2019/03/20

Brasil-EUA: quando os "bons espíritos" se encontram


Contrariamente ao que tem sido a tradição de anteriores presidentes brasileiros, a primeira visita ao estrangeiro de Jair Bolsonaro, não foi à Argentina, mas aos Estados Unidos da América.
Faz sentido. Bolsonaro nunca escondeu a sua admiração por Trump, o seu ídolo.
Agora que o Brasil necessita de abrir-se ao exterior, para cativar investimentos em áreas nevrálgicas para a sua economia, nada melhor que o "amigo americano", para garantir o apoio e a cooperação de que o pais precisa.
Mas, Bolsonaro e Trump comungam outras coisas, para além de interesses económicos. Ambos são particularmente broncos, desprovidos de qualquer experiência ou visão política; não se lhes conhece uma ideia positiva, sobre questões prementes para o planeta, como o desarmamento ou o clima; ambos governam por "tweets" e usam "fake news", através das quais espalham o ódio, que é a "marca de água" de todos os seus discursos; ambos são apoiados pelas facções mais retrógadas da sociedade, desde o "Tea Party" e os "Wasp" (que defendem a supremacia branca na América), até às seitas evangélicas e os ruralistas, que pululam no Brasil; ambos são profundamente racistas e xenófobos, seja contra os negros e imigrantes (Trump), seja contra os negros e índios (Bolsonaro); ambos são notórios misóginos e criticam os movimentos de emancipação das mulheres; ambos defendem o uso de armas por civis.
Não admira, pois, que a sua estratégia, seja semelhante.
O alvo é o mesmo: fanatizar os grupos dominantes na sociedade, assustar o adversário, mobilizar os deserdados. A abordagem, também é a mesma: gerar bolsas de ódio contra indivíduos ou colectivos. Os temas escolhidos, são idênticos: queremos andar armados, a família está sob ataque (ideologia de género), os imigrantes aproveitam-se das facilidades das nossas sociedades e ficam com os nossos empregos.
Quando Bolsonaro foi eleito, em finais do ano passado, muitos analistas duvidavam que pudesse ser tão cretino, ao ponto de pôr em prática as ideias que defendeu antes das eleições. Um atentado, de que foi vítima durante a campanha eleitoral, poupou-o à humilhação nos debates, para os quais não estava manifestamente preparado. Um tosco, o Jair.
Nessa altura, as opiniões dividiram-se sobre o caminho que o presidente poderia seguir, quando fosse eleito: manter-se coerente com o seu discurso, contra tudo e contra todos, correndo o risco de ficar isolado; negociar com as bancadas dos sectores que o apoiam no Congresso, os tradicionais três "Bs" (Bala, Boi e Bíblia); ou decidir, de acordo com as matérias em discussão, tentando "surfar a onda" conforme os temas e os apoios. 
Menos de três meses decorridos sobre a tomada de posse, a presidência de Bolsonaro não podia ter sido mais errática. A tal ponto que, Olavo de Carvalho, um dos ideólogos do populismo brasileiro, já veio avisar que, caso o governo não melhore, o Brasil corre sérios riscos de um golpe militar. Lembremos, que os militares, têm 8 ministros no actual governo, mais de 1/3 do total de governantes. Os casos começam a ser muitos e demasiado graves para passarem em claro: Bolsonaro (a exemplo de Trump, de resto), começou por levar a família para o governo. Um dos filhos (governador do Rio) foi, entretanto, associado às mílicias para-militares, acusadas de matarem Marielle Franco, há um ano atrás. Os alegados assassinos, já foram presos, faltando esclarecer quem foram os mandantes. O outro filho, que faz parte do governo, depois do pai ter anunciado a proclamação da Lei de Porte de Armas, foi o primeiro a exibir uma arma, em vídeo divulgado nas redes sociais. O pai, não lhe ficou atrás e declarou, após o morte dos alunos da escola em Suzano, que dormia com uma arma debaixo da almofada. Não contente com isto, divulgou um vídeo de índole pornográfica, sobre os "desmandos" do carnaval carioca, que pode valer-lhe um "impeachment". Frequentemente, as suas declarações são emendadas pelos assessores e, não raro, os ministros têm de vir desculpá-lo pelas "gaffes" cometidas. Pior, era impossível.
Conforme escreve o "El País" de hoje: "Quando o presidente assinou um decreto para facilitar a posse de armas no Brasil, a professora Marilene Umizu, escreveu numa rede social: "Estamos a favor do porte de livros, que é a melhor arma para salvar os cidadãos na educação". No dia 13 de Março, a professora Marilene, era um dos sete corpos crivados de balas no solo da escola estatal Professor Raul Brasil, em Suzano, na região de São Paulo. Bolsonaro não é o responsável directo pelo massacre. Não premiu o gatilho. Mas, deve ser responsabilizado por apertar todos os dias o gatilho com as suas palavras e actos, perante 200 milhões de brasileiros, como fez durante a campanha em que imitava uma arma com os dedos".
Um dos seus assessores, Mayor Olímpio, chegou ao desplante de declarar que "se os professores estivessem armados, podia ter-se evitado a tragédia". Entretanto, o filho mais velho de Bolsonaro, senador eleito, já apresentou o primeiro projecto-lei: A autorização para instalar fábricas civis de armas e munições.
É este Brasil que convive com o genocídio da juventude (negros na maioria, as principais vítimas) e um índice de criminalidade de 63.000 mortos por ano (a maior do Mundo), para além do silêncio que continua a pairar sobre mais de 200 mortos desaparecidos durante a ditadura militar.
Nas conversações entre Bolsonaro e Trump, não foram estabelecidos acordos, mas intenções. Sobre instalação de uma base americana em Maranhão, sobre privatizações que facilitem a entrada de capital americano no país e uma política mais flexível de taxas aduaneiras, o que obrigará o Brasil a "abrir mão" do seu proteccionismo, em troca de entrada na OMC, na OCDE e, quem sabe, na NATO (!?). 
Não é pois de admirar que Bolsonaro, após o encontro com Trump, tenha declarado à Fox News que estava em sintonia com o presidente americano e que os imigrantes deviam ser impedidos de entrar no país, pois muitos deles eram criminosos.
É verdade. Os índios, que o digam!

 

2019/03/14

Flamenco e Bandoleros em terras de Carmen (3)


Carmen Linares, de seu nome Carmen Pacheco Rodriguez (1951), dispensa apresentações. Artista de renome internacional, ela é a voz contemporânea do Flamenco. Precisamos de  recuar à legendária Niña de Los Peines (1890-1969), para encontrar tamanho talento. Nos anos setenta e oitenta, já cantava em Madrid com Camarón e Enrique Morente, onde era acompanhada por Juan e Pepe Habichuela. Participou na produção "El amor brujo" de Manuel Falla, dirigida pelo maestro Joseph Pons, tendo passado por palcos como o Lincoln Center de Nova-Iorque, a Opera Housa de Sidney ou o Albert Hall em Londres. Gravou inúmeros albuns de referência, como "Canções Populares de Lorca", "Antologia de la mujer el Cante" ou "Raíces e Alas". Cantou todos os grandes poetas espanhóis, de Lorca a Alberti, de Hernández a Machado. Alguns dos mais reputados prémios da sua carreira, incluem o Melhor Album da Academia Francesa (1991), a Medalha de Prata da Andaluzia (1998) o Prémio Musical de Espanha (2001), a Medalha de Ouro de Belas Artes (2001), o Prémio do Melhor Album de Flamenco (2008) e o Prémio da Academia de Música (2011). 
Sempre que posso, corro a vê-la, com a ansiedade que caracteriza a descoberta. É assim, desde 1998, quando a contratei pela primeira vez para uma digressão em Portugal, realizada em Outubro do mesmo ano. Do programa, constavam as "Canções Populares Antigas", compiladas por Garcia Lorca e popularizadas pela mítica La Argentinita, em 1931. Uma epifania.
No dia 8 de Março, descobri que ela cantava no centenário teatro Lope de Vega, a sala de visitas da cidade de Sevilha. Como resistir? Reservados os lugares, lá fomos, para assistir à apresentação do seu último e aclamado album "Verso a Verso", baseado em poemas de Miguel Hernández.
Hernández, um dos nomes maiores da geração de '27, da qual faziam parte Garcia Lorca e Rafael Alberti, teve uma vida dramática. De origem camponesa, foi pastor, após ter deixado os estudos para ajudar a família. Tornou-se auto-didacta, nunca deixando de estudar e escrever para diversas publicações da época. O seu primeiro livro, "Perito en Lunas" (1933), foi publicado em Madrid, onde entretanto conseguira um emprego. A Guerra Civil veio interromper um dos seus períodos mais criativos. Juntou-se ao 5ª Regimento, como voluntário, ao lado dos Republicanos. Datam dessa época, alguns dos seus mais conhecidos escritos: "Elegia a Ramón Sijé" (1934), "El Rayo que no Cesa" (1936), "Viento del Pueblo" (1937) e "El Hombre Acecha" (1939), que incluem poemas memoráveis como "Andaluces de Jaén", "El Niño Yuntero" e "El Herido". Após a guerra, conseguiu escapar, mas, ao regressar à sua terra natal (Orihuela), seria preso, libertado e preso de novo. Os dois anos que passou entre prisões, aproveitou para escrever os poemas que fazem parte do "Cancionero Y Romancero de Ausencias", obra-maior da sua produção. Desta compilação, fazem parte composições fundamentais como "Nanas de la Cebolla", "Llegó con tres heridas" e "El sol, la rosa y el niño". Após ter-lhe sido diagnosticada uma infecção pulmonar, morreria em 1942, com a idade de trinta e nove anos.
Foram os poemas, deste poeta maior da língua espanhola, que Carmen Linares apresentou em Sevilha, perante uma sala praticamente esgotada. Um concerto algo desigual, onde a cantora, após um início contido, na interpretação do lindíssimo poema "Para La Liberdad" (bulerias), avançaria para as canções mais dramáticas "Andaluces de Jaén" (peteneras y tarantas), "Compãnero" (cantes de Levante), "Canción de los Vendimiadores" (alegrias) e as versões musicais de "Casida del Ciedo" e ""llegó con tres heridas", os momentos altos do concerto, nos quais foi acompanhada pelo trio constituido por Josemi Garzón (contrabaixo) Karo Sampala (percussão) e Pablo Suárez (piano). O concerto, sempre a subir, não terminaria sem os habituais "encores", com a cantora a interpretar canções populares espanholas, entre as quais, os clássicos "Anda Jaleo" (buleria) e "Sevillanas del siglo XVIII" (Sevilhanas). Uma soirée para recordar.       
  






2019/03/13

Flamenco e Bandoleros em terras de Carmen (2)


Se há lugares mágicos, Ronda, a meio-caminho entre Sevilha e Málaga é, certamente, um deles. Já aconteceu a todos: chegamos a um sítio pela primeira vez e sentimos que podíamos lá viver. Ou morrer, para o caso tanto faz...
Foi essa sensação que sentimos, ao chegar pela primeira vez à praça principal da cidade, que desemboca na "puente nuevo" (construída no século XVIII) a ligação da parte moderna, vibrante de vida e comércio, à parte antiga, com os seus edifícios de origem românica e árabe. Ronda é também atravessada pelo rio Guadalevín, cujo caudal provocou uma fenda (El Tajo) com 120 metros de profundidade, o mais conhecido "ex-libris" da cidade. Olhando para baixo, é a vertigem. Olhando para o Sul, podemos avistar, no horizonte, a cordilheira que separa a planície da orla marítima. Marbella dista apenas 54km. Não é Xanadu, mas quase.  
Percebemos agora, melhor, a frase de Orson Welles, que passou longos períodos em Ronda e cujas cinzas permanecem, por seu desejo, na herdade do amigo e toureiro Ordoñez, situada a 6km da cidade: "A man does not belong to the place he was born in, but to the place he choose".
Welles não foi, no entanto, o único americano famoso a apaixonar-se por Ronda. Também Ernest Hemingway, que cobriu a guerra civil espanhola como "reporter", ao lado dos republicanos, voltava frequentemente a Espanha, para assistir às touradas, de que era aficcionado. Alguns dos seus mais famosos livros ("Por Quem os Sinos Dobram", "Death in the Afternoon", "The Dangerous Summer"), foram escritos em Ronda. A cidade não esqueceu a passagem destes dois ícones da cultura americana e retribuiu da melhor forma, honrando-os com bustos, que podem ser admirados no parque principal, ao lado da famosa praça de touros, uma das mais antigas e importantes de Espanha. Na praça, inaugurada em 1785, existe ainda um museu e uma escola de equitação, que recebe a visita de milhares de turistas diariamente. Todos os anos, em Setembro, realiza-se a famosa corrida "Goyesca" (única em Espanha) na qual os toureiros se apresentam vestidos com trajes de famosas pinturas de Goya. Foi aliás, nesta praça, que Francesco Rosi filmou as cenas finais de "Carmen" (1984), considerada uma das melhores adaptações cinematográficas da famosa ópera de Bizet. Por Ronda, se apaixonou o poeta austríaco Rainer Marie Rielke (1875-1926), que viveu na cidade entre 1912 e 1913. O hotel Reina Victoria, onde viveu, ainda existe, mas o quarto (208) foi completamente remodelado. Restam a secretária, a cadeira e um armário, que se encontram no "lobby" do hotel.
Na impossibilidade de tudo ver, em apenas dois dias, optámos pela Real Colegiata de Santa María Mayor, um imponente complexo, mandado construir pelos Reis Católicos, sobre as ruínas da antiga mesquita Mayor de La Medina, da qual ainda é possível admirar o Arco del Mirhab e parte do muro da mesma. Impressionante, é a nave central da igreja e os seus retábulos, para além de uma importante colecção de ícones ortodoxos, que podem ser admirados no primeiro andar. Subir ao telhado, através de uma íngreme escadaria em caracol, é um sacrifício compensador. Dele se avista toda a cidade e a planície em redor. Imperdível, o pôr-do-sol.
Imperdíveis são, ainda, os "baños árabes", em perfeito estado de conservação, que podem ser visitados diariamente. Trata-se de uma adaptação dos antigos banhos romanos, que constituem uma das heranças maiores da cultura muçulmana, quando Granada era o último reduto do Islão na Península Ibérica (Séc. XII-XV). Numa das salas, pode ser visto um filme sobre a técnica de construção dos banhos e o seu funcionamento.
Dada a sua localização, Ronda foi, durante um largo período da história (Séculos XVI-XIX), um refúgio para "bandoleros", assaltantes dos viajantes que ousavam atravessar as serras circundantes. Ainda que o fenómeno existisse noutras regiões de Espanha (e de Portugal), foi na Andaluzia que ele se manifestou com maior intensidade. Não é pois de admirar, que tivesse sido em Ronda, que abriu o primeiro, e único, museu espanhol dedicado à temática dos Bandoleros e Viajantes Românticos (uma espécie de "banditismo social", à imagem do nosso Zé do Telhado). Uma verdadeira "meca", para os estudiosos do tema, que dispõe de mais de 1400 objectos, entre livros, armas, vestuário, fotos e documentação original.
O Museu, dispõe de cinco salas, dedicadas a temas tão diversos como "Os Viajantes Românticos", "Viver o Banditismo", "Os Homens e os seus Nomes", "Aqueles que os perseguiam (Guardia Civil)" e "Armas e Testemunhos escritos", para além de uma sala onde são projectados filmes e uma loja de "souvenirs" e literatura especializada, já que o tema é estudado por académicos, que se reunem periodicamente em colóquios dedicados à matéria. Lá encontrámos os nomes e as relíquias dos mais famosos representantes do bandoleirismo: Los Niños de Écija, El Tempranillo, Diego Corrientes, Francisco Jiménez e Pazos Largos, o último "bandolero", falecido na prisão em 1934. Uma verdadeira preciosidade, este museu. 

2019/03/11

Flamenco e Bandoleros em terras de Carmen (1)



Antonio Canales, que tive o privilégio de ver dançar no CCB há meia dúzia de anos, é hoje considerado uma das grandes figuras masculinas do baile flamenco de sempre. Apesar de jovem (57), o seu nome já pertence ao panteão dos imortais "bailaores", ainda que os excessos e uma saúde precária o tenham forçado a abandonar a dança precocemente. Porque as homenagens se fazem em vida ("antes que lhe paguem uma miserável pensão de reforma", como escrevia por estes dias o "Diario de Andalucia") sucedem-se os espectáculos, um pouco por toda a Espanha. Foi assim, mais uma vez, no passado dia 28 de Fevereiro, no Teatro Municipal Enrique de La Quadra, em Utrera, uma das cidades-cadinho do Flamenco, situada a cerca de 30km de Sevilha.
Lá fomos, com a devida antecedência, uma vez que a sala é pequena e estava há muito esgotada. Apesar do inusitado da hora (6 da tarde) para este tipo de espectáculos, a azáfama nos arredores do teatro - um velho edifício do século passado, situado no casco histórico da cidade - era enorme. Famílias inteiras, onde não faltavam os carros de bébés e mulheres em trajes festivos que, em voz alta, como é timbre dos andaluzes, bebiam uma "caña", enquanto esperavam pela abertura das portas do teatro.
Não era caso para menos: do cartaz, entre dezenas de convidados, faziam parte nomes como Manuela Carpio, Eva la Yerbabuena, Família Farruco, Carmen Lozano (no "baile") e Remedios Amaya, Marina Heredia, Montse Cortes e Rafael Utrera (no "cante"). Um programa de luxo, reunido para uma ocasião especial. E esta era, certamente, uma ocasião especial.
Destaque para as intervenções de Carmen Lozano e da família Farruco (mãe e o filho), responsáveis pelos momentos mais altos na disciplina da dança, em especial "Farru", que em nada fica a dever ao patriarca da família, o grande El Farruco (desaparecido em 1997) e ao seu irmão mais velho (Farruquito), celebrados por Carlos Saura no filme "Flamenco". Electrizante, é o mínimo que se pode dizer da arte dos Farrucos, arrebatadora na sua técnica e dramaticidade.
O melhor "cante", ficaria guardado para duas intérpretes clássicas do género, respectivamente Remedios Amaya e Marina Heredia, que cumpriram com o profissionalismo que se lhes conhece. Uma nota ainda para "El Bomba", membro da associação que organizou a homenagem, inexcedível como "cantaor",  "bailaor", "palmero" e tudo que, com uma energia transbordante, não parou durante as três horas e meia que durou o espectáculo.
Resta falar do homenageado. Presente na sala, subiria ao palco, acompanhado da sua mãe, para agradecer a homenagem num longo discurso. A noite não terminaria, sem mais uma "buleria" cantada pela senhora Canales, na qual seria acompanhada por Antonio, em breves passos de dança...
Que mais poderíamos desejar?

2019/03/08

O Dia da Mulher


Comemora-se, hoje, o "dia internacional da mulher", designação encontrada para homenagear a "maior metade" da humanidade. Pena é, precisarmos de "um dia" especial para lembrar, entre outras coisas, o que já devia ter sido abolido há muito tempo (violência de género, por exemplo) e que continua a persistir nos dias que correm.
Nunca, como este ano, foi a data tão lembrada, sinal dos tempos e da consciência que, cada vez mais homens e mulheres, começam a ganhar para um problema que se tornou uma verdadeira chaga social. Desde o início do ano, foram já 13, os crimes de violência doméstica reportados (11 mulheres, 1 homem e uma criança). Mais do que a violência doméstica (que abrange crimes contra idosos e crianças), é a violência de género que predomina, pois são as mulheres as principais vítimas deste flagelo nacional.
Se as polémicas decisões do juíz Neto de Moura serviram para alguma coisa, foi o de terem posto na agenda política este problema que, agora, toda a gente discute, mas que existe de forma larvar há séculos na sociedade portuguesa. Como alguém já referiu na comunicação social, o juíz de Moura "fez mais, paradoxalmente, pela luta contra a violência de género, do que todos os programas e acções das organizações que denunciam este tipo de violência". De facto e pesem os vergonhosos acordãos lavrados pelo polémico magistrado, o coro de protestos na sociedade portuguesa atingiu tal dimensão, que o próprio governo foi obrigado a pronunciar-se e a criar um decreto-lei para tais crimes que, a partir de agora, estarão sujeitos a um processo penal específico. Alguma coisa se ganhou, portanto.
Persistem, no entanto, as questões culturais, sempre mais difíceis de combater e que radicam na tradição de uma herança machista cultivada ao longo de gerações. Não bastam os terapeutas da mente, para decifrarem os instintos homicidas de "homens que matam mulheres", ainda que eles existam e possam habitar o mesmo espaço das vítimas. De acordo com os estudos publicados, este tipo de "serial killers" não ultrapassará os 10%. É preciso, por isso, ir mais longe, pois os relatos sobre a violência entre namorados adolescentes (muitos deles gravados e postos a circular nas redes sociais) não mentem e aumentam a cada ano que passa. Ora, não consta que tais jovens estejam deprimidos ou sofram de problemas congénitos graves. O mais provável é estarem sujeitos a outro tipo de agressões, por parte de progenitores masculinos que, mais tarde, adoptam nas suas relações futuras. A violência entre jovens, sendo um sinal dos tempos, é também um aviso sobre a dificil tarefa de erradicar hábitos seculares, baseados na posse, no controle e no ciúme do parceiro, independentemente do género. Que as mulheres sejam as principais vítimas (as estatísticas não mentem) é um sinal preocupante que nos deve deixar a todos envergonhados. A jornada do 8 de Março, está aí para lembrar o muito que, neste campo, ainda há por fazer. Não como homenagem, mas como dia de luta. 

2019/02/23

(Ainda) José Afonso


Sobre o Zeca, já quase tudo foi dito. Mas, nunca será tudo dito, enquanto pudermos ler e escutar o seu legado, por aí espalhado, através dos poemas e canções, uns por ele, outros por outros cantados.
Será, assim, mais uma vez, hoje, no dia em que passam 32 anos sobre o seu desaparecimento. É na sede, do núcleo de Lisboa, da Associação José Afonso. Desta vez a cargo da poetisa Olinda Beja, que será acompanhada pelo guitarrista Luís d'Almeida.
A AJA fica situada na Rua de São Bento, 170 em Lisboa e a sessão terá início às 18horas.

2019/02/15

Taxi Driver (16)

Foto blogue Segirei

Boa tarde
- Boa tarde, então para onde é que vamos hoje?
Hoje vamos para a Rua de São Bento, ali ao pé do Parlamento...
- Estava mesmo a dizer aos meus colegas, que nunca sei para onde levo o senhor...
Pois, é sinal que tenho poucas rotinas...
- Vamos aqui pelo Monsanto?
Parece-me melhor. É sempre mais rápido...
- Isto, hoje, está a anunciar chuva. Será da depressão dos Açores?
É bem possível...há por lá muitas depressões...
- Pois há. Começam sempre lá e, depois, vêm para o continente.
Deixe lá, o Inverno está quase a terminar. Mais duas ou três semanas e já temos bom tempo outra vez.
- Vamos lá ver se este é um bom ano de colheitas. Tenho umas batatas para apanhar e tenho de ir à terra ver como estão e limpar a mata...
Ora bem, nada como prevenir. Para evitar os fogos e não só...
- Já viu como está bonito o Monsanto? Tudo verde. E as árvores que eles plantaram aqui? Há de tudo, pinho bravo, pinho manso, sobreiros, carvalhos, oliveiras, até juncos e palmeiras...
Sim, sim. Um projecto visionário. Do Duarte Pacheco, que foi ministro de obras públicas no regime de Salazar. Tem uma estátua à entrada do viaduto.
- Eu sei. Eu ainda não era nascido, mas isto aqui eram só quintas e eiras e foi tudo expropriado. Lisboa era uma cidade de provincia, nessa altura. Agora, não se pode cá viver e os campos estão desertos.
Estão desertos, porque as populações emigraram para o litoral e para a Europa...
- Claro. Se não tinham dinheiro para comer! O meu pai, que tinha uma pequena leira, onde semeava as coisas que comíamos, contava-nos que nos anos trinta e quarenta, passavam uma fome de rato. Quando havia seca, como em 45 e 46, nem batatas que chegassem, havia! Iam lá os capatazes, buscar os homens para trabalharem à jorna e, depois de dois ou três dias de trabalho, só levavam os mais fortes e deixavam os outros à míngua...
Por isso é que as pessoas fugiram: para as cidades primeiro e, mais tarde, para França e outros países da Europa. Nas aldeias ficaram só os idosos, as mulheres e as poucas crianças que não iam com as famílias. Com a guerra colonial, foram-se embora os jovens em idade de trabalhar e, a partir daí, nunca mais houve repovoamento do interior. Um drama social e demográfico, que ainda hoje continuamos a pagar...
- Pois foi. E ainda há quem diga bem do Salazar! Tenho colegas meus que dizem que no tempo dele havia comida com fartura...Eu lembro-me bem da GNR ir à nossa aldeia, ver se os homens estavam todos lá a trabalhar, não fossem fugir alguns...
Não deve ter servido de muito, pois só nos anos sessenta e setenta, saíram mais de 1 milhão e meio de portugueses, dos quais 200.000 eram jovens que não quiseram fazer a guerra...
- Eu não sei quantos foram, mas sei que todas as semanas partiam homens. Um deles, meu vizinho, até comprou umas botas de couro com solas de borracha para andar e, quando chegou a França, ia com a sola das botas todas rotas. Tanto tinha andado!
Há muitas histórias dessas. Muitas nunca foram contadas, mas todos conhecemos os dramas da emigração. Por um lado, não interessava ao Salazar que os portugueses emigrassem, mas por outro interessava-lhe receber as remessas dos emigrantes, para compensar o dinheiro que gastava com a guerra. Não se esqueça que 40% do orçamento nacional ia para a guerra colonial!
- Sim, sim. E havia muito contrabando na fronteira, pois não havia cá muitas coisas que havia em Espanha. O meu avô, que andou na construção da ponte que liga Belmonte à Covilhã, contava que passaram lá muitos combóios carregados de minério e de armas para ajudar o Franco, que era outro que tal...
Está a ver, só confirma o que eu disse.
- Há gente que não sabe o bem que tem. Se tivessem vivido no tempo do "botas" não se esqueciam do que era fome e miséria.
Fome, miséria e ditadura. Quem falasse contra, era preso e torturado.
- Pois, isso era mais nas cidades, mas a gente ouvia falar das prisões lá na terra. Um sacana o Salazar (o senhor desculpe, a minha linguagem!).
Ora essa! Usou o termo apropriado.


 

     
 

2019/02/12

Honra e Vergonha


Flayed, Paula Rego

Desde o início deste ano, já foram mortas 9 mulheres e uma criança, pelos seus companheiros e ou pais das vítimas. Janeiro de 2019, passou a ser o segundo mês com maior número de vítimas de violência doméstica, em 14 anos. Duas vítimas por semana, causados por violência, neste caso violência de género, uma vez que as vítimas eram todas mulheres.
De acordo com os dados, relativos a 2018, publicados pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), foram registrados 26.439 denúncias, tendo sido condenados 1457 homens por crimes de violência doméstica, dos quais, apenas 603 usam "pulseiras electrónicas". Mais de 80% destas condenações dizem respeito a violência de género. A cada 20 minutos, há uma denúncia, a cada 3 dias há um assassínio. Em dois anos, o número de "casas abrigo" aumentou de 26, para mais do dobro, em todo o país. Nestas casas, residem mais de 3000 mulheres e crianças, que tiveram de abandonar os seus lares, devido às ameaças e maus tratos sofridos, enquanto a maior parte dos homens acusados, aguarda julgamento em liberdade, muitas vezes mantendo-se na própria casa, donde nunca chegaram a sair (!?).
Apesar de alguns avanços conseguidos - maior consciência da sociedade, maior número de denúncias, criação de unidades especializadas em atender este tipo de denúncias em postos da PSP e da GNR, maior número de condenações - o atavismo herdado de uma sociedade machista e patriacal como a portuguesa, continua a fazer escola. Se no "tempo da outra senhora", não se falava da violência caseira, seguindo o velho princípio de "entre homem e mulher não metas a colher" e quando os casos conhecidos eram normalmente associados ao ruralismo ignorante e a famílias destruturadas pelo alcoolismo e pelo desemprego, hoje sabemos que a violência de género é transversal a todas os grupos etários e sociais, pois tanto é maltratada a empregada doméstica como a advogada de sucesso.  Uma chaga social, que coloca Portugal em 11º lugar em 21 estados europeus, atrás de países como a Escócia, Holanda e Espanha ou à frente da Lituânia, Malta e Albânia, os últimos da lista.
As razões são reconhecidas pelos agentes sociais envolvidos. Poucos meios (financeiros e humanos), deformação deficiente das forças policiais (maioritariamente constituida por elementos do sexo masculino, que tendem a desvalorizar as queixas, sem provas físicas evidentes), uma mentalidade corporativa reinante entre magistrados e juízes (que, não raramente, utilizam o argumento jurídico para aligeirar as penas), advogados e psicoterapeutas imorais, que prolongam o sofrimento das vítimas com tentativas de "reconciliação" patéticas, que apenas contribuem para o escalar de situações incontroláveis, etc. Uma vergonha civilizacional, que está longe de terminar.
Ainda que todas estas razões sejam de considerar, é preciso ir mais longe e, como bem lembra esta semana o antropólogo José Gabriel Pereira Bastos (in "Público" de 11 de Fevereiro), na génese da violência de género, há um padrão que não se alterou. O antropólogo alerta para o pouco relevo, dado ao facto (frequente), do assassinato da mulher ser acompanhado do suicídio do assassino: "Trata-se de um padrão cultural com longa tradição. Há uns anos, no Alentejo, um vizinho meu, a caminhar para uma invalidez precoce, tentou matar a mulher disparando sobre ela a caçadeira e suicidando-se a seguir. A mulher sobreviveu. Outro vizinho fez questão de me informar depois que, no velório, o pai do assassino levantou a voz e afirmou com frontalidade desafiante: "O meu filho tinha a obrigação de confirmar que tinha morto a mulher antes de pôr fim à vida" (J.G. Pereira Bastos, ibidem).
Encontramos, pois aqui, resquícios de uma longa "tradição mediterrânica", descrita em clássicos da disciplina como "Honour And Shame" (J.G Peristiany), "Honour, Family and Patronage" (J.K. Campbell) ou, mais próximo de nós, "Ricos e Pobres no Alentejo" (José Cutileiro).
"O homem de honra não aguenta a perda da face, a humilhação pública, a desonra, que o obriga a reagir de acordo com as expectativas da comunidade que partilha estes valores. Não se trata de ciume, nem de amor frustrado. O que está em causa é a honra viril, o orgulho fálico" (J.G. Pereira de Bastos, ibidem).
É pois, este padrão de honra fálica, incutido ao assassino desde a infância, que é cultivado e partilhado por uma população que espera dele o acto final de se suicidar, após a morte da companheira, como única forma forma de recuperar a honra perdida da comunidade em que está inserido.
Como combater este flagelo?
Pereira Bastos não está optimista. Mas, avança algumas sugestões. Desde logo, através de acções de prevenção e combate radical a esta cultura de "honra e vergonha", transmitida de geração em geração, nos meios onde os criminosos estão inseridos. Depois, isolando-os e envergonhando-os onde eles são mais vulneráveis: na sua virilidade e machismo comportamental. É aqui que o papel dos homens pode ser fundamental. Para que estes, igualmente, se libertem e, dessa forma, sejam activamente solidários numa luta que é de todos. De mulheres e de homens.             
  


2019/01/30

"Jamaica": um problema estrutural


O fascismo sempre se baseou na violência.
Foi assim, mais uma vez, com a provocação feita por dois membros do PNR, que pretendiam suscitar uma reacção do visado (Mamadou Ba) para justificar a agressão física. Como isso não aconteceu, puseram o vídeo na NET para amedrontar.
Vai acontecer mais vezes e, como os energúmenos não têm melhores argumentos, insistem neste tipo de ameaças para conseguirem apoio suficiente da população mais ignorante e racista, até transformarem a sua política de ódio e discriminação em votos. Nessa altura (caso entrem no Parlamento) será mais difícil ignorá-los pois terão a comunicação social sensacionalista a dar eco às suas intervenções, para ganharem audiências. Foi assim noutros países, com maior tradição democrática e instituições mais sólidas, porque havia Portugal de ser diferente? Como não temos mecanismos de defesa (os "checks and balances" das sociedades anglo-saxónicas) e a memória do passado recente é curta, será sempre mais difícil o combate, até porque, apesar dos portugueses terem saído do fascismo, o fascismo ainda não saiu da cabeça de muitos portugueses.
Pior: desde que o "caso Jamaica" ocupou (e continua a ocupar) as manchetes dos jornais, nunca se fala dos problemas a montante (emprego, habitação e condições dignas para as populações que vivem nestes bairros, por exemplo), ou dos desfalques contínuos na banca portuguesa (CGD e não só) que levou à falência 5 dos maiores bancos do sistema, responsáveis pela perda de 15 000 milhões de euros, só nos últimos 10 anos! Quem paga?
Andamos todos a "dormir" e isso interessa ao poder instalado, nomeadamente aos partidos da governação habitual. Enquanto se discutem as consequências, nunca se discutem as causas e continuamos, sempre, a "empurrar os problemas com a barriga".
Os portugueses são racistas? Claro que são! 500 anos de colonialismo e 13 anos de guerra colonial, seguidos de uma descolonização atribulada, deixaram sequelas difíceis de sarar. Nem podia ser de outro modo. Agora, que uma centena de jovens africanos invadiu a "baixa" de Lisboa, "aqui d'el rei!" que vêm aí os criminosos dos bairros periféricos!
O que é que esperavam? Que os os imigrantes de segunda e terceira geração (a maioria com nacionalidade portuguesa) aceitassem tudo o que os seus pais e avós aceitaram em África e aqui? Onde estão representados estes portugueses de "segunda"? Quantos ministros, secretários de estado, ou presidentes de câmara, de origem africana, há nos orgãos da governação? E quantos deputados há no Parlamento? E quantos apresentadores e jornalistas na televisão portuguesa? Podíamos continuar esta lista por aí fora...
Depois, há ainda aqueles portugueses que, reconhecendo que houve colonialismo e existe racismo em Portugal, não o consideram tão "mau" como noutros países (!?).
Quando ouço ou leio estas declarações, vem-me sempre à memória o famigerado General Spínola (ele próprio, um colonialista) que dizia, a propósito do colonialismo em África, "a diferença entre o modelo anglo-saxónico e o modelo português, residia no facto dos ingleses dizerem "podes instruir-te, mas não podes misturar-te" (apartheid), enquanto os portugueses diziam "podes misturar-te, mas não podes instruir-te" (miscigenação)".
O que hoje observamos na sociedade portuguesa, onde vivem centenas de milhares de imigrantes de cor negra (e não só) é a continuação do mesmo modelo seguido em África. Os negros podem cá viver, mas ninguém os quer ver e são mantidos em guetos habitacionais, não por acaso em bairros onde vivem as populações mais pobres (brancos, negros, ciganos...), sem direito a habitarem os centros das cidades, a menos que sejam ricos ou ocupem posições de relevo na sociedade.
Isto vai acabar mal e a culpa é dos decisores políticos que se limitam a declarações enfatuadas e apaziguadoras, sem quaisquer consequências práticas ou resolução dos problemas concretos das pessoas. Depois, não se queixem.
Dito isto: Mamadou Ba reagiu a quente e foi infeliz nas suas declarações escritas. Percebe-se a indignação (quem sou eu para o julgar?) mas, atendendo ao seu estatuto de activista e assessor de um partido político, não contribuiu para a clarificação, dando argumentos aos racistas para reagirem violentamente. Toda a gente sabe que há racismo e infiltrações nazis na polícia (há relatórios da PJ e de organismos europeus, como a Europol, que o denunciam), mas, como é óbvio, nem todos os polícias podem ser acusados de comportamentos racistas. Há que separar o trigo do joio. A ideologia do ódio e da discriminação só poderá aumentar a confusão e a polarização. Em ambos os campos.              

2018/11/26

Lisbon&Sintra Film Festival (2)


Filmes para todos os gostos, nesta 12ª edição do Lisbon&Sintra FilmFestival, que terminou ontem com a projecção do filme "The Code" (Cares Caparrós). A anteceder a exibição deste documentário, patrocinado pelo colectivo internacional de juízes do ICC, teve lugar um debate subordinado ao tema "Neoliberalismo - A semente do populismo e dos novos fascismos?",  com a participação do juiz Baltasar Garzón, da diplomata Aminata Dramane Traoré, do filósofo José Gil, da artista plástica Ângela Ferreira, da jornalista Ines Branco López e da historiadora Irene Pimentel, onde seriam abordados algumas das características mais marcantes da era pós-crise 2007, que esteve na origem de fenómenos como o "Brexit", Trump, Le Pen e os actuais movimentos nacionalistas europeus.  
Durante a semana, tempo ainda para ver duas estreias absolutas, os filmes "Season of the Devil" (Lav Diaz) e "The House That Jack Built" (Lars von Trier), para além de algumas obras já conhecidas, agora integradas nos diversos ciclos de realizadores homenageados. Foi o caso de "Hardcore" e "Adam Renascido", ambos de Paul Schrader, com direito a uma retrospectiva no festival; e o icónico "Torre Bela", de Thomas Harlan,  integrado no ciclo "O Desejo Chamado Utopia", seguido de debate, no qual participaram alguns dos intervenientes, que passaram pela famosa herdade, ocupada em Abril de 1975: Wilson Filipe, Camilo Mortágua, Francisco Fanhais, para além de Otelo Saraiva de Carvalho (comandante, à época, do Copcon), Roberto Perpignani (editor do filme) e José Manuel Costa, na qualidade de director da cinemateca portuguesa, que é proprietária do filme. Também esteve presente, Chester Harlan, filho do realizador. Uma animada sessão, onde entre palavras de sonho e desilusão, houve tempo para histórias desconhecidas do grande público, que o documentário, necessariamente, não pode mostrar.  Esta é a terceira versão do filme, que tem agora 2.20h e que, de acordo com o director da cinemateca, estará mais próxima dos desejos do realizador.
Lav Diaz (Filipinas), hoje um dos realizadores orientais mais aclamados a nível internacional, tornou-se conhecido no Ocidente, depois de "Norte, the end of history" (2013), que passou no Doc's desse ano. Desde então, é presença assídua nos festivais de todo o Mundo, onde obteve os principais  prémios e distinções. Após "Norte", seguiu-se "From What is Before" (2014), "A Lullaby to the Sorrowful Mistery" (2015), "The Woman Who Left" (2016) e, este ano, "Season of the Devil" (2018). Os filmes de Diaz, caracterizam-se pela sua duração (raramente têm menos de 4 horas!) e pela denúncia do estado de opressão e corrupção nas Filipinas, através de imagens de rara beleza que são usadas de forma metafórica para criticar a sociedade actual. O último filme (4 horas de projecção) não foge à regra, ainda que o tema (a repressão, nas aldeias filipinas, exercida pelas milícias do presidente Ferdinand Marcos) seja contado em forma de musical, com todos os personagens a cantar os diálogos. Estranho e encantador ao mesmo tempo, num registo a que não estávamos habituados.
Finalmente, o último filme do "enfant terrible" Lars von Trier, regressado após a sua polémica intervenção em Cannes (onde elogiou Hitler) e donde foi banido. "The House That Jack Built" é um filme terrível, onde o realizador não se inibe de mostrar o seu conhecido sadismo, através de imagens que contam a história de um "serial killer" americano. Pesem as imagens mais chocantes (diversas espectadores abandonaram a sala e uma espectadora sentiu-se tão mal que teve de ser retirada), o filme alterna o horror, com algum humor, numa "piscadela de olho" que ameniza a história entre episódios, mais ou menos grotescos. Hitler, está presente, da mesma forma que o Klu-klux-klan e as armas ao dispor de menores, numa alusão clara à paranóia americana. Destaque para Matt Dillon (no principal papel) bem secundado por Bruno Ganz e Uma Thurman, em pequenos, mas marcantes papéis. Não falta a grandiloquência habitual de Von Trier, um luterano em busca da eterna salvação, através de imagens deslumbrantes, das quais, o último plano no Inferno, é já um clássico. Tenham medo, muito medo.
P.S. Enquanto escrevíamos este texto, chegou-nos a notícia da morte de Bernardo Bertolucci. Curiosamente, o realizador esteve, como convidado, na segunda edição do festival em 2008, para apresentar o "making off" de "Novecento", provavelmente a sua obra-maior. Outros títulos marcantes, podiam ser nomeados: "Antes da Revolução", "O Conformista", "A Estratégia da Aranha","O Último Tango em Paris",  "O Último Imperador", "Um Chá no Deserto" ou "Luna". Nesta edição do Lisbon&Sintra Festival, foi exibido o seu filme "Il Conformista". Uma homenagem "avant la lettre". O cinema europeu ficou mais pobre.       

2018/11/22

Bons filmes, no Lisbon&Sintra Film Festival


Iniciou-se em 2006, no Centro de Congressos do Estoril, ao lado do Casino. Chamou-se "Estoril Film Festival", que juntava um programa de estreias e ciclos temáticos com a presença de figuras do "jet set" internacional, para dar um ar de "glamour" à coisa, não fossem os convidados não saberem onde ficava o Estoril. Claro está que, por detrás do evento, havia o patrocínio do casino (a principal receita da região) e a necessidade de pôr aquela, que em tempos idos já foi a nossa principal "resort" turística, no mapa. Uma "Cannes", à dimensão nacional, vá. Paulo Branco, o seu principal impulsionador e director permanente, viu ali uma oportunidade de fazer uma coisa de que gosta (divulgar bom cinema) e, ao mesmo tempo, arranjar apoios para os filmes de que é produtor (a sua principal actividade). Portanto, criou-se um festival, à imagem de acontecimentos semelhantes no Mundo, com alguns meios e contactos, ainda que sem o reconhecimento internacional e as "luzes" de Cannes, Veneza ou Berlim, eventos onde os filmes na secção de competição são apresentados em estreia mundial, onde os prémios atribuídos constituem um passaporte para a fama, onde o júri é constituído por personalidades do meio e onde os directores são nomeados pelos conselhos de administração dos eventos...
Logo nas primeiras edições, o Festival criou uma extensão em Lisboa, passando a chamar-se "Lisboa & Estoril Film Festival", com a maior parte da sua programação a ser apresentada nos cinemas Medeia, dirigidos por Paulo Branco.
Pesem as individualidades do Mundo do cinema e outras artes trazidas ao Estoril (Bertolucci, Robert de Niro, David Linch, J. Coetzee, Willem Dafoe, Juliette Binoche, Laurie Anderson...), a estância turística da costa do sol, nunca se afirmou como centro cinematográfico e é em Lisboa que os filmes são vistos e comentados. Provavelmente, por essa razão, a designação "Estoril" deixou de figurar no nome do Festival, tendo sido substituída por "Sintra", o que pressupõe um novo patrocinador do evento. Desde a última edição, que os filmes em competição são igualmente exibidos no Centro Olga Cadaval, a principal sala de espectáculos da vila, que substitui o antigo Centro de Congressos do Estoril.
Em Lisboa, os cinemas Medeia (Monumental e Nimas) continuam a exibir 80% da programação e é lá que os cinéfilos se encontram para ver o programa que, mais uma vez, é vasto e variado.
Nesta edição, a 12ª desde a criação do festival em 2006, destaque para os 11 filmes em competição, que um júri, do qual fazem parte nomes como Walter Salles, Marthe Argerich, Jonathan Littell e Chrysta Bell, entre outros, julgará e premiará de acordo.
Outros destaques da programação, são os filmes da selecção oficial (fora da competição), o ciclo "Waiting for Mr Lynch", os tributos a Darezhan Omirbayev, João Botelho, Walter Salles e Mario Martone e as retrospectivas dedicadas a Mike Leigh e Paul Schrader, para além dos programas especiais como "O Desejo Chamado Utopia" e "Neoliberalismo - A semente do Populismo e dos novos Fascismos?", estes últimos centrados em obras e temas da actualidade, com debates ao longo do evento. São mais de 200 filmes, a maior parte deles já estreados em Portugal (que agora regressam em cópias restauradas) e noutros países e festivais, que nunca foram estreados no nosso país.       
Dos filmes vistos esta semana, elogios para "Central do Brasil", o mais célebre filme de Walter Salles, que, após a exibição, manteve uma interessante conversa com os espectadores, sobre o filme e a actual situação politica no seu país, que o realizador caracterizou estar mais próxima das Filipinas de Duterte, do que da América de Trump. Vimos ainda um dos poucos filmes de Leigh que desconhecíamos ,"Um dia de cada vez", uma agradável surpresa, onde o realizador confirma todos os seus dotes, no tratamento de um argumento, aparentemente banal (o quotidiano e as relações de uma jovem professora londrina) e na direcção de actores, uma marca em todos os seus filmes. Muito bom.
Finalmente, "8, Rue Lenine", de Valérie Mitteaux e Anna Pitoun, um filme de tese, sobre a integração de uma família cigana de origem romena, que as realizadoras acompanharam ao longo de 15 anos, desde a sua expulsão e permanência em França em 2003, até ao regresso à Roménia, onde vivem actualmente. As realizadoras, presentes na sessão, pretendem continuar a filmar os descendentes destas famílias romenas e, dessa forma, acompanhar a sua integração na sociedade que os acolheu. Seguiu-se uma animada conversa com a assistência, onde estavam presentes portuguesas de origem cigana e a comparação entre a sociedade francesa e a sociedade portuguesa, relativamente à discriminação e integração das comunidades ciganas nas respectivas sociedades.
O Festival continua até domingo. Motivos para ver bons filmes, em Lisboa e em Sintra, não faltam.   

2018/11/16

Sevilha: de Murillo ao Flamenco, passando por Salvador Sobral

Que Sevilha é uma festa, já sabíamos. Quando não é, arranja-se sempre algo para festejar.
A última semana foi, neste capítulo, pródiga em acontecimentos. Sempre culturais, uns mais clássicos que outros, mas todos de inegável qualidade.
Comecemos pelos clássicos, aqueles que resistem ao tempo, critério por excelência para aferir da qualidade de uma obra de arte.
Passam, este ano, 400 anos sobre a data de nascimento de Murillo (1618-1682), um dos mais importantes pintores espanhóis, nascido e criado na cidade, onde viveu a maior parte da vida e viria a falecer. Como seria expectável, Sevilha engalanou-se e organizou eventos especiais à volta da sua obra, centrados no Museu das Belas-Artes (o segundo mais importante de toda a Espanha, a seguir ao Prado) e na sala de exposições temporárias do Hospital de La Santa Caridad, onde se encontram, em permanência, alguns dos retábulos mais conhecidos da obra do pintor. Em ambos os locais, podem agora ser admirados muitos dos seus quadros, restaurados para a ocasião, um trabalho que pode ser visto em filmes especialmente produzidos para as exposições.
Paralelamente, têm lugar na cidade, inúmeros colóquios e conferências sobre a obra de Murillo, com a participação de "experts" nacionais e internacionais, para além de diversas publicações especializadas, entretanto editadas. Para os turistas mais interessados, foi criado um percurso pedonal onde, para além dos citados museus, pode ser vista  casa onde nasceu o pintor, no Bairro de Santa Cruz e a pia baptismal, na igreja da Madalena, onde foi baptizado.
Um deslumbramento, a obra deste pintor barroco, onde se destacam as obras religiosas, duas das quais, "La multiplicación de los panes y los peces" e "Moisés haciendo brotar el agua de la roca", encomendadas para decorar a igreja de San Jorge (no Hospital de La Santa Caridad), podem temporariamente ser vistas à altura do chão, antes de regressarem ao tecto da igreja da qual fazem parte, depois de terem sido sujeitas a um cuidado trabalho de restauração. Imperdível.

Estar em Sevilha, sem ver Flamenco, equivale a estar em Roma e não ver o Papa. Lá fomos, ver um dos "papas" actuais da arte, o "cantaor" Arcángel, certamente um dos flamencos mais interessantes da nova geração, que veio apresentar em Sevilha o seu último álbum, "Al este del cante", um trabalho de fusão, onde participa o Coro das Novas Vozes Búlgaras, sob a direcção do maestro Georgi Petkvov. Excelente concerto, no grande auditório da Feira Fibes (onde se realizaram as quatro edições da "Womex") ainda que os principais convidados do álbum (Vicente Amigo, Lola Montoya, etc.) não tivessem estado em palco. Com mais de 15 anos de carreira profissional e diversos álbuns no activo, Arcángel é hoje um artista maduro, cuja voz e timbre únicos, ganham nova expressão, quando fundidas com as vozes celestiais deste coro feminino búlgaro. Excelente.
A actuar igualmente na cidade, estava Salvador Sobral, na sua primeira apresentação em Sevilha, após o celebrado sucesso na Eurovisão. Sobral, que goza de grande popularidade na Andaluzia, onde viveu 3 anos, tinha a sala do teatro de La Maestranza quase cheia, com mais de 1500 espectadores a aplaudi-lo durante todo o concerto. Um programa, baseado no seu primeiro álbum "Excuse me", com incursões no jazz, bossa nova e boleros, cantados em excelente castelhano.
Não faltou o incontornável "Amar pelos dois", compartilhado em coro pela assistência, para além de algumas "inside jokes" no dialecto local, que arrancaram sonoras gargalhadas à plateia. A crítica local (ABC e Notícias de Sevilha) adorou e não poupou os elogios ao luso cantor, o que abre boas perspectivas para futuros concertos na vizinha Espanha.
Uma última nota, para a actuação do grupo de teatro do Chapitô (Lisboa), em digressão pela província andaluza, que tivemos o privilégio de ver no auditório de S. José de Rinconada, uma vila nos arredores de Sevilha. O grupo apresentou a sua última produção "Electra", baseado no clássico drama grego, agora em tons de comédia, que arrancaram aplausos aos espectadores presentes (maioritariamente alunos de artes dramáticas) num espectáculo de grande qualidade e rigor técnico, onde não faltou o humor, desta vez em versão castelhana.

2018/10/31

DOCLisboa 2018 (Conclusão)


Terminou mais uma edição do DOCLisboa.
No último dia do festival, tempo para prémios e filmes em sessões duplas.
Destaque para "Eldorado" do suiço Markus Imhoof (2018), uma co-produção suiça-alemã sobre um dos temas da actualidade: a crise dos refugiados. A partir da correspondência trocada com uma amiga judia, adoptada pela sua família durante a guerra, Imhoof traça um paralelo com a actual vaga de refugiados, que chegam à Europa vindos de África e do Médio-Oriente. O filme acompanha as diferentes etapas da fuga, desde a travessia e recolha dos náufragos por uma corveta italiana, em pleno mediterrâneo, até à chegada a terra firme, onde têm de passar pelo crivo burocrático da identificação e permanência em campos de detenção, antes de poder (ou não) seguir viagem. Uma verdadeira odisseia, relatada na primeira pessoa pelos refugiados, vítimas de conflitos regionais e explorados pelas redes de tráfico humano que operam na costa africana.
Greetings from Free Forests
Uma vez em terra (Itália) espera-os a máfia local que aproveita a sua permanência para explorá-los na apanha do tomate e outras tarefas agrícolas. Não faltam os momentos de tensão, próprios destes centros, onde milhares de migrantes esperam por uma decisão que pode mudar a sua vida. Para muitos (a maioria) a decisão será negativa e nada mais restará do que a extradição, enquanto que, para outros, o caminho continua, na melhor das hipóteses até à Suiça, onde cada cantão aplica a sua própria política de acolhimento.
Um filme divertido, com base num episódio real, passado no Chile, seria "Stealing Rodin" (Cristóbal Berrios) , onde se conta o desaparecimento de uma famosa estátua do escultor francês, durante uma exposição da sua obra, no Museu de Arte da Cidade. Um estudante de arte, resolve roubar e esconder uma das obras expostas e utilizá-la para o seu exame final, onde defende a tese de que a arte só pode ser devidamente apreciada, quando se dá pela falta dela. Uma história bem contada, onde os principais personagens representam o seu próprio papel.

Terra
Interessante, seria a trilogia de filmes sírios, do realizador Omar Amiralay, integrada na secção "Foco: navegar o Eufrates, viajar no tempo do Mundo". Através de belas imagens, num estilo que, a espaços lembra Joris Ivens, o realizador mostra-nos a ascensão e queda da utopia representada pela ilusão de socialismo e progresso prometidos pelo partido Baath, no poder desde a segunda guerra mundial. Do entusiasmo em torno da barragem de Tabqa, no vale do Eufrates; à vida quotidiana de uma aldeia síria em que as pessoas são abandonadas pelo governo, ao afundar definitivo da esperança democrática, numa autocracia rígida, em que se mantiveram as antigas estruturas tribais, os filmes de Omar Amiralay formam um painel representativo da Síria contemporânea.
Finalmente, os principais prémios do Festival.
Grande Prémio, competição internacional: "Greetings from Free Forests" de Ian Soroka.          
Prémio SPA: "The Guest" de Sebastian Weber.
Grande Prémio, competição portuguesa: "Terra" de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres.
Menção Honrosa: "Vacas e Rainhas" de Laura Marques. 
Prémio do Público: "Vadio" de Stefan Lechner.
E é tudo. Para o ano há mais. 

2018/10/29

Bye Bye Brasil...


... É o título de um dos mais célebres filmes brasileiros da década de 1970, quando a ditadura militar governava e, para além da repressão e da tortura, vendia o país a retalho a multinacionais estrangeiras.
O filme, uma comédia de Carlos Diegues (1979), sobre as peripécias de uma família de saltimbancos em viagem pela Transamazonia, mostra um país de contrastes e desigualdades, tendo como pano de fundo a luta pela sobrevivência dos seus habitantes e a exploração desenfreada das suas riquezas naturais.
Sobre a obra escreveu, então, o crítico Cassiano Terra Rodrigues no "Correio Cidadania":
"Bye Bye Brasil é um filme de um país que está deixando de ser o que por muito tempo foi para se tornar não se sabe o quê...". Lembrei-me desta citação, quando assistia ontem à emissão especial de um canal televisivo sobre o acto eleitoral brasileiro.
Ainda que o resultado final não tenha sido propriamente uma surpresa (todas as projecções apontavam neste sentido), o facto de 57 milhões de brasileiros terem votado num bronco fascista é por demais preocupante para deixar indiferente qualquer democrata.
O Brasil (e por extensão, a América Latina) corre o risco de um retrocesso civilizacional, como não se via desde a década de setenta, quando a maior parte do continente sul-americano era governada por juntas militares, cuja política assentava na repressão, na tortura e na morte dos seus oponentes. Foi assim no Brasil, como no Chile e na Argentina, no Uruguay, como no Paraguay... O tempo da "operação Condor", idealizada por Kissinger e executada com o apoio da CIA. Toda a gente está lembrada disso e existem quilómetros de documentação escrita e filmada sobre os "anos de chumbo" que se abateu sobre a América do Sul, certamente um dos períodos mais negros do pós-guerra no Mundo Ocidental. Já lá vão mais de trinta anos e, desde então, muita coisa mudou no Mundo, a começar pelo Fascismo clássico que, não tendo desaparecido, ganhou, entretanto, outras formas. Com a queda do "muro de Berlim" e a implosão da União Soviética, o "papão comunista" pode ter desaparecido, mas a apetência pelas riquezas naturais, não. A "globalização" que se seguiu, ao contrário do que muitos profetizavam, não trouxe mais riqueza para todos e, muito menos, melhor distribuição dessa mesma riqueza. Os ricos aumentaram os seus proveitos (50% da riqueza do Mundo está, hoje, nas mãos de 1% da população mundial) e o capitalismo, agora menos regulado, tornou-se ainda mais predador do que já era.
A desregulação do sistema (que originou uma transferência do capital produtivo para a esfera do capital especulativo) levou os agentes económicos a procurar outras formas de intervenção que, em períodos de crescimento económico e em sistemas democráticos estáveis dispensa intervenções "musculadas", mas que, em regimes fracos, podem ser equacionadas. 
O que se está a passar no Brasil, como de resto noutras partes do Mundo - do Brexit inglês, à América de Trump, passando pela Hungria de Órban, ou à Austria e à Itália, onde governam  ditadores do "novo tipo" - não se trata de um hiper-fenómeno, mas de uma tendência que tem vindo a alastrar nos últimos anos. É verdade que o fascismo de hoje, tem características diferentes daquelas enunciadas por Eco no ensaio "Como reconhecer o fascismo" (Relógio de Água, 2017) no qual, o conhecido semiólogo italiano, utiliza 14 arquétipos para definir a "besta". No entanto, bastou ter ouvido Bolsonaro durante a campanha eleitoral (durante a qual se recusou a debater com o oponente) para reconhecer os principais traços de um ditador. Está lá tudo: o culto da tradição, a rejeição do modernismo, o irracionalismo, o sincretismo, o medo da diferença, o apelo às classes médias frustradas, a obsessão da conspiração, o nacionalismo, a deslocação do registo retórico, o apelo à violência, o desprezo pelos fracos, o culto dos heróis, o machismo, o populismo, a "neolíngua". Não por acaso, Bolsonaro é apoiado pelas forças armadas (bala), pelas seitas evangélicas (bíblia) e pelos grandes agrários (boiada), os três "Bs" que sustentam a sua candidatura. Que esperar de um candidato que elogiou a ditadura e, em pleno congresso, deu vivas a Ustra, o torturador-mor da junta brasileira; que disse que a ditadura matou pouca gente e que Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente da República) devia ter sido morto; que as mulheres deviam ganhar menos que os homens e que as pobres deviam ser esterilizadas porque têm muitos filhos; que bandido morto é bandido bom; que quer armar a população; e que não gostaria que um filho seu fosse homosexual, entra outras barbaridades? Bom, esse candidato é Bolsonaro, ontem eleito presidente da maior democracia da América do Sul. Os brasileiros que nele votaram, não podem dizer que não sabiam. Todas estas declarações estão gravadas e foram amplamente noticiadas em todo o Mundo. Tiveram o apoio de mais de 50 milhões de votantes, muitos conscientes do que queriam, outros sem consciência alguma. Que se seguirá? Não sabemos, mas parece que governar o Brasil parece, agora, estar tão distante, como no filme de Diegues.
Nota final: em Portugal, os imigrantes brasileiros superaram os 55% atingidos pelo candidato fascista na média final. Mais de 64%, só em Lisboa! É obra. Perante tais números e partindo do princípio que estes "bolsonaristas", agora, já não têm nada a temer e podem regressar à pátria, faço, desde já, uma sugestão: trocá-los por um número igual de democratas brasileiros. Desta forma, ganhamos todos.     
      

2018/10/26

O DOCs é uma festa!

Entre documentários sobre a actualidade política e social e ensaios de criação livre, o DOCs mantém os critérios artísticos seguidos desde a primeira edição, já lá vão 16 anos. A diversidade temática, aliás, continua a ser uma das "linhas de força" da programação, o que mantém o festival vivo e abrangente e o seu grupo-alvo diversificado. Há muitos grupos-alvo, de resto, e isso é bom. No Festival podemos encontrar de tudo: estudantes das academias de cinema e das belas-artes, estudantes "tout-court", realizadores em início de carreira e realizadores consagrados, nacionais e estrangeiros, jornalistas ou, simplesmente, cinéfilos curiosos, como eu.
Esta semana, arriscámos filmes na secção "Riscos" (New Vision), onde são programados pequenos documentários sobre temas tão diversos, como as memórias (de lugares e episódios que nos marcam), a revolução (o que quer que isso seja) ou os desafios actuais (após as eleições americanas).
Escolhemos filmes de autores portugueses, para avaliar do estado da arte que se vai fazendo entre nós e pelos nomes programados. Da pedra mortuária em monumentos, aos sem-abrigo de Lisboa, passando pelos primeiros filmes-ensaio de artista plástico Ângelo de Sousa, as temáticas eram intrigantes e mereceram o visionamento.
Começamos por "A (Im)Permanência do Gesto" de Manuel Botelho, professor de artes plásticas que, aos 67 anos, fez o seu primeiro (e muito provavelmente último) filme. Belíssima reflexão sobre a memória, através de alguns dos mais emblemáticos monumentos funerários em pedra, existentes em mosteiros na região centro de Portugal, a partir de um texto do autor apresentado numa conferência do Museu de Arte Antiga. No filme, Botelho, mantendo o texto, refaz a sequência e o número de fotos, criando uma galeria admirável de imagens onde nos confronta com a imortalidade dos monumento fúnebres e, por extensão, da nossa própria mortalidade. Magnífico ensaio, que mereceu unânimes aplausos.
Outro autor, a quem nos "ligam" laços de cumplicidade de outros tempos e aventuras, é Rui Simões (Deus, Pátria e Autoridade), que apresentou no festival o seu último trabalho "Teus Olhos castanhos, de encantos tamanhos". Uma curta (23'), sobre Fernando Moedas, um sem-abrigo que o realizador acompanhou ao longo de anos e com quem fez amizade em encontros de convívio semanal. O intérprete acabaria por falecer durante as filmagens, mas este pequeno e comovente filme (feito com meios mínimos) é a prova de que o bom cinema não necessita de grandes meios.
Finalmente, as primeiras experiências em super-8, feitas por Ângelo de Sousa, artista plástico total que marcou as décadas de sessenta e setenta em Portugal.
No final, tempo para discussão com os autores presentes (Botelho e Simões) cujas obras, ainda que separadas por realidades distintas, nos remetem para a memória dos dias e do lugar dos humanos, na grande Humanidade.
Finalmente, duas obras sul-americanas, na Competição Internacional: "Maré" e "Miro, Las Huellas del Olvido", respectivamente da brasileira Amaranta César e da Argentina Franca Gonzalez, ambas presentes no festival.
O filme brasileiro, feito na região da Cachoeira (Bahia), conta-nos, em imagens de grande beleza estética, a história (ficcionada) de 3 gerações de mulheres que vivem da recolha de mariscos, que a maré lhes traz para o seu sustento. Entre a tradição e a mudança, a mais jovem escolhe o seu destino e parte, rumo à cidade e à emancipação. Filme curto (23'), quase sem diálogos, onde o significado da mensagem se sobrepõe ao texto. Num momento delicado para o Brasil, questões como a defesa da natureza e a emancipação feminina, ganham aqui nova actualidade. Não nos espantaria que o filme recebesse alguma nomeação.
"Miro", é mais um filme de memória, desta vez sobre os restos de uma cidade de colonos italianos, construída na região das Pampas, em finais do século XIX. A cidade seria destruída pelos seus habitantes, no início do século passado, após venda das terras a particulares. Com o auxílio de descendentes dos antigos moradores, habitantes da zona e arquivos dos caminhos de ferro argentinos, a autora fez um trabalho quase arqueológico, onde através de belíssimas imagens (a fotografia é, aqui, fundamental) nos leva imaginar, como teria sido a vida em Miro há cem anos atrás.
Um belo filme, na tradição do bom cinema argentino.       

2018/10/23

O eterno retorno do fascismo (5)


O fascismo cavalga sempre a ignorância. A ignorância e o medo.
As desigualdades sociais, a religião, a criminalidade e a corrupção, explicam o resto.
Num país de "castas", que dois séculos de independência não aboliram e onde o patrocinato e o clientelismo são regra, a corrupção é transversal e tornou-se um "modo de vida".
Não é de espantar esta reacção, contra elites e governantes corruptos que, não só não resolveram os problemas mais urgentes da população como, em muitos casos, os agravaram. Obviamente que a culpa não foi só do PT. Mas, agora, ninguém quer saber disso...
O apelo ao "homem forte" é uma constante da História em tempos de crise moral e social. Nomeadamente, em sociedades onde o estado é fraco. Onde o estado é fraco, a criminalidade aumenta (lei sociológica).
Sem esperança de dias melhores, numa sociedade com índices de criminalidade que rondam os 60000 homicídios/ano, os brasileiros querem "segurança" que - pensam eles - só um governo autoritário pode garantir.
A "lavagem cerebral" das seitas evangélicas, ampliadas pelas "fake news" e manipuladas pelos média, ao serviço de interesses vários, contribuem para o caos instaurado.
A alienação e o ódio, são totais.
Entrámos (entraram, os brasileiros) na fase da irracionalidade.
Nada é previsível e o pior pode acontecer.
Uma tragédia anunciada, o Brasil.

Convite


2018/10/22

DOCLisboa 2018


Está de volta o DOCs, o mais importante festival de cinema documental de Lisboa, este ano na sua 16ª edição. São mais de 200 filmes, de longa e curta metragem que, ao longo de 10 dias (18-28 de Outubro), podem ser visionados em cinco salas da capital: a Culturgest (sede e bilheteira central do festival), o cinema S. Jorge (onde tudo começou), a Cinemateca Portuguesa (parceiro habitual do evento), a Cinemateca Júnior (com filmes dedicados aos mais jovens) e o Cinema Ideal (parceiro recente desta aventura).
Nem sempre é fácil ver os filmes mais badalados ou aqueles que suscitam maior curiosidade. Seja pela temática, seja pela obra dos autores, muitos deles nomes habituais do certame.
Uma das dificuldades, reside na dispersão do festival pela cidade, que obriga a verdadeiras maratonas entre as salas, nem sempre com sucesso: ou falta tempo ou faltam bilhetes.
Como habitualmente, o Festival está organizado em secções temáticas, das quais a "Competição Internacional" é apenas a mais visível, devido às menções atribuídas por um júri internacional, que garantem a distribuição automática dos filmes no circuito comercial.
Depois, a "Competição Portuguesa", com obras de novos e consagrados autores, que aqui apresentam os seus filmes em estreia. Também esta secção é premiada.
Mas, há mais: A secção "Riscos: new visions", com três autores convidados (James Benning, Mike Hoolbom, Jen-François Stévenin; a secção "Retrospectiva" (este ano dedicada ao realizador colombiano Luis Ospina); a secção "Foco: navegar o Eufrates, viajar no tempo do Mundo"; a secção "Da Terra à Lua"; a secção "Heart Beat"; a secção "Cinema de Urgência"; a secção "Verdes Anos" (dedicado a jovens autores portugueses); a secção "DOC Alliance" e a secção "Projecto Educativo".
O festival oferece ainda, outras actividades paralelas, como o Encontro com Luís Ospina, "workshops" com técnicos de laboratório e práticas cinematográficas, exposições fotográficas, sala de projecções em vídeo, etc. Uma festa, portanto!
Destaque, neste primeiro fim-de-semana, para os títulos "The Waldheim Waltz" da austríaca Ruth Beckermann (2018), sobre o ex-secretário-geral das Nações Unidas, impedido de concorrer ao cargo de presidente daquele país, devido à colaboração com o nazismo durante a guerra; o filme "The Silence of the Others", de Almudena Carracedo e Robert Bahar (2018), sobre as vítimas e sobreviventes da ditadura franquista, e "Fahrenheit 11/9", de Michael Moore (2018), um olhar provocador e cómico sobre a era de Trump (como entrámos e podemos sair dela).
Dos filmes vistos, realce para "Matislav Rostropovich, the indomitable bow" de Bruno Monsaingeon (2017), sobre o génio do violoncelo, forçado a um exílio de 16 anos, depois das autoridades soviéticas lhe terem retirado a nacionalidade e de ter ajudado Soljenitsine (Arquipélado de Gulag) que chegou a viver na sua casa de Moscovo. Um documentário de uma sensibilidade extraordinária, sobre um dos maiores músicos do século passado, onde são passados em revista os momentos mais significativos da sua atribulada, mas preenchida vida.
Uma agradável surpresa, seria o filme "Il sogno mio d'amore" de Nathalie Mansoux e Miguel Moraes Cabral (2018), uma produção difícil, realizada ao longo dos anos 2014 e 2015, sobre o Conservatório Nacional de Música onde, em condições milagrosas (há tectos a cair!), professores e demais pessoal daquela casa, asseguram que a música, o canto e a dança, sejam ensinados diariamente a jovens talentos que deslumbram pela tenacidade e qualidade. Uma pequena obra de arte, só possível graças à solidariedade de todas as pessoas envolvidas e ao exemplo de amor à arte, demonstradas em imagens inesquecíveis. Senhores ministros da educação e da cultura, vejam este filme e reflictam!
"Graves Without a Name" (2018) é o mais recente filme do realizador Rithy Pahn (Cambodja) que, a exemplo de obras anteriores, continua a obra de catarse e denúncia do regime dos Khmer Rouge que, durante a sua existência (1975-1979), foi responsável pela morte de mais de 1,5 milhões de pessoas (1/3 da população). A maior parte destas vítimas, morreram nos célebres "campos da morte" (Killing Fields) destinados à "reeducação" política. Pahn, o único sobrevivente da sua família, morta durante o regime de Pol Pot, conseguiu fugir para França, onde cursou cinema nos anos oitenta. Desde então, vem construindo um laborioso legado sobre a memória da ditadura, em imagens belas, mas terríveis pelo seu significado (o regime não deixou quase nenhum material, filmado, sobre as condições existentes nos campos), as quais constituem, já hoje, o maior legado ao Museu da Memória da Ditadura, no Cambodja. Lembramos, para quem não conheça, os filmes "Rice People" (1994), "S-21: The Khmer Rouge killing machine" (2003), provavelmente o seu filme mais famoso, "Paper cannot wrap up members" (2007), "The missing people" (2013), o meu preferido e "Exile" (2016), este exibido no DOCs. Com o seu mais recente filme, Pahn conduz-nos, numa viagem iniciática (o realizador é o intérprete principal), aos campos de arroz, onde a família pereceu e onde, hoje, nada mais resta do que pó e pedras em campas vazias. As vozes dos sobreviventes são, agora, o único testemunho. A partir, daqui, que mais nos poderá mostrar o realizador? O círculo parece fechado. A memória, essa, permanecerá.
             

2018/10/03

O eterno retorno do fascismo (4)

EPA/SEBASTIAO MOREIRA
A menos de uma semana das eleições brasileiras, os dados parecem estar lançados: nenhum dos candidatos à presidência reunirá os votos necessários para ganhar à primeira ronda, pelo que será necessária uma segunda volta (prevista para o último fim-de-semana de Outubro), para saber quem irá ocupar o palácio do Planalto.
Os candidatos mais bem posicionados para passarem à segunda volta, são: Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita mais reaccionária e troglodita do país (apoiado pelos militares saudosistas da ditadura, pela alta-finança e pelas igrejas evangélicas, das quais, a IURD de Edir Macedo, é a mais conhecida); e Fernando Haddad, lançado à última hora pelo PT, em substituição de Inácio Lula, impedido de concorrer por se encontrar preso. 
De acordo com as últimas sondagens, Bolsonaro passará à segunda volta com cerca de 30% dos votos, enquanto Haddad, com cerca de 20%, já se distanciou dos outros concorrentes, ainda que continue longe dos 38% atribuídos a Lula, em finais de Agosto.
Perante este cenário e partindo do princípio que a maioria dos votantes não se revê em nenhum dos dois potenciais candidatos, resta saber em quem votarão os brasileiros (cerca de 50%), que rejeitam o fascismo e o PT.  Porque é disso que se trata, goste-se ou não da escolha.
Uma terceira alternativa, seria a abstenção, mas a constituição brasileira não o permite e o voto é obrigatório. Logo, quem não votar é multado e quem votar em branco favorece o candidato mais bem posicionado, neste caso Bolsonaro. Para mim, que defendo a democracia, a escolha seria fácil. Da mesma maneira que, se fosse americano, teria votado em Hillary Clinton, um mal menor relativamente ao escroque Trump.
Para grande parte da classe média brasileira, o "problema" parece residir no PT, que continua a gerar anti-corpos, muito por causa da corrupção generalizada, da criminalidade e da recessão económica, que o país atravessa de há anos a esta parte. Acontece que, estes problemas, sendo genuínos e reais, não se devem exclusivamente aos governos PT, por uma razão simples: o Brasil é, de há séculos, uma sociedade de "castas" e clientelas, onde a corrupção se tornou "um modo de vida" e o sistema de subornos e nepotismo criou e manteve uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esta herança de séculos, que o PT tentou contrariar (sem nunca tocar nos privilégios das elites!), através de programas de combate à desigualdade - elogiados pela ONU, pelo PNUD, pela UNESCO e pelo Banco Mundial - não foi, contudo, suficiente para evitar uma crise social e económica. Os sucessivos escândalos de suborno e corrupção (Mensalão, Odebrecht, Petrobras, etc.) demonstraram à saciedade, que algo estava "podre no Brasil" e não era pouco. O processo de investigação, conhecido por "Lava Jato" (uma alusão à "lavagem" de dinheiro desviado) deu cabo das últimas esperanças do brasileiro médio, pouco politizado e manipulado por uma imprensa sensacionalista, que deixou de acreditar nos políticos. O desemprego galopante, a inflação e a recessão, que se seguiram, fizeram o resto. Perante a descrença total e sem soluções à vista, a panaceia para todos os males parece ser um homem "forte", de preferência militar. Falta-lhe o bigode, mas o filme é conhecido.
Alguém, nas redes sociais, dizia por estes dias que existem dois tipos de anti-petistas: os ideológicos e os patológicos. Penso que, a maior parte, pertence ao segundo grupo: não interessa em quem se vota, desde que o PT perca! No limite, muitos deles, nem gostarão de Bolsonaro, mas como é o único que pode impedir a vitória do PT, então, votam nele (!?).
Há claro, forças interessadas na sua vitória: desde logo os militares, saudosistas do tempo da ditadura (1964-1985) que vêem aqui uma oportunidade de sair dos quartéis; depois, há os evangélicos de diversa plumagem, que dão indicação de voto aos "fiéis", argumentando que o capitão psicopata defende os valores da  família e do cristianismo (!?); finalmente, a finança, que controla a banca, as grandes empresas e domina a comunicação social (Globo, Veja, Data Folha, TV Record, etc.).
Ora a finança (vulgo "mercados") está interessada numa ditadura, a melhor forma de controlar a economia. A "economia" sempre se deu bem com o fascismo, pois é a melhor maneira de manter os trabalhadores submissos. Claro que o fascismo tem a "perna curta" e, no médio prazo, acabará por cair, mas isso não interessa nada aos neoliberais, desde que o "mercado" funcione. Por alguma razão, Bolsonaro já anunciou que não percebe nada de economia (em rigor, ele não sabe nada de coisa nenhuma) e, por isso, nomeará para "ministro da fazenda", o célebre Paulo Guedes, um rapaz da "Escola de Chicago" que, em tempos, foi conselheiro de Pinochet...
Conheço, inclusive, brasileiros cristãos, casados e com filhas, que vão votar em Bolsonaro, apesar do seu discurso onde defende a pena de morte, a tortura, a violação, a misoginia, a homofobia e o racismo. Para essas pessoas, isso não interessa nada. O que interessa, agora, é impedir que o PT volte ao poder. Depois, logo se vê...
É como a história de Mephisto (Fausto): vendeu a alma ao diabo, acreditando na sua salvação.
Depois...fodeu-se!

2018/09/30

Sevilha: Bienal de Flamenco (2)

Para a segunda metade da Bienal deste ano, reservámos três entradas, seguindo o mesmo critério dos primeiros espectáculos: um de "toque", um de "baile" e outro de "cante", as expressões da arte flamenca por definição.
Começámos pelo concerto "Viviré" (homenagem a Camarón) por um dos maiores guitarristas flamencos da actualidade, José Fernández Torres (Tomatito), companheiro de estrada e de estúdio do famoso "cantaor", falecido em 1992.
Este era um concerto imperdível, não só pela áurea de Tomatito - uma "fiera" na expressão carinhosa dos seus admiradores - mas, porque dos grandes guitarristas vivos (Manolo Sanlucar, Vicente Amigo, Gerardo Nunez, Chicuelo...) Tomatito era o único que eu não tinha visto ao vivo. Tive o privilégio de assistir à última apresentação de Paco de Lucía em Lisboa (2005), pelo que me posso considerar um homem de sorte...
O concerto, que decorreu no passado 22 de Setembro, teve lugar no teatro La Maestranza (1800 lugares) um imponente edifício, construído de raiz para a Expo'92, inicialmente projectado para ópera e zarzuela e que tem como residente a Real Orquestra Sinfónica de Sevilha. Para além de ópera, a sala programa espectáculos nas mais diversas áreas, desde o pop ao rock, passando pelo cabaret (Utte Lamper), flamenco (Mayte Martín), fado (Dulce Pontes, Mísia, Carminho) e, já no próximo mês de Novembro, o "nosso" Salvador Sobral. Mais eclético do que isto, é impossível.
Tomatito, portanto: fabuloso guitarrista, fantásticos convidados (José del Tomate, Duquende, Arcángel, Rancapino Chico), para além dos respectivos acompanhantes, onde havia "cantaoras", um violinista e um percussionista. Um elenco fabuloso, que passou em revista muitos dos temas celebrizados por Camarón (Leyenda del Tiempo, e.o.), a solicitar os "olés" da praxe, sinónimo de apreciação geral. Um pequeno senão (pelo menos na zona onde nos encontrávamos) que foi o som, verdadeiramente deplorável, dado o volume e a amálgama de instrumentos, que seriam fatais para um concerto que tanto prometia. Ficará para uma próxima oportunidade, estamos certos.
O dia seguinte, seria dedicado ao "baile", com o espectáculo "Improbataciones", uma estreia na "off Bienal", este ano coordenado pela "bailaora" Asunción Pérez "Choni", conhecida de actuações anteriores e que também dirigiu a abertura da Bienal na ponte de Triana. Os mesmos intérpretes de Triana, com Manuel Cañadas, (bailarino contemporâeno), David Bastidas e Alícia Acuña (cantaores), Víctor Bravo e Asunción Pérez (bailaores). Pese o lado de improviso, sublinhado pelos artistas na sua interacção com os espectadores, estamos em presença de excelentes intérpretes em cada um dos géneros (dança e canto), que são, de há muito, uma presença assídua na cena sevilhana. Destaque para Manuel Cañadas, que nunca tínhamos visto, e que se afirma como um bailarino de grande estilo e presença. Bom espectáculo, onde a seriedade e o humor, sempre servidos por uma óptima banda sonora, alternaram com bom gosto.
Finalmente, o concerto flamenco do surpreendente Niño de Elche, de quem já conhecíamos o último trabalho discográfico (Antologia del Cante Flamenco Heterodoxo) e do qual nos foi dado ver um pequeno trecho, no fabuloso espectáculo de abertura da Bienal, a cargo do "bailaor" Israel Galván.     Desta vez, a actuar na mítica sala Lope de Vega, a mais clássica de todas as salas da cidade (inaugurada em 1929 e reconstruída por duas vezes, após um fogo, duas cheias e a guerra civil,  quando funcionou temporariamente como hospital) o iconoclasta Niño não desiludiu.
Ou melhor, disse ao que vinha, desde logo quando se apresentou em palco vestido com um fato de treino, que despiu placidamente em frente à assistência e envergou um traje flamenco tradicional (calças e jaqueta negra, sobre uma camisa branca) para, sob uma aparente forma clássica, desconstruir a simbologia e o discurso flamenco tradicionais. Acompanhado por dois excelentes músicos, Raúl Cantizano (guitarra e percussão) e Susana Hernández (teclado, sintetizadores e electrónica) e pelos convidados, os "palmeros" David Bastidas e Alicia Acuña e "bailaores" Israel Galván e Eduarda de los Reyes, Niño de Elche passaria em revista os "palos" mais clássicos (farrucas, seguirias, saetas, fandangos, tangos e rumbas) numa abordagem "sui-generis", intercalada por poemas (Eugenio Noel, Lorca), cantos da guerra civil e uma improvisação sobre Tim Buckley, não tendo faltado a Rumba y Bomba, que encerraria o espectáculo. No fundo, à imagem do grande Enrique Morente, que chocou tudo e todos quando gravou "Omega", com a banda rock de Lagartija Nick, obra que os fundamentalistas flamencos ainda hoje não consideram digna do "cante". Destaque, mais uma vez, para o grande Israel Galván, no pico da sua arte, provavelmente o mais eclético e inovador "bailaor" flamenco da actualidade, que nos ofereceu dez minutos electrizantes.
Nota final: durante o espectáculo, muitos espectadores saíram da sala e, no dia seguinte, a imprensa local (ABC e Diário de Sevilha) arrasaram o concerto. Não me lembro de ter lido críticas tão demolidoras a um concerto. Niño de Elche conseguiu exasperar os puristas, provavelmente o seu objectivo último. Eu adorei.