2012/04/24

Sinais de mudança (2)

Demitiu-se esta segunda-feira a coligação governamental holandesa, constituida pelos partidos VVD (liberal) e CDA (democrata-cristão), que era apoiada pelo partido PVV (populista de direita). A demissão surge após sete semanas de duras negociações entre os três partidos, com vista a chegar a um acordo para implementar medidas de austeridade estimadas em 14 mil milhões de euros no próximo Orçamento de Estado. Ainda que a notícia já fosse conhecida desde o passado sábado, só ontem foi formalmente aceite pela rainha, que agora terá de marcar a data das próximas eleições. Em princípio, estas não devem acontecer antes de Setembro. Não causa grande surpresa esta demissão. Desde a sua instalação, em Outubro de 2010, que o governo dependia do apoio do PVV, partido liderado por Geert Wilders, um populista xenófobo que defende a proibição do Islão, a abolição da burka e a expulsão de muçulmanos não holandeses. Um programa que lhe valeu 15% de votos e 34 deputados nas últimas eleições. Dado os anti-corpos provocados na classe política holandesa, Wilders acabaria por não aceitar fazer parte do governo, mas garantia a maioria dos votos governamentais no parlamento. Uma construção, que os holandeses apelidavam de "governo tolerado", uma vez que a qualquer momento o PVV poderia retirar o seu apoio. Foi o que aconteceu agora, quando o governo propôs cortes significativos em áreas sociais sensíveis, como a idade e o valor das reformas, às quais o partido de Wilders se opõs. As reformas, aliás, eram um ponto de honra para Wilders que, a par da sua declarada Islamofobia, sempre defendeu os reformados de baixos recursos. Em queda de popularidade após os atentados de Oslo (quando as suas ideias foram elogiadas por Breivick) Wilders há que muito procurava uma saida airosa para a sua política de ódio e terra queimada. Aparentemente, a crise actual, ofereceu-lhe essa oportunidade. Ao distanciar-se das medidas do governo, espera ganhar a admiração dos holandeses mais pobres e, dessa forma, recuperar a popularidade perdida. Uma coisa parece certa: Wilders dificilmente voltará a ter a influência do passado e tudo aponta para que a próxima coligação governamental seja de centro-esquerda.

2012/04/23

Sinais de mudança

Sem surpresa, François Hollande ganhou a primeira volta das eleições francesas. Ainda que a diferença para Sarkozy não tenha ultrapassado os 2%, a vitória do candidato do PS abre boas perspectivas para uma mudança de governo. Resta a questão: em quem vão votar os eleitores de Marie Le Pen? Esta é a grande incógnita da 2ª volta, pois uma votação massiva da extrema-direita em Sarkozy daria a vitória ao actual presidente. Não seria a primeira vez e pode voltar a acontecer. Para já, os sinais são contraditórios. Ontem, no rescaldo das eleições, as primeiras sondagens eram francamente favoráveis a Hollande (54%); mas já hoje, na abertura das bolsas, os "mercados" davam os primeiros sinais de inquietação. Compreende-se: em tempos de austeridade, anunciar mais emprego e aumento de prestações sociais, equivale a uma maior despesa, logo maior risco de dívida, coisa que os investidores não desejam ver repetida. Temos, por isso, uma dupla incógnita: vão os eleitores de Le Pen continuar a rejeitar Sarkozy (abstendo-se) e dar assim a vitória à esquerda?; estará Hollande em condições de cumprir o que prometeu, caso ganhe as eleições? Uma coisa é certa, com Sarkozy teremos mais do mesmo, o que não trará benefícios para a Europa; com Hollande, poderá haver um maior contrapeso à política de Merkel e ao "diktat" alemão, o que poderá favorecer os países endividados. Para já, a maioria dos franceses parece acreditar no candidato socialista. Resta saber em quem acredita o candidato. Dito de outro modo: "como nenhum político acredita no que diz, fica sempre surpreso ao ver que os outros acreditam nele". A frase é atribuida a De Gaulle e ele sabia do que falava. Até lá, resta-nos esperar pelo dia 6 de Maio.

A gente tem mesmo de aturar isto?!

A conversa desta figurinha patética vale o que vale, claro, mas não deixa de merecer comentário. É um ministro do meu País, que está ao serviço do Povo Português, e este paleio suscita algumas interrogações.
O que se estará a passar em Portugal, afinal? O que é que se estará a passar de tão sério —para além do terrorismo do governo— que mereça os olhos esbugalhados e o palavreado proto-fascista desta criatura triste? Que outras perturbações estarão a suceder da ordem pública e da legalidade —para além do desemprego, dos cortes salariais, da quebra unilateral de contratos, do aumento insustentável dos impostos e do custo de vida, entre outros, gerados pela acção do próprio governo— que justifiquem este fraseado apocalíptico?
Achará este escarro que mete mesmo medo a alguém? Um nojo indescritível tudo isto.

2012/04/16

Para a Guiné e em força...

A Guiné-Bissau é, de todas as ex-colónias portuguesas, o país que mais tarda em afirmar-se como um estado democrático e soberano. O facto de ter sido a primeira colónia portuguesa a declarar unilateralmente a independência (ainda em 1973) não faria desta jovem nação um país mais democrático e progressista. Os golpes de estado sucedem-se a cada dois anos e as intromissões na sua política interna tornaram-se frequentes. Na realidade, estamos a falar de um estado sem poder onde se instalou o poder do narcotráfico. É neste difícil equilíbrio entre democracia e ditadura militar, que os portugueses que por lá andam - uns em projectos de cooperação, outros com negócios montados - fazem hoje "prova de vida" em todas as estações de rádio e televisão: que estão bem, não receiam pela sua vida (presume-se que estejam habituados às golpadas) e não pensam sair, pois a vida deles é lá. Impressionante, a calma dos portugueses da Guiné.
Bem mais nervoso, parece andar o nosso "ministro dos negócios estrangeiros, da terra, do mar e do ar" que, "in no time", ordenou o envio de uma fragata, uma corveta, um navio de abastecimento, um quadrimotor e centenas de militares, para evacuar os cidadãos portugueses em perigo. Já conheciamos o pendor guerreiro de Portas, o marinheiro por excelência da invencível armada portuguesa. Todos estamos ainda lembrados da corveta enviada em 2004 contra o "seawaves" (o barco holandês do aborto) que ameaçava as nossos brandos costumes na Figueira da Foz...
Para a "armada" ficar completa só faltam mesmo os submarinos. Logo agora que temos dois novos, acabadinhos de estrear que, ao que consta, já foram pagos, pois a Ferrostaal não "brinca" às guerras.

2012/04/13

A regra de ouro

Como era previsível, o Parlamento aprovou hoje por maioria a proposta de emenda ao Tratado Europeu vigente. Uma proposta da Alemanha, com vista a "disciplinar as finanças europeias", agora que a "zona euro" atravessa uma crise que já atinge as suas principais economias.
Em tese, uma proposta aparentemente lógica (quem não quer ter as suas finanças em ordem?); na prática, uma proposta que - mais uma vez - parece não ter em conta as diferenças existentes entre os países que fazem parte da "zona euro", exigindo o cumprimento de regras iguais para economias diferentes.
É o caso da obrigatoriedade de inclusão de um artigo especial (a regra de ouro) na Constituição de cada país, como forma de impedir os orçamentos nacionais de ultrapassarem um défice de 0,5%.
A "regra" não é sequer inédita, já que o Tratado de Maastricht (que implementou a moeda única) previa um tecto máximo de 3% nos défices nacionais, com a aplicação de sanções para os países que não cumprissem. Como os primeiros países prevaricadores foram precisamente a Alemanha e a França (as principais economias europeias) a UE "fechou os olhos", sem que tivessem sido aplicadas quaisquer sanções. Agora que a crise já atinge economias como a Itália e a Espanha (respectivamente a 3ª e a 4ª economias do Euro), soaram as campainhas de alarme e foi decidido, em reunião de líderes, exigir aos países do euro a inclusão desta regra nas suas constituições! Uma grave intromissão na soberania nacional, que o nosso governo se apressou a apoiar, na tradição acéfala e subserviente de governos portugueses anteriores.
Não se trata sequer de emendar o actual tratado, mas de criar um Tratado Internacional (à margem do existente) bastando uma maioria qualificada de 12 membros para o rectificar. Quem não o rectificar perde o direito aos fundos europeus (!?), uma clara chantagem sobre os países periféricos, como Portugal, que dependem dos apoios estruturais para convergirem economicamente com a média europeia.
Que a coligação no poder (PSD/CDS) tenha assinado de cruz, não nos surpreende. Que o PS, uma vez mais, dê o dito por não dito e, depois de apresentar uma versão alternativa ao Tratado Orçamental, tenha obrigado os seus deputados a votar a favor da "regra de ouro", só mostra a verdadeira face deste partido, que boicota sistematicamente qualquer hipótese de referendar as questões europeias, certamente temendo a resposta dos votantes.
Como diversos analistas (Rui Tavares, António Barreto, Pacheco Pereira) já assinalaram, nunca a questão europeia - que a todos diz respeito - foi referendada neste país. Perdeu-se, mais uma vez, a oportunidade. Resta saber, como bem lembrou Barreto, se esta alteração à Constituição poderá ser aprovada por maioria simples ou exige uma maioria qualificada de 2/3.
Quando se ignora a realidade, esta regressa sempre a galope...

2012/04/11

Ar do tempo

Meio-dia. Toca o telefone.
"Bom dia senhor Rui Mota. O meu nome é...da Optimus".
"Bom-dia"
"Bem disposto sr. Rui Mota?"
"Nem por isso"
"Porquê Sr. Rui Mota?"
"Estaria mais bem disposto, se o Gaspar não me cortasse na reforma"
"Pois é, Sr. Rui Mota. Compreendo-o. Diga-me Sr. Rui Mota, quem gostaria de ver como ministro das finanças?".
"Não tenho nomes. Eu voto em políticas, não voto em pessoas".
"Muito bem, Sr. Rui Mota. E que políticas é que preferia?"
"Outras que não estas. Onde se falasse verdade e houvesse mais justiça social".
"Também eu Sr. Rui Mota".
"Está a ver...".
"Olhe Sr. Rui Mota, eu penso que não é só o Gaspar. Os outros ministros também não valem nada. Ele é o Coelho, o ministro da Economia, de quem não me lembro o nome... Nem sequer se entendem entre eles, quanto mais..."
"É isso que eu penso".
"Digo-lhe mais, isto já não é uma democracia, é uma debitocracia".
"Isso. Ou uma dividocracia".
"Debitocracia, dividocracia, o que é isso interessa?"
"Pois é..."
"Eu também estou aqui, porque preciso, senão mandava-os bugiar..."
"Mas, afinal diga lá, o que é que você quer?"
"Eu vendo telefones, Sr. Rui Mota".
"Mas, eu já tenho um contrato com outra operadora e agora não vou desistir..."
"Compreendo, Sr. Rui Mota. Desculpe estar a incomodá-lo".
"Não faz mal, mande sempre".
"Obrigado Sr. Rui Mota. Gostei desta conversinha. Avante, camarada!".

A nova Ponte

Aqui há tempos um incidente com a Maternidade Alfredo da Costa gerou bastante sururu. Os tratamentos de infertilidade tinham sido interrompidos em circunstâncias polémicas e o caso motivou reacções enérgicas dos utentes e da própria DGS. Aparentemente a direcção da MAC terá agido por conta própria e criado uma situação escusada. Tanto quanto sei, o assunto nunca foi devidamente explicado, corpo clínico e utentes nunca mais se pronunciaram sobre este caso (tanto quanto sei, repito!)
O certo é que este caso, na altura, muito badalado na imprensa, gerou uma má imagem da MAC, uma instituição, até aí, sem mácula e credora dos melhores elogios.
Agora, perante a iminência do fecho, gera-se um movimento que contradiz totalmente, na forma e no conteúdo, qualquer sentimento menos positivo que a MAC pudesse ter gerado. A MAC afinal é isto: um cordão humano a fazer lembrar que existem milhares de cordões umbilicais de facto nunca totalmente cortados. A MAC está comprovadamente no coração de milhares de portugueses e tem todos os ingredientes para chegar ao coração de muitos mais.
Onde está a verdade? Nas explicações do primeiro ministro, dadas no Maputo, ou há de facto outras motivações para fechar a MAC? Ontem falava-se em interesses imobiliários, por exemplo, que estarão a condicionar este caso. Eu, que não acredito em bruxas nem em teorias da conspiração, diria que o problema que veio a público em Outubro de 2010 não passou de um mero incidente e não tem nada a ver com o que se está a passar hoje. Mas, depois lembro-me da história do "que las hay, las hay", ligo os dois factos e pergunto-me se a má imprensa gerada em 2010 terá sido assim tão inocente.
De qualquer forma, este governo parece que descobriu aqui o seu "caso da Ponte 25 de Abril", um caso aparentemente "inocente",  mas capaz de ter efeitos devastadores. Uma bota que estou cheio de curiosidade em ver como vai ser descalçada...

PS- Se quiser expressar a sua opinião sobre o encerramento da MAC há uma petição a correr, acessível aqui. Em dois dias recolheu mais de 11 000 assinaturas...

2012/04/05

A mentira instituida como regra

Já estávamos habituados, por isso não devíamos estranhar.
O seu uso começou há muito e nem sequer é apanágio dos políticos portugueses.
Digamos que faz parte do jogo político, ainda que a "política" continue a ser considerada a mais nobre das artes.
Também sabemos que a verdade é "revolucionária", mas nem toda a gente quer ouvir falar dela, quanto mais revelá-la.
Vivemos, assim, numa espécie de realidade virtual, onde nos impingem a mentira todos os dias para que, mesmo quando nela não acreditamos, possamos viver mais descansados com a nossa consciência. Porque a "consciência" anda adormecida, cometem-se as maiores barbaridades em nome de uma coisa que se chama democracia, sem que a maioria das pessoas se indigne.
O anúncio, ontem matreiramente anunciado pelo primeiro-ministro (sobre a extensão do período de congelamento dos subsídios de férias e de Natal até 2015) e hoje confirmado pelo ministro das finanças na AR, é o exemplo acabado do despudor a que chegaram estes merdosos políticos.
Pensávamos já ter assistido ao pior e queremos sempre acreditar que, lá no fundo, "eles" não são todos iguais e alguns (quais?) até querem o nosso bem. É mentira.
Por isso não devemos estranhar.
Mais: é preciso denunciá-los todos os dias, todos os políticos e todos os partidos que eles representam, porque eles não nos representam. Para que a mentira não seja instituida como regra.

2012/04/03

Amêndoas amargas...

Segundo o Comité de Protecção de Jornalistas, morreram desde 1992 em todo o mundo 908 jornalistas. Iraque, Síria, Argélia, Paquistão, Somália, Afeganistão, etc, são alguns dos países onde mais jornalistas foram mortos. Morreram no decorrer de missões perigosas, apanhados em fogo cruzado ou, na esmagadora maioria dos casos, assassinados.

Ao divulgar estas mortes, ninguém, incluindo este tipo de associações como o CPJ, as confunde com os conflitos no âmbito dos quais elas ocorreram. Tão pouco que ninguém, certamente, com um mínimo de senso, teria a lata de atribuir as causas dos conflitos à morte de um jornalista. Por mais heróica que seja a sua acção, os jornalistas são vítimas acidentais, mas conscientes, de acontecimentos que os transcendem. São espectadores indesejados que entram pelos bastidores do teatro de operações.

Hoje ficou-se a saber que os agentes que causaram os distúrbios do passado dia 22 vão ser objecto de procedimentos disciplinares. Em causa, pelo que se percebe, parecem contudo estar apenas as agressões de que foram vítimas os repórteres fotográficos da Lusa e da AFP. Os manifestantes e, em particular, os transeuntes vítimas da actuação indigna da polícia pouco parecem preocupar os responsáveis.

O que os génios da propaganda governamental (com o PR a fazer coro) parecem querer fazer é criar um "acontecimento" à volta das agressões aos repórteres para ofuscar os motivos e o debate em torno dos problemas que estão a levar as pessoas a vir reclamar para a rua. Os jornalistas da Lusa e da AFP deram um jeitão à agenda do governo. Só não vê, a partir de agora, quem não quiser mesmo ver: a origem de toda a crise que atravessamos reside no facto de a polícia ter batido nos jornalistas no passado dia 22...

Falando de governo, também parece que se quisermos saber se é verdade ou não que agentes à paisana se meteram no meio dos manifestantes, lançando petardos e provocações e, sobretudo, se é verdade ou não que a polícia recebeu ordens para provocar a desordem no dia 22 (*), o melhor é esperarmos sentados. Nem os jornais parecem preocupados com o assunto. Continuo sem perceber por que razão, quando há "jogos de risco" e possibilidades reais de distúrbios com claques dos clubes de futebol, é mobilizado um dispositivo significativo de agentes —com conferências de imprensa, pisteiros e batedores!— que consegue conter com sucesso uma turba de mentecaptos que não procuram outra coisa que não seja o confronto, e, no caso de uma manifestação cívica, como estas a que temos vindo a assistir, o mesmo dispositivo se revela totalmente incapaz de usar os mesmos procedimentos, a mesma tolerância, paciência e paninhos quentes usados com os mentecaptos para manter a ordem pública. E sem provocações! São mistérios que ninguém consegue entender...

Como estamos em período de celebração da Páscoa, o governo parece já ter encontrado os carneiros para o sacrifício. E a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia acha bem...

(*) Os vários responsáveis por este triste espectáculo que foi a actuação da polícia no dia 22 ainda não perceberam que esta ideia do acto individual, para que apontam as "averiguações" em curso, piora a sua imagem e a da corporação. Se houvesse margem para tantos actos individuais é porque não havia comando.

2012/03/30

Estado Novo em estado puro

Neste artigo, Nuno Ramos de Almeida denuncia uma espécie de histeria securitária que, no seu entender, se está subtilmente a intensificar. "Com pezinhos de lã, governos e polícias de turno estão a impor a ideia de que é normal a infiltração em organizações políticas, a vigilância de militantes de esquerda, o recurso a provocadores em manifestações e a agressão a jornalistas para garantir o afastamento de testemunhas incómodas nas próximas cargas policiais," diz o autor. "Um dia destes acordamos sem democracia e nem demos por isso," conclui.
Não há pezinhos de lã nenhuns. A tradição do Estado Novo ainda é o que era. A mentalidade pidesca nunca morreu.
Muitos poderão achar isto exagero, coisa do passado, mas factos são factos: aos primeiros sinais de borrasca saltam os velhos métodos, mostrando que estavam apenas escondidos atrás da porta, para o caso...
A verdade é que pouco fizemos, nós todos como sociedade democrática, no sentido de operar a mudança profunda e necessária para acabar de vez com a tradição.
É, pois, assim, sem surpresa, que vamos tomando nota destes e de outros factos. Como o caso que, na mesma edição do jornal i e certamente por coincidência, se denuncia de um organismo de Estado que pede aos seus colaboradores com recibos verdes que "assinem um documento em como não têm 'afinidades partidárias' com outros colaboradores e ex-funcionários desses serviços."
A tradição securitária é filha da corrupção e esta mantém-se entranhada no mais fundo do que é ser português. Para ajudar, temos hoje até um casamento perfeito que dá um jeitão aos nubentes: "crise" e corrupção uniram-se em regime de conveniência.
O Estado Novo continua aí, em estado puro.
É preciso fazer muito mais do que foi feito até agora para mudar. É desta mudança que, hoje como ontem, o securitarismo tem medo...

2012/03/25

A chaga social

"Hoje o desemprego é, sem dúvida nenhuma, a principal chaga social que existe em Portugal," declara Coelho na missa de corpo presente social-democrata.
E os desempregados são uma chatice: protestam, reivindicam, são a prova viva do fracasso das nossas políticas e revelam a verdadeira motivação das nossas propostas, não é senhor "primeiro ministro"? Não é por lhes faltar a eles, coitados, o emprego; é porque o tempo urge (e não, V. Exa. não tem arcaboiço de maratonista; é mesmo um sprint alucinado que está a tentar fazer!), o número de desempregados aumenta, e se não conseguirmos entretanto levar a cabo todas as malfeitorias que nos propusemos fazer, são eles que colocam o nosso emprego em perigo, não é senhor "primeiro ministro"?

2012/03/24

Exige-se esclarecimento

Agentes provocadores terão estado, segundo o grupo Anonymous Legion Portugal, na origem dos confrontos que se verificaram ontem entre os membros da Plataforma 15 de Outubro e a polícia.
Este assunto exige total esclarecimento e apuramento de responsabilidades e deve ser levado até às derradeiras consequências (ver aqui mais pormenores).
O que é que andam a fazer as forças de "segurança" deste país?



2012/03/21

Hoje mais do que nunca...


A poesía está por todo o lado, como muito bem declarou Maria Helena Vieira da Silva. Nos dias que correm muita gente parece bloqueada, dando, por vezes, a ideia que esqueceu esta verdade singela. A narrativa oficial contribui, estabelecendo uma espécie de censura que a impede de perceber e tomar como seu este facto. Mas, a poesia está de facto na rua e, como digo no título, hoje, mais do que nunca, é preciso (re)descobri-la. É um verdadeiro acto de resistência (re)descobri-la. E hoje, —diria também, mais do que nunca— é tão poeta aquele que faz poesia como aquele que tem coragem, que é capaz de a (re)descobrir. Façamos jus à ideia de que Portugal é um país de poetas.

Tonino Guerra (1920-2012)

2012/03/19

iPide

No Zimbabué, um tribunal prepara-se para ditar sentença num caso de seis cidadãos apanhados a ver vídeos sobre a chamada "primavera árabe". No país de Mugabe, esse grande democrata, é assim. E não há nada como alterar o curso das estações antes que seja tarde. Primaveras, no Zimbabué, nem em video.
E em Portugal, país do primeiro mundo, onde não há medo, a informação circula livre, cada um exprime opiniões e relata factos sem receio de represálias e os meios e as redes de comunicação não estão nas mãos de uma mão cheia de bandalhos, os mesmos que são donos dos cabedais, ditam as leis, dominam o comércio e cobram o imposto, como é em Portugal?
Portugal é pior que o Zimbabué.
Este caso dos seis do Zimbabué parece brincadeira quando se pensa no caso de Rui Cruz. Ao pé disto Mugabe passa por virtuoso. Não se consegue perceber que crime poderá ter o autor do TugaLeaks cometido para ser considerado arguido pela justiça (assim mesmo, com letra minúscula, como minúsculo é o respeito que, cada vez mais, me merecem as instituições oficiais deste país de opereta). Aliás, ele, pelos vistos, também não.
O TugaLeaks, criado por Rui Cruz, terá divulgado acções de supostos hackers que, segundo consta, terão alterado conteúdos de sites institucionais, suficientemente desprotegidos para que isso fosse possível. Divulgou também, segundo parece, dois ficheiros de dados pessoais de agentes da PSP retirados, um, de um servidor governamental e, outro, do computador de um sindicato, ambos, pelos vistos, também totalmente vulneráveis.
Em vez de ouvir a mensagem, as instituições oficiais atiram ao mensageiro. E a mensagem é, afinal, simples: a segurança informática em Portugal é uma treta! Entrar num site e colocar lá uma qualquer mensagem provocatória não revela grandes dotes e parece até pueril. Mas, quem garante, perante o amadorismo que todo este foclore revela, de um lado e de outro, que os servidores a sério, da justiça, das finanças, das câmaras, etc, não são igualmente vulneráveis? E que estes ou outros hackers, menos brincalhões e talvez ligados a outros interesses menos românticos, não dispõem de artilharia mais pesada e via aberta para atingirem outros alvos mais importantes? Querem ver que esta acção contra Rui Cruz não passa de uma manobra para esconder questões mais sérias?
Uma coisa é certa: o comportamento e os métodos usados pela justiça, neste caso, trazem-nos à memória dias que julgávamos passados. Para muita gente neste país, não parece ter servido para grande coisa a instauração do regime democrático.

2012/03/16

Onde se fala de outras interpretações para o conceito de volatilidade

A proposta de criação de uma comissão para averiguar o caso BPN, apresentada pelo BE, tinha como objectivo esclarecer todo este nebuloso assunto. Foi chumbada pela maioria, como se sabe. Seguiu-se-lhe uma outra de autoria do PS que, ao abrigo de procedimentos do Regimento da AR, não carecia de aprovação em plenário. Por isso, a maioria antecipou-se e propôs uma outra comissão, com um pequeno pormenor: remetia o início da sua entrada em funcionamento para depois de concluída a privatização.
O assunto causou, aparentemente, polémica. E, no final, depois de horas de discussão, no meio de alegadas ameaças de demissão e sentimentos de "crispação" entre os deputados, lá se criou uma única comissão.
Digo que o assunto causou "aparente" polémica porque, desconfiado como sou, fico com a sensação de que o consenso obtido ontem, as cedências feitas e a convergência de objectivos na criação de uma única comissão não passam, na realidade, de uma manobra para deixar tudo na mesma. O proto-evanescente caso BPN —a "maior fraude do século", como lhe chamam— é como o negócio da gasolina, segundo o presidente da Galp: volátil.
Em suma: much ado about nothing, para usar a imagem de Shakespeare...

2012/03/14

A estatística é uma batata

O Secretario de Estado da Saúde acusa "dirigentes partidários" de demagogia quando estes afirmam que o aumento do número de mortes por causa da gripe se fica a dever aos cortes na saúde e à diminuição dos recursos dos doentes. De facto não vi ainda estudos que sustentem essa tese. Admitamos portanto que o SES tem razão...
Ora, o SES cita números de 2008, supostamente relativos ao total de mortos por causa da gripe, e diz que são idênticos aos deste ano. Conclui, analisando apenas o número de mortes, sem contemplar outras variáveis, que este carácter excepcional da mortalidade deveria então aplicar-se (!) a esse ano. E admoesta os "dirigentes partidários" dizendo "que têm que ter muito cuidado relativamente às afirmações que fazem para não criar alarme e demagogia."
Para Fernando Leal da Costa a estatística é uma batata e o rigor tem dias.
Por que razão houve um pico em 2008? Estamos falar da mesma estirpe de vírus? Se, nesses e noutros aspectos, os números são comparáveis, onde estão então os estudos que comprovam que em 2012 é inequívoco que a mortalidade fora de comum não se deve mesmo ao facto de as pessoas não terem agora dinheiro para comprar medicamentos ou para se deslocarem aos centros de saúde, como faziam antigamente?
Quem, com um raio, é este Leal da Costa? Quem é que está a ser demagogo?

Sobre a volatilidade da comercialização de produtos voláteis

É um verdadeiro escândalo aquilo que se passa com os preços da energia em Portugal. Por mais voltas que se tente dar para perceber as razões que levam os preços dos combustíveis, da electricidade e outros, a atingir estes valores criminosos que temos hoje, deparamos sempre com um novelo intrincado. Ao tentar desembrulhá-lo a única coisa que se nos revela é um outro sistema fiscal, escondido, por detrás do sistema, já de si terrorista, aprovado no Orçamento de Estado. Um sistema que recorre a uma plêiade de outros instrumentos como a factura da electricidade, as taxas "moderadoras" na saúde, as portagens, etc.. Um contributo, nosso, uma verdadeira inovação, na vetusta arte da administração fiscal: a economia paralela de estado.
A novela "eléctricas"promete (leia aquiaqui, por exemplo). Mas há outras novelas e outros artistas.
O presidente da Galp dizia ontem à TSF que "estamos a viver num período de alta volatilidade, o negócio de produtos petrolíferos é totalmente globalizado, portanto, os preços não são definidos nem condicionados pela economia portuguesa." Pois... Não sei se a expressão utilizada "alta volatilidade" tem a ver com o produto ou se se trata de fazer humor negro. O que sei é que olhando para os preços no estrangeiro e em Portugal, comprovando as discrepâncias brutais de preços nas bombas, que cá se registam (repare-se, por exemplo, nas diferenças inexplicáveis de preço em bombas de gasolina urbanas e rurais, entre bombas situadas numa autoestrada e numa estrada normal, a escassas dezenas de metros, por vezes, uma da outra, ou nas diferenças entre os preços praticados pela omnipresente Galp e as outras), verificando o gráfico da progressão do aumento dos combustíveis, o termo volátil vem, sem dúvida, à mente...
Ferreira de Oliveira mostrou-se também preocupadíssimo com os postos de venda. Haverá centenas em perigo, o negócio escasseia, a situação é, concorda o presidente da ANAREC, grave, 250 postos de venda terão encerrado nos últimos dois anos e 300 estão em vias de encerrar. Perto de 2 500 postos de trabalho irão perder-se. Ferreira de Oliveira fala num tom que mais parece querer dizer que, mandasse ele, iríamos todos nós, desavergonhados sem sentido patriótico, ser obrigados a comprar mais gasolina, ainda mais cara, para que o sector se pudesse salvar.
Tudo isto se passa sem aparente controlo, sem visão estratégica, com o Estado em intrigante ponto morto, em nome sabe-se lá de que misteriosos desígnios.
Entretanto os preços dos combustíveis em Portugal estão "em linha com o resto da Europa," constata o Secretário de Estado da Energia (*). Claro que se exigiria mais neste domínio de uma economia que se pretende mais competitiva do que a do resto da Europa, mas para quê ser tão picuinhas? Há sempre a componente salarial para equilibrar a competitividade, constatamos nós.
A economia afunda-se, o preço dos combustíveis, um dos factores que mais contribui para a fraca produtividade da economia portuguesa, não pára de aumentar. O negócio dos combustíveis, esse, baixa, os comerciantes do sector fecham as portas e despedem pessoal, os portugueses arrumam os carros, as empresas tentam fazer reflectir nos preços dos produtos o preço irracional dos combustíveis e, com isso, afundam-se e afundam ainda mais uma economia já quase em hipotermia. O Estado deve certamente perder, na diminuição do negócio e nos encargos que terá de suportar com os despedimentos, o que ganha nos impostos (a componente mais pesada da factura da gasolina que pagamos; 60% no caso da gasolina e 50% no do gasóleo.)
É assim a liberalização dos preços, é assim a globalização, é, enfim, assim a volatilidade. São assim os estranhos caminhos da gestão...

(*) Não sei que "linha" é esta, mas, no caso dos combustíveis, deve-se escrever direito por "linha torta". Diz-se que a nossa é a gasolina mais cara dos 27...

2012/03/13

Da Grécia, com cultura

Pesem as notícias devastadoras que, por estes dias, nos chegam sobre a Grécia, o contrário também é verdade. E as boas notícias, ainda que menos espectaculares, surgem através da cultura. Assim e em voo de pássaro, registamos três momentos - dois musicais e um filmico - dignos da melhor tradição popular e clássica deste país-berço da civilização ocidental, a decorrerem entre nós.
Teve início em Guimarães, com a estreia mundial do concerto "Periplus" (deambulações luso-gregas), um projecto de Amélia Muge e Michales Loukovikas, posteriormente apresentado em Lisboa e, recentemente, editado num album que continua a ser divulgado por todo o país. Uma parceria inusitada, onde se revela o melhor de ambas culturas, cantado por dois intérpretes de excepção.
Igualmente a decorrer, está a retrospectiva "Elegia da Viagem" (A Grécia de Theo Angelopoulos), um tributo da Cinemateca Portuguesa a este realizador maior do cinema contemporâneo, recentemente falecido. O ciclo concentra-se nas duas primeiras décadas da obra de Angeloupolos e nele serão apresentados dez filmes, oito dos quais nunca estreados em Portugal. Destaque para "Dias de '36" (ontem estreado com a presença da viúva do realizador e da directora da Cinemateca de Atenas), "Reconstrução", "A Viagem dos Comediantes", "Os Caçadores", "Alexandre O Grande", "Viagem a Cítera", "O Apicultor" e "Paisagem na Neblina". O ciclo prolonga-se pelo mês de Abril.
Finalmente, programado para 24 de Março na Gulbenkian, o concerto "Eros Y Muerte" de Angelique Ionatos, conhecida de anteriores visitas ao nosso país. Uma excelente intérprete, esta grega residente em Paris, na melhor tradição de música "Éntekhno" (música de arte) que vem apresentar o seu último trabalho em disco.
Tudo boas razões para ver e crer que, da Grécia, podem também vir boas notícias.

2012/03/11

Cavaco Silva: publicidade enganosa



Os "analistas" dissecaram o tão badalado prefácio de Cavaco Silva, interpretam os seus sinais, exprimiram opiniões e descobriram, pelo caminho, as mais diversas consequências para aquelas 25 páginas que tresandam a maus fígados. O homem é, segundo estes "analistas", ressabiado, mesquinho, mentiroso, cobarde, não tem dimensão para ocupar o lugar que ocupa, apequenou-se com esta acção numa altura em que seria necessário um PR forte, lançou uma iniciativa extemporânea que pode ter efeitos perversos e prejudicar um País fragilizado, etc, por aí fora. As razões parecem ter todas fundamento. De uma modo geral, da direita à esquerda, a acção de Cavaco Silva é condenada com base num convincente conjunto de argumentos que revelam até uma estranhíssima e inusitada concomitância política.
Faltou, no entanto, tanto quanto posso perceber, procurar uma razão plausível para o surgimento deste escrito neste preciso momento. E ela reside num facto a que os "analistas" não deram, nem dão, importância, porque não deram, nem dão, importância à iniciativa que lhe está na origem: é que o "prefácio" surge na semana em que a Petição a pedir a demissão do PR foi apresentada na AR.
O facto de mais de 40 000 cidadãos, daqueles rigorosamente não colunáveis, terem, de uma forma tão naif e espontânea, mas tão categórica, demonstrado que não aprovam a actuação do actual PR e de pedirem, sem papas na língua, rodriguinhos de linguagem, ou malabarismos legalistas, "a sua imediata demissão do cargo de Presidente da República Portuguesa," deve certamente ter criado alguma ansiedade lá para os lados de Belém.
Acontece que o movimento Iniciativa Democrática (criado no Facebook e constituído pelos signatários da Petição) está em plena ascensão, parece ter conquistado aderentes para além daqueles que assinaram a Petição e ameaça tornar-se imparável. Pode causar estragos sérios e profundos na imagem do presidente. Não se sabe até onde tudo isto pode ir. Cavaco defende-se, atacando.
Não concordo com a teoria segundo a qual Cavaco é um simplório, mas probo e imune a influências, personagem político, que ascendeu, em consequência desses seus predicados, ao cargo de PR. Cavaco é tudo menos um simplório. Esta sua imagem foi construída com enorme cuidado e agressividade.
Surtiu efeito. Até agora.
O que um número crescente de cidadãos começa a perceber é que não bate a bota com a perdigota. Os predicados que enfeitam a sua imagem não batem certo com alguns factos, nunca devida e convincentemente explicados, da vida do Presidente da República. Mas, é sobretudo a sua actuação política que se revela um desastre e as incoerências do seu discurso que começam a tornar-se claras para a generalidade dos cidadãos. Cavaco está a revelar-se um exemplo de publicidade enganosa,  incapaz de assegurar o serviço contratado. A pintura começa a esborratar e o edifício habilmente construído apresenta sinais de desmoronamento iminente.
Esqueceram-se dele os "analistas", mas o Movimento criado em torno da Petição ameaça seriamente criar grossa mossa.

2012/03/08

8 de Março de 2012

(...) "Venho só a defender-me, e mostrar quão fora de razão andam todos os que me culpam do que penam, e da morte de Crisóstomo. Por isso, rogo a quantos aqui sois me atendais, que não será necessário muito tempo, nem muitas palavras, para persuadir de tão clara verdade os assisados. Fez-me o céu formosa, segundo vós outros encareceis; e tanto, que não está em vossa mão o resistirdes-me; e, pelo amor que me mostrais, dizeis (e até supondes) que esteja eu obrigada a corresponder-vos. Com o natural entendimento que Deus me deu, conheço que toda a formosura é amável; mas não entendo que em razão de ser amada seja obrigada a amar, podendo até dar-se que seja feio o namorado da formosura. Ora sendo o feio aborrecível, fica muito impróprio o dizer-se: “quero-te por formosa; e tu, ainda que eu o não seja, deves também amar-me”. Mas, ainda supondo que as formosuras sejam de parte a parte iguais, nem por isso hão-de correr iguais os desejos, porque nem todas as formosuras cativam; algumas alegram a vista, sem renderem as vontades. Se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria um andarem as vontades confusas e desencaminhadas, sem saberem em que haviam de parar; porque, sendo infinitos os objetos formosos, infinitos haviam de ser os desejos; e, segundo eu tenho ouvido dizer, o verdadeiro amor não se divide, e deve ser voluntário, e não forçado. Sendo isto assim, como julgo que é, por que exigis que renda a minha vontade por força, obrigada só por dizerdes que me quereis bem? Dizei-me: se, assim como o céu me fez formosa, me fizera feia, seria justo queixar-me eu de vós por me não amardes? E de mais, deveis considerar que eu não escolhi a formosura que tenho; que, tal qual é, o céu ma deu gratuitamente, sem eu a pedir nem a escolher; assim como a víbora não há-de ser culpada da peçonha que tem, posto matar com ela, em razão de lhe ter sido dada pela natureza, tão pouco mereço eu ser repreendida por ser formosa, que a formosura na mulher honesta é como o fogo apartado, ou como a espada aguda, que nem ele queima, nem ela corta a quem se lhes não aproxima. A honra e as virtudes são adornos da alma, sem os quais o corpo não deve parecer formoso, ainda que o seja. Pois se a honestidade é uma das virtudes que ao corpo e alma mais adornam e aformosentam, por que há-de perdê-la a que é amada por formosa, para corresponder à intenção de quem, só por seu gosto, com todas as suas forças e indústrias, aspira a que a perca? Eu nasci livre; e para poder viver livre escolhi as soledades dos campos; as árvores desta montanha são a minha companhia; as claras águas destes arroios, meus espelhos; com as árvores e as águas comunico meus pensamentos e formosura. Sou fogo, mas apartado; espada, mas posta longe. Aos que tenho namorado com a vista, tenho-os com as palavras desenganado; e se os desejos se mantêm com as esperanças, não tendo eu dado nenhuma a Crisóstomo, bem se pode dizer que o matou a sua teima, e não a minha crueldade; e se se me objeta que eram honestos os seus pensamentos, e que por isso estava obrigada a corresponder-lhes, digo que, quando, neste mesmo lugar, onde agora se cava a sua sepultura, me descobriu a bondade dos seus intentos, eu lhe respondi e declarei que os meus eram viver em perpétua soledade, e que só a terra gozasse o fruto do meu recolhimento, e os despojos da minha formosura; e se ele, com todo este desengano, quis aporfiar contra a esperança, e navegar contra o vento, que muito que se afogasse no meio do golfão do seu desatino!? Se eu o entretivera, seria falsa; se o contentara, desmentiria a melhor intenção e propósito. Desenganado, teimou, desesperou sem ser aborrecido. Vede agora se é razão que da sua culpa se me lance a mim a pena. Queixe-se o enganado, desespere-se aquele a quem faltaram esperanças que tanto lhe prometiam. O que eu chamar, confie-se; o que eu admitir, ufane-se; porém não me chame cruel nem homicida aquele a quem eu não prometo, nem engano, nem chamo, nem admito. O céu por ora não tem querido que eu ame por destino; e o pensar que hei-de amar por eleição é escusado. Este desengano geral sirva a cada um dos que me solicitam para seu particular proveito; e fique-se entendendo daqui avante que, se algum morrer por mim, não morre de zeloso, nem desditado, porque quem a ninguém quer a ninguém deve dar ciúmes; desenganos não se devem tomar por desdéns. O que me chama fera e basilisco, deixe-me como coisa prejudicial e ruim; o que me chama ingrata, não me sirva; quem me julga desconhecida, que me não conheça; quem desumana, que me não siga. Esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta cruel, e esta desconhecida, nem os há-de buscar, nem servir, nem conhecer, nem seguir de modo algum. Se a Crisóstomo o matou a sua impaciência e arrojado desejo, por que se me há-de culpar o meu honesto proceder e recato? Se eu conservo a minha pureza na companhia das árvores, por que hão-de querer que eu a perca na companhia dos homens? Tenho riquezas próprias, como sabeis, e não cobiço as alheias; tenho livre condição, e não gosto de sujeitar-me; não quero nem tenho ódio a pessoa alguma; não engano a este, nem solicito a aquele; não me divirto com um, nem com outro me entretenho. A conversação honesta das zagalas destas aldeias, e o trato das minhas cabras, me entretêm; os meus desejos têm por limites estas montanhas; e, se para fora se estendem, é para contemplarem a formosura do céu. São estes os passos contados, por onde a alma caminha para a sua morada primeira." Defesa de Marcela, D. Quixote (cap XIV), M. de Cervantes

2012/03/03

"Pessoal do Fisco é agredido ou espancado todos os dias"

O Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos afirma-o e diz mais: o pior está ainda para vir! É claro que cada um interpreta isto como quer. Alguns justificam as agressões dizendo que os funcionários abusam da sua posição. Dizem outros que, no actual quadro de crise e sendo a lei cega, se geram situações de injustiça inaceitáveis. Outros ainda criticam essa opção porque, em tese, as soluções violentas não são legítimas.
Há quem pense que os funcionários não têm a capacidade de avaliar cada caso que têm de tratar. Outros há que pensam que eles não sabem ter essa capacidade. Outros ainda pensam que isso lhes está simplesmente vedado pelo seu estatuto.
Todas estas diferenças de opinião servem indiferentemente para aplaudir ou condenar as agressões.
Mas, no final, a verdade é que o Fisco é o "rosto do Estado", o Estado não cumpre, e é justamente quem dá o rosto pelo "rosto do Estado" que paga as favas.
Quer os que criticam estas agressões quer os que as praticam, se esquecem que o cerne da questão não está nem no Estado, nem no seu "rosto". A falta de um debate sério sobre o papel do Estado —que temos de exigir— e a visão neoliberal que hoje prevalece e contribui para confundir ainda mais as pessoas sobre esta matéria —que temos de combater com unhas e dentes— isso sim, é o problema.
Por outro lado, não deixa de ser verdade que, mais cedo ou mais tarde, os agentes do Fisco vão ter de escolher, como os restantes agentes da autoridade do Estado, de que lado da barricada vão querer estar e de quem querem ser agentes...

Aos leitores do Face que, por acaso, sejam professores. E a todos os outros também...

Leia este apelo de Cheryl Angst, professora, escritora canadiana. Foi escrito no Canadá, podia ter sido escrito em Portugal. Na verdade, podia ter sido escrito em qualquer país "ocidental", nestes tempos de políticas neoliberais.

2012/02/29

U aqordu ortugrafiqu i u futuru da lingua purtugesa…

Não resisto a reproduzir aqui este texto, de autor desconhecido, que recebi via email.

"O acordo ortográfico e o futuro da língua portuguesa…
Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros. Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas. É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se ? O que estão lá a fazer ? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade. Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra. Porqe é qe “assunção” se escreve com “ç” e “ascensão” se escreve com “s”? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o “ç”. Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o “ç” e o substitua por um simples “s” o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os “ss” deixariam de ser nesesários já qe um “s” se pasará a ler sempre e apenas “s”. Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, “uzar”, é isso mesmo, se o “s” pasar a ter sempre o som de “s” o som “z” pasará a ser sempre reprezentado por um “z”. Simples não é?, e o som é “s”, escreve-se sempre com s. Se o som é “z” escreve-se sempre com “z”. Quanto ao “c” (que se diz “cê” mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de “q”) pode, com vantagem, ser substituído pelo “q”. Sou patriota e defendo a língua portugueza. Não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de “k”. Ponha um q. Não pensem qe me esqesi do som “ch” . O som “ch” será reprezentado pela letra “x”. Alguém dix “csix” para dezinar o “x”? Ninguém, pois não? O “x” xama-se “xis”. Poix é iso mexmo qe fiqa. Qomo podem ver, já eliminámox o “c”, o “h”, o “p” e o “u” inúteix, a tripla leitura da letra “s” e também a tripla leitura da letra “x”. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam “simpléqs”, leiam simplex. O som “qs” pasa a ser exqrito “qs” u qe é muito maix qonforme à leitura natural. No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som “j”. Umax vezex excrevemox exte som qom “j” outrax vezex qom “g”- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar?!? Se uzarmox sempre o “j” para o som “j” não presizamox do “u” a segir à letra “g” poix exta terá, sempre, o som “g” e nunqa o som “j”. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox. É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade? Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam !

Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra “a”. Umax vezex lê-se “á”, aberto, outrax vezex lê-se “â”, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o “o”: umax vezex lê-se “ó”, outrax lê-se “u” e outrax, lê-se “ô”. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! Porqe é qe temux o “u”? Se u som “u” pasar a ser sempre reprezentado pela letra “u” fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u “o” pasa a suar sempre “ó”, tornandu até dexnesesáriu u asentu. Já nu qazu da letra “e”, também pudemux fazer alguma qoiza :quandu soa “é”, abertu, pudemux usar u “e”. U mexmu para u som “ê”. Max quandu u “e” se lê “i”, deverá ser subxtituídu pelu “i”. I naqelex qazux em qe u “e” se lê “â” deve ser subxtituidu pelu “a”. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex. Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u “til” subxtituindu, nus ditongux, “ão” pur “aum”, “ães” – ou melhor “ãix” - pur “ainx” i “õix” pur “oinx”. Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux. Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu. Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?"