos é que geram consensos acaba por ir fazendo "jurisprudência".
No meu entender, a situação do país —de há muito, não só de hoje— exige discussão e esclarecimento dos portugueses. Exige consenso, mas entre os portugueses. Que os partidos depois reflectirão, claro, mas que tem de emanar dos cidadãos. Uma das, senão mesmo a questão central da nossa democracia é este cheque em branco que os cidadãos concedem aos partidos. Que deu no que deu, como sabemos. A democracia não se esgota, como é sucessiva e inutilmente repetido por alguns, nas eleições, nem o nosso papel enquanto cidadãos acaba no momento em que conseguimos que alguém assuma o papel de nos representar politicamente. Este é um debate que urge fazer na sociedade portuguesa e que, naturalmente, não vai ser nunca promovido pelos partidos.
Há poucos dias o secretário-geral da CGTP defendeu a necessidade de aproveitar a eleição presidencial que se aproxima para um debate profundo sobre a situação do país, que inclui a perspectiva —correcta, no meu entender— da crítica do exercício do poder presidencial. Não posso concordar mais. Habituámo-nos a criticar o Governo, e em particular o Primeiro Ministro, pelos pecados da governação, mas esquecemo-nos frequentemente que o Presidente da República tem grossa percentagem de culpa no cartório e é co-responsável pelo estado a que as coisas chegaram. Não como sócio gerente, mas como silent partner. Negligenciámos avaliar o papel que esta figura tem nos acontecimentos nacionais.
O PR tem, mesmo numa interpretação light dos seus poderes constitucionais, muito mais poder de intervenção do que faz crer a interpretação oportunista que da Constituição fazem alguns parasitas da nossa vida política e, seguramente, muito mais do que aquele que o actual detentor do cargo evidencia. Por outro lado, o exercício deste cargo implica uma margem de assertividade que não tem sido de todo a tónica do mandato deste Presidente. O exercício da Presidência da República feito por Cavaco Silva faz-me lembrar um personagem do Jô Soares de há uns largos anos, conhecido pelo "não me comprometa"! E falo na versão light porque se formos para a versão com todos, o mandato deste Presidente é um fracasso total, na perspectiva do interesse nacional.
Na minha opinião, o desastre da governação do consulado Sócrates ocorre nesta matriz e nela tem também de ser enquadrado.
Ora, o que o comentário de Carvalho da Silva parece vir justamente pôr em destaque é a necessidade de não "arrumar" a questão das eleições presidenciais na secção dos "resolvidos" —aquela em que parece que a generalidade dos doutos comentadores e fazedores de opinião já encafuou a questão— e exigir mais! Partindo do princípio que as expressões "presidente de todos os portugueses" e "equidistânca dos partidos" não são vãs, é fácil concluir que há um terreno imenso onde a acção e a iniciativa do Presidente da República podem ter lugar e que estas não se esgotam no jogo de atirar pinos abaixo no bowling dos partidos. Devíamos ambicionar mais e o PR deveria ser um agente particularmente activo nesse desígnio.
Não vamos eleger o "monarca", figura decorativa, passiva e passada, como alguns desejam. Estamos noutra!
Falando de dificuldades de fazer uma comunicação decente do que está em jogo na presente situação política, teria sido mais últil que, em vez de chamar os partidos, como fez ultimamente, Cavaco Silva tivesse promovido uma discussão muito ampla e aprofundada sobre o que está verdadeiramente em causa. Há mil maneiras de o levar a cabo e não lhe faltariam decerto meios para o fazer. Falta-lhe, manifestamente, é o talento, a criatividade e a visão correcta de um verdadeiro estadista. Deve estar esgotado com as duas mil assinaturas que teve de apor nos diplomas todos que promulgou. Cãibra de escrivão, portanto.
E em resultado de tricas mesquinhas, ódios pessoais e interesses partidários inomináveis preparam-se todos para entregar de mão beijada, de novo, o cargo de Presidente da República a este homem.
No meu entender, a situação do país —de há muito, não só de hoje— exige discussão e esclarecimento dos portugueses. Exige consenso, mas entre os portugueses. Que os partidos depois reflectirão, claro, mas que tem de emanar dos cidadãos. Uma das, senão mesmo a questão central da nossa democracia é este cheque em branco que os cidadãos concedem aos partidos. Que deu no que deu, como sabemos. A democracia não se esgota, como é sucessiva e inutilmente repetido por alguns, nas eleições, nem o nosso papel enquanto cidadãos acaba no momento em que conseguimos que alguém assuma o papel de nos representar politicamente. Este é um debate que urge fazer na sociedade portuguesa e que, naturalmente, não vai ser nunca promovido pelos partidos.
Há poucos dias o secretário-geral da CGTP defendeu a necessidade de aproveitar a eleição presidencial que se aproxima para um debate profundo sobre a situação do país, que inclui a perspectiva —correcta, no meu entender— da crítica do exercício do poder presidencial. Não posso concordar mais. Habituámo-nos a criticar o Governo, e em particular o Primeiro Ministro, pelos pecados da governação, mas esquecemo-nos frequentemente que o Presidente da República tem grossa percentagem de culpa no cartório e é co-responsável pelo estado a que as coisas chegaram. Não como sócio gerente, mas como silent partner. Negligenciámos avaliar o papel que esta figura tem nos acontecimentos nacionais.
O PR tem, mesmo numa interpretação light dos seus poderes constitucionais, muito mais poder de intervenção do que faz crer a interpretação oportunista que da Constituição fazem alguns parasitas da nossa vida política e, seguramente, muito mais do que aquele que o actual detentor do cargo evidencia. Por outro lado, o exercício deste cargo implica uma margem de assertividade que não tem sido de todo a tónica do mandato deste Presidente. O exercício da Presidência da República feito por Cavaco Silva faz-me lembrar um personagem do Jô Soares de há uns largos anos, conhecido pelo "não me comprometa"! E falo na versão light porque se formos para a versão com todos, o mandato deste Presidente é um fracasso total, na perspectiva do interesse nacional.
Na minha opinião, o desastre da governação do consulado Sócrates ocorre nesta matriz e nela tem também de ser enquadrado.
Ora, o que o comentário de Carvalho da Silva parece vir justamente pôr em destaque é a necessidade de não "arrumar" a questão das eleições presidenciais na secção dos "resolvidos" —aquela em que parece que a generalidade dos doutos comentadores e fazedores de opinião já encafuou a questão— e exigir mais! Partindo do princípio que as expressões "presidente de todos os portugueses" e "equidistânca dos partidos" não são vãs, é fácil concluir que há um terreno imenso onde a acção e a iniciativa do Presidente da República podem ter lugar e que estas não se esgotam no jogo de atirar pinos abaixo no bowling dos partidos. Devíamos ambicionar mais e o PR deveria ser um agente particularmente activo nesse desígnio.
Não vamos eleger o "monarca", figura decorativa, passiva e passada, como alguns desejam. Estamos noutra!
Falando de dificuldades de fazer uma comunicação decente do que está em jogo na presente situação política, teria sido mais últil que, em vez de chamar os partidos, como fez ultimamente, Cavaco Silva tivesse promovido uma discussão muito ampla e aprofundada sobre o que está verdadeiramente em causa. Há mil maneiras de o levar a cabo e não lhe faltariam decerto meios para o fazer. Falta-lhe, manifestamente, é o talento, a criatividade e a visão correcta de um verdadeiro estadista. Deve estar esgotado com as duas mil assinaturas que teve de apor nos diplomas todos que promulgou. Cãibra de escrivão, portanto.
E em resultado de tricas mesquinhas, ódios pessoais e interesses partidários inomináveis preparam-se todos para entregar de mão beijada, de novo, o cargo de Presidente da República a este homem.
2010/10/04
Uma entrevista oportuna
Saiu hoje no Público uma entrevista com Henrique Neto que pode ser lida aqui.
(Foto retirada da edição online do Púbico de autoria de Pedro Cunha)
(Foto retirada da edição online do Púbico de autoria de Pedro Cunha)
2010/09/30
A Crise (2)
Não fora a pressão dos "mercados" e ainda hoje o governo português continuaria a anunciar as obras do regime e a apregoar a saúde da nossa economia, quando comparada a outros países em crise por essa Europa fora.
Ontem foram anunciadas medidas drásticas, mas agora é tarde. É tarde porque já deviam ter sido tomadas em 2008, quando a crise nos bateu à porta; e será sempre tarde, porque, como vimos na Grécia e na Irlanda, as medidas tomadas não melhoraram a situação. É tarde, ainda, porque o governo andou a mentir este tempo todo e agora vem com ar compungido dizer que não havia outra alternativa.
Com o agravamento das "medidas de austeridade" - desinvestimento nas obras públicas, aumento do IVA, cortes salariais na função pública, congelamento de salários, diminuição das reformas e nos diversos apoios sociais - a espiral da pobreza só terá tendência para aumentar. Sem investimento não haverá relançamento da economia e sem economia a crescer não haverá aumento de emprego, do consumo e do comércio. O desemprego tenderá a aumentar e sem apoios sociais a pobreza será ainda maior.
Hoje mesmo a "Ernst & Young" anunciou que o segundo semestre será pior para as contas públicas pelo que a recessão tenderá a agravar-se. Más notícias? Nem por isso: de acordo com Almeida Santos, a "eminência parda" do governo, os portugueses devem considerar-se felizes por terem um governo que ousa tomar medidas impopulares. Por esta é que nós não esperavámos. Infelizmente, Santos não está tão senil como algumas pessoas receiam. Antes estivesse.
Ontem foram anunciadas medidas drásticas, mas agora é tarde. É tarde porque já deviam ter sido tomadas em 2008, quando a crise nos bateu à porta; e será sempre tarde, porque, como vimos na Grécia e na Irlanda, as medidas tomadas não melhoraram a situação. É tarde, ainda, porque o governo andou a mentir este tempo todo e agora vem com ar compungido dizer que não havia outra alternativa.
Com o agravamento das "medidas de austeridade" - desinvestimento nas obras públicas, aumento do IVA, cortes salariais na função pública, congelamento de salários, diminuição das reformas e nos diversos apoios sociais - a espiral da pobreza só terá tendência para aumentar. Sem investimento não haverá relançamento da economia e sem economia a crescer não haverá aumento de emprego, do consumo e do comércio. O desemprego tenderá a aumentar e sem apoios sociais a pobreza será ainda maior.
Hoje mesmo a "Ernst & Young" anunciou que o segundo semestre será pior para as contas públicas pelo que a recessão tenderá a agravar-se. Más notícias? Nem por isso: de acordo com Almeida Santos, a "eminência parda" do governo, os portugueses devem considerar-se felizes por terem um governo que ousa tomar medidas impopulares. Por esta é que nós não esperavámos. Infelizmente, Santos não está tão senil como algumas pessoas receiam. Antes estivesse.
2010/09/29
Responsabilidades
Aqui há já algum tempo correu nos cinemas o filme de Michael Haneke "O Laço Branco". Era um filme perturbante sobre as virtudes públicas e os pecados privados, sobre a hipocrisia, sobre a plasticidade da moral aplicada intra ou extramuros.
Hoje tenho-me lembrado bastante deste filme. Ao longo do dia fomos ouvindo altos dignitários da governação e da vida política apelar ao sentido de responsabilidade. Esta foi a palavra mais ouvida em tudo o que foi noticiário e reportagem sobre intervenções políticas a propósito do orçamento e das medidas para remediar o problema do défice das contas portuguesas. Uma palavra repetida febrilmente em todos os tons e declinações.
Estranha palavra e estranho apelo este...
Serão aqueles que espetam o dedo moralista e fazem agora, com ar grave e compungido, este apelo à responsabilidade, os mesmos que, quer do lado do governo, quer do lado da oposição, revelaram ao longo de todos estes anos de exercício do poder um comportamento totalmente irresponsável. Serão estes arautos da responsabilidade os mesmos que não hesitaram em fazer prevalecer os seus interesses mesquinhos e egoístas sobre os interesses de todos, sabendo que o desgoverno a que assistimos hoje seria a inevitável consequência dos seus actos? É para o PEC(n) que os portugueses votam nestes imbecis?
E, pergunto, serão menos irresponsáveis aqueles que os premeiam então com o seu voto?
Quem tem medo da crise política? Quem tem medo de reconhecer que os representantes do regime não estão à altura das necessidades do País e que o País sustenta e avaliza representatntes que o não servem? É mesmo para uma mudança muito profunda de regime que devemos apontar.
Hoje tenho-me lembrado bastante deste filme. Ao longo do dia fomos ouvindo altos dignitários da governação e da vida política apelar ao sentido de responsabilidade. Esta foi a palavra mais ouvida em tudo o que foi noticiário e reportagem sobre intervenções políticas a propósito do orçamento e das medidas para remediar o problema do défice das contas portuguesas. Uma palavra repetida febrilmente em todos os tons e declinações.
Estranha palavra e estranho apelo este...
Serão aqueles que espetam o dedo moralista e fazem agora, com ar grave e compungido, este apelo à responsabilidade, os mesmos que, quer do lado do governo, quer do lado da oposição, revelaram ao longo de todos estes anos de exercício do poder um comportamento totalmente irresponsável. Serão estes arautos da responsabilidade os mesmos que não hesitaram em fazer prevalecer os seus interesses mesquinhos e egoístas sobre os interesses de todos, sabendo que o desgoverno a que assistimos hoje seria a inevitável consequência dos seus actos? É para o PEC(n) que os portugueses votam nestes imbecis?
E, pergunto, serão menos irresponsáveis aqueles que os premeiam então com o seu voto?
Quem tem medo da crise política? Quem tem medo de reconhecer que os representantes do regime não estão à altura das necessidades do País e que o País sustenta e avaliza representatntes que o não servem? É mesmo para uma mudança muito profunda de regime que devemos apontar.
2010/09/24
A Crise
Agora que Cavaco Silva se preparava para anunciar a sua (re)candidatura a Belém e o que menos desejaria era falar, eis que a realidade se impôe à estratégia presidencial e o obriga a tomar posição sobre a actual crise. Falhadas que foram as conversações entre os dois maiores partidos sobre o OE, mais não resta a Cavaco do que tentar o impossível que é, neste momento, evitar a entrada do FMI em Portugal.
Com uma economia a crescer abaixo de 1%, uma dívida externa correspondente a 80% do PIB e a pagar uma taxa de juro de 6,2% (a maior, na Europa, depois da Irlanda) tudo aponta para que, dentro em breve, Portugal ultrapasse os 6,4% da Grécia, o "momento" em que o FMI "entrou" naquele país. Os resultados estão à vista e não consta que os gregos tivessem ficado melhores com a terapia de choque que lhes foi aplicada. Para já, e no que diz respeito a Portugal, com ou sem Orçamento, as previsões económicas para o próximo ano são ainda piores do que as actuais: congelamento de salários, aumento de impostos, aumento de desemprego, desempregados de longa duração sem meios de subsistência, redução de prestações sociais, redução de comparticipações em medicamentos. Estas são algumas das medidas que têm em vista reduzir o "déficit" que ultrapassa actualmente os 9%. Mas, estas medidas não vão chegar. E porquê? Porque a despesa do estado continua a crescer e, como não há dinheiro para pagá-la, teremos de pedir mais dinheiro emprestado, o que fará aumentar a dívida e os respectivos juros...
Como explicam os analistas económicos todos os dias na televisão, sem aumento da produtividade não há aumento de riqueza e, sem esta, não haverá maneira de distribuir melhor e pagar a dívida que tornar-se-á, a prazo, insustentável. Perante esta verdadeira quadratura do círculo, gostaríamos de saber o que diz o economista Cavaco, pois o Cavaco presidente já sabemos o que pensa.
Com uma economia a crescer abaixo de 1%, uma dívida externa correspondente a 80% do PIB e a pagar uma taxa de juro de 6,2% (a maior, na Europa, depois da Irlanda) tudo aponta para que, dentro em breve, Portugal ultrapasse os 6,4% da Grécia, o "momento" em que o FMI "entrou" naquele país. Os resultados estão à vista e não consta que os gregos tivessem ficado melhores com a terapia de choque que lhes foi aplicada. Para já, e no que diz respeito a Portugal, com ou sem Orçamento, as previsões económicas para o próximo ano são ainda piores do que as actuais: congelamento de salários, aumento de impostos, aumento de desemprego, desempregados de longa duração sem meios de subsistência, redução de prestações sociais, redução de comparticipações em medicamentos. Estas são algumas das medidas que têm em vista reduzir o "déficit" que ultrapassa actualmente os 9%. Mas, estas medidas não vão chegar. E porquê? Porque a despesa do estado continua a crescer e, como não há dinheiro para pagá-la, teremos de pedir mais dinheiro emprestado, o que fará aumentar a dívida e os respectivos juros...
Como explicam os analistas económicos todos os dias na televisão, sem aumento da produtividade não há aumento de riqueza e, sem esta, não haverá maneira de distribuir melhor e pagar a dívida que tornar-se-á, a prazo, insustentável. Perante esta verdadeira quadratura do círculo, gostaríamos de saber o que diz o economista Cavaco, pois o Cavaco presidente já sabemos o que pensa.
2010/09/22
De Queiroz ao FMI, passando por Mourinho
O folhetim do seleccionador nacional entrou numa nova temporada. Vale a pena pensar no que foi a temporada anterior.
Creio que foi o major Valentim Loureiro que disse uma vez que o futebol não é mais que um reflexo do país. Se não foi ele foi alguém do género. Temos de admitir que o personagem tinha nisto alguma razão. Não se podem atribuir ao futebol nem todos os malefícios das suas derrotas, nem todas as virtudes dos seus sucessos. Mas, o futebol espelha de facto o País e este episódio Queiroz é disso exemplo.
Em todo este processo se vê a mesquinhez, a invejinha, o resíduo inquisitorial do poder, a leviandade com que os portugueses nele investidos tratam os seus concidadãos, o que é a justiça e o respeito pela lei das instituições que têm de velar por tudo isto. O que é e para que serve o Estado Português, em suma.
Em todo este processo se vê também a insolência do poder e como este (este ou qualquer outro poder, seja político ou institucional, como foi e é o caso da Secretaria de Estado da Juventude e Desportos ou da Federação Portuguesa de Futebol) trucida, com total leviandade, as pessoas no seu continuado e nunca verdadeiramente questionado livre arbítrio. Uma vez conquistado o "poderzinho", vale tudo. No "enterro" de Queiroz, mas também no "convite" a Mourinho se vê como não passamos todos de peões perante os poderes conjunturais que tudo e todos tentam manipular, seja qual for o nosso estatuto, seja qual for o nosso ramo de actividade.
O Estado em Portugal continua, séculos depois da revolução cidadã, a ser eu. Ou, numa versão mais colorida e, sem dúvida, mais fiel, "eu é que sou o presidente da junta!"
Em todo este processo se percebe também que perante as necessidades mais sérias deste país a resposta continua a ser D. Sebastião, chame-se Mourinho ou FMI. Em qualquer caso, no futebol como na economia, a qualificação de Portugal está em risco.
Queiroz foi engolido. Mourinho foi ingénuo e esteve quase a entrar na escala de serviço para o ser. Apenas me consola a ideia de que o FMI, se cá viesse, iria certamente sair de mãos na cabeça jurando nunca mais cá voltar. Nem de férias!
Creio que foi o major Valentim Loureiro que disse uma vez que o futebol não é mais que um reflexo do país. Se não foi ele foi alguém do género. Temos de admitir que o personagem tinha nisto alguma razão. Não se podem atribuir ao futebol nem todos os malefícios das suas derrotas, nem todas as virtudes dos seus sucessos. Mas, o futebol espelha de facto o País e este episódio Queiroz é disso exemplo.
Em todo este processo se vê a mesquinhez, a invejinha, o resíduo inquisitorial do poder, a leviandade com que os portugueses nele investidos tratam os seus concidadãos, o que é a justiça e o respeito pela lei das instituições que têm de velar por tudo isto. O que é e para que serve o Estado Português, em suma.
Em todo este processo se vê também a insolência do poder e como este (este ou qualquer outro poder, seja político ou institucional, como foi e é o caso da Secretaria de Estado da Juventude e Desportos ou da Federação Portuguesa de Futebol) trucida, com total leviandade, as pessoas no seu continuado e nunca verdadeiramente questionado livre arbítrio. Uma vez conquistado o "poderzinho", vale tudo. No "enterro" de Queiroz, mas também no "convite" a Mourinho se vê como não passamos todos de peões perante os poderes conjunturais que tudo e todos tentam manipular, seja qual for o nosso estatuto, seja qual for o nosso ramo de actividade.
O Estado em Portugal continua, séculos depois da revolução cidadã, a ser eu. Ou, numa versão mais colorida e, sem dúvida, mais fiel, "eu é que sou o presidente da junta!"
Em todo este processo se percebe também que perante as necessidades mais sérias deste país a resposta continua a ser D. Sebastião, chame-se Mourinho ou FMI. Em qualquer caso, no futebol como na economia, a qualificação de Portugal está em risco.
Queiroz foi engolido. Mourinho foi ingénuo e esteve quase a entrar na escala de serviço para o ser. Apenas me consola a ideia de que o FMI, se cá viesse, iria certamente sair de mãos na cabeça jurando nunca mais cá voltar. Nem de férias!
2010/09/21
Um embaixador incómodo
"Portugal manteve a sua posição relativa no mundo, e nomeadamente na Europa: continuamos no pelotão dos mais atrasados, dos mais periféricos, dos mais aflitos. Não progredimos suficientemente mais do que os outros, como precisávamos de fazer para alterar a nossa posição no conjunto dos países. E, na última década, foi mesmo o contrário que aconteceu".
Manuel Maria Carrilho em "E agora? - Por uma nova República".
Adenda: Carrilho, até ontem embaixador português na UNESCO, foi substituido no cargo após a publicação da obra citada e da última entrevista que deu ao "Expresso". Nada que nos surpreenda, num partido que sempre privilegiou a fidelidade canina em detrimento do pensamento autónomo dos seus membros. A verdade sempre incomodou os mediocres.
Manuel Maria Carrilho em "E agora? - Por uma nova República".
Adenda: Carrilho, até ontem embaixador português na UNESCO, foi substituido no cargo após a publicação da obra citada e da última entrevista que deu ao "Expresso". Nada que nos surpreenda, num partido que sempre privilegiou a fidelidade canina em detrimento do pensamento autónomo dos seus membros. A verdade sempre incomodou os mediocres.
2010/09/17
A Europa dos Povos
A discussão em curso sobre a repatriação dos ciganos romenos e búlgaros ordenada pelo governo francês tem, pelo menos, uma virtude: mostrar a dupla moral de um país europeu que apregoa a solidariedade e inclusão de minorias como uma das suas bandeiras civilizacionais, ao mesmo tempo que emite circulares cujo texto não destoaria de escritos emitidos durante a ocupação nazi. Andou bem a comissária Viviane Reding ao denunciar tal acto como uma "desgraça", quando comparou as expulsões deste grupo étnico específico (e o texto da circular não mente) com práticas usadas durante a última grande guerra. Obviamente que os ciganos em questão não foram enviados para campos de concentração e receberam, inclusive, apoios financeiros para a viagem de regresso. Mas, o governo francês sabe que a circulação dos cidadãos europeus é livre pelo que, daqui a uns meses, estes ou outros ciganos, voltarão a França ou a outro pais da União Europeia onde decidam viver. As medidas tomadas por Sarkozy, ainda que apoiadas por uma larga percentagem de franceses, tentam escamotear um crise estrutural da sociedade, onde o desemprego, a perca de regalias sociais, o aumento da idade de reforma e o escândalo Loreal (financiamento do partido do governo) minam a autoridade do presidente. Junte-se a isto os "fait-divers" relacionados com a primeira dama, de quem a última biografia é um exemplo, e percebe-se melhor a falta de popularidade de um governo em queda abrupta. Era necessário recuperar a confiança da extrema-direita, agora que o centro-direita parece estar a fugir. Os ciganos estavam ali à mão de semear e são o grupo ideal para funcionar como "bode expiatório". A história não está a seu favor e poucas pessoas (inclusive na Roménia) parecem gostar deles...
O caso francês, sendo o mais mediático, não é sequer único. Diversos países europeus (Suécia, Itália) têm aplicado medidas selectivas de expulsão, enquanto outros preparam alterações às leis nacionais que facilitem a expulsão. A Holanda, por exemplo, que ainda há uma década atrás recebia dezenas de milhares de refugiados políticos, tornou-se um dos países mais restritivos nesta área, a ponto de ter sido alvo de críticas por parte de organismos internacionais como a Amnistia Internacional.
A ascensão ao poder da direita mais retrógada (de que políticos como Sarkozy e Berlusconi são os rostos visíveis) veio reforçar a tendência securitária e discriminatória que alastra pela Europa. Em tempo de crise económica e social a ideologia xenófoba vai fazendo o seu caminho. Denunciar medidas como as que foram tomadas pelo governo francês pode ter um efeito profilático. Nesse sentido, as palavras da comissária luxemburguesa, revelam que nem tudo está podre na Europa.
O caso francês, sendo o mais mediático, não é sequer único. Diversos países europeus (Suécia, Itália) têm aplicado medidas selectivas de expulsão, enquanto outros preparam alterações às leis nacionais que facilitem a expulsão. A Holanda, por exemplo, que ainda há uma década atrás recebia dezenas de milhares de refugiados políticos, tornou-se um dos países mais restritivos nesta área, a ponto de ter sido alvo de críticas por parte de organismos internacionais como a Amnistia Internacional.
A ascensão ao poder da direita mais retrógada (de que políticos como Sarkozy e Berlusconi são os rostos visíveis) veio reforçar a tendência securitária e discriminatória que alastra pela Europa. Em tempo de crise económica e social a ideologia xenófoba vai fazendo o seu caminho. Denunciar medidas como as que foram tomadas pelo governo francês pode ter um efeito profilático. Nesse sentido, as palavras da comissária luxemburguesa, revelam que nem tudo está podre na Europa.
...E o Poceirão aqui tão perto...
Em última instância, há sempre a possibilidade de apanharmos o ferry para Cacilhas e o autocarro para o Poceirão. Daí a Badajoz é um instantinho e, depois, logo se verá...
2010/09/16
D. Sebastião mora em Espanha
O inenarrável Madail está em Madrid a tentar convencer Mourinho a aceitar uma missão impossível: salvar a selecção de uma eliminação anunciada. À hora a que escrevemos não são conhecidas as "démarches" do presidente "vitalício" da FPF, mas, dado o seu histórico na matéria ("fugas para a frente" após todos os fiascos da selecção, desde a Coreia de 2002 até à África do Sul, em 2010) não nos admirávamos nada que conseguisse os seus intentos. Resta saber se o Real Madrid aceitaria ficar com um treinador em "part-time" o qual, caso aceitasse a "maçã envenenada" de Madaíl, corria o risco de perder em duas frentes: no clube que lhe paga para ser campeão e numa selecção sem futuro. Quem não terá nada a perder, será sempre o presidente da federação que, deste modo, deve recandidatar-se a um novo mandato e permanecer no cargo "ad eternum", quem sabe até ao campeonato do Mundo de 2018 que poderá ser disputado em Portugal...
Só mesmo um verdadeiro "sobrevivente" poderia continuar a acreditar em D. Sebastião. Digam lá se o homem não pensa no seu futuro?
Só mesmo um verdadeiro "sobrevivente" poderia continuar a acreditar em D. Sebastião. Digam lá se o homem não pensa no seu futuro?
2010/09/06
Monstruosidades
Enquanto o país, suspenso, aguarda a publicação das fundamentações que estiveram na origem das condenações do processo Casa Pia, assiste-se a uma crítica geral à decisão do tribunal por parte de todos os arguidos sem excepção. Nas palavras do mais mediático acusado, este processo não passaria mesmo da mais "pura fantasia" pelo que as conclusões do MP só poderiam ser uma verdadeira "monstruosidade jurídica".
Ainda que tenhamos dificuldade em aceitar tal argumentação, após oito anos de investigação durante os quais foram dadas todas as possibilidades de defesa e contra-argumentação de prova aos suspeitos (que tudo fizeram para adiar as conclusões), manda o bom-senso que consideremos todos os acusados "não-culpados" até ao fim dos recursos interpostos. Um ciclo que pode durar entre três a seis anos até ao Supremo Tribunal de Justiça, não contando com a possibilidade do recurso ao Tribunal de Direitos do Homem em Estrasburgo ou mesmo à prescrição de todas as condenações. Um longo percurso, numa saga que já dura há demasiado tempo e para a qual poucas pessoas parecem estar disponíveis. Resta a questão central, neste mega-processo que abalou as boas consciências sem com isso parecer ter abalado a congénita hipocrisia da sociedade portuguesa. Monstruosidade jurídica (como querem fazer crer os arguidos e seus defensores) ou monstruosidade institucional (como parece não haver dúvidas em relação às violações a que foram sujeitos os menores entregues à Casa Pia) em qualquer dos casos este processo deixou de fora muitos nomes badalados da nossa sociedade e contra os quais não foram interpostos processos por prescrição de prazos. Lembremos que, no "caso Polansky", a lei americana não reconheceu a prescrição do crime de pedofilia, ainda que tivessem passado mais de trinta anos sobre os acontecimentos dos quais o realizador foi acusado. Fosse o nosso código penal outro e, provavelmente, para além dos seis acusados, estaríamos hoje em presença de uma galeria de notáveis "homens de bem" da nossa sociedade, que vão continuar por aí livres e impunes na sua actividade predadora de sempre. Isto sim, parece-nos ser uma verdadeira monstruosidade.
Ainda que tenhamos dificuldade em aceitar tal argumentação, após oito anos de investigação durante os quais foram dadas todas as possibilidades de defesa e contra-argumentação de prova aos suspeitos (que tudo fizeram para adiar as conclusões), manda o bom-senso que consideremos todos os acusados "não-culpados" até ao fim dos recursos interpostos. Um ciclo que pode durar entre três a seis anos até ao Supremo Tribunal de Justiça, não contando com a possibilidade do recurso ao Tribunal de Direitos do Homem em Estrasburgo ou mesmo à prescrição de todas as condenações. Um longo percurso, numa saga que já dura há demasiado tempo e para a qual poucas pessoas parecem estar disponíveis. Resta a questão central, neste mega-processo que abalou as boas consciências sem com isso parecer ter abalado a congénita hipocrisia da sociedade portuguesa. Monstruosidade jurídica (como querem fazer crer os arguidos e seus defensores) ou monstruosidade institucional (como parece não haver dúvidas em relação às violações a que foram sujeitos os menores entregues à Casa Pia) em qualquer dos casos este processo deixou de fora muitos nomes badalados da nossa sociedade e contra os quais não foram interpostos processos por prescrição de prazos. Lembremos que, no "caso Polansky", a lei americana não reconheceu a prescrição do crime de pedofilia, ainda que tivessem passado mais de trinta anos sobre os acontecimentos dos quais o realizador foi acusado. Fosse o nosso código penal outro e, provavelmente, para além dos seis acusados, estaríamos hoje em presença de uma galeria de notáveis "homens de bem" da nossa sociedade, que vão continuar por aí livres e impunes na sua actividade predadora de sempre. Isto sim, parece-nos ser uma verdadeira monstruosidade.
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